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A VERDADE VOS LIBERTARÁ

Na Celebração da Missa em Havana (28 de março de 2012), comentando a leitura do dia o Papa Bento XVI falou sobre a verdade e a liberdade: a verdade requer a liberdade e a liberdade conduz à verdade. Um tema muito caro a Paulo que insistia na liberdade dos filhos de Deus. Um tema necessário à família cubana que sofre há tantos anos a privação da liberdade de crer e o jugo da educação marxista.

Vem-me à lembrança um relato de Joaquim Navarro-Valls, Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé de 1984 a 2006. Durante 21 anos foi o Porta-voz oficial de João Paulo II, podendo conhecer de perto a interioridade do grande Papa, acompanhando-o no dia a dia do Vaticano e nas viagens apostólicas.

Uma vez se arriscou e perguntou ao Papa: “Santo Padre, se por acaso queimassem o Evangelho, se ele desaparecesse da terra, e o senhor tivesse a possibilidade de salvar só uma frase, que frase seria?”.

Para sua surpresa o Papa não esperou um segundo para responder: “Aquela frase do evangelho de São João que diz que ‘a verdade vos libertará’ (Jo 8,32). E acrescentou: “Faz mais de trinta, quarenta anos que eu penso nessa frase e ainda continuo pensando. A verdade liberta o ser humano”.

“Se permaneceis na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,31b-32): nessa palavra evangélica o Papa se movia em dois campos: o campo da verdade e o campo “onde encontrarei a verdade?”. A pessoa humana não pode se alimentar da mentira, nem a ciência, nem a criação. A verdade e sua busca são o motor do desenvolvimento humano e científico.

É de fato extraordinário que o grande Pontífice, que pediu ao mundo que não tivesse medo de Cristo, que lhe abrisse as portas, tenha por mais de 30, 40 anos pensado em descobrir a frase mais decisiva do Evangelho e chegado a essa afirmação. Isso nos ajuda a entender as linhas mestras de sua pessoa e obra, de seus documentos e homilias, de seus encontros com os grandes desse mundo. Também ajuda a entender porque fosse intransigente no anúncio da verdade sobre Deus e sobre o homem. Era claro, por isso tido como “conservador”: a verdade não conhece meio termo, não pode ser negociada nem dos simpósios teológicos, nos departamentos diplomáticos das nações, não é objeto de simplificações para agradar o mundo.

Temos muita clareza de que a verdade não tem sido o motor da história e quem pagou o preço da sujeição ao engano foi o pobre, a dignidade humana, a natureza. A sujeição à mentira tira do ser humano o necessário para ter dignidade e faz dos interesses pessoais, políticos e econômicos a verdade definitiva, mesmo que ao preço da morte e da destruição. Diz-se que, numa guerra, a primeira vítima é a verdade. Ou então: a primeira vitoriosa numa guerra é a mentira.

As civilizações que os homens construíram podem ter sido geradas pelo idealismo, mas, em certo momento, prevaleceu o interesse rasteiro dos que detinham o poder. E a vida era e é derrotada pela morte. O próprio Deus é manipulado quando se deixa de lado a verdade. A história nos ensina que os grandes poderosos consideravam-se deuses e, com técnicas de comunicação, faziam-se crer benfeitores de seu povo quando, na realidade, eram benfeitores de grupos e assassinos de povos. Impérios apossaram-se de países, continentes, povos e, com a motivação de querer civilizá-los, destruíram suas culturas, seus povos e saquearam suas riquezas.

Beato João Paulo II

Karol Wojtyla conheceu e vivenciou as três mentiras poderosas que levaram povos inteiros a sofrimentos inauditos: o comunismo (que prometia o paraíso na terra), o nazismo (que via na raça e na força o ideal da humanidade) e o capitalismo (que faz da riqueza individual o sonho hedonista). Por causa delas, centenas de milhões de pessoas conheceram a morte no século XX, século de progresso imenso, século das comunicações, século de morte. Mas, a mentira não triunfa: humilhada, mutilada, a verdade se ergueu das cinzas da violência e oferece à humanidade um caminho de vida, num difícil aprendizado.

O ser humano não é humano na mentira: ele foi criado para a verdade, pois é imagem e semelhança da Verdade. Fora dela, inicia uma trajetória que se sabe onde começa – a ilusão – e onde termina: na indignidade e na violência.

Mas, o Papa não falou em verdades. Falou na “verdade vos libertará”. Sua inteira existência foi testemunho da verdade que liberta, do Redentor do homem: Jesus Cristo, o homem perfeito. A Verdade não é uma teoria, um teorema complicado, a Verdade é uma pessoa, Cristo. Como bom pastor da Igreja, João Paulo II quis abrir todas as portas do mundo àquele único que pode dizer: “Eu sou a Verdade”. Verdade que serve e não domina, verdade que dá e não tira a vida, verdade que perdoa e não toma vingança, Verdade que é Amor.

Santo Agostinho derramou muitas lágrimas por ter, durante anos de sua vida, ignorado a verdade e seguido a mentira, até descobrir que a Verdade é a suprema Beleza, é Deus.

Pe. José Artulino Besen

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O PECADO, NEGAÇÃO DE SER O QUE SOMOS

Adão (Francesco Messina – 1929)

Assim definia Thomas Merton: “O pecado é negação de ser o que somos, isto é, rejeição de nossa realidade misteriosa”. Somos humanos e é-nos exigido que sejamos divinos. E nos é exigido que sejamos divinos para que possamos ser humanos. O pecado nos faz retornar à primeira página da Escritura, à nossa criação à imagem e semelhança divina. Após a queda, Deus colocou em nós a nostalgia dele e nele há a nostalgia de nós. Jesus Cristo, com sua encarnação, tornou possível a superação dessa nostalgia com a unidade entre nós e Deus através do amor.

Se devemos dizer que é pela fé que somos justificados (cf. Rom 1,17), também é verdade que a fé é meio caminho, pois, à medida que ela cresce em nós pelo Espírito, toma lugar em nós o amor, que dela é a realização final. Quando o amor faz morada em nós, se intensifica o diálogo divino-humano: continuamente Deus nos chama a sermos como ele e, quanto mais alcançamos a semelhança divina, mais somos a ela atraídos pela força  irrefreável do amor.

A graça batismal, que nos concedeu a filiação divina, é continuamente ameaçada pelo pecado: negar a filiação e acharmos que ser humano equivale a sermos autônomos. Isso divide o ser humano: afasta-o de Deus e volta-o para si. Não há autonomia quando se trilha o caminho do amor. Existe a liberdade, sim, pois está em nós a possibilidade trágica de interromper o caminho da humanização-divinização. E então seremos pecado, pois destruímos em nós a existência feita de mistério, de procura do divino. Nessa hora Deus retoma a iniciativa e desperta em nosso coração a saudade dele. E reinicia a aventura do encontro, da felicidade.

Henry Newman, inglês convertido do anglicanismo ao catolicismo, há pouco beatificado por Bento XVI, ensinava: “Assim como a semente tem a árvore dentro de si, assim os homens têm os anjos dentro de si. Aqui está a importância que a Escritura dá ao crescimento da graça. As sementes devem tornar-se árvores. Nós somos regenerados para sermos transformados, dia após dia, segundo a imagem daquele que nos gerou” (Par. Serm.,V,351).

Os anjos que nos habitam são responsáveis pelas chamadas divinas que continuamente ouvimos através da consciência. Estimulam-nos a avançar no caminho da santidade, da semelhança divina. Tiram de nós a paz dos injustos para substituí-la pelo combate do justo, a santidade. Isso equivale a trocar a morte pela vida, pois crescer é a única prova de que estamos vivos.

Mudar e crescer – caminho de fé

Todos os que aceitaram a aventura da santidade se queixavam de que não tinham paz, de que nunca tinham feito o suficiente: Deus é o “nunca-bastante”, sempre quer mais. É o caminho da vida: viver é mudar para crescer.

Há determinados tipos de religiosidade que se conformam na repetição monótona de devoções, orações, rituais. São adeptos de uma religião pobre, onde não há vontade de mudar, coragem de sofrer, suportar o Deus da vida, poderoso e paterno, que nos quer transformar sempre mais. Jesus não veio nos trazer a acomodação, mas o fogo que devora, que purifica (cf. Lc 12,49). O cristão acomodado tem medo de mudar de vida, de crescer no amor, por um motivo simples: não quer ser cristão, deseja apenas viver uma religiosidade de consumo, que lhe entorpece o impulso da perfeição, da santidade.

Temos medo de mudar e crescer na fé porque preferimos o caminho largo onde tudo é possível, desde que haja de Deus uma pálida lembrança e não a busca do encontro pessoal.

Nas Igrejas estabelecidas essa escolha é visível quando se busca salvar estruturas e hierarquias, preservar tradições numa ingênua motivação de que isso é importante para servir ao Senhor. Sim, e o que significa servir ao Senhor senão mudança de vida, ingressar nas estradas divinas que permitem o encontro? Nossa mais profunda aspiração, semeada em nós pelo Espírito, não é contemplar o Senhor face a face no céu? E isso é possível sem a luta pela santidade?

Apresentaria aqui uma parábola: quem busca o Senhor de coração sincero, no combate pela transformação da vida, ao encontrar o Senhor no céu terá a alegria de entrar na glória dos filhos de Deus. Quem viveu uma vida religiosa sem combate, sem buscar a santidade, ao encontrar o Senhor no céu sentirá um desejo imenso de retornar à vida para de verdade procurá-lo, sofrerá contemplando o tesouro que deixou escapar-lhe da mão. A realidade de sua vida não se apresenta como amor realizado, beleza. Diante da glória sua vida não o convence de outra coisa do que ter perdido a chance de buscar a felicidade.

Resumindo: a situação do cristão é paradoxal: é homem e dele é exigido ser Deus. Foi criado limpo, e está sujo, mas deve apenas voltar ao que foi predestinado a ser. Dito de outro modo, tem de lutar para vir a ser o que é” (Nicu Steinhardt, Diário da Felicidade, p.150).

Pe. José Artulino Besen

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DUAS MULHERES, DOIS CAMINHOS

"Arbe de vie et mort" - de um manuscrito alemão medieval datado aproximadamente de 1481 e autoria de Berthold Furtmeyr. Nele vemos a Árvore da Vida e da Morte. A Virgem e Eva encontram-se em lados opostos à árvore e, nas folhas acima de Maria, um crucifixo e acima de Eva, um crânio que simboliza a morte. A serpente está enrolada em volta do tronco da árvore. Tem aparência elegante e, ao mesmo tempo, sinistra.

«Eis aqui a serva do Senhor,
faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38).

Com sua decisão, duas mulheres marcaram o destino da humanidade: Eva e Maria. Duas mulheres, dois caminhos. Sua decisão continua a ser proposta ao ser humano no momento de definir seu destino pessoal.

Uma, Eva, foi criada sem pecado. Outra, Maria, concebida sem pecado. A primeira simbolizou o sonho do Criador para seus filhos. A segunda, recuperou este sonho. Ambas foram colocadas diante de Deus. Eva respondeu: Eu quero ser como Deus! (cf. Gn 1,1-6). E Maria: Eis aqui a serva do Senhor! (cf. Lc 1,26-31) A primeira inaugurou a história da morte. A segunda, recuperou a história da vida.

O caminho que Eva escolheu trouxe a morte, o fratricídio, as divisões, a guerra, a fome. O caminho de Maria conduz à vida, à santidade, à fraternidade, à união, à paz, à alegria.

Eva caiu na ilusão de que a criatura pode viver sem o Criador. Maria descobriu que somente em Deus podemos ser verdadeiramente humanos.

Querendo ser como Deus para nunca morrer, Eva trouxe a morte.

Querendo servir a Deus para viver em Deus, Maria venceu a morte.

A história dessas duas mulheres é exemplar para todos. A cada dia também nós somos colocados diante de Deus para darmos nossa resposta pessoal ao encaminhamento que daremos à nossa existência. Às vezes criticamos Eva por seu egoísmo, e nos esquecemos que com freqüência fazemos a mesma coisa: também queremos ser como Deus, viver como se Deus não existisse.

Não podemos prosseguir sem essa resposta, nem há uma terceira resposta possível. Podemos responder eu quero viver como se eu fosse Deus, ou sou servo do Senhor, luz do meu caminho. Está à nossa frente a história de Eva e a história de Maria. A morte ou a vida. A guerra ou a paz. A esperança ou o desespero. Luz ou trevas. A história de Adão e Eva ou a história de Maria e de Jesus.

Nem sempre damos esta resposta conscientemente, mas nossas atitudes são indicativas. Ou nosso estilo de vida a revela nossas opções fundamentais.

Cada pessoa vive do jeito que gosta, mas depois reclama dos efeitos de seu gosto. Há daqueles cuja vida é uma sucessão de tristezas, vinganças, intrigas, egoísmo. E caem na depressão, não vendo mais gosto na vida. Parece-lhes que todos os caminhos estão fechados quando, na verdade, eles os fecharam.

Há casais que se dão o direito das discussões gratuitas, das palavras ofensivas, e depois lamentam dolorosamente a separação não esperada, mas preparada ao longo do tempo.

Uma vida sem Deus é uma vida nas trevas, pois Deus é luz. Inicialmente pode-se ter a ilusão do bem-estar, como o dependente de alguma droga: tudo parece claro, tudo traz prazer. Depois, porém, vem a angústia, a destruição da personalidade, a morte.

Há aqueles que encontraram a paz. Não ficaram livres dos problemas que são vistos como desafios e não como destruição da felicidade. Deus é sempre a luz no seu caminho. E conseguem ser luz para quem cruza seu caminho.

Essas duas mulheres, Eva e Maria, estarão colocadas diante de cada ser humano até o fim dos tempos. Suas respostas serão as duas únicas possíveis para a história humana, que não poderá mais dizer como Eva: A serpente me enganou!, pois já lhes conhece os frutos. Eva era inexperiente, não conhecia a história da morte, o que não é o nosso caso após o Filho de Deus ter-nos revelado o Caminho, a Verdade e a Vida.

No 8 de dezembro a Liturgia celebra a Imaculada Conceição, a concebida sem pecado. E celebra, de modo intenso, aquela que foi concebida sem pecado, mas livremente escolheu nunca pecar. Sua vida foi SIM a Deus.

Com Maria de Nazaré, façamos nossa escolha pela vida plena: a escolha por Deus.

Pe. José Artulino Besen

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O CACO DE TELHA EMPRESTADO DE JÓ

Jó ridicularizado por sua mulher - Gioacchino Assereto

Jó ridicularizado por sua mulher – Gioacchino Assereto

Um dos mais perturbadores livros da história humana, assim tem início o Livro de Jó: “Havia na terra de Us uma homem chamado Jó: era íntegro e reto, temia a Deus e mantinha-se afastado do mal. Tinha sete filhos e três filhas. Era o mais rico entre todos os habitantes do Oriente” (Jo 1, 1-3). Satanás não se conformava com a integridade desse homem rico, poderoso, temente a Deus. E tem início o drama de Jó, que é o drama da vida humana. Deus respeita tanto a liberdade do tentador quanto a do santo homem. Primeiramente perde os filhos e seus bens. Em segundo lugar perde a saúde e torna-se um homem repugnante coberto de chagas malignas, desde a ponta dos pés até o alto da cabeça. Sentado no meio do lixo, raspava o pus com um caco de telha. De seus lábios, porém, a palavra da fé: “Seja bendito o nome do Senhor”. Terminado o tempo da provação de sua liberdade, Deus tudo lhe restituiu. Jó, a partir desse momento, não é o homem que teve seus bens de volta, mas o homem que foi fiel ao Senhor.

Naquele corpo chagado, repugnante, permaneceu a chama da fé que, pouco a pouco, tomou conta de toda a sua pessoa e tornou-a luminosa. O caco de telha com que raspava o pus era a força que lhe mantinha a dignidade: se Jó não limpasse o pus teria desistido de ser pessoa e nenhuma transformação seria possível.

Em nossos dias, a Igreja católica é o Jó atirado no meio da praça: é pretexto para o ataque, o ridículo, a rudeza, a ingratidão. Mas, deve-se dizer, ela também guarda carniça em seu ventre, o pus escorre de seu corpo materno, humano e divino. Muitas vezes afirmamos que a Igreja é santa, que não precisa de conversão, o que compete a seus membros. A história, porém, nos revela que o caminho eclesial é diferente: encarnada nas culturas, com facilidade a Igreja pode se deixar seduzir por elas e assim, ao invés de converter o que há de mau nas culturas, por elas é contaminada. O espírito do mundo nunca deixará a Igreja no repouso dos justos: sua missão é o contínuo combater o bom combate, reconhecer os próprios pecados e converter-se.

O drama de nossos dias é a história de Jó: temos todas as bênçãos, toda a riqueza da Palavra e dos Sacramentos, mas não nos submetemos à provação. Achamos que é possível transfiguração sem cruz, salvação sem fidelidade. Cristãos ouvem as palavras dos amigos de Jó convidando à blasfêmia, ao desânimo, a abandonar o ventre da mãe onde convivemos com nossas virtudes, chagas e pus. O caco de telha será o grito de toda a Igreja “Kyrie!”, “Senhor, piedade!” Se o caco de telha for a revolta, a acusação ao mundo que não reconhece a nossa “santidade”, nossos méritos históricos, a ferida se aprofundará. É a hora da conversão, sempre é hora da conversão, da Igreja e dos membros.

É triste que os ataques se dirijam à pessoa de Bento XVI, o Papa que mais agiu e age para a transparência na Igreja, que submeteu os casos de pedofilia diretamente aos tribunais civis, que em nenhum momento teve a pretensão de ocultar a verdade. A assim chamada imprensa laica corre o risco de invadir a esfera própria da Igreja que é sua autonomia de condenar os pecados e redimir os pecadores. Certos tipos de intelectuais querem tirar da Igreja seu conteúdo de caridade cristã. A defesa mais contundente vem de Ross Douthat, um dos mais lidos opinionistas do The New York Times, num artigo com o sugestivo título “O melhor Papa”: defende a intergidade moral de Bento XVI que não se pode colocar em dúvida mesmo nos tempos anteriores ao Pontificado. Persegue-o a fama de “Rotweiler de Deus”, dos tempo da Doutrina da Fé, em confronto com o envolvente e simpático João Paulo II. Talvez a história julgará Bento XVI como um Papa maior.

A graça de Jó nos atinge para que provemos onde está nossa fé, nossa coragem, nosso amor pela Igreja. Foram muitas as crianças e jovens desintegrados na sua intimidade por padres e religiosos, seus naturais protetores na vida e na fé, foram muitos os pastores que preferiram o triunfo eclesiástico à defesa das vítimas. Se nós padres e bispos estamos chagados, não é pela fidelidade e obediência, mas pela omissão e amor próprio.

Um fato leva-nos a refletir com muita seriedade: quem nos chama à conversão não está sendo o Evangelho. O Senhor, não se sentindo escutado, deu voz ao mundo, aos inimigos da fé cristã, da Igreja católica, aos meios de comunicação laicistas, aos advogados ansiosos por dinheiro. Também isso é verdade e, como Jó, devemos dizer, cheios de dor e humilhação, “seja bendito o nome santo do Senhor”. Jó nos empresta o caco de telha para que limpemos o pus que escorre de nosso íntimo. Achávamos que não necessitaríamos desse caco de telha, mas necessitamos da purificação do que não faz parte de nosso ministério de serviço misericordioso e que apenas provoca essas feridas e chagas da cabeça aos pés. “Nós, cristãos, nos últimos tempos evitamos a palavra penitência. Agora, sob os ataques do mundo que nos falam de nossos pecados, percebemos que fazer penitência é graça e vemos como seja necessário fazer penitência”, afirmou o Papa em 15 de abril.

Penitência e conversão são obrigação também do povo de Deus que se omitiu, que por amizade e medo se calou. Quem sabe, a estrutura de poder sacral que montamos e alimentamos tira do povo de Deus a coragem, temendo por ela ser ameaçado.

Abrir-se ao perdão, preparar-se para o perdão, falou Bento XVI. A dor da penitência é graça, pois é renovação, é obra da Misericórdia divina

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«Não há liberdade sem sacrifício e renúncia»

“Quem nos dará carne para comer?  Agora estamos definhando.
E comíamos de graça no Egito!” 
(Nm 11,4-6)

Uma gaiola, mesmo de ouro, é uma gaiola. Uma prisão, por mais confortável que seja, não passa de urna prisão. Ambas tiram a liberdade de quem nelas está confinado. Não há valor humano comparável à liberdade. Dinheiro sem liberdade, para nada serve. Grandes ideais pouco significam, se não existe liberdade para atingi-los. Sem a liberdade, não existe uso da vontade. Vontade e liberdade nos fazem pessoas.

A história mostra que, em momentos de dificuldade, os povos sonham com um regime de força, que lhes tira a liberdade, mas, em troca, lhes oferece pão e conforto. Aceita-se o ditador, desde que seja um pai para todos. Para quem tem fome, a liberdade parece inútil, pois a fome mata, e a liberdade não garante a sobrevivência.

Os imperadores romanos acalmavam o povo com pão e circo. Entre nós, se engana com carnaval e futebol. Chega uma hora, porém, em que o próprio pão perde o sabor, se não vier acompanhado da liberdade. Só estômago cheio não satisfaz a pessoa humana. Sem podermos exercitar nossos direitos, não somos mais plenamente humanos. Deus nos criou livres, fez-nos senhores do mundo, e não escravos de pessoas ou estruturas.

A liberdade é uma conquista obtida na luta. Não se pode medir sacrifício para atingi-la. E menos ainda, medir sacrifícios para conservá-la. O mesmo se diga com respeito à liberdade frente aos vícios e dependências. Necessita de heroísmo o alcoólatra que quiser ser livre do álcool, ou o dependente químico que planeja curar-se. Alguns desanimam «porque é difícil». Ora, é exatamente esse «difícil» que dá o sabor à conquista da liberdade.

A liberdade perante nossas más inclinações, igualmente: o esposo que decide ser fiel à esposa e, portanto, livre da infidelidade, tem que estar sempre alerta. O jovem que não se exercita na heróica escola do amor viverá aproveitando-se dos outros, mas achando que está amando. Ceder à tentação é escravidão. Vencê-la, é conquistar a liberdade interior, condição para a liberdade exterior.

Em nossos dias, assiste-se a uma inversão de valores, de conseqüências funestas para a convivência humana: confunde-se liberdade com o se fazer o que vem à cabeça. Muitas pessoas pensam que são livres, porque não se sujeitam a imposição alguma. Há um desprezo pelas leis e princípios morais. Com isso, minha liberdade acaba tirando a liberdade de meu semelhante. Minha liberdade só é verdadeira se respeita a liberdade do outro. Então, a garantia da verdadeira liberdade é a disposição interior de sujeitar-se a determinados limites no pensar e agir. Somente assim a liberdade será um patrimônio de todos.

Os judeus, enquanto escravos no Egito, ansiavam pela libertação. Mas, não queriam arcar com os custos dela: a viagem pelo deserto os tornaria livres, mas a privação, a insegurança, eram o preço a pagar. Tiveram saudades das cebolas e do feijão do Egito quando eram escravos, mas de barriga cheia! Podemos cair na mesma tentação: querer atingir a verdadeira liberdade, sem pagar o preço da sua conquista. Mas isso significa continuar escravo: é renunciar a sermos verdadeiramente humanos.

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É proibido proibir!

«Coragem! Eu venci o mundo»  (Jo 16,33)

«Quem semeia ventos, colhe tempestade», aprendemos desde pequenos. Colhemos o que plantamos, pois semente de espinheiro produz apenas espinheiros. A sociedade brasileira está colhendo o que semeou nas últimas décadas, especialmente após a revolução dos costumes iniciada há 40 anos, em 1968, em Paris, logo espalhada, como um furacão, por todo o mundo. O lema daquele ano “É proibido proibir”, penetrou até a medula nas novas gerações.

«Dança em Torno do Bezerro de Ouro», de Emil Nolde (1910)

«É proibido proibir» significava sexo sim, amor não; filhos sim, casamento não; direitos sim, deveres não; liberdade sim, autoridade não; Deus sim, religião não; Cristo sim, Igreja não: corpo sim, pessoa não, e assim por diante. Toda a estrutura ética da vida social foi lançada ao chão.

Tinha-se como grande princípio de sabedoria: «duvide de qualquer pessoa acima dos 30 anos». Era a consagração do pensamento jovem, a negação da sabedoria que vem da história.

Desacreditaram se as instituições que davam proteção à pessoa humana. A religião foi massacrada, a escola desprezada, a autoridade ridicularizada, a família desmoralizada, a lei e a ordem explicadas como intromissão externa na liberdade sem limites do ser humano. A busca do prazer a qualquer custo, foi apresentada como único ideal para a vida. O homem moveu um processo contra Deus, julgando o inimigo da liberdade e do prazer.

Colhemos os frutos: o sexo sem compromisso lançou a família na grande crise que hoje vive. O corpo é usado como se não fosse parte da pessoa, causa de tantas neuroses. Os alunos tratam seus professores como empregados. A Igreja, que representava a grande força moral da sociedade brasileira, tornou se fonte de brincadeiras. A autoridade política esqueceu se de suas responsabilidades e, em linhas gerais, também mergulhou no «salve-se quem puder».

A busca de direitos sem deveres aumentou a injustiça social, com a multiplicação dos pobres, dos menores abandonados, do aborto, da escandalosa concentração da renda. Enfim, a vida se desenvolve no clima da violência afetiva, pessoal, cultural, social e econômica. E a violência gera o medo do outro. A cultura da vida se transformou na cultura da morte.

A criança, o jovem e o pobre pagam a conta. São presas mais fáceis do egoísmo, esse abutre que quer destruir os sinais de vida e de dignidade ainda sobreviventes.

É tempo de voltar atrás, ou melhor, de reconstruir o tecido social através do cultivo dos valores que podem efetivamente proteger a vida: a dignidade da pessoa, da família, o fomento aos valores religiosos, à fraternidade, solidariedade, renúncia, verdade.

Ter sempre a certeza: quando o homem e a mulher buscam apenas o proveito próprio, sem limites, serão eles as primeiras vítimas. Não pode existir felicidade duradoura quando se pensa apenas na própria felicidade.

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LIBERDADE E SILÊNCIO

O grande combate do amadurecimento humano e cristão tem nosso coração como campo de batalha. É lá dentro, nos abismos de nossa interioridade, que se travam as guerras verdadeiras contra tudo o que nos afasta de Deus, dos outros, de nós mesmos. É no silêncio do coração, após a derrota de todos os ruídos que querem moer nossos sentimentos, que se estabelecem os grandes encontros amorosos.

No silêncio de nossa interioridade contemplamos a bondade do amor divino e dos outros, e sentimos a felicidade de fixar o olhar na doçura dos encontros que se produzem e que dão sustento à nossa existência.

Os baixos preços dos produtos eletrônicos que geram milhões de sons e imagens são sedutores: parecem nos libertar do incômodo de ouvir o ruído do trânsito, é verdade, mas também nos isolam do canto dos pássaros, da música sutil entoada pela natureza, e da necessidade de escutar a fala do outro. Andamos pelas ruas com ouvidos tamponados por walkman e temos a sensação de liberdade frente a qualquer incômodo: não é isso verdadeiro, porque nossa liberdade continuará gritando para ser ouvida. Acabamos mergulhando num silêncio filho da solidão estéril.

O barulho que enche nossas casas e nossas vidas impossibilita escutar os sentimentos dos que no cercam e que são silenciosos. Só no silêncio há revelação de vidas e de intimidade.

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