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A PALAVRA DE DEUS, FONTE INESGOTÁVEL

Luz sobre a Palavra – Daniel Lifschitz – 1990

“O Senhor coloriu com muitos tons a sua palavra”. O estudo científico das Escrituras, necessário para enriquecermos a compreensão do texto, pode levar a uma repetição monótona: esse texto significa isso, e pronto! esse capítulo vem dessa fonte, esse versículo dessa outra, como se cada palavra não dependesse do contexto e do leitor. João XXIII reclamava dos que faziam da Bíblia um salame servido em fatias.

Evidente que não é esse o objetivo dos exegetas, dos estudiosos. Todo texto é aberto a muitos significados além de seu contexto. Esse significado se nos revela de acordo com o momento que vivemos. Veja-se a parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-32): se a lermos todos os dias, a cada leitura teremos uma experiência diferente, porque nós estaremos vivendo um momento diferente.

Se, além disso, termos presente que é Palavra de Deus, as experiências serão tão ricas e infinitas como o próprio Deus. Ele nos fala sempre de modo apropriado para cada situação de nossa vida.

Os verdadeiros leitores da Palavra exclamam: “tantas vezes li, ouvi, e nunca me passou pela cabeça esse sentido, essa imagem, essa lição”. Deus não se deixa aprisionar em nossas armadilhas mentais e simplificadoras. A Bíblia, pela multiplicidade de textos, livros, épocas é um bosque riquíssimo onde o verde da Vida oferece mais tons do que podemos enxergar. Afirmou Martinho Lutero: “Seria necessário viver três anos acompanhando Jesus, como os Apóstolos, para entendermos um pouco da parábola da ovelha perdida (Lc 15, 1-7). Mesmo que acompanhássemos os Apóstolos por cem anos, não teríamos compreendido o Evangelho”.

Fundamental é ter presente que a Bíblia somente alcança seu sentido pleno na Igreja: é um livro que Deus dirige a seu povo. A Palavra se dirige à pessoa que busca salvação, mas essa pessoa não busca isoladamente a salvação e sim, na comunidade. Sem essa inserção na Igreja teremos a calamidade da formação de seitas.

O Concílio do Vaticano II, quando ensinou sobre a verdade na Sagrada Escritura deu-nos essa segura definição: “Os Livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade relativa à nossa salvação, que Deus quis fosse consignada nas Sagradas Escrituras” (Dei Verbum, 11). Portanto, na Bíblia há história, geografia, antropologia, mas não é essa sua finalidade. Deus Pai quis fazer dela uma carta de amor, de amigo, uma carta de salvação. E sabemos que do divino ventre materno brotam surpresas sem fim. Do Espírito Santo, o artista da salvação, surge a riqueza da vida dos crentes: basta ver a variedade dos Santos, cada um com seu carisma e modo de expressar o amor.

Cada fiel tem na Escritura o seu caminho e jeito de salvação. Um mesmo texto leva um pecador às lágrimas da conversão, um bispo ao compromisso com o rebanho, um casal à vivência conjugal cristã, um jovem a nutrir o heroísmo dos idealistas.

“O Senhor coloriu com muitos tons a sua palavra”: é um quadro multicolorido, é um jardim de muitas flores. Os fundamentalistas (que interpretam o texto bíblico ao pé da letra) não sentem a riqueza desse jardim e repetem as mesmas coisas, beirando o fanatismo. Quem lê a Bíblia sabendo de suas muitas cores nunca será fanático, pois estará aberto à riqueza que o Espírito sopra nos que lêem com fé a Palavra.

Os Pais da Igreja sempre viram nas Escrituras diversos sentidos: o literal (o que o texto diz), o espiritual (o que o Espírito diz para minha vida de fé) e o moral (o que o texto diz para minha vivência da fé). E cada sentido, por sua vez, se subdivide quase sem limites. Assim, ao lermos o texto temos a experiência da imagem, da contemplação da obra divina e do compromisso vital com o Senhor da Aliança.

O sírio Santo Efrém (+373), apelidado de “harpa do Espírito Santo” por sua poesia mística, mantinha uma escola bíblica para ensinar os cristãos a sentirem a beleza e riqueza da Palavra de Deus escreveu: “O sedento enche-se de gozo ao beber e não se aborrece por não poder esgotar a fonte”. Santo Irineu diz que “são muitas as águas do Espírito de Deus, porque é muita a riqueza e grandeza do Pai” (Adv. Haer. 4,14,2-3). Alguém ficaria triste por não conseguir beber toda a água de um poço? Pelo contrário, se alegra, pois na próxima sede retorna e encontra água. Assim acontece com quem bebe da Água viva do Espírito Santo que jorra da Bíblia: quanto mais profundidade alcança na contemplação do mistério, mais sede tem de beber dessa Água e ficará feliz por nunca esgotá-la.

Efrém conclui: “Vença a fonte a tua sede, mas não vença a tua sede a fonte” (Coment. in Diatéssaron, 1,18-18).

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O CACO DE TELHA EMPRESTADO DE JÓ

Jó ridicularizado por sua mulher - Gioacchino Assereto

Jó ridicularizado por sua mulher – Gioacchino Assereto

Um dos mais perturbadores livros da história humana, assim tem início o Livro de Jó: “Havia na terra de Us uma homem chamado Jó: era íntegro e reto, temia a Deus e mantinha-se afastado do mal. Tinha sete filhos e três filhas. Era o mais rico entre todos os habitantes do Oriente” (Jo 1, 1-3). Satanás não se conformava com a integridade desse homem rico, poderoso, temente a Deus. E tem início o drama de Jó, que é o drama da vida humana. Deus respeita tanto a liberdade do tentador quanto a do santo homem. Primeiramente perde os filhos e seus bens. Em segundo lugar perde a saúde e torna-se um homem repugnante coberto de chagas malignas, desde a ponta dos pés até o alto da cabeça. Sentado no meio do lixo, raspava o pus com um caco de telha. De seus lábios, porém, a palavra da fé: “Seja bendito o nome do Senhor”. Terminado o tempo da provação de sua liberdade, Deus tudo lhe restituiu. Jó, a partir desse momento, não é o homem que teve seus bens de volta, mas o homem que foi fiel ao Senhor.

Naquele corpo chagado, repugnante, permaneceu a chama da fé que, pouco a pouco, tomou conta de toda a sua pessoa e tornou-a luminosa. O caco de telha com que raspava o pus era a força que lhe mantinha a dignidade: se Jó não limpasse o pus teria desistido de ser pessoa e nenhuma transformação seria possível.

Em nossos dias, a Igreja católica é o Jó atirado no meio da praça: é pretexto para o ataque, o ridículo, a rudeza, a ingratidão. Mas, deve-se dizer, ela também guarda carniça em seu ventre, o pus escorre de seu corpo materno, humano e divino. Muitas vezes afirmamos que a Igreja é santa, que não precisa de conversão, o que compete a seus membros. A história, porém, nos revela que o caminho eclesial é diferente: encarnada nas culturas, com facilidade a Igreja pode se deixar seduzir por elas e assim, ao invés de converter o que há de mau nas culturas, por elas é contaminada. O espírito do mundo nunca deixará a Igreja no repouso dos justos: sua missão é o contínuo combater o bom combate, reconhecer os próprios pecados e converter-se.

O drama de nossos dias é a história de Jó: temos todas as bênçãos, toda a riqueza da Palavra e dos Sacramentos, mas não nos submetemos à provação. Achamos que é possível transfiguração sem cruz, salvação sem fidelidade. Cristãos ouvem as palavras dos amigos de Jó convidando à blasfêmia, ao desânimo, a abandonar o ventre da mãe onde convivemos com nossas virtudes, chagas e pus. O caco de telha será o grito de toda a Igreja “Kyrie!”, “Senhor, piedade!” Se o caco de telha for a revolta, a acusação ao mundo que não reconhece a nossa “santidade”, nossos méritos históricos, a ferida se aprofundará. É a hora da conversão, sempre é hora da conversão, da Igreja e dos membros.

É triste que os ataques se dirijam à pessoa de Bento XVI, o Papa que mais agiu e age para a transparência na Igreja, que submeteu os casos de pedofilia diretamente aos tribunais civis, que em nenhum momento teve a pretensão de ocultar a verdade. A assim chamada imprensa laica corre o risco de invadir a esfera própria da Igreja que é sua autonomia de condenar os pecados e redimir os pecadores. Certos tipos de intelectuais querem tirar da Igreja seu conteúdo de caridade cristã. A defesa mais contundente vem de Ross Douthat, um dos mais lidos opinionistas do The New York Times, num artigo com o sugestivo título “O melhor Papa”: defende a intergidade moral de Bento XVI que não se pode colocar em dúvida mesmo nos tempos anteriores ao Pontificado. Persegue-o a fama de “Rotweiler de Deus”, dos tempo da Doutrina da Fé, em confronto com o envolvente e simpático João Paulo II. Talvez a história julgará Bento XVI como um Papa maior.

A graça de Jó nos atinge para que provemos onde está nossa fé, nossa coragem, nosso amor pela Igreja. Foram muitas as crianças e jovens desintegrados na sua intimidade por padres e religiosos, seus naturais protetores na vida e na fé, foram muitos os pastores que preferiram o triunfo eclesiástico à defesa das vítimas. Se nós padres e bispos estamos chagados, não é pela fidelidade e obediência, mas pela omissão e amor próprio.

Um fato leva-nos a refletir com muita seriedade: quem nos chama à conversão não está sendo o Evangelho. O Senhor, não se sentindo escutado, deu voz ao mundo, aos inimigos da fé cristã, da Igreja católica, aos meios de comunicação laicistas, aos advogados ansiosos por dinheiro. Também isso é verdade e, como Jó, devemos dizer, cheios de dor e humilhação, “seja bendito o nome santo do Senhor”. Jó nos empresta o caco de telha para que limpemos o pus que escorre de nosso íntimo. Achávamos que não necessitaríamos desse caco de telha, mas necessitamos da purificação do que não faz parte de nosso ministério de serviço misericordioso e que apenas provoca essas feridas e chagas da cabeça aos pés. “Nós, cristãos, nos últimos tempos evitamos a palavra penitência. Agora, sob os ataques do mundo que nos falam de nossos pecados, percebemos que fazer penitência é graça e vemos como seja necessário fazer penitência”, afirmou o Papa em 15 de abril.

Penitência e conversão são obrigação também do povo de Deus que se omitiu, que por amizade e medo se calou. Quem sabe, a estrutura de poder sacral que montamos e alimentamos tira do povo de Deus a coragem, temendo por ela ser ameaçado.

Abrir-se ao perdão, preparar-se para o perdão, falou Bento XVI. A dor da penitência é graça, pois é renovação, é obra da Misericórdia divina

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CRISTÃO ISOLADO, NENHUM CRISTÃO

Irmã Dulce com crianças – Salvador – BA

O crescente individualismo de nossa cultura faz com que o transfiramos também para a esfera religiosa: minha fé, minhas crenças, minhas escolhas. Além disso, torna bastante difícil o estabelecimento de laços interpessoais e do sentido de pertença. O outro não me é necessário: eu me basto a mim mesmo.

E assim, no campo da fé, a consciência de viver numa comunidade torna-se um peso, pois não gostamos de ter com o outro um compromisso além daquele que me é necessário de imediato. O individualismo traz consigo o enfraquecimento da consciência eclesial  e muitos batizados não se sentem membros vivos e participativos da comunidade cristã, vivendo à margem. Só se dirigem às paróquias em determinadas circunstâncias, para receberem serviços religiosos.

Falamos muito em Cristianismo, e pouco em Igreja. É bom lembrar que o termo “Cristianismo” não é da Igreja primitiva. Os primeiros cristãos sentiam-se o Novo Israel em continuidade do Velho Testamento, serviam-se das palavras Aliança, Reino, Igreja, Comunidade dos Santos para se identificarem. Quando Paulo escreve às comunidades ele sabe que todos os seus membros têm uma identidade própria, cada seguidor de Cristo é membro de uma comunidade particular incluída numa comunidade universal. A preocupação com os pobres da Igreja de Jerusalém da parte das Igrejas da Ásia menor atesta bem essa consciência de comunidade única.

Muitos abandonam a comunidade eclesial por decepção, por terem sido mal acolhidos, pelos escândalos nas esferas religiosas. Acham que sozinhos é mais fácil ser santo, viver a fé, pois não precisarão mais nem fazer nem responder a perguntas sobre o que acontece em sua comunidade de fé.

Ao se agir desse modo, perde-se a beleza e a alegria de ser e sentir-se Igreja: “A Igreja não é uma comunidade daqueles que ‘não têm necessidade do médico’, mas sim uma comunidade de pecadores convertidos que vivem da graça do perdão, transmitindo-a por sua vez a outros” (J. Ratzinger). Agora como Papa Bento XVI, J. Ratzinger afirmou em recente alocução a respeito da beleza da Igreja: “A propósito da Igreja, os homens são levados a ver, sobretudo, os pecados, o negativo. Mas, com a ajuda da fé, que nos torna capazes de ver de modo autêntico, podemos também hoje e sempre ver nela a beleza divina”.

“Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9,13), afirmou Jesus. Ele continua a chamar a todos, formando uma comunidade admirável. Se ele chamasse apenas pessoas maravilhosas e virtuosas, que jamais errassem, não seria um sinal do Reino de Deus. O Padre Radcliffe, dominicano, a esse respeito nos oferece significativa meditação: “No coração de nossa vida cristã está a imensa vulnerabilidade da Última Ceia. Jesus coloca-se nas mãos de seus discípulos: “Tomai, isto é o meu corpo, entregue por vós”. Um dentre os discípulos o traiu, outro o negou, a maioria fugiu. Pertencer à Igreja é aceitar um pouquinho desta vulnerabilidade. Nós devemos aceitar estar implicados nos fiascos da Igreja e em seu heroísmo, em sua tolice como em sua sabedoria, em seus pecados como em sua santidade. E a Igreja também me aceita com meus pecados e com minha estupidez. É por isso que ela é “sinal e sacramento da unidade de todo gênero humano” (Lumen Gentium, 1,1). Nós pertencemos à Igreja não porque somos bons ou maus, mas porque somos discípulos de Jesus, aprendendo a caminhar juntos com ele e com aquele que está em nossa comunidade.

Para os primeiros Pais da Igreja era muito claro que “um cristão isolado não é cristão” (Unus christianus, nullus christianus). Mas, é importante lembrar, somente é cristão e membro de uma comunidade cristã aquele que decidiu dar uma resposta livre ao dom de Deus que é Jesus Cristo. Ser cristão é exercitar a arte da comunhão, da reconciliação na diversidade de pessoas, culturas e condições sociais. Quem é fechado em si, com medo do diferente, prefere uma religião ou individualista, ou de massa, tradicional, uma ideologia onde não precisa entrar em diálogo com o outro, gesto essencial na comunidade.

Quem sabe, a rejeição da comunidade e opção por viver sozinho a fé não seriam reflexos de nosso individualismo, de nosso fechamento interior?

Façamos nossa a oração que São Quodvultdeus, bispo de Cartago no século V, prescrevia para os candidatos ao batismo:

Concede, Senhor, a todos nós amar a Tua Igreja, a Tua amada. Faz com que lhe permaneçamos inabalavelmente fiéis, como a uma mãe amorosa, solícita e benigna, para que, com ela e por seu intermédio, possamos ser de casa junto de Ti, Deus e Pai nosso”.

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A Igreja, mistério divino no meio do mundo

«Cristo é o chefe da Igreja,
seu corpo, da qual ele é o Salvador»
  (Ef 5,23).

Muitos cristãos confundem a Igreja de Cristo com uma organização filantrópica, pouco diferente das muitas entidades da sociedade civil. A Igreja, segundo eles, existe para praticar caridade, colocar se ao lado dos pobres e oprimidos, organizar o povo, denunciar as injustiças. Tudo isso é verdade, mas não esgota a realidade da Igreja. Resumi-la nisso é esquecer que a Igreja é o Corpo de Cristo, da qual ele é a Cabeça. Ela é o Povo de Deus e o Corpo místico de Cristo, divina e humana, santa e pecadora, entregue aos homens, mas conduzida por Deus. Ela se coloca ao lado dos homens, como defensora de sua dignidade e direitos: é servidora do mundo. Onde está o homem, aí está a Igreja, assumindo suas dores e alegrias, esperanças e desencantos.

Nela convivem santos e pecadores, heróis e traidores. Nela há lugar para São Pedro e para Judas Iscariotes, para a mãe piedosa e para o filho rebelde, para o opressor e para o oprimido. Ela não existe nas alturas, como se fosse uma idéia, mas existe concretamente pela participação dos cristãos. Se um cristão é santo, a Igreja é santa; se é pecador, ela é pecadora. Se o cristão faz o bem, a Igreja comunica esse bem aos outros membros; se um cristão faz o mal, prejudica, do mesmo modo, os outros participantes da Igreja, porque ela é como um corpo, onde cada órgão influi no bem estar ou no sofrimento geral. Nenhum cristão pode falar de sua Igreja como se não fosse integrante dela.

A Igreja está no mundo, mas não é do mundo, é uma peregrina em busca do endereço definitivo, o Reino dos Céus. Seu corpo está no mundo, mas sua Cabeça, no céu. Se todos os homens pecassem, ela continuaria santa, pois sua cabeça é Jesus Cristo: a energia que lhe dá vida é divina. Como numa árvore, podemos arrancar lhe todos os galhos, mas o tronco brotará de novo. É o Espírito Santo que lhe garante a existência, e não a competência humana. A santidade da Igreja é a santidade de Deus, e não santidade dos homens.

O mundo pode ter todo o interesse em destruí la, mas não conseguirá, apesar de há dois mil anos estar tentando: é impossível destruir o próprio Cristo, destruir a obra de Deus.

A finalidade da Igreja é fazer com que seus membros sejam santos, como Deus é santo. Ela garante que a santidade sempre germinará no mundo, produzindo frutos de justiça, amor, verdade, graça e paz. Sempre haverá santos no mundo, porque o sinal principal da existência da Igreja é a santidade. Nela entramos como pecadores, para nos tornarmos santos. Amar a Igreja é amar ao próprio Cristo. Entrar nela, é passar a fazer parte do Corpo de Cristo.

A Igreja é a Palavra de Deus vivida na história, é o fruto maduro da Eucaristia, é a Alegria dos que se sabem pecadores, mas amados por Deus e pelos irmãos.

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A IGREJA E A MISSÃO DA CRUZ – ANÚNCIO DA BELEZA

Crucifixão

Crucifixão

A crise do Cristianismo está apenas começando. Vivemos ainda numa espécie de ilusão cultural em que a fé se confunde com religiosidade e o Cristianismo com a tradição cristã. Vivemos um conflito interior entre aquilo que é de Deus e aquilo que é da carne, e tentamos misturar os dois num mesmo prato, sem perceber que ambos se contestam às escondidas, pois a fé não nasce da carne, mas de Deus.

Misturamos a herança dos Apóstolos e dos Santos Pais com o orgulho confessional (“eu sou católico”, “eu sou crente”), a graça da vida segundo o Espírito com o peso histórico e étnico (que também pede seus “direitos místicos”, como pensar que todo brasileiro tem de ser católico, todo árabe, muçulmano). Confundimos o sentido da verdade com o gosto pelo poder mas, a carne e o sangue não poderão herdar o Reino de Deus (cf. 1Cor 15,50).

A missão é anunciar a beleza da Cruz.

A paixão de Cristo é a “hora” da glória. Ele se desfez através do sofrimento por amor e depois o Pai o transfigurou na carne ressuscitada. O Senhor glorioso é o Senhor crucificado. Paulo, após ter sido tocado pela Luz arrebatadora no caminho de Damasco, não anunciou o poder, o espetáculo do sucesso, mas a fragilidade do Amor: “Irmãos, eu mesmo, quando fui ter convosco, não me apresentei com o prestígio da palavra ou da sabedoria para vos anunciar o mistério de Deus. Pois não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado, … a fim de que a vossa fé não se baseie na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus” (1Cor 2, 1.5; cf. 1, 23-25).

A grande Liturgia da Igreja vivencia esse anúncio paradoxal na forma do Belo em estado puro: a Eucaristia é a ação de graças pela Paixão-Morte-Ressurreição-Ascensão gloriosa do Senhor: a pequenez do Pão oculta/revela a Glória infinita do Senhor; o altar é belo, a Palavra é bela, os cantos são belos, os paramentos são belos; belo é o povo que celebra os acontecimentos centrais da história, mas ergue os olhos e imediatamente contempla o Crucificado, belo na dor pelo amor.

A missão cristã não é anunciar uma teoria, um código de comportamento que provoca cansaço e temor. É algo mais fascinante: é mostrar Cristo, suprema revelação do ser, da forma, da glória e da beleza de Deus. O missionário tem consciência de que a beleza e a luz de Deus compreendem também o abismo da treva na qual mergulha o Crucifixo, de que o caminho da fé supõe o grito “Meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34).

A beleza do Crucificado é tão irresistível, porém, que leva quem o busca a uma aventura onde luz/treva, consolo/abandono, certeza/dúvida parecem se confundir e, ao mesmo tempo, são distintas, pois sabemos que no final do caminho repousaremos dizendo “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). As vertigens do mergulho em busca do Belo nos farão contemplá-lo na serenidade de quem o amou.

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A CRUZ, IMAGEM DA TRINDADE E DA IGREJA

Exaltação da Santa Cruz

Exaltação da Santa Cruz

Através do “Vitória! Tu reinarás! Ó Cruz, tu nos salvarás!” entoamos um hino eslavo que expressa ricamente o mistério da Cruz. A primeira estrofe não deixa dúvidas sobre a vocação da Igreja: “À sombra de teus braços, a Igreja viverá. Por ti, no eterno abraço, o Pai nos acolherá!”. A Cruz é o abraço amoroso da Trindade. Sem a Cruz, e sem cristãos assumindo a cruz, não há vida na Igreja: apenas a ilusão diabólica de que estar livre da cruz é sinal de amor privilegiado de Deus.

A tentação de Cristo no deserto (cf. Lc 4, 1-13) foi a tentação da fuga da cruz e da apresentação do sucesso como caminho messiânico, tentação de tudo resolver através do milagre, do espetáculo: “Se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: ‘Ordenou aos seus anjos a teu respeito que te guardassem. E que te sustivessem em suas mãos, para não ferires o teu pé nalguma pedra’ (Sl 90,11ss). Jesus disse: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’ (Dt 6,16)”.

Na Sexta-feira santa, sofrendo as mais atrozes dores e o abandono do Pai, o diabo volta à carga pela boca da multidão: “Que o Cristo, rei de Israel, desça agora da cruz, para que vejamos e creiamos” (Mc 15, 32). Queriam espetáculo! Jesus poderia ter descido da cruz e tudo estaria resolvido. Pelos quatro cantos do mundo se falaria do homem que prometeu morrer, sofreu dramaticamente, tudo em preparação para o grande teatro: descer da cruz poderoso, nos braços do povo sedento por milagres.

A Cruz, imagem da Trindade

Mas, o Senhor não poderia negar a própria identidade: ele é amor, e tudo o que é e faz brota do amor. A crucifixão não é a derrota, e sim, o sinal inequívoco de um amor total na doação: “Quando tiverdes levantado o Filho do homem, então conhecereis que EU SOU (=Deus) e que nada faço de mim mesmo, mas falo do modo como o Pai me ensinou” (Jo 8,29).

A Escola do Pai foi a da doação: alguém pode imaginar que um pai, separando-se do filho para doá-lo em resgate de uma multidão ingrata, sinta prazer? A primeira Cruz foi a do Pai, quando permitiu que seu Filho se despojasse da condição divina para ser igual a nós (cf. Fil 2,6-8). Quando Jesus se retirava para orar, consolava o Pai por sua ausência, e o Pai o consolava em seu abandono filial. Deus Pai esvaziou-se da paternidade e o Filho, da filiação. A Cruz é a imagem da Trindade: nela sofreram o Pai, o Filho e o Espírito Santo, pois o amor sem medida fez as três Pessoas se esvaziarem da comunhão divina.

O amor não é uma festa inocente. Dar o passo para declarar, na verdade, “eu te amo”, supõe enfrentar o sofrimento de se auto-anular: “Presentemente, a minh’alma está perturbada. Mas que direi?… Pai, salva-me desta hora… Mas é exatamente para isso que vim a essa hora. Pai, glorifica o teu nome!” (Jo 12, 27-28). A cada momento de sua vida pública Jesus era tentado a ser infiel ao Pai, caindo na ilusão do aplauso dos curados e alimentados. Ao mesmo tempo em que pedia ao Pai ser libertado daquela “hora”, sabia que aquela era a “Hora” da glorificação: o amor teria a última palavra, por toda a eternidade seria impossível amar com mais intensidade do que no Calvário, sinal da grandeza divina capaz de assumir a pequenez total.

A Cruz, imagem da Igreja

Fiódor Dostoiévski, na célebre passagem de Os Irmãos Karamázov (livro V), colocou essas palavras na boca do Grande Inquisidor: “Tu não desceste da cruz porque, mais uma vez, não quiseste alimentar o homem com o milagre, e desejavas ardentemente uma fé livre, e não uma fé dependente de milagres. Ardias por um amor livre, e não a bajulação servil do escravo diante do senhor”.

Cristo quer seus discípulos nutridos de uma fé livre, que se possa expressar num amor livre. A busca do milagre impede a liberdade da fé e a liberdade do amor. A fé e o amor incluem o esvaziamento de si para poder abandonar-se no outro. Assim, o Pai esvaziou-se do Filho para abandoná-lo em nossas mãos.

A Cruz permite ao homem a experiência do amor na liberdade, sem a necessidade de milagres. Somente quem participa do sofrimento de Cristo pode participar de sua glória e, deste modo, ser digno da ressurreição. Quando afirmamos que a Igreja é o Corpo de Cristo a contemplamos crucificada, renovando a fidelidade ao Pai e fazendo germinar a Vida nova: a cruz é sinal de sofrimento e de sacrifício, mas também sinal da salvação e da manifestação da glória de Deus. Uma Igreja que despreza a fidelidade da Cruz, e se empolga com a facilidade da estrada do espetáculo, nega a existência de Deus, pois, negando a fecundidade do sofrimento, ridiculariza o Deus Trindade cuja imagem é a Cruz. Ridiculariza os sofredores do pecado do mundo, pois considera-os vítimas do próprio pecado, quando a verdade cristã é outra: todo inocente que morre na sua inocência, carrega os pecados do mundo, e nisso é semelhante a Cristo e unido a ele. Afirmava São Serafim de Sarov: “Onde não há aflição não existe salvação”, pois não é possível a conversão, podemos acrescentar.

Celebrando a Exaltação da Santa Cruz, em 14 de setembro, cantemos o hino bizantino: “Senhor, tu nos deste a cruz como arma contra o demônio; ele se atemoriza e treme, não tendo coragem de contemplar esta potência que faz ressurgir os mortos e vence a morte; por isso nós veneramos a tua sepultura e a tua ressurreição”.

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SEGUIDORES, NÃO TRIUNFADORES

Ide a todo o mundo...

Ide a todo o mundo…

O sucesso histórico não é o metro para todas as coisas. “Por certo, Jesus não é o advogado dos homens de sucesso na história. … O que ele quer não é nem o sucesso nem o insucesso, mas a aceitação dócil do julgamento de Deus” (D. Bonhoeffer. Ética, 67). A alegria da vida cristã não provém do trunfo de se poder afirmar “o Brasil é o maior país católico do mundo”, nem sua tristeza tem origem no constatar que a Igreja católica perde anualmente 1% de seus membros. Publica-se que no Brasil 60% da população é católica. Como se entende, então, que a França seja chamada de “pós-cristã” se nela 70% se declaram católicos?

O imperador Constantino em 311 concedeu liberdade aos cristãos quando eles constituíam “apenas” 10% da população do Império romano (6 milhões em 60 milhões). Ele, porém, percebeu na fé cristã uma força nova, um estilo de vida que tinha uma palavra forte para a sociedade. Perguntemos: é grande sucesso ter alcançado 10% da população após 300 anos de evangelização? Realmente, Cristo não é advogado dos homens de sucesso! A vitória de Cristo é a doação incondicional de tantas pessoas, o martírio de inteiras comunidades, a fidelidade sem reservas à sua pessoa. Os discípulos, não os números, dão testemunho do poder da fé.

A alegria do cristão, o sentido de sua vida é a adesão total e incondicional ao Deus da vida através da aceitação pessoal em nossa vida da encarnação, paixão, morte, ressurreição e ascensão gloriosa de seu Filho. Não o metro do sucesso, mas o grau de fidelidade a seu Senhor faz a Igreja caminhar serena pela história e seus desafios.

O cristianismo não é feito de números, mas de santos; precisa de teólogos e pastores cuja teologia seja oração, cuja vida dê testemunho daquilo que estudam e ensinam. Uma preocupação doentia em casar o cristianismo com o mundo acaba por deixar ambos sem sentido. É comprometedor afirmar com Santo Inácio de Antioquia, a caminho do martírio em Roma: “O cristianismo não é obra de persuasão, mas de grandeza”. Grandeza de testemunho, de coragem, de fé/adesão ao Senhor Jesus.

É motivo de vergonha para quem ama a Igreja e o Evangelho a preocupação e angústia de tantos cristãos diante da publicação de evangelhos gnósticos, como o de Judas, Tomé, diante de uma literatura feita de mediocridade histórica e bom tempero de suspense como o Código da Vinci. Vergonha, porque o evangelho de Judas é conhecido desde o século II, o mesmo se dizendo de tantos livros apócrifos do período posterior à era apostólica. Lá, como hoje, buscava-se saciar a curiosidade sobre a vida oculta de Jesus, o destino do Iscariotes traidor, a vida de José e Maria, o fascínio despertado pela personagem Maria Madalena. O que não se sabe se inventa e o curioso sente-se recompensado.

Dissemos vergonha porque a tal de angústia é atestado de que nossa catequese e formação de cristãos é moralizante, pendendo para a ética, querendo fazer do cristianismo a “arte do bom comportamento”. Tanto na catequese infanto-juvenil como nos cursos de teologia para leigos a história da Igreja e de suas primeiras comunidades é deixada de lado em benefício de uma preocupação com a moral e os bons costumes. E, deste modo, o último sucesso editorial ou de mídia que aparecer na praça deixará tantos cristãos em dúvida, perplexos por poderem estar sendo enganados pela Igreja.

O fundamento de nossa fé é a encarnação-morte-ressurreição do Filho de Deus que nos oferece vida em plenitude. Tudo por graça, por dom de Deus. Essa verdade a Igreja transmite meditando os 73 livros da Sagrada Escritura. A vida de seu Senhor e mestre está contida nos 4 Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. A Sagrada Escritura transmitida pela Igreja nos dá a segurança do ato de fé, da entrega de nossa vida a Deus, de iniciarmos sempre de novo o caminho cristão até a consumação final em Cristo, no Espírito Santo.

A realidade histórica do cristianismo é a vida dos cristãos brotada da meditação da Palavra de Deus e movida pela Graça. Formamos militantes, “agentes” de pastoral. Talvez nos despreocupemos do único necessário: formar discípulos. A vida é curta para completarmos o discipulado. No momento do julgamento com sua inesgotável misericórdia Deus completará o que falta.

Velhinho, pouco antes de ser triturado pelas feras do circo romano, Inácio de Antioquia afirmou: “Agora começo a ser discípulo de Cristo”.

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