Posts Marcados Missão

MISSÃO – ANUNCIAR A CRUZ DO SENHOR

Santo Hilário de Poitiers (315-368) foi batizado aos 30 anos e, oito anos depois, em 353, foi eleito bispo de Poitiers, atual França. Ali se deparou com o sucesso da heresia dos arianos, que afirmavam que Jesus foi um homem que Deus escolheu para ser seu Filho, deste modo não sendo eterno. Uma heresia agradável, pois não incluía a eternidade de Cristo e sua encarnação. Agradável, mas destruía o fundamento da fé cristã pela qual cremos que o Filho eterno entrou na história assumindo a natureza humana no seio virginal de Maria. O ensinamento de Ario foi condenado no Concílio de Nicéia (325), mas dividiu a Igreja.

O imperador Constâncio II queria tudo, menos uma Igreja dividida que mexeria com a paz no Império. Pendeu para o arianismo, condenando a verdadeira doutrina. Afinal, com seu pai Constantino a Igreja ganhara liberdade e deveria ser reconhecida e obediente, pensava.

Entra em campo o Bispo Hilário, que receberá o título de “martelo dos arianos”. Escreve ao imperador lamentando o fim da perseguição que trouxe a falta de liberdade de crer na verdade. Suas palavras são contundentes: (O Imperador) “é traiçoeiro e bajulador, não nos açoita as costas, mas nos acaricia o ventre; não nos confisca os bens (assim dando-nos a vida), mas nos enriquece para dar-nos a morte; nos impele não para a liberdade aprisionando-nos, mas para a escravidão convidando-nos e honrando-nos no palácio; não açoita nosso corpo, mas se apodera de nosso coração; não corta nossa cabeça com a espada, mas mata nossa alma com o dinheiro “ (Liber contra Constantium 5).

Para o santo bispo, não vale a pensa a liberdade se priva o cristão da verdade. Continua sua defesa intransigente do mistério da Encarnação. Em 364 foi exilado por outro imperador, Valentiniano I, defensor da heresia e que gostava de atirar o corpo dos adversários como comida para suas duas ursas favoritas, Migalha de Ouro e Inocência.

A exemplo de Hilário, nós também conhecemos a terrível e sedutora tentação de facilitar a fé e a vida cristãs. Assim como havia teólogos em Constantinopla dando razão ao Imperador, teólogos em Coimbra e Salamanca que justificavam a escravidão negra, não nos faltam teólogos envolvidos no heróico esforço de tornar o mistério cristão palatável aos humores atuais.

Pregadores transformam as exigências cristãs em esforço de mudança sujeita às desculpas psicológicas (a lei é assim, mas sou uma exceção, pois tenho minhas carências). Quantos de nós, cristãos, apreciamos o circo dos milagres que reduzem o Senhor a um curandeiro, esquecendo-nos o quanto Jesus repudiava ser procurado por causa de milagres: querem meus milagres, mas não querem minha pessoa!, afirmava. Há um pregador televisivo, autodenominado “apóstolo”, afirmando que não inicia uma pregação sem ao menos dez milagres. É dono de algum deus…

Sendo constitutivamente missionária, a Igreja não pode ingressar no mercado competitivo das facilidades. Não assim nos ensinaram os Apóstolos, os Mártires, não assim nos ensinam os missionários que se embrenham pelas selvas humanas do mundo das culturas. Servem-se de recursos que possibilitem a inculturação mas, no momento principal, gritarão: “O Senhor que vos anunciamos é o Filho de Deus, o Cristo crucificado! Ele ressuscitou!”. Não faltará serem acusados de loucura, escândalo, fraqueza. Não há, porém, outro caminho. Na sua viagem à Inglaterra (17/09/2010), Bento XVI afirmou que hoje “o preço a ser pago pelo Evangelho não é sermos enforcados, afogados ou esquartejados, mas, sermos ridicularizados”.

A medida do Deus amor é a cruz. Deus sofre e morre na carne para vencer a morte. Toda a conversão se orienta para o combate que leva da morte à ressurreição. A glória do cristianismo é a Cruz, árvore da vida. A árvore do Paraíso trouxe a morte, a árvore da Cruz traz a vida, pois o Senhor da Vida dela é inseparável. A facilitada negação do pecado esconde a negação da cruz: seguir o Senhor, renunciar, tomar a cruz.

No dia do batismo através dos pais e padrinhos, no dia da Crisma em nome pessoal, na Vigília pascal com a comunidade, somos convidados a proferir três vezes o “Renuncio!” ao pecado, à injustiça, às seduções satânicas. Não há “Renuncio” sem amor à cruz, à luta constante pela fidelidade ao Senhor e aos irmãos. E sem o “Renuncio” autêntico, consciente não há vida pascal, nem alegria pascal.

O conhecimento de Deus se dá pela adoração que leva ao amor, pelos joelhos dobrados que expressam humildade frente ao mistério, pelo fascínio diante da beleza oferecida a quem testemunha a beleza da Cruz por uma vida de combate em busca da transfiguração pascal.

Pe. José Artulino Besen

, , , , ,

2 Comentários

A IGREJA E A MISSÃO DA CRUZ – ANÚNCIO DA BELEZA

Crucifixão

Crucifixão

A crise do Cristianismo está apenas começando. Vivemos ainda numa espécie de ilusão cultural em que a fé se confunde com religiosidade e o Cristianismo com a tradição cristã. Vivemos um conflito interior entre aquilo que é de Deus e aquilo que é da carne, e tentamos misturar os dois num mesmo prato, sem perceber que ambos se contestam às escondidas, pois a fé não nasce da carne, mas de Deus.

Misturamos a herança dos Apóstolos e dos Santos Pais com o orgulho confessional (“eu sou católico”, “eu sou crente”), a graça da vida segundo o Espírito com o peso histórico e étnico (que também pede seus “direitos místicos”, como pensar que todo brasileiro tem de ser católico, todo árabe, muçulmano). Confundimos o sentido da verdade com o gosto pelo poder mas, a carne e o sangue não poderão herdar o Reino de Deus (cf. 1Cor 15,50).

A missão é anunciar a beleza da Cruz.

A paixão de Cristo é a “hora” da glória. Ele se desfez através do sofrimento por amor e depois o Pai o transfigurou na carne ressuscitada. O Senhor glorioso é o Senhor crucificado. Paulo, após ter sido tocado pela Luz arrebatadora no caminho de Damasco, não anunciou o poder, o espetáculo do sucesso, mas a fragilidade do Amor: “Irmãos, eu mesmo, quando fui ter convosco, não me apresentei com o prestígio da palavra ou da sabedoria para vos anunciar o mistério de Deus. Pois não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado, … a fim de que a vossa fé não se baseie na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus” (1Cor 2, 1.5; cf. 1, 23-25).

A grande Liturgia da Igreja vivencia esse anúncio paradoxal na forma do Belo em estado puro: a Eucaristia é a ação de graças pela Paixão-Morte-Ressurreição-Ascensão gloriosa do Senhor: a pequenez do Pão oculta/revela a Glória infinita do Senhor; o altar é belo, a Palavra é bela, os cantos são belos, os paramentos são belos; belo é o povo que celebra os acontecimentos centrais da história, mas ergue os olhos e imediatamente contempla o Crucificado, belo na dor pelo amor.

A missão cristã não é anunciar uma teoria, um código de comportamento que provoca cansaço e temor. É algo mais fascinante: é mostrar Cristo, suprema revelação do ser, da forma, da glória e da beleza de Deus. O missionário tem consciência de que a beleza e a luz de Deus compreendem também o abismo da treva na qual mergulha o Crucifixo, de que o caminho da fé supõe o grito “Meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34).

A beleza do Crucificado é tão irresistível, porém, que leva quem o busca a uma aventura onde luz/treva, consolo/abandono, certeza/dúvida parecem se confundir e, ao mesmo tempo, são distintas, pois sabemos que no final do caminho repousaremos dizendo “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). As vertigens do mergulho em busca do Belo nos farão contemplá-lo na serenidade de quem o amou.

, , ,

Deixe um comentário

VOCAÇÃO, IMENSO AMOR PESSOAL POR JESUS

Jesus e seus discípulos

Jesus e seus discípulos

“Vem e segue-me”, foi o convite de Jesus. E eles deixaram tudo, foram atrás dele e nunca mais voltaram para casa. Foi a experiência de Pedro e André, João e Tiago, de todos os apóstolos, de Paulo, de milhões e milhões de homens e mulheres, jovens e crianças, nestes 20 séculos de cristianismo. Encontraram o Senhor e o seguiram pelo Caminho. Foi um encontro que gerou o fascínio e fez nascer o amor entre Jesus e seus discípulos. Foi a mesma experiência de Abraão, Moisés, Samuel, dos profetas, diante de Javé.

No mês de agosto, a reflexão pastoral acentua o tema das vocações ao casamento, ao sacerdócio, à vida religiosa e ao apostolado, todas, é claro, conseqüência da fé batismal. Muitas vezes se explica o como fazer e o que fazer na vida vocacionada. Situa-se a vocação no fazer e não no ser que gera a ação. O ponto de partida, para alguns, é a necessidade da Igreja, a superação da crise das vocações, da família, das congregações e institutos religiosos, a falta de agentes de pastoral qualificados. E corremos atrás das pessoas, oferecemos cursos de formação, materiais pedagógicos e o nosso agradecimento prévio pela aceitação do convite. Corre-se até o risco de passar a imagem da Igreja como centro de técnicas e conhecimentos e não como comunidade de vida e contemplação. O fruto de tal enfoque é o surgimento de vocações “profissionais” a serviço da estrutura eclesiástica ou religiosa, de agentes de pastoral apenas competentes. Vocações sujeitas à rotina, ao cansaço, ao desânimo, à necessidade de retribuição. É o preço pago pela mistura de evangelização com catequese. Ou, mais ainda, o preço histórico de nossa herança latina, que insiste mais na vontade, na lei, na instituição e na moral, e menos na oração, na contemplação, na mística. Com isso, a formação dos agentes de pastoral se coloca pouco na linha da experiência mística e mais na linha da razão e da eficácia racional.

Evidente que temos agentes de pastoral que passaram por uma verdadeira conversão, que nutrem um imenso amor pessoal por Jesus e seu povo, muitos deles despertados nos numerosos movimentos eclesiais. São discípulos.

Quem não foi tocado pelo amor de Jesus não tem a prática de comunicá-lo. Aquele que não sentiu o fascínio irresistível do Mestre é um pregador de projetos e preocupações humanas, sem calor, sem o impulso agregador do convertido.

Na Evangelii Nuntiandi, o Papa Paulo VI falava que o mundo precisa mais de testemunhas do que de discursos. Se o discurso comove, a testemunha arrasta. Testemunha é aquele que viu. Os apóstolos testemunharam a ressurreição porque viram o Ressuscitado.

O vocacionado será testemunha daquele que ressuscitou e faz a vida ressuscitar se ele próprio foi tocado pela pessoa do Mestre. Ele é um apaixonado pelos santos e pela santidade, ele está decidido a ser santo como Deus é santo. Busca a santidade que consiste no apropriar-se do transformante amor divino e irradiá-lo pela vida e pela palavra nas comunidades, igrejas, ambientes de trabalho, de estudo, santidade vivida no lar.

O fato de necessitarmos falar tanto em vocação já atesta uma carência da vivência cristã nos batizados. Então ganha todo o sentido a nova evangelização, o reavivamento da fé, o despertar da graça em quem a possui pelo batismo, mas disso não se dá conta. Precisamos de uma grande campanha vocacional: para a vocação cristã que gerará todas as vocações necessárias ao povo de Deus.

, , , ,

Deixe um comentário

«TENHO SEDE!» – A VOCAÇÃO CRISTÃ

Tenho sede! (Jo 18,28).

As grandes santos, que privaram da amizade divina, não viram na sede de Jesus Cristo sede física, mas outra sede, mais profunda e dolorosa: a sede de almas. Todo o mistério da encarnação está centrado na doação do Filho para aplacar a sede do Pai pelas almas. A multidão perdida no pecado, na desesperança, aumenta a sede do Senhor.

Os santos e os cristãos que entenderam sua vocação como intercessão pelos pecadores assumiram para si essa mesma sede: também eles gemem, em suas orações e em seu ministério, ardendo em sede de almas, na decisão insaciável de oferecer almas para saciar a sede de Cristo. Os algozes ofereceram vinagre ao Crucificado: os cristãos oferecem almas, a preocupação missionária, a oferta da oração.

Em junho de 1897 Santa Teresinha, após sofrer a experiência das “almas que não têm fé”, tomou a decisão de sentar-se à mesa dos “pobres pecadores”, para com eles comer “o pão da dor” e de não querer, de jeito nenhum, “levantar-se dessa mesa de amargura até que o Senhor os acolha a todos na sua misericórdia”. O amor e a compaixão por toda a humanidade, dos quais nasce o desejo de que todos se salvem, é um dom de Deus, uma graça. Não são sentimentos humanos, mas despertados e forjados no coração pelo Espírito Santo, afirma São Silvano do Monte Atos.

O Espírito suscita muitas vocações para a vida da Igreja, e todas elas têm como causa final a salvação do mundo, das pessoas, das almas. O fogo do Espírito Santo, envolvendo-nos em suas chamas, aumenta nos que o aceitam essa sede dolorosa dos que compartilham a sede de Jesus.

Constituímos um povo sacerdotal: e o que faz o sacerdote se não interceder pela salvação do mundo? É essa a missão é todos os que foram batizados e participam do sacerdócio de Cristo. São João Crisóstomo, comentando a parábola dos talentos (cf. Mt 25,24-25), afirma: “Aquele que enterrou o talento era irrepreensível, mas inútil. Nada há de mais insignificante, frio, do que um cristão que não salva os irmãos” (Hom. sobre os Atos 20,4). Quem cuida só de sua salvação, em livrar a própria pele é como o soldado que no campo de batalha pensa apenas em si: acaba provocando a morte dos outros e a sua.

Um grande Pai da Igreja, Isaac o sírio (séc. VII), anima os que se preocupam ativamente com a salvação do próximo: “No dia em que te afligires pelo fato de alguém estar doente no corpo ou na alma, tenhas certeza de que naquele dia és um mártir, pois sofreste por Cristo e foste digno de confessá-lo” (Disc. I,58). O mártir é o que derrama o sangue pelo Cristo: podemos ser mártires derramando nosso suor/sangue pelos que são de Cristo, por toda a humanidade.

A crise vocacional, sempre se diz, é uma crise de generosidade, de misericórdia, de compaixão. É a ausência da preocupação pela “sede” de Cristo, julgando-se que a vida cristã comprometida se reduz a uns 10% de oração e outros 50% de “compromisso”. Por esse motivo, muitos ricos e países ricos entram em crise de fé: tornam-na inútil por terem reduzido o crer a não fazer o mal.

A Cruz de Cristo é o “sinal” dos cristãos: contemplando-a na profundidade da fé sentiremos o abismo de compaixão daquele que foi crucificado pelo mundo. E, casados ou solteiros, crianças ou jovens, leigos ou consagrados nos ofereceremos, como Santa Teresinha, para aplacar a sede de almas estampada nos lábios e na face do Senhor.

Nossa grande vocação é sentarmo-nos à mesa dos pecadores, como fez Jesus, e transformá-la em mesa de salvação: um cristão não consegue viver sem proclamar a misericórdia de Deus.

,

Deixe um comentário

SEGUIDORES, NÃO TRIUNFADORES

Ide a todo o mundo...

Ide a todo o mundo…

O sucesso histórico não é o metro para todas as coisas. “Por certo, Jesus não é o advogado dos homens de sucesso na história. … O que ele quer não é nem o sucesso nem o insucesso, mas a aceitação dócil do julgamento de Deus” (D. Bonhoeffer. Ética, 67). A alegria da vida cristã não provém do trunfo de se poder afirmar “o Brasil é o maior país católico do mundo”, nem sua tristeza tem origem no constatar que a Igreja católica perde anualmente 1% de seus membros. Publica-se que no Brasil 60% da população é católica. Como se entende, então, que a França seja chamada de “pós-cristã” se nela 70% se declaram católicos?

O imperador Constantino em 311 concedeu liberdade aos cristãos quando eles constituíam “apenas” 10% da população do Império romano (6 milhões em 60 milhões). Ele, porém, percebeu na fé cristã uma força nova, um estilo de vida que tinha uma palavra forte para a sociedade. Perguntemos: é grande sucesso ter alcançado 10% da população após 300 anos de evangelização? Realmente, Cristo não é advogado dos homens de sucesso! A vitória de Cristo é a doação incondicional de tantas pessoas, o martírio de inteiras comunidades, a fidelidade sem reservas à sua pessoa. Os discípulos, não os números, dão testemunho do poder da fé.

A alegria do cristão, o sentido de sua vida é a adesão total e incondicional ao Deus da vida através da aceitação pessoal em nossa vida da encarnação, paixão, morte, ressurreição e ascensão gloriosa de seu Filho. Não o metro do sucesso, mas o grau de fidelidade a seu Senhor faz a Igreja caminhar serena pela história e seus desafios.

O cristianismo não é feito de números, mas de santos; precisa de teólogos e pastores cuja teologia seja oração, cuja vida dê testemunho daquilo que estudam e ensinam. Uma preocupação doentia em casar o cristianismo com o mundo acaba por deixar ambos sem sentido. É comprometedor afirmar com Santo Inácio de Antioquia, a caminho do martírio em Roma: “O cristianismo não é obra de persuasão, mas de grandeza”. Grandeza de testemunho, de coragem, de fé/adesão ao Senhor Jesus.

É motivo de vergonha para quem ama a Igreja e o Evangelho a preocupação e angústia de tantos cristãos diante da publicação de evangelhos gnósticos, como o de Judas, Tomé, diante de uma literatura feita de mediocridade histórica e bom tempero de suspense como o Código da Vinci. Vergonha, porque o evangelho de Judas é conhecido desde o século II, o mesmo se dizendo de tantos livros apócrifos do período posterior à era apostólica. Lá, como hoje, buscava-se saciar a curiosidade sobre a vida oculta de Jesus, o destino do Iscariotes traidor, a vida de José e Maria, o fascínio despertado pela personagem Maria Madalena. O que não se sabe se inventa e o curioso sente-se recompensado.

Dissemos vergonha porque a tal de angústia é atestado de que nossa catequese e formação de cristãos é moralizante, pendendo para a ética, querendo fazer do cristianismo a “arte do bom comportamento”. Tanto na catequese infanto-juvenil como nos cursos de teologia para leigos a história da Igreja e de suas primeiras comunidades é deixada de lado em benefício de uma preocupação com a moral e os bons costumes. E, deste modo, o último sucesso editorial ou de mídia que aparecer na praça deixará tantos cristãos em dúvida, perplexos por poderem estar sendo enganados pela Igreja.

O fundamento de nossa fé é a encarnação-morte-ressurreição do Filho de Deus que nos oferece vida em plenitude. Tudo por graça, por dom de Deus. Essa verdade a Igreja transmite meditando os 73 livros da Sagrada Escritura. A vida de seu Senhor e mestre está contida nos 4 Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. A Sagrada Escritura transmitida pela Igreja nos dá a segurança do ato de fé, da entrega de nossa vida a Deus, de iniciarmos sempre de novo o caminho cristão até a consumação final em Cristo, no Espírito Santo.

A realidade histórica do cristianismo é a vida dos cristãos brotada da meditação da Palavra de Deus e movida pela Graça. Formamos militantes, “agentes” de pastoral. Talvez nos despreocupemos do único necessário: formar discípulos. A vida é curta para completarmos o discipulado. No momento do julgamento com sua inesgotável misericórdia Deus completará o que falta.

Velhinho, pouco antes de ser triturado pelas feras do circo romano, Inácio de Antioquia afirmou: “Agora começo a ser discípulo de Cristo”.

, , , , , ,

Deixe um comentário

A IGREJA – CARNE DO RESSUSCITADO

Os três Santos Hierarcas em torno da Mesa Eucarística

Os três Santos Hierarcas em torno da Mesa Eucarística

As celebrações do 15º Congresso Eucarístico Nacional encheram os olhos e o coração dos que delas participaram ou acompanharam pelos meios de comunicação. A profusão de cores, a beleza da ornamentação, a harmonia dos movimentos, a vibração dos cantos, a presença de centenas de bispos realçando a unidade da Igreja em torno de seus pastores, milhares de presbíteros e cristãos, tudo contribuiu para testemunhar a beleza que brota da fé, da unidade, da Eucaristia. “A Beleza salvará o mundo”, afirmou Dostoievski, e um fragmento dessa beleza divisamos nas Liturgias: Deus é a Beleza e podemos contemplá-lo em tantos que nele crêem.

Naquelas horas vibrantes, quando o aspecto humano poderia até sensibilizar mais do que o mistério, a verdadeira realidade era um pequeno pedaço de pão, um cálice de vinho, sobre os quais foram proferidas as palavras da última Ceia: e aqueles pequenos sinais de pão e vinho se expandiram, explodiram em luz: eram a Presença, eram o Ressuscitado, diante de quem céus e terras se prostraram em adoração.

Nestas horas solenes devemos ter presente que a Igreja é mais do que uma instituição: é um contínuo milagre divino, o paradoxo da cruz, instrumento de morte que é símbolo de ressurreição. Ao mesmo tempo ela contempla o Senhor descendo aos infernos e subindo vitorioso aos céus, contempla a derrota da cruz e a glória da ressurreição/ascensão: é a obra do Espírito Santo que faz ascender à vida nova quem a Cristo recorre da sombra da morte.

Espírito e carne – visibilidade e invisibilidade

A Igreja é carne: não se pode limitá-la a uma realidade invisível. É a comunidade de santos e pecadores, de discípulos e medíocres, de servidores e exploradores, pois sua existência não tem como objetivo congregar santos, mas fazer santos, não criar uma seita de eleitos, mas um povo convertido pela graça.É a carne da prostituta pecando e é a carne da mesma mulher enxugando os pés de Jesus com lágrimas de contrição e amor. É a Igreja triunfante nos céus e, simultaneamente, a Igreja militante na terra.

Por isso, ao tocar a carne, machucada pela fragilidade, com o corpo ressuscitado do Senhor entregue na Eucaristia, temos consciência de que não podemos reduzir a Igreja de Deus a uma realidade visível, a uma ONG. Ela é o Jesus de Belém e o Senhor ressuscitado de Jerusalém.

Só se pode conhecer a natureza da Igreja de Deus na comunhão entre as dimensões visível e invisível, comunitária e pessoal, hierárquica e carismática, local e católica.

A missão de toda a Igreja, assumida como programa pelo papa Bento XVI em sua homilia de entronização, é não fazer a própria vontade, mas colocar-se na escuta da Palavra e da vontade do Senhor e deixar-se guiar por ele de tal modo que seja ele quem guia a Igreja. Todos, pastores e rebanho, somos ouvintes e servidores.

A Eucaristia é o ápice da vida da Igreja e sua nascente: a Igreja nasce da Eucaristia e a ela conduz. O que é a Eucaristia a não ser a presença do Ressuscitado na comunidade que celebra e dele comunga?

Donde vem a energia que faz jovens tudo deixarem para ser presbíteros, jovens se consagrarem na vida religiosa, homens e mulheres que assumem a sacralidade da família, profissionais que defendem a vida e o progresso segundo a justiça, o voluntariado na vida eclesial, nos asilos, orfanatos, hospitais, escolas para deficientes? Donde vem a energia que faz um cristão enfrentar sorrindo o pelotão de fuzilamento por causa de Cristo, que faz o missionário aprofundar-se por terras e culturas desconhecidas? Donde vem essa capacidade de se fazer o bem sempre, sem nada pedir em troca? Da Eucaristia! “A Eucaristia é uma explosão nuclear que acontece no mais íntimo do ser e que provoca uma reação em cadeia de atos de amor”, disse Bento XVI aos jovens em Colônia (21/08/2005). Ela transforma a Igreja em testemunha crível do amor: Deus caritas est, Deus é amor. A Igreja é a manifestação visível desse amor, ou não é nada de significativa para o mundo.

A grandeza de ser cristão

Cada cristão participa da graça que a Eucaristia traz à Igreja: a santidade e bondade de cada fiel provém do Corpo do Ressuscitado do qual nos alimentamos e de quem somos membros. A comunhão recupera em nós a imagem divina danificada pelo pecado, lustra nossa imagem da poeira da rotina, das infidelidades diárias e nos faz luminosos pela Luz que recebemos: “Ó homem, por que tens de ti um conceito tão baixo, quando foste tão precioso para Deus? Ele imprimiu em ti a sua imagem, a fim de que a imagem visível tornasse presente ao mundo o Criador invisível” (São Pedro Crisólogo – séc. V).

A Igreja que nasce da Eucaristia nos revela quem somos, a Beleza que há em nós, faz-nos renascer, isto é, recuperar a face que tínhamos no Paraíso: “Se queres conhecer quem tu és, não fiques olhando o que tu foste, mas olha a imagem que Deus tinha ao criar-te”, afirma Evágrio Pôntico (séc. IV).

As energias divinas vencem as fraquezas humanas e os muros construídos pelo pecado são derrubados pela reconciliação dada a cada um pelo Pão da Vida. O coração purificado do pecado vê mais longe do que o demônio: tudo para ele é transparente. Então nos olhamos uns aos outros e em cada um de nós é amada e admirada a face divina ao mesmo tempo em que Deus vê em nós sua face humanizada. E cantamos com Santa Catarina de Siena: “Nós somos imagem de tua divindade e Tu és imagem da nossa humanidade”.

, , ,

Deixe um comentário

A MISSÃO CRISTÃ E A PLANTAÇÃO DA IGREJA

“Enquanto os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas, para os eleitos, força de Deus e sabedoria de Deus” (cf. 1Cor 1, 22-24).

Ide por todo o mundo...

Ide por todo o mundo…

A história da missão cristã tem uma companheira inseparável: a cruz do Senhor. Se produziu mártires, o anúncio da fé cristã foi fecundo; se não os produziu, restou estéril. Quando Pedro quis afastar da cruz e da morte o Senhor, a reação foi imediata: “Vai para longe, Satanás! Tu não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!” (cf. Mt 16, 23). Um Messias milagreiro, poderoso, sonho da humanidade, seria estéril, pois reproduziria a tentação diabólica do prestígio e do poder. Não bastava ressuscitar Lázaro: era necessária atravessar o caminho do amor total, dando a vida pela vida do mundo.

A glória da Igreja são seus mártires: seu sangue derramado fecundou a terra onde ela foi plantada. A videira/Jesus somente deu fruto com o Pai/agricultor que escolheu adubar a terra esterilizada pelo pecado com o sangue de seu Filho. A plantação da Igreja segue o mesmo caminho: cada missionário é a videira que dá frutos aceitando que o Pai seja o agricultor, fertilizando a terra com seu sangue, que pode ser a humilhação, o cansaço, o fracasso, a fome, a doença, a perseguição, a morte. Tanto a terra como o semeador e a semente passam por um processo de morte e vida: a terra é limpa, cavada, revolvida; na sua semente o semeador semeia-se também; e a semente, se não morre, não germina.

Pavel Florenskij (1882-1937), grande teólogo e cientista russo, após anos de trabalhos forçados nos campos de concentração soviéticos, escreveu, às vésperas de ser fuzilado a mando de Stálin: “O destino de grandeza é o sofrimento, causado pelo mundo exterior e pelo sofrimento interior. Assim foi, assim é, e assim será”.

O cristão não ama a vida?

Mas, seria uma pergunta justa: teriam razão os pagãos quando acusavam os cristãos de misantropia, pessoas com raiva da vida e que procuram o sofrimento? Seria o Cristianismo a fé dos fracassados? Do mesmo modo que o santo homem Jó permanece a figura símbolo do Antigo Testamento, o Cristo crucificado é a realização e o símbolo da Nova Aliança. A única resposta possível é o silêncio dos que crêem, o silêncio feliz dos missionários e dos cristãos em terras de missão: “A cruz de nosso Senhor Jesus Cristo deve ser a nossa glória: nele está nossa vida e ressurreição; foi ele que nos salvou e ressuscitou” (cf. Gl 6,14). É esse o segredo guardado como pedra preciosa pelos cristãos e anunciado aos povos: na cruz de Cristo está nossa vida e ressurreição. A cruz que fecunda a terra liberta da morte e faz viver a vida em plenitude.

O missionário anuncia o amor de Deus, e este é o princípio, o meio e o fim da cruz: todo e somente o amor de Deus Pai que crucifica, o amor do Filho que é crucificado e o amor do Espírito Santo que triunfa pelo poder da cruz (cf. Filarete de Moscou, 1873). Quando o missionário anuncia esse amor total de Deus, tem a consciência de estar encarnando parte desse amor, sente que está sendo digno de ajudar a salvar o mundo derramando também seu sangue. O sangue dos mártires é sangue solidário. Os sofredores do mundo que oferecem a dor pela salvação dos homens estão intimamente possuídos pela felicidade de serem também cordeiros mansos e humildes sacrificados no altar da redenção.

Contemplam verdadeiramente Jesus os pobres do mundo, restos dos mesmos pobres que o contemplaram na Galiléia e na Judéia. Em si, o sofrimento não tem sentido, pois é fruto do pecado do mundo: mas, na contemplação do Cristo crucificado ele se une à potência vivificadora da cruz e gera a libertação do mundo. A fertilidade da missão é conseqüência da fertilidade da cruz, plantada no mais profundo dos infernos e alcançando o mais alto dos céus como potência vivificadora do Ressuscitado, nas palavras fortes de O. Clément.

A Igreja não vende facilidades, mas proposta de fidelidade à Cruz

Uma tragédia pervade certos ambientes eclesiásticos: confundir o anúncio do Evangelho com o sucesso estatístico. Caiu-se na moda do mundo e limpa-se o Crucificado de todas as chagas, enxuga-se no chão da Igreja qualquer vestígio de sangue. Prega-se o sucesso, não o martírio: vendem-se facilidades ao preço da esterilização cristã. Afugenta-se o martírio para que não sejam amedrontados os fregueses desse grande mercado em que ser quer transformar o solo eclesial. Quer-se tirar da vida cristã a dor que é compaixão, doação total, transformação interior, combate da fé.

O Cristo crucificado, marcado por feridas, pó e pus, é belo: seu rosto tem a beleza infinita do mais generoso dos corações, é expressão total da bondade. É esse o Cristo do missionário, é essa a beleza do seu rosto, reflexo de sua compaixão. A Igreja não pode fazer da missão uma empresa com metas seguras de sucesso: estaria escondendo o rosto solitário de seu Senhor crucificado para dar vida ao mundo. Sua glória é a cruz de Nosso Senhor, pois nele está nossa vida e ressurreição.

O Cristianismo está começando

Por que tantos mártires na história da missão? Por que Deus não livra seus mensageiros da passagem pela dor? A resposta é dada por aqueles que sofreram a perseguição e se prepararam para o martírio: quem participa do sofrimento de Cristo participa, já agora, de sua glória e somente deste modo pode ser considerado digno da ressurreição.

O caminho da cruz é sofrimento e sacrifício, mas é igualmente sinal da salvação e manifestação da glória de Deus. Aqueles a quem Deus permitiu o martírio deu-lhes a dignidade de viver a mesma paixão de Cristo, a mesma agonia e o mesmo abandono na cruz.

O comunismo e o nazismo, grandes tragédias do século XX, não enfraqueceram os cristãos, sobre quem recaiu sua fúria: tanto nos gulags russos como nos campos de concentração nazistas ecoava continuamente o grito de júbilo: Aleluia! Cristo ressuscitou!

O que debilita a Igreja não é a perseguição e sim, sua transformação em sinal frouxo de uma graça comprada a baixo preço, em sucesso à moda do mundo. No caminho da fé a juventude não busca facilidade, abundante em outras paragens. Ela busca o desafio da cruz redentora.

Desde o início e até o final da história ecoou e ecoará a mesma palavra feliz do Pe. russo Alexander Men’, às vésperas de seu martírio em 1990: “O Cristianismo está começando!”. Começando a cada vez que gera um mártir.

, , , ,

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: