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A LITURGIA – AÇÃO DO ESPÍRITO E DA IGREJA

2011-06 – «Liturgia cósmica» – Igreja S. Martini – Bremen

Estando para celebrar os 50 anos do início do Vaticano II (1962-1965), seria útil refletirmos sobre sua grande obra, a reforma litúrgica, com a Constituição Sacrosantum Concilium.

O Espírito e a Esposa dizem: “Vem!”  E quem escuta, repete: “Vem!” Quem tem sede, que venha; quem quiser, beba gratuitamente da água da vida” (Apc 22,17).

Com estas palavras, o papa João Paulo II iniciou, em 4 de dezembro de 2003, a Carta Apostólica O Espírito e a Esposa, para comemorar os 40 anos da reforma litúrgica durante o Concílio do Vaticano II, uma das grandes graças recebidas pelo povo de Deus no século XX. O Espírito é o Espírito Santo, a Esposa é a Igreja que, durante a celebração da liturgia pedem ao Senhor Jesus: “Vem!” E o Senhor vem, oferecendo gratuitamente a “água viva”, o dom de Deus.

A celebração litúrgica não é uma cerimônia, não é um show, não é um grupo de oração. Não é um momento solto na vida da Igreja, disse o Papa. Ela está inserida na história da salvação, cuja finalidade é a redenção humana e a perfeita glorificação de Deus. O início foi a ação divina no Antigo Testamento, a realização aconteceu no Mistério pascal: na Paixão, ressurreição da morte e gloriosa ascensão.

A salvação humana e a glorificação de Deus não podem ficar no passado: devem ser anunciadas e realizadas continuamente na Eucaristia e nos Sacramentos até o retorno glorioso do Senhor. Por isso, nós, a cada Celebração eucarística, proclamamos: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição: Vinde, Senhor Jesus!” E ele vem, como virá glorioso no final dos tempos.

Cada celebração é obra de Cristo Sacerdote e da Igreja, nela se participa das alegrias da Jerusalém celeste. Assim, a Liturgia é o ponto mais alto, o ápice da ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde vem toda a sua força, afirma o Concílio. Uma comunidade cristã que não vive da celebração litúrgica, sofre de anemia espiritual e se transforma num grupo de ação social ou de convivência, com devoções e tradições, onde o importante não é mais a graça, e sim, os sentimentos humanos.

Obra do Espírito e da Igreja

Nenhuma obra na Igreja se compara ou se iguala, em eficácia e nível, à celebração litúrgica. Mas, é também verdade que a Liturgia não esgota a ação da Igreja: ela supõe o anúncio do Evangelho, a catequese e o testemunho de vida do cristão. Tudo isso converge para que a celebração litúrgica seja mais profunda, verdadeira, vital.

Não basta reformar a Liturgia: é preciso reformar a assembléia cristã, aprofundar o conhecimento do mistério da salvação. Existem liturgias modernas, mas não renovadas. Seguem a moda, são superficiais.

Uma equipe de liturgia, ou uma assembléia cristã mal formadas, mesmo com a maior boa vontade, confundirá Liturgia com cerimônia, show, onde padre, músicos, comentaristas e leitores competirão em aparecer e oferecer novidades. Em vez da redenção e da glória de Deus buscarão a glória pessoal e a realização sentimental dos participantes.

O Pe. Zezinho, em artigo na revista Família Cristã, alertou: “Invadiram a Missa!”. Ele quer chamar a atenção para o fato de que se “usa” a Missa para lembrar acontecimentos humanos, lançar cantores e músicas, padresshow, promover políticos, enfim, profanar o encontro do Espírito Santo e da Igreja com truques humanos. Chega-se a confundir a eficácia dos Sacramentos com o nível de sentimentos provocados. Deixa-se de lado a ação divina e se busca a eficácia de recursos humanos.

Para um verdadeiro aprofundamento da vida litúrgica, uma pastoral litúrgica, o Santo Padre chama atenção para alguns pontos: um renovado interesse pela Palavra de Deus, o domingo, a arte e a música sacras, a experiência do silêncio, o gosto pela oração. Tudo com uma finalidade única: escutarmos a voz do Espírito e da Esposa, a Igreja, que convidam o Senhor Jesus: “Vem!”, e ele respondendo, sempre: “Vem, beber na fonte da água viva!”

Liturgia – Palavra e Sacramento – «O Verbo se fez carne»- Giovanni Thoux

A RENOVAÇÃO DA PESSOA E DA ASSEMBLÉIA CRISTÃS

É a segunda etapa da renovação litúrgica: a renovação da pessoa e da assembléia cristãs. A primeira etapa foi do entusiasmo criativo, das novidades, das experiências litúrgicas. Isso já não basta: estamos no tempo da renovação do cristão diante do mistério pascal celebrado em cada liturgia.

A Palavra de Deus – fonte da liturgia

Na escuta da Palavra de Deus se edifica e cresce a Igreja. A Palavra escutada na ação litúrgica é para depois atuar em nossa vida. A Eucaristia é constituída de duas liturgias, inseparáveis e insubstituíveis: a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. Uma leva à outra, uma necessita de outra. Conta-se que Deus veio à terra falar com um velho santo e sábio e lhe disse: “Vocês cristãos têm muita riqueza, riqueza demais. Vocês têm a Bíblia e a Eucaristia. Proponho então que você, em nome do povo, faça uma escolha: quer ficar com a Bíblia ou com a Eucaristia?” O santo e sábio ancião não hesitou e respondeu: “Quero a Bíblia!”. Por que essa resposta? Inteligente, ele sabia que sem a Bíblia não há Eucaristia e com a Bíblia, há. Essa pequena história diz algo de muito sério: só participa plenamente da riqueza dos Sacramentos aquele que escuta a Palavra de Deus. Sem a Bíblia, tudo passa a ser devoção barata.

O Domingo, dia do Senhor

O Domingo, dia em que se celebra de modo especial a ressurreição de Cristo, encontra-se no centro da vida litúrgica como fundamento e núcleo de todo o ano litúrgico. O povo do Antigo Testamento celebra o Sábado, o sétimo dia da criação. Os cristãos, povo do Novo Testamento, celebram o Domingo, o primeiro dia da nova criação. Desde o início, conservando todo o respeito pelo povo judeu, a Igreja escolheu para celebrar a Eucaristia o dia do Domingo, dia em que o Senhor recriou o mundo com sua ressurreição gloriosa.Em cada Sacramento a Igreja faz a memória, traz a presença do Cristo glorioso.

Corremos o perigo de isolar o Domingo, transformando-o em dia de lazer. Para muitos cristãos, já é norma participar somente da Missa de sábado, pois assim estarão “livres”. A renovação litúrgica permite isso, mas como exceção, pois o Dia do Senhor, dia do encontro da assembléia e da família cristãs é o Domingo.

Até o século IV, o domingo não era feriado, mas os cristãos não se esqueciam de participar da Eucaristia bem cedo, antes de irem ao trabalho. Eram movidos pela alegria de celebrar a ressurreição. As Igrejas do Oriente, ainda hoje celebram a Eucaristia somente no domingo, para ter bem presente o que se está celebrando: a presença do Senhor ressuscitado.

A música na Liturgia

O Concílio do Vaticano II deixou bem claro a função da música sacra: a glória de Deus e a santificação dos fiéis. É um instrumento privilegiado para facilitar uma participação ativa dos fiéis na ação sagrada. A música tem um lugar bem determinado no contexto da celebração litúrgica: ela visa levar os fiéis a viverem o momento celebrativo. Em outras palavras: o canto de entrada facilita o recolhimento da comunidade, o canto da apresentação das oferendas leva à vivência do que se oferta, o canto da comunhão nos faz mergulhar no mistério da união pessoa-Cristo. Toda música litúrgica é música sacra, mas nem toda música sacra é música litúrgica. Há cantos feitos para Celebrações da Palavra, encontros, retiros, grupos de reflexão, de oração e não têm finalidade litúrgica. Por isso mesmo, é de grande necessidade a formação litúrgica dos compositores e cantores para que de um modo sempre mais belo levem os irmãos à vivência do mistério litúrgico.

«Liturgia – oferta da criação ao Senhor» – Igreja S. Paulo – Augsburg

SILÊNCIO E ORAÇÃO

Hoje sentimos uma necessidade mais profunda, a da interiorização do mistério. A liturgia deve conduzir os participantes a viverem o mistério da paixão e morte-ressurreição gloriosa de Cristo. E para isso, nada pode substituir o gosto pela Palavra de Deus, pela música litúrgica, o silêncio e a oração. Há, em cada um de nós, um desejo profundo de encontro com Deus. A Liturgia oferece uma resposta eficaz a esse desejo, afirma o Papa, especialmente na Eucaristia, na qual nos é concedido unir-nos ao sacrifício de Cristo e alimentar-nos do seu Corpo e do seu Sangue.

Todos devem sentir-se acolhidos no interior das assembléias, de maneira a poder respirar a atmosfera da primeira comunidade cristã: “Eles eram assíduos na escuta do ensinamento dos Apóstolos e na união fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2,42).

Deus nos fala no silêncio

Nossa sociedade, escreveu João Paulo II, é cada vez mais barulhenta. Ela procura destruir os momentos de silêncio, a fim de tirar de nós a capacidade de ouvir, meditar, acolher a Palavra de Deus e do próximo. A pedagogia litúrgica poderia muito bem começar com a educação ao silêncio, tendo diante dos olhos o exemplo de Jesus que, “tendo saído de casa, se retirou num lugar deserto para ali rezar” (Mc 1,35). Todos os mestres de espiritualidade insistiram no exercício do silêncio: através dele nós recolhemos as antenas dos sentidos externos para ativarmos os sentidos internos, onde Deus nos fala. Quem tem medo do silêncio, tem medo de si, medo de Deus, medo da vida. O barulho é um caminho de fuga de si mesmo.

A reforma litúrgica suprimiu da antiga Liturgia as orações e hinos que tinham ocupado o lugar do silêncio. Infelizmente, novamente se assiste a uma ocupação destes momentos de silêncio com cantos e comentários, fundos musicais, dando a impressão de que o silêncio é vácuo, ausência de sentido.

Há momentos de silêncio na atual liturgia: no Ato Penitencial, após os Oremos, durante a Consagração e após a Comunhão. O silêncio é sempre fértil, porque nos faz escutar o Senhor no confronto com a realidade de nossa vida.

O gosto pela oração

Afirma Santa Teresa que “orar é uma conversa de amigos”. A Liturgia é a mais profunda e perfeita conversa com o Amigo que conosco celebra o mistério da salvação.

A oração comunitária é mais rica quando fruto de um espírito que vive em contínua oração; e a oração particular é mais fecunda quando conseqüência de uma profunda participação na oração comunitária. E mais fecunda ainda é quando fruto da leitura bíblica.

O ato litúrgico é ato de toda a Igreja, é oração de todo o Povo de Deus. Se não formos educados para essa união universal na oração, a celebração litúrgica ser-nos-á cansativa, pesada, dando até a impressão de nos tirar a criatividade da oração. Assim, não há conflito entre oração privada e oração litúrgica, pois em ambas é o Espírito de Deus que intercede em nós e “por nós, com gemidos inexprimíveis” (Rm 8,26).

A criatividade é necessária e positiva, desde que não ofusque o mistério que se está celebrando e rezando: a paixão, morte e ressurreição gloriosa do Senhor, o Mistério pascal.

Podemos concluir com o Bem-aventurado João Paulo II, agora celebrando a Liturgia eterna: “Que neste início de milênio se desenvolva uma “espiritualidade litúrgica”, que leve as pessoas a tomarem consciência de Cristo como primeiro “liturgista”, que não cessa de agir na Igreja e no mundo, em virtude do Mistério pascal continuamente celebrado, e associa a si a Igreja, para louvor do Pai, na unidade do Espírito Santo”.

Pe. José Artulino Besen

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SANTIFICAR O DOMINGO

Nos dois primeiros séculos do Cristianismo, não havia feriado de Domingo, mas, para os cristãos, era um dia santificado. Era o Dia do Senhor ressuscitado.

A comunidade se reunia ou no sábado à noite ou no domingo bem cedo, antes do trabalho, para escutar a Palavra de Deus e celebrar a Eucaristia.

Por que o Domingo é o nosso Dia do Senhor?

Para os judeus, continua valendo o mandamento de guardar o sétimo dia da Criação, o Sábado: neste dia nada fazem, pois repousam como o Criador repousou após terminar sua obra. Guardar o Sábado é o mandamento da primeira Criação, do Antigo Testamento.

Acontece que o pecado rompeu a amizade com Deus e a criação passou a ser vítima da morte, da destruição, do ódio. Deus não abandonou sua obra: desde toda a eternidade decidira mandar-lhe um Salvador, que veio na pessoa de seu Filho Jesus.

Morrendo na cruz, sendo sepultado e ressuscitando, Jesus iniciou uma nova Criação, redimida pelo seu sangue, e constituiu um novo Povo. Com sua morte, Jesus matou a morte e oferece a Vida plena a quem o aceitar em sua vida como Caminho, Verdade e Vida.

A ressurreição aconteceu no primeiro dia da semana, a primeira-feira. Isso foi para as comunidades cristãs o sinal de que na Nova Criação se santifica e guarda o Primeiro Dia, o Domingo. A comunidade reunida ouve a Palavra de Deus e celebra a presença, em seu meio, do Senhor ressuscitado.

Continua o preceito do repouso: o homem, a mulher, os animais, a terra, necessitam de descanso. O ócio, o lazer, são ocasião também para revisão de vida, de relacionamentos, de silêncio interior, de conversão.

Santificar o Domingo

Sempre mais se vai percebendo que o Domingo deixa de ser o dia do Povo de Deus e se transforma no dia da festa, da farra, do jogo, da alegria inconseqüente. Por uma dessas tristes coincidências, é na noite de sábado para domingo que mais acontecem brigas, acidentes, mortes, desrespeito à família e à pessoa humana.

Para muitos cristãos, o domingo nem existe mais: vive-se “a noite” e se dorme o dia inteiro. Perde-se a grande graça do encontro com a família, com os amigos, com a comunidade de fé. Aquilo que se refere ao Dia do Senhor parece ser motivo de cansaço, perda de tempo. Estamos traindo os primeiros cristãos, que fizeram do Domingo o seu dia de ação de graças, de encontro eclesial.

É Cristo que santifica o Domingo: por isso nos reunimos em seu nome para sermos santificados pela graça e iniciar uma nova semana abastecidos de santidade, de reconciliação, de espírito familiar, de amor fraterno.

Os grupos e movimentos cristãos carregam uma grande responsabilidade: santificar o Domingo, para que o mundo possa sentir a existência de comunidades cristãs verdadeiras e perceber o amor que une os que vivem a fé no Senhor.

Se em todo momento podemos afirmar que “Ele está no meio de nós”, no domingo podemos dizer à comunidade: “Vinde e vede, o Senhor está no meio de nós!”. Por isso somos mais felizes.

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A LITURGIA DA IGREJA E O ANO DA GRAÇA

Cristo, o Salvador, com os Apóstolos (Fyodor-Zubov,1662)

Cristo, o Salvador, com os Apóstolos (Fyodor-Zubov,1662)

O ano da graça (cf. Lc 4, 18-19) é o tempo da salvação e da libertação, sem limite no tempo e no espaço: é a presença do próprio Cristo, Servo e Senhor, crucificado e ressuscitado, sentado à direita do Pai e enviando o Espírito Santo.

A Liturgia é a realização continuada do ano da graça: é a celebração da memória pascal, não entendida como recordação de fatos antigos mas como acontecimento atual. É a Páscoa incessantemente celebrada, sempre nova, nunca repetida. A comunidade cristã escolheu o primeiro dia da semana como Dia do Senhor por ser o dia da Páscoa. E foi além: cada dia da vida cristã é Páscoa, porque a cada dia é celebrada a Liturgia, fazendo jorrar o clarão vivificante da ressurreição sobre todos os dias da semana. Afirma Gregório de Nissa que «não existe um momento em que o cristão não celebra a Páscoa» (In Christi ress., PG 46,628CD).

Quaresma-Páscoa, Páscoa-Pentecostes

O gênio cristão teve isso presente ao estabelecer os ciclos litúrgicos e transformar o ano inteiro em Ano da Graça onde Cristo nos torna presente seu mistério. A Páscoa, e sempre é Páscoa, é precedida pelas sete semanas da Quaresma nas quais vivemos as etapas do retorno ao paraíso da nova criação. Após a Páscoa, vivemos as sete semanas de Pentecostes, nas quais aprendemos a viver em comunhão com o Senhor ressuscitado. É o tempo da Teofania (manifestação de Cristo, Verbo encarnado) e da Deificação (através do Espírito assumimos a forma do corpo glorioso do Senhor).

A Liturgia nos coloca dentro da pedagogia cristã alimentando-nos pela Palavra proclamada e celebrada. É um contínuo aprender e aceitar «quem é Cristo» e deixar-se transformar pelo Espírito. Quanto mais penetramos no mistério da Encarnação (Deus que se faz homem) mais somos transformados pelo mistério do Pentecostes (somos divinizados à imagem de Cristo). O Senhor que vem para o meio de nós é o Senhor que nos eleva ao Trono divino em cada Liturgia (cf. Fl 2, 5-11).

A pedagogia do acolhimento

O Senhor celebra sua Páscoa no meio de justos e pecadores: a Ceia incluiu Judas, a Cruz incluiu os ladrões, a Ressurreição incluiu soldados pagãos, o Pentecostes incluiu os pagãos. Apesar da clareza em saber que o Senhor vive nunca excluindo, os cristãos não estão isentos do perigo de formarem seitas, grupos sectários de eleitos orgulhosos da sua suficiente obediência à lei. Essa tentação já se manifestou na Igreja primitiva, mas com a repreensão da Igreja: «Ó bispo, não impeçais aos pecadores de entrar na igreja para ouvirem a Palavra, pois o Senhor, nosso Salvador, não afastou nem rejeitou os publicanos e pecadores, mas comeu com eles» (Didascália dos Apóstolos 2,40).

Se a Liturgia é alimento para os fracos e pecadores, por ela tornando-se fortes e santos, a vida cristã dela decorrente exige a vivência numa fraternidade onde os fracos apóiam-se nos mais fortes, os pecadores são consolados pelos mais santos. «Inclusive admitimos que existam alguns perfeitos, integralmente santos: mas não lhes é permitido viver sem os irmãos, que não devem ser rejeitados» (Otávio de Mileve, O Cisma dos Donatistas 7,2).

A Liturgia provoca em nós um movimento irreprimível de anúncio, de busca de discípulos à imagem da Encarnação: os anjos anunciam aos pastores, André anuncia a Pedro, os doentes curados anunciam aos outros doentes, as mulheres anunciam o Ressuscitado, Pedro anuncia o novo tempo de Pentecostes, a Igreja anuncia o Deus Trindade. Detendo o anúncio, esteriliza-se a Páscoa.

O pão é para os famintos, a água para os sedentos: o Pão é para os famintos de Vida, a Água viva é para os sedentos do Deus vivo.

A Igreja, virgem e prostituta

A Igreja nasce da Eucaristia, a Eucaristia é o ápice da vida da Igreja. Tamanho e fascinante mistério não nos permite esquecer que a santidade da Igreja vem de sua Cabeça, o Cristo e, nela, nossa humilde colaboração é sermos pecadores em busca de santidade. A comunidade que se reúne para celebrar a Liturgia carrega consigo os pecados pessoais e comunitários: tudo é oferecido para que tudo seja transfigurado.

Os Pais da Igreja viram no profeta Oséias a grande imagem da Igreja virgem e prostituta. «Aprendemos que a união do profeta com a prostituta indica que a ignorância dos gentios se une com o ensinamento dos profetas e que seus filhos não serão mais chamados de não-amados, mas de amados, povo ao invés de não-povo, filhos de Deus em lugar de filhos de prostituta» (Hilário de Poitiers, Tratado sobre os Mistérios 2,1-2.4). Agostinho, pecador tocado pela graça: «O esposo encontrou a Igreja que era prostituta e a tornou virgem. Não deve renegar ter sido uma prostituta a fim de que não seja negada a misericórdia do libertador » (Discurso 213,8).

Cada um de nós, cristãos, deve enxergar-se na prostituta que lava os pés do Salvador com as lágrimas e enxuga-os com os cabelos. Membros da Igreja, como ela esperamos ouvir do Senhor: Teus pecados estão perdoados (Lc 7,48).

A Igreja Povo de Deus celebra a Liturgia não como festa de santos e sim como a festa de pecadores que têm a certeza do acolhimento do Pai, no Filho e pelo Espírito Santo. É confortador sentirmos que vamos participar da Eucaristia como uma prostituta descartada, nua e dela saímos puros, cobertos com uma veste limpa dada pelo Senhor.

Com a mesma alegria das primeiras comunidades cristãs, então cantamos: «Venha a graça e passe este mundo! Hosana ao Deus de Davi! Se um é santo, venha! Se um não é, converta-se! Maranatha. Amém!» (Didaqué 10, 5-6).

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EUCARISTIA E MISTÉRIO PASCAL

Anastasis

Anastasis

Na liturgia cristã, o ano todo é caminho pascal, todo domingo é páscoa, todo dia é páscoa: porque, a cada dia, celebrando a Eucaristia, a Igreja celebra o mistério da paixão, morte, ressurreição e ascensão gloriosa do Senhor. A liturgia eucarística não é um momento separado da vida da Igreja, mas é constitutiva da própria Igreja: a Igreja nasce da Eucaristia. Não podemos afirmar que a Igreja “nasceu”, porque é um nascer constante, até a consumação da história. É impossível definir o que é a Igreja, pois mistério se contempla e não se define, mas é possível dizer onde ela está/acontece: na celebração eucarística.

Ao repetir a ordem do Senhor “fazei isso para em memória de mim”, ela se refere ao Espírito Santo, que gera continuamente a memória de Cristo, a Igreja. A epíclese, invocação do Espírito Santo sobre as oferendas do pão e do vinho, é a súplica de toda a comunidade para que aconteça a memória do Senhor, o mistério pascal.

O Lava-pés e a Ceia do Senhor

Lavando os pés de seus discípulos, Jesus quis tornar inseparáveis os sacramentos do altar e do irmão. Gesto duplamente humilde: não pretendeu purificar totalmente o homem, pois só Deus o purifica pelo batismo, e quer ser uma ajuda (lavou apenas os pés) e não se substituir ao ser humano.

Em seguida apresentou o pão: Tomai, todos, e comei: isto é o meu corpo, que será entregue por vós. No final da ceia, o cálice: Tomai, todos, e bebei: este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos para remissão dos pecados.

O sacrifício oferecido a Deus possui a oferta definitiva. No alvorecer da humanidade, a vítima era uma pessoa: em Abraão isso é superado pela oferta de um cordeiro em lugar de Isaac. Agora o sacrifício é perfeito: o Pai recebe como vítima que se auto imola o próprio Filho. Acontece a redenção: no Filho o Pai vê a todos nós como filhos e assim a Eucaristia-sacrifício é eterna, pois eterna é nossa filiação.

Ao se oferecer como pão e cálice, o Senhor se dirige ao futuro: será entregue, será derramado. À Ceia do Senhor seguiu-se a Cruz do Senhor.

A Cruz e a Eucaristia

O será entregue da Ceia é a entrega da Cruz. O Pão e o Vinho, pelo Espírito transformados em “memória”, são consagrados na Cruz e na Sepultura. São Corpo entregue e Sangue derramado, comida e bebida para nos salvar.

O Sangue é oferecido e derramado por todos: isso gera a comunhão com Deus e com todos os homens e mulheres. O Sangue bebido foi aspergido sobre a humanidade: a Eucaristia tem o sentido real de comer e beber – comunhão total – com todos os seres humanos, pois Jesus não assumiu uma natureza humana: ele assumiu a natureza humana. Deste modo, ele aceita ser o fundamento de nossa existência e nós só conseguimos existir em Cristo. Sem ele, há em nós uma invencível deficiência ontológica. O mistério da salvação oferece a existência em Cristo, único existir verdadeiro.

Do lado aberto do Senhor correu sangue e água, o batismo – porta que nos abre a celebração da Eucaristia, que é o sangue. Nasce e continua a nascer/existir a Igreja enquanto é lavada na água do batismo e alimentada pelo Corpo e Sangue do Redentor.

A ressurreição-ascensão e a Eucaristia

O sacrifício redentor adquire a plenitude de sentido na ressurreição-ascensão do Senhor. O Corpo e Sangue são comida e bebida de vida eterna: quem comer deste pão viverá eternamente. A Eucaristia torna-se sustento e remédio de vida eterna, perdão dos pecados e santificação.

São João declara que quando chegar a “hora” (a cruz) conheceremos quem ele é, o Senhor. A cruz é o trono glorioso do Ressuscitado, é a ponte que conduz a humanidade de Cristo ao seio da Trindade e traz a divindade à nossa humanidade. Por ela Cristo subiu aos céus e por ela enviou o Espírito Santo. Sem a ascensão a Igreja não existiria, pois não poderia fazer a memória do Senhor, a Eucaristia, sua fonte de existência e vida.

A Eucaristia, plenitude da Igreja

Sendo comunhão com Deus, a Eucaristia é comunhão com toda a humanidade, pois o mistério da encarnação assumiu, com a natureza humana, todos os nascidos de mulher. Nesta comunhão – em cada comunhão – há o encontro com Deus e com todos os que são de Deus. Essa certeza nos faz rezar pela Igreja, pelos mortos, louvá-lo pelos anjos e santos ali presentes.

Na comunhão eucarística não há comunhão simbólica com ausentes: ela é a comunhão real com todos aqueles que foram assumidos na Cruz e banhados pela água e pelo sangue. Quando afirmamos que a Igreja nasce da Eucaristia e para ela se encaminha estamos professando nossa fé na comunhão total realizada pelo Espírito Santo: os santos são glorificados e os pecadores redimidos. E podemos proclamar com alegria: creio na comunhão dos santos.

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VINDE, PAI DOS POBRES!

Congresso Eucarístico em Florianópolis - SC

Congresso Eucarístico em Florianópolis – SC

O ícone (cartaz) do 15o Congresso Eucarístico Nacional leva-nos ao centro do mistério da vida cristã: o batismo e a eucaristia. A água e a hóstia são geradas na cruz onde está o Senhor e Salvador, de cujo lado aberto correm sangue e água, os dois sacramentos que geram o cristão e a Igreja. O ícone sempre abre uma janela para a eternidade, permitindo-nos contemplar o que acontece além das condições do espaço e do tempo. Nesta página queremos abrir essa janela e contemplar o Espírito Santo que no ícone se encontra quase invisível, em forma estilizada de pomba, acima da hóstia. Tudo é obra do Espírito: o Pai é o ventre fecundo, o Filho a obra prima e o Espírito Santo é o artista. Ele é verdadeiramente o artista da criação e da transformação de cada criatura em filho de Deus.

O Espírito Santo está em tudo e em todos

Por isso ele é quase invisível: a obra leva a assinatura do artista, mas não lhe mostra a face. O Espírito está em todo o universo e em todos os corações, pois é o artista com o qual o Pai esculpe sua obra. É representado mais por símbolos de sua ação: o fogo que abrasa, que purifica o ouro, o vento impetuoso que tudo transforma por onde passa, a brisa suave indicando a presença do amante. E a pomba. Segundo o biblista Pe. Ney Brasil, assim como o Filho é simbolizado pelo manso cordeiro, de modo análogo o Espírito o é pela silenciosa, graciosa e pacífica pomba. Tudo na Trindade é amor, suavidade, paz.

Ele gera a unidade criando a diversidade: no Pentecostes o fogo era um só, mas se repartiu em doze línguas: cada Apóstolo recebeu a sua e todos se entendiam, pois uma era a fonte da comunicação, o Espírito. De uma Igreja o Espírito gerou doze igrejas: o artista ama a variedade harmoniosa. No mundo cada igreja expressa uma cultura, um povo, unindo-as na harmonia do amor. Uma Igreja ou comunidade que não aceita a variedade não é espiritual: é obra material de algum artista humano.

O Espírito é a fonte da liturgia

A vida cristã é uma grande liturgia, a criação expressa a liturgia trinitária, o Congresso Eucarístico expressa a liturgia pascal da Ceia. Através do Espírito, o amor divino se estende a toda a vida humana, tudo penetrando: o coração, o ser pessoal, a cultura, as relações pessoais, a sociedade.

Sem o Espírito Santo não existe liturgia: existem cerimônias vazias, padres bem enfeitados em seus paramentos e concelebrantes sentindo-se cada vez mais esterilizados na vida de fé, porque privados do gerador da vida, o Espírito do Senhor.

A Trindade despe-se de sua glória e reúne a comunidade em seu seio pecadores e santos, porque o Espírito gera misericórdia. Quando contemplamos o imenso afresco de Miguel Ângelo na Capela Sixtina, representando o Juízo final, estamos diante de uma obra humana: quem pode garantir que em algum dia acontecerá aquela cena dolorosa de pecadores atirados no inferno? Será que o Espírito Santo não tocará todos os corações? A Trindade de André Rublev é mais espiritual: em seu inspirado ícone, coloca as Três Pessoas divinas hospedando toda a humanidade no tesouro eucarístico.

VINDE, PAI DOS POBRES!

Esta antiqüíssima prece cristã (estrofe do A nós descei, divina luz) manifesta a pobreza divina: Deus é pobre (Ele nada tem, Ele “é”: Eu sou aquele que é); o Filho é pobre, tudo recebe do Pai (Jo 1,1), recebe e nos dá o Espírito, o Pai dos pobres. É pobre porque é amor puro que se doa, com isso tornando possível a liturgia.

E isso é fundamental: na liturgia o Espírito faz do Filho pão para os pobres em todos os sentidos: espiritual, material, moral. Ele vai além: torna Deus pobre e o pobre Deus: “Tudo o que fizestes a um desses pequeninos é a mim que o fizestes…” (Mt 25,40).

No Espírito, Jesus assume todo o sofrimento humano como seu, assume nossa morte e nos dá a ressurreição.

É conhecida a palavra de São João Crisóstomo, querendo unir a liturgia eucarística à liturgia da vida: o sacramento do altar é o sacramento do irmão; deixamos o altar da eucaristia para ir ao altar do pobre. Os dois altares são inseparáveis, porque a finalidade da liturgia é gerar uma Igreja da compaixão, à imagem de Deus. A Igreja se transforma na sarsa ardente, da qual ninguém pode se aproximar sem “ver a miséria do povo e ouvir seus gritos” (cf. Ex 3,7). Deus é inacessível a quem não se deixa trabalhar pelo Espírito Pai dos pobres.

O liturgista Jean Corbon (1924-2001) nos lembra que os pobres caminham para debaixo do altar na grande liturgia eterna, conforme lemos no Apocalipse (6,9ss): o altar do holocausto se transforma no altar dos pobres, da compaixão, onde gritarão: “Até quando, Senhor, tardarás a fazer justiça, vingando nosso sangue contra os habitantes da terra?”

Ele, o Espírito Santo, no mesmo hino é chamado de grande Consolador: recria o coração dos pobres na coragem de viver, recria no coração dos ricos a compaixão que leva a se esvaziar, ser eucaristia, pão repartido.

Na liturgia, indicando cada pessoa ao nosso lado, o Espírito Santo falará em seu silêncio: “Ele está no meio de nós”.

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QUARESMA – CAMINHO, SILÊNCIO, JEJUM

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Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém

O mistério pascal é o centro da vida de Igreja. Por este motivo ela nos oferece um caminho de quarenta dias (quaresma-quadraginta-quarenta) de preparação para que o vivenciemos. Na sociedade de consumo e das dependências materiais, custa-nos fazer a experiência do mínimo, do essencial, do silêncio, do cansaço da subida, da renúncia ao poder e à magia. O tempo quaresmal está cheio de ressonâncias bíblicas que nos levam à Aliança, à Terra prometida e à Glória.

O Dilúvio – mergulho nas águas da morte

“O Senhor viu que a maldade do homem se multiplicava na terra: o dia todo, seu coração não fazia outra coisa senão conceber o mal, e o Senhor se arrependeu de ter feito o homem sobre a terra. […] A chuva derramou-se sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites” (Gn 6, 5-6. 7, 12).

Assim como a água, símbolo da vida, pode levar à morte, assim a vida pode deixar de ser vida e transformar-se em morte quando voltada para si, distanciando-se daquele que é a Fonte, e também se distanciando daqueles que lhe dão sentido. Distante do Criador, o homem e a mulher adquirem uma imensa capacidade de forjar o mal e torná-lo atraente. Perde-se a capacidade de sentir que nada mais somos do que pó e cinza, aos quais somente o Senhor pode dar vida. O Senhor nos oferece uma água que, dando liga ao pó e à cinza, nos recria, faz de nós seres à sua imagem e semelhança: a água do batismo.

A peregrinação do povo pelo deserto

“Eu vos levarei ao deserto dos povos e lá, face-a-face, estabelecerei meu direito sobre vós” (Ez 20,35). É de Deus a iniciativa de restaurar a união, união à imagem da aliança conjugal: “Pois então vou seduzi-la. Eu a levarei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração” (Os 2,16).

O povo judeu vivera a experiência de um êxodo de 40 anos através do deserto, cujo limite era a Terra prometida. Para nos mostrar sua face, Deus não aceita concorrentes: exige que nos despojemos de todas as seguranças humanas. Então sentiremos como nele se encontra a verdadeira segurança e, mais ainda, a segurança de um amor adquirido na liberdade. Somente quem aceita entrar no deserto do silêncio, da insegurança, pode escutar as palavras sedutoras do Senhor, senti-lo aquecendo o próprio coração.

A aliança no deserto do Sinai

Após 40 dias no alto do monte Sinai, Moisés ficou de tal envolvido pela nuvem na qual ardia a glória de Deus que seu rosto confundiu-se com a própria nuvem. Ninguém mais podia olhar sua face, tal era o resplendor que dela emanava. A luz de Deus era também a sua luz. Nessa nuvem de luz o Senhor lhe entregou as tábuas da Lei: não tem sentido obedecer a Deus sem primeiro ter sentido seu amor, seu consolo, participado de sua luz.

Pedro, Tiago e João também contemplaram o Senhor, e caíram por terra, fascinados pelo esplendor que dele irradiava. O ser humano é feito para galgar alturas sempre mais desafiantes. O silêncio da subida – sempre na solidão – torna possível contemplar a glória de Deus. Se nos contentarmos em viver a batalha espiritual na planície, veremos sempre apenas alianças humanas, sem a alegria de sentir o Senhor.

Os 40 dias do caminho de Elias rumo ao Horeb

O coração de Elias ardia de ciúme por Deus: o povo tinha traído aquele a quem mais amava. Resolveu então pedir a morte, julgando não valer a pena trabalhar com um povo cuja história era sinônimo de infidelidade. Mas o Senhor não aceitou a decisão: “Levanta-te e come, senão o caminho será demasiado longo para ti” (1Re 19,7). Foi alimentado a cada dia com um pão e uma bilha de água trazidos por um anjo. Pouco alimento, mas suficiente. Uma existência carregada de supérfluos torna impossível trilhar as estradas do essencial. Em nenhum momento da história humana alguém viveu a aventura espiritual vestido de seda e púrpura, recostado em tronos macios, ressonando em torno de banquetes sem fim. O caminho é longo e ascendente: quem aceita o essencial tem energia para percorrê-lo e depois contemplar o Senhor no monte.

Os 40 dias de Jesus no deserto

Jesus, novo Moisés, também nos arrebata para a experiência do deserto. Deus feito homem, foi para o deserto onde, durante 40 dias, lutou com o inimigo (Mt 4, 1-11). E foi ali, no deserto, que Jesus afastou as tentações da magia e do poder, as tentações de reduzir o Mistério ao milagre, a Salvação ao espetáculo e ao poder.

As Igrejas parecem conformar-se com o silêncio e a pobreza quando não encontram outro caminho. Mas, encontrando, se esbaldam nos leitos prostituídos do sucesso, dos falsos milagres, dos dons egoístas. Uma sociedade que valoriza a magia e o poder também aceitará de bom grado evangelizadores que servem o prato da magia e do poder.

Não foi esse o caminho do Senhor: sua Glória foi o trono da Cruz, e seu leito o túmulo de pedra. Mas o caminho do Senhor venceu: a ressurreição foi sua última palavra.

E pode também ser a nossa, se tivermos paciência para lermos nossa vida nesses quarenta dias de observância quaresmal.

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