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A LITURGIA – AÇÃO DO ESPÍRITO E DA IGREJA

2011-06 – «Liturgia cósmica» – Igreja S. Martini – Bremen

Estando para celebrar os 50 anos do início do Vaticano II (1962-1965), seria útil refletirmos sobre sua grande obra, a reforma litúrgica, com a Constituição Sacrosantum Concilium.

O Espírito e a Esposa dizem: “Vem!”  E quem escuta, repete: “Vem!” Quem tem sede, que venha; quem quiser, beba gratuitamente da água da vida” (Apc 22,17).

Com estas palavras, o papa João Paulo II iniciou, em 4 de dezembro de 2003, a Carta Apostólica O Espírito e a Esposa, para comemorar os 40 anos da reforma litúrgica durante o Concílio do Vaticano II, uma das grandes graças recebidas pelo povo de Deus no século XX. O Espírito é o Espírito Santo, a Esposa é a Igreja que, durante a celebração da liturgia pedem ao Senhor Jesus: “Vem!” E o Senhor vem, oferecendo gratuitamente a “água viva”, o dom de Deus.

A celebração litúrgica não é uma cerimônia, não é um show, não é um grupo de oração. Não é um momento solto na vida da Igreja, disse o Papa. Ela está inserida na história da salvação, cuja finalidade é a redenção humana e a perfeita glorificação de Deus. O início foi a ação divina no Antigo Testamento, a realização aconteceu no Mistério pascal: na Paixão, ressurreição da morte e gloriosa ascensão.

A salvação humana e a glorificação de Deus não podem ficar no passado: devem ser anunciadas e realizadas continuamente na Eucaristia e nos Sacramentos até o retorno glorioso do Senhor. Por isso, nós, a cada Celebração eucarística, proclamamos: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição: Vinde, Senhor Jesus!” E ele vem, como virá glorioso no final dos tempos.

Cada celebração é obra de Cristo Sacerdote e da Igreja, nela se participa das alegrias da Jerusalém celeste. Assim, a Liturgia é o ponto mais alto, o ápice da ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde vem toda a sua força, afirma o Concílio. Uma comunidade cristã que não vive da celebração litúrgica, sofre de anemia espiritual e se transforma num grupo de ação social ou de convivência, com devoções e tradições, onde o importante não é mais a graça, e sim, os sentimentos humanos.

Obra do Espírito e da Igreja

Nenhuma obra na Igreja se compara ou se iguala, em eficácia e nível, à celebração litúrgica. Mas, é também verdade que a Liturgia não esgota a ação da Igreja: ela supõe o anúncio do Evangelho, a catequese e o testemunho de vida do cristão. Tudo isso converge para que a celebração litúrgica seja mais profunda, verdadeira, vital.

Não basta reformar a Liturgia: é preciso reformar a assembléia cristã, aprofundar o conhecimento do mistério da salvação. Existem liturgias modernas, mas não renovadas. Seguem a moda, são superficiais.

Uma equipe de liturgia, ou uma assembléia cristã mal formadas, mesmo com a maior boa vontade, confundirá Liturgia com cerimônia, show, onde padre, músicos, comentaristas e leitores competirão em aparecer e oferecer novidades. Em vez da redenção e da glória de Deus buscarão a glória pessoal e a realização sentimental dos participantes.

O Pe. Zezinho, em artigo na revista Família Cristã, alertou: “Invadiram a Missa!”. Ele quer chamar a atenção para o fato de que se “usa” a Missa para lembrar acontecimentos humanos, lançar cantores e músicas, padresshow, promover políticos, enfim, profanar o encontro do Espírito Santo e da Igreja com truques humanos. Chega-se a confundir a eficácia dos Sacramentos com o nível de sentimentos provocados. Deixa-se de lado a ação divina e se busca a eficácia de recursos humanos.

Para um verdadeiro aprofundamento da vida litúrgica, uma pastoral litúrgica, o Santo Padre chama atenção para alguns pontos: um renovado interesse pela Palavra de Deus, o domingo, a arte e a música sacras, a experiência do silêncio, o gosto pela oração. Tudo com uma finalidade única: escutarmos a voz do Espírito e da Esposa, a Igreja, que convidam o Senhor Jesus: “Vem!”, e ele respondendo, sempre: “Vem, beber na fonte da água viva!”

Liturgia – Palavra e Sacramento – «O Verbo se fez carne»- Giovanni Thoux

A RENOVAÇÃO DA PESSOA E DA ASSEMBLÉIA CRISTÃS

É a segunda etapa da renovação litúrgica: a renovação da pessoa e da assembléia cristãs. A primeira etapa foi do entusiasmo criativo, das novidades, das experiências litúrgicas. Isso já não basta: estamos no tempo da renovação do cristão diante do mistério pascal celebrado em cada liturgia.

A Palavra de Deus – fonte da liturgia

Na escuta da Palavra de Deus se edifica e cresce a Igreja. A Palavra escutada na ação litúrgica é para depois atuar em nossa vida. A Eucaristia é constituída de duas liturgias, inseparáveis e insubstituíveis: a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. Uma leva à outra, uma necessita de outra. Conta-se que Deus veio à terra falar com um velho santo e sábio e lhe disse: “Vocês cristãos têm muita riqueza, riqueza demais. Vocês têm a Bíblia e a Eucaristia. Proponho então que você, em nome do povo, faça uma escolha: quer ficar com a Bíblia ou com a Eucaristia?” O santo e sábio ancião não hesitou e respondeu: “Quero a Bíblia!”. Por que essa resposta? Inteligente, ele sabia que sem a Bíblia não há Eucaristia e com a Bíblia, há. Essa pequena história diz algo de muito sério: só participa plenamente da riqueza dos Sacramentos aquele que escuta a Palavra de Deus. Sem a Bíblia, tudo passa a ser devoção barata.

O Domingo, dia do Senhor

O Domingo, dia em que se celebra de modo especial a ressurreição de Cristo, encontra-se no centro da vida litúrgica como fundamento e núcleo de todo o ano litúrgico. O povo do Antigo Testamento celebra o Sábado, o sétimo dia da criação. Os cristãos, povo do Novo Testamento, celebram o Domingo, o primeiro dia da nova criação. Desde o início, conservando todo o respeito pelo povo judeu, a Igreja escolheu para celebrar a Eucaristia o dia do Domingo, dia em que o Senhor recriou o mundo com sua ressurreição gloriosa.Em cada Sacramento a Igreja faz a memória, traz a presença do Cristo glorioso.

Corremos o perigo de isolar o Domingo, transformando-o em dia de lazer. Para muitos cristãos, já é norma participar somente da Missa de sábado, pois assim estarão “livres”. A renovação litúrgica permite isso, mas como exceção, pois o Dia do Senhor, dia do encontro da assembléia e da família cristãs é o Domingo.

Até o século IV, o domingo não era feriado, mas os cristãos não se esqueciam de participar da Eucaristia bem cedo, antes de irem ao trabalho. Eram movidos pela alegria de celebrar a ressurreição. As Igrejas do Oriente, ainda hoje celebram a Eucaristia somente no domingo, para ter bem presente o que se está celebrando: a presença do Senhor ressuscitado.

A música na Liturgia

O Concílio do Vaticano II deixou bem claro a função da música sacra: a glória de Deus e a santificação dos fiéis. É um instrumento privilegiado para facilitar uma participação ativa dos fiéis na ação sagrada. A música tem um lugar bem determinado no contexto da celebração litúrgica: ela visa levar os fiéis a viverem o momento celebrativo. Em outras palavras: o canto de entrada facilita o recolhimento da comunidade, o canto da apresentação das oferendas leva à vivência do que se oferta, o canto da comunhão nos faz mergulhar no mistério da união pessoa-Cristo. Toda música litúrgica é música sacra, mas nem toda música sacra é música litúrgica. Há cantos feitos para Celebrações da Palavra, encontros, retiros, grupos de reflexão, de oração e não têm finalidade litúrgica. Por isso mesmo, é de grande necessidade a formação litúrgica dos compositores e cantores para que de um modo sempre mais belo levem os irmãos à vivência do mistério litúrgico.

«Liturgia – oferta da criação ao Senhor» – Igreja S. Paulo – Augsburg

SILÊNCIO E ORAÇÃO

Hoje sentimos uma necessidade mais profunda, a da interiorização do mistério. A liturgia deve conduzir os participantes a viverem o mistério da paixão e morte-ressurreição gloriosa de Cristo. E para isso, nada pode substituir o gosto pela Palavra de Deus, pela música litúrgica, o silêncio e a oração. Há, em cada um de nós, um desejo profundo de encontro com Deus. A Liturgia oferece uma resposta eficaz a esse desejo, afirma o Papa, especialmente na Eucaristia, na qual nos é concedido unir-nos ao sacrifício de Cristo e alimentar-nos do seu Corpo e do seu Sangue.

Todos devem sentir-se acolhidos no interior das assembléias, de maneira a poder respirar a atmosfera da primeira comunidade cristã: “Eles eram assíduos na escuta do ensinamento dos Apóstolos e na união fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2,42).

Deus nos fala no silêncio

Nossa sociedade, escreveu João Paulo II, é cada vez mais barulhenta. Ela procura destruir os momentos de silêncio, a fim de tirar de nós a capacidade de ouvir, meditar, acolher a Palavra de Deus e do próximo. A pedagogia litúrgica poderia muito bem começar com a educação ao silêncio, tendo diante dos olhos o exemplo de Jesus que, “tendo saído de casa, se retirou num lugar deserto para ali rezar” (Mc 1,35). Todos os mestres de espiritualidade insistiram no exercício do silêncio: através dele nós recolhemos as antenas dos sentidos externos para ativarmos os sentidos internos, onde Deus nos fala. Quem tem medo do silêncio, tem medo de si, medo de Deus, medo da vida. O barulho é um caminho de fuga de si mesmo.

A reforma litúrgica suprimiu da antiga Liturgia as orações e hinos que tinham ocupado o lugar do silêncio. Infelizmente, novamente se assiste a uma ocupação destes momentos de silêncio com cantos e comentários, fundos musicais, dando a impressão de que o silêncio é vácuo, ausência de sentido.

Há momentos de silêncio na atual liturgia: no Ato Penitencial, após os Oremos, durante a Consagração e após a Comunhão. O silêncio é sempre fértil, porque nos faz escutar o Senhor no confronto com a realidade de nossa vida.

O gosto pela oração

Afirma Santa Teresa que “orar é uma conversa de amigos”. A Liturgia é a mais profunda e perfeita conversa com o Amigo que conosco celebra o mistério da salvação.

A oração comunitária é mais rica quando fruto de um espírito que vive em contínua oração; e a oração particular é mais fecunda quando conseqüência de uma profunda participação na oração comunitária. E mais fecunda ainda é quando fruto da leitura bíblica.

O ato litúrgico é ato de toda a Igreja, é oração de todo o Povo de Deus. Se não formos educados para essa união universal na oração, a celebração litúrgica ser-nos-á cansativa, pesada, dando até a impressão de nos tirar a criatividade da oração. Assim, não há conflito entre oração privada e oração litúrgica, pois em ambas é o Espírito de Deus que intercede em nós e “por nós, com gemidos inexprimíveis” (Rm 8,26).

A criatividade é necessária e positiva, desde que não ofusque o mistério que se está celebrando e rezando: a paixão, morte e ressurreição gloriosa do Senhor, o Mistério pascal.

Podemos concluir com o Bem-aventurado João Paulo II, agora celebrando a Liturgia eterna: “Que neste início de milênio se desenvolva uma “espiritualidade litúrgica”, que leve as pessoas a tomarem consciência de Cristo como primeiro “liturgista”, que não cessa de agir na Igreja e no mundo, em virtude do Mistério pascal continuamente celebrado, e associa a si a Igreja, para louvor do Pai, na unidade do Espírito Santo”.

Pe. José Artulino Besen

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A PALAVRA DE DEUS, FONTE INESGOTÁVEL

Luz sobre a Palavra – Daniel Lifschitz – 1990

“O Senhor coloriu com muitos tons a sua palavra”. O estudo científico das Escrituras, necessário para enriquecermos a compreensão do texto, pode levar a uma repetição monótona: esse texto significa isso, e pronto! esse capítulo vem dessa fonte, esse versículo dessa outra, como se cada palavra não dependesse do contexto e do leitor. João XXIII reclamava dos que faziam da Bíblia um salame servido em fatias.

Evidente que não é esse o objetivo dos exegetas, dos estudiosos. Todo texto é aberto a muitos significados além de seu contexto. Esse significado se nos revela de acordo com o momento que vivemos. Veja-se a parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-32): se a lermos todos os dias, a cada leitura teremos uma experiência diferente, porque nós estaremos vivendo um momento diferente.

Se, além disso, termos presente que é Palavra de Deus, as experiências serão tão ricas e infinitas como o próprio Deus. Ele nos fala sempre de modo apropriado para cada situação de nossa vida.

Os verdadeiros leitores da Palavra exclamam: “tantas vezes li, ouvi, e nunca me passou pela cabeça esse sentido, essa imagem, essa lição”. Deus não se deixa aprisionar em nossas armadilhas mentais e simplificadoras. A Bíblia, pela multiplicidade de textos, livros, épocas é um bosque riquíssimo onde o verde da Vida oferece mais tons do que podemos enxergar. Afirmou Martinho Lutero: “Seria necessário viver três anos acompanhando Jesus, como os Apóstolos, para entendermos um pouco da parábola da ovelha perdida (Lc 15, 1-7). Mesmo que acompanhássemos os Apóstolos por cem anos, não teríamos compreendido o Evangelho”.

Fundamental é ter presente que a Bíblia somente alcança seu sentido pleno na Igreja: é um livro que Deus dirige a seu povo. A Palavra se dirige à pessoa que busca salvação, mas essa pessoa não busca isoladamente a salvação e sim, na comunidade. Sem essa inserção na Igreja teremos a calamidade da formação de seitas.

O Concílio do Vaticano II, quando ensinou sobre a verdade na Sagrada Escritura deu-nos essa segura definição: “Os Livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade relativa à nossa salvação, que Deus quis fosse consignada nas Sagradas Escrituras” (Dei Verbum, 11). Portanto, na Bíblia há história, geografia, antropologia, mas não é essa sua finalidade. Deus Pai quis fazer dela uma carta de amor, de amigo, uma carta de salvação. E sabemos que do divino ventre materno brotam surpresas sem fim. Do Espírito Santo, o artista da salvação, surge a riqueza da vida dos crentes: basta ver a variedade dos Santos, cada um com seu carisma e modo de expressar o amor.

Cada fiel tem na Escritura o seu caminho e jeito de salvação. Um mesmo texto leva um pecador às lágrimas da conversão, um bispo ao compromisso com o rebanho, um casal à vivência conjugal cristã, um jovem a nutrir o heroísmo dos idealistas.

“O Senhor coloriu com muitos tons a sua palavra”: é um quadro multicolorido, é um jardim de muitas flores. Os fundamentalistas (que interpretam o texto bíblico ao pé da letra) não sentem a riqueza desse jardim e repetem as mesmas coisas, beirando o fanatismo. Quem lê a Bíblia sabendo de suas muitas cores nunca será fanático, pois estará aberto à riqueza que o Espírito sopra nos que lêem com fé a Palavra.

Os Pais da Igreja sempre viram nas Escrituras diversos sentidos: o literal (o que o texto diz), o espiritual (o que o Espírito diz para minha vida de fé) e o moral (o que o texto diz para minha vivência da fé). E cada sentido, por sua vez, se subdivide quase sem limites. Assim, ao lermos o texto temos a experiência da imagem, da contemplação da obra divina e do compromisso vital com o Senhor da Aliança.

O sírio Santo Efrém (+373), apelidado de “harpa do Espírito Santo” por sua poesia mística, mantinha uma escola bíblica para ensinar os cristãos a sentirem a beleza e riqueza da Palavra de Deus escreveu: “O sedento enche-se de gozo ao beber e não se aborrece por não poder esgotar a fonte”. Santo Irineu diz que “são muitas as águas do Espírito de Deus, porque é muita a riqueza e grandeza do Pai” (Adv. Haer. 4,14,2-3). Alguém ficaria triste por não conseguir beber toda a água de um poço? Pelo contrário, se alegra, pois na próxima sede retorna e encontra água. Assim acontece com quem bebe da Água viva do Espírito Santo que jorra da Bíblia: quanto mais profundidade alcança na contemplação do mistério, mais sede tem de beber dessa Água e ficará feliz por nunca esgotá-la.

Efrém conclui: “Vença a fonte a tua sede, mas não vença a tua sede a fonte” (Coment. in Diatéssaron, 1,18-18).

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ALTAR DA PALAVRA – ALTAR DO SACRIFÍCIO

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Quiseram saber de um arquiteto qual era a função das catedrais e ele respondeu prontamente: A catedral e qualquer outra igreja tem uma finalidade: abrigar um altar.

Tudo o mais, na igreja, se desenvolve ao redor do altar: a leitura da Palavra, o ministério ordenado, o sacrário, o incenso, a celebração da Eucaristia, a adoração. Entrando numa igreja, nosso olhar se volta para o sacrário, mas, o certo seria voltar-se primeiro para o altar. Em algumas igrejas o Santíssimo é guardado e exposto em capelas laterais, realçando assim a centralidade do altar da Celebração.

E são dois os altares guardados nas igrejas: o altar da Palavra (ambão) e o altar da Celebração, pois são duas as liturgias da grande Liturgia: a da Palavra e a Eucarística. A unidade delas nos coloca dentro da Eucaristia, da ação de graças celebrada pelo Povo de Deus partindo da memória da ação divina desde a criação até o momento histórico vivido pelos concelebrantes. O altar da Palavra e o altar da Celebração nos fazem mergulhar na vida divina e nela encontrar a nossa vida, tanto para ser resgatada como para ser glorificada.

Após escutarmos Deus que nos fala, a comunidade reunida em torno do Altar é convidada a subir ao mundo divino: “Corações ao alto!”, com a pronta resposta “O nosso coração está em Deus”, para cumprir o dever e salvação de dar graças ao Senhor nosso Deus.

O altar, receptáculo do mistério da salvação

Em seu inspirado ícone “A Santíssima Trindade”, Andrej Rublev desenhou um sacrário entre as Três Pessoas Divinas. Em forma de um cofre, o sacrário contém misteriosamente toda a graça divina e sobre ele está o Cordeiro que se imola. O sacrário/cofre é o altar da Trindade: nele está contido todo o tesouro da salvação, todo o segredo da vida divina ofertada à participação humana. Nesse cofre misterioso estamos todos nós quando nos reunimos para a Eucaristia.

São João Crisóstomo, monge e patriarca de Constantinopla (século IV), afirmou numa de suas homilias: O altar é o lugar que acolhe Cristo: manjedoura, cruz e sepultura.

Frente a essa verdade, cada igreja é um templo cósmico onde acontece a liturgia celeste. Como que, a igreja/igrejinha/palhoça/sombra de árvore/catedral que acolhe o altar encerra a vida trinitária em cada celebração eucarística. Para a glória do Pai, no Espírito Santo, em cada Eucaristia o altar é o cenário celeste/terrestre onde o Filho se encarna, é a Belém onde Maria dá à Luz, é o Calvário, a Cruz e a Sepultura do Senhor ressuscitado. Não é a repetição de acontecimentos – o Cristianismo não é religião de ciclos cósmicos – mas é a celebração sacramental da eternidade do Filho que se encarnou e faz-nos partícipes da vida trinitária através da comunhão do Pão.

O altar faz-nos viver Belém e Jerusalém, o Pão nele preparado faz-nos em-divinizar por graça da em-carnação divina. Comendo o Pão, entramos em comunhão com Deus e em Deus nos tornamos um só Povo.

A mesa da Ceia e o altar do Templo

Não existe uma relação direta entre o altar de nossa igreja e o altar do sacrifício no templo de Jerusalém. Nosso altar é fruto daquela casa que o Senhor pediu a seus discípulos aprontarem para comer a Ceia pascal (cf. Mc 14, 12-16). Os primeiros cristãos, vindos do judaísmo, ofertavam sacrifícios no templo e ao mesmo tempo se reuniam em casas para a Fração do Pão (At 2,42). O gesto de Cristo na última ceia foi tão forte que a primeira comunidade tinha claro que devia celebrar o mesmo gesto em memória do Senhor: Fazei isso em memória de mim. Quando, no ano 70, o templo foi destruído pelos romanos, a comunidade cristã não se sentiu órfã da liturgia: a mesa da Ceia era o templo do Senhor. Cada casa torna-se templo. Compreenderam melhor o que o Senhor dissera: em qualquer lugar se invoca o Senhor em espírito e verdade, o sacrifício agradável a Deus é seu povo reunido para receber a Vítima que ele oferece. Em Jerusalém o povo oferecia vítimas ao Senhor; na Jerusalém cristã a vítima é Deus que oferece: seu Filho. Não se transforma em fumaça que sobe aos céus, mas em trigo triturado e amassado para ser Pão de Vida e Unidade.

Assim rezamos: “Confiante, entregou em vossas mãos seu espírito, cumprindo inteiramente vossa santa vontade, revelando-se, ao mesmo tempo, sacerdote, altar e cordeiro” (Prefácio da Páscoa, V). Cristo é o Sacerdote (o padre é ministro), Cristo é o Altar (nosso altar é instrumento), Cristo é cordeiro (nós somos comensais).

O altar, local de cura, de paz e de ação de graças

A Nova Aliança não nega a Antiga: o antigo altar torna-se imagem do novo altar que não é de pedra, mas é o próprio Senhor. Jerusalém deixa de ser uma cidade para tornar-se a Cidade.

Belém é a Casa do Pão, Jerusalém é a Cidade da Paz. O altar da Palavra e o altar da Eucaristia nos alimentam enquanto caminhamos para a casa da Paz, construída já agora pelo nosso esforço, testemunho e tornando-nos, também nós, à semelhança de Cristo, sacerdotes-altares-cordeiros para o mundo.

Então a Palavra de Deus adquire todo a sua verdade e sabor: “Ó Deus, relembramos a vossa misericórdia, no interior de vosso templo” (Sl 47, 10); “Que alegria quando me vieram dizer: Vamos subir à casa do Senhor!” (Sl 121, 1).

O altar transforma-se em leito para a recuperação dos feridos pelo pecado da violência, da injustiça e das idolatrias: “O Senhor reconstrói Jerusalém, congrega os dispersos de Israel. Ele cura os que têm o coração ferido, e pensa-lhes as chagas” (Sl 146, 2-3).

Acima de tudo, porém, o altar que reúne o povo cristão é o centro da alegria, é o impulso para que sejamos comunidades de louvor: “Louva, ó Jerusalém, o Senhor, louva o teu Deus, ó Sião (Sl 147, 3).

Pe. José Artulino Besen

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