Posts Marcados Papa João Paulo II

DIA MUNDIAL DA PAZ – 2010

A Paz é fruto da harmonia entre o Criador e as criaturas

PAX Aeterna – G. Manzù

Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação

O Papa Bento XVI escolheu para este 43º Dia Mundial da Paz o atualíssimo tema da ecologia: “Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação”. A Sagrada Escritura é aberta com o “No princípio Deus criou o céu e a terra”, donde a criação ser o princípio e fundamento de todas as obras divinas. Preservá-la, hoje, é essencial para a convivência pacífica dos povos. Talvez os perigos que derivam do desleixo, se não mesmo do abuso, em relação à terra e aos bens naturais que Deus nos concedeu são tão ou mais perigosos que ao atos terroristas, as guerras e violações dos direitos humanos. Não se pode separar o desenvolvimento humano integral dos deveres que nascem da relação do homem com o ambiente natural.

Uma preocupação de muitos anos

O tema não é novo, na Igreja. Há vinte anos, ao dedicar a Mensagem do Dia Mundial da Paz ao tema Paz com Deus criador, paz com toda a criação, o Papa João Paulo II chamava a atenção para a relação que nós, enquanto criaturas de Deus temos com o universo que nos circunda: “Observa-se nos nossos dias – escrevia ele – uma consciência crescente de que a paz mundial está ameaçada (…) também pela falta do respeito devido à natureza”. Esta consciência ecológica “não deve ser reprimida mas antes favorecida, de maneira que se desenvolva e vá amadurecendo até encontrar expressão adequada em programas e iniciativas concretas”. E em 1971, Paulo VI, na Centesimus Annus, sublinhou que, “por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, [o homem] começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação”; “não só o ambiente material se torna uma ameaça permanente – poluições e lixo, novas doenças, poder destruidor absoluto – mas é o próprio contexto humano que o homem não consegue dominar, criando assim para o dia de amanhã um ambiente global que se lhe poderá tornar insuportável”.

Na sua Mensagem, Bento XV I se refere aos “prófugos ambientais”, às migrações forçadas de milhões de pessoas causadas pelas alterações climáticas, a desertificação, o deterioramento e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, o desflorestamento das áreas equatoriais e tropicais? Surgirão conflitos relacionados ao acesso aos recursos naturais.

Está em jogo, na crise ecológica, o próprio conceito de desenvolvimento e a visão do homem e das suas relações com os seus semelhantes e com a criação que não se pode enfrentar sem uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento e o empenho em sanar a crise cultural e moral do homem, cujos sintomas há muito tempo que se manifestam por toda a parte. As situações de crise que se está atravessando, de caráter econômico, alimentar, ambiental ou social, no fundo são também crises morais e estão todas interligadas.

A missão do homem e da mulher: cultivar e guardar a criação

No livro do Gênesis (1,28), Deus colocou o homem e a mulher como administradores, em seu nome, da criação. A harmonia descrita na Sagrada Escritura entre o Criador, a humanidade e a criação foi quebrada pelo pecado de Adão e Eva, do homem e da mulher, que pretenderam ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-se como suas criaturas. O ser humano deixou-se dominar pelo egoísmo, perdendo o sentido do mandato de Deus e, no relacionamento com a criação, comportou-se como explorador, pretendendo exercer um domínio absoluto sobre ela. A missão que Deus lhe confiara era outra: “cultivar e guardar” (cf. Gn 2,15). Tudo o que existe pertence a Deus, que o confiou aos homens, mas não à sua arbitrária disposição.

Alerta o Papa que os projetos políticos e econômicos têm conseqüência moral e devem levar em conta a vida das gerações futuras: “Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós aumentar o círculo da família humana. A solidariedade universal é para nós não só um fato e um benefício, mas também um dever”. O uso dos recursos naturais deverá verificar-se em condições tais que as vantagens imediatas não comportem conseqüências negativas para os seres vivos, humanos e não humanos, presentes e vindouros. “A crise ecológica manifesta a urgência de uma solidariedade que se projete no espaço e no tempo”. Os países industrializados devem reconhecer sua culpa na crise ecológica atual e não querer impedir aos países pobres o acesso a uma vida digna.

Conversão no estilo de vida: a sobriedade

E aqui Bento XVI toca na ferida evitada pelos países ricos e por todos os consumidores dos bens da criação: “as sociedades tecnologicamente avançadas estejam dispostas a favorecer comportamentos caracterizados pela sobriedade, diminuindo as próprias necessidades de energia e melhorando as condições da sua utilização”. Existe a ilusão de querer tudo resolver sem mexer com a causa, o consumismo desenfreado e desperdiçador. Sem se sair da lógica do mero consumo não se poderá promover formas de produção agrícola e industrial que respeitem a ordem da criação e satisfaçam as necessidades de todos.

Segue a Mensagem: “É cada vez mais claro que o tema da degradação ambiental põe em questão os comportamentos de cada um de nós, os estilos de vida e os modelos de consumo e de produção hoje dominantes, muitas vezes insustentáveis do ponto de vista social, ambiental e até econômico. Torna-se indispensável uma real mudança de mentalidade que induza a todos a adotarem novos estilos de vida, ‘nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros homens, em ordem ao crescimento comum, sejam os elementos que determinam as opções do consumo, da poupança e do investimento’”.

Cristo ressuscitado os novos céus e nova terra

A Igreja tem a sua parte de responsabilidade pela criação e sente que a deve exercer também em âmbito público, para defender a terra, a água e o ar, dádivas feitas por Deus Criador a todos, e antes de tudo para proteger o homem contra o perigo da destruição de si mesmo. Os deveres para com o ambiente derivam dos deveres para com a pessoa considerada em si mesma e no seu relacionamento com os outros. Por isso, faz parte da catequese cristã a educação para uma responsabilidade ecológica.

Conclui o Papa: “Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação”. A busca da paz por parte de todos os homens de boa vontade será, sem dúvida alguma, facilitada pelo reconhecimento comum da relação indivisível que existe entre Deus, os seres humanos e a criação inteira. Os cristãos, iluminados pela Revelação divina e seguindo a Tradição da Igreja, prestam a sua própria contribuição. Consideram o cosmos e as suas maravilhas à luz da obra criadora do Pai e redentora de Cristo, que, pela sua morte e ressurreição, reconciliou com Deus ‘todas as criaturas, na terra e nos céus’ (Cl 1, 20).

Cristo crucificado e ressuscitado concedeu à humanidade o dom do seu Espírito santificador, que guia o caminho da história à espera daquele dia em que, com o regresso glorioso do Senhor, serão inaugurados ‘novos céus e uma nova terra’ (2 Pd 3, 13), onde habitarão a justiça e a paz para sempre”.

, , , , , ,

Deixe um comentário

JOÃO PAULO II, VENERÁVEL SERVO DE DEUS

Bento XVI autorizou no dia 19 de dezembro de 2009 a publicação dos decretos que reconhecem as virtudes heróicas dos papas João Paulo II e Pio XII, que deste modo passam a ser reconhecidos como “veneráveis” pela Igreja. Agora faz-se necessária a aprovação de um milagre para a beatificação. Esse primeiro passo é fundamental, pois significa que o Venerável viveu em grau heróico as virtudes cristãs, especialmente da fé, esperança e caridade. Nesse primeiro momento convida-se o povo de Deus a contemplar esses irmãos, os Papas Pio XII (1939-1958) e João Paulo II (1978-1995) como modelos de vida cristã, de discipulado cristão.

Na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte de 6 de janeiro de 2001, o Papa João Paulo II nos convidava a contemplar a face de Cristo na profundidade do mistério que os Evangelhos nos revelam, de modo especial a face de Cristo Crucificado e Abandonado, no seu grito angustiante e na sua glória sem fim (nn. 16-28). Um programa para a Igreja e para cada cristão neste século que então iniciava a balbuciar. Sua experiência pessoal, na dor e na doença, demonstrou a coerência entre suas palavras e sua vida carregando a Cruz com o Senhor.

Na Sexta-feira santa comovia ver a figura dolorosa do Papa segurando e contemplando a Cruz do Senhor durante a Via Sacra no Coliseu. Dois amigos no abandono total de amor, Cristo por livre decisão por nós, o Papa por livre aceitação por si e pela Igreja. Cristo crucificado e abandonado, o Papa crucificado, mas recebendo forças do seu Senhor e Mestre. Cristo, sentado na Cruz, seu glorioso trono de amor, o Papa preso a uma cadeira de rodas, a face devastada pela dor, mas sentindo-se revigorado por aquele cujo nome gritou na Praça de São Pedro, em outubro de 1978: “Povos do mundo, não tenhais medo de Cristo!”. E este polonês escolhido para o Trono de Pedro deu provas de não ter medo de Cristo e de sua Cruz: como catequista anunciou-o nas audiências semanais das quartas-feiras; como pregador, anunciou-o no Ângelus do meio-dia de domingo; como cruzado da fé e da paz, anunciou-o em suas 104 viagens apostólicas. Anunciou-o nos numerosos documentos, sínodos, cartas, encíclicas, audiências.

Mas, anunciou-o de modo mais concreto com sua vida. O Papa doente de 2005 não era o jovem Papa que em 1978 atravessava a Praça de São Pedro conclamando o mundo a não ter medo de Cristo, a abrir-lhe todas as portas. O Papa prisioneiro da doença foi do mesmo modo o evangelizador de multidões.

Karol Wojtylla não era um executivo de empresa, o gerente do Estado do Vaticano: a Igreja é mistério, Corpo de Cristo e Povo de Deus. Transcende infinitamente a dimensão burocrática à qual queremos reduzi-la e à qual muitos burocratas eclesiásticos tentam prazerosamente resumi-la. Sua vida era também seu ministério petrino.

Na doença do Papa o Espírito que falou às Igrejas nos revelou uma outra face do pontificado romano: a paternidade espiritual, a paternidade da cruz oferecida pela Igreja e pelo mundo, tão ou mais eficaz do que a inteligência humana do governo.

Papa João Paulo II com a Cruz

João Paulo II alimentou um prazer imenso de ver o povo e de ser por ele visto. Também na doença queria ver o rebanho aflito e por ele ser contemplado. João Paulo II, testemunha qualificada das dores humanas de todos os matizes e credos, das hecatombes do nazismo e do comunismo, que fez suas as dores do ser humano onde quer que se encontrasse, que sentiu na carne o que é ser atravessado por projéteis do terror, que sente a inexorabilidade do morbo incurável, revela sua face solidária e paterna com todos os sofredores do mundo.

Foi ele que insistiu na dimensão do viver a descoberta do Jesus Abandonado, como experiência de vida humana e divina e, portanto, do fazer-se um conosco e com o Pai, com todas as conseqüências: o esvaziamento de cada um de nós para o dom total de si, para ser um no amor.

Uma dimensão de sua vida talvez seja o maior legado que transmitiu à Igreja: o perdão, a penitência pelos pecados de cada cristão e de toda a Igreja. O centro as celebrações do 3º Milênio foi a Liturgia do Perdão na Basílica de São Pedro, em março de 2000: assumindo o peso de dois mil anos de história da Igreja Católica, pediu perdão pelos pecados da Inquisição, do colonialismo, da intransigência, do desprezo pelas minorias, da aliança com o poder, do uso do poder. O Papa perdoou a todos os que perseguiram os cristãos, e pediu perdão em nome de todos os cristãos.

Não foi fácil a um homem que carregava nas costas a tradição de glórias e lutas de 20 séculos, de heroísmo e santidade, proclamar “Nós pecamos!”. Ele realizou esse gesto contemplando o Cristo crucificado, o Cristo que deu a vida por todos, nunca matando.

Felizes nós a quem foi dada a graça de conhecê-lo, ouvi-lo. E agora, é-nos dada a graça de chamá-lo de Venerável João Paulo II.

, , , , ,

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: