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NOSSO DEUS – PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO

Deus Uno e Trino – Ícone da Armênia

Para alguns pregadores, a Festa da Santíssima Trindade é um drama homilético: “Hoje celebramos a Santíssima Trindade. É um assunto muito complicado, mas comecemos com a historinha de Santo Agostinho”. Pronto: Deus deixou de ser amor e foi transformado em teorema. Trilhemoso caminho de Jesus.

“Desde o nascimento da Igreja, é ele (o Espírito Santo) quem dá a todos os povos o conhecimento do verdadeiro Deus” (Prefácio de Pentecostes). Nosso Deus não é o Deus do Antigo Testamento, não é o Alá dos muçulmanos, não é Brahman, não é Buda. Nosso Deus é o Pai, Filho e Espírito Santo. Três pessoas pelo amor unidas num único Deus. E, após a Encarnação, nosso Deus é Pai, Filho divino e humano e Espírito Santo. Em Cristo, a humanidade participa da vida trinitária.

Por que podemos falar assim, quase com soberba, com tanta segurança? Porque Deus nos revelou através de seu Filho que esteve entre nós. Mistério tão fascinante que se procura “humanizar”, tornar palatável à inteligência através também de uma teologia avessa à contemplação. Vale a frase de Chesterton: os tempos modernos estão infestados de “virtudes cristãs tornadas loucas”. Nosso Deus é conhecido por comunhão de amor, por contemplação maravilhada e não por discussões ou pela inteligência. Assim como Deus, também nós somos conhecidos somente se nos revelamos.

Contemplemos nosso Deus, concretamente, agindo em nossas vidas pelo amor sem medida, fiel, misericordioso, excessivo. É escândalo para judeus, muçulmanos, religiosos de todas as nações, intelectuais, ouvir que nosso Deus morreu na cruz por amor, que ele é frágil, sofre da mais bela das doenças: a doença do amor.

Nosso Deus é a Tri-Unidade, Deus uno e três vezes santo, comunhão de amor entre o Pai, Filho e Espírito Santo, comunhão não fechada em si, mas, que se abre a nós, chamados a acolher e a responder a tal amor. Como sempre, no Cristianismo, a meditação sobre Deus parte do homem Jesus Cristo, “o Filho unigênito que narrou Deus” (cf. Jo 1,18). Jesus não traz uma “mensagem”, mas sim sua própria pessoa divina e humana.

O Deus Trindade não é intimista, solidão: é voltado para fora, comunica-se ao homem, seu amor é para o mundo, é “Deus por nós”. O dogma trinitário é o esforço obstinado de aprofundar a afirmação do apóstolo João de que “Deus é amor” (1Jo 4,8 – Rémi Brague). “Deus é amor” é o nome de nosso Deus. O nome “Deus é amor” revela nosso Deus compassivo e misericordioso, capaz de graça e de perdão. Desce para alcançar o homem na escravidão e no pecado (Êxodo).

Deus ama a tal ponto o mundo, a humanidade, que lhe dá seu Filho para a salvação do mundo. Um filho único é toda a vida de um pai, é o que ele mais ama: o Deus que doa o Filho único, Jesus, é o Deus movido por um amor louco. Há um excesso no amar divino e esse excesso é o Filho Jesus Cristo. Jesus, o Filho, consumiu sua vida inteira até à morte na liberdade e por amor de nós e, com o seu passar entre nós fazendo o bem na potência do Espírito Santo (cf. At 10,38), narrou-nos que “Deus é amor” (1Jo 4, 8.16). “Deus tanto amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito, para que quem nele crer não morra, mas tenha a vida eterna”. Com seu estilo de vida e com sua auto-doação, Jesus revelou o amor louco de Deus pelos homens. Renascido do alto, Paulo procura fazer da comunidade de Corinto uma morada do “Deus do amor e da paz” (2Cor 13,11). O homem é chamado à semelhança divina.

“Deste modo se manifestou o amor de Deus por nós: Deus enviou seu Filho ao mundo para que nós vivêssemos por meio dele. Assim é o amor de Deus: não fomos nós que amamos Deus, mas é ele que nos amou e enviou seu Filho como vítima de expiação por nossos pecados. Desse modo conhecemos que permanecemos em Deus e Deus em nós: pelo Espírito que ele nos deu como prêmio. E nós contemplamos e testemunhamos que o Pai enviou o Filho como Salvador do mundo (cf. 1Jo 4, 9-14). E, pela potência de Deus, o Espírito Santo, podemos renascer de verdade, do alto.

Assim nos ama Deus

A ação do Deus Uno-Trindade é perdão, amor, comunhão e somente pode ser experimentado através da .

O modo com que Deus nos ama é antes de tudo fidelidade. Mas, é uma fidelidade ao homem infiel, incapaz de querer corresponder a esse amor: a fidelidade e o amor de Deus tornam-se sua responsabilidade pelos homens pecadores. Deus se preocupa conosco, sente-se responsável por cada um de nós. E é assim que seu amor, unilateral e incondicionado, não condena, mas salva.

E como Deus provou seu amor? Na cruz, assumindo a forma do escândalo, do excesso que quebra todos os parâmetros humanos de reciprocidade, correspondência e retribuição do amor. O dom superabundante demonstrado na cruz é o perdão de Deus, o amor que Deus já predispõe para aquele que peca ou pecará. Nossos pecados já foram contemplados pelo Filho na cruz: o perdão já foi ofertado.

O Deus que ama é também o Deus que sofre se não aceitarmos seu amor, se rejeitarmos a graça que vem do Filho e da comunhão no Espírito. Sofre se encetamos uma viagem que o torna sempre mais distante do horizonte de nossa vida. O Deus Trindade é o Deus que não vive sem o homem. E o homem, pela fé situando-se em Cristo e deixando-se guiar pelo Espírito, passa a morar no ágape, no amor, e desse modo, conhece a comunhão com Deus, com o Deus que é amor. O ágape, amor em plenitude, gratuito, é o coração da vida trinitária.

Nossa resposta ao nosso Deus: acolhendo tal amor somos capazes de exercitá-lo, amando-nos uns aos outros. O Filho nos redime, o Espírito cria a unidade, o Pai acolhe sem condições e passamos a profetizar. Deste modo o amor de Deus pode difundir-se e manifestar-se na história. E com o universo cantaremos o hino: “Onde o amor é verdadeiro, aí Deus está!”.

Pe. José Artulino Besen

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O ESPÍRITO SANTO – PENTECOSTES SEM FIM

pentecostes2A Igreja Católica, e as Igrejas originadas das Reformas do século XVI, viveram a missão e a vida eclesial mais centradas na pessoa de Cristo, salientando os aspectos visíveis e a organização. Já a Ortodoxia, tendo encerrado o grande ciclo das proclamações do Deus criador (séculos II e III), da Trindade (século IV) e, sobretudo, dos séculos V ao VIII, as proclamações cristológicas e modalidades da encarnação (VII Concílio Ecumênico – a.787), iniciou um grande ciclo pneumatológico, a contemplação do Espírito Santo que nos transfigura e nos diviniza pelas energias divinas.

Após o Concílio do Vaticano II (1962-1965), sob o influxo do Oriente cristão e da Renovação Carismática Católica, pode-se dizer que foi “redescoberto” o Espírito Santo, sua pessoa, seus carismas, dons e frutos, sua ação na vida espiritual. Não mais como teologia dos dons, da teologia clássica, mas como experiência dos carismas, inspirada na teologia paulina e nos Atos. São valorizadas as expressões de sua presença e de sua ação no cristão e na comunidade cristã. Isso não só em nível de Movimento Carismático, mas também na realidade dos pobres, da transformação da Igreja e do mundo. Importante lembrar o forte reavivamento cristão realizado pelo pentecostalismo evangélico e católico nas periferias da América latina e, de modo especial, no Brasil.

Nas décadas de 60 e 70, com as grandes crises religiosas trazidas no bojo da secularização, emerge o Espírito em vários cenários da história. Esta redescoberta do Espírito adquiriu penetrante caráter ecumênico, nele coincidindo ortodoxos,  católicos, protestantes e reformados. Um acontecimento marcante foi a IV Assembléia do Conselho Ecumênico das Igrejas no ano de 1968, em Upsala, Suécia, cujo tema foi exatamente: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apc 21,5). Ignatius IV Hazim, então Metropolita de Laodicéia na Síria e depois Patriarca ortodoxo de Antioquia, falecido em 2012, proferiu inspirada Alocução sobre o tema da Assembléia. Por um equívoco que se transmite de autor em autor, atribui-se o texto ao Patriarca de Constantinopla, Atenágoras I. (Creio que o equívoco se deve ao Missal Dominical publicado pela Paulus, que transcreve parte do texto no comentário ao Pentecostes).

Ignatius Hazim iniciou partindo do mistério pascal, acontecido de uma vez para sempre, mas que se torna presente hoje mediante o Espírito Santo. Ele é a presença de Deus conosco, “unido ao nosso Espírito” (Rm 8,16).

Em seguida, suas palavras buscam mostrar-nos o que é a vida e a Igreja sem e com o Espírito Santo, em palavras realmente inspiradas e que continuam servindo de alimento para a ação da Igreja, Carne de Cristo e não esqueleto de pastoral burocrática.

Sem o Espírito – com o Espírito

Seguindo o tema da Alocução de I. Hazim,, podemos comparar a vida da Igreja sem e com o Espírito Santo e, ao mesmo tempo, confrontar e analisar nossa vida e trabalho cristãos:

– Sem o Espírito Santo, Cristo é um exemplar mestre religioso do passado: com o Espírito Santo, é o Senhor Ressuscitado presente na vida da Igreja e do mundo. – Sem o Espírito Santo, o Evangelho é letra morta, edificante, inspiradora de comportamento: com o Espírito Santo, o Evangelho é Palavra de Deus, potência de vida. – Sem o Espírito Santo, a Igreja é uma simples organização, diríamos ONG, prestadora de serviços, entidade filantrópica: com o Espírito Santo, a Igreja é comunhão trinitária, corpo místico de Cristo, povo de Deus. – Sem o Espírito Santo, a autoridade é dominação, busca de poder, concorrência com os grandes da terra: com o Espírito Santo, a autoridade é serviço humilde, diaconia, a exemplo do Senhor que veio para servir, continuando o rito o Lava-pés.

– Sem o Espírito Santo, a missão cristã é propaganda, concorrência religiosa e estatística, busca de influência: com o Espírito Santo, a missão é Pentecostes, revelação do Senhor Morto e Ressuscitado, Salvador do mundo, Palavra de vida. – Sem o Espírito Santo, o culto, a liturgia é evocação histórica, cerimônia bem ou mal produzida onde a teatralidade torna o ministro centro das atenções: com o Espírito Santo, a Liturgia é memorial do Mistério pascal, celebração da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão do Senhor, antecipação da vinda final de Cristo, a Parusia.

– Sem o Espírito Santo, o agir cristão é uma moral de escravos, obrigação sob ameaça de castigos divinos: com o Espírito Santo, o agir cristão é libertador e transfigurado, recupera nossa semelhança com Deus, nos torna cristãos. – Sem o Espírito Santo, vivemos o tempo presente na insegurança frente o futuro: no Espírito Santo, o tempo é espera feliz do segundo Advento do Senhor, desperta os cristãos para que aguardem a vinda do Senhor quando julgará os vivos e os mortos e abrirá as portas de sua cidade a todo o seu povo.

O Espírito Santo é o Senhor que dá a vida”. É a vida eterna que Deus Pai condivide com todos aqueles que estão em comunhão com seu Filho (1Jo 1,1-4). Ele edifica a Igreja em todo lugar com a proclamação da Palavra e a celebração da Eucaristia. Mediante ele a Igreja e o mundo gritam com todo o seu ser: “Vem, Senhor Jesus!” (Apc  22,17-20).

Ontem, foi Pentecostes. Hoje, é Pentecostes. Vinde, Espírito Santo!

Pe. José Artulino Besen

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O ESPÍRITO SANTO, ARTÍFICE DO CRISTÃO

A vida espiritual é a arte de ter presente o Espírito Santo, é seu reconhecimento, é dar-lhe precedência nas decisões. É equivocado julgar que vida espiritual, espiritualidade sejam sinônimos de exercícios de piedade, horas de oração. Os atos devocionais estão inseridos na vida espiritual, mas não a definem. Vida espiritual é vida no Espírito Santo e com o Espírito Santo: é viver imerso nele e tudo, sentimentos, afetos, é iluminado pelo Espírito.

A vida espiritual tem origem no Espírito Santo quando ele clama, dentro de nós, “Abbá” – Paizinho: ainda não sabemos falar com Deus, por isso, o Espírito Santo balbucia em nosso lugar e nos vai introduzindo na amizade com o Pai. “Abbá” é a fala da criança, é a palavra que nos faz ingressar no espírito de filiação e viver como filhos carentes do amor divino (cf.. Gl 4,6). Depois, adultos na fé, o chamaremos de Pai..

Antes de ascender aos céus Jesus afirmou que o Espírito Santo que envia revela, recorda tudo o que ele falou e fez. O Espírito é o revelador de Deus: é ele quem decide nossa vida porque, sem Deus, estamos submetidos à morte.

O Espírito Santo nos faz continuamente recordar Deus Pai (recordar é recolocar Deus em nosso coração). Recordar é essencial na vida espiritual, é o lembrar contínuo da presença de Deus. Ao nos tornarmos seres espirituais por ação do Espírito Santo, nossa existência e nossos afetos se dilatam sobre todo o universo e assim, tudo e todos nos recordam a presença de Deus, nosso louvor brota espontâneo e intenso na contemplação da obra do Criador.

O Espírito Santo faz reconhecer as maravilhas de Deus. Uma dificuldade do homem de hoje é esta: na pressa de viver pouco com muita coisa, na busca incessante do vazio de vida, perde a capacidade do maravilhar-se. Passa por uma criança, uma mãe, flor, ave e não presta atenção, pois não se maravilha com nada além de si mesmo no espelho.

O amor à beleza é saudade de Deus. Sem esse amor afundamos no caos, no desespero, na desintegração pessoal. O Espírito Santo doa olhos espirituais ao homem, olhos novos, capazes de ver o rosto de Deus em tudo, também no Cristo e nos irmãos crucificados. Então proclamamos com o salmista: “Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso teu nome em toda a terra! Sobre os céus se eleva a tua majestade!” (Sl 8,1).

A vida espiritual é cristológica: ela continua a obra de Cristo, faz-nos recordar sua palavra e obra graças ao Espírito Santo, que nos faz reconhecer em Jesus o Cristo e Senhor do universo. Na Liturgia louvamos o Pai por Cristo, com Cristo e em Cristo, gerando a unidade do Espírito Santo em nós.

Santificação pelo Espírito Santo

A santificação, vocação a que todos somos chamados, é obra do Espírito Santo em nós. Os Santos Pais da Igreja afirmam que o homem e o Espírito Santo formam um único princípio: o homem existe ou como ser espiritual – e é pessoa – ou como ser carnal – e é apenas criatura. Assim, é pela inabitação do Espírito que somos verdadeiramente pessoas. Poderíamos aqui citar Santo Irineu: “A glória de Deus é o homem vivente e a vida do homem é a visão de Deus”. É do plano divino que um somente exista com o outro.

Pelo mistério do Batismo nos tornamos filhos de Deus, mas ainda somos mármore não esculpido, madeira sem forma. É pelo Espírito Santo que o mármore ou a madeira adquirem a forma de obra de arte, de beleza: ele imprime no ser ainda carnal a forma do homem perfeito, cria o cristão. A Liturgia celebra essa obra espiritual com o sacramento da Crisma: pela unção do óleo do Espírito Santo, o batizado se torna cristão, adquire a forma, o jeito, a atitude, o coração de Jesus Cristo. São Gregório de Nissa, Pai da Igreja, compara o homem com o ferro e o Espírito Santo com o fogo: como o fogo torna o ferro plasmável, podendo ser mudada sua forma, o Espírito Santo é o fogo que nos plasma à semelhança de Deus.

O Espírito Santo frutifica na vida e na história do homem e da humanidade através de seus dons e frutos: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, lealdade, mansidão, autodomínio (Gl 5,22-23).

Através dele o homem pode tornar-se comunicador de Deus, porque o Espírito revela os mistérios de Deus, nos introduz no amor divino e dele nos faz anunciadores. Pela oratória somos bem falantes: já o Espírito nos faz comunicar palavras que geram comunhão e vida nova (brotam da unção espiritual). O Espírito Santo cria no homem uma orientação vivente para o Pai. Guiada pelo Espírito, nossa vontade torna-se vontade de Deus e decidimos, como Maria: “Sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

A ação do Espírito Santo produz mudança externa na pessoa. Ao homem ele oferece o amor: a relacionalidade. Coloca em nós o amor que sai para amar, faz-nos sentir amados para podermos amar. O amor que orienta o encontro com o outro, ajudando a sair para entrar em comunhão. Saída não destrutiva, mas amorosa. Faz perder alguma coisa para adquirir comunhão. Não é perder por perder.

Como gratidão à obra santificadora do Espírito em nós, só nos resta continuar a invocar: “Vinde, Espírito Santo, enchei os nossos corações, neles acendendo o fogo do vosso amor”.

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«Tomai e Comei, Tomai e Bebei»

Acontece com a Eucaristia o mesmo que a alguns estudiosos: para marcar o nome e a espécie de uma planta, amarram-lhe com arame uma plaquinha indicativa. Às vezes apertam tanto que a pobre planta morre sufocada.

Assim, de tanto definirmos que na Eucaristia recebemos real e verdadeiramente o Corpo e o Sangue do Senhor, a sufocamos nessa redução às vezes apologética, pois a Celebração vai muito além, sintetizando todo o mistério de Cristo, da Igreja e do mundo.

Após sua ascensão ao céu, a Igreja é o Corpo de Cristo-Cabeça, de maneira inseparável e eterna. Enviando o Espírito Santo, o Senhor transfigura toda a criação e no pão e vinho ofertados se inclui a consagração toda a criação.

Predito pelo profeta Malaquias (cf. Mal 1,11 e Oração Eucarística III), o Sacramento da Nova Aliança é celebrado continuamente em todo o mundo: não há instante em que não se faz ação de graças/eucaristia, não há momento em que o Corpo místico de Cristo e o mundo não são oferecidos e consagrados.

No Sacrifício espiritual da Eucaristia faz-se a memória real (não a recordação simbólica) da Paixão/morte/ressurreição/ascensão do Senhor. Nela ouve-se o grito de Cristo na cruz «Meu Deus, meu Deus» e nesse grito está incluído o grito da Igreja, o grito de cada membro do Corpo, um grito que chega ao Pai até o final da história. Todos os gemidos da humanidade e da criação prostituída se unem aos gemidos de Jesus e ressoam no céu (cf. Agostinho, Exp. in Psal. 85,5). A liturgia anglicana, recuperando a Liturgia da Igreja antiga, reza: «Nós te oferecemos e te apresentamos, Senhor, nossas almas e nossos corpos como sacrifício espiritual, santo e vivente aos teus olhos.» O sacrifício de Cristo e o sacrifício espiritual da Igreja tornam-se uma só realidade, pois Cristo engloba os membros de seu corpo no seu sacrifício. Tudo o que é ofertado é consagrado e transfigurado no Espírito. Por isso, em cada Missa a Igreja morre e ressuscita para poder subir aos céus com o Senhor.

O momento da Consagração, tão sagrado e íntimo para cada um de nós que vive o Mistério, é de um compromisso e entrega radicais: após rezar ao Pai, pedindo o Espírito Santo para a transfiguração/transubstanciação do pão e vinho, todo o Corpo se une nas palavras do Senhor.

Ao se entregar «tomai e comei, isto é meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei…», o Senhor se doa como nosso alimento e bebida. O bispo que preside a Eucaristia se entrega a seu rebanho como bom pastor e se oferta pessoalmente: «tomai e comei, isto pé meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei…». O presbítero que preside a Eucaristia se oferece a seu povo sem restrições: «tomai e comei, isto é meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei….» Cada cristão que participa da Eucaristia também se entrega a seus irmãos como alimento: «tomai e comei, isto é meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei…

Todos unem-se profundamente nessa oferta total «tomai e comei, isto pé meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei…», tendo consciência de que se tornam uma coisa só com o Senhor, para sempre. Na hora da Comunhão dá-se a conseqüência final: todos os que se ofereceram «…será entregue…» tornam-se alimento no Senhor pois, ao ouvir «O Corpo de Cristo» sabem que estão recebendo o Senhor-Cabeça e seu Corpo/Igreja. Recebemos e trituramos (comei, em grego traghein=triturar) os que se nos ofertaram, sabendo que somos recebidos e triturados pelos que receberam nossa oferta. Tudo se torna uma única realidade, o Espírito faz resplandecer em cada um de nós a beleza dos que se alimentam desse alimento fruto de doação incondicional.

O Espírito Santo jorra no mundo a partir do cálice eucarístico: cada assembléia é um contínuo Pentecostes, todos são recriados e o mundo renovado, pois todos se recebem e se dão «em Cristo.»

Cada rosto celebrante é o rosto do Senhor e o rosto do irmão, em cada rosto humano contemplamos todos os rostos, dos que cantam, dos que gemem, dos que blasfemam e nosso rosto é a totalidade desses rostos. O reino dos rostos é o reino do Espírito: Cristo, tomando nossa carne fragilizada, devolve-a unida à sua carne transfigurada. A procissão eucarística é a procissão da multiplicidade dos rostos: chegam humanos, partem divinos. Só nos resta proclamar, adorando: «Tudo isso é mistério da fé!»

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«O Espírito Santo, Fogo que purifica e aquece»

pentecostes3O evangelista João testemunha a autoridade de Jesus em seu momento na cruz: «e inclinando a cabeça entregou o espírito» (Jo 19,30b). Os Santos Pais da Igreja viram nessa palavra inspirada dois gestos de salvação: Jesus inclina a cabeça e contempla a humanidade que não poderia ficar órfã e sem vida; em seguida, entrega-lhe o Espírito Santo, que é dele. “o meu Espírito”. O pentecostes da cruz acontece na hora extrema do amor de Cristo: é de seus lábios sofridos, machucados, que o mundo recebe o Advogado, o Consolador, o Santificador, o Paráclito.

Naquele momento central da história da salvação, o Amor se revela em estado puro: o Pai entrega-nos o Filho crucificado, o Filho entrega-nos o Espírito Consolador, o Espírito mergulha no mundo e em cada um de nós como princípio de uma nova vida, agora pascal.

Fragilizado como é próprio do amor, o Deus Trindade é paixão total pelo mundo. São João Clímaco (+650) exulta: «Bem-aventurado aquele que tem por Deus uma paixão tão forte como a do amante pela amada», pois esse é o amor divino, um amor esponsal. Feliz quem sabe corresponder a esse amor.

No início da história, Deus soprou o espírito de vida e do barro fez homem e mulher. Na nova criação, Cristo sopra o Espírito e o fogo do amor enche e incendeia o universo. «Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!» (Lc 12,49). Esse fogo é o Espírito Santo, que queima os espinhos dos pecados e dá resplendor à alma, ensina São Cirilo de Jerusalém.

O Espírito Santo é fogo que aquece nosso coração frio pelo egoísmo, gelado pelos relacionamentos possessivos, enrijecido de tanto palpitar para si e esquecer de sentir quem lhe está à frente como irmão, amigo, projeto. Purificados, descobrimos que dentro de cada um de nós existe um país espiritual onde tudo e todos resplandecem de beleza e alegria por terem sido escolhidos e acolhidos. Extasia-nos uma nova beleza, não distante, mas interior, cem vezes mais luminosa que o resplendor do sol (cf. Isaac o Sírio, Hom. Spirit. 43). Esse pai espiritual, nação nova, paraíso recriado, é o Espírito Santo em nós.

O Espírito nos recorda que somos filhos e irmãos

A partir do Pentecostes, que é contínuo se sempre invocado, deixamos de ser escravos e nos tornamos filhos e herdeiros, pois o Espírito Santo o atesta: recebemos um espírito de filhos por meio do qual ele grita conosco: «Abba, Pai!» (Rom 8, 15-16). Com esse grito constantemente aprofunda em nós a verdade de filhos, reavivando nossa identidade de filiação divina. O Espírito não cessa de gemer dentro de nós para recordar-nos a filiação divina, pois, diz o Apóstolo, «a prova de que somos filhos é que Deus mandou aos nossos corações o Espírito de seu Filho que grita: Abba, Pai!» (cf Gal 4, 4-7).

Filhos no Filho, por ele somos libertados do individualismo, fazendo-nos responsáveis uns pelos outros no Cristo (cf 1Cor 12,26), libertados dos preconceitos raciais, religiosos, sociais e sexistas: somos um só corpo (cf 1Cor 12,13). Ele faz-nos tomar consciência de que existimos na medida em que somos responsáveis pelo outro. Viver para si não é existir na verdade.

O Fogo que recria a história não queima, mas ilumina, não consome, mas brilha, encontrou os corações dos discípulos como receptáculos puros e distribuiu entre eles os seus dons e carismas (cf. Ofício de Pentecostes).

Queimando a monotonia da uniformidade, o Espírito Santo nos mostra a beleza do jardim florido da diversidade: um só corpo em muitos membros. Deixamos de ser um ramo ressequido no deserto e nos extasiamos em ser uma flor no jardim do Espírito. O país espiritual que jorra de nossa interioridade é a casa do Pai.

E recordamos: «Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!» (Lc 12,49). O Espírito Santo é fogo que purifica cada um de nós, mas também é fogo que aquece a Igreja, o jardim de Deus.

A Igreja necessita de estruturas, mas tão leves que não firam a delicadeza do Espírito Santo. E proclama uma palavra tão sólida que não se abala com o desmonte de estruturas inutilizadas pela irrupção incontrolável do Espírito que renova a face da terra: “enviai o vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da terra”.

Pe. José Artlino Besen

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O ESPÍRITO SANTO, UM TIPO INTRANQÜILO

Santos Loucos - Matisse

Santos Loucos – Matisse

A Companhia de Jesus, os Jesuítas, em 1965 congregava 36 mil padres e religiosos e hoje, com muito mais frentes de trabalho apostólico, 20 mil. O Superior Geral, Pe. Kolvenbach, não se deixa levar pelo pessimismo: “Faz parte de toda obra eclesial estar em crise permanente, pois deve estar sempre à escuta do Espírito Santo, que não é ‘um tipo tranqüilo’”.

Se fecharmos o ouvido ao Espírito, a crise será confundida com derrota e a ausência de crise, sinal de caminho certo. Podemos estar contemplando a paz do pântano, com sua superfície luzente e serena, mas ocultando podridão, vermes, morte. Somente um cristianismo que deixa ao Espírito todo o espaço necessário será capaz de revelar e realizar a vocação cristã, que é sempre criativa

Os grande homens e mulheres tocados pela graça têm essa característica: vêm a ação do Espírito onde muitos preferem ver crise. Os pessimistas sentem-se recompensados quando percebem igrejas cheias e acham que “Deus está vencendo”, mas se esquecem de que a maioria busca apenas uma “genérica experiência espiritual”, “sentir Jesus”, enquanto que o Espírito propõe algo muito exigente e instigante: um “caminho de fé”.

No Pentecostes (At 2, 1-13), os desavisados julgaram que os Apóstolos tinham ingerido um robusto pileque de vinho doce, tão felizes e corajosos estavam. De lá para cá se acha que não está bem do juízo aquele que é arrastado pela força do Espírito Santo: Paulo foi considerado traidor de seu povo, os eremitas do deserto gente sem eira nem beira, Francisco de Assis o maluco de Cristo, Filipe Néri o esquisito de Roma, Teresa d’Ávila e João da Cruz os neuróticos do Carmelo, Madre Teresa uma imprudente que mergulha nas incertezas das ruas de Calcutá, João Paulo II um mau exemplo perdoando Ali Agca, mulheres generosas que aceitam gerar fetos portadores de deficiência acusadas de mal informadas, Miguelângelo um sonâmbulo olhando um bloco de mármore para dele libertar a Pietà. E assim por diante, numerosíssimo exército de “loucos” impedindo que o mundo seja engolido pela bestialidade do pecado.

Achamos que a soma de nossas ações orienta a vida da Igreja, como se a Igreja fosse uma soma de boas ações e intenções. É o Espírito Santo que conduz a Igreja, a cada instante, em cada fiel, em todos os fiéis. O Espírito Santo não está submetido à sabedoria de nossas tradições: ele é um tipo inquieto, continua a plantar onde outros desistem. É Pessoa intranqüila, pois uma de suas missões é esculpir em nós a imagem do Pai, criativo “poeta do céu e da terra”: o Espírito também é Criador e impele a humanidade inteira a gestos criativos, imprevistos, que transfiguram o mundo. Ele “faz novas todas as coisas” (Apoc 21,5): é fermento de heroísmo, beleza, criatividade, generosidade, santidade.

A partir de Pentecostes rios de fogo brotados do peito divino invadem a terra, o cosmos, a humanidade. Nada permanece intacto por onde passam suas chamas: tudo é renovado, de modo inatendível, sempre original. Quando queremos programar a ação de Deus na Igreja acontece a mesmice, a repetição cansativa, o “compromisso” enjoativo. Nós dizemos que o Espírito age na comunidade: é verdade, sim, mas esquecemos que o Espírito Santo espalhou suas chamas de fogo sobre todos (comunidade) e sobre cada um deles (originalidade da pessoa) (At 2,3). Com seu exército de bilhões de enamorados, o Espírito renova(rá) a face da terra. Ninguém o prende!

Sonhemos como o russo Scriabin (1872-1915): era um alucinado músico e pianista que desejava compor um “mistério” do Espírito Santo, cujos últimos acordes fossem capazes de incendiar o mundo. Ele sugeriu o acorde: do-fa-si bemol-mi bemol. Queria que fosse o som da eternidade. Repetimos: são esse “loucos” do Espírito que salvam o mundo.

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Reflexões para uma Espiritualidade Eucarística

“Séculos passarão e a humanidade proclamará pela boca de seus sábios e de seus intelectuais que não há crimes e, por conseguinte, não há pecado, só há famintos.
Nutre-os e então exige deles que sejam virtuosos!”

São palavras proferidas pelo Grande Inquisidor de Dostoievski, no Os Irmãos Karamazov, referindo-se à primeira tentação de Cristo: “Transforma essas pedras em pães”. Mas, podemos dar pão a todos e, no final, estaremos diante da mesma multidão saciada gritando: “Temos fome!”. Há um Pão que sacia essa fome.

Um pouco de história

Ao analisarmos a vida interna da Igreja devemos ter presente um fato que revolveu profundamente sua estrutura organizacional e espiritual: a invasão dos povos “bárbaros”, especialmente os germânicos/francos e a queda do Império romano do Ocidente em 446. No momento em que os quatro Concílios ecumênicos (Nicéia, Constantinopla, Éfeso, Calcedônia) e os Pais da Igreja tinham desenvolvido uma extraordinária obra teológica de explicitação do mistério cristão, o Ocidente viu-se “invadido” por povos na maior parte pagãos ou arianistas (caso de alguns grupos germânicos).

O primeiro momento foi de espanto: como tinha sido possível que Paulo e Paulo não defendessem a sagrada Roma contra os invasores? O que fazer com esses novos povos, ainda organizados em tribos?

Logo se viu que o caminho era um novo lance missionário, no qual a Igreja pôde colher os melhores frutos.

Mas, surgiram problemas que afetariam a vivência cristã pelos séculos seguintes, alguns até nossos dias: os bárbaros eram extremamente sensíveis e supersticiosos. Sua visão de Deus era a de um General poderoso (Drochtin), Cristo seria um Chefe exigente, um Duque militar. Para a fé singela dos bárbaros, as relações do crente com Deus equivaliam às do súdito com o rei: deveu, pagou, pagou, não deve mais. Deste modo, o sistema penitencial passou a ser visto como tarifa: um pecado tem um preço (jejum, oração, açoite, dinheiro): Deus exige o pagamento e, com ele, o homem torna-se credor. O perigo era imenso: esquecer que tudo o que vem de Deus é graça, pura graça e não pagamento. Certa visão de promessas e indulgências tinham esse fundamento: a salvação de uma alma tem preço: pagou, está salva. Sabemos em que deu isso no século XVI: na Reforma protestante. Leia o resto deste post »

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