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O QUE CRÊEM E VIVEM OS CATÓLICOS

Pedro e Paulo, carisma e instituição – colunas da Igreja de Cristo em Roma

No diálogo ecumênico é fundamental que cada um conheça e viva a fé de sua Igreja ou comunidade religiosa. O diálogo não visa a supressão de artigos da fé, mas sim, cada um se enriquecer a partir do conhecimento do outro. Nasce uma espiritualidade de comunhão, de respeito pela seriedade do outro. “Nós cremos de um modo diverso, mas o que nos une é muito mais forte do que nossas diferenças”.

O diálogo enriquece quem dialoga; se empobrece é dominação, não diálogo.

Quando me perguntaram “o que é ser católico romano?”, resolvi expressar a resposta nesta síntese, ponto de partida para um aprofundamento do tema.

 1 – Origem e desenvolvimento histórico

A Igreja nasce do lado direito do Cristo, donde escorrem Sangue (Eucaristia) e Água (Batismo) – Centro Aletti.

A Igreja nasce do lado direito de Cristo crucificado, donde correm Sangue e Água, o Batismo e a Eucaristia. Gerada aos pés da cruz, se expande pela missão do Espírito Santo no dia de Pentecostes. É o Povo de Deus e o Corpo Místico de Cristo.

O Catolicismo romano, que identifica a Igreja católica apostólica romana, se entende em continuidade com a primitiva comunidade de Jerusalém, desenvolvida pela missão apostólica e tendo como centro a cidade de Roma, onde os apóstolos Pedro e Paulo receberam a palma do martírio e estão sepultados.

O Espírito Santo desperta a fé no Senhor ressuscitado e anima a missão cristã.

Com a “reviravolta constantiniana” de 313, quando o imperador romano Constantino concedeu liberdade aos cristãos e pouco a pouco fez do Cristianismo a religião oficial do Império, a Igreja adquiriu uma fisionomia própria, de caráter organizacional e visível à imagem do Império. Quando a sede do Império foi transferida de Roma para Bizâncio/Constantinopla, em 322, esta cidade assumiu o título de Nova Roma e a Igreja católica romana passou a acentuar duas fisionomias bem definidas: a ocidental católica romana e a oriental, católica ortodoxa. Os dois Patriarcados (Roma e Constantinopla) desenvolveram eclesiologias diferentes: a católica romana centralizada na pessoa do Bispo de Roma, o Papa, e a católica oriental, sinodal (o que se refere à Igreja diocesana nela se decide; a comunhão entre as Igrejas não permite a autoridade de uma sobre outra).

Com as invasões bárbaras dos séculos IV-V e a queda de Roma, o Bispo de Roma e os bispos espalhados pela antiga estrutura geográfica e política do Império ocidental tiveram de assumir o processo de reorganização civil e de proteção aos mais fracos, o que fez com que, além da missão religiosa, assumissem funções administrativas e retomassem a evangelização, pois os bárbaros eram em sua maioria pagãos, ou cristãos arianos. Neste trabalho missionário manifestou-se o perigo, depois real, do sincretismo: o cristianismo católico recebeu fortes influências das culturas germânicas e anglo-saxônicas.

Abandonada pelo Imperador, Roma ficou sob a responsabilidade de seu Bispo, o Papa, que passou a governar um território, os Estados Pontifícios, que terminaram em 1870.

A Santa Sé – além de Pastor da Igreja universal, o Papa é chefe do Estado do Vaticano, incrustado na cidade de Roma, com o território atual (de 49 hectares) definido em 1929 e reconhecido pela comunidade internacional. A origem dos Estados Pontifícios (anexados à Itália em 1870) está ligada às doações do rei franco Pepino o Breve e seus sucessores a partir do século VIII. O Vaticano é reconhecido e mantém relações diplomáticas com 180 países e é membro-observador da ONU. Mesmo com o título de Chefe de Estado, o Papa não exerce mais funções administrativas.

2 – Ênfases teológicas centrais

O conteúdo da Fé católica

1)  Crê como divinamente revelada e inspirada a Sagrada Escritura composta de 73 Livros do Antigo e Novo Testamentos, neles incluídos os Deuterocanônicos, isto é, os Livros do AT escritos em grego.

2)  Professa um só Deus em três Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

3)  Professa que o Filho, Jesus Cristo, na plenitude dos tempos se encarnou na Virgem Maria e é Deus e Homem verdadeiro.

4)  Professa a Fé definida no Credo apostólico e no Niceno-constantinopolitano (proclamados em cada Liturgia dominical e festiva).

5)  Crê que a Tradição expressa a fidelidade ao conteúdo da Escritura através das decisões dogmáticas dos Concílios Ecumênicos (os sete primeiros, da Igreja Una) e Gerais do Ocidente.

6)  Aceita um Magistério (da Igreja local e da Igreja universal) como garantes da reta compreensão do texto revelado e que, nas decisões dogmáticas, possui a assistência que o Senhor prometeu à Igreja através do Espírito Santo.

7)  A Igreja católica romana crê como divinamente revelados Sete Sacramentos: o Batismo e a Eucaristia/Ceia/Missa criados diretamente pelo Senhor e constitutivos da Igreja e os outros cinco derivados de palavras ou gestos dele: Confirmação/Crisma, Penitência/Confissão, Ordem/Sacerdócio, Unção dos Enfermos e Matrimônio (A não se constatar nulidade, o Matrimônio é indissolúvel). A Celebração eucarística, constituída pela Liturgia da Palavra e Liturgia eucarística, é a Celebração do Mistério Pascal, isto é, da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão gloriosa do Senhor, sob a presidência de um bispo ou presbítero.

 3 – Poder e Serviço na Igreja

Todo cristão participa do sacerdócio universal dado pelo Batismo: sacerdócio real (santificar o mundo), profético (anunciar o Evangelho) e ministerial (assumir serviços e carismas eclesiais).

Dentre os cristãos, alguns exercem o sacerdócio sacramental, hierárquico, recebido no sacramento da Ordem e constituído pelos três graus do diaconato, presbiterato e episcopado. O episcopado inclui a sucessão apostólica, pela qual o bispo é ordenado pela imposição das mãos de três outros bispos, como garantia da unidade na Igreja. A Igreja católica reconhece como bispos aqueles que foram ordenados por outro bispo com a imposição das mãos significando a comunicação da graça do Episcopado. Os presbíteros são diocesanos ou religiosos (de uma Ordem ou Congregação).

A Igreja particular (dioceses e arquidioceses) tem como pastor um bispo validamente ordenado e com mandato apostólico (jurisdição conferida pelo Papa). Para o atendimento pastoral, as dioceses se dividem em paróquias e comunidades, confiadas a um padre. Nelas se dá a vivência quotidiana da fé.

A Igreja universal se constitui pela unidade em torno do Papa, Bispo de Roma e sucessor do apóstolo Pedro (assim o Catolicismo entende o mandado do Senhor em Mateus (16, 15-19: Tu és Pedro) em união com todos os bispos, o colégio episcopal. O Papa tem jurisdição direta e imediata sobre todas as Igrejas particulares e sobre todos e cada um dos fiéis e, no exercício de seu ministério, goza pessoalmente de infalibilidade (isto é, inerrância) quando define matéria de fé e de moral e declara explicitamente que pronuncia uma sentença infalível.

Quando ocorre o falecimento de um papa, reúne-se o Conclave – assembléia na qual o novo Papa é eleito por um Colégio atualmente fixado em 120 eleitores, constituído por Cardeais com idade abaixo de 80 anos. Na verdade, o Conclave elege um novo bispo de Roma que, como tal, é o Papa, sucessor de Pedro e Paulo.

Acontecimento decisivo na vida católica do século XX foi o Concílio do Vaticano II (1962-1965), que significou um novo Pentecostes para a Igreja. Convocado e inaugurado por João XXIII (1958-1963), o “Papa Bom”, continuado por Paulo VI (1963-1978), animou a vida eclesial impulsionando a renovação litúrgica, os estudos bíblico-teológicos e o uso da Escritura. O acento colocado na Eclesiologia do Povo de Deus foi ocasião para o rejuvenescimento da participação dos cristãos-leigos na Igreja, desclericalização da pastoral e da evangelização, novo lance missionário. Igreja como comunhão a participação. Outro fruto, de alcance ainda não mensurável, foi a abertura ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso.

 4 – Meios de santificação

Os sete Sacramentos

Os Sacramentais: incluem as bênçãos especiais e outras celebrações.

Culto: a Deus uno e trino unicamente se presta o culto de adoração.

Culto ao Santíssimo Sacramento: a Igreja católica afirma que o Pão consagrado, Corpo do Senhor, assim permanece mesmo após a Celebração da Eucaristia, tanto para ser levado aos doentes e idosos como para ser adorado. A adoração ao Santíssimo está intimamente ligada ao Mistério do Altar, a Eucaristia.

Culto aos Santos: chamado de “veneração”, diferente da adoração: é um respeito oferecido aos homens e mulheres que de modo mais pleno se transfiguraram em Cristo. Os santos são apresentados ao povo cristão como modelos de vida cristã e como intercessores. Entre todos os Santos sobressai a figura da Virgem Maria, de quem a Igreja católica afirma a imaculada conceição (concepção sem pecado), a maternidade divina, a virgindade perpétua e a assunção ao céus em corpo e alma.

Como não mais se vive numa cultura onde a imagem se identifica com ídolo (como acontecia nos tempos bíblicos), a Igreja católica aceita que os fiéis contemplem os fatos e pessoas da história da salvação, os Santos e suas vidas, através de imagens, vitrais e ícones. Também são veneradas as relíquias dos Santos.

É característica forte do catolicismo romano a oração dos vivos pelos falecidos, fruto da fé na comunhão dos Santos: há uma união misteriosa entre os vivos e os mortos, entre os que já estão na glória, os que militam na terra e os que são purificados para a posse da vida eterna (aqui se inclui a doutrina do Purgatório, fundamentada em 2Macabeus 12, 43-46). No mesmo contexto entra a doutrina das Indulgências – aplicação aos mortos das boas obras dos vivos e que deram ocasião a abusos, superstições e corrupção religiosa, contribuindo como causa imediata da Reforma protestante do século XVI.

4 – Práticas sócio-eclesiais características.

Para a santificação de seus membros, além da Palavra e dos Sacramentos, que são essenciais e levam à vida transformada pelo Amor e pela oração, a Igreja católica faculta:

Vida religiosa consagrada contemplativa e ativa: a partir do século III surgiu a vida monacal (eremitas e cenobitas) e, mais tarde, as Ordens e Congregações religiosas. Os contemplativos (como monges e monjas beneditinos, cistercienses, trapistas, carmelitas, eremitas camaldulenses, servitas, clarissas) que se retiram para a experiência da vida cenobítica (vida em comum) onde fazem a experiência da oração e do trabalho comunitário. Seu ministério é o da intercessão pela Igreja e pelo mundo. As Ordens e Congregações de vida ativa, masculinas e femininas (jesuítas, salesianos, franciscanos, capuchinhos, …), destinam-se à vida comunitária e ao trabalho evangélico junto às paróquias, aos pobres, órfãos, idosos, doentes, presidiários, missões e escolas.

Movimentos de espiritualidade leiga – Apostolado da Oração, Legião de Maria, Opus Dei, Focolarinos, Movimento Familiar Cristão, Ordem Franciscana Secular, Equipes de Nossa Senhora, Neocatecumenato, Schönstadt…, são característicos do Catolicismo romano e se orientam para a santificação conjugal, familiar, comunitária, pessoal. No século XX surgiu a Renovação Carismática católica, ou Renovação no Espírito, que tem atraído verdadeiras multidões: caracteriza-se pelo cultivo dos dons e frutos do Espírito Santo, assumindo uma veste forte de alegria, espontaneidade, celebrações vibrantes, impulso evangelizador.

Peregrinações – constitutivas de todas as religiões, as peregrinações significam o deslocamento penitencial e devocional a locais marcados pela história bíblica (a Terra Santa) ou pela presença de santos ou manifestações extraordinárias da graça divina (Roma, Cantuária, Compostela, Guadalupe, Lourdes, Fátima, Aparecida, estes últimos locais de devoção mariana). Não são isentas do aspecto lúdico, turístico e até comercial.

Devoções – fazem parte da vida religiosa pessoal. Podem ser a consagração dos meses de maio e outubro à Virgem Maria, a visita a igrejas significativas para sua vida, o culto a determinado santo ou a suas relíquias, a recitação do Rosário (durante o qual se meditam os mistérios da encarnação, paixão e glória do Senhor) e muitos outros modos. Podem ser ambíguas: levar a uma vida iluminada pela Palavra ou se deter em aspectos visíveis, emotivos e até supersticiosos.

 5 – Cisões e correntes

Já nos tempos do Novo Testamento surgiram divisões na comunidade cristã. Isso é compreensível, pois ainda não estava definida a doutrina e o mundo greco-romano era rico em correntes de pensamento. Grande ameaça à unidade foi o Gnosticismo, que identificava a fé com o conhecimento. No século V, surgiu a Igreja nestoriana (que nega a Maria o título de Mãe de Deus) e a monofisita, que não aceitou a definição do Concílio de Calcedônia (451) que definiu em Cristo uma pessoa divina e duas naturezas, divina e humana. Hoje se tem claro que essas divisões foram fruto mais da dificuldade lingüística de distinguir entre pessoa e natureza, do que problemas dogmáticos.

Duas grandes rupturas, porém, marcaram a história do cristianismo e da Igreja católica romana em particular: o Cisma grego de 1054 (entre a Igreja católica romana e a católica ortodoxa oriental) e as Reformas a partir de 1517, a que seguiu-se a organização das Igrejas evangélica, anglicana e reformada (calvinista). A Igreja católica romana inclui as Igrejas do ocidente romano, latino e as Igrejas católicas orientais que permaneceram unidas ou retornaram à comunhão com Roma, as “uniatas”.

Pelo Censo da Igreja católica romana de 2011, há um bilhão e 200 milhões de fiéis católicos.

 6 – Convicção e respeito

Às vezes se faz a pergunta: quem é católico se salva? Quem é protestante se salva? Essa pergunta nós não podemos responder, pois a salvação é dom, graça de Deus. Nós, católicos, podemos dizer: “Eu posso responder apenas isso: se vivo a minha fé na comunidade, com a consciência iluminada pelo Espírito, se vivo o Mandamento do Amor, se creio que Jesus é meu Senhor e Salvador, Deus Pai me dará a salvação”.

Pe. José Artulino Besen

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O BATISMO CRISTÃO

 O que dizem e fazem as igrejas?

Pia Batismal na Sé Catedral de Salvador - Bahia

Pia Batismal na Sé Catedral de Salvador – Bahia

O batismo cristão (do grego baptízein – submergir, mergulhar, lavar) é o primeiro dos sacramentos, que são sinais da ação divina, de salvação. Através dele se recebe a regeneração, recriação: o que o pecado corrompeu, o batismo renova.

O batismo de João Batista era um batismo que expressava o arrependimento pelos pecados, a decisão por uma vida nova (Marcos 1,4). Primeiramente João denunciava os pecados dos que dele se aproximavam e depois os batizava no rio Jordão. Quando Jesus se aproxima para ser batizado, não o faz por necessidade, mas por solidariedade: naquele instante ele assumia sobre si todos os pecados da humanidade. E naquela hora, com a revelação da Santíssima Trindade (o Pai que fala, o Espírito que surge em forma de pomba e o Filho que recebe o batismo) revela-se igualmente o batismo cristão: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Marcos 1, 9-11).

O batismo de João era na água: o batismo cristão é na água e no Espírito Santo, realiza transformação interior (Atos 19,1). O evangelho de Mateus traz as palavras desse sacramento ordenado por Cristo: “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28,19). Algumas Igrejas batizam “em nome do Senhor Jesus”, mas com o sentido de realizarem um ato sacramental segundo as palavras de Jesus. Em muitos casos, as Igrejas históricas aceitam essa forma batismal como válida.

O batismo cristão está indissoluvelmente ligado à Morte e Ressurreição do Senhor: através de seu sacrifício por nós, Cristo nos deu a salvação como dom, graça.

Ligado a esse tema, o Apóstolo Paulo compara o batismo com a sepultura: somos sepultados com Cristo e com ele ressuscitamos. Simbolicamente a pessoa entra pecadora na pia batismal e dela sai santa, renovada, pelo poder do Espírito (cf. Romanos 6, 4-7).

Quando e como batizar

No início do Cristianismo o batismo era ministrado aos adultos após um tempo de preparação, de mudança de vida denominado catecumenato. Isso se entende, pois não havia famílias cristãs. Mas, já no século II há o batismo de crianças: como a família era cristã e garantia a educação cristã da criança, via-se o batismo como uma graça especial no início da existência. Até hoje há essa distinção: nos países de missão, o batismo só é ministrado após o anúncio do Evangelho e da conversão. Nas famílias cristãs, se batizam as crianças, pois supõe-se que os pais e padrinhos lhes darão educação cristã.

No final da Idade Média e com a Reforma de João Calvino em Genebra no século XVI, não se aceita o batismo de crianças na Igreja reformada/calvinista: seguindo Mateus 28, 18-20, o batismo é ministrado após intensa evangelização, mudança de vida, aceitação consciente da fé cristã. Normalmente acontece após os 15 anos. É a prática das Igrejas reformadas, presbiterianas, batistas, adventistas e pentecostais.

As Igrejas católicas, ortodoxas, anglicanas e protestantes adotam os dois modos: para as famílias cristãs se admite o batismo da criança.

Na mesma época das Reformas protestante e calvinista surgiu outra prática: o re-batismo. Contrariando toda a tradição cristã que afirma um único batismo, se batizava novamente quem tinha sido batizado na infância. São os anabatistas: batistas e pentecostais. Se um católico ingressar na Igreja batista será novamente batizado. Mas se um batista ingressar na Igreja católica, seu batismo é considerado válido.

O diálogo ecumênico já estabeleceu acordos de reconhecimento mútuo do batismo entre os católicos, protestantes, anglicanos, ortodoxos.

Nas Igrejas pentecostais (como a Assembléia de Deus) e neo-pentecostais (Renascer em Cristo, Universal do Reino de Deus), o batismo perde o caráter de ser único e é repetido cada vez que a pessoa adere a outra Igreja, ou mesmo quando retorna à Igreja após um tempo de abandono. Ali o batismo significa mais uma cerimônia de aceitação, ingresso  e menos o sacramento da regeneração interior. A prática cristã tradicional explica que o batismo traz a regeneração interior definitiva da pessoa e que, por ocasião do pecado, a graça é renovada pelo arrependimento e pedido de perdão (confissão, penitência, reconciliação).

O modo do batismo supõe a água e as palavras “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Isso quer dizer que as Igrejas históricas consideram batismo verdadeiro aquele em nome do Deus Uno e Trino. Como as Igrejas das Testemunhas de Jeová e dos Mórmons não aceitam a Santíssima Trindade, seu batismo não é considerado válido pelas outras Igrejas cristãs.

O batismo pode ser por imersão (mergulho do batizando na água de uma fonte, rio, piscina) ou por aspersão (derramando água na fronte). As duas formas são consideradas válidas porque se servem do elemento água.

E os que morrem sem o batismo?

Jesus afirma que “quem crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado” (Marcos 16,16) . E como ficam as crianças que morrem antes do batismo? E os adultos que se preparavam para o batismo, mas foram vítimas de perseguição ou morte repentina? Na Idade Média surgiu a explicação do Limbo, um lugar feliz e sereno para onde iriam essas pessoas que não podiam contemplar a glória de Deus por não serem batizadas. O Limbo nunca foi doutrina oficial da Igreja: foi uma explicação piedosa e confortadora.

As Igrejas apresentam três formas de batismo: a ordinária (na água e no Espírito Santo), o batismo de desejo e o batismo de sangue. O batismo de desejo se aplica à família que iria batizar o filho, mas não pôde fazê-lo por morte repentina ou aborto espontâneo. O desejo do batismo equivale ao batismo. Também se aplica ao adulto vítima de morte repentina O batismo de sangue: quando um adulto ou criança se prepara para o batismo mas é morto por causa de sua fé, sofre o martírio antes do batismo, é lavado pelo próprio sangue derramado em nome do Senhor Jesus.

O batismo no Espírito Santo (Atos 1,5; 11,16), atualmente muito fomentado nos movimentos pentecostais e carismáticos, não tem o sentido do batismo propriamente dito, mas simboliza uma renovação na graça da fé e do amor por obra do Espírito.

Houve na história um costume não reconhecido: o batismo pelos mortos. Batizar um vivo em lugar de alguém que morreu sem ser batizado. A Igreja dos Mórmons aceita e pratica essa doutrina, estendida inclusive a todos os mortos, mesmo aos que não queriam ser cristãos. Parece indicar um costume na Igreja de Corinto e tem uma única citação: 1Coríntios 15,29. Mas, as três formas de batismo acima citadas são consideradas suficientes para esses casos.

Igreja de tradição ou Igreja de convicção

Hoje se fala muito em qualidade versus quantidade, tradição versus convicção. São desafios lançados às Igrejas: como alimentar a vida de fé dos que foram incorporados a Cristo pelo batismo e fazem parte do Povo de Deus? A resposta não pode negar a grande graça representada pelo batismo: a semente da graça num dia germina e a comunidade tem um papel muito sério nesse crescimento.

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SANTIDADE E INTIMIDADE

Comunhão de Vida (pintura a óleo de Margherita Pavesi-Bose)

Comunhão de Vida (pintura a óleo de Margherita Pavesi-Bose)

A vida cristã é caminho de santidade, pedagogia de santidade, é busca feliz de Deus  (Lev 11, 44). Santo é quem está consagrado a Deus.  Santificar é tornar íntegro, inviolável, o contrário de mundanizar, isto é, ser possuído pelo espírito do mundo, do espetáculo, perder a intimidade.

O santificado revela somente a Deus sua intimidade pessoal; o mundanizado, por sua vez, tudo revela em busca de apoio, complacência, dinheiro, sucesso.

A Igreja antiga tinha muito pudor com as coisas santas. São nossos conhecidos os Sermões mistagógicos (Sermões sobre os Mistérios), pronunciados após a administração de um Sacramento. Quem não era batizado permanecia na igreja até o final da Liturgia da Palavra, pois a Liturgia eucarística estava reservada aos batizados, aos que tinham sido iniciados nos Mistérios. Ao catecúmeno (o que se preparava para o Batismo) quase tudo era ensinado, menos a revelação final do mistério batismal: essa era feita na catequese mistagógica pós-batismal.

A publicidade faz perder a santidade do sagrado, expondo tudo ao público. Madre Teresa não conseguia explicar a Inspiração que a fizera consagrar-se aos pobres mais pobres. Respondia: “Eu disse a Jesus que levasse tudo, para que eu não tivesse que explicar. Quando tornamos algo público, ele perde a santidade”.

Alguns não conseguem adorar o Santíssimo sem ter aberta a porta do sacrário. Mas, é exatamente a porta fechada que leva à adoração daquele que ama escondido, que aceita ser adorado em sua intimidade. Quanta Beleza num sacrário fechado, mas totalmente aberto aos amantes que o contemplam.

A cultura da publicidade a qualquer preço destrói a intimidade e com isso torna as pessoas manipuláveis. Há algo mais constrangedor que afixar cartazes e faixas com a face do Senhor sofredor convidando para a Procissão dos Passos? A Paixão de Cristo deixa de ser ato redentor para ser fato cultural. Os que o amam no Caminho da dor querem contemplá-lo em silêncio, quase em segredo. Com recato, um dá a notícia ao outro e se reúnem na Procissão dos que sofrem vendo o Amor que não é amado.

E a blasfêmia de anunciar a Procissão de Corpus Christi como “espetáculo” da tradição religiosa? O Senhor da Humildade, reduzido a um pedaço de Pão, quer ser contemplado por amigos que o adoram em sua pobreza e não olhado por curiosos.

Vivemos um período de teologia fraca, a la carte, o que representa um enorme perigo para a integridade da mensagem cristã. Em busca de fiéis fala-se muito em Santo poderoso, cada um com sua especialidade, vendem-se Medalhas milagrosas de São Bento, Novenas fortes e poderosas, traficante não se expõe sem um forte escapulário. Onde fica o Senhor?

A superficialidade teológica se traduz em superficialidade mistagógica: ministro acha que seus paramentos dourados são evangelizadores, as equipes enfeitam a Missa. Mas, o Senhor crucificado não está nu? Quer-se tudo exposto em veste popular e assim perde a santidade.

Num dia, a anestesia da publicidade religiosa a qualquer preço e a instrumentalização do sagrado despertará. O que teremos? Multidões aflitas em busca de milagres, multidões que não conhecem a Palavra de Deus, mas acreditam em poderes mágicos, multidões que confundem fé com prazer, com o “agradável”, multidões que fogem do Cristo crucificado trocando-o por produtos religiosos que geram prosperidade. Uma pena, depois de todo o esforço do Vaticano II colocando como fonte da santidade a Palavra e o Sacramento. E corremos o perigo de retornar a buscá-la no devocional.

Profunda a palavra de um teólogo que anunciava uma Igreja confessante, corajosa, mártir: “Que outro é o preço que hoje pagamos… se não uma necessária conseqüência da graça alcançada a baixo preço? Por baixo preço se proclamava o anúncio, se administravam os sacramentos, se batizava, se dava a crisma, se absolvia o povo inteiro, sem que fossem postas perguntas ou condições” (D. Bonhoeffer: Discipulado). Para ele, o preço foi o martírio no campo de concentração. A santidade tem alto preço: a própria vida.

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Reflexões para uma Espiritualidade Eucarística

“Séculos passarão e a humanidade proclamará pela boca de seus sábios e de seus intelectuais que não há crimes e, por conseguinte, não há pecado, só há famintos.
Nutre-os e então exige deles que sejam virtuosos!”

São palavras proferidas pelo Grande Inquisidor de Dostoievski, no Os Irmãos Karamazov, referindo-se à primeira tentação de Cristo: “Transforma essas pedras em pães”. Mas, podemos dar pão a todos e, no final, estaremos diante da mesma multidão saciada gritando: “Temos fome!”. Há um Pão que sacia essa fome.

Um pouco de história

Ao analisarmos a vida interna da Igreja devemos ter presente um fato que revolveu profundamente sua estrutura organizacional e espiritual: a invasão dos povos “bárbaros”, especialmente os germânicos/francos e a queda do Império romano do Ocidente em 446. No momento em que os quatro Concílios ecumênicos (Nicéia, Constantinopla, Éfeso, Calcedônia) e os Pais da Igreja tinham desenvolvido uma extraordinária obra teológica de explicitação do mistério cristão, o Ocidente viu-se “invadido” por povos na maior parte pagãos ou arianistas (caso de alguns grupos germânicos).

O primeiro momento foi de espanto: como tinha sido possível que Paulo e Paulo não defendessem a sagrada Roma contra os invasores? O que fazer com esses novos povos, ainda organizados em tribos?

Logo se viu que o caminho era um novo lance missionário, no qual a Igreja pôde colher os melhores frutos.

Mas, surgiram problemas que afetariam a vivência cristã pelos séculos seguintes, alguns até nossos dias: os bárbaros eram extremamente sensíveis e supersticiosos. Sua visão de Deus era a de um General poderoso (Drochtin), Cristo seria um Chefe exigente, um Duque militar. Para a fé singela dos bárbaros, as relações do crente com Deus equivaliam às do súdito com o rei: deveu, pagou, pagou, não deve mais. Deste modo, o sistema penitencial passou a ser visto como tarifa: um pecado tem um preço (jejum, oração, açoite, dinheiro): Deus exige o pagamento e, com ele, o homem torna-se credor. O perigo era imenso: esquecer que tudo o que vem de Deus é graça, pura graça e não pagamento. Certa visão de promessas e indulgências tinham esse fundamento: a salvação de uma alma tem preço: pagou, está salva. Sabemos em que deu isso no século XVI: na Reforma protestante. Leia o resto deste post »

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VINDE E VEDE – ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS

Ele está no meio de nós!

Ele está no meio de nós!

“Ele mostrou-me depois um rio de água da vida, brilhante como cristal, que jorrava do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da praça da cidade e dos dois braços do rio, há uma árvore de vida que frutifica doze vezes. Cada mês ela dá seu fruto, e sua folhagem serve para a cura das nações. Não haverá mais maldição. O trono de Deus e do Cordeiro estará na cidade e seus servos lhe prestarão culto: verão sua face, e seu nome estará sobre suas frontes. Não haverá mais noite, ninguém mais precisará de luz da lâmpada nem da luz do sol, porque o Senhor Deus difundirá sobre eles a sua luz, e reinarão pelos séculos dos séculos”

(Apc 22,1-5).

Visão grandiosa da liturgia cristã, realização da profecia de Ezequiel, da “água que corria do lado direito do Templo, ao sul do altar… […] águas que banham as árvores saem do santuário. Seus frutos servirão de alimento e suas folhas serão remédio” (cf. Ez 47,1-12). O rio de água da vida jorra do próprio Senhor Deus e do Cordeiro: ele é o Templo e nele acontece o mistério. A nova liturgia, cristã, jorra de Deus e não de rituais bem feitos, nela não há magia: “quem beber desta água que eu lhe der, de seu seio brotarão rios de água viva, que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14). O rio de água viva cura povos e nações de seus males, operando a reconciliação total com Deus, com o homem e com a criação. O Espírito de Cristo constrói a nova Jerusalém: “Esta terra devastada tornou-se como um jardim de Éden” (Ez 36,35). Termina a maldição original da proibição de se entrar no Paraíso (cf. Gn 3,22-24). Cada liturgia é já o ingresso na vida divina, mas não ainda o ingresso total.

Os sacramentos, manifestação de Deus pela Igreja

Através da liturgia, a Igreja manifesta ao mundo o conhecimento das infinitas riquezas de Deus (cf. Ef 3,10). A comunhão trinitária nos torna a todos “eucarísticos”, numa universal ação de graças. Em cada sacramento, a epíclese do Espírito Santo produz um fruto próprio para a edificação do Corpo de Cristo.

No Batismo, somos sepultados com Cristo e ressuscitamos com ele para a vida. O Espírito Santo é invocado sobre a água com a qual se realiza o batismo: no momento em que o batizando é mergulhado na água, através dela recebe o Espírito Santo e ouve a vós do Pai: “Tu és meu filho amado” (cf. Mt 3,17).

Na Confirmação, pela imposição das mãos se recebem os sete dons da sabedoria e inteligência, conselho e fortaleza, ciência e piedade e temor de Deus. O Batismo realizou a filiação divina e, pela unção do crisma, o batizado é inserido num só corpo, porque o Espírito que ungiu Cristo penetra integralmente – corpo, alma e espírito – o seguidor de Cristo, que se torna cristão. E o Espírito dado por Cristo passa a ser o artista que modelará no homem o santo.

Na Eucaristia, o Espírito Santo é invocado para que as oferendas sejam Corpo e Sangue do Senhor. Nela se realiza a comunhão com a Trindade, com a comunidade, o perdão dos pecados, pois é sustento e remédio para a vida cristã. Realiza o mistério da divinização do homem: Cristo-homem-pão no Espírito transforma o homem em Cristo e em pão para os irmãos. O sacramento do altar é o sacramento do irmão (S. João Crisóstomo).

Na Penitência: o rio da misericórdia se encontra com o abismo da miséria humana e gera uma força nova: o perdão que, pelo Espírito Santo, traz a conversão e a reconciliação. O Espírito penetra no coração do pecador, fá-lo abrir-se à compaixão do Pai e tudo é absolvido (cf. Mt 16,19).

Na Unção dos enfermos, o óleo do Espírito que penetra no corpo transforma a enfermidade em amor vivificante e é garantia de ressurreição (cf. visão dos ossos em Ez 37,1-14). Traz a libertação dos pecados, salvação e alívio nos sofrimentos.

Os sacramentos do serviço eclesial

No Matrimônio, acontece não só a bênção do casal – porque todo matrimônio é santo – mas se recebe a graça de o homem e a mulher serem envolvidos no amor entre Cristo e sua Igreja. O Espírito torna a família igreja “doméstica” e dá ao casal a graça de viver um amor sem divisões. O homem e a mulher são mergulhados nas profundezas do amor trinitário e estabelecem com ele uma aliança permanente, cujo sinal são as alianças.

Na Ordenação, invoca-se o Espírito Santo para o serviço diaconal, presbiteral e episcopal. O Espírito concede a alguns membros da Igreja a energia eclesial mais escondida e pobre, que é colocá-los a serviço das outras epícleses sacramentais (Jean Corbon). É uma das provas mais desconcertantes da fidelidade do Senhor que, apesar da fraqueza humana, jamais priva a Igreja de seu Espírito: “Seja Pedro que batiza, ou seja, Judas, é Cristo aquele que batiza” (S. Agostinho). Nestes pobres homens ordenados bispos, presbíteros e diáconos é Cristo que é servo de sua Igreja, pastor que dá a vida pelos seus. A ordenação não é glória, mas humilde serviço para que o Espírito continue na Igreja do Senhor.

Vinde e vede: ele está no meio de nós

Nada acontece sem o mistério da Palavra (comunicação de Deus com seus filhos) que leva ao ato de fé na Cruz do Senhor (de cujo lado aberto corre a água e o sangue) e que realiza o mistério da Liturgia: o céu desce à terra e a terra sobe ao céu. A ascensão de Cristo (Homem-Deus) é a ponte pela qual o Espírito Santo é enviado ao mundo pelo Pai, realizando o misterioso desígnio de divinizar o homem e a mulher.

Diante de tão grande mistério, só nos resta pedir a graça de obedecer às palavras do Apóstolo: “Não contristeis o Espírito Santo com o qual o Senhor vos marcou como com um sinete para o dia da libertação” (Ef 4,30).

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VINDE, PAI DOS POBRES!

Congresso Eucarístico em Florianópolis - SC

Congresso Eucarístico em Florianópolis – SC

O ícone (cartaz) do 15o Congresso Eucarístico Nacional leva-nos ao centro do mistério da vida cristã: o batismo e a eucaristia. A água e a hóstia são geradas na cruz onde está o Senhor e Salvador, de cujo lado aberto correm sangue e água, os dois sacramentos que geram o cristão e a Igreja. O ícone sempre abre uma janela para a eternidade, permitindo-nos contemplar o que acontece além das condições do espaço e do tempo. Nesta página queremos abrir essa janela e contemplar o Espírito Santo que no ícone se encontra quase invisível, em forma estilizada de pomba, acima da hóstia. Tudo é obra do Espírito: o Pai é o ventre fecundo, o Filho a obra prima e o Espírito Santo é o artista. Ele é verdadeiramente o artista da criação e da transformação de cada criatura em filho de Deus.

O Espírito Santo está em tudo e em todos

Por isso ele é quase invisível: a obra leva a assinatura do artista, mas não lhe mostra a face. O Espírito está em todo o universo e em todos os corações, pois é o artista com o qual o Pai esculpe sua obra. É representado mais por símbolos de sua ação: o fogo que abrasa, que purifica o ouro, o vento impetuoso que tudo transforma por onde passa, a brisa suave indicando a presença do amante. E a pomba. Segundo o biblista Pe. Ney Brasil, assim como o Filho é simbolizado pelo manso cordeiro, de modo análogo o Espírito o é pela silenciosa, graciosa e pacífica pomba. Tudo na Trindade é amor, suavidade, paz.

Ele gera a unidade criando a diversidade: no Pentecostes o fogo era um só, mas se repartiu em doze línguas: cada Apóstolo recebeu a sua e todos se entendiam, pois uma era a fonte da comunicação, o Espírito. De uma Igreja o Espírito gerou doze igrejas: o artista ama a variedade harmoniosa. No mundo cada igreja expressa uma cultura, um povo, unindo-as na harmonia do amor. Uma Igreja ou comunidade que não aceita a variedade não é espiritual: é obra material de algum artista humano.

O Espírito é a fonte da liturgia

A vida cristã é uma grande liturgia, a criação expressa a liturgia trinitária, o Congresso Eucarístico expressa a liturgia pascal da Ceia. Através do Espírito, o amor divino se estende a toda a vida humana, tudo penetrando: o coração, o ser pessoal, a cultura, as relações pessoais, a sociedade.

Sem o Espírito Santo não existe liturgia: existem cerimônias vazias, padres bem enfeitados em seus paramentos e concelebrantes sentindo-se cada vez mais esterilizados na vida de fé, porque privados do gerador da vida, o Espírito do Senhor.

A Trindade despe-se de sua glória e reúne a comunidade em seu seio pecadores e santos, porque o Espírito gera misericórdia. Quando contemplamos o imenso afresco de Miguel Ângelo na Capela Sixtina, representando o Juízo final, estamos diante de uma obra humana: quem pode garantir que em algum dia acontecerá aquela cena dolorosa de pecadores atirados no inferno? Será que o Espírito Santo não tocará todos os corações? A Trindade de André Rublev é mais espiritual: em seu inspirado ícone, coloca as Três Pessoas divinas hospedando toda a humanidade no tesouro eucarístico.

VINDE, PAI DOS POBRES!

Esta antiqüíssima prece cristã (estrofe do A nós descei, divina luz) manifesta a pobreza divina: Deus é pobre (Ele nada tem, Ele “é”: Eu sou aquele que é); o Filho é pobre, tudo recebe do Pai (Jo 1,1), recebe e nos dá o Espírito, o Pai dos pobres. É pobre porque é amor puro que se doa, com isso tornando possível a liturgia.

E isso é fundamental: na liturgia o Espírito faz do Filho pão para os pobres em todos os sentidos: espiritual, material, moral. Ele vai além: torna Deus pobre e o pobre Deus: “Tudo o que fizestes a um desses pequeninos é a mim que o fizestes…” (Mt 25,40).

No Espírito, Jesus assume todo o sofrimento humano como seu, assume nossa morte e nos dá a ressurreição.

É conhecida a palavra de São João Crisóstomo, querendo unir a liturgia eucarística à liturgia da vida: o sacramento do altar é o sacramento do irmão; deixamos o altar da eucaristia para ir ao altar do pobre. Os dois altares são inseparáveis, porque a finalidade da liturgia é gerar uma Igreja da compaixão, à imagem de Deus. A Igreja se transforma na sarsa ardente, da qual ninguém pode se aproximar sem “ver a miséria do povo e ouvir seus gritos” (cf. Ex 3,7). Deus é inacessível a quem não se deixa trabalhar pelo Espírito Pai dos pobres.

O liturgista Jean Corbon (1924-2001) nos lembra que os pobres caminham para debaixo do altar na grande liturgia eterna, conforme lemos no Apocalipse (6,9ss): o altar do holocausto se transforma no altar dos pobres, da compaixão, onde gritarão: “Até quando, Senhor, tardarás a fazer justiça, vingando nosso sangue contra os habitantes da terra?”

Ele, o Espírito Santo, no mesmo hino é chamado de grande Consolador: recria o coração dos pobres na coragem de viver, recria no coração dos ricos a compaixão que leva a se esvaziar, ser eucaristia, pão repartido.

Na liturgia, indicando cada pessoa ao nosso lado, o Espírito Santo falará em seu silêncio: “Ele está no meio de nós”.

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A LITURGIA, MISTÉRIO DA IGREJA

Palavra e Eucaristia

Palavra e Eucaristia

I – INTRODUÇÃO

Concílio Vaticano II (1962-1965), após 40 anos de seu encerramento, continuará pelas próximas décadas a destilar lenta e fecundamente sua riqueza na vida da Igreja. Certas leituras apressadas da vida da Igreja podem chegar à conclusão de que o Concílio foi traído e, de modo todo particular, teve o impacto diluído no longo pontificado de João Paulo II. A esses seria recomendável lembrar que 40 anos após o encerramento do Concílio de Trento (1542-1563) – a menina dos olhos da veneração dos conservadores e a gata borralheira dos progressistas – São Roberto Belarmino escrevia ao Papa pedindo-lhe que aplicasse as decisões conciliares! Fizeram-no até bispo de Cápua para tê-lo longe de Roma. Isso para dizer que os grandes lances renovadores de uma instituição multissecular e multifacetada como a Igreja Católica demandam anos – e muitas décadas – para serem absorvidos em seu corpo espiritual e organizacional.

Nem sempre é oportuno buscar coincidências em datas, mas, olhando-se o progresso na aprovação e promulgação dos documentos conciliares, um fato me chamou a atenção: o desenvolvimento cronológico da promulgação das quatro Constituições (SC, LG, DV, GS). A primeira – a Sacrosanctum Concilium-SC, sobre a Sagrada Liturgia (4/12/1963) – pareceu a mais atraente e a mais fácil. A grande palavra pós-conciliar foi a da renovação litúrgica e foi também a que mais problemas causou. Depois ofereço uma interpretação para o fato. Seguiu-se a Constituição dogmática Lumen Gentium-LG sobre a Igreja (21/11/1964), com a feliz insistência na Igreja Povo de Deus, superando uma eclesiologia tripartite, nem bíblica nem patrística, de Igreja hierarquia -religiosos – leigos. O tema que parecia ser o mais fácil antes do Concílio, tornou-se o mais difícil e renovador e deu-nos a Constituição Dogmática Dei Verbum-DV sobre a Revelação Divina (18/11/1965), superando a dicotomia Escritura e Tradição.

E, na véspera do encerramento da assembléia conciliar, parecendo um presente de boa vontade oferecido ao mundo, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes-GS sobre a Igreja no mundo de hoje (7/12/1965). Favoreceu até uma leitura simples e triunfante: a Igreja se reconciliava com o mundo moderno, do qual assumia as alegrias e as esperanças. Leia o resto deste post »

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