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LUCAS, O EVANGELISTA DA MANSIDÃO MISERICORDIOSA

Lucas evangelista - Afresco no Monte Athos

Lucas evangelista – Afresco no Monte Athos

Se convidarmos quatro irmãos e pedirmos que escrevam 10 páginas sobre sua mãe, teremos uma surpresa: cada um enfoca sua mãe de modo próprio e dela recorda fatos e palavras diferentes no tom e na circunstância. A mãe é a mesma, o olhar é diferente, pois cada um carrega sua experiência de vida. Assim acontece com os quatro Evangelistas – Mateus, Marcos, Lucas e João: cada um narra a vida de Jesus, há coincidências na descrição de fatos e palavras, mas, no conjunto, teremos quatro vidas do mesmo Jesus. Podemos alegar quatro motivos: a experiência que tiveram de Jesus, as fontes que consultaram, a comunidade donde provém, a teologia que expressam.

Isso tem conseqüências: não podemos ler as narrações evangélicas como se fossem iguais, uniformizá-las; devemos, isso sim, mergulhar na riqueza e na diversidade de cada evangelista.

Ouvindo o evangelho de Lucas em 2013, no Ano C do ciclo de leituras, falemos de Lucas, o terceiro evangelista. Nascido em Antioquia da Síria, onde conheceu Paulo, Lucas é o evangelista não judeu. Redigido num grego fluente e elegante, seu Evangelho é dirigido a uma comunidade pagã, e foi escrito na década de 70-80. Lucas teve como fontes os evangelhos de Marcos, Mateus e tradições próprias.

Foi colaborador amado e fiel de Paulo, que a ele se refere como “caro médico” (Cl 4,14), o inclui no bilhete a Filêmon e, ao lamentar que Demas, Crescente e Tito o abandonaram, escreve que “somente Lucas ficou comigo” (2Tm 4,11).

Lucas, narrador da história da Salvação

Lucas redige o terceiro evangelho como historiador, mas historiador teólogo. No início, afirma que pesquisou longa e diligentemente, com espírito crítico, em fontes escritas, e conversou com testemunhas oculares. Quis escrever com ordem, mas ordem kerigmática e catequética. Para Lucas, é claro que a verdade do anúncio se encontra nas origens: é o princípio da tradição, pelo qual transmitimos o que recebemos. As heresias que surgem em seu tempo fogem da tradição, são frutos da imaginação. É necessário retornar à história (cf. 1,1-4).

Quando Lucas escreveu, também quis ensinar às comunidades cristãs que a segunda vinda do Senhor não era iminente: com isso não bastava concentrar-se em Jesus, mas se exigia uma reflexão sobre o tempo da Igreja que tem consistência própria e não é puramente tempo de espera acomodada, mas tempo de salvação. O tempo da Igreja prolonga e atualiza a salvação de Jesus. Assim, Lucas escreve os Atos dos Apóstolos: a história de Jesus prossegue na história da Igreja. Jesus continua presente nas Escrituras, nas palavras e atos de Jesus e na presença dos Apóstolos. O constitutivo da continuidade é o Espírito Santo, cujo Pentecostes narra como início da pregação apostólica.

Lucas é homem de Igreja e da tradição, de vastos horizontes e de delicada sensibilidade, tendo como características a universalidade (Jesus veio para todos), o amor pelos pobres, a misericórdia, o perdão, a presença das mulheres, referindo-se a Maria como nenhum outro Evangelho o faz.

O evangelho da infância – das mulheres

No propósito de descrever a origem da tradição apostólica, Lucas é o único que pesquisa a infância de Jesus e do precursor João Batista. Devemos-lhe o anúncio e o nascimento de João e de Jesus, a notícia sobre Zacarias e a estéril Isabel. A poesia divina do nascimento em Belém, os anjos falando com pastores, cantos celestes, narrações que inspiraram a São Francisco a montagem do presépio. De Zacarias nos transmite o Benedictus (Bendito seja o Senhor Deus de Israel) e, de Maria, o Magnificat (A minh’alma engrandece o Senhor), hinos que entoamos diariamente ao amanhecer e ao anoitecer.

A grande tradição sobre a Mãe de Cristo, Maria, praticamente é lucana: é Maria Mãe, Maria que visita Isabel, Maria em Belém, Maria indo ao templo para a circuncisão do menino, o velho Simeão e a profetiza Ana, Jesus entre os doutores. Uma piedosa tradição apresenta-o como pintor e lhe atribui retratos de Maria.

Enriquecendo a presença feminina no Evangelho, poderíamos aqui acrescentar Mateus (Mt 1,3.5.6.16) que, entre os antepassados de Jesus, em sua genealogia não oculta as mulheres irregulares: há quatro mulheres “mal afamadas”: Tamar foi explorada pelos filhos de Judá e teve um casal de gêmeos com ele; Raab era prostituta; Betsabé foi obrigada a ser adúltera com Davi; Ruth era estrangeira pagã. Quatro mulheres, e a quinta é Maria, Mãe de Jesus.

Numa sociedade patriarcal como a judia, onde a mulher nem digna era de ouvir as Escrituras sagradas, Lucas cita as mulheres em companhia de Jesus (8,1-3): Maria Madalena, Joana, Susana, Maria mãe de Tiago e várias outras que o serviam com seus bens. Um Rabi “legítimo” não teria mulheres como discípulas, mas o Rabi Jesus as inclui entre os que o acompanham no êxodo a Jerusalém e delas aceita o auxílio para o sustento.

Quando está subindo o monte Calvário, são as mulheres que choram por seu sofrimento: as Filhas de Jerusalém (23,27-32). Essas mulheres permanecem aos pés da cruz, acompanham o sepultamento de Jesus, compram perfumes e bálsamos e, graça imensa, recebem as primícias da ressurreição, de que dão notícias aos apóstolos: são apóstolas dos apóstolos (cf. 23, 55-56; 24, 1-12).

Evangelho como êxodo, caminho, viagem

Seu Evangelho é um longo caminhar de Jesus e com Jesus. Diferentemente dos outros, no cenário do Evangelho de Lucas Jesus vai a Jerusalém para completar sua missão. É a cidade onde acontece a redenção: “eis que vamos a Jerusalém!” Com seus discípulos, Jesus vai a Jerusalém, onde, como judeu piedoso, estivera na infância e na vida adulta, mas, agora como uma grande peregrinação na qual Jesus segue o vale do Jordão até o oásis de Jericó, atravessando a Galiléia e a Samaria, depois seguindo até a Judéia e a Cidade Santa. Apesar das profecias de Jesus a respeito de sua morte, os discípulos ainda não entendiam que essa seria a última viagem.

Lucas oferece um quadro teológico dessa viagem, e os verbos que utiliza indicam o movimento, o caminho: ir, chegar, subir. aproximar-se, entrar. São verbos do êxodo: verbos que marcaram o êxodo de Abraão de Ur a Canaã, o êxodo de Moisés do Egito à Terra prometida. A esses dois êxodos Lucas acrescenta o êxodo definitivo de Jesus que é precedido pela Transfiguração (Lc 9, 28-36). Nessa hora o Lucas historiador é o Lucas teólogo: na montanha Jesus conversa com Moisés (a Lei) e Elias (os Profetas) a respeito desse êxodo (cf.Lc 9,31), assumindo como novo Moisés e Profeta definitivo.

A viagem lucana ocupa o Evangelho de Lc 9,51 a 19,28. No seu percurso, Lucas narra, com seu coração misericordioso, o coração misericordioso de Jesus, afetuosamente ligado ao homem fraco e pecador e manifestado nas parábolas que somente ele narra: o bom samaritano (10,30-37), o filho pródigo (15,11-32), o pobre Lázaro e o rico avarento (16,19-31), o fariseu e o publicano (18,9-14). A viagem a Jerusalém é o anúncio da compaixão pela humanidade mergulhada na dor, no pecado, no sofrimento, na pobreza, na solidão, na morte. É a viagem onde o Mestre mergulha no coração do homem.

Dante Alighieri, na obra “De monarchia”, apelida Lucas de narrador da mansidão/misericórdia de Cristo Senhor (Scriba mansuetudinis).

Lucas, o narrador da mansidão misericordiosa do Pai e do Filho

O cenário do Evangelho de Mateus é a Montanha, à qual Jesus sobe, qual novo Moisés, e proclama o código da Nova Aliança, as “Bem-aventuranças” (Mt 5,1-12). Em Lucas, Jesus desce da Montanha e proclama as “Bem-aventuranças” na planície (Lc 6,20-23).

Acima afirmamos que Lucas escreve o terceiro Evangelho tendo como fonte Mateus, Marcos e uma outra, exclusiva sua. São esses textos, encontrados somente em Lucas, que demonstram o espírito que o anima: narrar a mansidão misericordiosa de Jesus que, por sua vez, é o narrador do Pai.

Em primeiro lugar, temos o capítulo 15 onde, com três parábolas, Jesus responde à pergunta “como Deus é”: a ovelha perdida (15,1-7), a dracma perdida e achada (15, 8-10) e o filho pródigo (15,11-32). Após essa narração, é falso todo anúncio de um Deus que amedronta, ameaça, se impacienta e condena. 

Em 1662, o pintor Rembrandt, velho e arrependido de seus muitos pecados e desperdícios, retratou o Pai como um velho, cego, tendo uma mão feminina e outra masculina: poderoso e frágil, pai e mãe, amor puro.O filho é retratado sem cabelos na cabeça, como que retornando ao ventre de seu Pai/Mãe .É impossível não se emocionar ao ver Deus Pai retratado com tanta misericórdia.Ele está sofrido, mas conserva a dignidade de filho: carrega o rolo com seus documentos e calçados aos pés.Apesar de tudo, não tinha esquecido sua filiação, razão pela qual retornou.

Em 1662, o pintor Rembrandt, velho e arrependido de seus muitos pecados e desperdícios, retratou o Pai como um velho, cego, tendo uma mão feminina e outra masculina: poderoso e frágil, pai e mãe, amor puro. O filho é retratado sem cabelos na cabeça, como que retornando ao ventre de seu Pai/Mãe. É impossível não se emocionar ao ver Deus Pai retratado com tanta misericórdia. Ele está sofrido, mas conserva a dignidade de filho: carrega o rolo com seus documentos e calçados aos pés. Apesar de tudo, não tinha esquecido sua filiação, razão pela qual retornou. (A volta do filho pródigo – Rembrandt – Detalhe)

Em seguida, Lucas narra parábolas de Jesus, centradas na misericórdia de Jesus e na confiança nele que caminha entre os pobres, doentes, humilhados e sofredores da terra: o bom samaritano (10,25-37), o rico tolo (12,13-21), o rico e o pobre Lázaro (16,19-31), a viúva insistente e o juiz iníquo (18,1-18), o fariseu e o publicano (18,9-14), o administrador infiel (16,1-12), o amigo importuno (11,5-8).

Narra encontros de amizade e compaixão: Marta e Maria em Betânia (10,38-42), a pecadora arrependida ( 7,36-50), Zaqueu (19,1-10.28), o Bom Ladrão (23,39-43),

São exclusivos de Lucas o sinais do poder de Jesus destinados a consolar, amparar, dar saúde, colocar o amor acima da lei: o jovem filho da viúva de Naim (7,11-17), a mulher curvada curada em dia de sábado (13,10-17),  o hidrópico curado também no sábado 14,1-6), a cura dos dez leprosos (17,11-19). Ensina a humildade na comunidade cristã: convidem-se os pobres (14,12-14), ceder os primeiros assentos (14,7-11), as condições para ser discípulo (14,25-35).

 Lucas, catequista da comunidade cristã

Se tivermos presente o fato de Lucas provir do paganismo e ter sido amigo e companheiro de Paulo, conhecedor das comunidades paulinas, podemos dizer que Paulo é também o anunciador da misericórdia do Senhor, por ele provada no caminho de Damasco e anunciada como graça, dom de Deus que vem pela fé.

Companheiro de Paulo até o martírio em 67, com 84 anos Lucas sofreu o martírio na Beócia e, segundo outra tradição, em Patras, na Grécia.

São Lucas, além da primeira história da Igreja (Atos dos Apóstolos) deixou-nos um inesgotável texto catequético, inspiração de tantos mestres espirituais e movimentos cristãos: os Discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35). Ali, numa liturgia da Palavra que leva à fé no Senhor ressuscitado, encaminha-nos para a liturgia Eucarística: os discípulos do Senhor são reconhecidos ao partir o Pão. Sua vida é eucaristia, ação de graças.

Pe. José Artulino Besen

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TEMPO DE RECUPERAR AS LÁGRIMAS

Durante 40 anos o povo judeu se preparou, no deserto, para entrar na Terra prometida, numa história de fidelidade e infidelidade, de obediência e desobediência, mas sempre contando com a fidelidade divina. Simbolicamente, nosso caminho para a Páscoa da Ressurreição percorre os 40 dias da Quaresma. E toda a nossa existência é um caminhar que desemboca na eternidade, na Terra prometida aos que permaneceram fiéis.

O momento final, porém, nos colocará diante do Senhor, a quem apresentaremos nossa vida. A morte, escreveu o filósofo M. Heidegger, é a plenitude de nossa vida. Em nossas mãos estará nossa existência e, nelas, Deus contemplará como vivemos concretamente o Capítulo 25 de Mateus – o Juízo final – se fomos ovelhas ou cabras. E ouviremos as palavras “Vinde, benditos”, ou “Afastai-vos, malditos”. Seremos julgados pela lei da misericórdia, seremos pesados na balança da compaixão e, ainda nesse instante, é-nos oferecida a possibilidade da reconciliação.

Emil Cioran (1911-1995), ateu-crente romeno, escreveu, evocando a psicostasia do antigo Egito, ou seja, o momento em que as almas dos defuntos eram pesadas para verificar-se a gravidade das suas culpas: “No dia do juízo, só as lágrimas serão pesadas”. Para ele, o mundo é um receptáculo de gemidos.

Na parábola das ovelhas e cabras está muito claro que as lágrimas de compaixão vão ser o critério da verdade final.

A Igreja propõe, como caminho de vida neste Vale de Lágrimas, a vivência das Obras de Misericórdia Corporais e Espirituais. Tudo muito claro e, surpreendentemente, simples. Nos antigos Catecismos as crianças eram obrigadas a decorá-las para depois vivê-las. Com o tempo, perdeu-se o sentido da simplicidade da fé cristã e certa generalidade verbosa faz escapar o singelo caminho das lágrimas das misericórdias.

As Obras de misericórdia corporais são sete: dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; dar pousada aos peregrinos; assistir aos enfermos; visitar os presos; enterrar os mortos.

As obras de misericórdia espirituais são também sete: dar bom conselho; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram; consolar os aflitos; perdoar as ofensas; sofrer com paciência as fraquezas do próximo; rogar a Deus pelos vivos e defuntos.

Como deixamos de ser dualistas, separando o “corporal” do “espiritual”, é melhor que simplesmente falemos nas Obras de Misericórdia.

Hoje, delas poderíamos desdobrar outras obras de misericórdia, como proteger os pais idosos e doentes, evitar a ostentação de riqueza, não desviar do caminho de um pobre, ajudar os dependentes de drogas, não condenar os aidéticos, não expulsar bêbados ou doentes da igreja, acolher os migrantes, respeitar a fé dos simples, proteger as crianças e jovens, socorrer os desempregados, lutar pela justiça, etc. Para simplificar: agir como Jesus agiu.

As lágrimas e o Vale da Misericórdia

Assim, nosso Vale de Lágrimas não é o Vale do Exílio, mas é o Vale da Misericórdia, das lágrimas derramadas diante do sofrimento de nosso próximo. É o Vale formado pelo rio das lágrimas que foram refrigério para o ardor do sofrimento daqueles que passaram pelo nosso caminho. E seremos surpreendidos pelas lágrimas derramadas por tanta gente, e que nem percebemos. Sem as lágrimas de quem nos amou, a vida teria sido insuportável, como numa depressão contínua estaríamos sufocados pelo calor do desespero ou da solidão.

Na terra, o Filho chorou pela morte do amigo Lázaro e pelo sofrimento de suas irmãs Marta e Maria. Seremos também surpreendidos pelas lágrimas de Deus Pai, pois também ele chora: “Se não quiserdes obedecer, em segredo minha alma vai chorar: por causa do orgulho, estarão meus olhos chorando sem parar, derramando lágrimas” (Jr 13, 17). Quanta ternura contemplamos em nosso Abbá num cantinho, chorando, de esguelha olhando para nós para ver se nos decidimos por ele!

Não somos conduzidos pelo pessimismo, pois nenhuma lágrima será perdida: “Contaste os passos da minha caminhada errante, minhas lágrimas recolhes no teu odre; acaso não estão escritas no teu livro?” (Sl 56, 9).

Os Pais do Deserto, os contemplativos e místicos de todos os tempos invocavam o dom das lágrimas: lágrimas pelo próprio pecado, lágrimas pelo sofrimento do irmão, lágrimas pelas lágrimas de Deus. As lágrimas revelam que nossa vida não é empurrada pela soberba razão, pelo impacto da inteligência, mas pelo sentimento, pela compaixão.

As lágrimas são fruto de muita oração, da Eucaristia, dos sacramentos, da penitência, porque nosso instinto não é chorar pelos outros, mas pedir que chorem por nós. Deus é quem nos dá a graça de não mandarmos nosso próximo seguir adiante, porque estamos ocupados ou incapacitados. Nada justifica a omissão: “Quando estiveres extasiado junto de Deus, se um doente te pedir uma tigela de caldo desce do sétimo céu e dá-lhe o que pede” (Ruysbroeck).

O amor é simples, como Deus é simples: quem é humano de verdade chora diante de quem sofre, guarda as lágrimas para apresentá-las ao Pai no instante final. O próprio Deus mostrará nossas lágrimas, pois nenhuma foi perdida.

E, no dia em que o mundo formar um vale de lágrimas de misericórdia, encontrou a salvação. Toda a criação estará transfigurada e a humanidade será imagem e semelhança de Deus.

Pe. José Artulino Besen


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O VALOR MAIOR É NÃO TER PREÇO – O PERDÃO

Itália, 31/03/2005: Papa João Paulo II encontra, na prisão, o homem que tentou assassiná-lo, o turco Mehmet Ali Agca. Foto: Vaticano/Reuters

Místico cristão, filósofo, médico, poeta, jurista, Ângelo Silesius (1624-1667) é autor de comoventes e ternos versos dirigidos à gratuidade de Deus: “A rosa não tem porquê. Floresce porque floresce. Não cuida de si mesma. Nunca se pergunta: Alguém me olha?…“. Se cada flor, individualmente, é um hino à gratuidade divina, somemos todas as obras da criação e teremos uma pálida imagem do amor divino. Nada foi criado de forma igual. Nenhuma flor é igual à outra. Nenhuma pessoa é igual. O amor não repete dons, zela pela originalidade de cada um. E tudo gratuitamente, sem esperar recompensas.

Nós, pelo contrário, somos marcados pelo olhar do preço, da utilidade, do descartável, da comparação. Deus prefere o desperdício da beleza. Ou não é um desperdício um jardim, um bosque, a variedade das aves, frutas? Não bastaria uma rosa para encantar a natureza? Nosso Deus prefere o desperdício do amor, do belo. As flores são colocadas além do útil ou inútil. Elas existem, e isso basta para alegrar uma existência.

Não bastaria o sorriso de uma única criança para encantar nossa existência, rejuvenescer nosso olhar? E são tantas as crianças, tão esplêndidos os olhos de cada uma que nos damos ao luxo de nem percebê-las ao nosso lado, por todo lado.

“Hoje sabemos o preço de tudo e o valor de nada”, escreveu Oscar Wilde. Medimos cada gesto pelo preço e, desse modo, lhe tiramos o valor. A generosidade se caracteriza não pelo preço, mas pelo valor do gesto amoroso, amigo. Até crianças estão perdendo a alegria de receber gestos generosos: elas logo querem definir para que serve o presente. Se não serve, reclamam e jogam fora. São incapazes de sentir o valor afetivo do objeto dado com amor. Como seria importante recuperarmos o olhar da admiração, do deslumbramento, do encanto, o olhar divino! Isso tem consequências em nossa vida de fé: “O olho com que vejo Deus é o mesmo com que ele me vê” (M. Eckhart). Isso, do nosso ponto de vista: se somos desprovidos de sentimentos, julgamos que Deus também o é. Ele, porém, me vê com desperdício de admiração, pois sou obra de suas mãos. “Que maravilha, meu Senhor, sou eu! (cf. Sl 138), seria nossa resposta verdadeira ao nos contemplarmos diante de nosso Criador.

A ciência, de tanto buscar a composição de cada ser em seus núcleos, moléculas, DNA. corre o perigo de perder a capacidade de admirar, de ver o conjunto. Mas, ao poder contemplar a incrível complexidade de um átomo, também exclamará: “Que maravilha!”

 A ingratidão humana e a criação do perdão

Deus não se cansa em ser criativo. Nunca subestimemos a capacidade do Espírito Santo, que inventa os santos, as crianças, os gestos generosos, os mártires, os artistas, as mães e pais. Desde toda a eternidade Deus decidiu nos salvar em seu Filho, fazer-nos à sua semelhança. O mistério da salvação é o mistério do amor pessoal divino por cada um de nós expresso pela vida de Jesus. Ele, em seu testamento, no último dia terreno, escreveu com a escultura do Lava-pés: Deus veio ao mundo para nos lavar os pés.

E continuará lavando nossos pés, mas, a pedido de Pedro, nos lava totalmente pelo perdão. Perdoar é a obra-prima do Deus Uno e Trino: perdoar sempre, pedir licença para perdoar, reconciliar-nos com ele, toma a iniciativa mesmo frente à nossa total indiferença. Ele perdoa o inimigo, sempre, pois o mal e o ódio quebram a harmonia da criação. É além disso: ele não vê inimigos, mas filhos.

O perdão gemido pelo Senhor no alto da Cruz “Pai, perdoai-lhes, não sabem o que fazem” pode não ter sentido a nossos ouvidos, mas é natural na gratuidade divina. O perdão oferecido ao inimigo fica sem explicação, pois se governa pela lógica do gratuito, especialidade de Deus. O perdão ao inimigo tem sentido como per-doar: eu acompanho a palavra “eu perdôo”, eu me dôo a quem me ofendeu com a palavra perdão. É a mais preciosa herança entregue pelo Senhor aos cristãos: perdoar sem dizer por que, perdoar grátis. É a atitude definidora do cristianismo.

Do mesmo modo que tudo em Deus é gratuito, tudo o que oferecemos de reconciliação também seja gratuidade. Libertar o perdão da escravidão do oportunismo é permitir ao homem retornar às profundidades de sua humanidade, reencontrar em plenitude a própria dignidade, que tem origem no Deus amor. A humanidade reconciliada é nossa retribuição ao desperdício da beleza divina semeada na criação, e nosso compromisso frente ao mundo.

Pe. José Artulino Besen

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O CORAÇÃO DE JESUS, CORAÇÃO DE DEUS

Sagrado Coração de Jesus – por Salvador Dalí

Venham a mim,
vocês todos que estão aflitos e sobrecarregados sob o fardo,
e eu vos aliviarei” (Mt 11,28).

A mais profunda e significativa entre as devoções cristãs é a do Sagrado Coração de Jesus: é a devoção afetuosa e adoradora do próprio Filho entregue a nós pelo Pai. Nenhuma beleza se compara à imagem do Homem‑Deus, rasgando o peito e oferecendo ao mundo, ardendo em chamas, seu coração! Parece dizer‑nos: “Eis o coração que tanto ama o mundo. Eis um coração ardendo de amor, mas que tem tão poucos dispostos a aceitar serem amados por ele”.

Forte desde a Idade Média, a devoção se intensificou a partir das revelações privadas de Jesus à francesa Santa Margarida Maria de Alacoque (1647-1690). As revelações se estenderam por 17 anos e nelas Jesus a chamava de “discípula predileta” e que desejava revelar-lhe “os segredos de seu coração divino” e ensinar-lhe “a ciência do amor”. Mal compreendida, acusada de propagar fantasias místicas, foi determinante o encontro com o padre São Cláudio de la Colombière (1641-1682) que assumiu sua direção espiritual e atestou a autenticidade das revelações. Não era fácil para as autoridades eclesiásticas aceitarem visões de mulheres, sempre acusadas de propensas à fantasia.

Jesus pedia que uma Festa fosse dedicada a seu Coração. Após dúvidas, foi celebrada pela primeira vez na França, em 1672, e tornou-se festa de toda a Igreja em 1856, com data fixada na oitava de Corpus Christi. Os padres jesuítas foram e são seus grandes propagadores, de modo especial através do Apostolado da Oração.

Na devoção ao Coração de Jesus a Igreja presta culto ao coração humano de Jesus, inseparável de sua divindade, e ao amor do Salvador pela humanidade, cujo símbolo é seu coração.

Entre as Doze Promessas feitas por Jesus a Santa Margarida, salientamos: – os pecadores encontrão em meu Coração a fonte e o mar infinito da misericórdia (6ª.), as almas tíbias se tornarão fervorosas (7ª.) e as almas fervorosas elevar-se-ão rapidamente a grande perfeição (8ª.). O centro é o acolhimento à pessoa humana em sua situação real de santa ou pecadora, triste ou feliz, piedosa ou blasfema, sadia ou depressiva.

O Coração de Jesus, fonte e mar infinito da misericórdia, ao ser traspassado pela lança, com o sangue e a água fez jorrar para o mundo o batismo e a eucaristia, a fonte regeneradora da vida. Revelando-se como fogo, chama de amor, Jesus nos convida ao calor que brota do amor, do perdão, da misericórdia.

Numa época em que se afirmava o rigor de Deus, a distância instransponível entre Deus e o homem, o acesso mínimo, por indignidade, à Comunhão, Jesus anuncia a proximidade, a amizade. Convida-nos a residir em seu Coração divino. Não foi outra a causa de sua vinda ao mundo. 

Nossa resposta ao amor misericordioso

Preferimos continuar na solidão, sofrendo amarguras, sozinhos carregando os fardos da existência humana. Mas, há alguém disposto a ajudar‑nos a carregá‑los. Há alguém pedindo que lhe ofereçamos nossas aflições, querendo ser companheiro de jornada. É Jesus, oferecendo-nos abrigo em seu coração. Importante, há alguém que quer ser nosso companheiro no socorro aos sofredores.

Os olhos de Jesus nos fixam, até com angústia: pedem que aceitemos ser amados por ele. É verdade que muitas cruzes tornam pesada nossa vida. Jesus sabe disso melhor do que ninguém e, por isso mesmo, quer ser nosso amigo, compartilhar nossas dores e alegrias.

Coração de Jesus, coração de misericórdia, abrigo de santos e pecadores, de mansos e violentos, abrigo com vagas ilimitadas. Lembra o homem de Nazaré diante da pecadora a quem desejam apedrejar: “Mulher, eu não te condeno. Vai em paz, e não tornes a pecar”. Lembra Jesus rodeado de crianças: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino dos céus”. Lembra os usurários Mateus e Zaqueu, o amigo Pedro que o trai, o bom Ladrão na cruz. Lembra Jesus se opondo a deixar a multidão faminta, multiplicando‑lhe o pão. E, acima de tantos gestos de ternura, amizade, compreensão, nos faz elevar os olhos e contemplar o Crucificado: nada mais restando para comprovar‑nos seu amor, oferece a própria vida!

Homens e mulheres, jovens e velhos, encontram no Coração de Jesus não o conformismo, mas a força para a luta, para a vida. A ele se dirigem devastados pela dor, e dele retornam novas criaturas, com o fogo do amor tendo devorado as causas do sofrimento. Nele buscam amor, e saem para amar. São agressivos, orgulhosos: com ele aprendem a ser mansos e humildes de coração.

Quando Filipe pediu a Jesus: “Senhor, mostra‑nos o Pai”, obteve a resposta que revoluciona nossa relação com Deus: “Filipe, quem me vê, vê também o Pai!” (Jo 13,8‑9). O Coração de Jesus é o coração de Deus. A ternura de Jesus é a ternura de Deus, o Pai. Tudo o que podemos imaginar de carinho, compreensão, misericórdia, justiça, em Jesus, podemos ter a certeza de encontrar no Pai.

O medo sai de nossa vida. A tristeza nela não tem mais lugar. Se o pecado e o fracasso nos deprimem, o perdão e o afeto divinos nos reerguem. No Sagrado Coração de Jesus, fonte de vida e santidade encontramos, enfim, a paz que nos fará ter paz, e lutar pela paz.

Pe. José Artulino Besen

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O DEUS DO TEMOR E O DEUS DO AMOR

O pelicano, pássaro que tornou-se um símbolo da Paixão de Cristo e da Eucaristia.

E Deus teve pena de seu povo
e não executou o mal com que os tinha ameaçado
(Jn 3,1-10).

Nínive, capital da Babilônia, foi uma das maiores cidades da antiguidade. Também foi grande na corrupção, na violência, na devassidão. Para lá se dirigiu o profeta Jonas. Vendo tanto pecado, percorreu a cidade e ameaçou: Daqui a 40 dias, Nínive será destruída! (Jn 3, 4). Apavorada, a população fez penitência, cobriu-se de cinza, jejuou. E a cidade foi poupada.

Jonas ameaçou, o povo se intimidou, e Deus sentiu-se desagravado. Era o espírito da religião antiga, que apresentava Deus na forma de um senhor que era obedecido com temor e desagravado pela penitência.

A fé cristã, revelada pelo Filho de Deus, ultrapassa esse espírito. É uma fé que nasce e se desenvolve no amor, onde não tem lugar o temor (cf. 1Jo 4,18).

O caminho trilhado por Jesus foi o do convite amigo: Sigam-me (Mc 1,17). Primeiro o contato pessoal. Depois o convite. Não fazia uma investigação sobre o passado, para saber se a pessoa prestava ou não. A pessoa se sentia amada. E fascinada: essa atitude de Jesus produzia uma atração irresistível. A mulher pecadora o seguiu, Zaqueu o recebeu em sua casa, Tiago e João deixaram o pai, os irmãos, as redes. Jesus queria discípulos e não seguidores amedrontados. Queria pessoas felizes e não crentes entristecidos por ameaças de inferno, de fim de mundo.

Os ninivitas fizeram penitência e mudaram de vida, mas apenas pelo tempo em que durou o medo. Passado o perigo, voltaram à antiga vida. Os discípulos de Jesus mudaram de vida, mas para sempre. Sua atitude foi fruto do amor.

O Cristianismo não é conseqüência de uma idéia, de uma filosofia religiosa, de um código de comportamento. É fruto do encontro pessoal com Jesus Cristo, encontro de amor que gera uma vida nova. Após esse encontro, que nos Apóstolos foi físico, e para nós é na fé, somos capazes de tudo para dizer: “Senhor, eu te amo!”

Infelizmente temos uma tendência a apresentar Cristo como aquele que ameaça, que nos promete o inferno se não mudarmos de vida. Gostamos de repetir a pregação do profeta Jonas. Fazemos isso, quem sabe, por frustração: “Já que não querem por bem, que seja pelo medo…”. Inventamos sinais no céu, calamidades que se anunciam para amanhã e conseguimos arrebanhar alguns, que irão continuar no mesmo anúncio do apocalipse final.

Isso é religião para se morrer e não para se viver em plenitude. Acabamos espantando os jovens, os que gostam da vida. O mundo precisa do Cristo que venceu a morte, ressuscitou, e não do Cristo na sepultura. Quer uma mensagem que transforme pela força do amor, e não ameaças de sofrimentos no meio de tanta dor já existente.

Na melhor das intenções, alguns pais vivem a repetir para o filho desobediente: “Deus vai te castigar!” Semeiam no coração da criança o medo de Deus. Mais tarde, livre do medo, nada mais quer saber de Deus…

O medo escraviza, o amor liberta. Jesus quer discípulos, e não escravos.

Nunca esqueça: quando Deus nos contempla, o faz com olhos de ternura de um pai. Ele nos vê como filhos, nunca como pecadores.

Pe. José Artulino Besen


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A ORAÇÃO, MOMENTO DO ENCONTRO DO FILHO COM O PAI

O Abraço Paterno

Nas vossas orações não multipliqueis as palavras,
como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras.
Não os imiteis, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais.
Eis como deveis rezar: PAI NOSSO que estais no céu… (Mt 6,7-9).

A oração não é a palavra do servo dirigida ao seu senhor, não é a súplica do pecador com medo do castigo. Não é um ato nem de coragem, nem de medo. É o encontro confiante do filho com o pai, da criatura que sabe ser acolhida pelo Criador, do pecador com aquele de quem tem a certeza de receber o perdão.

É muito mais, porém: é o encontro com entre duas pessoas: eu e Deus!

Não se pode medir a eficácia ou a qualidade da oração pela multiplicação das palavras, como se Deus se impressionasse com nossa quantidade de fórmulas, por mais devotas que sejam. Não é, tão pouco, um diálogo incompreensível, à moda do papagaio que repete frases ensinadas, mas não entende o que lhe perguntam.

A oração do pecador não pressupõe que se vista de luto, cubra a cabeça com cinzas e apresente um ar de tristeza, como gostavam de se apresentar os fariseus no tempo de Jesus. Isso comove os que passam por perto, mas não a Deus, que sabe plenamente o que nos vai no coração. Não são necessárias grandes introduções, como a do fariseu que, antes de iniciar a oração, anunciou a Deus que era a melhor das criaturas… (cf. Lc 18,11-12). Com esse grau de soberba, nem necessitamos de orar, pois dispensamos o amor de Deus ao nos fazermos melhores do que somos.

Jesus deixou-nos uma introdução que expressa de modo pleno o sentimento e a afetividade de quem se dirige a Deus. A “grande” introdução era a que ele mesmo usava: Pai nosso, que estais no céu! Gostar de rezar é sinal de afeto com Deus, é ter prazer em chamá-lo de “Pai”.

Saudando a Deus como Pai, temos a certeza de ser ouvidos e acolhidos como filhos. No instante em que pronunciamos Pai nosso que estais no céu, somos afetuosamente acolhidos por Deus que responde Filho meu que estás na terra. O temor dá lugar à coragem, a alegria substitui a tristeza, perdemos as limitações de criatura para assumirmos a força de filhos.

A distância é derrubada pela proximidade Pai-filho e nós sentimos o amor que jorra do coração divino. Permanece nossa condição de pecadores, porém pecadores amados por Deus. E amados especialmente por causa da fraqueza, do pecado, da infidelidade. Acolhidos como o filho que aprontou, e temerosamente se dirige ao pai: dele espera uma repreensão justa, mas é carinhosamente abraçado por ele (Lc 15,11-32). O amor tudo esquece, tudo compreende, tudo apaga (1Cor 13,7). Faz de nós pessoas novas para uma nova vida.

Podemos fazer os nossos pedidos, apresentar nossas queixas, louvores. Nem é preciso falar muito, pois um pai de verdade conhece o que vai pelo coração do filho. Assim, a nossa oração nos fortalece e nos convence com mais força e de que é para o nosso bem tudo o que vem de Deus. Também a cruz. O Pai que está no céu acompanha o filho que está na terra. Mas, não esquecer: não rezamos para que Deus faça o que nós queremos e sim, rezamos para que saibamos fazer o que Deus quer!

Pe. José Artulino Besen

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AJUDANDO VOCÊ A PERDOAR

William Congdon – Transfiguracão

“Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam,
orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,44).

Nem todos têm facilidade em perdoar. Isso depende bastante das condições emocionais de cada um. Algumas pessoas logo conseguem esquecer a ofensa e olham para quem as ofendeu com extrema compreensão. Já outras, ficam amarguradas, com muito sofrimento emocional. Perdoam, mas sempre se recordam da ofensa. A mágoa permanece em sua vida, por muito tempo e até para sempre.

A mágoa é uma reação que não depende de nossa vontade. É como sentir alegria ou tristeza: a gente não escolhe o momento. Vem de repente. Mas, se eu perdôo de coração, fiz o necessário. O sentimento não é bom nem mau, pois não depende de nossa vontade.

Em outros casos, a ofensa desencadeia em nós um processo de ódio: gostaríamos de ver a pessoa morta, destruída. Isso acontece mais em casos de calúnia, de traição, de infidelidade conjugal. A simples lembrança da ofensa nos tira qualquer bom-humor, nos estraga o gosto pela vida. Nesses casos, é humanamente quase impossível perdoar.

A prática cristã oferece-nos algumas pistas para perdoar. É um exercício, talvez lento, mas que nos ajuda muito. Em primeiro lugar, situar a ofensa no seu contexto e deixá-la no tamanho exato, sem exagerar. Os sentimentos têm a tendência de nos fazer aumentar o problema, exagerar-lhe as proporções. Em segundo lugar, pensar bem da pessoa: se antes era tão boa, será que agora se tornou completamente má? Se merecia minha confiança é porque tinha muito valor, muitas qualidades. Perdeu todas?

Em terceiro, raciocinar: será que ela realmente queria me ofender? Foi uma atitude consciente ou algo que escapou, fruto da fraqueza humana? Quem é que está livre de uma queda? No meio de tudo, não está havendo clima de intriga da parte de terceiros? Geralmente escutamos críticas a nosso respeito de pessoas que dizem ter ouvido dizer, fulano contou que sicrano disse, e assim por diante, esticando o fio do novelo…

Se ainda assim fica quase impossível o perdão, assumir duas atitudes de fé. Primeiramente, rezar pela pessoa, pedir a Deus que a proteja, a faça muito feliz. A oração pelo inimigo faz-nos vê-lo com outros olhos. Se me fez sofrer, quero que não sofra. Depois, pedir a Jesus que visite a pessoa e a perdoe em nosso lugar. Que Jesus lhe faça o que não conseguimos fazer. E invocar novas energias espirituais. Perdoar é um gesto divino: somente com a graça seremos capazes de perdoar de coração.

Por último: não vale a pena odiar. O odiado não sofre com nosso rancor. Nós é que sofremos. Às vezes ele nem sabe que o estamos odiando. Sempre que guardamos a raiva, estamos perdendo a paz interior. E, se Deus perdoa, não é luxo negar o perdão!?

Pe. José Artulino Besen

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