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A VERDADE VOS LIBERTARÁ

Na Celebração da Missa em Havana (28 de março de 2012), comentando a leitura do dia o Papa Bento XVI falou sobre a verdade e a liberdade: a verdade requer a liberdade e a liberdade conduz à verdade. Um tema muito caro a Paulo que insistia na liberdade dos filhos de Deus. Um tema necessário à família cubana que sofre há tantos anos a privação da liberdade de crer e o jugo da educação marxista.

Vem-me à lembrança um relato de Joaquim Navarro-Valls, Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé de 1984 a 2006. Durante 21 anos foi o Porta-voz oficial de João Paulo II, podendo conhecer de perto a interioridade do grande Papa, acompanhando-o no dia a dia do Vaticano e nas viagens apostólicas.

Uma vez se arriscou e perguntou ao Papa: “Santo Padre, se por acaso queimassem o Evangelho, se ele desaparecesse da terra, e o senhor tivesse a possibilidade de salvar só uma frase, que frase seria?”.

Para sua surpresa o Papa não esperou um segundo para responder: “Aquela frase do evangelho de São João que diz que ‘a verdade vos libertará’ (Jo 8,32). E acrescentou: “Faz mais de trinta, quarenta anos que eu penso nessa frase e ainda continuo pensando. A verdade liberta o ser humano”.

“Se permaneceis na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,31b-32): nessa palavra evangélica o Papa se movia em dois campos: o campo da verdade e o campo “onde encontrarei a verdade?”. A pessoa humana não pode se alimentar da mentira, nem a ciência, nem a criação. A verdade e sua busca são o motor do desenvolvimento humano e científico.

É de fato extraordinário que o grande Pontífice, que pediu ao mundo que não tivesse medo de Cristo, que lhe abrisse as portas, tenha por mais de 30, 40 anos pensado em descobrir a frase mais decisiva do Evangelho e chegado a essa afirmação. Isso nos ajuda a entender as linhas mestras de sua pessoa e obra, de seus documentos e homilias, de seus encontros com os grandes desse mundo. Também ajuda a entender porque fosse intransigente no anúncio da verdade sobre Deus e sobre o homem. Era claro, por isso tido como “conservador”: a verdade não conhece meio termo, não pode ser negociada nem dos simpósios teológicos, nos departamentos diplomáticos das nações, não é objeto de simplificações para agradar o mundo.

Temos muita clareza de que a verdade não tem sido o motor da história e quem pagou o preço da sujeição ao engano foi o pobre, a dignidade humana, a natureza. A sujeição à mentira tira do ser humano o necessário para ter dignidade e faz dos interesses pessoais, políticos e econômicos a verdade definitiva, mesmo que ao preço da morte e da destruição. Diz-se que, numa guerra, a primeira vítima é a verdade. Ou então: a primeira vitoriosa numa guerra é a mentira.

As civilizações que os homens construíram podem ter sido geradas pelo idealismo, mas, em certo momento, prevaleceu o interesse rasteiro dos que detinham o poder. E a vida era e é derrotada pela morte. O próprio Deus é manipulado quando se deixa de lado a verdade. A história nos ensina que os grandes poderosos consideravam-se deuses e, com técnicas de comunicação, faziam-se crer benfeitores de seu povo quando, na realidade, eram benfeitores de grupos e assassinos de povos. Impérios apossaram-se de países, continentes, povos e, com a motivação de querer civilizá-los, destruíram suas culturas, seus povos e saquearam suas riquezas.

Beato João Paulo II

Karol Wojtyla conheceu e vivenciou as três mentiras poderosas que levaram povos inteiros a sofrimentos inauditos: o comunismo (que prometia o paraíso na terra), o nazismo (que via na raça e na força o ideal da humanidade) e o capitalismo (que faz da riqueza individual o sonho hedonista). Por causa delas, centenas de milhões de pessoas conheceram a morte no século XX, século de progresso imenso, século das comunicações, século de morte. Mas, a mentira não triunfa: humilhada, mutilada, a verdade se ergueu das cinzas da violência e oferece à humanidade um caminho de vida, num difícil aprendizado.

O ser humano não é humano na mentira: ele foi criado para a verdade, pois é imagem e semelhança da Verdade. Fora dela, inicia uma trajetória que se sabe onde começa – a ilusão – e onde termina: na indignidade e na violência.

Mas, o Papa não falou em verdades. Falou na “verdade vos libertará”. Sua inteira existência foi testemunho da verdade que liberta, do Redentor do homem: Jesus Cristo, o homem perfeito. A Verdade não é uma teoria, um teorema complicado, a Verdade é uma pessoa, Cristo. Como bom pastor da Igreja, João Paulo II quis abrir todas as portas do mundo àquele único que pode dizer: “Eu sou a Verdade”. Verdade que serve e não domina, verdade que dá e não tira a vida, verdade que perdoa e não toma vingança, Verdade que é Amor.

Santo Agostinho derramou muitas lágrimas por ter, durante anos de sua vida, ignorado a verdade e seguido a mentira, até descobrir que a Verdade é a suprema Beleza, é Deus.

Pe. José Artulino Besen

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O CACO DE TELHA EMPRESTADO DE JÓ

Jó ridicularizado por sua mulher - Gioacchino Assereto

Jó ridicularizado por sua mulher – Gioacchino Assereto

Um dos mais perturbadores livros da história humana, assim tem início o Livro de Jó: “Havia na terra de Us uma homem chamado Jó: era íntegro e reto, temia a Deus e mantinha-se afastado do mal. Tinha sete filhos e três filhas. Era o mais rico entre todos os habitantes do Oriente” (Jo 1, 1-3). Satanás não se conformava com a integridade desse homem rico, poderoso, temente a Deus. E tem início o drama de Jó, que é o drama da vida humana. Deus respeita tanto a liberdade do tentador quanto a do santo homem. Primeiramente perde os filhos e seus bens. Em segundo lugar perde a saúde e torna-se um homem repugnante coberto de chagas malignas, desde a ponta dos pés até o alto da cabeça. Sentado no meio do lixo, raspava o pus com um caco de telha. De seus lábios, porém, a palavra da fé: “Seja bendito o nome do Senhor”. Terminado o tempo da provação de sua liberdade, Deus tudo lhe restituiu. Jó, a partir desse momento, não é o homem que teve seus bens de volta, mas o homem que foi fiel ao Senhor.

Naquele corpo chagado, repugnante, permaneceu a chama da fé que, pouco a pouco, tomou conta de toda a sua pessoa e tornou-a luminosa. O caco de telha com que raspava o pus era a força que lhe mantinha a dignidade: se Jó não limpasse o pus teria desistido de ser pessoa e nenhuma transformação seria possível.

Em nossos dias, a Igreja católica é o Jó atirado no meio da praça: é pretexto para o ataque, o ridículo, a rudeza, a ingratidão. Mas, deve-se dizer, ela também guarda carniça em seu ventre, o pus escorre de seu corpo materno, humano e divino. Muitas vezes afirmamos que a Igreja é santa, que não precisa de conversão, o que compete a seus membros. A história, porém, nos revela que o caminho eclesial é diferente: encarnada nas culturas, com facilidade a Igreja pode se deixar seduzir por elas e assim, ao invés de converter o que há de mau nas culturas, por elas é contaminada. O espírito do mundo nunca deixará a Igreja no repouso dos justos: sua missão é o contínuo combater o bom combate, reconhecer os próprios pecados e converter-se.

O drama de nossos dias é a história de Jó: temos todas as bênçãos, toda a riqueza da Palavra e dos Sacramentos, mas não nos submetemos à provação. Achamos que é possível transfiguração sem cruz, salvação sem fidelidade. Cristãos ouvem as palavras dos amigos de Jó convidando à blasfêmia, ao desânimo, a abandonar o ventre da mãe onde convivemos com nossas virtudes, chagas e pus. O caco de telha será o grito de toda a Igreja “Kyrie!”, “Senhor, piedade!” Se o caco de telha for a revolta, a acusação ao mundo que não reconhece a nossa “santidade”, nossos méritos históricos, a ferida se aprofundará. É a hora da conversão, sempre é hora da conversão, da Igreja e dos membros.

É triste que os ataques se dirijam à pessoa de Bento XVI, o Papa que mais agiu e age para a transparência na Igreja, que submeteu os casos de pedofilia diretamente aos tribunais civis, que em nenhum momento teve a pretensão de ocultar a verdade. A assim chamada imprensa laica corre o risco de invadir a esfera própria da Igreja que é sua autonomia de condenar os pecados e redimir os pecadores. Certos tipos de intelectuais querem tirar da Igreja seu conteúdo de caridade cristã. A defesa mais contundente vem de Ross Douthat, um dos mais lidos opinionistas do The New York Times, num artigo com o sugestivo título “O melhor Papa”: defende a intergidade moral de Bento XVI que não se pode colocar em dúvida mesmo nos tempos anteriores ao Pontificado. Persegue-o a fama de “Rotweiler de Deus”, dos tempo da Doutrina da Fé, em confronto com o envolvente e simpático João Paulo II. Talvez a história julgará Bento XVI como um Papa maior.

A graça de Jó nos atinge para que provemos onde está nossa fé, nossa coragem, nosso amor pela Igreja. Foram muitas as crianças e jovens desintegrados na sua intimidade por padres e religiosos, seus naturais protetores na vida e na fé, foram muitos os pastores que preferiram o triunfo eclesiástico à defesa das vítimas. Se nós padres e bispos estamos chagados, não é pela fidelidade e obediência, mas pela omissão e amor próprio.

Um fato leva-nos a refletir com muita seriedade: quem nos chama à conversão não está sendo o Evangelho. O Senhor, não se sentindo escutado, deu voz ao mundo, aos inimigos da fé cristã, da Igreja católica, aos meios de comunicação laicistas, aos advogados ansiosos por dinheiro. Também isso é verdade e, como Jó, devemos dizer, cheios de dor e humilhação, “seja bendito o nome santo do Senhor”. Jó nos empresta o caco de telha para que limpemos o pus que escorre de nosso íntimo. Achávamos que não necessitaríamos desse caco de telha, mas necessitamos da purificação do que não faz parte de nosso ministério de serviço misericordioso e que apenas provoca essas feridas e chagas da cabeça aos pés. “Nós, cristãos, nos últimos tempos evitamos a palavra penitência. Agora, sob os ataques do mundo que nos falam de nossos pecados, percebemos que fazer penitência é graça e vemos como seja necessário fazer penitência”, afirmou o Papa em 15 de abril.

Penitência e conversão são obrigação também do povo de Deus que se omitiu, que por amizade e medo se calou. Quem sabe, a estrutura de poder sacral que montamos e alimentamos tira do povo de Deus a coragem, temendo por ela ser ameaçado.

Abrir-se ao perdão, preparar-se para o perdão, falou Bento XVI. A dor da penitência é graça, pois é renovação, é obra da Misericórdia divina

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NÓS, PADRES, PERDOAMOS E PEDIMOS PERDÃO

A face de Cristo retrata todos os sofrimentos e pecados, dos inocentes e dos pecadores. Todos são tocados por sua misericórdia (Grünewald – pormenor trabalhado da Crucifixão).

As palavras do Papa foram contundentes: “crimes hediondos”, “confiança traída”, “dignidade violada”, “dano imenso”, “ultraje”, “indignação”, “tristeza”, “lágrima”, declarando-se “profundamente desolado” ante os sofrimentos das vítimas de abusos cometidos por padres. Em 20 de março pp. Bento XVI dirigiu Carta à Igreja irlandesa e a toda a Igreja tocando nesse drama cujos sinais se alastram como tsunami de país a país. Numa passagem, ficou grafado: “Em nome da Igreja exprimo abertamente vergonha e o remorso que todos sentimos, experimentamos”. O Papa também critica a “preocupação descabida” em manter o bom nome da Igreja para evitar escândalos, o que levou à impunidade sob o pretexto de preservar a dignidade de cada pessoa, atitude essa tomada por diversos bispos e que está na raiz do drama atual.

A tragédia da pedofilia e do abuso sexual de jovens é a mais dolorosa das violências, a mais perturbadora invasão na afetividade de uma criança ou jovem. O Papa João Paulo II manifestava sua profunda dor diante daqueles que detêm a primeira responsabilidade de defender os mais frágeis da sociedade e dão-se o direito de profaná-los sacrilegamente.

“Nós perdoamos e pedimos perdão” foi a palavra repetida na Celebração do Perdão, em março de 2000, corajosamente presidida e conduzida por Papa Wojtila. Nós perdoamos a todos os que nos ofenderam, e pedimos perdão aos que nós ofendemos: as minorias, a violência da Inquisição, das Cruzadas, do Colonialismo, o anti-semitismo, a mulher, o negro escravizado.

Os filhos não pagam pelo pecado dos pais, mas somente viverão a verdadeira filiação pedindo perdão por seus pais. Reconciliar-se com a História diante do Deus misericordioso é ato de humildade cristã, de santificação em praça pública na confissão dos pecados.

Assim nós, padres, perdoamos e pedimos perdão. Nada justifica a chaga da pedofilia, do sexo a pagamento, do escândalo de padres e religiosos. Num tempo se usava o argumento de que se atacava a Igreja para calar-lhe a boca. Não serve mais: nossa boca será livre para proclamar o Evangelho da Graça se ela mesma for purificada pela graça e – dolorosamente – pela humilhação em praça pública. Tantas vezes erguemos nossas mãos no gesto divino de absolver o penitente dos pecados, e o fazemos com imensa alegria. É também a vez dos cristãos erguerem as mãos para nos perdoarem em nome das comunidades, das famílias, das vítimas marcadas pela violência sexual.

Diante do Senhor misericordioso todos seremos mais humildes: o pecado é fruto da infidelidade, da auto-suficiência, do Evangelho na prateleira das facilidades. Pedir perdão é fortalecer-nos para o combate do bem, da integridade pessoal. Quanto mais sentirmos a fragilidade corroendo nossos ideais, nosso primeiro amor, mais a força do Espírito nos renovará com seu sopro de Vida. E todos, padres, cristãos e pessoas de boa vontade nos daremos as mãos em defesa da infância e da juventude.

Maturidade afetiva, condição para o celibato

As acusações que nos levam à confissão dos pecados também devem ser purificadas. O ato de uma pessoa não é o ato de uma comunidade. Os pecados de alguns – ou mais – sacerdotes, não são pecados da Igreja de tal País. É injusto acusar a Igreja dos Estados Unidos de pedófila, pois se estará negando a dedicação heróica, fiel de dezenas de milhares de sacerdotes frente ao pecado de um pequeno número. Agora é a vez da Igreja na Alemanha e as acusações têm um endereço cruel: a todo custo quer-se atingir a pessoa do Papa Bento XVI. Responde-se à tragédia da pedofilia nas hostes clericais com a crueldade do ataque à Igreja Católica, que incomoda, e muito, os que defendem um relaxamento moral a qualquer preço no campo do aborto, do casamento homossexual, da criminalização de qualquer palavra que cheire a homofobia.

Aproveita-se para atacar a disciplina do celibato católico afirmando: existe pedofilia na Igreja porque os padres não se casam. As estatísticas não o comprovam. Segundo a ONG Cecria, dedicada à proteção dos menores, de 291 casos de abuso sexual no Brasil em 2009, as crianças foram vítimas: 33% do pai ou mãe, 14% do padrasto ou madrasta, 13% do vizinho, 10% do tio, 9% de conhecido, 6% do avô, 5% do professor, sendo 4% de desconhecidos. E mais ainda: o consagrado psiquiatra e neurologista alemão Marfed Lutz, da Universidade de Wuerzburg, derrubou a polêmica tese do criminalista europeu Bill Marshall. Para o criminalista, a castidade não representa um fato natural e pode predispor a uma conduta desviante. Segundo Lutz, não há “déficit de intimidade” entre celibatários. Quem “consegue manter uma vida espiritual iluminada pela presença de Deus não padece de déficit afetivo”, frisou Lutz.

Um mal não elimina outro mal, evidente, mas deve-se notar que o sacerdócio às vezes tem sido o refúgio de pessoas sexualmente desequilibradas que se escondem no celibato. A pedofilia, além de crime, pode também ser uma patologia, da qual os próprios pedófilos são vítimas. Em muitos casos, o pedófilo de hoje foi vítima de violência sexual na infância, na mocidade.

A santidade da Igreja cresce nos grandes tempos de reconciliação, de humilhação. É tempo de Páscoa, é tempo de ressurreição. Nós, padres, perdoamos e pedimos perdão. Nós que tanto anunciamos o Senhor das misericórdias, cremos firmemente que também seremos lavados pela misericórdia do Senhor.

Fazemos nossa a oração pelas vítimas, proposta pela Igreja irlandesa:

“Senhor, sofremos muito por aquilo que alguns de nossos fizeram a teus filhos:

foram tratados de modo sumamente cruel, especialmente na hora da necessidade.

Deixamos dentro deles um sofrimento que carregarão por toda a vida.

Isto não estava nos teus planos para eles e para nós.

Por favor, Senhor, ajuda-nos a ajudá-los. Guia-nos, Senhor. Amém.”

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DIA MUNDIAL DA PAZ – 2010

A Paz é fruto da harmonia entre o Criador e as criaturas

PAX Aeterna – G. Manzù

Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação

O Papa Bento XVI escolheu para este 43º Dia Mundial da Paz o atualíssimo tema da ecologia: “Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação”. A Sagrada Escritura é aberta com o “No princípio Deus criou o céu e a terra”, donde a criação ser o princípio e fundamento de todas as obras divinas. Preservá-la, hoje, é essencial para a convivência pacífica dos povos. Talvez os perigos que derivam do desleixo, se não mesmo do abuso, em relação à terra e aos bens naturais que Deus nos concedeu são tão ou mais perigosos que ao atos terroristas, as guerras e violações dos direitos humanos. Não se pode separar o desenvolvimento humano integral dos deveres que nascem da relação do homem com o ambiente natural.

Uma preocupação de muitos anos

O tema não é novo, na Igreja. Há vinte anos, ao dedicar a Mensagem do Dia Mundial da Paz ao tema Paz com Deus criador, paz com toda a criação, o Papa João Paulo II chamava a atenção para a relação que nós, enquanto criaturas de Deus temos com o universo que nos circunda: “Observa-se nos nossos dias – escrevia ele – uma consciência crescente de que a paz mundial está ameaçada (…) também pela falta do respeito devido à natureza”. Esta consciência ecológica “não deve ser reprimida mas antes favorecida, de maneira que se desenvolva e vá amadurecendo até encontrar expressão adequada em programas e iniciativas concretas”. E em 1971, Paulo VI, na Centesimus Annus, sublinhou que, “por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, [o homem] começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação”; “não só o ambiente material se torna uma ameaça permanente – poluições e lixo, novas doenças, poder destruidor absoluto – mas é o próprio contexto humano que o homem não consegue dominar, criando assim para o dia de amanhã um ambiente global que se lhe poderá tornar insuportável”.

Na sua Mensagem, Bento XV I se refere aos “prófugos ambientais”, às migrações forçadas de milhões de pessoas causadas pelas alterações climáticas, a desertificação, o deterioramento e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, o desflorestamento das áreas equatoriais e tropicais? Surgirão conflitos relacionados ao acesso aos recursos naturais.

Está em jogo, na crise ecológica, o próprio conceito de desenvolvimento e a visão do homem e das suas relações com os seus semelhantes e com a criação que não se pode enfrentar sem uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento e o empenho em sanar a crise cultural e moral do homem, cujos sintomas há muito tempo que se manifestam por toda a parte. As situações de crise que se está atravessando, de caráter econômico, alimentar, ambiental ou social, no fundo são também crises morais e estão todas interligadas.

A missão do homem e da mulher: cultivar e guardar a criação

No livro do Gênesis (1,28), Deus colocou o homem e a mulher como administradores, em seu nome, da criação. A harmonia descrita na Sagrada Escritura entre o Criador, a humanidade e a criação foi quebrada pelo pecado de Adão e Eva, do homem e da mulher, que pretenderam ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-se como suas criaturas. O ser humano deixou-se dominar pelo egoísmo, perdendo o sentido do mandato de Deus e, no relacionamento com a criação, comportou-se como explorador, pretendendo exercer um domínio absoluto sobre ela. A missão que Deus lhe confiara era outra: “cultivar e guardar” (cf. Gn 2,15). Tudo o que existe pertence a Deus, que o confiou aos homens, mas não à sua arbitrária disposição.

Alerta o Papa que os projetos políticos e econômicos têm conseqüência moral e devem levar em conta a vida das gerações futuras: “Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós aumentar o círculo da família humana. A solidariedade universal é para nós não só um fato e um benefício, mas também um dever”. O uso dos recursos naturais deverá verificar-se em condições tais que as vantagens imediatas não comportem conseqüências negativas para os seres vivos, humanos e não humanos, presentes e vindouros. “A crise ecológica manifesta a urgência de uma solidariedade que se projete no espaço e no tempo”. Os países industrializados devem reconhecer sua culpa na crise ecológica atual e não querer impedir aos países pobres o acesso a uma vida digna.

Conversão no estilo de vida: a sobriedade

E aqui Bento XVI toca na ferida evitada pelos países ricos e por todos os consumidores dos bens da criação: “as sociedades tecnologicamente avançadas estejam dispostas a favorecer comportamentos caracterizados pela sobriedade, diminuindo as próprias necessidades de energia e melhorando as condições da sua utilização”. Existe a ilusão de querer tudo resolver sem mexer com a causa, o consumismo desenfreado e desperdiçador. Sem se sair da lógica do mero consumo não se poderá promover formas de produção agrícola e industrial que respeitem a ordem da criação e satisfaçam as necessidades de todos.

Segue a Mensagem: “É cada vez mais claro que o tema da degradação ambiental põe em questão os comportamentos de cada um de nós, os estilos de vida e os modelos de consumo e de produção hoje dominantes, muitas vezes insustentáveis do ponto de vista social, ambiental e até econômico. Torna-se indispensável uma real mudança de mentalidade que induza a todos a adotarem novos estilos de vida, ‘nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros homens, em ordem ao crescimento comum, sejam os elementos que determinam as opções do consumo, da poupança e do investimento’”.

Cristo ressuscitado os novos céus e nova terra

A Igreja tem a sua parte de responsabilidade pela criação e sente que a deve exercer também em âmbito público, para defender a terra, a água e o ar, dádivas feitas por Deus Criador a todos, e antes de tudo para proteger o homem contra o perigo da destruição de si mesmo. Os deveres para com o ambiente derivam dos deveres para com a pessoa considerada em si mesma e no seu relacionamento com os outros. Por isso, faz parte da catequese cristã a educação para uma responsabilidade ecológica.

Conclui o Papa: “Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação”. A busca da paz por parte de todos os homens de boa vontade será, sem dúvida alguma, facilitada pelo reconhecimento comum da relação indivisível que existe entre Deus, os seres humanos e a criação inteira. Os cristãos, iluminados pela Revelação divina e seguindo a Tradição da Igreja, prestam a sua própria contribuição. Consideram o cosmos e as suas maravilhas à luz da obra criadora do Pai e redentora de Cristo, que, pela sua morte e ressurreição, reconciliou com Deus ‘todas as criaturas, na terra e nos céus’ (Cl 1, 20).

Cristo crucificado e ressuscitado concedeu à humanidade o dom do seu Espírito santificador, que guia o caminho da história à espera daquele dia em que, com o regresso glorioso do Senhor, serão inaugurados ‘novos céus e uma nova terra’ (2 Pd 3, 13), onde habitarão a justiça e a paz para sempre”.

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JOÃO PAULO II, VENERÁVEL SERVO DE DEUS

Bento XVI autorizou no dia 19 de dezembro de 2009 a publicação dos decretos que reconhecem as virtudes heróicas dos papas João Paulo II e Pio XII, que deste modo passam a ser reconhecidos como “veneráveis” pela Igreja. Agora faz-se necessária a aprovação de um milagre para a beatificação. Esse primeiro passo é fundamental, pois significa que o Venerável viveu em grau heróico as virtudes cristãs, especialmente da fé, esperança e caridade. Nesse primeiro momento convida-se o povo de Deus a contemplar esses irmãos, os Papas Pio XII (1939-1958) e João Paulo II (1978-1995) como modelos de vida cristã, de discipulado cristão.

Na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte de 6 de janeiro de 2001, o Papa João Paulo II nos convidava a contemplar a face de Cristo na profundidade do mistério que os Evangelhos nos revelam, de modo especial a face de Cristo Crucificado e Abandonado, no seu grito angustiante e na sua glória sem fim (nn. 16-28). Um programa para a Igreja e para cada cristão neste século que então iniciava a balbuciar. Sua experiência pessoal, na dor e na doença, demonstrou a coerência entre suas palavras e sua vida carregando a Cruz com o Senhor.

Na Sexta-feira santa comovia ver a figura dolorosa do Papa segurando e contemplando a Cruz do Senhor durante a Via Sacra no Coliseu. Dois amigos no abandono total de amor, Cristo por livre decisão por nós, o Papa por livre aceitação por si e pela Igreja. Cristo crucificado e abandonado, o Papa crucificado, mas recebendo forças do seu Senhor e Mestre. Cristo, sentado na Cruz, seu glorioso trono de amor, o Papa preso a uma cadeira de rodas, a face devastada pela dor, mas sentindo-se revigorado por aquele cujo nome gritou na Praça de São Pedro, em outubro de 1978: “Povos do mundo, não tenhais medo de Cristo!”. E este polonês escolhido para o Trono de Pedro deu provas de não ter medo de Cristo e de sua Cruz: como catequista anunciou-o nas audiências semanais das quartas-feiras; como pregador, anunciou-o no Ângelus do meio-dia de domingo; como cruzado da fé e da paz, anunciou-o em suas 104 viagens apostólicas. Anunciou-o nos numerosos documentos, sínodos, cartas, encíclicas, audiências.

Mas, anunciou-o de modo mais concreto com sua vida. O Papa doente de 2005 não era o jovem Papa que em 1978 atravessava a Praça de São Pedro conclamando o mundo a não ter medo de Cristo, a abrir-lhe todas as portas. O Papa prisioneiro da doença foi do mesmo modo o evangelizador de multidões.

Karol Wojtylla não era um executivo de empresa, o gerente do Estado do Vaticano: a Igreja é mistério, Corpo de Cristo e Povo de Deus. Transcende infinitamente a dimensão burocrática à qual queremos reduzi-la e à qual muitos burocratas eclesiásticos tentam prazerosamente resumi-la. Sua vida era também seu ministério petrino.

Na doença do Papa o Espírito que falou às Igrejas nos revelou uma outra face do pontificado romano: a paternidade espiritual, a paternidade da cruz oferecida pela Igreja e pelo mundo, tão ou mais eficaz do que a inteligência humana do governo.

Papa João Paulo II com a Cruz

João Paulo II alimentou um prazer imenso de ver o povo e de ser por ele visto. Também na doença queria ver o rebanho aflito e por ele ser contemplado. João Paulo II, testemunha qualificada das dores humanas de todos os matizes e credos, das hecatombes do nazismo e do comunismo, que fez suas as dores do ser humano onde quer que se encontrasse, que sentiu na carne o que é ser atravessado por projéteis do terror, que sente a inexorabilidade do morbo incurável, revela sua face solidária e paterna com todos os sofredores do mundo.

Foi ele que insistiu na dimensão do viver a descoberta do Jesus Abandonado, como experiência de vida humana e divina e, portanto, do fazer-se um conosco e com o Pai, com todas as conseqüências: o esvaziamento de cada um de nós para o dom total de si, para ser um no amor.

Uma dimensão de sua vida talvez seja o maior legado que transmitiu à Igreja: o perdão, a penitência pelos pecados de cada cristão e de toda a Igreja. O centro as celebrações do 3º Milênio foi a Liturgia do Perdão na Basílica de São Pedro, em março de 2000: assumindo o peso de dois mil anos de história da Igreja Católica, pediu perdão pelos pecados da Inquisição, do colonialismo, da intransigência, do desprezo pelas minorias, da aliança com o poder, do uso do poder. O Papa perdoou a todos os que perseguiram os cristãos, e pediu perdão em nome de todos os cristãos.

Não foi fácil a um homem que carregava nas costas a tradição de glórias e lutas de 20 séculos, de heroísmo e santidade, proclamar “Nós pecamos!”. Ele realizou esse gesto contemplando o Cristo crucificado, o Cristo que deu a vida por todos, nunca matando.

Felizes nós a quem foi dada a graça de conhecê-lo, ouvi-lo. E agora, é-nos dada a graça de chamá-lo de Venerável João Paulo II.

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BENTO XVI – «A FÉ E A RAZÃO»

Quando os nervos estão à flor da pele, qualquer palavra serve de gatilho e dispara a bala. Foi assim com as palavras do Papa Bento XVI na Universidade de Regensburg (12-09). O tema tratava de um assunto necessário e atual: a relação entre fé e razão. Quando se tira a razão da fé, cai-se na violência, pois torna-se incapaz de compreender a razão do outro. Sempre que se tira uma afirmação de seu contexto se age ou por má fé ou por maldade mesmo. Foi o que aconteceu nestes dias com as explosões anti-papais por multidões manipuladas por líderes violentos, que aproveitaram da ocasião para destilar todo o veneno anti-ocidental, misturando Bento XVI com Bush e o império americano com o cristianismo. Alguns católicos acharam que o Papa não devia ter mexido com isso, como se o Papa fosse um adolescente improvisando afirmações.

Bento XVI buscou um exemplo no século XV, numa citação do imperador bizantino Manuel II Paleólogo (1350-1425), que acabara de sair de uma prisão muçulmana. A declaração do imperador de que a religião de Maomé na sua difusão estava ligada à violência foi até profética: menos de 30 anos após sua morte, em 1453 a cidade de Constantinopla caía nas mãos dos turcos muçulmanos, as igrejas cristãs foram transformadas em mesquitas e a cidade mudou o nome para Istambul.

O Papa poderia ter citado exemplos da própria Igreja nos tempos da Inquisição, do fanatismo de hindus perseguindo católicos e suas obras na Índia, mas citou um exemplo atual: a dificuldade que o Ocidente tem de compreender o complexo mundo muçulmano e a dificuldade que o mundo muçulmano tem de compreender o liberal Ocidente. Bento XVI, teólogo e filósofo refinado, com muitos anos de estrada no diálogo religioso e ecumênico, não foi ingênuo: foi sábio. Contrapôs a Fé-Razão à Fé-Violência. Pouco antes tinha afirmado a impossibilidade de se usar Deus para matar, coagir, perseguir. Ou se crê no Deus da paz e da fraternidade ou se está crendo num ídolo e mergulhando no fanatismo.

O Papa pediu desculpas por ter sido mal interpretado. Evidente que não poderia pedir desculpas pelo que não fez: ofender o profeta Maomé. Homem espiritual, o Papa não alimenta ódio pela diferença religiosa, mas respeito pela consciência de cada um e exigindo que também se respeite a consciência dele.

Respeito não quer dizer aceitação. Um cristão não admite que Deus ditou o Alcorão a Maomé e que ele é o único profeta. Do mesmo modo, um muçulmano não admite que Deus enviou seu Filho Jesus Cristo ao mundo; diz que “o que afirma que Deus tem um Filho deve ser destruído e sepultado no inferno”. Um cristão aceita que um muçulmano pode tornar-se cristão e vice-versa; já o muçulmano afirma que se alguém deixa o Islã,deve ser morto. Nós afirmamos que a pessoa nasce à imagem e semelhança de Deus e que no decorrer da existência forma sua consciência religiosa; para os seguidores de Maomé, toda pessoa nasce muçulmana e, se não o é mais, é por culpa. O islamismo é totalizante: a apostasia da fé destrói a união da família, da comunidade e da nação. No campo religioso, portanto, subtraindo o comum monoteísmo, não há diálogo possível, a não ser o diálogo do respeito, do trabalho pela paz e pela justiça.

Nós, ocidentais, distinguimos entre a esfera política e a religiosa: um país de maioria cristã não pode impor a fé cristã; para os muçulmanos, o Estado tem que ser religioso e governado pelo Alcorão e pela Sharia (código penal muçulmano).

E então? Não há saída possível? Evidente que sim! Mesmo que estejamos convencidos de que a religião pode dividir, que muitos fundamentalistas suprimam o uso da razão na vivência religiosa, há algo de muito profundo que nos une: somos humanos. Apesar de todas as diferenças, e enriquecidos por elas, pertencemos à família humana, à família de um único Deus. “O mundo, nas palavras do Patriarca de Antioquia Inácio IV, nada mais é do que o banquete ao qual Deus convida todos os seus filhos, sem nenhuma exclusão […] e nós somos chamados a enxugar as lágrimas de todos aqueles que choram”.

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DE PEDRO E PAULO A BENTO XVI

15-05-2009: Papa Bento XVI reza no Santo Sepulcro em Jerusalém

15-05-2009: Papa Bento XVI reza no Santo Sepulcro em Jerusalém

Em quatro de outubro de 1965 o Papa Paulo VI realizou histórica visita à Organização das Nações Unidas-ONU, marcada pela corajosa defesa da paz e da justiça entre as nações. No solene e austero Auditório se apresentou dizendo: “Meu nome é Pedro”.

Desde Simão Pedro, o pescador da Galiléia, foram 264 os homens que afirmaram terem o mesmo nome: Pedro. Bento XVI é o 265º, tantos foram os bispos de Roma e pastores universais da Igreja Católica.

Por que o nome de Pedro? É muito claro no Novo Testamento que Jesus confiou a Simão Pedro uma missão especial no colégio dos Apóstolos, e a Igreja primitiva assim o entendeu. Pedro recebeu de Jesus o encargo de confirmar os irmãos na fé, de ser a pedra sobre a qual construir a Igreja que professa “Tu és o Cristo, o Filho de Deus”. Pedro talvez não fosse o melhor de todos, mas foi o escolhido. O discípulo predileto era João, mas a Pedra da Igreja foi Pedro, aquele que traiu vergonhosamente o Mestre a amigo, mas que se arrependeu e chorou o pecado.

É Pedro o primeiro a falar no dia de Pentecostes, quando nasce a primeira comunidade cristã. É Pedro que preside a Igreja em Jerusalém e Antioquia. É Pedro que confirma a Igreja em Roma onde, juntamente com Paulo, derrama o sangue como preço pela fidelidade ao Mestre e Salvador.

A vida e morte de Pedro e Paulo em Roma, onde estão seus túmulos, fazem da Igreja de Roma a primeira entre todas as Igrejas. A primeira não em poder, mas a primeira no serviço em defesa da unidade da fé e da santidade de vida dos cristãos.

Pedro é o símbolo da Igreja que vem do Judaísmo, da grande tradição de Moisés e dos Profetas; Paulo simboliza a mesma Igreja, mas aberta a todos os povos, universal, católica. Pedro funda a Igreja sobre a herança de Israel, Paulo abre suas portas a todos os povos.

Os Papas, bispos de Roma, têm essa missão: conservar a fidelidade à Sagrada Escritura e levar o Senhor e Salvador Jesus Cristo a todos os povos. Um Papa não pode ser julgado pela simpatia ou popularidade: seu julgamento é a Palavra de Deus e a fidelidade a Cristo. 

Os Papas, servidores da Verdade e da Vida

Jesus se definiu como “Caminho, Verdade e Vida”. Ele é, portanto, o caminho, a verdade e a vida da Igreja e da vida de cada cristão. Essa é a Verdade pela qual o Papa deve zelar, ao preço da crítica, do deboche, do martírio. O que importa não é agradar, mas a fidelidade sem fraquejar. Numa civilização em que “agradar” é o preço de quase tudo, falar em defesa da verdade e da vida pode soar antiquado e o Papa recebe todos os títulos de ser contra a caminhada da História.

Sua recente viagem à África mostrou isso com muita crueza: tiraram uma frase do contexto e quiseram expor o Papa ao ridículo de ser assassino de pobres por condenar a tão falada “camisinha”. As reações da Europa (Bélgica, França e Alemanha especialmente) ao Papa têm escopo intimidatório, pois o Papa falou do primado dos pobres, da exploração das riquezas da África (petróleo e diamante em Angola), do retorno ao neo-colonialismo. Atacando e desmoralizando o Papa, tirando a frase do contexto (só preservativo não resolve), buscou-se intimidá-lo. É bom um Papa enfraquecido para que os pobres não tenham mais um defensor universal. Uma Europa que quer fechar as fronteiras aos imigrantes que fogem da miséria sente-se muito incomodada diante do Papa que reafirma um não à intolerância e à exclusão dos pobres.

Bento XVI é um homem que leva a peito a palavra com que iniciou seu pontificado em 19 de abril de 2005: “Sou um humilde operário da vinha do Senhor”. Essa humildade o leva a pedir desculpas por alguma colocação menos feliz, retroceder quando tem uma visão mais clara da situação. Ele revela que o Papa não sabe tudo, mas quer acertar na fidelidade ao Senhor das consciências e da vida, Jesus Cristo. Como servidor o Papa tem claro que sua missão será traída se, para agradar o auditório, trair a Palavra do Senhor. 

A força do Senhor e a fragilidade dos Papas

O mesmo Pedro que declarou Cristo o Filho de Deus, que jurou dar a vida por ele, depois o traiu na véspera de sua Paixão. Mas esse mesmo Pedro soube se arrepender e, no perdão, redobrar o amor pelo Mestre.

A História da Igreja tem casos de Papas que pecaram, que esqueceram sua missão religiosa, que não foram o melhor exemplo de discipulado. Mas, nem por isso a Igreja tornou-se pecado. Nos piores momentos da história eclesial o Espírito despertou grandes expoentes de santidade e movimentos de espiritualidade. É o Espírito prometido e derramado sobre os cristãos que garante a contínua regeneração do tecido eclesial. É muito feliz a expressão: a Igreja é santa em sua Cabeça. Cristo, e pecadora em seus membros, nós. O Papa é sempre membro da Igreja, mesmo que seu ministério seja o de maior responsabilidade.

É na fragilidade que se manifesta a força de Cristo e do Evangelho.

Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI, nasceu em Marktl am Inn, diocese de Passau (Alemanha), no dia 16 de abril de 1927 (Sábado Santo), e foi batizado no mesmo dia. Seu pai, comissário da polícia, provinha duma antiga família de agricultores da Baixa Baviera, de modestas condições econômicas. Sua mãe era filha de artesãos de Rimsting, no lago de Chiem, e antes de casar trabalhara como cozinheira em vários hotéis.

É dessa família humilde que sai um dos grandes teólogos do século XX e o principal amigo e conselheiro de João Paulo II: Bento XVI. Sua avançada idade – 82 anos – não o impede de exercitar corajosamente o ministério petrino, ser humildemente o primeiro entre os iguais no episcopado e ser irmão de cada um de nós na fé, conosco pedindo perdão dos pecados e anunciando a graça do Senhor. Declarou, no dia de seu aniversário: “Como tive a chance de afirmar recentemente, nunca me sinto só. Além do mais, nesta particular semana santa, que para a liturgia constitui um só dia, experimentei a comunhão que me rodeia e me sustenta: uma solidariedade espiritual, nutrida essencialmente de orações, que se manifesta de mil maneiras”, disse o Pontífice.

O Papa não está só, nós não estamos sós: o Povo de Deus continuamente eleva aos céus a oração que invoca o Espírito sobre os membros da Igreja e de toda a família humana.

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