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TEMPO DE RECUPERAR AS LÁGRIMAS

Durante 40 anos o povo judeu se preparou, no deserto, para entrar na Terra prometida, numa história de fidelidade e infidelidade, de obediência e desobediência, mas sempre contando com a fidelidade divina. Simbolicamente, nosso caminho para a Páscoa da Ressurreição percorre os 40 dias da Quaresma. E toda a nossa existência é um caminhar que desemboca na eternidade, na Terra prometida aos que permaneceram fiéis.

O momento final, porém, nos colocará diante do Senhor, a quem apresentaremos nossa vida. A morte, escreveu o filósofo M. Heidegger, é a plenitude de nossa vida. Em nossas mãos estará nossa existência e, nelas, Deus contemplará como vivemos concretamente o Capítulo 25 de Mateus – o Juízo final – se fomos ovelhas ou cabras. E ouviremos as palavras “Vinde, benditos”, ou “Afastai-vos, malditos”. Seremos julgados pela lei da misericórdia, seremos pesados na balança da compaixão e, ainda nesse instante, é-nos oferecida a possibilidade da reconciliação.

Emil Cioran (1911-1995), ateu-crente romeno, escreveu, evocando a psicostasia do antigo Egito, ou seja, o momento em que as almas dos defuntos eram pesadas para verificar-se a gravidade das suas culpas: “No dia do juízo, só as lágrimas serão pesadas”. Para ele, o mundo é um receptáculo de gemidos.

Na parábola das ovelhas e cabras está muito claro que as lágrimas de compaixão vão ser o critério da verdade final.

A Igreja propõe, como caminho de vida neste Vale de Lágrimas, a vivência das Obras de Misericórdia Corporais e Espirituais. Tudo muito claro e, surpreendentemente, simples. Nos antigos Catecismos as crianças eram obrigadas a decorá-las para depois vivê-las. Com o tempo, perdeu-se o sentido da simplicidade da fé cristã e certa generalidade verbosa faz escapar o singelo caminho das lágrimas das misericórdias.

As Obras de misericórdia corporais são sete: dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; dar pousada aos peregrinos; assistir aos enfermos; visitar os presos; enterrar os mortos.

As obras de misericórdia espirituais são também sete: dar bom conselho; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram; consolar os aflitos; perdoar as ofensas; sofrer com paciência as fraquezas do próximo; rogar a Deus pelos vivos e defuntos.

Como deixamos de ser dualistas, separando o “corporal” do “espiritual”, é melhor que simplesmente falemos nas Obras de Misericórdia.

Hoje, delas poderíamos desdobrar outras obras de misericórdia, como proteger os pais idosos e doentes, evitar a ostentação de riqueza, não desviar do caminho de um pobre, ajudar os dependentes de drogas, não condenar os aidéticos, não expulsar bêbados ou doentes da igreja, acolher os migrantes, respeitar a fé dos simples, proteger as crianças e jovens, socorrer os desempregados, lutar pela justiça, etc. Para simplificar: agir como Jesus agiu.

As lágrimas e o Vale da Misericórdia

Assim, nosso Vale de Lágrimas não é o Vale do Exílio, mas é o Vale da Misericórdia, das lágrimas derramadas diante do sofrimento de nosso próximo. É o Vale formado pelo rio das lágrimas que foram refrigério para o ardor do sofrimento daqueles que passaram pelo nosso caminho. E seremos surpreendidos pelas lágrimas derramadas por tanta gente, e que nem percebemos. Sem as lágrimas de quem nos amou, a vida teria sido insuportável, como numa depressão contínua estaríamos sufocados pelo calor do desespero ou da solidão.

Na terra, o Filho chorou pela morte do amigo Lázaro e pelo sofrimento de suas irmãs Marta e Maria. Seremos também surpreendidos pelas lágrimas de Deus Pai, pois também ele chora: “Se não quiserdes obedecer, em segredo minha alma vai chorar: por causa do orgulho, estarão meus olhos chorando sem parar, derramando lágrimas” (Jr 13, 17). Quanta ternura contemplamos em nosso Abbá num cantinho, chorando, de esguelha olhando para nós para ver se nos decidimos por ele!

Não somos conduzidos pelo pessimismo, pois nenhuma lágrima será perdida: “Contaste os passos da minha caminhada errante, minhas lágrimas recolhes no teu odre; acaso não estão escritas no teu livro?” (Sl 56, 9).

Os Pais do Deserto, os contemplativos e místicos de todos os tempos invocavam o dom das lágrimas: lágrimas pelo próprio pecado, lágrimas pelo sofrimento do irmão, lágrimas pelas lágrimas de Deus. As lágrimas revelam que nossa vida não é empurrada pela soberba razão, pelo impacto da inteligência, mas pelo sentimento, pela compaixão.

As lágrimas são fruto de muita oração, da Eucaristia, dos sacramentos, da penitência, porque nosso instinto não é chorar pelos outros, mas pedir que chorem por nós. Deus é quem nos dá a graça de não mandarmos nosso próximo seguir adiante, porque estamos ocupados ou incapacitados. Nada justifica a omissão: “Quando estiveres extasiado junto de Deus, se um doente te pedir uma tigela de caldo desce do sétimo céu e dá-lhe o que pede” (Ruysbroeck).

O amor é simples, como Deus é simples: quem é humano de verdade chora diante de quem sofre, guarda as lágrimas para apresentá-las ao Pai no instante final. O próprio Deus mostrará nossas lágrimas, pois nenhuma foi perdida.

E, no dia em que o mundo formar um vale de lágrimas de misericórdia, encontrou a salvação. Toda a criação estará transfigurada e a humanidade será imagem e semelhança de Deus.

Pe. José Artulino Besen


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NÓS LEMBRAMOS, DEUS ESQUECE.

“Os montes podem mudar de lugar e as colinas podem abalar-se, mas o meu amor por ti não mudará” (Is 54, 10).

Entre os sofrimentos pessoais, muito nos atormenta a dificuldade de esquecer nossos próprios erros, nossos pecados. Reconhecemos a fraqueza, pedimos perdão, somos perdoados, nos emendamos mas… fica a recordação do erro!

Esse sofrimento é acrescido pela certeza de que os outros também não esquecem nossa fraqueza. Perdoam, são testemunhas de nossa recuperação mas… fica neles a recordação do erro! Dificilmente imaginamos o estrago que faz em nosso emocional o repisar faltas passadas: é abrir uma ferida continuamente, obrigando-a a ficar sempre aberta. E a ferida vira tumor, e nossa alegria de viver vira recordação de fracassos.

Como tudo na vida pode ser lido sob diferentes aspectos, também a recordação do passado pode ser transformada em momento de alegria. Nós somos responsáveis por essa leitura positiva de uma recordação que nos faz sofrer. “Errei, é verdade, mas hoje sou diferente, o erro serviu-me de lição. Por isso, sou feliz por ter vencido! Talvez os outros não perceberam ainda, mas me esforçarei cada vez mais para que possam sentir que sou outra pessoa!”

Atitude idêntica devemos ter em relação à fraqueza alheia: “Ele errou, e foi pena. Mas, o que importa é que se reergueu, venceu os próprios limites. Deu-nos uma lição”.

Devemos lamentar o erro no momento em que acontece. Um novo dia não precisa prestar contas ao dia anterior. É inútil repisar velhas feridas, mesmo que isso seja difícil, pois nossa memória tende a prolongar sentimentos.

Se aprendemos a nos perdoar, teremos facilidade de perdoar os outros. E vice-versa: se perdoamos os outros, sabemos nos perdoar.

No fundo, o que está em jogo é nossa capacidade de nos amarmos também em nossa fraqueza. Como que nos dividimos em dois: um que elogia as vitórias e outro, que condena os erros, reabre feridas. Não dá para viver com essa ambigüidade. Nós somos uma única realidade, indivisível, necessitada, em qualquer hipótese, de estímulo, de perdão, de amor. O próximo, também.

Há uma pessoa, insubstituível, responsável pela minha felicidade: eu mesmo! Se ninguém me diz “bom dia“, eu posso me dar “bom dia“. Pouco adianta outros me quererem bem, se eu não me valorizo, não me amo.

Mas, mesmo que eu não esqueça minha fraqueza, se os outros a lembram, há alguém que esquece de verdade: Deus! No seu amor perfeito, ele perdoa e apaga meu erro (Sl 50,4). Com toda ternura possível, recebe-me de novo a cada vez que dele me achego. Se mil vezes a ele retornar, sua ternura será sempre total, porque a vez passada não existe mais em seu coração. Quando me arrependo, Deus apaga da gravação da minha vida o erro e só deixa gravado o que foi bom, estimulante. Deus se compraz em ver seus filhos bem, felizes. Seu amor não permite ter prazer em nos apontar o dedo ameaçador!

Se mereço esse “esquecimento“, por que ficar me martirizando? Se para Deus meu erro foi apagado para sempre, por que somente eu vou ficar me torturando? A compreensão dessa atitude divina sem dúvida reforçará minha estima pessoal, me dará um ânimo novo. A cada momento posso ser uma nova criatura. Não tenho mais nada a ver se errei, se fui infiel, se não correspondi à confiança em mim depositada. Eu me perdôo, mudei de vida. E fui perdoado. Eu sou feliz

Pe. José Artulino Besen

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NATAL – VEIO PARA O QUE ERA SEU

O Menino na Mangedoura - Ruber OSB

O Natal é a festa do nascimento, na carne, do Filho de Deus. Jesus Cristo é eterno, estava junto do Pai e do Espírito Santo antes da criação do mundo. Mas, no momento oportuno, veio para dar-nos a graça de nos descobrirmos como filhos de Deus e restaurar nossa dignidade humana.

Desde o princípio, Cristo estava no mundo: sendo divino, não foi reconhecido, apesar de sinais claros dados por Deus através dos Profetas e das Escrituras. O ser humano habitava a escuridão e era incapaz de perceber a luz (cf. Jo 1, 11). Para ser reconhecido por aqueles que eram seus desde todo o sempre, assumiu a natureza humana no seio de Maria e veio habitar entre nós, visivelmente, para dar-nos a oportunidade de conhecermos quem é Deus e como Deus é: “Com efeito, Deus enviou seu Filho, o Verbo eterno que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e dar-lhes a conhecer os segredos de Deus” (DV 3-3).

Muitas vezes podemos nos perguntar, até com estranheza: por que Deus fez e faz tudo isso por nós se, na verdade, nem estamos tão interessados nele? Por que Deus nos envia seu Filho se nós não o pedimos? Por que Deus quer nos salvar, mesmo que nós prefiramos viver na condenação das trevas?

A resposta é uma só: Deus ama o que é seu. Deus quer salvar o que é seu. Tudo faz por aqueles que são seus.

Diante de tamanho amor manifestado na noite de Natal, diante de Deus que se faz criança, nossa resposta é o louvor: Ó Senhor nosso Deus, como é grandioso vosso nome em todo o universo! (Sl 8,1). Mas, Deus não se satisfaz apenas com nosso louvor: ele quer nos salvar, dando-nos a graça de recuperarmos a filiação divina perdida no pecado. Isso sempre, a cada dia, até o final da história: a decisão divina de nos salvar vale para todo o tempo da história.

A salvação não é obra humana, “nem do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus” (Jo 1, 13). A salvação é graça.

Quem passou pela experiência da fraqueza humana, do vício, da imoralidade e teve a graça do encontro com Deus, afirma tranqüilamente: Tudo foi obra de Deus! Eu nem acreditava mais que tinha jeito!

A graça de Deus é um dom imprevisto, misterioso, suave ou forte, mas sempre um dom, oferecido no amor de Pai. Nosso agradecimento pela graça recebida é a vivência como filhos de Deus, no seguimento de Cristo, Caminho, Verdade e Vida.

E se o pecado de novo em nós vencer e nos distanciar da graça divina? Deus não se cansa de nos procurar? Evidentemente que não. Deus não seria Deus se nos abandonasse à sorte dos desesperados. A salvação é sempre oferecida, sempre renovada.

A graça do Natal toca a vida dos que a aceitam

Infelizmente, custa-nos crer num amor desinteressado, contínuo. Para nós é difícil o perdão milhares de vezes repetido e confirmado. Porque nós não fazemos assim. Nós colocamos condições: uma, duas, três vezes. E achamos que Deus é como nós. Engano. Tanto o amor como o perdão são infinitos.

O Pai nos conhece e sabe das ciladas que Satanás nos arma e nas quais somos enredados. Um cristão passa por muitas tentações, muitas quedas, passa inclusive pelo cansaço de lutar para ser cristão. Nós sofremos ao contemplarmos os erros passados, os fracassos. Lamentamos oportunidades perdidas. O passado, porém, não deve nos condicionar, pois o Senhor nos olha hoje, aqui, agora. É para esse instante que ele pede nossa fidelidade. Com o tempo seremos curados dessas recordações tristes que nos impedem amar e sermos amados.

Uma verdade necessita estar sempre diante de nossos olhos: Deus sempre vem para os que são seus. Pecadores ou santos, nós somos dele e ele quer ser nosso.

A oficina da graça recupera toda a estrutura pessoal, por maior que tenha sido o estrago do pecado. A maior tristeza seria duvidar disso, conservar a imagem de um Deus ameaçador. Nosso Deus é o Pai de Jesus, é o nosso Pai.

Na festa do Deus Menino, num feliz Natal, conservemos a felicidade de sermos obra de Deus! Anunciemos a todos essa grande alegria: foi derrubado o muro que nos separava do céu. As portas estão abertas. Somos convidados a entrar nessa nova vida, divina, onde o Pai nos espera. Mas, lembremos: somente quem tem coração simples como o Menino de Belém penetra nos segredos do amor divino.

Pe. José Artulino Besen 

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O VALOR MAIOR É NÃO TER PREÇO – O PERDÃO

Itália, 31/03/2005: Papa João Paulo II encontra, na prisão, o homem que tentou assassiná-lo, o turco Mehmet Ali Agca. Foto: Vaticano/Reuters

Místico cristão, filósofo, médico, poeta, jurista, Ângelo Silesius (1624-1667) é autor de comoventes e ternos versos dirigidos à gratuidade de Deus: “A rosa não tem porquê. Floresce porque floresce. Não cuida de si mesma. Nunca se pergunta: Alguém me olha?…“. Se cada flor, individualmente, é um hino à gratuidade divina, somemos todas as obras da criação e teremos uma pálida imagem do amor divino. Nada foi criado de forma igual. Nenhuma flor é igual à outra. Nenhuma pessoa é igual. O amor não repete dons, zela pela originalidade de cada um. E tudo gratuitamente, sem esperar recompensas.

Nós, pelo contrário, somos marcados pelo olhar do preço, da utilidade, do descartável, da comparação. Deus prefere o desperdício da beleza. Ou não é um desperdício um jardim, um bosque, a variedade das aves, frutas? Não bastaria uma rosa para encantar a natureza? Nosso Deus prefere o desperdício do amor, do belo. As flores são colocadas além do útil ou inútil. Elas existem, e isso basta para alegrar uma existência.

Não bastaria o sorriso de uma única criança para encantar nossa existência, rejuvenescer nosso olhar? E são tantas as crianças, tão esplêndidos os olhos de cada uma que nos damos ao luxo de nem percebê-las ao nosso lado, por todo lado.

“Hoje sabemos o preço de tudo e o valor de nada”, escreveu Oscar Wilde. Medimos cada gesto pelo preço e, desse modo, lhe tiramos o valor. A generosidade se caracteriza não pelo preço, mas pelo valor do gesto amoroso, amigo. Até crianças estão perdendo a alegria de receber gestos generosos: elas logo querem definir para que serve o presente. Se não serve, reclamam e jogam fora. São incapazes de sentir o valor afetivo do objeto dado com amor. Como seria importante recuperarmos o olhar da admiração, do deslumbramento, do encanto, o olhar divino! Isso tem consequências em nossa vida de fé: “O olho com que vejo Deus é o mesmo com que ele me vê” (M. Eckhart). Isso, do nosso ponto de vista: se somos desprovidos de sentimentos, julgamos que Deus também o é. Ele, porém, me vê com desperdício de admiração, pois sou obra de suas mãos. “Que maravilha, meu Senhor, sou eu! (cf. Sl 138), seria nossa resposta verdadeira ao nos contemplarmos diante de nosso Criador.

A ciência, de tanto buscar a composição de cada ser em seus núcleos, moléculas, DNA. corre o perigo de perder a capacidade de admirar, de ver o conjunto. Mas, ao poder contemplar a incrível complexidade de um átomo, também exclamará: “Que maravilha!”

 A ingratidão humana e a criação do perdão

Deus não se cansa em ser criativo. Nunca subestimemos a capacidade do Espírito Santo, que inventa os santos, as crianças, os gestos generosos, os mártires, os artistas, as mães e pais. Desde toda a eternidade Deus decidiu nos salvar em seu Filho, fazer-nos à sua semelhança. O mistério da salvação é o mistério do amor pessoal divino por cada um de nós expresso pela vida de Jesus. Ele, em seu testamento, no último dia terreno, escreveu com a escultura do Lava-pés: Deus veio ao mundo para nos lavar os pés.

E continuará lavando nossos pés, mas, a pedido de Pedro, nos lava totalmente pelo perdão. Perdoar é a obra-prima do Deus Uno e Trino: perdoar sempre, pedir licença para perdoar, reconciliar-nos com ele, toma a iniciativa mesmo frente à nossa total indiferença. Ele perdoa o inimigo, sempre, pois o mal e o ódio quebram a harmonia da criação. É além disso: ele não vê inimigos, mas filhos.

O perdão gemido pelo Senhor no alto da Cruz “Pai, perdoai-lhes, não sabem o que fazem” pode não ter sentido a nossos ouvidos, mas é natural na gratuidade divina. O perdão oferecido ao inimigo fica sem explicação, pois se governa pela lógica do gratuito, especialidade de Deus. O perdão ao inimigo tem sentido como per-doar: eu acompanho a palavra “eu perdôo”, eu me dôo a quem me ofendeu com a palavra perdão. É a mais preciosa herança entregue pelo Senhor aos cristãos: perdoar sem dizer por que, perdoar grátis. É a atitude definidora do cristianismo.

Do mesmo modo que tudo em Deus é gratuito, tudo o que oferecemos de reconciliação também seja gratuidade. Libertar o perdão da escravidão do oportunismo é permitir ao homem retornar às profundidades de sua humanidade, reencontrar em plenitude a própria dignidade, que tem origem no Deus amor. A humanidade reconciliada é nossa retribuição ao desperdício da beleza divina semeada na criação, e nosso compromisso frente ao mundo.

Pe. José Artulino Besen

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O CIÚME, NEGAÇÃO DO AMOR

 “O amor tudo desculpa,
tudo crê, tudo espera,
tudo suporta” (1Cor 13,7).

Existem casais de namorados que vêem charme no ciúme: cobram onde cada um esteve, com quem falou, por que se vestiu assim, por que não apareceu ontem. E assim por diante, num controle total da vida alheia. “A gente se ama, por isso quer saber direitinho o que o outro anda fazendo...”

O ciúme não pode ser confundido com o amor. O amor pode andar acompanhado do ciúme, mas, infelizmente, um morrerá. Quem ama deve perder o ciúme. Quem quer continuar ciumento, acabará matando o amor.

São Paulo, na Carta aos Coríntios, citada acima, nos apresenta predicados inseparáveis do amor verdadeiro e duradouro. Quem ama, crê na pessoa amada. Quem ama, desculpa todos os erros e imprevistos. Quem ama, jamais deixará de esperar que o outro seja melhor. Quem ama, tudo suporta, pois sabe que o amor é um caminho para ajudar o outro a ser perfeito.

O ciumento não crê na pessoa amada; não sabe desculpar; não espera; não suporta os limites humanos da pessoa amada. Numa palavra, o ciumento é incapaz de um amor sadio, equilibrado, duradouro.

O homem ciumento afirma que ama sua esposa: na prática pensa as piores coisas dela! A mulher ciumenta faz juras de amor, mas, realmente, o retrato que pinta do seu marido é o pior possível. O ciúme faz a mulher controlar os passos do marido, o que significa absolutamente não confiar na sua honestidade. Ambos se julgam prostitutos, traiçoeiros. Quando se passa a vigiar os passos de alguém, quebrou-se o clima de confiança recíproca, espatifou-se o amor.

Grande causa do ciúme é a insegurança pessoal. O ciumento não confia em si mesmo; por isso tem que sentir que é dono da pessoa amada. Tem medo de perdê-la. O jovem ciumento é tão inseguro a ponto de recear que qualquer outro jovem tenha mais encantos, e acabará por roubar sua amada… O ciumento se acha feio, incompetente. Vive amedrontado. É inseguro a respeito de si mesmo.

No início do relacionamento amoroso, os ciumezinhos podem parecer charmosos. Após certo tempo, transformam a vida num inferno. Os carinhos são substituídos por tapas e arranhões. Os beijinhos, por beliscões. Quanta louça já foi espatifada pelas ridículas brigas de amor, isto é, de ciúme…

Em sua fase mais doentia, o amor ciumento não passa de ódio camuflado. Há quem mate por amor: na verdade matar é sempre o gesto extremo do ódio. O ciumento acaba por odiar a pessoa amada, porque não tem a certeza de possuí-la. Quando queremos possuir alguém, deixamos de amá-la, pois não admitimos mais a sua independência, mas não desistimos de possuí-la como um objeto.

Jesus nos pede que amemos o próximo como a nós mesmos. O ciumento não se ama de verdade: por isso não é capaz de amar.

Quem ama confia, sempre. Nada poderá abalar este amor.

Pe. José Artulino Besen

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A ORAÇÃO, MOMENTO DO ENCONTRO DO FILHO COM O PAI

O Abraço Paterno

Nas vossas orações não multipliqueis as palavras,
como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras.
Não os imiteis, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais.
Eis como deveis rezar: PAI NOSSO que estais no céu… (Mt 6,7-9).

A oração não é a palavra do servo dirigida ao seu senhor, não é a súplica do pecador com medo do castigo. Não é um ato nem de coragem, nem de medo. É o encontro confiante do filho com o pai, da criatura que sabe ser acolhida pelo Criador, do pecador com aquele de quem tem a certeza de receber o perdão.

É muito mais, porém: é o encontro com entre duas pessoas: eu e Deus!

Não se pode medir a eficácia ou a qualidade da oração pela multiplicação das palavras, como se Deus se impressionasse com nossa quantidade de fórmulas, por mais devotas que sejam. Não é, tão pouco, um diálogo incompreensível, à moda do papagaio que repete frases ensinadas, mas não entende o que lhe perguntam.

A oração do pecador não pressupõe que se vista de luto, cubra a cabeça com cinzas e apresente um ar de tristeza, como gostavam de se apresentar os fariseus no tempo de Jesus. Isso comove os que passam por perto, mas não a Deus, que sabe plenamente o que nos vai no coração. Não são necessárias grandes introduções, como a do fariseu que, antes de iniciar a oração, anunciou a Deus que era a melhor das criaturas… (cf. Lc 18,11-12). Com esse grau de soberba, nem necessitamos de orar, pois dispensamos o amor de Deus ao nos fazermos melhores do que somos.

Jesus deixou-nos uma introdução que expressa de modo pleno o sentimento e a afetividade de quem se dirige a Deus. A “grande” introdução era a que ele mesmo usava: Pai nosso, que estais no céu! Gostar de rezar é sinal de afeto com Deus, é ter prazer em chamá-lo de “Pai”.

Saudando a Deus como Pai, temos a certeza de ser ouvidos e acolhidos como filhos. No instante em que pronunciamos Pai nosso que estais no céu, somos afetuosamente acolhidos por Deus que responde Filho meu que estás na terra. O temor dá lugar à coragem, a alegria substitui a tristeza, perdemos as limitações de criatura para assumirmos a força de filhos.

A distância é derrubada pela proximidade Pai-filho e nós sentimos o amor que jorra do coração divino. Permanece nossa condição de pecadores, porém pecadores amados por Deus. E amados especialmente por causa da fraqueza, do pecado, da infidelidade. Acolhidos como o filho que aprontou, e temerosamente se dirige ao pai: dele espera uma repreensão justa, mas é carinhosamente abraçado por ele (Lc 15,11-32). O amor tudo esquece, tudo compreende, tudo apaga (1Cor 13,7). Faz de nós pessoas novas para uma nova vida.

Podemos fazer os nossos pedidos, apresentar nossas queixas, louvores. Nem é preciso falar muito, pois um pai de verdade conhece o que vai pelo coração do filho. Assim, a nossa oração nos fortalece e nos convence com mais força e de que é para o nosso bem tudo o que vem de Deus. Também a cruz. O Pai que está no céu acompanha o filho que está na terra. Mas, não esquecer: não rezamos para que Deus faça o que nós queremos e sim, rezamos para que saibamos fazer o que Deus quer!

Pe. José Artulino Besen

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AJUDANDO VOCÊ A PERDOAR

William Congdon – Transfiguracão

“Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam,
orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,44).

Nem todos têm facilidade em perdoar. Isso depende bastante das condições emocionais de cada um. Algumas pessoas logo conseguem esquecer a ofensa e olham para quem as ofendeu com extrema compreensão. Já outras, ficam amarguradas, com muito sofrimento emocional. Perdoam, mas sempre se recordam da ofensa. A mágoa permanece em sua vida, por muito tempo e até para sempre.

A mágoa é uma reação que não depende de nossa vontade. É como sentir alegria ou tristeza: a gente não escolhe o momento. Vem de repente. Mas, se eu perdôo de coração, fiz o necessário. O sentimento não é bom nem mau, pois não depende de nossa vontade.

Em outros casos, a ofensa desencadeia em nós um processo de ódio: gostaríamos de ver a pessoa morta, destruída. Isso acontece mais em casos de calúnia, de traição, de infidelidade conjugal. A simples lembrança da ofensa nos tira qualquer bom-humor, nos estraga o gosto pela vida. Nesses casos, é humanamente quase impossível perdoar.

A prática cristã oferece-nos algumas pistas para perdoar. É um exercício, talvez lento, mas que nos ajuda muito. Em primeiro lugar, situar a ofensa no seu contexto e deixá-la no tamanho exato, sem exagerar. Os sentimentos têm a tendência de nos fazer aumentar o problema, exagerar-lhe as proporções. Em segundo lugar, pensar bem da pessoa: se antes era tão boa, será que agora se tornou completamente má? Se merecia minha confiança é porque tinha muito valor, muitas qualidades. Perdeu todas?

Em terceiro, raciocinar: será que ela realmente queria me ofender? Foi uma atitude consciente ou algo que escapou, fruto da fraqueza humana? Quem é que está livre de uma queda? No meio de tudo, não está havendo clima de intriga da parte de terceiros? Geralmente escutamos críticas a nosso respeito de pessoas que dizem ter ouvido dizer, fulano contou que sicrano disse, e assim por diante, esticando o fio do novelo…

Se ainda assim fica quase impossível o perdão, assumir duas atitudes de fé. Primeiramente, rezar pela pessoa, pedir a Deus que a proteja, a faça muito feliz. A oração pelo inimigo faz-nos vê-lo com outros olhos. Se me fez sofrer, quero que não sofra. Depois, pedir a Jesus que visite a pessoa e a perdoe em nosso lugar. Que Jesus lhe faça o que não conseguimos fazer. E invocar novas energias espirituais. Perdoar é um gesto divino: somente com a graça seremos capazes de perdoar de coração.

Por último: não vale a pena odiar. O odiado não sofre com nosso rancor. Nós é que sofremos. Às vezes ele nem sabe que o estamos odiando. Sempre que guardamos a raiva, estamos perdendo a paz interior. E, se Deus perdoa, não é luxo negar o perdão!?

Pe. José Artulino Besen

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