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MARIA, A MÃE DE JESUS

 

A Anunciação – Michel Ciry

Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus.
Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus.
Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo
e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi! (Lc 1,26-38)

Maria tinha 14 anos, alguns achando que 13, pois as meninas judias ingressavam na puberdade muito cedo. Vivia em Nazaré, com seus pais Joaquim e Ana. Vida simples de gente simples. Seu sonho era casar, ter filhos, continuar a descendência de Abraão, dar filhos a seu povo. Gostara do jovem José, descendente de Davi. Já tinham contraído noivado.

Num dia, um encontro mudou radicalmente seus planos. Um Anjo lhe aparece e a saúda como cheia de graça, predileta de Deus. Para ter certeza de que não estava sonhando, ficou pensando no significado de tão estranha saudação. O Arcanjo Gabriel pede que não tenha receio de nada, pois seria mãe de um menino que receberia o nome de Jesus, isto é, Salvador, e que seria grande, e rei de um reino eterno.

Maria se lembrou de que era apenas noiva e que ainda não convivia com José. Como seria isso? Gabriel lhe responde que o menino que ela geraria não seria filho de homem, mas Filho de Deus, concebido por obra do Espírito Santo. Jovem de fé, iluminada pelo Espírito, não teve mais dúvidas e aceitou o que não podia ainda entender: Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (cf. Lc 1,26-38).

Maria estava de posse de um segredo guardado entre ela, o Anjo e Deus. Dera um “sim” ao plano de Deus. Quem a compreenderia?

Dotada de um equilíbrio e maturidade surpreendentes, guarda tudo no silêncio de seu coração. Se fosse vaidosa, sairia às ruas, anunciando que um Anjo lhe tinha aparecido, falado com ela pessoalmente, que estava grávida sem ter dormido com o noivo, coisa do Espírito Santo, que seria mãe de um rei poderoso e eterno, e assim por diante. Mas nada de fofoca, nada de vaidades e competições com as moças de Nazaré.

Arruma suas trouxas e apressadamente vai às montanhas, a uma pequena cidade de Judá. O Anjo lhe dissera que a prima Isabel estava no sexto mês. Já de idade avançada, esperando o primeiro filho, precisava de sua ajuda. Sobe às montanhas e lá permanece três meses, até o nascimento de João Batista (cf. Lc 1,39-56).

É hora de voltar para casa. Começam a surgir, discretamente, os primeiros sinais de gravidez. Com profunda dor no coração, Maria pensa em seus pais: como encarariam a filha grávida? Sente a dor de uma espada atravessando o peito quando pensa no querido noivo José, que tinha quase pronta a casa onde a recolheria como esposa.

Pobre do bom José, o mais belo e sério jovem de Nazaré, que a escolhera para ser mãe de seus filhos exatamente por ser bela, séria e madura. E o Filho que ela gerava não era filho de seu noivo. Imaginou o sofrimento de José quando a notícia lhe chegasse aos ouvidos.

Se pudesse esquecer a conversa com o Anjo, dizer-lhe não em vez de sim, sentir a satisfação de que tudo não passara de um engano… Não era mais possível. Um serzinho se formava em seu ventre. Escutava conversas maliciosas. Todos sabiam que era apenas noiva. Um que outro a chamava de adúltera… Conhecia a lei: seria difamada e condenada à morte por apedrejamento. Pobre Maria, tão jovem e diante do drama de explicar o que humanamente não tinha explicação.

Sofria, mas não tinha dúvidas de uma verdade: Deus não vem ao encontro do ser humano para destruí-lo. Conhecia as Escrituras: as promessas que Deus faz sempre serão cumpridas, apesar da demora por vezes angustiante, os prazos dilatados da fidelidade do Deus de seus pais.

A fé não permitia que alimentasse dúvidas sobre o amor de Deus. Oferecera, com seu a sim ao Arcanjo, o caminho de sua existência. Não mais se pertencia. Era toda de Deus, do Senhor fiel às promessas. Ela sabia, e nós sabemos, quando Deus traça os caminhos, o traçado é dele. De nossa parte, basta a confiança, o ato de fé corajoso e generoso.

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MARIA IMACULADA, MÃE DE DEUS

Ícone da Virgem de Vladimir – Séc. XII

Primeiramente a piedade popular e, em seguida, a Liturgia, festejou a Imaculada Conceição de Maria. A humilde invocação de uma jaculatória faz-nos lembrar essa verdade: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”. Na Ladainha Lauretana o gênio cristão sintetizou esse título mariano de modo perfeito em três invocações: Virgem Puríssima, Virgem Santíssima, Virgem Mãe de Deus. Ela é Mãe de Deus porque Puríssima e Santíssima, e é Santíssima por ser a Mãe de Deus.

Quando em meio às controvérsias doutrinais do século V se discutia a divindade do Homem Deus Jesus Cristo, alguns teólogos afirmavam que Cristo Filho de Deus é Deus verdadeiro, mas Jesus Filho de Maria não o seria. A discussão toda tinha um objetivo único: afirmar que aquele homem que viveu em Nazaré e ressuscitou em Jerusalém é Deus verdadeiro. Para preservar a unidade da Igreja, os Bispos da Igreja se reuniram em Éfeso em Concílio Ecumênico, o quarto, no ano 431. Perceberam que em Maria estava o caminho para definir a unidade da humanidade e da divindade em Jesus: se Maria fosse Mãe apenas do Menino de Belém, aquele Menino seria somente humano, e se estaria negando o mistério da Encarnação do Verbo. “Está bem, dizia o Patriarca Nestório: Maria é Mãe de Jesus homem e Deus é Pai de Jesus Deus”. Com isso se dividia a Pessoa de Jesus, nosso Senhor, o que seria blasfemo.

Movidos pelo Espírito Santo, o Pais da Igreja em Éfeso afirmaram a unidade divina e humana de Jesus proclamando Maria Mãe de Deus, a THEOTÓKOS, em língua grega. É a Mãe de Deus porque não se pode dividir em dois o Senhor. Esse título mariano nos faz ingressar na esfera do amor de Deus, onde somente a adoração silenciosa pode expressar a fé e mover à caridade: Maria é Mãe de Deus, é Virgem Filha de seu Filho, é o abismo nos qual se precipitam os verdadeiros adoradores.

A proclamação do dogma da Imaculada Conceição (Maria concebida sem pecado) em 1854, pelo Papa Pio IX, com festa celebrada em oito de dezembro, se insere em toda a reflexão eclesial sobre o mistério de Jesus, Deus de Deus e Luz da Luz. Maria é concebida sem pecado, livre da herança dos filhos de Adão que nascemos com o pecado das origens. Maria inaugura a derrota do antigo Inimigo, Satanás (Gn 3,15).

Talvez essa invocação nos faça perder a grandeza do mistério do amor do Pai por sua Filha predileta, melhor expressada nas três invocações da Ladainha: Virgem Puríssima, Virgem Santíssima, Virgem Mãe de Deus. São João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, meditando sobre Maria afirma: “O nome Theotókos, Mãe de Deus, contém todo o mistério da história da salvação”. Nesse nome está tudo o que dizemos de Cristo e, por conseqüência, tudo o que dizemos da Maria. Ela é a Mulher inimiga da Serpente, a Mulher vestida de Sol, é a Coroa de todos os dogmas: Mãe de Deus, filha de Deus.

Maria não é apenas concebida sem pecado. Ela é puríssima e santíssima. Esse mistério de sua santidade absoluta, que torna virginal todo o seu ser, é fruto do encontro com o Anjo da Anunciação (Lc 1, 26-38): após seu livre “sim”, Maria é totalmente envolvida pelo Espírito Santo. Em sua liberdade, o Espírito Santo a guarda de toda impureza e a torna puríssima e santíssima. O Espírito que personifica a santidade divina concede a Maria personificar a santidade humana: nela é-nos oferecida a santidade divina.

A carne puríssima de Maria dá a carne da natureza humana ao Filho de Deus e João Batista salta de alegria no seio de Isabel quando as duas mulheres se encontram (Lc 1, 39-53).

O Santo que dela nasce é o troféu da humanidade e Maria é o troféu do Santo que gerou. Cada vez que veneramos os belíssimos ícones da Mãe de Deus, como a Virgem de Vladimir, ou do Perpétuo Socorro, entramos no Reino da Beleza onde tudo se resolve no amor salvífico: a Mãe extasiada contempla o Infinito, o Filho carinhosamente acaricia sua Mãe. Tomando o lugar do Filho no colo mariano, ouvimos a palavra de consolo e entrega do Calvário: “Mulher, eis aí teu filho”, “Filho, eis aí tua Mãe”.

Pe. José Artulino Besen

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