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SANTIDADE E INTIMIDADE

Comunhão de Vida (pintura a óleo de Margherita Pavesi-Bose)

Comunhão de Vida (pintura a óleo de Margherita Pavesi-Bose)

A vida cristã é caminho de santidade, pedagogia de santidade, é busca feliz de Deus  (Lev 11, 44). Santo é quem está consagrado a Deus.  Santificar é tornar íntegro, inviolável, o contrário de mundanizar, isto é, ser possuído pelo espírito do mundo, do espetáculo, perder a intimidade.

O santificado revela somente a Deus sua intimidade pessoal; o mundanizado, por sua vez, tudo revela em busca de apoio, complacência, dinheiro, sucesso.

A Igreja antiga tinha muito pudor com as coisas santas. São nossos conhecidos os Sermões mistagógicos (Sermões sobre os Mistérios), pronunciados após a administração de um Sacramento. Quem não era batizado permanecia na igreja até o final da Liturgia da Palavra, pois a Liturgia eucarística estava reservada aos batizados, aos que tinham sido iniciados nos Mistérios. Ao catecúmeno (o que se preparava para o Batismo) quase tudo era ensinado, menos a revelação final do mistério batismal: essa era feita na catequese mistagógica pós-batismal.

A publicidade faz perder a santidade do sagrado, expondo tudo ao público. Madre Teresa não conseguia explicar a Inspiração que a fizera consagrar-se aos pobres mais pobres. Respondia: “Eu disse a Jesus que levasse tudo, para que eu não tivesse que explicar. Quando tornamos algo público, ele perde a santidade”.

Alguns não conseguem adorar o Santíssimo sem ter aberta a porta do sacrário. Mas, é exatamente a porta fechada que leva à adoração daquele que ama escondido, que aceita ser adorado em sua intimidade. Quanta Beleza num sacrário fechado, mas totalmente aberto aos amantes que o contemplam.

A cultura da publicidade a qualquer preço destrói a intimidade e com isso torna as pessoas manipuláveis. Há algo mais constrangedor que afixar cartazes e faixas com a face do Senhor sofredor convidando para a Procissão dos Passos? A Paixão de Cristo deixa de ser ato redentor para ser fato cultural. Os que o amam no Caminho da dor querem contemplá-lo em silêncio, quase em segredo. Com recato, um dá a notícia ao outro e se reúnem na Procissão dos que sofrem vendo o Amor que não é amado.

E a blasfêmia de anunciar a Procissão de Corpus Christi como “espetáculo” da tradição religiosa? O Senhor da Humildade, reduzido a um pedaço de Pão, quer ser contemplado por amigos que o adoram em sua pobreza e não olhado por curiosos.

Vivemos um período de teologia fraca, a la carte, o que representa um enorme perigo para a integridade da mensagem cristã. Em busca de fiéis fala-se muito em Santo poderoso, cada um com sua especialidade, vendem-se Medalhas milagrosas de São Bento, Novenas fortes e poderosas, traficante não se expõe sem um forte escapulário. Onde fica o Senhor?

A superficialidade teológica se traduz em superficialidade mistagógica: ministro acha que seus paramentos dourados são evangelizadores, as equipes enfeitam a Missa. Mas, o Senhor crucificado não está nu? Quer-se tudo exposto em veste popular e assim perde a santidade.

Num dia, a anestesia da publicidade religiosa a qualquer preço e a instrumentalização do sagrado despertará. O que teremos? Multidões aflitas em busca de milagres, multidões que não conhecem a Palavra de Deus, mas acreditam em poderes mágicos, multidões que confundem fé com prazer, com o “agradável”, multidões que fogem do Cristo crucificado trocando-o por produtos religiosos que geram prosperidade. Uma pena, depois de todo o esforço do Vaticano II colocando como fonte da santidade a Palavra e o Sacramento. E corremos o perigo de retornar a buscá-la no devocional.

Profunda a palavra de um teólogo que anunciava uma Igreja confessante, corajosa, mártir: “Que outro é o preço que hoje pagamos… se não uma necessária conseqüência da graça alcançada a baixo preço? Por baixo preço se proclamava o anúncio, se administravam os sacramentos, se batizava, se dava a crisma, se absolvia o povo inteiro, sem que fossem postas perguntas ou condições” (D. Bonhoeffer: Discipulado). Para ele, o preço foi o martírio no campo de concentração. A santidade tem alto preço: a própria vida.

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SER AGRADÁVEL, A PEDAGOGIA DO ANTICRISTO

Jesus tentado no deserto – Willian Congdon

Jesus tentado no deserto – Willian Congdon

Lembro aqui duas notícias publicadas na imprensa: Prova de laço e missa campeira são destaques :“Na missa campeira para a Nossa Senhora Aparecida, os peões e prendas pediram a bênção da santa. Parados na frente do altar, em cima dos cavalos, eles solicitaram proteção para as competições” (DC, 2/5/2007, p. 24).

“Se Jesus Cristo fosse vivo, ele não diria aos fiéis que “o reino de Deus é como um tesouro escondido”, e sim “o reino de Deus é como ganhar sozinho na loto”. “É emoção.”  Confissão deve ser Reencontro, pois “Confissão é coisa de bandido. É uma dádiva poder escutar o que aflige o fiel e como ele batalha contra as tentações do pecado. As confidências são o feedback. Isso é pesquisa qualitativa”. (Afirmações do fundador da Associação Brasileira de Marketing Católico –ABMC (Isto É, 9 de  maio, 2007).

Esse tipo de anúncio ao gosto do freguês e de uma pastoral acomodadora, agradável a qualquer preço, faz lembrar o personagem Anticristo, do filósofo, teólogo e escritor russo Vladimir Soloviev (1853-1900), que faz o Anticristo se auto-anunciar servindo-se das palavras do próprio Jesus: “Eu vim em nome de meu Pai e vós não me acolhestes; virá um outro em seu próprio nome e vós o acolhereis: sou eu”. E depois conclui: “Para ser acolhido é necessário ser agradável”. O Anticristo de Soloviev encontra solução para tudo: ecumenismo, justiça, bem-estar, salvação, diálogo religioso, tudo se resolve de modo agradável, evitando dores, esforços longos e oferta da inteligência ao Espírito. Poucos resistiram ao seu fascínio irresistível e foram julgados fanáticos: enfim, o mundo tem jeito, e sem sacrifícios.

Bem diferentes as palavras de Bento XVI no Brasil e que causaram alvoroço, pois o Papa poderia estar afastando fiéis com sua pregação exigente dos valores evangélicos. Ao defender a fa­mília como célula-mãe da sociedade, a vida em todos os estágios, Bento XVI afirma que “a Igreja quer ape­nas indicar os valores morais de cada si­tuação e formar os cidadãos para que pos­sam decidir consciente e livremente”. Não há imposição, pois a consciência é o tribunal indevassável de cada pessoa, o que não exclui que seja formada corretamente e, no caso dos cristãos, segundo a Palavra de Deus.

Bento XVI, teólogo refinado, não tem saudades do passado. Ele quer uma Igreja consciente, cristãos bem formados em todos os níveis da sociedade civil. No discurso de abertura da V Conferência de Aparecida lamentou a precariedade de líderes católicos nos meios científicos e políticos. Ele quer dizer a todos: trabalhem mais, sejam mais e melhores pastores e o rebanho permanecerá unido.

Ao mesmo tempo, não tem saudades dos números, da grande estatística; o que mede a força do cristianismo é a intensidade de vida, de encontro com o Senhor, de cada pessoa e de cada comunidade. Recorde-se aqui uma palavra sua quando ainda Cardeal, numa entrevista: ”A Igreja dimi­nuirá de tamanho. Mas dessa provação sairá uma Igreja que terá extraído uma grande força do processo de simplifica­ção que atravessou, da capacidade reno­vada de olhar para dentro de si. Porque os habitantes de um mundo rigorosamente planificado se sentirão indizivelmente sós. Descobrirão, então, a pequena co­munidade de fiéis como algo completa­mente novo. Como uma esperança que lhes cabe, como uma resposta que sem­pre procuraram secretamente” (O Sal da Terra).

Papa Ratzinger anuncia um cristianismo sério, pois “o cristianismo é obra de grandeza”, nas palavras Inácio de Antioquia. Quanto menos o mundo quiser ouvir falar de Cristo, mais dele estará precisando. Cristo, porém, não veio para facilitar a vida, mas para torná-la divina, o que exige contínuo combate espiritual e não o espetáculo religioso.

Na sociedade de consumo, hedonista, ser agradável é tudo o que se espera. Vale a pena simplificar ou falsear a mensagem do Crucificado descendo ao mesmo chão?

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A CRUZ DO SENHOR, FORÇA DA IGREJA

A Crucifixão (Rublev)

A Crucifixão (Rublev)

Onde hoje temos a Basílica da Ressurreição, no dia 13 de setembro de 335, consagraram-se duas basílicas em Jerusalém: uma no Gólgota, onde Cristo tinha sido crucificado e outra no Santo Sepulcro. No dia seguinte, 14 de setembro, era apresentada ao povo a relíquia da Santa Cruz. Ao ser tocado por ela, um morto tinha recuperado a vida, sinal de que era a cruz do Senhor, a cruz que nos deu a Vida.

Celebrando o acontecimento, toda a Igreja, do Oriente e do Ocidente, em 14 de setembro comemora a Exaltação da Santa Cruz. Os hinos litúrgicos cantam o madeiro santo que, plantado na terra, brotou regado pelo Sangue do Senhor. Quem come dos frutos desta Árvore tem a graça de vencer a morte e cantar o hino à vida. O sangue que escorreu do lado direito do Crucificado simboliza a Eucaristia; a água, o Batismo.

Cada vez que a comunidade celebra a Eucaristia, ela e o celebrante têm diante dos olhos a imagem da Cruz, recordando que a Igreja nasceu do lado direito de Cristo crucificado. A liturgia, com a cruz diante dos olhos da comunidade, une a Antiga e a Nova Aliança: no deserto, os judeus contemplaram a serpente de bronze e foram curados do mal mortal provocado pela picada das serpentes (cf. Nm 21, 4b-9); hoje, os que contemplam a cruz, nela contemplam aquele que os libertou da morte (cf. Jo 3, 14-15).

Teologia da Cruz – Teologia da Consolação

A cruz, símbolo de maldição, de humilhação, de fraqueza, recorda-nos a “loucura” de Deus por nós. Deus pode tudo, menos uma coisa: obrigar-nos a amá-lo. Por isso mesmo, a Trindade serviu-se da cruz ao menos para convencer-nos de que Ela nos ama: o poder de Deus é o poder do amor. A “loucura do amor” trinitário deixou o Filho no abandono total: “Meu Deus, por que me abandonaste?”. Naquele instante, que se prolonga por toda a história terrena da salvação, aquele que é a Vida tornou-se vida para nós no coração da morte. No Horto e no Gólgota, o Filho sentiu a amargura total do abandono do amor para nos amar, ele que “tem o poder de oferecer a vida e tem o poder de retomá-la” (cf. Jo 10,18). Quem bebe do Sangue eucarístico, recebe também o poder de dar a vida.

A Cruz, trono da Glória de quem ama até a morte

“Agradou a Deus salvar os crentes com a loucura da pregação … porque …. aquilo que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens… Deus escolheu o que no mundo é fraco para confundir os fortes” (cf. 1Cor 1,21-28).

A Glória de Deus tem a Cruz como Trono: seu poder se manifesta plenamente na fraqueza assumida por causa de nós. O homem que se identifica com o Crucificado recebe a força do Ressuscitado: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). Se esse é o caminho do Senhor, é necessariamente o caminho da Igreja, dos cristãos.

Durante os séculos de sua história, a Igreja corre o perigo da tentação da sabedoria humana, da adaptação ao mundo: tirar Cristo da cruz e vesti-lo com seda. O mistério da fraqueza de Deus é o mistério escondido na essência profunda da Igreja, na existência crucifixa dos santos e santas. Assim como não existiu santo ostentando vestimentas e enfeites principescos, do mesmo modo não há força eficaz numa evangelização feita na imponência de cerimônias, na ameaça de punições aos que erram, na segregação eclesial daqueles que o mundo também marginaliza.

O poder da Igreja só existe na participação do poder de Cristo: poder da fé e da humildade, e se expressa como serviço: quem quiser ser o maior, torne-se o menor (cf. Lc 22,25-27).

Graça a alto preço – graça descartável

Desde o dia de Pentecostes, quando o Espírito despojou-se de sua glória e veio habitar o coração da Igreja e da criação, a evangelização corre o risco terrível de vender a Graça a baixo preço, de enfeitar a Cruz para aumentar o rebanho. Levar ao torpe mercado da salvação uma Graça tornada barata, descartável, comercial e até grátis, facilitadora e descompromissada.

A Graça é sempre muito cara, Paulo afirmando que fomos comprados por alto preço (1Cor 6, 20): ela é tesouro escondido no campo, pérola preciosa, rede a ser lançada, senhorio de Cristo, Evangelho buscado, dom sempre suplicado, porta sempre batida, seguimento ao preço da própria vida.

Veremos aqueles que crucificamos

Em cada Eucaristia fazemos o memorial do Calvário: junto ao altar contemplamos a cruz. Seremos cristãos se nela, identificados com o Senhor, contemplarmos os famintos, os sedentos, os nus, os peregrinos, os prisioneiros, os doentes, os sem-casa, os sem-terra, os desempregados. Somos convidados ao exercício do invencível poder do amor.

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