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ZACARIAS E MARIA, JOÃO BATISTA E JESUS

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Maria visita Isabel – afresco românico catalão

No tempo de Advento e de Natal a Palavra proclamada na Liturgia nos apresenta João Batista, o último profeta da Antiga Aliança, e Jesus, aquele que contém em si a Nova Aliança. Dois homens dos quais o evangelista Lucas afirma o parentesco e o encontro: João filho de Isabel, a estéril, Jesus filho de Maria, a virgem de Nazaré. Ainda no ventre de suas mães, os dois se encontram e acontece um pentecostes: João salta de alegria no ventre de sua mãe e Jesus leva Maria a prorromper no canto do Magnificat-A minh’alma engrandece o Senhor, o hino dos humildes (cfr. Lc 1,39-56). Maria, a Mãe do Redentor correu a ajudar Isabel: a presença de Jesus em seu seio arrebata ao serviço, pois o encontro com Jesus torna extrovertida nossa vida introvertida e nos conduz ao próximo.

João Batista é o profeta que fala no deserto, preparando os caminhos do Senhor. Jesus é o Senhor e Mestre que no silêncio e na humildade anuncia o Reino. Muito significativos os anúncios feitos pelo arcanjo Gabriel sobre o nascimento dos dois: o anjo anuncia a Zacarias (Lc 1,5-25) e a Maria (Lc 1,26-38). O papa Bento XVI, em seu terceiro volume sobre Jesus intitulado “A infância de Jesus” propõe um belo confronto: de um lado o Sacerdote, o Templo, a liturgia; de outro lado, uma jovem desconhecida, uma pequena cidade, uma casa particular.

O Antigo Testamento leva à solenidade litúrgica do incenso oferecido no Templo de Jerusalém e o Novo Testamento conduz à simplicidade, ao silêncio, ao grão de trigo lançado ao solo. Zacarias simboliza o poder sacerdotal, Maria é o símbolo do não-poder, do serviço humilde. Gabriel dirige-se ao Templo para o anúncio a Zacarias e dirige-se à humilde casa de Nazaré para o anúncio a Maria.

A liturgia do Templo revela o poder da classe sacerdotal; a liturgia da Nova Aliança transforma a liturgia em serviço, em pequenez, onde os poderosos são derrubados, os humildes são elevados. Mas, existe uma unidade intrínseca entre Zacarias e Isabel e Maria: a vida nasce da impossibilidade humana: um casal idoso, estéril, uma virgem que não conhece homem. Deus irrompe na história fazendo brotar a vida nova que é graça e que produz, em quem a aceita, a fecundidade de gerar novas vidas através do serviço aos pobres. A Bíblia narra diversos nascimentos inexplicáveis aos olhos humanos mas que revelam o poder do Deus da vida.

Ao ouvir o anjo, Zacarias duvida, pede uma prova, a certeza de que gerará um filho. Ao ouvir o anjo, Maria pergunta como Deus agirá e logo entra no plano divino, sem medir conseqüências nem pedir provas: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Por ter duvidado, Zacarias ficou mudo até o nascimento de João e Maria foi às montanhas da Judéia servir a Isabel. Ao nascer-lhe o filho, Zacarias prorrompe no hino Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que a seu povo visitou e libertou.

João Batista torna-se profeta de renome, respeitado pelas autoridades, por Herodes, cria um movimento religioso conhecido como dos batistas. E Jesus, o pobrezinho, durante 30 anos mergulha na insignificância de Nazaré, no silêncio da oficina de José e da casa de Maria. Quando fala, riem dele: “Não é esse o filho do carpinteiro?”. Ele, porém, não se impressiona: é o poderoso, o todo-poderoso, mas detém um poder que é amor, acolhida, reconciliação. Humildes e importantes vão ao deserto ouvir João. A Jesus procuram os doentes, aleijados, os famintos, os pecadores, gente sem eira nem beira. Somente quem dá o passo do silêncio, da oferta da vida é capaz de reconhecer quem é Jesus.

Jesus apresenta João como o maior entre os nascidos de mulher; João apresenta Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. João anuncia a salvação, Jesus é a Salvação. O nome “João” significa Deus tem compaixão; o nome “Jesus” quer dizer Deus salva. Ambos nos oferecem o caminho da reconciliação com Deus e nos fazem ouvir o canto dos anjos a anunciar “glória a Deus e paz na terra”. Um encaminha, o outro é a luz sem ocaso.

Pe. José Artulino Besen

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NATAL – VEIO PARA O QUE ERA SEU

O Menino na Mangedoura - Ruber OSB

O Natal é a festa do nascimento, na carne, do Filho de Deus. Jesus Cristo é eterno, estava junto do Pai e do Espírito Santo antes da criação do mundo. Mas, no momento oportuno, veio para dar-nos a graça de nos descobrirmos como filhos de Deus e restaurar nossa dignidade humana.

Desde o princípio, Cristo estava no mundo: sendo divino, não foi reconhecido, apesar de sinais claros dados por Deus através dos Profetas e das Escrituras. O ser humano habitava a escuridão e era incapaz de perceber a luz (cf. Jo 1, 11). Para ser reconhecido por aqueles que eram seus desde todo o sempre, assumiu a natureza humana no seio de Maria e veio habitar entre nós, visivelmente, para dar-nos a oportunidade de conhecermos quem é Deus e como Deus é: “Com efeito, Deus enviou seu Filho, o Verbo eterno que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e dar-lhes a conhecer os segredos de Deus” (DV 3-3).

Muitas vezes podemos nos perguntar, até com estranheza: por que Deus fez e faz tudo isso por nós se, na verdade, nem estamos tão interessados nele? Por que Deus nos envia seu Filho se nós não o pedimos? Por que Deus quer nos salvar, mesmo que nós prefiramos viver na condenação das trevas?

A resposta é uma só: Deus ama o que é seu. Deus quer salvar o que é seu. Tudo faz por aqueles que são seus.

Diante de tamanho amor manifestado na noite de Natal, diante de Deus que se faz criança, nossa resposta é o louvor: Ó Senhor nosso Deus, como é grandioso vosso nome em todo o universo! (Sl 8,1). Mas, Deus não se satisfaz apenas com nosso louvor: ele quer nos salvar, dando-nos a graça de recuperarmos a filiação divina perdida no pecado. Isso sempre, a cada dia, até o final da história: a decisão divina de nos salvar vale para todo o tempo da história.

A salvação não é obra humana, “nem do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus” (Jo 1, 13). A salvação é graça.

Quem passou pela experiência da fraqueza humana, do vício, da imoralidade e teve a graça do encontro com Deus, afirma tranqüilamente: Tudo foi obra de Deus! Eu nem acreditava mais que tinha jeito!

A graça de Deus é um dom imprevisto, misterioso, suave ou forte, mas sempre um dom, oferecido no amor de Pai. Nosso agradecimento pela graça recebida é a vivência como filhos de Deus, no seguimento de Cristo, Caminho, Verdade e Vida.

E se o pecado de novo em nós vencer e nos distanciar da graça divina? Deus não se cansa de nos procurar? Evidentemente que não. Deus não seria Deus se nos abandonasse à sorte dos desesperados. A salvação é sempre oferecida, sempre renovada.

A graça do Natal toca a vida dos que a aceitam

Infelizmente, custa-nos crer num amor desinteressado, contínuo. Para nós é difícil o perdão milhares de vezes repetido e confirmado. Porque nós não fazemos assim. Nós colocamos condições: uma, duas, três vezes. E achamos que Deus é como nós. Engano. Tanto o amor como o perdão são infinitos.

O Pai nos conhece e sabe das ciladas que Satanás nos arma e nas quais somos enredados. Um cristão passa por muitas tentações, muitas quedas, passa inclusive pelo cansaço de lutar para ser cristão. Nós sofremos ao contemplarmos os erros passados, os fracassos. Lamentamos oportunidades perdidas. O passado, porém, não deve nos condicionar, pois o Senhor nos olha hoje, aqui, agora. É para esse instante que ele pede nossa fidelidade. Com o tempo seremos curados dessas recordações tristes que nos impedem amar e sermos amados.

Uma verdade necessita estar sempre diante de nossos olhos: Deus sempre vem para os que são seus. Pecadores ou santos, nós somos dele e ele quer ser nosso.

A oficina da graça recupera toda a estrutura pessoal, por maior que tenha sido o estrago do pecado. A maior tristeza seria duvidar disso, conservar a imagem de um Deus ameaçador. Nosso Deus é o Pai de Jesus, é o nosso Pai.

Na festa do Deus Menino, num feliz Natal, conservemos a felicidade de sermos obra de Deus! Anunciemos a todos essa grande alegria: foi derrubado o muro que nos separava do céu. As portas estão abertas. Somos convidados a entrar nessa nova vida, divina, onde o Pai nos espera. Mas, lembremos: somente quem tem coração simples como o Menino de Belém penetra nos segredos do amor divino.

Pe. José Artulino Besen 

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NATAL – O ESPÍRITO, O SILÊNCIO E A PALAVRA

Entre tantos meios de comunicação, é útil contemplarmos o modo divino de se comunicar: o silêncio-Espírito-Palavra.

No ciclo do Natal, quando contemplamos a ruptura do isolamento entre o céu e a terra através de Cristo que se encarna, dos anjos que cantam, vale uma breve reflexão sobre a comunicação divina: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (Lc 1,35), anunciou Gabriel, “e a Palavra de Deus se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14) com o sim de Maria. Primeiro o silêncio, depois a ação do Espírito e, em seguida, a Palavra.

Temos a faculdade de entender os silêncios bíblicos quando recebemos a Palavra pelo Espírito: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, isto é, precisamos de ouvidos dados pelo Espírito para ouvir a Palavra, e não qualquer ouvido. Afirma Basílio de Cesaréia (329-379) que “é um forma de silêncio também a obscuridade que envolve a Escritura e que torna difícil a compreensão das doutrinas, e isso é de utilidade para os que dela se aproximam” (O Espírito Santo, 27,66): nem tudo compreendemos agora, e a contemplação é uma forma superior de compreensão, por ser espiritual.

Deus pouco se nos comunica por palavras, mas, pelo silêncio faz brotar em nós palavras que de outro modo não teriam nenhum sentido, afirma o teólogo russo Vladimir Lossky (1903-1958). Não é silêncio pela ausência da palavra, mas palavra que brota do silêncio. Maria primeiramente recebeu o Espírito, e depois recebeu a Palavra. O Espírito precede à Palavra também no encontro de Maria com Isabel: “…e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Com voz forte, ela exclamou: ‘Bendita és tu entre as mulheres…’ (cf. Lc 1,41-42). O menino João saltou de alegria no seio de Isabel porque o mesmo Espírito silenciosamente lhe revelou Jesus no seio de Maria.

Ao se retirarem os pastores da gruta de Belém, “Maria, porém, guardava todas estas coisas, meditando-as em seu coração” (cf. Lc 2, 15-19). A meditação é conduzida pelo Espírito e progressivamente revela o sentido dos acontecimentos. A noite do Natal é a grande noite da Luz poderosa: qualquer palavra empobreceria a explosão luminosa da natividade.

Silêncio e Palavra (Igor Mitoraj)

Sem voz e sem rosto, assim é o Espírito

O Espírito Santo não fala, porque sua missão é revelar a Palavra e, sem ele, a Palavra é apenas ruído religioso, profecia sem profetismo, sentimento sem fé, cerimônia sem liturgia. No grande silêncio também não nos foi revelado o rosto do Espírito, ao contrário do rosto de Jesus e do Pai (“Filipe, quem me vê, vê o Pai” – Jo 14,9). Mas, é possível contemplar o rosto do Espírito Santo: olhando o rosto dos santos, das pessoas cheias do amor, que revelam o Espírito. Os santos têm o privilégio de revelar a imagem e a semelhança de Deus, donde a luz que irradia de seus rostos. O silêncio do Espírito, de sua voz e face nos é manifestado na sinfonia da comunhão dos santos: afirmou um monge que ”se não existissem os santos, se nós não acreditássemos na comunhão dos santos do céu e da terra, estaríamos encerrados numa solidão desesperada e desesperante”, pois viveríamos num silêncio não comunicativo, revelador de gélida vida solitária.

O Espírito nos abre os ouvidos e o coração para ouvirmos a Palavra e essa não pode ser ouvida sem a renovação de nosso ser através dele. Tira de nós a presunção do conhecimento teórico, abstrato sobre Deus, pois não há relação intelectual com Deus em Cristo, mas sim, renovação do coração e da mente que nos fazem compreender a Palavra que, acolhida, nos mergulha na verdade e na vida.

É pobre o comunicador – a palavra de ordem hoje é comunicar! – que busca explicar tudo. Nossas TVs, rádios, internet estão cheios de explicações religiosas, algumas até contraditórias. Na busca legítima de evangelizar, levar a doutrina a todos os ambientes, corre-se o risco de profanar o Sagrado, espetacularizar o mistério. A comunicação religiosa é contemplação, adoração, revelação. Aqui entra o “pudor”, o recato: as coisas de Deus são misteriosas, profundas, não podem ser lançadas na vala comum do barulho mundano. São mais contempladas do que demonstradas.

Em seus primeiros séculos, a Igreja adotava o catecumenato para os adultos, que participavam da Eucaristia apenas até o final da Liturgia da Palavra. Ainda hoje a Liturgia ortodoxa, nesse momento, ordena: “Catecúmenos, ide embora!”. Após o Batismo (que incluía a Comunhão e a Crisma) era-lhes explicado o que tinha acontecido num sermão “mistagógico”, de introdução ao mistério. Havia segredos que somente nesse momento eram revelados. Hoje nos preocupamos em mostrar tudo, explicar tudo, e destruímos a possibilidade do espanto diante do Mistério, perdemos o pudor do silêncio. E perdemos tudo, pois não ouviremos os anjos cantando e não iremos a Belém.

Pe. José Artulino Besen

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NO NATAL O DIVINO PENETRA TODA A CRIAÇÃO

Natividade (Correggio)

«Glória a Deus no mais alto dos céus
e na terra paz aos homens!»
(Lc 2,14).

Pela primeira vez na história, o céu vem à terra para trazer uma notícia humana e divina. São os anjos que vêm anunciar aos pastores que, na manjedoura, jazia um menino, o Cristo Senhor. Os repórteres celestes fazem reportagem na terra! Tem início uma comunhão misteriosa, cuja finalidade é reiniciar o diálogo entre o céu e a terra, entre Deus e o homem, interrompido pelo pecado. Não apenas o diálogo de Deus com os Patriarcas e Profetas, mas com a humanidade, toda a criação. Antes, Deus falava em partes, na pedagogia da salvação: “agora nos revelou no todo, dando-nos o Tudo, que é seu Filho” (São João da Cruz: A subida do Monte Carmelo). A revelação é total.

O ser humano tem agora a possibilidade real de superar o limite do tempo e do espaço e entrar na vida divina, onde nada tem fim, onde tudo é participação-comunhão no eterno. Agora o céu é o templo dos homens e a terra, o templo de Deus.

Quando os primeiros pais quiseram ser como Deus, subtraindo Deus de sua vida, caíram na ilusão: já participavam da vida divina e com a negação de Deus ingressaram numa vida cujo desfecho é a morte. Quiseram suprimir a imagem e semelhança, e desembocaram numa estrada onde nem humanos conseguiam ser. Estava rompida a comunhão que faz o homem e a mulher serem humanos. Deus estabelece comunhão, o diabo fabrica interesses.

Nosso Deus aceita ser desafiado, o que faz parte da comunhão, mas não aceita ser derrotado no que lhe é a essência: o amor. Desde toda a eternidade se propôs reconciliar-nos consigo através de seu Filho, mas reconciliação fruto da liberdade. Podemos querer o isolamento, sermos desumanos.

Então “a Palavra se fez carne e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória” (Jo 1,1-14).

O mistério do Natal envolve toda a criação num novo processo: a instauração do reino de Deus, toda a riqueza da criação sendo penetrada pelo divino. A encarnação do Filho concretiza uma nova Aliança, a Igreja, da qual ele é a Cabeça: é a história da salvação cristã, salvação cósmica, pois dela nada nem ninguém é excluído.

Em momentos de dúvida podemos ser vítimas do pessimismo: Cristo veio há dois mil anos, estamos no terceiro milênio, tanto já se trabalhou, tantos mártires e santos, e o reino não caminha! O mundo antigo parece vencer a batalha. É a tentação do sucesso medido e triunfal. E de Deus, porém, a palavra verdadeira e final. Cristo é e será o vencedor. Cada vez que uma pessoa o aceita como Senhor de sua vida, ele inicia o reinado, como o iniciou na Cruz ao pedido do Bom Ladrão.

O Natal se prolonga na História

Um dos nossos problemas é achar que o arco da história está se completando, que os tempos estão terminando. Um clima de milenarismo de gente espantada com as crises e se torna profeta da derrota, protegida com a couraça do derrotismo. É bom citar aqui João XXIII, o Papa Bom (1958-1963): “Quem conhece a história sabe que lentamente, lentamente a nossa Igreja se purificou. Daremos outros passos. Temos ainda muitos séculos diante de nós”. E em outras palavras, a Igreja ainda é uma criança. Sabe bastante e acaba achando que já sabe o suficiente. Mas precisa aprender a viver, a testemunhar a presença do Espírito.

Dois mil anos é apenas o começo. Criamos estruturas para exaltar o triunfo de Cristo, e agora estamos justamente preocupados em alterá-las/suprimi-las, para que resplandeça a glória do Senhor no ser vivo. Construímos majestosas catedrais para abrigar multidões e agora estamos procurando Deus para que não se esqueça de nelas habitar. A resposta divina se revela nos pequenos grupos que vivem a Palavra de Deus e maravilhados descobrem que cada ser humano é uma catedral majestosa, com ornamentos suficientes para abrigar Deus.

Os cristãos sabem que o amor é o centro da mensagem do Menino: mas jogam bombas para destruir o Afeganistão. Sabemos que a criação é divina: caprichamos em destruí-la. Países católicos, como o Brasil, sentem a dor da perda de 30-40 milhões de católicos, mas não sentem dor equivalente com 30 milhões que diariamente passam fome. Todos somos irmãos: na prática, muito pouco. Estamos aprendendo.

Num mundo de morte, somente a Igreja tem uma palavra de vida definitiva: precisa centrar-se nessa missão. É tempo de esperança, de alegria. Temos muito a fazer com o Menino que cresceu, morreu, ressuscitou e teve a bondade de enviar-nos o Espírito Santo que é a alma do mundo, da Igreja.

Devemos ser modestos em nossa arte pastoral. Afinal, o Espírito paira sobre o universo e inspira a criatividade trinitária. É cheio de novidades. Deus é Mãe: as mães são fecundas por definição e vivem preparando surpresas para seus filhos. Estejamos atentos a essas surpresas divinas. A evangelização apenas começou. A criatividade divina nos prepara surpresas inimagináveis. Tão grandes e belas com o Menino Deus nascendo numa manjedoura.

Pe. José Artulino Besen

 

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NATAL – ENCARNAÇÃO E GEOGRAFIA

Natal (Antonio Poteiro)

A Revelação bíblica é transmitida num território que, mesmo invadido por diversos povos e culturas, se renovava pela tradição religiosa e cultural. Para o povo de Israel, a fé, a terra e tradições formavam um conjunto indivisível. Quando exilados na Babilônia, os judeus cantavam, escondidos, os cantos de Sião. Alguns que puderam ouvi-los pediam-lhes que cantassem esses cantos. A resposta: “Como cantar os cânticos do Senhor em terra estrangeira? Se eu te esquecer, Jerusalém, fique paralisada a minha mão direita… (cf. Sl 136, 3-6). A Babilônia não era a terra dos cantares divinos.

A Palavra de Deus se fez carne – natureza humana – num lugar determinado, Nazaré, em uma jovem judia, Maria. O Filho de Deus assumiu a condição humana em tudo, menos o pecado: o chão, a história, a cultura. Toda a vida de Jesus se desenvolveu na normalidade cultural dos pequenos povoados da Palestina: viveu a língua aramaica, as peregrinações festivas, o pastoreio, o cultivo da terra, a pescaria. O lago de Genesaré/Tiberíades e as localidades circunvizinhas revelam como Jesus viveu, o sentido do que falou, os problemas enfrentados. Jesus não foi um ser estranho a seu meio.

Após a ressurreição do Senhor, a missão cristã difundiu-se por toda a terra, em cada território assumindo características próprias. O Cristianismo, especialmente com a missão universalizante de Paulo, assumiu o árduo trabalho da inculturação do Evangelho, trabalho que prossegue em nossos dias. Paulo não se dirige às Igrejas em geral, mas à Igreja que está em Colossos, Filipos, Galácia, Roma… Cada uma vive uma realidade específica e cuja manifestação mística é a Eucaristia..

A fé cristã inculturou-se no mundo romano, grego, sírio, armeno, árabe, indu, depois eslavo, anglo-saxão, germânico aonde iam os missionários. A teologia foi o fruto desse trabalho, com sua função de expressar a Palavra encarnada em Israel e agora vivenciada em outras terras.

A Liturgia, que é a expressão orante da fé, conheceu riquíssima variedade: cada povo tinha seu rito, orações eucarísticas e santos. A Europa antiga e medieval elaborou as Liturgias romana, galicana, galofranca, anglicana, ambrosiana, mosarábica, visigótica etc.. Com a idéia de Império (século VIII-IX), que incluiu a uniformização dos ritos cristãos, perdeu-se essa variedade em favor do rito e santoral romano, tornados praticamente únicos. Em Toledo pode-se ainda usar o rito visigótico, em Milão o ambrosiano, na Índia o siro-malabar e quase se fica nisso, predominando o rito romano.

Como contrapeso, nas Igrejas orientais foi conservada a diversidade brotada do solo e da cultura. Elas testemunham o antiqüíssimo esforço cristão de falar em chãos históricos. Ligando a fé ao chão, sobrevivem a séculos de dominação persa, árabe, turca.

Eucaristia e território

A Encarnação de Jesus supõe, sempre, a encarnação num território: ela se faz visível no povo, na comunidade, na Igreja diocesana. Esta, a diocese, era representada pela comunidade com bispo, presbíteros e diáconos. Com a penetração da fé católica no mundo rural e com o aumento territorial das dioceses, criou-se uma outra unidade pastoral, a paróquia. Essa instituição foi a tal ponto funcional que, hoje, o católico se define pela paróquia onde vive.

Paróquia, de etimologia grega, significa casa no estrangeiro, viver entre estrangeiros e por isso mesmo, grupo de pessoas com interesses comuns, e evoca intimidade de um ninho, lar, proteção. Somos estrangeiros buscando a morada definitiva. Enquanto isso, nossa casa é plantada no mundo, num território determinado onde a Palavra se faz carne e habita entre nós. Constituindo unidade menor, a paróquia com suas comunidades representam um chão de cultura, vizinhança, costumes e solidariedades.

A encarnação supõe a geografia, pois Cristo assumiu uma geografia. A Eucaristia, centro da paróquia, santifica o chão onde é celebrada e o oferece ao Pai que o devolve transfigurado. Na Apresentação das Oferendas, o Presidente bendiz a Deus pelo “fruto da terra”: a expressão provém da Mishná judaica e significa “desta nossa terra”, e do “trabalho do homem” (inclui-se o produzir frutos do Evangelho nessa terra).

Peregrinar de paróquia em paróquia pode significar optar por ser estrangeiro desencarnado, sem a intimidade de um ninho, um lar. Em nossos tempos, grupos e pessoas tendem a se desenraizar da paróquia, separando o chão onde vivem do lugar onde celebram. É mais fácil, pois livra da casa comum, a paróquia. Desaparece o compromisso com o chão sagrado, trocado por reuniões e encontros onde se cultiva a espiritualidade pessoal, mas sem encarnação, freqüentemente transformada em clubismo religioso.

É Natal. É tempo de Cristo encarnar-se em nós e em nossa história, é tempo de nos encarnarmos em nosso chão para nele edificarmos a casa cristã.

Pe. José Artulino Besen

 

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O NATAL DO MENINO, PRIMEIRA PÁSCOA

Natividade do Senhor – Andrej Rublev – 1405

Lucas é o evangelista que acrescenta dados históricos a seu relato da anunciação e nascimento de João Batista e Jesus (cf. Lc 1-2). E afirma que muito pesquisou para narrar tudo com fidelidade. Mesmo tendo escrito seu Evangelho após a ressurreição do Senhor, portanto sob a Luz da glória, sua história é profundamente humana: suas páginas são povoadas de mulheres arrependidas, pecadores penitentes, doentes e famintos que se aproximam de Jesus, Deus Pai esculpido nas parábolas do Filho pródigo, da Ovelha perdida, da Moeda extraviada (Lc 15). E é pelo fato de ter pesquisado que não poderia chegar a outra conclusão que o Evangelho é uma história de compaixão! Para Lucas, tudo o que é divino é tão humano, que só nos resta, a exemplo de Maria, guardar e meditar tudo no silêncio do coração, lá onde não se encontram explicações, mas conduzem à adoração.

Como a noite do Natal. Uma noite em Belém.

Maria e José vão a uma gruta, as hospedarias estavam lotadas na pequenina Belém. O Menino tem necessidade de nascer numa gruta escura, de ser depositado numa manjedoura, pois a gruta é a imagem do mundo/noite porque separado de Deus e a manjedoura é a imagem da urna mortuária onde anos depois o Homem de Nazaré vai ser sepultado para vencer a morte ressuscitando. A noite de Natal já é uma Páscoa, a pequena Páscoa que à grande Páscoa antecede.

Recordada do anúncio do Anjo, Maria contempla o infinito e mergulha no mistério desse Menino gerado eternamente de um Pai sem mãe e agora gerado humanamente de uma Mãe sem pai. Seus olhos vão do Menino a José e se refugiam na noite silenciosa, a noite que preanuncia a explosão luminosa da Grande Páscoa.

José contempla Maria, tomado pela dúvida: como pode ter nascido essa Criança sem ter parte comigo? É a tentação que penetra toda a história: somente achamos verdade o que não foge aos nossos olhos ou aos limites de nossa razão, negando local à novidade continuamente recriada por Deus. Maria o contempla com profunda e infinita compaixão. José, porém, é vencido pelo encanto do amor e prorrompe num Aleluia sem fim, pois aceita participar do mistério que desliza ante seus olhos.

Nessa mesma noite pobres pastores de Belém apascentam ovelhas, livrando-as de lobos ferozes. Escutam vozes de anjos anunciando alegria, notícia nunca escutada. Incontroláveis, os anjos explodem num grande hino, pois é possível a paz na terra com a glória divina penetrando a criação. Os pastores dirigem-se à gruta que lhes é indicada e contemplam a pobreza total: Maria aquecendo o recém-nascido, José os protegendo, animais dormindo. Narram o que escutaram e nada perguntam, pois estão abertos ao Mistério. A Luz penetra a gruta, rompe-se o domínio das trevas, o céu e a terra se reúnem, a eternidade e o tempo se abraçam. O Menino enfaixado é o Homem que desata as faixas e transforma o túmulo da Morte em templo da Vida.

A Luz torna o mistério fascinante, mas o Mistério iluminado queima os olhos de quem se atrever a profaná-lo querendo dominá-lo com olhos carnais. Somente a Transfiguração dará ao ser humano olhos capazes de contemplar o Mistério, num longo caminho de transfiguração a ser percorrido. No meio das miríades de estrelas que brilham nessa noite luminosa, Maria é a Estrela que anuncia o Sol que nos vem visitar.

Todo nascimento é oportunidade para uma troca de presentes. Em primeiro lugar, o Pai eterno nos dá o Filho eterno como criança frágil de quem ninguém precisa ter medo. Seguindo a Liturgia de São João Crisóstomo, e nós, que presentes oferecer ao Menino como sinal de gratidão?

Os anjos oferecem sua gratidão, os céus a estrela, os Magos seus dons, os pastores sua admiração, a terra oferece a gruta, o deserto a manjedoura. Nós, porém, oferecemos a Deus uma Mãe Virgem. No Filho que gerou nossa natureza humana também é pacificada e virginizada.

É Natal. Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra!

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ADVENTO – VEM, SENHOR JESUS!

O Menino que vem – Igreja da Transfiguração – Romênia

“Vem, Senhor Jesus!” Marana Thá! provavelmente é a mais antiga prece dos cristãos que ardentemente suspiravam pelo retorno do Senhor. Podemos imaginar a saudade de Jesus que tinham os Apóstolos, os discípulos, os pobres e doentes que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Na Liturgia, o pedido “Vem, Senhor Jesus” é feito logo após as palavras da Consagração, na apresentação do Mistério da Fé, memória do gesto que Jesus ardentemente desejava fazer: comer com os Apóstolos a Ceia pascal, prenúncio de sua paixão e ressurreição.

“Vem, Senhor Jesus!” é a prece do tempo que antecede as alegrias natalinas. O tempo do Advento abre o Ano Cristão da Igreja latina e, conforme está na palavra Advento, traz o sentido de expectativa, pedido de socorro, esperança de mundo novo, grito por salvação. São quatro domingos: os dois primeiros nos remetem à vinda gloriosa do Senhor no final dos tempos e os dois últimos, à vida de Jesus no Natal. Natal da História, Natal de Belém.

Na escuridão do pecado que teima em infelicitar a humanidade, precisamos invocar a vinda do Senhor. Nossa civilização parece caminhar para a barbárie. Somos vítimas da violência verbal, institucional, onde nada tem limite. Nosso século inaugura um período onde nada é valor, onde qualquer coisa tem o valor que lhe damos. Um século onde os valores são desprezados de modo soberbo: cada um se acha fonte de verdade e de ética. Quando assistimos ao espetáculo de deputados e senadores ladrões e corruptos se apresentando como vestais, quando escutamos que policiais se aliam a assaltantes e roubam de ladrões, quando somos informados que o vírus da venalidade atinge as mais altas esferas da Justiça e da política, quando nos deparamos com os casos de pedofilia envolvendo aqueles cuja missão é defender os menores, como os religiosos, quando percebemos a juventude encontrando prazer na morte trazida pelas drogas, precisamos suspirar: “Vem, Senhor Jesus!”

Todos sentem-se pontífices da verdade, dando opiniões irresponsáveis sobre a vida e os valores, a voz sábia de Bento XVI é silenciada porque defende os pobres e denuncia o desperdício das nações ricas, o Cristianismo passa a ser vítima de uma nova perseguição, mais cruel e deletéria, porque se fundamenta na ridicularizarão dos valores bíblicos. A Igreja Católica, em todas as nações ricas e de velha tradição cristã é colocada sob suspeita. Defende-se por tudo o Estado laico, livre das imposições religiosas, desde que sejam católicas. Os judeus, as Testemunhas de Jeová, os Adventistas têm direito de não prestar concurso no sábado, dia por eles santificado. Ai da Igreja católica se pedisse para não haver trabalho no domingo: estaria se intrometendo no sagrado Estado laico… Os judeus colocaram a Estrela de Davi, os muçulmanos a Lua Crescente, substituindo a Cruz na Cruz Vermelha. Mas há juízes querendo tirar os crucifixos de todos os ambientes públicos. Incoerência.

Por que esse mau humor com a Igreja católica? Porque ela é necessária, porque sua palavra incomoda os que defendem o império do egoísmo, porque diz um “não” incondicional a tudo o que violenta a vida humana e a integridade da criação.

Como sempre, com mais força pedimos “Vem, Senhor Jesus!”

Mas, poderíamos perguntar, Jesus não está entre nós, ele que está em tudo e em todos? João nos responde: “Ele está no mundo, mas o mundo não o reconhece” (Jo 1,10). Ele está presente por seu amor e ausente pela nossa indiferença. Então, nosso pedido tem o sentido de que nossos olhos sejam purificados para vê-lo e aceitar sua companhia.

Querendo ou não, todo ser humano tem saudade do Senhor, saudade do Bom Pastor. Todos queremos que ele logo retorne. Quando rezamos “Senhor, sê nosso pastor”, ele responde: “Eu sou o pastor, carrego nos ombros todo o rebanho, cada um de vocês, assumi toda a natureza humana”.

Nossa cegueira espiritual nos faz procurar Jesus dele nos afastando, nos faz procurar Jesus, não percebendo que moramos nele e ele em nós. A Liturgia do Advento nos diz: a Redenção está próxima. Próxima não no sentido cronológico, mas físico, pois o Senhor está no meio de nós. Continuamos a perguntar “e quem é o meu próximo?”, para evitar compromissos.

Os corações mansos e humildes reconhecem o Senhor, pois ele uniu-se à pobreza de nossa natureza, fez-se carne por amor de nós, unindo-se a nós assumiu toda a condição humana. Para que? Para realizar seu plano de amor: unindo sua natureza divina à nossa natureza humana ele quer fazer-nos divinos, para que sejamos um com ele. (Cf. Gregório de Nissa, Carta a Teófilo).

O Senhor desceu para nos elevar. “Vem, Senhor Jesus!”

Pe. José Artulino Besen

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O NATAL, OU A HUMILDADE DE DEUS

«O povo que andava na escuridão,
viu uma grande luz;
para os que habitavam nas sombras da morte,
uma luz resplandeceu».

(Isaías 9, 1)

O tema de luz perpassa o tempo de Natal e o da Páscoa e é celebrado a cada Batismo. Também nos é lembrado a cada vez que escutamos o próprio Jesus afirmando: «Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8,12). O tema da luz explica a importância das curas de cegos no Evangelho.

Em uma cena do drama «O pai humilhado», de Paul Claudel, uma moça judia, linda, cega, aludindo ao duplo significado da luz, pergunta a seu amigo cristão: «Vós que vedes, que uso fizestes da luz?» É uma pergunta dirigida a todos nós que nos confessamos cristãos. Temos a Luz: o que dela fazemos? O que queremos enxergar com ela?

A nossa dificuldade em dar resposta coerente à judia cega é que usamos mal ou desconhecemos a atitude necessária para fazer bom uso da luz, da Luz. Tentamos o critério do poder, da majestade, do milagre, e a fé se deforma. Optamos pelo critério do julgamento, do medo da justiça divina, e a fé torna-se risível.

O Natal nos aponta uma palavra iluminadora: a HUMILDADE. A humildade de Deus. Nosso Deus é humilde. Se tivermos dificuldade em admitir essa verdade contida em todas as Escrituras, o Cristianismo perde o sentido e até a razão de ser. Os maiores críticos da revelação cristã apontam exatamente a incoerência de um Deus todo-poderoso mas que é frágil, impotente. Nessa fragilidade, porém, é que reside a força e a potência do Deus Trindade. A manjedoura de Belém e a Cruz do Calvário são os sinais mais poderosos da humildade divina.

Deus pede hospedagem a Abraão, suplica a Moisés que liberte seu povo – um povo de escravos no Egito, pede a profetas frágeis que desarmados falem a reis, sofre por ser traído em seu amor esponsal, quer ter uma mãe, escolhida entre jovens da insignificante Nazaré. Os anjos cantam Glórias, mas o Filho tem de fugir para o Egito e, no retorno, a vida silenciosa de 30 anos.

A humildade de nosso Deus se revela na figura do Pai sofrido que espera o filho pródigo, do Filho que aceita ser manifestado como manso Cordeiro, pequeno Pão consagrado, do Espírito Santo simbolizado na carinhosa pombinha.

O Deus humilde chega até nós, mas não nos substitui, pois não quer que nos sintamos incapazes. Refuta o milagre triunfal que nos deixaria amorfos, submetidos ao fatalismo da história.

Deus pede licença para nos perdoar: é o Espírito que geme em nós para que reconheçamos nossa condição e o faz tão delicadamente que na distração da vida não o percebemos.

A humildade de Deus é tão clara que somente podemos vê-lo (sim, ele pode ser contemplado) no faminto, no doente, preso, desabrigado, sedento, doente, nu. O Deus humilde não nos julga pelo que lhe tenhamos feito, mas pelo que fizemos ou não a seus filhos e, dentre esses, os mais insignificantes.

O verdadeiro povo do Deus verdadeiro é o povo humilde, que invoca o Bom Jesus, o Bom Deus. É o povo nunca culpando o pobre Deus por nada. Eles, que são pobres, reconhecem a pobreza de Deus e, por isso, ao pedirem uma graça, até lhe oferecem algum voto ou retribuição. Para eles a Bíblia é Palavra de Deus que lhes é dirigida, não um problema intelectual. Os sábios dizem: isso é fundamentalismo!

Na cena memorável do romance Os Irmãos Karamazov, Dostoievski coloca Jesus sendo julgado e condenado pelo Inquisidor de Sevilha porque rejeitou o poder, a fama, o milagre. Por que rejeitar o milagre tendo poder para fazê-lo?  E o humilde Jesus nada responde, porque Deus Pai não quer ser temido e ter o mundo facilitado pelo poder dos milagres. Ele quer agir e deixar agir pela única força que os humildes possuem e que é a única força divina: o amor. O amor é o ato perfeito dos humildes, que nada pedem em troca, que agem silenciosamente, que não pensam em si.

Nosso Deus é humilde porque é Amor. Sempre será desprezado pelos soberbos e pelos cristãos ciosos de um lugar de prestígio no mundo religioso.

Os pastores acreditaram no anúncio de anjos e adoraram o Menino. Os Reis vieram do Oriente e adoraram o Deus Menino no menino Deus. Aceitemos a fragilidade de Deus para sermos fortes no amor.

Pe. José Artulino Besen

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«O Natal – a Treva Luminosa de Deus»

«Procurai o Senhor com simplicidade de coração,
porque ele se deixa encontrar por aqueles que não o tentam,
ele se revela a quem não recusa ter fé nele» (Sab 1,1-2).

Tentar o Senhor é exigir prova de sua existência, é duvidar da sinceridade de sua Palavra. Assim como nós abrimos nosso coração a quem em nós confia, Deus abre os tesouros de seu amor a quem se lhe entrega pela fé.

Os homens exigem provas, mas as provas ferem a verdade e o Senhor as recusa. Deus se encerra no seu amor sofredor (P. Evdokimov). Amor sofredor: bela expressão a indicar o quanto Deus Pai sofre por causa de nossas dúvidas de filhos torturando-se por provas científicas, como se Ele fosse um dado a ser destrinchado por fórmulas racionais!

Toda a Escritura nos fala de Deus e Deus abre inteiramente seu amor por nós através da Palavra: é a criação, é o Povo eleito, são os profetas, é seu Filho! Sim, seu Filho, Palavra do Pai, foi-nos entregue para restabelecer a comunhão divino-humana. Apesar de tanta prova de presença, continuamos a procurá-lo longe dele, sempre onde ele não se encontra: na vaidade-vacuidade das aparências.

Após o Pentecostes Deus Pai fala apenas através do sopro do Espírito, sofrendo um «louco amor» por respeito à liberdade da consciência humana. Ele gostaria de nos falar diretamente, mas estaria ultrapassando o limite de nossa liberdade.

O ateu diz: «Se Deus existe, o homem não é livre». Já pela Bíblia concluímos: «Se o homem existe, Deus não é mais livre». Deus pode tudo, menos obrigar o homem a amá-lo. O homem pode dizer «não» a Deus, mas Deus, não: Ele pode apenas dizer «sim» (2Cor 1,19), o sim da Aliança, ecoado eternamente por Cristo na Cruz. Sua palavra de amor não tem retorno, mas nossa palavra de negação é sem limites. E o Pai sofre, e com ele o Filho e o Espírito, o Deus Comunhão.

Mas não se cansa em seus jogos de amor. Permite que mergulhemos nas trevas, e se apressa em converter as trevas em luz. Pedimos provas de seu amor, e ele se recolhe, pois a ofensa é demais a quem tanto ama. Às vezes até se diverte com os sisudos doutores procurando ingressar nos espaços quase infinitos do cosmos, estabelecendo leis e calculando datas em bilhões de anos; ele se diverte desafiando-os a outro espaço quase infinito: mergulhar na vastidão incomensurável de um átomo. Podem cometer todas as experiências, para depois ouvirem no silêncio da eternidade o «Faça-se a Luz». E verão as trevas desmanchadas pela profunda luminosidade da fé-amor.

O homem é um homem miserável, mas há alguém mais miserável ainda: Deus, esse mendicante de amor, à porta de seu coração. Ele bate à porta e espera. Se o homem abrir ele entra e apaga toda dívida (cf. Apoc 3,10). Foi contemplando seu Filho que o Pai nos criou, e quanto arde em poder narrar-nos toda essa história de amor. Decidiu que não pode obrigar-nos a ouvi-lo e, como um miserável, bate à porta delicadamente, sofrendo fome para dar amor aos filhos.

Ingressamos no tempo do Natal: a Palavra de Deus se faz Menino, frágil criança a espera que o procuremos e o sustentemos ao colo. Então esse menino restabelecerá nossa comunhão com o Pai. Por serem simples, viverem encantados com suas ovelhas e as estrelas nas noites de Belém, os pastores ouviram anjos, foram revestidos de luminosidade, viram e adoraram o Menino.

As crianças gostam de brincar de se esconder para serem procuradas. Escondem-se deixando-se à mostra para que alguém as procure e grite de alegria por encontrá-las. E elas gritarão de prazer porque foram procuradas e encontradas.

Deus aprendeu com elas: faz-se criança, brincando para ver quem sente falta dele. Ele se esconde, para que nós o procuremos. No mistério do Natal é quase impossível não encontrá-lo: basta procurá-lo. Após o encontro, o Deus Menino migra para dentro de nossa alma e faz-nos emigrar para junto dele (cf. São João Damasceno, Sermão 90).

Pe. José Artulino Besen

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Na paz não pode haver medo

«Deixo vos a paz, dou vos a minha paz» (Jo 14,27).

Quem não passou pela experiência da angústia? Ou não perdeu o sentido da paz pessoal, da paz interior? E então lamentou: «Perdi a paz»!?

Não se pode confundir paz com ausência de problemas. Paz com panos quentes. Paz como sinônimo de distância de dificuldades.

Há dois tipos de paz: a paz da lama e a paz que vem de Deus.

Todos conhecem a lama, o pântano. Num dia de sol, olhando-se por cima, a lama nos apresenta uma visão de luz: ela reflete os raios do sol. Se olharmos para dentro dela, porém, veremos quantos vermes e matéria em decomposição estão escondidos, como uma bela sepultura que esconde um corpo putrefato. A paz da lama é a paz que vem do medo, da covardia de enfrentar a vida. Se meu adversário é mais forte do que eu, calo me, dou lhe as mãos. Mas o ódio continua em mim. Se o problema me amedronta, fujo dele, finjo que não existe. Mas ele continua, recolhido, num dia voltando com força total. Para que na minha casa não haja discussões, finjo nada ver, deixando cada um fazer o que bem entende. Até passo por bonzinho, compreensivo. Mas o câncer do mal vai se alastrando…

Há países que estão em paz, um por medo do exército do outro. Nos tempos da guerra fria (1945-1989), americanos e russos não estavam numa situação de paz, e sim, de medo: quem explodisse a primeira bomba receberia outra em troca!

Não é essa a paz a que devemos aspirar e, sim, a paz que Jesus nos veio trazer: a paz fruto da verdade, do amor, da busca do bem, do bom combate.

A paz fruto da justiça, da reta remuneração do trabalhador, do pleno emprego, do respeito às minorias, do perdão nunca negado. Paz sem justiça é paz garantida pela força. Não é paz: é medo!

Jesus disse que seu Reino sofre violência, que só os fortes o possuirão. Quis nos prevenir que a luta faz parte da busca da amizade com Deus, com as pessoas, mesmo as mais queridas, do enfrentamento ativo dos problemas. A busca da justiça pode até provocar gestos violentos dos injustiçados. Nela o mal é vencido numa guerra sem descanso. Uma guerra diferente: conduzida por amor. Nela gastamos energias, pois sabemos que é uma luta pelo bem.

Uma família unida, sadia, é fruto do diálogo, da exigência, do combate ao egoísmo. Somente quem não ama contempla o outro se encaminhando para o precipício e nada faz. As exigências do amor às vezes provocam sofrimentos, incompreensões. São como cirurgia: dói, dá medo, e depois traz saúde.

Quem foge da dificuldade não terá a paz verdadeira. O covarde não conhece o sabor da paz fruto do perdão, da verdade, da justiça. A ressurreição de Cristo foi posterior à prisão, flagelação e morte. A paz que Jesus nos oferece é fruto da busca incansável da verdade, no amor.

No Natal os anjos desejaram Paz na terra, na Páscoa o Senhor nos saúda com a Paz. Vivamos na Paz que é posse do amor de Deus e que transborda em amor ao próximo.

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NO NATAL O DIVINO PENETRA TODA A CRIAÇÃO

«Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens!» (Lc 2,14).

Natividade do Senhor

Natividade do Senhor

Pela primeira vez na história, o céu vem à terra para trazer uma notícia humana e divina. São os anjos que vêm anunciar aos pastores que na manjedoura jazia um menino, o Cristo Senhor. Os repórteres celestes fazem reportagem na terra! Tem início uma comunhão misteriosa, cuja finalidade é reiniciar o diálogo entre o céu e a terra, entre Deus e o homem, interrompido pelo pecado. O ser humano tem agora a possibilidade real de superar o limite do tempo e do espaço e entrar na vida divina, onde nada tem fim, onde tudo é participação-comunhão no eterno. Agora o céu é o templo dos homens e a terra, o templo de Deus.

“O Verbo se fez carne e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória” (Jo 1,1-14).

O mistério do Natal envolve toda a criação num novo processo: a instauração do reino de Deus, toda a riqueza da criação ser penetrada pelo divino. A encarnação do Filho concretiza uma nova Aliança, a Igreja, da qual ele é a Cabeça: é a história da salvação cristã.

Em momentos de dúvida podemos ser vítimas do pessimismo: Cristo veio, tanto já se trabalhou, tantos mártires e santos, e o reino não caminha! O mundo antigo parece vencer a batalha. Mas, é de Deus a palavra verdadeira e final. Cristo é e será o vencedor. Um dos nossos problemas é achar que o arco da história está se completando, que os tempos estão terminando.

É bom citar aqui João XXIII, o Papa Bom: “Quem conhece a história sabe que lentamente, lentamente a nossa Igreja se purificou. Daremos outros passos. Temos ainda muitos séculos diante de nós”. E em outras palavras, a Igreja ainda é uma criança. Sabe bastante e acaba achando que já sabe o suficiente. Mas precisa aprender a viver, a testemunhar a presença do Espírito. Dois mil anos são apenas o começo. Criamos estruturas para exaltar o triunfo de Cristo, e ficamos preocupados em alterá-las, suprimi-las, para que resplandeça a glória do Senhor no ser vivo.

Os cristãos sabem que o amor é o centro da mensagem do Menino: mas jogam bombas para destruir o Afeganistão. Sabemos que a criação é divina: caprichamos em destruí-la. Todos somos irmãos: na prática, muito pouco. Estamos aprendendo. Num mundo de morte, somente a Igreja tem uma palavra de vida definitiva: precisa centrar-se nessa missão.

Devemos ser modestos em nossa arte pastoral. Afinal, o Espírito paira sobre o universo e inspira a criatividade trinitária, é cheio de novidades. Deus é Mãe: as mães são fecundas por definição e vivem preparando surpresas para seus filhos. Estejamos atentos a essa surpresas divinas. A evangelização apenas começou.

A Palavra do Papa:

Maria Santíssima Mãe de Deus e Recitação do «Te Deum»

No final de um ano, que para a Igreja e para o mundo foi riquíssimo de acontecimentos, ao lembrar do mandamento do Apóstolo: “Caminhai… firmes na fé… transbordando em ações de graças” (Cl 2, 6-7), esta noite encontramo-nos juntos para elevar um hino de agradecimento a Deus, Senhor do tempo e da história. Sim, é nosso dever, mais do que uma necessidade do coração, louvar e agradecer Àquele que, eterno, nos acompanha no tempo sem jamais nos abandonar e vigia sempre sobre a humanidade com a fidelidade do seu amor misericordioso.

Portanto, podemos dizer que a Igreja vive para louvar e agradecer a Deus. Esta mesma “ação de graças”, ao longo dos séculos, é testemunha fiel de um amor que não morre, de um amor que envolve os homens de qualquer raça e cultura, disseminando de modo fecundo princípios de verdadeira vida. Como recorda o Concílio Vaticano II, “a Igreja simultaneamente ora e trabalha para que toda a humanidade se transforme em povo de Deus, Corpo do Senhor e templo do Espírito Santo e, em Cristo, cabeça de todos, se dê ao Pai e Criador de todas as coisas toda a honra e toda a glória” (LG, 17). Sustentada pelo Espírito Santo, ela “prossegue a sua peregrinação entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus (Santo Agostinho, De Civitate Dei, XVIII, 51, 2), haurindo força da ajuda do Senhor. Deste modo, com paciência e com amor, supera “as aflições e dificuldades internas e externas”, e revela “fielmente ao mundo, mesmo que sob a sombra dos sinais, o mistério do seu Senhor, até ao dia em que finalmente resplandecerá na plenitude da luz” (LG, 8). A Igreja vive de Cristo e com Cristo. Ele oferece-lhe o seu amor esponsal, guiando-a ao longo dos séculos; e ela, com a plenitude dos seus dons, acompanha o caminho do homem, para que aqueles que acolhem Cristo tenham vida e a tenham em abundância. […]

No início desta celebração, iluminados pela Palavra de Deus, cantamos juntos com fé o “Te Deum”. São muitos os motivos que tornam intensa a nossa ação de graças, fazendo dela uma oração coral. Enquanto consideramos os múltiplos acontecimentos que assinalaram o decurso dos meses neste ano que se está a concluir, quero lembrar de modo especial quem se encontra em dificuldade: as pessoas mais pobres e abandonadas, quantos perderam a esperança num fundado sentido da própria existência, ou são vítimas involuntárias de interesses egoístas, sem que se lhes peça a adesão ou opinião. Fazendo nossos os seus sofrimentos, confiemos-las a Deus, que sabe dirigir todas as coisas para o bem; a Ele entreguemos a nossa aspiração para que cada pessoa seja acolhida na própria dignidade de filho de Deus. Ao Senhor da vida peçamos para aliviar com a sua graça as penas provocadas pelo mal e para continuar a dar vigor à nossa existência terrena, doando-nos o Pão e o Vinho da salvação, para sustentar o nosso caminho rumo à pátria do Céu.

Ao despedirmo-nos do ano que se encerra e encaminharmo-nos para o novo, a liturgia destas primeiras Vésperas introduz-nos na festa de Maria, Mãe de Deus, Theotókos. A oito dias do nascimento de Jesus, celebramos Aquela que “quando chegou a plenitude do tempo” (Gl 4, 4) foi escolhida por Deus para ser a Mãe do Salvador. Mãe é quem dá a vida, mas também quem ajuda e ensina a viver. Maria é Mãe, Mãe de Jesus, a quem deu o seu sangue, o seu corpo. E é ela que nos apresenta o Verbo eterno do Pai, que veio habitar no meio de nós. Peçamos a Maria que interceda por nós. A sua materna proteção nos acompanhe hoje e sempre, para que Cristo nos acolha um dia na sua glória, na assembléia dos Santos: Aeterna fac cum sanctis tuis in gloria numerari. Amém!

(Homilia do PAPA BENTO XVI, Sábado, 31 de Dezembro de 2005)

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