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COMUNHÃO ESPIRITUAL – DEVOÇÃO E EUCARISTIA

Esperando a Missa de Páscoa em Kiev

Há intuições do devocionário popular que, confrontadas com a Liturgia, podem ganhar um significado profundo e serem símbolos de uma verdade maior. É o caso da “comunhão espiritual”: era e é recomendada para quem não pode participar da Missa, ou por não haver a Celebração pela ausência do padre ou por impedimento de consciência, como viver situação irregular. Na piedade popular mais estimulada nos seminários, conventos e associações religiosas era a “oração do desejo de comungar”, donde comunhão espiritual, não real, como se o espiritual pudesse ser não real. Por ocasião de aniversários, tempos fortes, se estimulavam os “ramalhetes espirituais” nos quais a comunhão espiritual ganhava destaque e tinha o peso medido pela quantia de vezes.

Os atos devocionais podem ter origem tanto na ausência/desconhecimento da Palavra de Deus e da Liturgia quanto num conhecimento menos eclesial da Palavra, ou então são a cristianização de ritos de outras religiões.

Não se quer negar o mérito ou a qualidade das devoções, apenas dizer que podemos extrair desse poço valores teológicos para elas.

Encontramos no Profeta Malaquias (480/460AC), o último na lista dos profetas bíblicos, uma profecia messiânica que nos insere no caminho da Comunhão espiritual: “De onde nasce o sol até onde ele se põe, o meu nome é glorificado entre as nações, e em todo lugar se oferece a meu nome um sacrifício puro, porque meu nome é glorificado entre as nações – diz o Senhor (Ml 1, 11). Malaquias fala de um sacrifício puro de louvor celebrado ininterruptamente em todas as nações. Não há momento ou lugarem que Deus não esteja recebendo esse sacrifício verdadeiro.

A Liturgia católica, na Oração eucarística III, após o canto do Santo, nos insere nessa profecia messiânica ao iniciar e epíclese: “Na verdade, vós sois santo, ó Deus do universo, e tudo o que criastes proclama o vosso louvor, porque, por Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso, e pela força do Espírito Santo, dais vida e santidade a todas as coisas e não cessais de reunir o vosso povo, para que vos ofereça em toda parte, do nascer ao pôr-do-sol, um sacrifício perfeito”.

A cada momento e em todo lugar, por Cristo, na força do Espírito, o Pai nos reúne para um sacrifício perfeito celebrado ininterruptamente, do nascer ao por do sol. Não podemos imaginar que em algum instante não se esteja unido ao Deus Uno e Trino com o sacrifício eucarístico. A Eucaristia é a celebração da Cruz e Ressurreição do Senhor, celebração do mistério em que, pela força gerada no Amor crucificado, nossos pecados são perdoados.

O drama da redenção pela Cruz é situado historicamente: em Jerusalém, numa sexta-feira da primavera do ano 32. Com isso podemos dizer que nessa data há um antes e um depois da Cruz, mas, no momento da Morte (tempo)-Ressurreição (eternidade) se revela a divindade do Senhor e a Eucaristia sai do tempo histórico e penetra na eternidade divina. Por quê? Deus é eterno, sem passado ou futuro e a Liturgia se realiza fora do tempo. Nossa vida humana transcorre nos fragmentos do tempo histórico, é verdade, mas nossa redenção se situa no eterno de Deus.

Assim, a Liturgia revelada no Apocalipse, em que o Cordeiro imolado desde a fundação do mundo assume o trono donde jorra a água redentora para o perdão dos pecados, permanece até o final da história (cf. Apc 21, 22-25): Cristo, o Cordeiro, é o templo onde se realiza a história. Cristo continua crucificado e ressuscitado, pois disse: “Se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados”; “Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então sabereis que EU SOU” (cf. Jo 8, 24.28). EU SOU é o nome de Deus, é a afirmação da divindade de Jesus o Cristo. Seguindo a palavra de João, Deus está crucificado e é na Cruz que se revela o Filho eterno. Desse modo o sacrifício redentor – a Eucaristia – se estende a todos os tempos e lugares, do nascer ao pôr-do-sol.

Se crermos no Crucificado, temos continuamente o perdão de nossos pecados, continuamente Cristo se oferece ao Pai por nós, na força do Espírito Santo. Esse gesto redentor não comporta datas e tempos, porque é obra divina, eterna. Cada comunidade eucarística intercede por toda a criação.

A Comunhão espiritual eucarística

Não há instante ou lugar em que não seja oferecido o sacrifício perfeito anunciado por Malaquias e proclamado na Liturgia. Isso nos dá uma grande alegria: espiritualmente participarmos da Eucaristia, hino de ação de graças e remissão dos pecados. Todo o cosmos é transformado e santificado pela Eucaristia, pois o Messias crucificado e ressuscitado a tudo consagra, e sempre, e em todo lugar.

Deste modo, a Comunhão espiritual pode ir muito além de um piedoso desejo de receber a Comunhão, de ser ato individual de alguém privado da Missa. A Comunhão espiritual é eucarística, é redentora, pois é participação real do mistério do Cordeiro imolado, cujo fruto é a remissão de nossos pecados. Ao invés de pensarmos numa igreja onde a Eucaristia é celebrada, creiamos que estamos mergulhados na Eucaristia cósmica, participando do sacrifício permanente e perfeito. Os pecados de todos os que crêem entram em contato e perfeitamente em comunhão com aquele que os perdoa. A cada comunhão espiritual eucarística somos o filho pródigo sendo recebido pelo Pai e recriado pela sua misericórdia.

São Francisco de Assis pediu que seus frades, quando passassem diante de uma igreja ou dum crucifixo, ou mesmo avistando de longe uma torre, se ajoelhassem e recitassem a pequena oração: “Nós vos adoramos e bendizemos, Senhor Jesus Cristo, presente aqui e em todas as igrejas do mundo”. Na Comunhão espiritual podemos e devemos rezar: “Nós vos louvamos e glorificamos, Senhor nosso Pai, e estamos unidos à Eucaristia que vossos filhos celebram nesse momento em todos os lugares do mundo”.

Pe. José Artulino Besen


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O CORAÇÃO DE JESUS, CORAÇÃO DE DEUS

Sagrado Coração de Jesus – por Salvador Dalí

Venham a mim,
vocês todos que estão aflitos e sobrecarregados sob o fardo,
e eu vos aliviarei” (Mt 11,28).

A mais profunda e significativa entre as devoções cristãs é a do Sagrado Coração de Jesus: é a devoção afetuosa e adoradora do próprio Filho entregue a nós pelo Pai. Nenhuma beleza se compara à imagem do Homem‑Deus, rasgando o peito e oferecendo ao mundo, ardendo em chamas, seu coração! Parece dizer‑nos: “Eis o coração que tanto ama o mundo. Eis um coração ardendo de amor, mas que tem tão poucos dispostos a aceitar serem amados por ele”.

Forte desde a Idade Média, a devoção se intensificou a partir das revelações privadas de Jesus à francesa Santa Margarida Maria de Alacoque (1647-1690). As revelações se estenderam por 17 anos e nelas Jesus a chamava de “discípula predileta” e que desejava revelar-lhe “os segredos de seu coração divino” e ensinar-lhe “a ciência do amor”. Mal compreendida, acusada de propagar fantasias místicas, foi determinante o encontro com o padre São Cláudio de la Colombière (1641-1682) que assumiu sua direção espiritual e atestou a autenticidade das revelações. Não era fácil para as autoridades eclesiásticas aceitarem visões de mulheres, sempre acusadas de propensas à fantasia.

Jesus pedia que uma Festa fosse dedicada a seu Coração. Após dúvidas, foi celebrada pela primeira vez na França, em 1672, e tornou-se festa de toda a Igreja em 1856, com data fixada na oitava de Corpus Christi. Os padres jesuítas foram e são seus grandes propagadores, de modo especial através do Apostolado da Oração.

Na devoção ao Coração de Jesus a Igreja presta culto ao coração humano de Jesus, inseparável de sua divindade, e ao amor do Salvador pela humanidade, cujo símbolo é seu coração.

Entre as Doze Promessas feitas por Jesus a Santa Margarida, salientamos: – os pecadores encontrão em meu Coração a fonte e o mar infinito da misericórdia (6ª.), as almas tíbias se tornarão fervorosas (7ª.) e as almas fervorosas elevar-se-ão rapidamente a grande perfeição (8ª.). O centro é o acolhimento à pessoa humana em sua situação real de santa ou pecadora, triste ou feliz, piedosa ou blasfema, sadia ou depressiva.

O Coração de Jesus, fonte e mar infinito da misericórdia, ao ser traspassado pela lança, com o sangue e a água fez jorrar para o mundo o batismo e a eucaristia, a fonte regeneradora da vida. Revelando-se como fogo, chama de amor, Jesus nos convida ao calor que brota do amor, do perdão, da misericórdia.

Numa época em que se afirmava o rigor de Deus, a distância instransponível entre Deus e o homem, o acesso mínimo, por indignidade, à Comunhão, Jesus anuncia a proximidade, a amizade. Convida-nos a residir em seu Coração divino. Não foi outra a causa de sua vinda ao mundo. 

Nossa resposta ao amor misericordioso

Preferimos continuar na solidão, sofrendo amarguras, sozinhos carregando os fardos da existência humana. Mas, há alguém disposto a ajudar‑nos a carregá‑los. Há alguém pedindo que lhe ofereçamos nossas aflições, querendo ser companheiro de jornada. É Jesus, oferecendo-nos abrigo em seu coração. Importante, há alguém que quer ser nosso companheiro no socorro aos sofredores.

Os olhos de Jesus nos fixam, até com angústia: pedem que aceitemos ser amados por ele. É verdade que muitas cruzes tornam pesada nossa vida. Jesus sabe disso melhor do que ninguém e, por isso mesmo, quer ser nosso amigo, compartilhar nossas dores e alegrias.

Coração de Jesus, coração de misericórdia, abrigo de santos e pecadores, de mansos e violentos, abrigo com vagas ilimitadas. Lembra o homem de Nazaré diante da pecadora a quem desejam apedrejar: “Mulher, eu não te condeno. Vai em paz, e não tornes a pecar”. Lembra Jesus rodeado de crianças: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino dos céus”. Lembra os usurários Mateus e Zaqueu, o amigo Pedro que o trai, o bom Ladrão na cruz. Lembra Jesus se opondo a deixar a multidão faminta, multiplicando‑lhe o pão. E, acima de tantos gestos de ternura, amizade, compreensão, nos faz elevar os olhos e contemplar o Crucificado: nada mais restando para comprovar‑nos seu amor, oferece a própria vida!

Homens e mulheres, jovens e velhos, encontram no Coração de Jesus não o conformismo, mas a força para a luta, para a vida. A ele se dirigem devastados pela dor, e dele retornam novas criaturas, com o fogo do amor tendo devorado as causas do sofrimento. Nele buscam amor, e saem para amar. São agressivos, orgulhosos: com ele aprendem a ser mansos e humildes de coração.

Quando Filipe pediu a Jesus: “Senhor, mostra‑nos o Pai”, obteve a resposta que revoluciona nossa relação com Deus: “Filipe, quem me vê, vê também o Pai!” (Jo 13,8‑9). O Coração de Jesus é o coração de Deus. A ternura de Jesus é a ternura de Deus, o Pai. Tudo o que podemos imaginar de carinho, compreensão, misericórdia, justiça, em Jesus, podemos ter a certeza de encontrar no Pai.

O medo sai de nossa vida. A tristeza nela não tem mais lugar. Se o pecado e o fracasso nos deprimem, o perdão e o afeto divinos nos reerguem. No Sagrado Coração de Jesus, fonte de vida e santidade encontramos, enfim, a paz que nos fará ter paz, e lutar pela paz.

Pe. José Artulino Besen

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CORPUS CHRISTI – EUCARISTIA, COMUNHÃO E GRATIDÃO

Toalha que recebeu as gotas de Sangue no Milagre de Bolsena em 1263 e que deu origem à Festa de Corpus Christi. Está na Catedral de Orvieto

“No Calvário se escondia tua divindade, mas aqui também se esconde tua humanidade”, canta a Igreja em texto de Santo Tomás de Aquino, acrescentando “Venha a fé, por suplemento, os sentidos completar”. O mais visível dos sinais sacramentais é, paradoxalmente, o mais invisível. No Pão não se contempla nem a humanidade nem a divindade do Senhor, mas nele contemplamos sua Presença: é o Senhor!

A festa litúrgica de Corpus Domini (popularmente Corpus Christi) está ligada a uma série de visões, revelações pessoais e milagres eucarísticos acontecidos no século XIII. A causa principal foi a reafirmação de presença real do Senhor no Pão consagrado frente a doutrinas que a colocavamem dúvida. Em 1246 foi instituída como festa na diocese belga de Liège, a pedido da mística Juliana.

Muitas vozes suplicavam que Roma aprovasse uma festa que demonstrasse pública e festivamente a fé católica na presença real. A causa próxima foi o “Milagre de Bolsena”, em 1263, quando, nessa cidade um padre, Pedro de Praga, duvidara da transubstanciação. Quando ele se preparava para distribuir a comunhão, da Hóstia escorreram gotas de sangue que mancharam de vermelho a toalha. Como o Papa Urbano IV residia em Orvieto, cidade próxima, foi-lhe mostrada a toalha, o que o deixou impressionado. Após muita reflexão, um ano depois declarou que foi milagre.

Assim, atendendo aos apelos da Igreja, em 8 de setembro de 1264 instituiu a Festa de Corpus Domini para toda a Igreja. A seu pedido, São Tomás de Aquino compôs as inspiradas orações e os hinos dessa Liturgia, da qual cantamos sempre o “Tão sublime Sacramento”.

Após a morte de Urbano IV, a celebração da festa do Corpus Domini limitou-se a algumas regiões da França, Alemanha, Hungria e Itália Setentrional. Foi em 1317 que o Papa João XXII restaurou-a para toda a Igreja. Desde então, a festa teve um desenvolvimento extraordinário, e continua sendo especial no coração dos católicos.

Diante do grande e humilde mistério da Eucaristia somos convidados a manifestar nossa alegria externamente. Nossa gratidão nos impele a prestar homenagem pública de amor a Cristo Pão da Vida.

A Hóstia é uma Presença, a Presença do Cristo ressuscitado. Ao passar pelas ruas de cidades e vilas, aclamada pelos crentes que, na delicadeza da fé, lhe oferecem tapetes de flores, de cores, sua Presença se une à nossa presença e à presença em todo o universo. Não há lugar onde o Ressuscitado não esteja, em todos os tempos e lugares a Eucaristia e celebrada.

Eucaristia – encontro e comunhão

De tal modo nos sentimos unidos ao Senhor que, durante a Missa afirmamos que vamos “receber a Comunhão”. O horizonte dessa Comunhão se amplia, dilata, expande num raio sem limites, escreveu Paulo VI em 1969. É uma Comunhão dupla: com Cristo e entre nós que, nele, nos tornamos irmãos. É Comunhão com nossos irmãos, com a comunidade, com a Igreja: “Assim como há um só pão, nós, que somos muitos, formamos um só corpo, pois todos participamos do mesmo pão” (1Cor 15,17).

Na Eucaristia nosso encontro-comunhão com Deus é total: nada se interpõe entre nós e ele. Podemos dizer que é momento de Parusia, de vinda gloriosa do Senhor, de fim dos tempos. De certo modo, a cada celebração da Eucaristia acontece o que professamos no Creio: “e de novo há de vir para julgar os vivos e os mortos”. Ao final da Consagração o povo reunido reza, fervorosamente “Vinde, Senhor Jesus!”. E o Senhor vem ao nosso encontro na Comunhão. Nesse encontro aceitamos ser julgados: Cristo divino e humano une-se aos horrores da história, às nossas divisões e competições, ao nosso egoísmo, e também às alegrias e generosidades da humanidade que se une à liturgia celeste: “O nosso coração está em Deus”. Agostinho repetia que a Igreja é a prostituta que Cristo não cessa de lavar em seu sangue, o sangue eucarístico, para dela fazer a Esposa sem mancha. Nós somos os prostitutos que, tomando a Carne e o Sangue do Senhor, somos lavados em nossa interioridade e nos tornamos novas criaturas, renascemos.

O historiador francês, Henri Marrou, quando lhe perguntavam “ virá logo o fim dos tempos, a Parusia?”, respondia: “Não, não creio que será amanhã, mas sei que acontecerá hoje!”. Na Eucaristia.

A potência de Cristo é tão imensa que também na Eucaristia – segundo seu estilo de Belém, de Nazaré, do Calvário – esconde as mais sublimes realidades sob as aparências tão humildes do pão e do vinho que, desse modo, se tornam acessíveis a todos nós. Esse Sacramento é sinal de que Cristo Senhor quer ser nosso alimento, nossa comida, geradora de vida interior para todos nós e, em nós, aplica os frutos da Encarnação: “O Filho de Deus, de certo modo, uniu-se a cada homem” (GS 22).

No pão e no vinho Cristo, em sua humildade, se reparte para todos nós. Nossa resposta é a fraternidade em torno da mesa universal onde, unidos com Cristo, oferecemos uma grande Ceia ao Pai e a seus filhos. Assim, a festa do Corpo do Senhor é também a festa da Humanidade divinizada na Eucaristia.

Pe. José Artulino Besen

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COMPANHEIRO – O QUE COME PÃO CONOSCO

Comunhão – antiqüíssimo afresco em mosteiro copta no Egito.

A essência do pecado consiste no impedimento de olhar o rosto de Deus e, por conseqüência, o rosto do outro. É a não-comunicação, a não-comunhão. Macário o Grande, Pai do Deserto, demonstra isso com a representação de pessoas de mãos dadas, lado a lado, mas que não podem se olhar no rosto. Estão unidas pelas mãos, mas separadas pela não-comunicação, pois sem contemplar o rosto do outro não temos possibilidade de vida comunitária.

Temos muitas ilusões de comunicação: o telefone celular, o MSN, o Orkut. São comunicações eletrônicas, úteis e também símbolos de nossa artificialidade de relações e solidão. Há pessoas que, estando em casa, ligam para vizinhos e amigos para fugir da solidão; mas, estando na rua, ligam para casa, também para vencer a solidão. Falta-lhes contemplar o rosto do outro, do amigo, daquele que reside com ele.

Vivemos uma dolorosa ausência de esperanças comunitárias, pois renunciamos às utopias, aos sonhos e, assim, nossa vida é precária: pequenas alegrias, pequenas dores, pequenos entusiasmos, pequenos desânimos. Apagou-se o fogo que iluminava a vida comunitária e, em seu lugar, é-nos oferecida uma cultura individualista. São imensos nosso esforço e nossos gastos para sermos diferentes, para nos convertermos em estátuas de curiosidade pública: olhados, admirados, criticados, mas sem comunhão.

Mesmo amontoados nos shoppings, estamos justapostos, não em conjunto. Nos condomínios nem sempre as pessoas se conhecem e acham isso melhor, pois não surgem compromissos com a dor ou a alegria dos vizinhos.

Os muitos compromissos nos impedem de olhar ao lado, criar  relações, condição necessária para se ter o sentido da vida.

Mesa posta – vida repartida

Enzo Bianchi, prior do Mosteiro de Bose, afirma que “no dia em que o homem inventou a mesa – talvez uma pedra – iniciou a cultura, a civilização”. A civilização não é um projeto individual: surge no decorrer do tempo com iniciativas originais e que se prestavam à vida comunitária. Gera a linguagem, a solidariedade, a convivência, a arte. Quando deixa a mesa, porém, gera a Babel, Caim, a competição destrutiva, as guerras. Então se entra no campo da barbárie, da selvageria, retornando-se ao tempo em que não havia civilização.

O pão é o melhor símbolo da civilização: ele é repartido, cada um se serve preocupado que não falte ao outro um pedaço. A selvageria confisca o pão, a civilização o distribui.

O pão é repartido numa mesa, seja ela uma pedra, um tapete, uma tábua, uma placa de granito. Mas, o pão pode estar na mesa, e os comensais não. Cada um dele se serve no momento que lhe apraz e se perde o sentido familiar. Nada mais representativo da existência da família do que pais, filhos e amigos em torno da mesa. Nada mais expressivo da solidão do que uma mesa coberta de iguarias, mas sem comensais. Cada um se serve sozinho e retorna a seus afazeres, a seu individualismo.

Tudo na mesa é sinfônico: a toalha, as cadeiras bem postas, iguarias, um arranjo de flores. A mesa posta é uma sinfonia: os sabores formam um acorde, combinam entre si. Quando a cozinheira prepara a refeição tem em mente essa harmonia de sabores, cores, perfumes. Mesmo nos dias de semana, a mais trivial e humilde refeição é harmônica e quem dela participa sente o carinho dispendido: é pobre, mas feita com amor, comenta-se.

A orquestra, porém, a sinfonia da mesa somente se revelará na sinfonia das pessoas que dela participam. A orquestra da mesa supõe as iguarias e a unidade dos comensais para que a alegria seja completa.

Jesus decidiu que seu memorial na história fosse uma mesa, uma Ceia, a Eucaristia. Ele presidiu a ceia, preparou os comensais lavando-lhes os pés, para que todos se sentissem amados. E, naquela hora decisiva da história humana, comeu com seus amigos e deu-lhes como alimento de vida fraterna seu Corpo e seu Sangue: a harmonia do Pão e do Vinho trouxe-nos a harmonia da comunidade cristã, onde todos são servidores e repartem o pão.

Somos companheiros. Companheiro não escolhe ocasião para ser fiel. É companheiro. A origem dessa bela palavra é o pão: companheiro, com-pão, cum-pane. Companheiro é o que come pão comigo, é aquele que me convida para comer o pão com ele. Quando alguém definiu Catedral como uma construção que guarda um altar, estava afirmando que o centro da catedral é a Mesa da Comunhão, do cum-pane, do com-pão, onde, a partir do memorial do gesto do Senhor, nos fortalecemos na fraternidade, na amizade, escrevendo a partitura da sinfonia universal. É o Cristianismo.

Pe. José Artulino Besen

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NATAL – ENCARNAÇÃO E GEOGRAFIA

Natal (Antonio Poteiro)

A Revelação bíblica é transmitida num território que, mesmo invadido por diversos povos e culturas, se renovava pela tradição religiosa e cultural. Para o povo de Israel, a fé, a terra e tradições formavam um conjunto indivisível. Quando exilados na Babilônia, os judeus cantavam, escondidos, os cantos de Sião. Alguns que puderam ouvi-los pediam-lhes que cantassem esses cantos. A resposta: “Como cantar os cânticos do Senhor em terra estrangeira? Se eu te esquecer, Jerusalém, fique paralisada a minha mão direita… (cf. Sl 136, 3-6). A Babilônia não era a terra dos cantares divinos.

A Palavra de Deus se fez carne – natureza humana – num lugar determinado, Nazaré, em uma jovem judia, Maria. O Filho de Deus assumiu a condição humana em tudo, menos o pecado: o chão, a história, a cultura. Toda a vida de Jesus se desenvolveu na normalidade cultural dos pequenos povoados da Palestina: viveu a língua aramaica, as peregrinações festivas, o pastoreio, o cultivo da terra, a pescaria. O lago de Genesaré/Tiberíades e as localidades circunvizinhas revelam como Jesus viveu, o sentido do que falou, os problemas enfrentados. Jesus não foi um ser estranho a seu meio.

Após a ressurreição do Senhor, a missão cristã difundiu-se por toda a terra, em cada território assumindo características próprias. O Cristianismo, especialmente com a missão universalizante de Paulo, assumiu o árduo trabalho da inculturação do Evangelho, trabalho que prossegue em nossos dias. Paulo não se dirige às Igrejas em geral, mas à Igreja que está em Colossos, Filipos, Galácia, Roma… Cada uma vive uma realidade específica e cuja manifestação mística é a Eucaristia..

A fé cristã inculturou-se no mundo romano, grego, sírio, armeno, árabe, indu, depois eslavo, anglo-saxão, germânico aonde iam os missionários. A teologia foi o fruto desse trabalho, com sua função de expressar a Palavra encarnada em Israel e agora vivenciada em outras terras.

A Liturgia, que é a expressão orante da fé, conheceu riquíssima variedade: cada povo tinha seu rito, orações eucarísticas e santos. A Europa antiga e medieval elaborou as Liturgias romana, galicana, galofranca, anglicana, ambrosiana, mosarábica, visigótica etc.. Com a idéia de Império (século VIII-IX), que incluiu a uniformização dos ritos cristãos, perdeu-se essa variedade em favor do rito e santoral romano, tornados praticamente únicos. Em Toledo pode-se ainda usar o rito visigótico, em Milão o ambrosiano, na Índia o siro-malabar e quase se fica nisso, predominando o rito romano.

Como contrapeso, nas Igrejas orientais foi conservada a diversidade brotada do solo e da cultura. Elas testemunham o antiqüíssimo esforço cristão de falar em chãos históricos. Ligando a fé ao chão, sobrevivem a séculos de dominação persa, árabe, turca.

Eucaristia e território

A Encarnação de Jesus supõe, sempre, a encarnação num território: ela se faz visível no povo, na comunidade, na Igreja diocesana. Esta, a diocese, era representada pela comunidade com bispo, presbíteros e diáconos. Com a penetração da fé católica no mundo rural e com o aumento territorial das dioceses, criou-se uma outra unidade pastoral, a paróquia. Essa instituição foi a tal ponto funcional que, hoje, o católico se define pela paróquia onde vive.

Paróquia, de etimologia grega, significa casa no estrangeiro, viver entre estrangeiros e por isso mesmo, grupo de pessoas com interesses comuns, e evoca intimidade de um ninho, lar, proteção. Somos estrangeiros buscando a morada definitiva. Enquanto isso, nossa casa é plantada no mundo, num território determinado onde a Palavra se faz carne e habita entre nós. Constituindo unidade menor, a paróquia com suas comunidades representam um chão de cultura, vizinhança, costumes e solidariedades.

A encarnação supõe a geografia, pois Cristo assumiu uma geografia. A Eucaristia, centro da paróquia, santifica o chão onde é celebrada e o oferece ao Pai que o devolve transfigurado. Na Apresentação das Oferendas, o Presidente bendiz a Deus pelo “fruto da terra”: a expressão provém da Mishná judaica e significa “desta nossa terra”, e do “trabalho do homem” (inclui-se o produzir frutos do Evangelho nessa terra).

Peregrinar de paróquia em paróquia pode significar optar por ser estrangeiro desencarnado, sem a intimidade de um ninho, um lar. Em nossos tempos, grupos e pessoas tendem a se desenraizar da paróquia, separando o chão onde vivem do lugar onde celebram. É mais fácil, pois livra da casa comum, a paróquia. Desaparece o compromisso com o chão sagrado, trocado por reuniões e encontros onde se cultiva a espiritualidade pessoal, mas sem encarnação, freqüentemente transformada em clubismo religioso.

É Natal. É tempo de Cristo encarnar-se em nós e em nossa história, é tempo de nos encarnarmos em nosso chão para nele edificarmos a casa cristã.

Pe. José Artulino Besen

 

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O HOMEM É AQUILO QUE COME

Eucaristia (Daniel Lifschitz)

Eucaristia (Daniel Lifschitz)

O filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804 – 1872) inicialmente foi reconhecido pela elaboração de uma teologia humanista e depois passou à filosofia materialista. Em sua obra “Pensamentos sobre Morte e Imortalidade”, negou toda possibilidade de imortalidade e resume o homem no conhecido ditado: “O homem é aquilo que come”. Após a morte, as qualidades humanas são absorvidas pela natureza, afirma.

Essa definição de Feuerbach em sentido materialista é assumida como estritamente bíblica e cristã pelo teólogo ortodoxo Alexandre Schmemann (1921-1983), cujo estudo centrou-se na Liturgia: “Quem se alimenta com a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,54). Se a tentação de comer o fruto da árvore da Vida trouxe a morte, o comer da Carne e Sangue do Filho de Deus traz a vida.

O mundo é um banquete, e a imagem do banquete aparece em toda a Bíblia. O último encontro de Jesus com os seus foi numa Ceia, os Evangelhos situam grandes encontros de Jesus em banquetes (Zaqueu, Levi, Simão, Marta e Maria,…), a ponto de fariseus o acusarem de glutão e beberrão. Banquete é alegria, festa.O Senhor se apresenta como o noivo que chegou para o casamento com seu povo e o grande encontro final será à Mesa do Reino.

Deus não criou o ser humano somente para dar-lhe glória, o que diminuiria sua bondade, mas também para ser feliz aqui na terra: Deus quer tudo repartir conosco e nos entrega tudo. Nicu Steinhardt (1912-1989), judeu romeno convertido, lembra que o banquete é o único lugar em que o homem se alegra com a alegria alheia (Diário da Felicidade, p. 207). Quanto mais os convivas estão contentes, mais o homem é feliz. Isso pressupõe a capacidade de se alegrar com a alegria de outros, de reparti-la. Nos Anjos acolhidos por Abraão com um banquete está simbolizada a vontade de Deus de banquetear conosco (cf. Gn 18,1-15). O povo bíblico, povo do deserto, tinha em conta especialíssima a hospitalidade e o banquete.

O homem é o que come e o que come revela o homem. Se come na fraternidade, gera a festa; se come na exclusão dos pobres, gera condenação, caso do Rico banqueteiro e o pobre Lázaro.

Mas, o homem é o que come também espiritualmente. A Escritura judaica e cristã é rica no chamar o Livro e a Palavra de comida. Jeremias: “Quando encontrei tuas palavras, alimentei-me; elas se tornaram para mim uma delícia e a alegria do coração” (15,16). Ezequiel: “’Abre a boca e come o que te dou’. Eu olhei e vi uma mão estendida para mim, e nela um livro enrolado. … Ele me disse: ‘Filho do homem, come o que tens diante de ti! Come este rolo e vai falar à casa de Israel’” (2, 8; 3, 1). O Apocalipse:  “Eu fui até o anjo e pedi que me entregasse o livrinho. Ele me falou: ‘Pega e devora. Será amargo no estômago, mas na tua boca será doce como o mel’” (10,9). João Crisóstomo afirma que na Palavra comemos a Carne e o Sangue do Senhor!

No amor entre as pessoas, o ato de comer é extremamente rico de simbolismo. A mãe, encantada com seu filhinho, diz com ternura: “É tão fofinho que dá vontade de comer”. Quantas crianças mordiscam seus brinquedos prediletos! Mesmo que hoje confundida na vulgaridade, a relação sexual, sinal máximo da unidade entre o homem e a mulher, pode ser expressa pelo verbo comer: no momento do êxtase um se torna alimento do outro, literalmente se comem e se tornam uma só carne. É nesse ato de “comer” que homem e mulher demonstram ser alimento um do outro ou apenas exploração carnal. Todo verdadeiro relacionamento humano, de amizade, de namoro, se reveste do desejo de ser comida e de recebê-la. É de nossa natureza, porque é da natureza divina.

A Eucaristia – comer a Vida

O sacramento da Eucaristia é o sacramento do irmão, afirmou João Crisóstomo, indicando que o alimento eucarístico nos faz portadores de alimento físico e espiritual para os irmãos. A Ceia eucarística dos primeiros cristãos era precedida pela ceia fraterna que distribuía alimento, sem acepção de pessoas.

O rito eucarístico nos oferece duas Mesas fartas: a da Palavra (comer a Palavra) e da Eucaristia (comer o Senhor no Pão e no Vinho). Para escândalo dos ouvintes, Jesus afirmou: “Quem come minha Carne e bebe meu Sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6, 56). Carne e Sangue significam Pessoa: Jesus quer ser comido por nós para nos transfigurar: seremos o que comemos. Se comemos Cristo, nos tornaremos divinos; se o rejeitarmos, permaneceremos humanidade fragmentada. A cada Comunhão nos tornamos mais divinos e Deus se torna mais humano. O Cântico dos Cânticos, grande Hino ao amor matrimonial, revela-nos Deus como o noivo à procura da noiva, para consumar o matrimônio.

A Comunhão eucarística torna possível sermos divinos porque nos alimentamos do divino e nos prepara, pouco a pouco, dia por dia, para degustarmos as alegrias do banquete celeste na eternidade. Feuerbach se equivoca ao concluir que na morte as qualidades humanas são absorvidas pela natureza. Na verdade, na morte, o que é verdadeiramente humano é assumido pelo divino, pelo eterno.

Aqui na penumbra e lá, na Luz, viveremos na realidade expressa por uma antífona proclamada antes da Comunhão: “Felizes os convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro” (Apc 19, 9).

Pe. José Artulino Besen

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SANTIFICAR O DOMINGO

Nos dois primeiros séculos do Cristianismo, não havia feriado de Domingo, mas, para os cristãos, era um dia santificado. Era o Dia do Senhor ressuscitado.

A comunidade se reunia ou no sábado à noite ou no domingo bem cedo, antes do trabalho, para escutar a Palavra de Deus e celebrar a Eucaristia.

Por que o Domingo é o nosso Dia do Senhor?

Para os judeus, continua valendo o mandamento de guardar o sétimo dia da Criação, o Sábado: neste dia nada fazem, pois repousam como o Criador repousou após terminar sua obra. Guardar o Sábado é o mandamento da primeira Criação, do Antigo Testamento.

Acontece que o pecado rompeu a amizade com Deus e a criação passou a ser vítima da morte, da destruição, do ódio. Deus não abandonou sua obra: desde toda a eternidade decidira mandar-lhe um Salvador, que veio na pessoa de seu Filho Jesus.

Morrendo na cruz, sendo sepultado e ressuscitando, Jesus iniciou uma nova Criação, redimida pelo seu sangue, e constituiu um novo Povo. Com sua morte, Jesus matou a morte e oferece a Vida plena a quem o aceitar em sua vida como Caminho, Verdade e Vida.

A ressurreição aconteceu no primeiro dia da semana, a primeira-feira. Isso foi para as comunidades cristãs o sinal de que na Nova Criação se santifica e guarda o Primeiro Dia, o Domingo. A comunidade reunida ouve a Palavra de Deus e celebra a presença, em seu meio, do Senhor ressuscitado.

Continua o preceito do repouso: o homem, a mulher, os animais, a terra, necessitam de descanso. O ócio, o lazer, são ocasião também para revisão de vida, de relacionamentos, de silêncio interior, de conversão.

Santificar o Domingo

Sempre mais se vai percebendo que o Domingo deixa de ser o dia do Povo de Deus e se transforma no dia da festa, da farra, do jogo, da alegria inconseqüente. Por uma dessas tristes coincidências, é na noite de sábado para domingo que mais acontecem brigas, acidentes, mortes, desrespeito à família e à pessoa humana.

Para muitos cristãos, o domingo nem existe mais: vive-se “a noite” e se dorme o dia inteiro. Perde-se a grande graça do encontro com a família, com os amigos, com a comunidade de fé. Aquilo que se refere ao Dia do Senhor parece ser motivo de cansaço, perda de tempo. Estamos traindo os primeiros cristãos, que fizeram do Domingo o seu dia de ação de graças, de encontro eclesial.

É Cristo que santifica o Domingo: por isso nos reunimos em seu nome para sermos santificados pela graça e iniciar uma nova semana abastecidos de santidade, de reconciliação, de espírito familiar, de amor fraterno.

Os grupos e movimentos cristãos carregam uma grande responsabilidade: santificar o Domingo, para que o mundo possa sentir a existência de comunidades cristãs verdadeiras e perceber o amor que une os que vivem a fé no Senhor.

Se em todo momento podemos afirmar que “Ele está no meio de nós”, no domingo podemos dizer à comunidade: “Vinde e vede, o Senhor está no meio de nós!”. Por isso somos mais felizes.

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QUEM COMER DESTE PÃO VIVERÁ ETERNAMENTE

Todos são convidados à Ceia – Juan Cordero

«Tomai todos e comei:
isto é o meu corpo que é dado por vós»
(1Cor 11,23-29).

Para entendermos o mistério da Eucaristia, precisamos nos situar no momento de sua instituição, pois assim podemos captar ao menos uma migalha do que ela encerra de amor, emoção, doação. Foi na última Ceia, na Quinta-feira santa. Pela última vez, Jesus estava reunido com seus apóstolos. Sabia que o fim estava próximo. Judas já o tinha traído. Mesmo assim estava convidado para a mesa. A prisão era só questão de tempo.

Quis cear com seus amigos. Não há ambiente mais familiar e amigo do que reunir-se em torno de uma mesa para cear. Quando pensamos em família, a imagem que mais nos vem à mente é a de pais e filhos ao redor de uma mesa, conversando, discutindo, brincando, recordando, passando os problemas a limpo, celebrando vitórias. Junto com a refeição, sobre a mesa se encontra o coração de cada conviva.

Ao redor de uma mesa Jesus reuniu seus amigos. Para conversar, comer, dizer suas últimas palavras, praticar os últimos gestos. Ele, o Mestre, tomou bacia e água e foi lavar os pés de cada um, coisa que só escravo ou empregado faria. Jesus quis mostrar que, na sua família, a grandeza de alguém não se mede pela riqueza, pelos títulos ou posições, mas pela capacidade de fazer-se pequeno, servo (cf. Jo 13,1-11).

Depois, todos se serviram do cordeiro, do pão, das ervas amargas, do vinho. Ceia que comemorava a libertação dos judeus do Egito (cf Ex 12,1-28) e a despedida dele, o Senhor.

Jesus tinha claro que seus discípulos não poderiam ficar sós. A caminhada da fé e da vida exigiria um alimento especial. Quem poderia alimentá-los e dar-lhes a garantia de sua presença constante? Ele, somente ele! Então tomou o pão, partiu-o e disse: Tomai todos e comei: isto é o meu corpo que é dado por vós. Em seguida tomou o cálice com vinho: Tomai todos e bebei: este é o cálice da nova aliança em meu sangue (1Cor 11,23-29). E concluiu: Fazei isto em memória de mim.

Foi a primeira Missa do mundo: cada vez que se reparte o pão e se oferece o vinho consagrados, se está fazendo memória da mesma Ceia daquela quinta-feira, o mesmo Senhor Jesus se reúne com seus discípulos, ensina-lhes o mandamento do amor e dá-lhes seu corpo e sangue por alimento e bebida.

Jesus instituiu a Eucaristia para que não fiquemos sós, desprotegidos, desanimados. Somente com ele recebemos a seiva da vida plena, podemos brotar e dar frutos (cf. Jo 15,1-5). Jesus quer continuar conosco e pede que queiramos sua presença amiga, salvadora. Seu Corpo dado a nós em alimento é remissão dos pecados, é recriação da fraternidade e dar existência e consistência à Igreja.

Há muito cristão fraco, anêmico, egoísta, por falta deste alimento. Jesus nada criou de supérfluo: não aproximar-se da Eucaristia é cair na solidão da fé, é perder o gosto pela mesa ao redor da qual se reúne a família dele. A Eucaristia faz com que nos sintamos membros de uma comunidade e nos alimenta para o serviço fraterno. Recebê-la é aceitar a oferta que Jesus nos faz de si mesmo, é crescermos e caminharmos tendo ele como alimento. Somente ele é o pão que sacia nossa fome de vida, de infinito.

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O CRISTO TRANSFIGURADO É O BOM JESUS

bom-jesus

Diz a sabedoria africana que “a mais longa e difícil viagem é a do cérebro rumo ao coração”, o que nos faz sofrer muito, pois estamos sempre racionalizando os acontecimentos, incapazes que somos de analisá-los com os olhos do coração. Nossa existência tem como fundamento o coração, o que contradiz a afirmação do filósofo Descartes, “penso, logo existo”. Se acharmos realmente que o pensamento é a base da vida, não conseguimos vivenciar o mistério central da fé cristã: “E a Palavra/Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1, 14). A palavra é a exclamação da carne dolorida ou feliz, vitoriosa ou derrotada, carinhosa ou enraivecida, por ela nosso coração se revela em plenitude. Deus feito carne em Jesus nos comunica tudo, e o Senhor se torna o narrador do Pai: toda a vida de Jesus é descrição da vida divina, é palavra viva.

No cristianismo, ao invés do que acontece com outras religiões e com a própria filosofia, não há lugar para a dualidade/divisão corpo-espírito. Isso é fruto do pecado que, dividindo o homem, transformou o corpo em objeto, em posse, a ponto de se afirmar “eu tenho um corpo, e dele faço o que bem entendo”. Então se reduz a vida ao pensar e ao libertar-se dos condicionamentos do corpo/carne. Com sua encarnação, Cristo quer restituir aos pecadores o próprio corpo: eu sou um corpo, não tenho um corpo! A distinção corpo-espírito é apenas transitória ou então um recurso para facilitar nosso raciocínio.

Na Comunhão eucarística nós recebemos o Corpo de Cristo, eficaz medicina. A cura do corpo é a cura da pessoa, recuperando sua unidade fundamental rompida pelo pecado e que nos faz querer o que não fazemos e fazer o que não queremos.

A festa litúrgica da Transfiguração do Senhor (6 de agosto) revela-nos o Senhor glorioso que se manifesta a Pedro, Tiago e João (Mc 9, 2-10). Mais resplandecente do que o sol, é o mesmo Senhor que em seguida revela sua identidade e realeza na Cruz: “Pai, chegou a hora. Glorifica teu filho, para que teu filho te glorifique” (Jo 17, 1). A identidade de Jesus é manifestada na carne doada para a nossa vida, na carne transfigurada pela doação total no amor, para que nossa carne também se transfigure no amor.

A alma popular vive a Transfiguração celebrando os passos do Bom Jesus na sua Paixão: festeja o Bom Jesus. Os pobres que vivem as Bem-aventuranças são mais capazes de ver o Bom Jesus na Transfiguração e o Transfigurado no Bom Jesus. Não separam a carne sofredora da carne gloriosa do Senhor transfigurado. É um só e mesmo Senhor, tão amado na piedade eslava como o Senhor da Humildade.

Os que vivem a pobreza evangélica “certamente conhecem a generosidade de nosso Senhor Jesus Cristo: de rico que era, tornou-se pobre por causa de nós, para que nos tornemos ricos, por sua pobreza” (cf. 2Cor 8,9; Fil  2, 5-11). Cristo veio oferecer-nos sua vida como dom, desse modo nos enriquecendo com sua pobreza. Todo dom significa empobrecimento para que o outro seja mais rico e, desse modo, nossa pobreza se torna riqueza no outro: o rico enriquece o pobre, e o pobre enriquece o rico. Desse modo, a pobreza é plenitude, não vazio. Assim, emprestando os olhos de Pedro, Tiago e João, contemplam o Cristo humilde e nele vêem o Cristo glorioso.

O Senhor que nos céus está à direita do Pai é o Senhor pobre, chagado e, por isso mesmo, glorificado pelo amor que nos doa, e o Pai se empobrece nos doando o Filho.

Não há outro caminho para nós, cristãos: ou nos enriquecemos tudo doando, ou permanecemos pobres conservando tudo. Isso se torna realidade a partir do momento em que nosso cérebro empreende a grande e dolorosa viagem rumo ao coração, em que o cálculo mesquinho da segurança pessoal dá lugar à abundância da generosidade. E sentiremos profundamente o amor divino que “ama a quem dá com alegria” (2Cor 9,7).

Ao afirmarmos que a Igreja é o Corpo de Cristo, afirmamos que ela não está em Roma, Jerusalém, Genebra, Constantinopla: a Igreja está não onde há sucesso, riqueza, prestígio, influência, mas onde é visível a pobreza de Cristo. É ali que Cristo faz a pergunta fundamental: “O que fizeste do teu irmão?”. Cristo é o mendicante que bate à porta: “Eis que estou à porta e bato (Apoc 3,20). Se o acolhemos, com ele ceamos e formamos a Igreja, seu corpo.

Entramos no espírito das Bem-aventuranças: quanto mais pobres forem os sinais cristãos, mais serão eficazes, pois Jesus valorizava os pequenos sinais: os pobres, os marginais, as crianças, a mulher pecadora… O Senhor transfigurado é sempre o Bom Jesus, o Senhor da Humildade.

Pe. José Artulino Besen

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A Dimensão Sacramental da Coleta Eucarística

Partilhar o Pão com quem partilhou a Vida - mosaico do Centro Aletti.

Partilhar o Pão com quem partilhou a Vida – mosaico do Centro Aletti.

A Ceia cristã teve seu início inserida na Ceia judaica. Foi durante a Ceia pascal, sua última Ceia, ardentemente por ele esperada, que Jesus tomou o pão e o cálice, por eles deu graças, transfigurou-os em seu Corpo e Sangue e ofereceu-os em alimento.

A comunidade primitiva levou muito a sério a dimensão fraternal da Ceia, celebrada em casas de família, pois não havia, ainda, igrejas construídas. O chefe da casa convidava os irmãos na fé, oferecia-lhes um jantar e, no final, se dava graças pelo pão e o vinho. A liturgia eucarística era antecedida pelo ágape, banquete de amor, ceia fraterna e pela meditação da Palavra de Deus.

Houve abusos, como Paulo denuncia em sua Carta aos Coríntios (cf. 1Cor 11, 17-34): alguns convidados chegavam antes, comiam e bebiam tudo e, quando os pobres chegavam, não lhes restava alimento: “enquanto um passa fome, o outro se embriaga” (cf. 1Cor 11, 18-22). É esse o contexto do “comungar indignamente”: encher a própria barriga às custas da barriga vazia do irmão pobre. Infelizmente o moralismo cristão preferiu interpretar o “indignamente” (= desprezando seu irmão pobre) como estar com a “alma suja”, ter pecado contra a castidade, na maioria das vezes. É muito fácil ser casto: desafiante é ser justo. E assim se anuncia a dignidade para comungar identificada com o não ter atos pecaminosos, esquecendo-se do aspecto bíblico do ágape, do banquete fraterno. Essa admoestação de Paulo é o prólogo de sua narração da Ceia do Senhor (1Cor 11, 23-25).

Quando o número de cristãos tornou inviável o banquete, a ceia antes da liturgia eucarística, introduziu-se a procissão das oferendas: ninguém se aproximava da Mesa eucarística sem ter trazido dons, alimentos, para a mesa do irmão. Junto com o pão e o vinho apresentava-se a Deus azeite, trigo e outros gêneros alimentícios, que em seguida eram levados à casa dos irmãos pobres. Louvava-se a Deus pelos frutos da terra e a ação de graças era reparti-los. (Atualmente esse gesto foi transformado num tedioso enfeite de cachos de uva com espigas de trigo em Missas mais solenes)

A multiplicação do número de cristãos infelizmente tornou difícil também esse gesto. E introduziu-se a coleta, a doação financeira. O produto oferecido era transformado em alimento para a caridade cristã. Não se imaginava alguém não ofertar no recolhimento das ofertas, parte indissolúvel da Ceia fraterna.

Numa perspectiva bíblica não se pode separar a eucaristia do ágape fraterno, da ceia fraterna, do ato de oferta. Está em jogo o fundamento material, substancial do ato sacramental. Certo maniqueísmo prefere separar as realidades “sagradas” das realidades “materiais”. É a negação da sacramentalidade de toda a criação, pois todo Sacramento supõe a matéria que, pela ação do Espírito Santo, é consagrada: a água batismal, o óleo consagrado, o pão e o vinho, os noivos, a imposição das mãos.

Desse modo, a sacramentalidade da coleta eucarística transformou-se em mero símbolo, opcional e até descartável. O símbolo se resume em dar eventualmente a menor moeda, a menos valiosa cédula, ou não dar nada. Às vezes se chega a dizer que colocar a mão na cesta, sem nada oferecer, já é simbólico. Um meio de não ficar envergonhado por nada oferecer.

Outros dizem que sua oferta é o dízimo, por isso não deveria haver coleta, uma profanação, um negócio durante a Missa. Não misturemos as coisas: os cristãos davam o dízimo e participavam do ágape. São dois momentos, sendo a coleta até mais significativa e necessária. Em toda celebração eucarística deve haver coleta, em toda celebração eucarística devemos oferecer o óbolo, não simbólico de nossa ganância ou desleixo, mas símbolo de nossa generosidade e compromisso fraterno.

A Liturgia da Igreja anglicana recuperou e preserva a integridade desse gesto: durante a apresentação das oferendas o presidente da Celebração aguarda até que todos tenham dado a oferta. Colocada numa bandeja digna, é feito o tríplice Bendito sejais, Deus do Universo: ergue o pão, ergue o vinho, ergue a bandeja com as ofertas. Tudo é oferecido, tudo é consagrado.

Entende-se que há certa timidez em falar isso nas igrejas católicas. O dinheiro, sempre bem-vindo, é melhor chegar escondido e não estimulado, pois se ignora seu aspecto sacramental. É sacramento da comunhão, é gesto concreto da fraternidade. Podemos, com a coleta, tornar real a doutrina de São João Crisóstomo: “o sacramento do altar é o sacramento do irmão”. A oferta nos dá dignidade para comungar o Corpo e Sangue do Senhor.

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«Tomai e Comei, Tomai e Bebei»

Acontece com a Eucaristia o mesmo que a alguns estudiosos: para marcar o nome e a espécie de uma planta, amarram-lhe com arame uma plaquinha indicativa. Às vezes apertam tanto que a pobre planta morre sufocada.

Assim, de tanto definirmos que na Eucaristia recebemos real e verdadeiramente o Corpo e o Sangue do Senhor, a sufocamos nessa redução às vezes apologética, pois a Celebração vai muito além, sintetizando todo o mistério de Cristo, da Igreja e do mundo.

Após sua ascensão ao céu, a Igreja é o Corpo de Cristo-Cabeça, de maneira inseparável e eterna. Enviando o Espírito Santo, o Senhor transfigura toda a criação e no pão e vinho ofertados se inclui a consagração toda a criação.

Predito pelo profeta Malaquias (cf. Mal 1,11 e Oração Eucarística III), o Sacramento da Nova Aliança é celebrado continuamente em todo o mundo: não há instante em que não se faz ação de graças/eucaristia, não há momento em que o Corpo místico de Cristo e o mundo não são oferecidos e consagrados.

No Sacrifício espiritual da Eucaristia faz-se a memória real (não a recordação simbólica) da Paixão/morte/ressurreição/ascensão do Senhor. Nela ouve-se o grito de Cristo na cruz «Meu Deus, meu Deus» e nesse grito está incluído o grito da Igreja, o grito de cada membro do Corpo, um grito que chega ao Pai até o final da história. Todos os gemidos da humanidade e da criação prostituída se unem aos gemidos de Jesus e ressoam no céu (cf. Agostinho, Exp. in Psal. 85,5). A liturgia anglicana, recuperando a Liturgia da Igreja antiga, reza: «Nós te oferecemos e te apresentamos, Senhor, nossas almas e nossos corpos como sacrifício espiritual, santo e vivente aos teus olhos.» O sacrifício de Cristo e o sacrifício espiritual da Igreja tornam-se uma só realidade, pois Cristo engloba os membros de seu corpo no seu sacrifício. Tudo o que é ofertado é consagrado e transfigurado no Espírito. Por isso, em cada Missa a Igreja morre e ressuscita para poder subir aos céus com o Senhor.

O momento da Consagração, tão sagrado e íntimo para cada um de nós que vive o Mistério, é de um compromisso e entrega radicais: após rezar ao Pai, pedindo o Espírito Santo para a transfiguração/transubstanciação do pão e vinho, todo o Corpo se une nas palavras do Senhor.

Ao se entregar «tomai e comei, isto é meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei…», o Senhor se doa como nosso alimento e bebida. O bispo que preside a Eucaristia se entrega a seu rebanho como bom pastor e se oferta pessoalmente: «tomai e comei, isto pé meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei…». O presbítero que preside a Eucaristia se oferece a seu povo sem restrições: «tomai e comei, isto é meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei….» Cada cristão que participa da Eucaristia também se entrega a seus irmãos como alimento: «tomai e comei, isto é meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei…

Todos unem-se profundamente nessa oferta total «tomai e comei, isto pé meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei…», tendo consciência de que se tornam uma coisa só com o Senhor, para sempre. Na hora da Comunhão dá-se a conseqüência final: todos os que se ofereceram «…será entregue…» tornam-se alimento no Senhor pois, ao ouvir «O Corpo de Cristo» sabem que estão recebendo o Senhor-Cabeça e seu Corpo/Igreja. Recebemos e trituramos (comei, em grego traghein=triturar) os que se nos ofertaram, sabendo que somos recebidos e triturados pelos que receberam nossa oferta. Tudo se torna uma única realidade, o Espírito faz resplandecer em cada um de nós a beleza dos que se alimentam desse alimento fruto de doação incondicional.

O Espírito Santo jorra no mundo a partir do cálice eucarístico: cada assembléia é um contínuo Pentecostes, todos são recriados e o mundo renovado, pois todos se recebem e se dão «em Cristo.»

Cada rosto celebrante é o rosto do Senhor e o rosto do irmão, em cada rosto humano contemplamos todos os rostos, dos que cantam, dos que gemem, dos que blasfemam e nosso rosto é a totalidade desses rostos. O reino dos rostos é o reino do Espírito: Cristo, tomando nossa carne fragilizada, devolve-a unida à sua carne transfigurada. A procissão eucarística é a procissão da multiplicidade dos rostos: chegam humanos, partem divinos. Só nos resta proclamar, adorando: «Tudo isso é mistério da fé!»

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