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IREI AO TEU ENCONTRO

Oração ao encontro da morte

Creio, sim, eu creio que num dia,
o teu dia, ó meu Deus,
me dirigirei ao teu encontro com meus passos titubeantes,
com todas as minhas lágrimas na palma da mão,
e com esse coração maravilhoso que tu nos deste,
esse coração grande demais para nós
porque foi feito para ti…

Um dia te encontrarei, e tu lerás em minha face
todo o desconforto, todas as lutas
todo o lixo dos caminhos da liberdade.
E verás todo o meu pecado.
Mas eu sei, meu Deus,
que o pecado não é grave,
quando se está na tua presença.
É diante dos homens que somos humilhados.
Mas, diante de ti, é maravilhoso sermos assim tão pobres,
a tal ponto somos amados!

Um dia, no teu dia, meu Deus, eu irei ao teu encontro.
E na autêntica explosão da minha ressurreição,
saberei então que és tu, a ternura,
que és tu, a minha liberdade.
Irei ao teu encontro, meu Deus,
E tu me darás a tua face.
Irei ao teu encontro com o meu sonho mais louco:
Entregar-te o mundo em meus braços.

Irei ao teu encontro, e gritarei a plenos pulmões
toda a verdade da vida sobre a terra.
Te gritarei o meu grito que vem da profundeza dos séculos:
“Pai! Tentei ser um homem,
E sou teu filho”.

JACQUES LECLERCQ
Collectif, Ecoute, Seigneur, ma prière,
Paris 1988, p. 490
tradução: Pe. José A. Besen
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A LITURGIA – AÇÃO DO ESPÍRITO E DA IGREJA

2011-06 – «Liturgia cósmica» – Igreja S. Martini – Bremen

Estando para celebrar os 50 anos do início do Vaticano II (1962-1965), seria útil refletirmos sobre sua grande obra, a reforma litúrgica, com a Constituição Sacrosantum Concilium.

O Espírito e a Esposa dizem: “Vem!”  E quem escuta, repete: “Vem!” Quem tem sede, que venha; quem quiser, beba gratuitamente da água da vida” (Apc 22,17).

Com estas palavras, o papa João Paulo II iniciou, em 4 de dezembro de 2003, a Carta Apostólica O Espírito e a Esposa, para comemorar os 40 anos da reforma litúrgica durante o Concílio do Vaticano II, uma das grandes graças recebidas pelo povo de Deus no século XX. O Espírito é o Espírito Santo, a Esposa é a Igreja que, durante a celebração da liturgia pedem ao Senhor Jesus: “Vem!” E o Senhor vem, oferecendo gratuitamente a “água viva”, o dom de Deus.

A celebração litúrgica não é uma cerimônia, não é um show, não é um grupo de oração. Não é um momento solto na vida da Igreja, disse o Papa. Ela está inserida na história da salvação, cuja finalidade é a redenção humana e a perfeita glorificação de Deus. O início foi a ação divina no Antigo Testamento, a realização aconteceu no Mistério pascal: na Paixão, ressurreição da morte e gloriosa ascensão.

A salvação humana e a glorificação de Deus não podem ficar no passado: devem ser anunciadas e realizadas continuamente na Eucaristia e nos Sacramentos até o retorno glorioso do Senhor. Por isso, nós, a cada Celebração eucarística, proclamamos: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição: Vinde, Senhor Jesus!” E ele vem, como virá glorioso no final dos tempos.

Cada celebração é obra de Cristo Sacerdote e da Igreja, nela se participa das alegrias da Jerusalém celeste. Assim, a Liturgia é o ponto mais alto, o ápice da ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde vem toda a sua força, afirma o Concílio. Uma comunidade cristã que não vive da celebração litúrgica, sofre de anemia espiritual e se transforma num grupo de ação social ou de convivência, com devoções e tradições, onde o importante não é mais a graça, e sim, os sentimentos humanos.

Obra do Espírito e da Igreja

Nenhuma obra na Igreja se compara ou se iguala, em eficácia e nível, à celebração litúrgica. Mas, é também verdade que a Liturgia não esgota a ação da Igreja: ela supõe o anúncio do Evangelho, a catequese e o testemunho de vida do cristão. Tudo isso converge para que a celebração litúrgica seja mais profunda, verdadeira, vital.

Não basta reformar a Liturgia: é preciso reformar a assembléia cristã, aprofundar o conhecimento do mistério da salvação. Existem liturgias modernas, mas não renovadas. Seguem a moda, são superficiais.

Uma equipe de liturgia, ou uma assembléia cristã mal formadas, mesmo com a maior boa vontade, confundirá Liturgia com cerimônia, show, onde padre, músicos, comentaristas e leitores competirão em aparecer e oferecer novidades. Em vez da redenção e da glória de Deus buscarão a glória pessoal e a realização sentimental dos participantes.

O Pe. Zezinho, em artigo na revista Família Cristã, alertou: “Invadiram a Missa!”. Ele quer chamar a atenção para o fato de que se “usa” a Missa para lembrar acontecimentos humanos, lançar cantores e músicas, padresshow, promover políticos, enfim, profanar o encontro do Espírito Santo e da Igreja com truques humanos. Chega-se a confundir a eficácia dos Sacramentos com o nível de sentimentos provocados. Deixa-se de lado a ação divina e se busca a eficácia de recursos humanos.

Para um verdadeiro aprofundamento da vida litúrgica, uma pastoral litúrgica, o Santo Padre chama atenção para alguns pontos: um renovado interesse pela Palavra de Deus, o domingo, a arte e a música sacras, a experiência do silêncio, o gosto pela oração. Tudo com uma finalidade única: escutarmos a voz do Espírito e da Esposa, a Igreja, que convidam o Senhor Jesus: “Vem!”, e ele respondendo, sempre: “Vem, beber na fonte da água viva!”

Liturgia – Palavra e Sacramento – «O Verbo se fez carne»- Giovanni Thoux

A RENOVAÇÃO DA PESSOA E DA ASSEMBLÉIA CRISTÃS

É a segunda etapa da renovação litúrgica: a renovação da pessoa e da assembléia cristãs. A primeira etapa foi do entusiasmo criativo, das novidades, das experiências litúrgicas. Isso já não basta: estamos no tempo da renovação do cristão diante do mistério pascal celebrado em cada liturgia.

A Palavra de Deus – fonte da liturgia

Na escuta da Palavra de Deus se edifica e cresce a Igreja. A Palavra escutada na ação litúrgica é para depois atuar em nossa vida. A Eucaristia é constituída de duas liturgias, inseparáveis e insubstituíveis: a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. Uma leva à outra, uma necessita de outra. Conta-se que Deus veio à terra falar com um velho santo e sábio e lhe disse: “Vocês cristãos têm muita riqueza, riqueza demais. Vocês têm a Bíblia e a Eucaristia. Proponho então que você, em nome do povo, faça uma escolha: quer ficar com a Bíblia ou com a Eucaristia?” O santo e sábio ancião não hesitou e respondeu: “Quero a Bíblia!”. Por que essa resposta? Inteligente, ele sabia que sem a Bíblia não há Eucaristia e com a Bíblia, há. Essa pequena história diz algo de muito sério: só participa plenamente da riqueza dos Sacramentos aquele que escuta a Palavra de Deus. Sem a Bíblia, tudo passa a ser devoção barata.

O Domingo, dia do Senhor

O Domingo, dia em que se celebra de modo especial a ressurreição de Cristo, encontra-se no centro da vida litúrgica como fundamento e núcleo de todo o ano litúrgico. O povo do Antigo Testamento celebra o Sábado, o sétimo dia da criação. Os cristãos, povo do Novo Testamento, celebram o Domingo, o primeiro dia da nova criação. Desde o início, conservando todo o respeito pelo povo judeu, a Igreja escolheu para celebrar a Eucaristia o dia do Domingo, dia em que o Senhor recriou o mundo com sua ressurreição gloriosa.Em cada Sacramento a Igreja faz a memória, traz a presença do Cristo glorioso.

Corremos o perigo de isolar o Domingo, transformando-o em dia de lazer. Para muitos cristãos, já é norma participar somente da Missa de sábado, pois assim estarão “livres”. A renovação litúrgica permite isso, mas como exceção, pois o Dia do Senhor, dia do encontro da assembléia e da família cristãs é o Domingo.

Até o século IV, o domingo não era feriado, mas os cristãos não se esqueciam de participar da Eucaristia bem cedo, antes de irem ao trabalho. Eram movidos pela alegria de celebrar a ressurreição. As Igrejas do Oriente, ainda hoje celebram a Eucaristia somente no domingo, para ter bem presente o que se está celebrando: a presença do Senhor ressuscitado.

A música na Liturgia

O Concílio do Vaticano II deixou bem claro a função da música sacra: a glória de Deus e a santificação dos fiéis. É um instrumento privilegiado para facilitar uma participação ativa dos fiéis na ação sagrada. A música tem um lugar bem determinado no contexto da celebração litúrgica: ela visa levar os fiéis a viverem o momento celebrativo. Em outras palavras: o canto de entrada facilita o recolhimento da comunidade, o canto da apresentação das oferendas leva à vivência do que se oferta, o canto da comunhão nos faz mergulhar no mistério da união pessoa-Cristo. Toda música litúrgica é música sacra, mas nem toda música sacra é música litúrgica. Há cantos feitos para Celebrações da Palavra, encontros, retiros, grupos de reflexão, de oração e não têm finalidade litúrgica. Por isso mesmo, é de grande necessidade a formação litúrgica dos compositores e cantores para que de um modo sempre mais belo levem os irmãos à vivência do mistério litúrgico.

«Liturgia – oferta da criação ao Senhor» – Igreja S. Paulo – Augsburg

SILÊNCIO E ORAÇÃO

Hoje sentimos uma necessidade mais profunda, a da interiorização do mistério. A liturgia deve conduzir os participantes a viverem o mistério da paixão e morte-ressurreição gloriosa de Cristo. E para isso, nada pode substituir o gosto pela Palavra de Deus, pela música litúrgica, o silêncio e a oração. Há, em cada um de nós, um desejo profundo de encontro com Deus. A Liturgia oferece uma resposta eficaz a esse desejo, afirma o Papa, especialmente na Eucaristia, na qual nos é concedido unir-nos ao sacrifício de Cristo e alimentar-nos do seu Corpo e do seu Sangue.

Todos devem sentir-se acolhidos no interior das assembléias, de maneira a poder respirar a atmosfera da primeira comunidade cristã: “Eles eram assíduos na escuta do ensinamento dos Apóstolos e na união fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2,42).

Deus nos fala no silêncio

Nossa sociedade, escreveu João Paulo II, é cada vez mais barulhenta. Ela procura destruir os momentos de silêncio, a fim de tirar de nós a capacidade de ouvir, meditar, acolher a Palavra de Deus e do próximo. A pedagogia litúrgica poderia muito bem começar com a educação ao silêncio, tendo diante dos olhos o exemplo de Jesus que, “tendo saído de casa, se retirou num lugar deserto para ali rezar” (Mc 1,35). Todos os mestres de espiritualidade insistiram no exercício do silêncio: através dele nós recolhemos as antenas dos sentidos externos para ativarmos os sentidos internos, onde Deus nos fala. Quem tem medo do silêncio, tem medo de si, medo de Deus, medo da vida. O barulho é um caminho de fuga de si mesmo.

A reforma litúrgica suprimiu da antiga Liturgia as orações e hinos que tinham ocupado o lugar do silêncio. Infelizmente, novamente se assiste a uma ocupação destes momentos de silêncio com cantos e comentários, fundos musicais, dando a impressão de que o silêncio é vácuo, ausência de sentido.

Há momentos de silêncio na atual liturgia: no Ato Penitencial, após os Oremos, durante a Consagração e após a Comunhão. O silêncio é sempre fértil, porque nos faz escutar o Senhor no confronto com a realidade de nossa vida.

O gosto pela oração

Afirma Santa Teresa que “orar é uma conversa de amigos”. A Liturgia é a mais profunda e perfeita conversa com o Amigo que conosco celebra o mistério da salvação.

A oração comunitária é mais rica quando fruto de um espírito que vive em contínua oração; e a oração particular é mais fecunda quando conseqüência de uma profunda participação na oração comunitária. E mais fecunda ainda é quando fruto da leitura bíblica.

O ato litúrgico é ato de toda a Igreja, é oração de todo o Povo de Deus. Se não formos educados para essa união universal na oração, a celebração litúrgica ser-nos-á cansativa, pesada, dando até a impressão de nos tirar a criatividade da oração. Assim, não há conflito entre oração privada e oração litúrgica, pois em ambas é o Espírito de Deus que intercede em nós e “por nós, com gemidos inexprimíveis” (Rm 8,26).

A criatividade é necessária e positiva, desde que não ofusque o mistério que se está celebrando e rezando: a paixão, morte e ressurreição gloriosa do Senhor, o Mistério pascal.

Podemos concluir com o Bem-aventurado João Paulo II, agora celebrando a Liturgia eterna: “Que neste início de milênio se desenvolva uma “espiritualidade litúrgica”, que leve as pessoas a tomarem consciência de Cristo como primeiro “liturgista”, que não cessa de agir na Igreja e no mundo, em virtude do Mistério pascal continuamente celebrado, e associa a si a Igreja, para louvor do Pai, na unidade do Espírito Santo”.

Pe. José Artulino Besen

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ÍCONES – UMA JANELA PARA A ETERNIDADE

Santo Andrey Rublev

Devido ao melhor conhecimento da teologia ortodoxa no Ocidente, especialmente por causa da presença de teólogos e filósofos russos exilados no Ocidente a partir da Revolução comunista de 1917, muitos de nós descobrimos o valor espiritual dos ícones para a oração e a contemplação.

Há o risco de separar o ícone da teologia, e ambos, da oração. Se o ícone vira apenas modismo, perde o sentido que lhe deu e dá a Igreja bizantina e a católica. Pavel Evdokimov, um dos grandes teólogos russos refugiados na França, definiu o ícone como “uma janela para eternidade”. Não se olha a janela, mas, pela janela se olha o panorama externo. No caso do ícone, pela fé o ícone nos abre os olhos e o coração para o eterno ali figurado. O ícone é sempre dogmático: suas linhas e cores expressam um conteúdo da fé cristã. O iconógrafo não é livre para pintar os ícones, pois deve obedecer à linguagem da fé explicitada pela Igreja. Como exemplo: as possibilidades de pintar um ícone da Natividade do Senhor são quase infinitas, porém, todas elas necessariamente contém os mesmos traços e cenários. A Verdade é uma, sua expressão é múltipla.

O ícone é palavra visível, pregação da verdade. Os judeus tinham uma mentalidade acústica (ouvi dizer, disseram nossos pais, eu vos digo…). Já os gregos são de mentalidade visiva (contemplar, meditar), donde a importância teológica e espiritual do ícone: eu vejo uma imagem, através dela ingresso no eterno, no divino.

A Palavra se fez carne (Jo 1,14) é o fundamento da arte sacra.  O Apóstolo João inicia sua Carta declarando que escreve “o que ouvimos, o que vimos” (1Jo1,1). Com a encarnação, o acústico judeu (ouvimos) se une ao visivo grego (o que vimos). Essa unidade se dá no Cristo homem e Deus: falando, se manifesta como imagem do Pai e, ao mesmo tempo, sua Palavra.

Após a encarnação, toda a criação é apta para expressar o mistério, pois nela está encarnado o Filho de Deus. Toda a matéria utilizada na confecção de um ícone é matéria santa por natureza. O artista, dando-lhe forma, revela um ângulo do mistério da fé. Ele não inventa mistérios, e sim, desenha o conteúdo da fé da Igreja.

Monge pintor de ícones (Pintura russa do  século XVI)

O iconógrafo – sacerdote da beleza

O iconógrafo não é um profissional que ganha a vida com ícones. Se isso acontecer, estamos apenas diante de uma obra humana, e não frente a uma obra divina. O iconógrafo pode ser comparado ao sacerdote que celebra a liturgia: “Ensina com as palavras, escreve com as letras, pinta com as cores, em conformidade com a tradição; a pintura é verdadeira como aquilo que está escrito nos livros: ali está presente a graça de Deus, porque o que é representado é santo” (Simeão o Novo Teólogo, Diálogo contra as heresias 23). “O sacerdote nos apresenta o Corpo do Senhor com os ofícios litúrgicos, com a força das palavras. O pintor o faz por meio da imagem” (Podlinnik – manual russo para os pintores de ícones).

Do mesmo modo que o sacerdote se recolhe em oração antes de celebrar os mistérios, o iconógrafo autorizado pela Igreja vive um mês de jejum a pão, água e sal, buscando a purificação interior com a oração e a contemplação do mistério que irá desenhar. A primeira pincelada é de cor branca, simbolizando a Luz que o iluminará e dará resplendor ao ícone. Tradicionalmente, o primeiro ícone é o da Transfiguração do Senhor: assim como o Cristo apareceu em forma luminosa no Monte Tabor, do mesmo modo o artista transfigurará a criatura para que revele a Verdade a ser contemplada.

Virgem Orante

O ícone um caminho para a Jerusalém celeste

O ícone é um instrumento de ascensão espiritual, pois a transparência do símbolo retorna ao que o contempla tornando-o sempre mais transparência da graça divina. Depois de passar uma vida contemplando os ícones, o orante se transformará, ele mesmo, em ícone da graça: sua face participará da transfiguração, será luminosa, plenamente bela como a harmonia das cores, dos traços, das formas desenhadas.

Graças ao amor, a natureza humana de Jesus está unida à sua natureza divina na pessoa de Cristo. Assim, é o amor que se manifesta na veneração, na oração diante do ícone que faz superar o abismo entre a arte humana e a visão do céu.

O ícone faz nossa oração ser dirigida ao Pai, afirma Evdokimov: passa-se do typos (imagem) ao protótypos (pessoa pintada) e dele ao archetypos (Deus Pai, origem de todo bem). Contemplando o ícone da Mãe de Deus (typos) me elevo à Mãe de Deus (protótypos) e chego ao Pai, origem de todos os mistérios. É um caminho da Jerusalém terrestre à Jerusalém celeste.

O orante verdadeiro não é um crítico de arte, nem um mestre de palavras: é um homem ou mulher em silêncio diante do ícone, pois o ícone lhe fala, comunica pensamentos celestes e sentimentos transfigurados. Através da contemplação, o ícone lhe é um meio digno de transmissão da revelação divina.

Diante de um ícone, o devoto conserva acesa uma lamparina. A fumaça produzida pela chama com o tempo vai ocultando os traços luminosos do ícone. As preces feitas diante dele também o vão recobrindo de mistério, de graça. Talvez chegue um dia que quase não se verá mais com clareza a imagem icônica, ocultada pelas fumaça da lamparina e da oração de tantos fiéis. Nesse dia não estaremos mais diante de um ícone, mas dentro dele, em união mística com toda a Jerusalém celeste.

Pe. José Artulino Besen

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A ORAÇÃO, MOMENTO DO ENCONTRO DO FILHO COM O PAI

O Abraço Paterno

Nas vossas orações não multipliqueis as palavras,
como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras.
Não os imiteis, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais.
Eis como deveis rezar: PAI NOSSO que estais no céu… (Mt 6,7-9).

A oração não é a palavra do servo dirigida ao seu senhor, não é a súplica do pecador com medo do castigo. Não é um ato nem de coragem, nem de medo. É o encontro confiante do filho com o pai, da criatura que sabe ser acolhida pelo Criador, do pecador com aquele de quem tem a certeza de receber o perdão.

É muito mais, porém: é o encontro com entre duas pessoas: eu e Deus!

Não se pode medir a eficácia ou a qualidade da oração pela multiplicação das palavras, como se Deus se impressionasse com nossa quantidade de fórmulas, por mais devotas que sejam. Não é, tão pouco, um diálogo incompreensível, à moda do papagaio que repete frases ensinadas, mas não entende o que lhe perguntam.

A oração do pecador não pressupõe que se vista de luto, cubra a cabeça com cinzas e apresente um ar de tristeza, como gostavam de se apresentar os fariseus no tempo de Jesus. Isso comove os que passam por perto, mas não a Deus, que sabe plenamente o que nos vai no coração. Não são necessárias grandes introduções, como a do fariseu que, antes de iniciar a oração, anunciou a Deus que era a melhor das criaturas… (cf. Lc 18,11-12). Com esse grau de soberba, nem necessitamos de orar, pois dispensamos o amor de Deus ao nos fazermos melhores do que somos.

Jesus deixou-nos uma introdução que expressa de modo pleno o sentimento e a afetividade de quem se dirige a Deus. A “grande” introdução era a que ele mesmo usava: Pai nosso, que estais no céu! Gostar de rezar é sinal de afeto com Deus, é ter prazer em chamá-lo de “Pai”.

Saudando a Deus como Pai, temos a certeza de ser ouvidos e acolhidos como filhos. No instante em que pronunciamos Pai nosso que estais no céu, somos afetuosamente acolhidos por Deus que responde Filho meu que estás na terra. O temor dá lugar à coragem, a alegria substitui a tristeza, perdemos as limitações de criatura para assumirmos a força de filhos.

A distância é derrubada pela proximidade Pai-filho e nós sentimos o amor que jorra do coração divino. Permanece nossa condição de pecadores, porém pecadores amados por Deus. E amados especialmente por causa da fraqueza, do pecado, da infidelidade. Acolhidos como o filho que aprontou, e temerosamente se dirige ao pai: dele espera uma repreensão justa, mas é carinhosamente abraçado por ele (Lc 15,11-32). O amor tudo esquece, tudo compreende, tudo apaga (1Cor 13,7). Faz de nós pessoas novas para uma nova vida.

Podemos fazer os nossos pedidos, apresentar nossas queixas, louvores. Nem é preciso falar muito, pois um pai de verdade conhece o que vai pelo coração do filho. Assim, a nossa oração nos fortalece e nos convence com mais força e de que é para o nosso bem tudo o que vem de Deus. Também a cruz. O Pai que está no céu acompanha o filho que está na terra. Mas, não esquecer: não rezamos para que Deus faça o que nós queremos e sim, rezamos para que saibamos fazer o que Deus quer!

Pe. José Artulino Besen

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A ORAÇÃO: ATITUDE DE QUEM AMA

Nada te impeça de orar sempre (Eclo 18,22).

A oração representa para o crente o mesmo que o encontro para os amantes. Quem ama, sente falta da pessoa amada. Quem ama, gosta de conversar com o amado. Quem ama, tem todo o tempo do mundo para seu amor.

Orar é abrir a boca para louvar, agradecer, pedir perdão, trocar confidências, suplicar. É reforçar os laços de amor que nos unem a Deus. É atitude que vem do amor.

Namorados que não se encontram por muito tempo, correm o risco de se verem trocados por outros amores. O homem que não ora, acabará trocando, por outros amores ou coisas, seu amor por Deus.

Alguns dizem que não encontram tempo para a oração. Mas, tempo é questão de preferência: onde está nosso tesouro, aí está nosso coração. Outros não rezam por estarem sempre cansados. Era exatamente no fim de um dia cansativo que Jesus se retirava para orar, para conversar com o Pai. Conversar com a pessoa amada traz descanso, paz.

A oração retempera as energias, pois o contato com Deus nos devolve a paz. Na intimidade com nosso Deus, sentimo-lo como Pai, somos perdoados, recebemos a capacidade de nos renovarmos.

A oração é o melhor meio para nos analisarmos: nosso encontro com Deus faz com que entendamos mais profundamente nosso mistério pessoal.

Alguém pode reclamar: – “Falo sempre com Deus, mas nunca escuto a sua voz!”. Poderia escutar como resposta: “Você nunca faz silêncio!”. Deus nos fala através de nossa consciência, de nossos gestos, de nossa história, de nosso silêncio interior. Não profere discursos. Dá-nos luz para enxergarmos melhor a realidade. Sua voz se revela nos nossos caminhos. Sua voz se confunde com o nosso rosto e com o rosto das pessoas que estão diante de nós.

Somente a oração constante traz essa magnífica oportunidade de percebermos com clareza o que Deus quer de nós e de nossas vidas, nos mostra tudo o que nos oferece como dom.

Você não sente mais necessidade da oração? Muito cuidado! Há doentes crônicos que não sentem falta de tratamento, e acabam por morrer.

Quando menos vontade temos de rezar, mais estamos precisando da oração.

Quanto mais orarmos, mais vontade teremos de orar, pois sentiremos o prazer da paz interior que a oração nos traz.

Outras vezes a oração nos angústia pois, através dela, Deus nos faz entrar em contato conosco mesmos. E vemos como estamos distantes daquilo que pretendemos alcançar, como estamos longe daquilo que imaginamos ser.

Não inicie nem encerre seu dia sem um diálogo com Deus. Você sempre terá alguma coisa para lhe contar, e muito mais para dele ouvir.

A oração é o fruto mais maduro de nossa fé, de nosso amor por Deus. Santa Teresa, a pedagoga da oração, assim resumiu a oração: “Orar é encontro de amigos”.

Pe. José Artulino Besen

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