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ZACARIAS E MARIA, JOÃO BATISTA E JESUS

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Maria visita Isabel – afresco românico catalão

No tempo de Advento e de Natal a Palavra proclamada na Liturgia nos apresenta João Batista, o último profeta da Antiga Aliança, e Jesus, aquele que contém em si a Nova Aliança. Dois homens dos quais o evangelista Lucas afirma o parentesco e o encontro: João filho de Isabel, a estéril, Jesus filho de Maria, a virgem de Nazaré. Ainda no ventre de suas mães, os dois se encontram e acontece um pentecostes: João salta de alegria no ventre de sua mãe e Jesus leva Maria a prorromper no canto do Magnificat-A minh’alma engrandece o Senhor, o hino dos humildes (cfr. Lc 1,39-56). Maria, a Mãe do Redentor correu a ajudar Isabel: a presença de Jesus em seu seio arrebata ao serviço, pois o encontro com Jesus torna extrovertida nossa vida introvertida e nos conduz ao próximo.

João Batista é o profeta que fala no deserto, preparando os caminhos do Senhor. Jesus é o Senhor e Mestre que no silêncio e na humildade anuncia o Reino. Muito significativos os anúncios feitos pelo arcanjo Gabriel sobre o nascimento dos dois: o anjo anuncia a Zacarias (Lc 1,5-25) e a Maria (Lc 1,26-38). O papa Bento XVI, em seu terceiro volume sobre Jesus intitulado “A infância de Jesus” propõe um belo confronto: de um lado o Sacerdote, o Templo, a liturgia; de outro lado, uma jovem desconhecida, uma pequena cidade, uma casa particular.

O Antigo Testamento leva à solenidade litúrgica do incenso oferecido no Templo de Jerusalém e o Novo Testamento conduz à simplicidade, ao silêncio, ao grão de trigo lançado ao solo. Zacarias simboliza o poder sacerdotal, Maria é o símbolo do não-poder, do serviço humilde. Gabriel dirige-se ao Templo para o anúncio a Zacarias e dirige-se à humilde casa de Nazaré para o anúncio a Maria.

A liturgia do Templo revela o poder da classe sacerdotal; a liturgia da Nova Aliança transforma a liturgia em serviço, em pequenez, onde os poderosos são derrubados, os humildes são elevados. Mas, existe uma unidade intrínseca entre Zacarias e Isabel e Maria: a vida nasce da impossibilidade humana: um casal idoso, estéril, uma virgem que não conhece homem. Deus irrompe na história fazendo brotar a vida nova que é graça e que produz, em quem a aceita, a fecundidade de gerar novas vidas através do serviço aos pobres. A Bíblia narra diversos nascimentos inexplicáveis aos olhos humanos mas que revelam o poder do Deus da vida.

Ao ouvir o anjo, Zacarias duvida, pede uma prova, a certeza de que gerará um filho. Ao ouvir o anjo, Maria pergunta como Deus agirá e logo entra no plano divino, sem medir conseqüências nem pedir provas: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Por ter duvidado, Zacarias ficou mudo até o nascimento de João e Maria foi às montanhas da Judéia servir a Isabel. Ao nascer-lhe o filho, Zacarias prorrompe no hino Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que a seu povo visitou e libertou.

João Batista torna-se profeta de renome, respeitado pelas autoridades, por Herodes, cria um movimento religioso conhecido como dos batistas. E Jesus, o pobrezinho, durante 30 anos mergulha na insignificância de Nazaré, no silêncio da oficina de José e da casa de Maria. Quando fala, riem dele: “Não é esse o filho do carpinteiro?”. Ele, porém, não se impressiona: é o poderoso, o todo-poderoso, mas detém um poder que é amor, acolhida, reconciliação. Humildes e importantes vão ao deserto ouvir João. A Jesus procuram os doentes, aleijados, os famintos, os pecadores, gente sem eira nem beira. Somente quem dá o passo do silêncio, da oferta da vida é capaz de reconhecer quem é Jesus.

Jesus apresenta João como o maior entre os nascidos de mulher; João apresenta Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. João anuncia a salvação, Jesus é a Salvação. O nome “João” significa Deus tem compaixão; o nome “Jesus” quer dizer Deus salva. Ambos nos oferecem o caminho da reconciliação com Deus e nos fazem ouvir o canto dos anjos a anunciar “glória a Deus e paz na terra”. Um encaminha, o outro é a luz sem ocaso.

Pe. José Artulino Besen

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NATAL – O ESPÍRITO, O SILÊNCIO E A PALAVRA

Entre tantos meios de comunicação, é útil contemplarmos o modo divino de se comunicar: o silêncio-Espírito-Palavra.

No ciclo do Natal, quando contemplamos a ruptura do isolamento entre o céu e a terra através de Cristo que se encarna, dos anjos que cantam, vale uma breve reflexão sobre a comunicação divina: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (Lc 1,35), anunciou Gabriel, “e a Palavra de Deus se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14) com o sim de Maria. Primeiro o silêncio, depois a ação do Espírito e, em seguida, a Palavra.

Temos a faculdade de entender os silêncios bíblicos quando recebemos a Palavra pelo Espírito: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, isto é, precisamos de ouvidos dados pelo Espírito para ouvir a Palavra, e não qualquer ouvido. Afirma Basílio de Cesaréia (329-379) que “é um forma de silêncio também a obscuridade que envolve a Escritura e que torna difícil a compreensão das doutrinas, e isso é de utilidade para os que dela se aproximam” (O Espírito Santo, 27,66): nem tudo compreendemos agora, e a contemplação é uma forma superior de compreensão, por ser espiritual.

Deus pouco se nos comunica por palavras, mas, pelo silêncio faz brotar em nós palavras que de outro modo não teriam nenhum sentido, afirma o teólogo russo Vladimir Lossky (1903-1958). Não é silêncio pela ausência da palavra, mas palavra que brota do silêncio. Maria primeiramente recebeu o Espírito, e depois recebeu a Palavra. O Espírito precede à Palavra também no encontro de Maria com Isabel: “…e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Com voz forte, ela exclamou: ‘Bendita és tu entre as mulheres…’ (cf. Lc 1,41-42). O menino João saltou de alegria no seio de Isabel porque o mesmo Espírito silenciosamente lhe revelou Jesus no seio de Maria.

Ao se retirarem os pastores da gruta de Belém, “Maria, porém, guardava todas estas coisas, meditando-as em seu coração” (cf. Lc 2, 15-19). A meditação é conduzida pelo Espírito e progressivamente revela o sentido dos acontecimentos. A noite do Natal é a grande noite da Luz poderosa: qualquer palavra empobreceria a explosão luminosa da natividade.

Silêncio e Palavra (Igor Mitoraj)

Sem voz e sem rosto, assim é o Espírito

O Espírito Santo não fala, porque sua missão é revelar a Palavra e, sem ele, a Palavra é apenas ruído religioso, profecia sem profetismo, sentimento sem fé, cerimônia sem liturgia. No grande silêncio também não nos foi revelado o rosto do Espírito, ao contrário do rosto de Jesus e do Pai (“Filipe, quem me vê, vê o Pai” – Jo 14,9). Mas, é possível contemplar o rosto do Espírito Santo: olhando o rosto dos santos, das pessoas cheias do amor, que revelam o Espírito. Os santos têm o privilégio de revelar a imagem e a semelhança de Deus, donde a luz que irradia de seus rostos. O silêncio do Espírito, de sua voz e face nos é manifestado na sinfonia da comunhão dos santos: afirmou um monge que ”se não existissem os santos, se nós não acreditássemos na comunhão dos santos do céu e da terra, estaríamos encerrados numa solidão desesperada e desesperante”, pois viveríamos num silêncio não comunicativo, revelador de gélida vida solitária.

O Espírito nos abre os ouvidos e o coração para ouvirmos a Palavra e essa não pode ser ouvida sem a renovação de nosso ser através dele. Tira de nós a presunção do conhecimento teórico, abstrato sobre Deus, pois não há relação intelectual com Deus em Cristo, mas sim, renovação do coração e da mente que nos fazem compreender a Palavra que, acolhida, nos mergulha na verdade e na vida.

É pobre o comunicador – a palavra de ordem hoje é comunicar! – que busca explicar tudo. Nossas TVs, rádios, internet estão cheios de explicações religiosas, algumas até contraditórias. Na busca legítima de evangelizar, levar a doutrina a todos os ambientes, corre-se o risco de profanar o Sagrado, espetacularizar o mistério. A comunicação religiosa é contemplação, adoração, revelação. Aqui entra o “pudor”, o recato: as coisas de Deus são misteriosas, profundas, não podem ser lançadas na vala comum do barulho mundano. São mais contempladas do que demonstradas.

Em seus primeiros séculos, a Igreja adotava o catecumenato para os adultos, que participavam da Eucaristia apenas até o final da Liturgia da Palavra. Ainda hoje a Liturgia ortodoxa, nesse momento, ordena: “Catecúmenos, ide embora!”. Após o Batismo (que incluía a Comunhão e a Crisma) era-lhes explicado o que tinha acontecido num sermão “mistagógico”, de introdução ao mistério. Havia segredos que somente nesse momento eram revelados. Hoje nos preocupamos em mostrar tudo, explicar tudo, e destruímos a possibilidade do espanto diante do Mistério, perdemos o pudor do silêncio. E perdemos tudo, pois não ouviremos os anjos cantando e não iremos a Belém.

Pe. José Artulino Besen

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NO NATAL O DIVINO PENETRA TODA A CRIAÇÃO

Natividade (Correggio)

«Glória a Deus no mais alto dos céus
e na terra paz aos homens!»
(Lc 2,14).

Pela primeira vez na história, o céu vem à terra para trazer uma notícia humana e divina. São os anjos que vêm anunciar aos pastores que, na manjedoura, jazia um menino, o Cristo Senhor. Os repórteres celestes fazem reportagem na terra! Tem início uma comunhão misteriosa, cuja finalidade é reiniciar o diálogo entre o céu e a terra, entre Deus e o homem, interrompido pelo pecado. Não apenas o diálogo de Deus com os Patriarcas e Profetas, mas com a humanidade, toda a criação. Antes, Deus falava em partes, na pedagogia da salvação: “agora nos revelou no todo, dando-nos o Tudo, que é seu Filho” (São João da Cruz: A subida do Monte Carmelo). A revelação é total.

O ser humano tem agora a possibilidade real de superar o limite do tempo e do espaço e entrar na vida divina, onde nada tem fim, onde tudo é participação-comunhão no eterno. Agora o céu é o templo dos homens e a terra, o templo de Deus.

Quando os primeiros pais quiseram ser como Deus, subtraindo Deus de sua vida, caíram na ilusão: já participavam da vida divina e com a negação de Deus ingressaram numa vida cujo desfecho é a morte. Quiseram suprimir a imagem e semelhança, e desembocaram numa estrada onde nem humanos conseguiam ser. Estava rompida a comunhão que faz o homem e a mulher serem humanos. Deus estabelece comunhão, o diabo fabrica interesses.

Nosso Deus aceita ser desafiado, o que faz parte da comunhão, mas não aceita ser derrotado no que lhe é a essência: o amor. Desde toda a eternidade se propôs reconciliar-nos consigo através de seu Filho, mas reconciliação fruto da liberdade. Podemos querer o isolamento, sermos desumanos.

Então “a Palavra se fez carne e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória” (Jo 1,1-14).

O mistério do Natal envolve toda a criação num novo processo: a instauração do reino de Deus, toda a riqueza da criação sendo penetrada pelo divino. A encarnação do Filho concretiza uma nova Aliança, a Igreja, da qual ele é a Cabeça: é a história da salvação cristã, salvação cósmica, pois dela nada nem ninguém é excluído.

Em momentos de dúvida podemos ser vítimas do pessimismo: Cristo veio há dois mil anos, estamos no terceiro milênio, tanto já se trabalhou, tantos mártires e santos, e o reino não caminha! O mundo antigo parece vencer a batalha. É a tentação do sucesso medido e triunfal. E de Deus, porém, a palavra verdadeira e final. Cristo é e será o vencedor. Cada vez que uma pessoa o aceita como Senhor de sua vida, ele inicia o reinado, como o iniciou na Cruz ao pedido do Bom Ladrão.

O Natal se prolonga na História

Um dos nossos problemas é achar que o arco da história está se completando, que os tempos estão terminando. Um clima de milenarismo de gente espantada com as crises e se torna profeta da derrota, protegida com a couraça do derrotismo. É bom citar aqui João XXIII, o Papa Bom (1958-1963): “Quem conhece a história sabe que lentamente, lentamente a nossa Igreja se purificou. Daremos outros passos. Temos ainda muitos séculos diante de nós”. E em outras palavras, a Igreja ainda é uma criança. Sabe bastante e acaba achando que já sabe o suficiente. Mas precisa aprender a viver, a testemunhar a presença do Espírito.

Dois mil anos é apenas o começo. Criamos estruturas para exaltar o triunfo de Cristo, e agora estamos justamente preocupados em alterá-las/suprimi-las, para que resplandeça a glória do Senhor no ser vivo. Construímos majestosas catedrais para abrigar multidões e agora estamos procurando Deus para que não se esqueça de nelas habitar. A resposta divina se revela nos pequenos grupos que vivem a Palavra de Deus e maravilhados descobrem que cada ser humano é uma catedral majestosa, com ornamentos suficientes para abrigar Deus.

Os cristãos sabem que o amor é o centro da mensagem do Menino: mas jogam bombas para destruir o Afeganistão. Sabemos que a criação é divina: caprichamos em destruí-la. Países católicos, como o Brasil, sentem a dor da perda de 30-40 milhões de católicos, mas não sentem dor equivalente com 30 milhões que diariamente passam fome. Todos somos irmãos: na prática, muito pouco. Estamos aprendendo.

Num mundo de morte, somente a Igreja tem uma palavra de vida definitiva: precisa centrar-se nessa missão. É tempo de esperança, de alegria. Temos muito a fazer com o Menino que cresceu, morreu, ressuscitou e teve a bondade de enviar-nos o Espírito Santo que é a alma do mundo, da Igreja.

Devemos ser modestos em nossa arte pastoral. Afinal, o Espírito paira sobre o universo e inspira a criatividade trinitária. É cheio de novidades. Deus é Mãe: as mães são fecundas por definição e vivem preparando surpresas para seus filhos. Estejamos atentos a essas surpresas divinas. A evangelização apenas começou. A criatividade divina nos prepara surpresas inimagináveis. Tão grandes e belas com o Menino Deus nascendo numa manjedoura.

Pe. José Artulino Besen

 

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NATAL – ENCARNAÇÃO E GEOGRAFIA

Natal (Antonio Poteiro)

A Revelação bíblica é transmitida num território que, mesmo invadido por diversos povos e culturas, se renovava pela tradição religiosa e cultural. Para o povo de Israel, a fé, a terra e tradições formavam um conjunto indivisível. Quando exilados na Babilônia, os judeus cantavam, escondidos, os cantos de Sião. Alguns que puderam ouvi-los pediam-lhes que cantassem esses cantos. A resposta: “Como cantar os cânticos do Senhor em terra estrangeira? Se eu te esquecer, Jerusalém, fique paralisada a minha mão direita… (cf. Sl 136, 3-6). A Babilônia não era a terra dos cantares divinos.

A Palavra de Deus se fez carne – natureza humana – num lugar determinado, Nazaré, em uma jovem judia, Maria. O Filho de Deus assumiu a condição humana em tudo, menos o pecado: o chão, a história, a cultura. Toda a vida de Jesus se desenvolveu na normalidade cultural dos pequenos povoados da Palestina: viveu a língua aramaica, as peregrinações festivas, o pastoreio, o cultivo da terra, a pescaria. O lago de Genesaré/Tiberíades e as localidades circunvizinhas revelam como Jesus viveu, o sentido do que falou, os problemas enfrentados. Jesus não foi um ser estranho a seu meio.

Após a ressurreição do Senhor, a missão cristã difundiu-se por toda a terra, em cada território assumindo características próprias. O Cristianismo, especialmente com a missão universalizante de Paulo, assumiu o árduo trabalho da inculturação do Evangelho, trabalho que prossegue em nossos dias. Paulo não se dirige às Igrejas em geral, mas à Igreja que está em Colossos, Filipos, Galácia, Roma… Cada uma vive uma realidade específica e cuja manifestação mística é a Eucaristia..

A fé cristã inculturou-se no mundo romano, grego, sírio, armeno, árabe, indu, depois eslavo, anglo-saxão, germânico aonde iam os missionários. A teologia foi o fruto desse trabalho, com sua função de expressar a Palavra encarnada em Israel e agora vivenciada em outras terras.

A Liturgia, que é a expressão orante da fé, conheceu riquíssima variedade: cada povo tinha seu rito, orações eucarísticas e santos. A Europa antiga e medieval elaborou as Liturgias romana, galicana, galofranca, anglicana, ambrosiana, mosarábica, visigótica etc.. Com a idéia de Império (século VIII-IX), que incluiu a uniformização dos ritos cristãos, perdeu-se essa variedade em favor do rito e santoral romano, tornados praticamente únicos. Em Toledo pode-se ainda usar o rito visigótico, em Milão o ambrosiano, na Índia o siro-malabar e quase se fica nisso, predominando o rito romano.

Como contrapeso, nas Igrejas orientais foi conservada a diversidade brotada do solo e da cultura. Elas testemunham o antiqüíssimo esforço cristão de falar em chãos históricos. Ligando a fé ao chão, sobrevivem a séculos de dominação persa, árabe, turca.

Eucaristia e território

A Encarnação de Jesus supõe, sempre, a encarnação num território: ela se faz visível no povo, na comunidade, na Igreja diocesana. Esta, a diocese, era representada pela comunidade com bispo, presbíteros e diáconos. Com a penetração da fé católica no mundo rural e com o aumento territorial das dioceses, criou-se uma outra unidade pastoral, a paróquia. Essa instituição foi a tal ponto funcional que, hoje, o católico se define pela paróquia onde vive.

Paróquia, de etimologia grega, significa casa no estrangeiro, viver entre estrangeiros e por isso mesmo, grupo de pessoas com interesses comuns, e evoca intimidade de um ninho, lar, proteção. Somos estrangeiros buscando a morada definitiva. Enquanto isso, nossa casa é plantada no mundo, num território determinado onde a Palavra se faz carne e habita entre nós. Constituindo unidade menor, a paróquia com suas comunidades representam um chão de cultura, vizinhança, costumes e solidariedades.

A encarnação supõe a geografia, pois Cristo assumiu uma geografia. A Eucaristia, centro da paróquia, santifica o chão onde é celebrada e o oferece ao Pai que o devolve transfigurado. Na Apresentação das Oferendas, o Presidente bendiz a Deus pelo “fruto da terra”: a expressão provém da Mishná judaica e significa “desta nossa terra”, e do “trabalho do homem” (inclui-se o produzir frutos do Evangelho nessa terra).

Peregrinar de paróquia em paróquia pode significar optar por ser estrangeiro desencarnado, sem a intimidade de um ninho, um lar. Em nossos tempos, grupos e pessoas tendem a se desenraizar da paróquia, separando o chão onde vivem do lugar onde celebram. É mais fácil, pois livra da casa comum, a paróquia. Desaparece o compromisso com o chão sagrado, trocado por reuniões e encontros onde se cultiva a espiritualidade pessoal, mas sem encarnação, freqüentemente transformada em clubismo religioso.

É Natal. É tempo de Cristo encarnar-se em nós e em nossa história, é tempo de nos encarnarmos em nosso chão para nele edificarmos a casa cristã.

Pe. José Artulino Besen

 

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O NATAL DO MENINO, PRIMEIRA PÁSCOA

Natividade do Senhor – Andrej Rublev – 1405

Lucas é o evangelista que acrescenta dados históricos a seu relato da anunciação e nascimento de João Batista e Jesus (cf. Lc 1-2). E afirma que muito pesquisou para narrar tudo com fidelidade. Mesmo tendo escrito seu Evangelho após a ressurreição do Senhor, portanto sob a Luz da glória, sua história é profundamente humana: suas páginas são povoadas de mulheres arrependidas, pecadores penitentes, doentes e famintos que se aproximam de Jesus, Deus Pai esculpido nas parábolas do Filho pródigo, da Ovelha perdida, da Moeda extraviada (Lc 15). E é pelo fato de ter pesquisado que não poderia chegar a outra conclusão que o Evangelho é uma história de compaixão! Para Lucas, tudo o que é divino é tão humano, que só nos resta, a exemplo de Maria, guardar e meditar tudo no silêncio do coração, lá onde não se encontram explicações, mas conduzem à adoração.

Como a noite do Natal. Uma noite em Belém.

Maria e José vão a uma gruta, as hospedarias estavam lotadas na pequenina Belém. O Menino tem necessidade de nascer numa gruta escura, de ser depositado numa manjedoura, pois a gruta é a imagem do mundo/noite porque separado de Deus e a manjedoura é a imagem da urna mortuária onde anos depois o Homem de Nazaré vai ser sepultado para vencer a morte ressuscitando. A noite de Natal já é uma Páscoa, a pequena Páscoa que à grande Páscoa antecede.

Recordada do anúncio do Anjo, Maria contempla o infinito e mergulha no mistério desse Menino gerado eternamente de um Pai sem mãe e agora gerado humanamente de uma Mãe sem pai. Seus olhos vão do Menino a José e se refugiam na noite silenciosa, a noite que preanuncia a explosão luminosa da Grande Páscoa.

José contempla Maria, tomado pela dúvida: como pode ter nascido essa Criança sem ter parte comigo? É a tentação que penetra toda a história: somente achamos verdade o que não foge aos nossos olhos ou aos limites de nossa razão, negando local à novidade continuamente recriada por Deus. Maria o contempla com profunda e infinita compaixão. José, porém, é vencido pelo encanto do amor e prorrompe num Aleluia sem fim, pois aceita participar do mistério que desliza ante seus olhos.

Nessa mesma noite pobres pastores de Belém apascentam ovelhas, livrando-as de lobos ferozes. Escutam vozes de anjos anunciando alegria, notícia nunca escutada. Incontroláveis, os anjos explodem num grande hino, pois é possível a paz na terra com a glória divina penetrando a criação. Os pastores dirigem-se à gruta que lhes é indicada e contemplam a pobreza total: Maria aquecendo o recém-nascido, José os protegendo, animais dormindo. Narram o que escutaram e nada perguntam, pois estão abertos ao Mistério. A Luz penetra a gruta, rompe-se o domínio das trevas, o céu e a terra se reúnem, a eternidade e o tempo se abraçam. O Menino enfaixado é o Homem que desata as faixas e transforma o túmulo da Morte em templo da Vida.

A Luz torna o mistério fascinante, mas o Mistério iluminado queima os olhos de quem se atrever a profaná-lo querendo dominá-lo com olhos carnais. Somente a Transfiguração dará ao ser humano olhos capazes de contemplar o Mistério, num longo caminho de transfiguração a ser percorrido. No meio das miríades de estrelas que brilham nessa noite luminosa, Maria é a Estrela que anuncia o Sol que nos vem visitar.

Todo nascimento é oportunidade para uma troca de presentes. Em primeiro lugar, o Pai eterno nos dá o Filho eterno como criança frágil de quem ninguém precisa ter medo. Seguindo a Liturgia de São João Crisóstomo, e nós, que presentes oferecer ao Menino como sinal de gratidão?

Os anjos oferecem sua gratidão, os céus a estrela, os Magos seus dons, os pastores sua admiração, a terra oferece a gruta, o deserto a manjedoura. Nós, porém, oferecemos a Deus uma Mãe Virgem. No Filho que gerou nossa natureza humana também é pacificada e virginizada.

É Natal. Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra!

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ADVENTO – VEM, SENHOR JESUS!

O Menino que vem – Igreja da Transfiguração – Romênia

“Vem, Senhor Jesus!” Marana Thá! provavelmente é a mais antiga prece dos cristãos que ardentemente suspiravam pelo retorno do Senhor. Podemos imaginar a saudade de Jesus que tinham os Apóstolos, os discípulos, os pobres e doentes que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Na Liturgia, o pedido “Vem, Senhor Jesus” é feito logo após as palavras da Consagração, na apresentação do Mistério da Fé, memória do gesto que Jesus ardentemente desejava fazer: comer com os Apóstolos a Ceia pascal, prenúncio de sua paixão e ressurreição.

“Vem, Senhor Jesus!” é a prece do tempo que antecede as alegrias natalinas. O tempo do Advento abre o Ano Cristão da Igreja latina e, conforme está na palavra Advento, traz o sentido de expectativa, pedido de socorro, esperança de mundo novo, grito por salvação. São quatro domingos: os dois primeiros nos remetem à vinda gloriosa do Senhor no final dos tempos e os dois últimos, à vida de Jesus no Natal. Natal da História, Natal de Belém.

Na escuridão do pecado que teima em infelicitar a humanidade, precisamos invocar a vinda do Senhor. Nossa civilização parece caminhar para a barbárie. Somos vítimas da violência verbal, institucional, onde nada tem limite. Nosso século inaugura um período onde nada é valor, onde qualquer coisa tem o valor que lhe damos. Um século onde os valores são desprezados de modo soberbo: cada um se acha fonte de verdade e de ética. Quando assistimos ao espetáculo de deputados e senadores ladrões e corruptos se apresentando como vestais, quando escutamos que policiais se aliam a assaltantes e roubam de ladrões, quando somos informados que o vírus da venalidade atinge as mais altas esferas da Justiça e da política, quando nos deparamos com os casos de pedofilia envolvendo aqueles cuja missão é defender os menores, como os religiosos, quando percebemos a juventude encontrando prazer na morte trazida pelas drogas, precisamos suspirar: “Vem, Senhor Jesus!”

Todos sentem-se pontífices da verdade, dando opiniões irresponsáveis sobre a vida e os valores, a voz sábia de Bento XVI é silenciada porque defende os pobres e denuncia o desperdício das nações ricas, o Cristianismo passa a ser vítima de uma nova perseguição, mais cruel e deletéria, porque se fundamenta na ridicularizarão dos valores bíblicos. A Igreja Católica, em todas as nações ricas e de velha tradição cristã é colocada sob suspeita. Defende-se por tudo o Estado laico, livre das imposições religiosas, desde que sejam católicas. Os judeus, as Testemunhas de Jeová, os Adventistas têm direito de não prestar concurso no sábado, dia por eles santificado. Ai da Igreja católica se pedisse para não haver trabalho no domingo: estaria se intrometendo no sagrado Estado laico… Os judeus colocaram a Estrela de Davi, os muçulmanos a Lua Crescente, substituindo a Cruz na Cruz Vermelha. Mas há juízes querendo tirar os crucifixos de todos os ambientes públicos. Incoerência.

Por que esse mau humor com a Igreja católica? Porque ela é necessária, porque sua palavra incomoda os que defendem o império do egoísmo, porque diz um “não” incondicional a tudo o que violenta a vida humana e a integridade da criação.

Como sempre, com mais força pedimos “Vem, Senhor Jesus!”

Mas, poderíamos perguntar, Jesus não está entre nós, ele que está em tudo e em todos? João nos responde: “Ele está no mundo, mas o mundo não o reconhece” (Jo 1,10). Ele está presente por seu amor e ausente pela nossa indiferença. Então, nosso pedido tem o sentido de que nossos olhos sejam purificados para vê-lo e aceitar sua companhia.

Querendo ou não, todo ser humano tem saudade do Senhor, saudade do Bom Pastor. Todos queremos que ele logo retorne. Quando rezamos “Senhor, sê nosso pastor”, ele responde: “Eu sou o pastor, carrego nos ombros todo o rebanho, cada um de vocês, assumi toda a natureza humana”.

Nossa cegueira espiritual nos faz procurar Jesus dele nos afastando, nos faz procurar Jesus, não percebendo que moramos nele e ele em nós. A Liturgia do Advento nos diz: a Redenção está próxima. Próxima não no sentido cronológico, mas físico, pois o Senhor está no meio de nós. Continuamos a perguntar “e quem é o meu próximo?”, para evitar compromissos.

Os corações mansos e humildes reconhecem o Senhor, pois ele uniu-se à pobreza de nossa natureza, fez-se carne por amor de nós, unindo-se a nós assumiu toda a condição humana. Para que? Para realizar seu plano de amor: unindo sua natureza divina à nossa natureza humana ele quer fazer-nos divinos, para que sejamos um com ele. (Cf. Gregório de Nissa, Carta a Teófilo).

O Senhor desceu para nos elevar. “Vem, Senhor Jesus!”

Pe. José Artulino Besen

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NO NATAL O DIVINO PENETRA TODA A CRIAÇÃO

«Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens!» (Lc 2,14).

Natividade do Senhor

Natividade do Senhor

Pela primeira vez na história, o céu vem à terra para trazer uma notícia humana e divina. São os anjos que vêm anunciar aos pastores que na manjedoura jazia um menino, o Cristo Senhor. Os repórteres celestes fazem reportagem na terra! Tem início uma comunhão misteriosa, cuja finalidade é reiniciar o diálogo entre o céu e a terra, entre Deus e o homem, interrompido pelo pecado. O ser humano tem agora a possibilidade real de superar o limite do tempo e do espaço e entrar na vida divina, onde nada tem fim, onde tudo é participação-comunhão no eterno. Agora o céu é o templo dos homens e a terra, o templo de Deus.

“O Verbo se fez carne e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória” (Jo 1,1-14).

O mistério do Natal envolve toda a criação num novo processo: a instauração do reino de Deus, toda a riqueza da criação ser penetrada pelo divino. A encarnação do Filho concretiza uma nova Aliança, a Igreja, da qual ele é a Cabeça: é a história da salvação cristã.

Em momentos de dúvida podemos ser vítimas do pessimismo: Cristo veio, tanto já se trabalhou, tantos mártires e santos, e o reino não caminha! O mundo antigo parece vencer a batalha. Mas, é de Deus a palavra verdadeira e final. Cristo é e será o vencedor. Um dos nossos problemas é achar que o arco da história está se completando, que os tempos estão terminando.

É bom citar aqui João XXIII, o Papa Bom: “Quem conhece a história sabe que lentamente, lentamente a nossa Igreja se purificou. Daremos outros passos. Temos ainda muitos séculos diante de nós”. E em outras palavras, a Igreja ainda é uma criança. Sabe bastante e acaba achando que já sabe o suficiente. Mas precisa aprender a viver, a testemunhar a presença do Espírito. Dois mil anos são apenas o começo. Criamos estruturas para exaltar o triunfo de Cristo, e ficamos preocupados em alterá-las, suprimi-las, para que resplandeça a glória do Senhor no ser vivo.

Os cristãos sabem que o amor é o centro da mensagem do Menino: mas jogam bombas para destruir o Afeganistão. Sabemos que a criação é divina: caprichamos em destruí-la. Todos somos irmãos: na prática, muito pouco. Estamos aprendendo. Num mundo de morte, somente a Igreja tem uma palavra de vida definitiva: precisa centrar-se nessa missão.

Devemos ser modestos em nossa arte pastoral. Afinal, o Espírito paira sobre o universo e inspira a criatividade trinitária, é cheio de novidades. Deus é Mãe: as mães são fecundas por definição e vivem preparando surpresas para seus filhos. Estejamos atentos a essa surpresas divinas. A evangelização apenas começou.

A Palavra do Papa:

Maria Santíssima Mãe de Deus e Recitação do «Te Deum»

No final de um ano, que para a Igreja e para o mundo foi riquíssimo de acontecimentos, ao lembrar do mandamento do Apóstolo: “Caminhai… firmes na fé… transbordando em ações de graças” (Cl 2, 6-7), esta noite encontramo-nos juntos para elevar um hino de agradecimento a Deus, Senhor do tempo e da história. Sim, é nosso dever, mais do que uma necessidade do coração, louvar e agradecer Àquele que, eterno, nos acompanha no tempo sem jamais nos abandonar e vigia sempre sobre a humanidade com a fidelidade do seu amor misericordioso.

Portanto, podemos dizer que a Igreja vive para louvar e agradecer a Deus. Esta mesma “ação de graças”, ao longo dos séculos, é testemunha fiel de um amor que não morre, de um amor que envolve os homens de qualquer raça e cultura, disseminando de modo fecundo princípios de verdadeira vida. Como recorda o Concílio Vaticano II, “a Igreja simultaneamente ora e trabalha para que toda a humanidade se transforme em povo de Deus, Corpo do Senhor e templo do Espírito Santo e, em Cristo, cabeça de todos, se dê ao Pai e Criador de todas as coisas toda a honra e toda a glória” (LG, 17). Sustentada pelo Espírito Santo, ela “prossegue a sua peregrinação entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus (Santo Agostinho, De Civitate Dei, XVIII, 51, 2), haurindo força da ajuda do Senhor. Deste modo, com paciência e com amor, supera “as aflições e dificuldades internas e externas”, e revela “fielmente ao mundo, mesmo que sob a sombra dos sinais, o mistério do seu Senhor, até ao dia em que finalmente resplandecerá na plenitude da luz” (LG, 8). A Igreja vive de Cristo e com Cristo. Ele oferece-lhe o seu amor esponsal, guiando-a ao longo dos séculos; e ela, com a plenitude dos seus dons, acompanha o caminho do homem, para que aqueles que acolhem Cristo tenham vida e a tenham em abundância. […]

No início desta celebração, iluminados pela Palavra de Deus, cantamos juntos com fé o “Te Deum”. São muitos os motivos que tornam intensa a nossa ação de graças, fazendo dela uma oração coral. Enquanto consideramos os múltiplos acontecimentos que assinalaram o decurso dos meses neste ano que se está a concluir, quero lembrar de modo especial quem se encontra em dificuldade: as pessoas mais pobres e abandonadas, quantos perderam a esperança num fundado sentido da própria existência, ou são vítimas involuntárias de interesses egoístas, sem que se lhes peça a adesão ou opinião. Fazendo nossos os seus sofrimentos, confiemos-las a Deus, que sabe dirigir todas as coisas para o bem; a Ele entreguemos a nossa aspiração para que cada pessoa seja acolhida na própria dignidade de filho de Deus. Ao Senhor da vida peçamos para aliviar com a sua graça as penas provocadas pelo mal e para continuar a dar vigor à nossa existência terrena, doando-nos o Pão e o Vinho da salvação, para sustentar o nosso caminho rumo à pátria do Céu.

Ao despedirmo-nos do ano que se encerra e encaminharmo-nos para o novo, a liturgia destas primeiras Vésperas introduz-nos na festa de Maria, Mãe de Deus, Theotókos. A oito dias do nascimento de Jesus, celebramos Aquela que “quando chegou a plenitude do tempo” (Gl 4, 4) foi escolhida por Deus para ser a Mãe do Salvador. Mãe é quem dá a vida, mas também quem ajuda e ensina a viver. Maria é Mãe, Mãe de Jesus, a quem deu o seu sangue, o seu corpo. E é ela que nos apresenta o Verbo eterno do Pai, que veio habitar no meio de nós. Peçamos a Maria que interceda por nós. A sua materna proteção nos acompanhe hoje e sempre, para que Cristo nos acolha um dia na sua glória, na assembléia dos Santos: Aeterna fac cum sanctis tuis in gloria numerari. Amém!

(Homilia do PAPA BENTO XVI, Sábado, 31 de Dezembro de 2005)

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