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NATAL – VEIO PARA O QUE ERA SEU

O Menino na Mangedoura - Ruber OSB

O Natal é a festa do nascimento, na carne, do Filho de Deus. Jesus Cristo é eterno, estava junto do Pai e do Espírito Santo antes da criação do mundo. Mas, no momento oportuno, veio para dar-nos a graça de nos descobrirmos como filhos de Deus e restaurar nossa dignidade humana.

Desde o princípio, Cristo estava no mundo: sendo divino, não foi reconhecido, apesar de sinais claros dados por Deus através dos Profetas e das Escrituras. O ser humano habitava a escuridão e era incapaz de perceber a luz (cf. Jo 1, 11). Para ser reconhecido por aqueles que eram seus desde todo o sempre, assumiu a natureza humana no seio de Maria e veio habitar entre nós, visivelmente, para dar-nos a oportunidade de conhecermos quem é Deus e como Deus é: “Com efeito, Deus enviou seu Filho, o Verbo eterno que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e dar-lhes a conhecer os segredos de Deus” (DV 3-3).

Muitas vezes podemos nos perguntar, até com estranheza: por que Deus fez e faz tudo isso por nós se, na verdade, nem estamos tão interessados nele? Por que Deus nos envia seu Filho se nós não o pedimos? Por que Deus quer nos salvar, mesmo que nós prefiramos viver na condenação das trevas?

A resposta é uma só: Deus ama o que é seu. Deus quer salvar o que é seu. Tudo faz por aqueles que são seus.

Diante de tamanho amor manifestado na noite de Natal, diante de Deus que se faz criança, nossa resposta é o louvor: Ó Senhor nosso Deus, como é grandioso vosso nome em todo o universo! (Sl 8,1). Mas, Deus não se satisfaz apenas com nosso louvor: ele quer nos salvar, dando-nos a graça de recuperarmos a filiação divina perdida no pecado. Isso sempre, a cada dia, até o final da história: a decisão divina de nos salvar vale para todo o tempo da história.

A salvação não é obra humana, “nem do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus” (Jo 1, 13). A salvação é graça.

Quem passou pela experiência da fraqueza humana, do vício, da imoralidade e teve a graça do encontro com Deus, afirma tranqüilamente: Tudo foi obra de Deus! Eu nem acreditava mais que tinha jeito!

A graça de Deus é um dom imprevisto, misterioso, suave ou forte, mas sempre um dom, oferecido no amor de Pai. Nosso agradecimento pela graça recebida é a vivência como filhos de Deus, no seguimento de Cristo, Caminho, Verdade e Vida.

E se o pecado de novo em nós vencer e nos distanciar da graça divina? Deus não se cansa de nos procurar? Evidentemente que não. Deus não seria Deus se nos abandonasse à sorte dos desesperados. A salvação é sempre oferecida, sempre renovada.

A graça do Natal toca a vida dos que a aceitam

Infelizmente, custa-nos crer num amor desinteressado, contínuo. Para nós é difícil o perdão milhares de vezes repetido e confirmado. Porque nós não fazemos assim. Nós colocamos condições: uma, duas, três vezes. E achamos que Deus é como nós. Engano. Tanto o amor como o perdão são infinitos.

O Pai nos conhece e sabe das ciladas que Satanás nos arma e nas quais somos enredados. Um cristão passa por muitas tentações, muitas quedas, passa inclusive pelo cansaço de lutar para ser cristão. Nós sofremos ao contemplarmos os erros passados, os fracassos. Lamentamos oportunidades perdidas. O passado, porém, não deve nos condicionar, pois o Senhor nos olha hoje, aqui, agora. É para esse instante que ele pede nossa fidelidade. Com o tempo seremos curados dessas recordações tristes que nos impedem amar e sermos amados.

Uma verdade necessita estar sempre diante de nossos olhos: Deus sempre vem para os que são seus. Pecadores ou santos, nós somos dele e ele quer ser nosso.

A oficina da graça recupera toda a estrutura pessoal, por maior que tenha sido o estrago do pecado. A maior tristeza seria duvidar disso, conservar a imagem de um Deus ameaçador. Nosso Deus é o Pai de Jesus, é o nosso Pai.

Na festa do Deus Menino, num feliz Natal, conservemos a felicidade de sermos obra de Deus! Anunciemos a todos essa grande alegria: foi derrubado o muro que nos separava do céu. As portas estão abertas. Somos convidados a entrar nessa nova vida, divina, onde o Pai nos espera. Mas, lembremos: somente quem tem coração simples como o Menino de Belém penetra nos segredos do amor divino.

Pe. José Artulino Besen 

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NATAL – O ESPÍRITO, O SILÊNCIO E A PALAVRA

Entre tantos meios de comunicação, é útil contemplarmos o modo divino de se comunicar: o silêncio-Espírito-Palavra.

No ciclo do Natal, quando contemplamos a ruptura do isolamento entre o céu e a terra através de Cristo que se encarna, dos anjos que cantam, vale uma breve reflexão sobre a comunicação divina: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (Lc 1,35), anunciou Gabriel, “e a Palavra de Deus se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14) com o sim de Maria. Primeiro o silêncio, depois a ação do Espírito e, em seguida, a Palavra.

Temos a faculdade de entender os silêncios bíblicos quando recebemos a Palavra pelo Espírito: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, isto é, precisamos de ouvidos dados pelo Espírito para ouvir a Palavra, e não qualquer ouvido. Afirma Basílio de Cesaréia (329-379) que “é um forma de silêncio também a obscuridade que envolve a Escritura e que torna difícil a compreensão das doutrinas, e isso é de utilidade para os que dela se aproximam” (O Espírito Santo, 27,66): nem tudo compreendemos agora, e a contemplação é uma forma superior de compreensão, por ser espiritual.

Deus pouco se nos comunica por palavras, mas, pelo silêncio faz brotar em nós palavras que de outro modo não teriam nenhum sentido, afirma o teólogo russo Vladimir Lossky (1903-1958). Não é silêncio pela ausência da palavra, mas palavra que brota do silêncio. Maria primeiramente recebeu o Espírito, e depois recebeu a Palavra. O Espírito precede à Palavra também no encontro de Maria com Isabel: “…e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Com voz forte, ela exclamou: ‘Bendita és tu entre as mulheres…’ (cf. Lc 1,41-42). O menino João saltou de alegria no seio de Isabel porque o mesmo Espírito silenciosamente lhe revelou Jesus no seio de Maria.

Ao se retirarem os pastores da gruta de Belém, “Maria, porém, guardava todas estas coisas, meditando-as em seu coração” (cf. Lc 2, 15-19). A meditação é conduzida pelo Espírito e progressivamente revela o sentido dos acontecimentos. A noite do Natal é a grande noite da Luz poderosa: qualquer palavra empobreceria a explosão luminosa da natividade.

Silêncio e Palavra (Igor Mitoraj)

Sem voz e sem rosto, assim é o Espírito

O Espírito Santo não fala, porque sua missão é revelar a Palavra e, sem ele, a Palavra é apenas ruído religioso, profecia sem profetismo, sentimento sem fé, cerimônia sem liturgia. No grande silêncio também não nos foi revelado o rosto do Espírito, ao contrário do rosto de Jesus e do Pai (“Filipe, quem me vê, vê o Pai” – Jo 14,9). Mas, é possível contemplar o rosto do Espírito Santo: olhando o rosto dos santos, das pessoas cheias do amor, que revelam o Espírito. Os santos têm o privilégio de revelar a imagem e a semelhança de Deus, donde a luz que irradia de seus rostos. O silêncio do Espírito, de sua voz e face nos é manifestado na sinfonia da comunhão dos santos: afirmou um monge que ”se não existissem os santos, se nós não acreditássemos na comunhão dos santos do céu e da terra, estaríamos encerrados numa solidão desesperada e desesperante”, pois viveríamos num silêncio não comunicativo, revelador de gélida vida solitária.

O Espírito nos abre os ouvidos e o coração para ouvirmos a Palavra e essa não pode ser ouvida sem a renovação de nosso ser através dele. Tira de nós a presunção do conhecimento teórico, abstrato sobre Deus, pois não há relação intelectual com Deus em Cristo, mas sim, renovação do coração e da mente que nos fazem compreender a Palavra que, acolhida, nos mergulha na verdade e na vida.

É pobre o comunicador – a palavra de ordem hoje é comunicar! – que busca explicar tudo. Nossas TVs, rádios, internet estão cheios de explicações religiosas, algumas até contraditórias. Na busca legítima de evangelizar, levar a doutrina a todos os ambientes, corre-se o risco de profanar o Sagrado, espetacularizar o mistério. A comunicação religiosa é contemplação, adoração, revelação. Aqui entra o “pudor”, o recato: as coisas de Deus são misteriosas, profundas, não podem ser lançadas na vala comum do barulho mundano. São mais contempladas do que demonstradas.

Em seus primeiros séculos, a Igreja adotava o catecumenato para os adultos, que participavam da Eucaristia apenas até o final da Liturgia da Palavra. Ainda hoje a Liturgia ortodoxa, nesse momento, ordena: “Catecúmenos, ide embora!”. Após o Batismo (que incluía a Comunhão e a Crisma) era-lhes explicado o que tinha acontecido num sermão “mistagógico”, de introdução ao mistério. Havia segredos que somente nesse momento eram revelados. Hoje nos preocupamos em mostrar tudo, explicar tudo, e destruímos a possibilidade do espanto diante do Mistério, perdemos o pudor do silêncio. E perdemos tudo, pois não ouviremos os anjos cantando e não iremos a Belém.

Pe. José Artulino Besen

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A VERDADE SUSCITA PROFETAS, NÃO OS PROFETAS A VERDADE

Com freqüência é despertada na Igreja a idéia de que a autoridade descobre caminhos de expressão da Verdade. Tem-se até a impressão de que o Papa, patriarcas, bispos e teólogos possuem um caráter especial que os faz descobrir verdades e princípios antes ocultos. Quando se considera a Igreja a partir da autoridade confundida com poder, esse tipo de raciocínio tem fundamento histórico, mas não teológico. Mas, se considerarmos a Igreja como obra do Espírito Santo, não é o poder-autoridade que conta, mas a Verdade de Jesus Cristo. E é essa Verdade que suscita a Igreja, a autoridade, o teólogo.

Sempre foi assim foi no campo teológico, espiritual e moral da história cristã. Igualmente foi assim na Antiga Aliança: Deus suscitava profetas, o pecado do povo despertava a profecia.

Quando o Cristianismo se deparou com interpretações perigosas a respeito de Jesus Cristo e do mistério da Encarnação, a Verdade de Cristo suscitou os Pais da Igreja, como Irineu de Lião, e lhes inspirou palavras que garantissem sua integridade.

Quando Ario de Constantinopla (séc. IV) afirmava que Cristo não era Deus de Deus, mas pessoa humana assumida como Filho de Deus, a Verdade despertou os grandes teólogos que, reunidos no Concílio de Nicéia (a.325) e movidos pelo Espírito, definiram Jesus Cristo verdadeiro Deus, da mesma divindade que o Pai. Aconteceu no mesmo século por ocasião da afirmação de Êutiques, de que em Jesus havia uma só natureza, a divina (monofisismo). A Verdade suscitou a Igreja que, movida pelo Espírito em Calcedônia (451) proclama em Jesus uma Pessoa divina e duas Naturezas, divina e humana. Até o final do século V o mistério trinitário despertara a consciência da Igreja, dos Santos Pais e, através de suas vozes, o Espírito clarificava o mistério central do Cristianismo: um Deus – o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

A partir do século VI a grande Igreja assume dois caminhos, mesmo que na afirmação da única Verdade: a Igreja romana vai insistir na organização, no poder visto como autoridade máxima, fruto da centralidade de Cristo homem e Deus: as estruturas vão contar muito, pois a humanidade do Senhor levava à concepção de eclesiologia fundada nos aspectos visíveis, hierárquicos. A Igreja oriental, por sua vez, ingressava em sua grande reflexão pneumatológica, a ação do Espírito Santo que transfigura pela Eucaristia. A missão da autoridade somente tem sentido no Espírito: é serviço à Verdade, nunca poder. O bispo, o sínodo, o patriarcado, os teólogos têm seu sentido na vigilância apostólica, no cuidado da fé e da vida cristã. Se na Igreja latina a salvação da alma é a finalidade da vida cristã, na Igreja ortodoxa a finalidade é a divinização do cristão, obra do Espírito através da Eucaristia.

Espiritualidade e vida cristã

Ao proclamar um Santo “Doutor”, a Igreja reconhece nele um modo original de vida cristã, uma nova faceta suscitada pelo Espírito na riqueza sempre insondável do Evangelho. No século III, frente à teologia intelectualista em moda em Alexandria, homens e mulheres buscaram o deserto e lá aprenderam, no silêncio, oração e trabalho, a “ruminar” a Palavra de Deus, fazendo brotar um jardim de santos, os eremitas e anacoretas. Não foi São Bento que criou a vida comunitária nos mosteiros: foi o Evangelho que despertou em São Bento (+547) a espiritualidade beneditina e sua Regra. Não foram profundas reflexões teológicas que possibilitaram a Teresinha de Lisieux (+1897) a vivência do “Pequeno Caminho” da vida cristã: foi a Verdade que entrou no coração dessa jovem e nela plantou a espiritualidade da confiança filial em Deus.

Na história, Deus mostra sua bondade onde menos esperamos: o oficial francês Charles de Foucauld (+1916) não vai para o deserto do Saara viver o escondimento de Jesus, como em Nazaré, por conta própria. É o Espírito Santo que o arrancou da vaidade e o atirou em meio aos tuaregues. Edith Stein (+1942), judia, filósofa, descrente, tinha claro a negação de Deus: numa noite, porém, lendo o “Vida” de Teresa d’Ávila, a Verdade a despertou ao concluir a leitura e afirmar: “Essa é a Verdade”. A mulher judia, filósofa, descrente, se faz cristã, católica, carmelita e termina o Caminho na câmara de gás de Auschwitz. Ela não procurou a Verdade: a Verdade a encontrou.

Dom Hélder Câmara (+1999) trabalhava como zeloso e competente sacerdote e bispo no Rio de Janeiro, quando o olhar dos pobres plantou nele a decisão de nada mais querer senão ver e amar Jesus em cada pobre. Dom Luciano Mendes de Almeida (+2006), intelectual jesuíta, homem de muitas competências, teve o caminho cristão despertado pelos pobres das ruas de São Paulo e, através dos pobres, viu o rosto do Senhor nos meninos de rua e seu coração explodiu de afeto e compaixão por cada um deles. Os pobres procuraram a beata Dulce dos Pobres, e ela, conduzida pelo Espírito, deixou-se por eles ser encontrada.

Quando a Igreja se concentra em si, na sua competência, vê o Evangelho como desafio de organização e competência, alguns de seus teólogos são profissionais do raciocínio, pesquisadores de fórmulas doutrinais e não santos à escuta do Mestre. Estando aberta ao Espírito, a verdade sobre Deus, o Homem e o Mundo a iluminará evangelicamente e sua força germinará nos lares, hospitais, leitos de dor, conventos, igrejas, locais de trabalho onde cristãos “ruminam” a Palavra.

Não descobrimos o caminho, a verdade e a vida: eles é que nos encontram.

Pe. José Artulino Besen

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NO NATAL O DIVINO PENETRA TODA A CRIAÇÃO

Natividade (Correggio)

«Glória a Deus no mais alto dos céus
e na terra paz aos homens!»
(Lc 2,14).

Pela primeira vez na história, o céu vem à terra para trazer uma notícia humana e divina. São os anjos que vêm anunciar aos pastores que, na manjedoura, jazia um menino, o Cristo Senhor. Os repórteres celestes fazem reportagem na terra! Tem início uma comunhão misteriosa, cuja finalidade é reiniciar o diálogo entre o céu e a terra, entre Deus e o homem, interrompido pelo pecado. Não apenas o diálogo de Deus com os Patriarcas e Profetas, mas com a humanidade, toda a criação. Antes, Deus falava em partes, na pedagogia da salvação: “agora nos revelou no todo, dando-nos o Tudo, que é seu Filho” (São João da Cruz: A subida do Monte Carmelo). A revelação é total.

O ser humano tem agora a possibilidade real de superar o limite do tempo e do espaço e entrar na vida divina, onde nada tem fim, onde tudo é participação-comunhão no eterno. Agora o céu é o templo dos homens e a terra, o templo de Deus.

Quando os primeiros pais quiseram ser como Deus, subtraindo Deus de sua vida, caíram na ilusão: já participavam da vida divina e com a negação de Deus ingressaram numa vida cujo desfecho é a morte. Quiseram suprimir a imagem e semelhança, e desembocaram numa estrada onde nem humanos conseguiam ser. Estava rompida a comunhão que faz o homem e a mulher serem humanos. Deus estabelece comunhão, o diabo fabrica interesses.

Nosso Deus aceita ser desafiado, o que faz parte da comunhão, mas não aceita ser derrotado no que lhe é a essência: o amor. Desde toda a eternidade se propôs reconciliar-nos consigo através de seu Filho, mas reconciliação fruto da liberdade. Podemos querer o isolamento, sermos desumanos.

Então “a Palavra se fez carne e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória” (Jo 1,1-14).

O mistério do Natal envolve toda a criação num novo processo: a instauração do reino de Deus, toda a riqueza da criação sendo penetrada pelo divino. A encarnação do Filho concretiza uma nova Aliança, a Igreja, da qual ele é a Cabeça: é a história da salvação cristã, salvação cósmica, pois dela nada nem ninguém é excluído.

Em momentos de dúvida podemos ser vítimas do pessimismo: Cristo veio há dois mil anos, estamos no terceiro milênio, tanto já se trabalhou, tantos mártires e santos, e o reino não caminha! O mundo antigo parece vencer a batalha. É a tentação do sucesso medido e triunfal. E de Deus, porém, a palavra verdadeira e final. Cristo é e será o vencedor. Cada vez que uma pessoa o aceita como Senhor de sua vida, ele inicia o reinado, como o iniciou na Cruz ao pedido do Bom Ladrão.

O Natal se prolonga na História

Um dos nossos problemas é achar que o arco da história está se completando, que os tempos estão terminando. Um clima de milenarismo de gente espantada com as crises e se torna profeta da derrota, protegida com a couraça do derrotismo. É bom citar aqui João XXIII, o Papa Bom (1958-1963): “Quem conhece a história sabe que lentamente, lentamente a nossa Igreja se purificou. Daremos outros passos. Temos ainda muitos séculos diante de nós”. E em outras palavras, a Igreja ainda é uma criança. Sabe bastante e acaba achando que já sabe o suficiente. Mas precisa aprender a viver, a testemunhar a presença do Espírito.

Dois mil anos é apenas o começo. Criamos estruturas para exaltar o triunfo de Cristo, e agora estamos justamente preocupados em alterá-las/suprimi-las, para que resplandeça a glória do Senhor no ser vivo. Construímos majestosas catedrais para abrigar multidões e agora estamos procurando Deus para que não se esqueça de nelas habitar. A resposta divina se revela nos pequenos grupos que vivem a Palavra de Deus e maravilhados descobrem que cada ser humano é uma catedral majestosa, com ornamentos suficientes para abrigar Deus.

Os cristãos sabem que o amor é o centro da mensagem do Menino: mas jogam bombas para destruir o Afeganistão. Sabemos que a criação é divina: caprichamos em destruí-la. Países católicos, como o Brasil, sentem a dor da perda de 30-40 milhões de católicos, mas não sentem dor equivalente com 30 milhões que diariamente passam fome. Todos somos irmãos: na prática, muito pouco. Estamos aprendendo.

Num mundo de morte, somente a Igreja tem uma palavra de vida definitiva: precisa centrar-se nessa missão. É tempo de esperança, de alegria. Temos muito a fazer com o Menino que cresceu, morreu, ressuscitou e teve a bondade de enviar-nos o Espírito Santo que é a alma do mundo, da Igreja.

Devemos ser modestos em nossa arte pastoral. Afinal, o Espírito paira sobre o universo e inspira a criatividade trinitária. É cheio de novidades. Deus é Mãe: as mães são fecundas por definição e vivem preparando surpresas para seus filhos. Estejamos atentos a essas surpresas divinas. A evangelização apenas começou. A criatividade divina nos prepara surpresas inimagináveis. Tão grandes e belas com o Menino Deus nascendo numa manjedoura.

Pe. José Artulino Besen

 

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NATAL – ENCARNAÇÃO E GEOGRAFIA

Natal (Antonio Poteiro)

A Revelação bíblica é transmitida num território que, mesmo invadido por diversos povos e culturas, se renovava pela tradição religiosa e cultural. Para o povo de Israel, a fé, a terra e tradições formavam um conjunto indivisível. Quando exilados na Babilônia, os judeus cantavam, escondidos, os cantos de Sião. Alguns que puderam ouvi-los pediam-lhes que cantassem esses cantos. A resposta: “Como cantar os cânticos do Senhor em terra estrangeira? Se eu te esquecer, Jerusalém, fique paralisada a minha mão direita… (cf. Sl 136, 3-6). A Babilônia não era a terra dos cantares divinos.

A Palavra de Deus se fez carne – natureza humana – num lugar determinado, Nazaré, em uma jovem judia, Maria. O Filho de Deus assumiu a condição humana em tudo, menos o pecado: o chão, a história, a cultura. Toda a vida de Jesus se desenvolveu na normalidade cultural dos pequenos povoados da Palestina: viveu a língua aramaica, as peregrinações festivas, o pastoreio, o cultivo da terra, a pescaria. O lago de Genesaré/Tiberíades e as localidades circunvizinhas revelam como Jesus viveu, o sentido do que falou, os problemas enfrentados. Jesus não foi um ser estranho a seu meio.

Após a ressurreição do Senhor, a missão cristã difundiu-se por toda a terra, em cada território assumindo características próprias. O Cristianismo, especialmente com a missão universalizante de Paulo, assumiu o árduo trabalho da inculturação do Evangelho, trabalho que prossegue em nossos dias. Paulo não se dirige às Igrejas em geral, mas à Igreja que está em Colossos, Filipos, Galácia, Roma… Cada uma vive uma realidade específica e cuja manifestação mística é a Eucaristia..

A fé cristã inculturou-se no mundo romano, grego, sírio, armeno, árabe, indu, depois eslavo, anglo-saxão, germânico aonde iam os missionários. A teologia foi o fruto desse trabalho, com sua função de expressar a Palavra encarnada em Israel e agora vivenciada em outras terras.

A Liturgia, que é a expressão orante da fé, conheceu riquíssima variedade: cada povo tinha seu rito, orações eucarísticas e santos. A Europa antiga e medieval elaborou as Liturgias romana, galicana, galofranca, anglicana, ambrosiana, mosarábica, visigótica etc.. Com a idéia de Império (século VIII-IX), que incluiu a uniformização dos ritos cristãos, perdeu-se essa variedade em favor do rito e santoral romano, tornados praticamente únicos. Em Toledo pode-se ainda usar o rito visigótico, em Milão o ambrosiano, na Índia o siro-malabar e quase se fica nisso, predominando o rito romano.

Como contrapeso, nas Igrejas orientais foi conservada a diversidade brotada do solo e da cultura. Elas testemunham o antiqüíssimo esforço cristão de falar em chãos históricos. Ligando a fé ao chão, sobrevivem a séculos de dominação persa, árabe, turca.

Eucaristia e território

A Encarnação de Jesus supõe, sempre, a encarnação num território: ela se faz visível no povo, na comunidade, na Igreja diocesana. Esta, a diocese, era representada pela comunidade com bispo, presbíteros e diáconos. Com a penetração da fé católica no mundo rural e com o aumento territorial das dioceses, criou-se uma outra unidade pastoral, a paróquia. Essa instituição foi a tal ponto funcional que, hoje, o católico se define pela paróquia onde vive.

Paróquia, de etimologia grega, significa casa no estrangeiro, viver entre estrangeiros e por isso mesmo, grupo de pessoas com interesses comuns, e evoca intimidade de um ninho, lar, proteção. Somos estrangeiros buscando a morada definitiva. Enquanto isso, nossa casa é plantada no mundo, num território determinado onde a Palavra se faz carne e habita entre nós. Constituindo unidade menor, a paróquia com suas comunidades representam um chão de cultura, vizinhança, costumes e solidariedades.

A encarnação supõe a geografia, pois Cristo assumiu uma geografia. A Eucaristia, centro da paróquia, santifica o chão onde é celebrada e o oferece ao Pai que o devolve transfigurado. Na Apresentação das Oferendas, o Presidente bendiz a Deus pelo “fruto da terra”: a expressão provém da Mishná judaica e significa “desta nossa terra”, e do “trabalho do homem” (inclui-se o produzir frutos do Evangelho nessa terra).

Peregrinar de paróquia em paróquia pode significar optar por ser estrangeiro desencarnado, sem a intimidade de um ninho, um lar. Em nossos tempos, grupos e pessoas tendem a se desenraizar da paróquia, separando o chão onde vivem do lugar onde celebram. É mais fácil, pois livra da casa comum, a paróquia. Desaparece o compromisso com o chão sagrado, trocado por reuniões e encontros onde se cultiva a espiritualidade pessoal, mas sem encarnação, freqüentemente transformada em clubismo religioso.

É Natal. É tempo de Cristo encarnar-se em nós e em nossa história, é tempo de nos encarnarmos em nosso chão para nele edificarmos a casa cristã.

Pe. José Artulino Besen

 

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O AMOR DE DEUS POR NÓS E NOSSA RESPOSTA

Deus entregou seu Filho por cada um de nós (Centro Aletti)

“Deus é amor: quem permanece no amor, permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1Jo 4, 16b). A partir da definição de Deus revelado na Bíblia – Deus é amor, sugiro três versículos fundamentais na revelação bíblica: “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1); “E o Senhor Deus fez para o homem e sua mulher roupas de pele com as quais os vestiu” (Gn 3, 21); “E a Palavra de Deus se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14).

Schelling afirmou que “Deus tem loucura pelo homem”. Por ele, faz tudo. O amor em estado puro ultrapassa fronteiras para que haja o encontro com a pessoa amada. Assim inicia a história de amor de nosso Deus revelado por Jesus Cristo: saindo de seu eterno silêncio, ele cria o céu e a terra e neles coloca o homem e a mulher. Objetivo: para amá-los, numa necessidade irrefreável de doação, entrega, convívio. O amor entre as Pessoas divinas não lhe é suficiente: quer também nos amar com amor infinito, por necessidade brotada do amor que se expande. O amor não pode ser investigado no “por que”, “para que” da ciência: a única explicação para o amor é o amor.

O amor de Deus é ciumento: Adão e Eva devem escutar somente sua voz. Fruto da liberdade inseparável do amor criativo de Deus, a mulher passa a escutar outro que não Deus: o Tentador, aquele cuja essência é não amar. A serpente insinua na mulher que Deus é fraco, ciumento das coisas e de si. E Eva passa a pensar que ela também poderia ser uma espécie de deus, esquecendo-se de que já era “como Deus”, pois criada à sua imagem e semelhança: “A mulher viu que seria bom comer da árvore, pois era atraente para os olhos e desejável para obter conhecimento. Comeram, ela e seu marido, e seus olhos se abriram e repararam que estavam nus. Teceram para si tangas com folhas de figueira” (cf. Gn 3, 6-7).

Eva retirou os olhos de Deus e voltou-os para a árvore: de uma realidade viva – Deus – para um objeto – árvore – que não tem capacidade de gerar vida, amor, relação, comunhão. Adão e Eva se privam do tudo que já possuíam na relação com Deus para caírem na tentação desastrosa da auto-afirmação que se garante possuindo, trocaram o amor pessoal pelo amor às coisas.

Criaram a ilusão de que possuir significa realização, o que é a raiz do sofrimento na história. Transferem os atributos transcendentais do Deus vivo para uma árvore: a unidade (uma árvore), a bondade (boa de se comer), a beleza (agradável aos olhos), e a verdade (para adquirir sabedoria). É o pecado, cuja raiz é a sede de autodivinização, o ódio à graça. Aquele que era chamado à divinização pela graça, quis sozinho fazer-se Deus.

O homem e a mulher perceberam que estavam nus: afastados de Deus, tinham perdido o pudor que revela a beleza, e sentiram vergonha. Trançaram folhas de figueira para se cobrirem: a Beleza, porém, não se manifestava, pois ela é fruto do olhar contemplativo e não do olhar invasivo. O erotismo possessivo, puramente carnal, toma o lugar da Beleza, possível somente no pudor.

E Deus, o amor não amado trocado por uma árvore, o que faz? Ama, pois é próprio do amor amar sempre. Diante dos dois que estavam envergonhados, mas tomados pelo fingimento (um passa a culpa para o outro), respeita a escolha deles e os tira do paraíso, do diálogo divino-humano. Antes, porém, decide garantir que o homem e a mulher dele não se esqueçam e continuem a procurá-lo. A simbologia bíblica afirma, então, que “o Senhor Deus fez para o homem e sua mulher roupas de pele com as quais os vestiu” (Gn 3, 21; cf. 2Cor 5, 1-4). Nascia a religião e a religiosidade, a busca incontrolável plantada em cada coração humano para reatar (religar) com Deus. Ao se contemplarem, o homem e a mulher percebem essa veste carinhosamente confeccionada por Deus e saem a procurá-lo. Todas as religiões dão testemunho dessa busca, porque Deus em cada uma delas plantou a necessidade dele. Seus ritos, sacrifícios, dogmas e mitos querem reatar o diálogo paradisíaco, mas fazem gerar o medo do castigo, o que Deus não quer, pois no amor não há temor.

Na sua loucura de amor pelo ser humano, sua querida criatura, Deus escolhe um povo a quem amar, a quem manifestar sua pedagogia de reencontro e que receberia a missão de propagá-la através da história. E quando os tempos estavam maduros, “a Palavra de Deus se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14). Já que o homem não quis entrar em Deus, o Filho eterno decide entrar em nós. É possível amar, é possível ser amado. E, o mais importante, sabemos que existimos, pois Deus nos ama. O reencontro se dá na Palavra que se faz carne para que o ser humano novamente recupere a semelhança com Deus. Isso é obra da graça, nunca da competência humana, obra do Deus Filho que assume nossa natureza.

Pe. José Artulino Besen


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MARIA IMACULADA, MÃE DE DEUS

Ícone da Virgem de Vladimir – Séc. XII

Primeiramente a piedade popular e, em seguida, a Liturgia, festejou a Imaculada Conceição de Maria. A humilde invocação de uma jaculatória faz-nos lembrar essa verdade: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”. Na Ladainha Lauretana o gênio cristão sintetizou esse título mariano de modo perfeito em três invocações: Virgem Puríssima, Virgem Santíssima, Virgem Mãe de Deus. Ela é Mãe de Deus porque Puríssima e Santíssima, e é Santíssima por ser a Mãe de Deus.

Quando em meio às controvérsias doutrinais do século V se discutia a divindade do Homem Deus Jesus Cristo, alguns teólogos afirmavam que Cristo Filho de Deus é Deus verdadeiro, mas Jesus Filho de Maria não o seria. A discussão toda tinha um objetivo único: afirmar que aquele homem que viveu em Nazaré e ressuscitou em Jerusalém é Deus verdadeiro. Para preservar a unidade da Igreja, os Bispos da Igreja se reuniram em Éfeso em Concílio Ecumênico, o quarto, no ano 431. Perceberam que em Maria estava o caminho para definir a unidade da humanidade e da divindade em Jesus: se Maria fosse Mãe apenas do Menino de Belém, aquele Menino seria somente humano, e se estaria negando o mistério da Encarnação do Verbo. “Está bem, dizia o Patriarca Nestório: Maria é Mãe de Jesus homem e Deus é Pai de Jesus Deus”. Com isso se dividia a Pessoa de Jesus, nosso Senhor, o que seria blasfemo.

Movidos pelo Espírito Santo, o Pais da Igreja em Éfeso afirmaram a unidade divina e humana de Jesus proclamando Maria Mãe de Deus, a THEOTÓKOS, em língua grega. É a Mãe de Deus porque não se pode dividir em dois o Senhor. Esse título mariano nos faz ingressar na esfera do amor de Deus, onde somente a adoração silenciosa pode expressar a fé e mover à caridade: Maria é Mãe de Deus, é Virgem Filha de seu Filho, é o abismo nos qual se precipitam os verdadeiros adoradores.

A proclamação do dogma da Imaculada Conceição (Maria concebida sem pecado) em 1854, pelo Papa Pio IX, com festa celebrada em oito de dezembro, se insere em toda a reflexão eclesial sobre o mistério de Jesus, Deus de Deus e Luz da Luz. Maria é concebida sem pecado, livre da herança dos filhos de Adão que nascemos com o pecado das origens. Maria inaugura a derrota do antigo Inimigo, Satanás (Gn 3,15).

Talvez essa invocação nos faça perder a grandeza do mistério do amor do Pai por sua Filha predileta, melhor expressada nas três invocações da Ladainha: Virgem Puríssima, Virgem Santíssima, Virgem Mãe de Deus. São João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, meditando sobre Maria afirma: “O nome Theotókos, Mãe de Deus, contém todo o mistério da história da salvação”. Nesse nome está tudo o que dizemos de Cristo e, por conseqüência, tudo o que dizemos da Maria. Ela é a Mulher inimiga da Serpente, a Mulher vestida de Sol, é a Coroa de todos os dogmas: Mãe de Deus, filha de Deus.

Maria não é apenas concebida sem pecado. Ela é puríssima e santíssima. Esse mistério de sua santidade absoluta, que torna virginal todo o seu ser, é fruto do encontro com o Anjo da Anunciação (Lc 1, 26-38): após seu livre “sim”, Maria é totalmente envolvida pelo Espírito Santo. Em sua liberdade, o Espírito Santo a guarda de toda impureza e a torna puríssima e santíssima. O Espírito que personifica a santidade divina concede a Maria personificar a santidade humana: nela é-nos oferecida a santidade divina.

A carne puríssima de Maria dá a carne da natureza humana ao Filho de Deus e João Batista salta de alegria no seio de Isabel quando as duas mulheres se encontram (Lc 1, 39-53).

O Santo que dela nasce é o troféu da humanidade e Maria é o troféu do Santo que gerou. Cada vez que veneramos os belíssimos ícones da Mãe de Deus, como a Virgem de Vladimir, ou do Perpétuo Socorro, entramos no Reino da Beleza onde tudo se resolve no amor salvífico: a Mãe extasiada contempla o Infinito, o Filho carinhosamente acaricia sua Mãe. Tomando o lugar do Filho no colo mariano, ouvimos a palavra de consolo e entrega do Calvário: “Mulher, eis aí teu filho”, “Filho, eis aí tua Mãe”.

Pe. José Artulino Besen

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A ANUNCIAÇÃO DA ENCARNAÇÃO DO SENHOR

Anunciação

Anunciação

O dia 25 de março, festa da Anunciação do Senhor, celebra o momento central da história da salvação: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória (Jo 1, 14). O Filho eterno de Deus renuncia à glória divina (cf. Fl 2, 6-11) e, pela ação do Espírito Santo, germina como homem/Deus em Maria.

O seio virginal de Maria representa toda a criação que acolhe a divindade: o ventre de Maria é a arca que recebe a eternidade e nesta, a plenitude dos tempos. O russo Pavel Florensky, cientista-teólogo e mártir do stalinismo afi0rma que toda a história mundial está contida inteiramente em Maria e tudo o que Maria significa se expressa no momento doa anunciação. Com a humanização de Deus se inicia a divinização do homem.

Maria dá início a seu caminho espiritual

A encarnação do Filho de Deus reconstrói as pontes entre Deus e o homem, entre o céu e a terra. Um anjo, Gabriel, que se aproxima de Maria de Nazaré, filha de Joaquim e de Ana, noiva de José (Lc 1, 26-38) e lhe quebra as seguranças. Ela é colocada diante do Deus do diálogo que a interpela a colaborar. Se quiser, pode continuar com seus projetos; é assim que Deus aborda aqueles a quem ama: Deus é diálogo.

O Anjo revela a Maria que Deus é promovedor: se ela quiser, deixará a vida privada e se inserirá num desígnio divino. Ela, porém, é livre e deve decidir.

Maria escuta, pergunta, silencia: Deus respeita a sua pessoa e está ali, esperando a resposta. Livremente, aceita entrar no plano de Deus: Eu sou a serva do Senhor. Aconteça-me segundo a tua palavra! (Lc 1,38). Nesta hora, em Maria estão todas as criaturas, ela contém todos os tesouros que o amor divino preparou para a humanidade que ele quer à sua imagem e semelhança.

Comunhão com o Espírito Santo

O sim a Deus é como o vento impetuoso: tudo é transformado. A virgindade de Maria transforma-se em maternidade. O Deus onipotente aceita a oferta virginal e, preservando-a, gera a maternidade divina. O Todo-Poderoso rebaixa a divindade e eleva a humanidade, num diálogo cujo autor é o Espírito Santo: despojado da condição divina, o Filho eterno aceita ser o filho.

Muitas vezes nossa fé conhece dificuldades porque gostaríamos que Deus se servisse da nossa lógica. Mas ele é paradoxal (cf. Lc 1, 46a.-55, o Magnificat): coloca, lado a lado, a grandeza e a miséria, a maternidade e a virgindade, a presença divina e a fragilidade. Maria é a realização perfeita do paradoxo divino: a virgem de Nazaré é, ao mesmo tempo, a Mãe do Senhor. O fruto de seu ventre é o Criador imortal que quis ser um mortal; gerado eternamente, quis ser gerado no tempo; o mistério incompreensível quis ser compreendido; quem sempre existiu começa a existir nos tempos. O Deus verdadeiro gerado em Maria é o homem verdadeiro (cf. Leão Magno, Tomo a Flaviano, 3-4).

O sim de Maria, como todos os “sim” a Deus proferidos na história, revoga certezas e oferece a mão a quem livremente aceita mergulhar na lógica divina.

E o anjo a deixou, conclui Lucas a sua narração. Maria continua ali, não na solidão humana, mas na solidão de não ter mais planos pessoais. Por pouco tempo. Logo irá ao encontro de Isabel e passará a experimentar o Deus imprevisível que realiza o Reino através da fraqueza e do sofrimento. Mas em suas experiência de Deus, no mistério de seu Filho, a Virgem de Nazaré sempre ouvirá a ternura da saudação do Anjo: Alegra-te, Maria!

E nós vimos a sua glória

Maria de Nazaré é a primeira visibilidade da glória de Deus (Jo 1, 14; 1Jo 1,2), pois nela está o Senhor da glória. A eternidade a contempla e todos os povos se alegram pois “a raiz de Jessé haverá de brotar, e haverá de surgir uma flor de seu ramos; pousará sobre ele o Espírito Santo” (Ant. das Vésperas). E o mesmo Espírito encherá de alegria os que esperam o Salvador, os corações simples abertos à grandeza do Deus pobre: Isabel dá um grande grito, João Batista pula no ventre de sua mãe, Simeão se alegra tanto que aceita morrer, a profetiza Ana torna-se louvor contínuo. Rompeu-se o dique construído por Adão e Eva e as águas celestes purificam as terrestres. Através de Maria a glória de Deus passou a ser glória de todos os homens e mulheres de boa vontade.

A Liturgia oriental penetra com profundidade o mistério do Filho através do mistério da Virgem Mãe que é saudada como “sarsa que arde mas não se consome” (Ex 3,2), “abismo insondável”, “ponte que conduz ao céu e escada que até lá se eleva” (Gn 28,12), “nova Eva que desfaz a maldição da primeira Eva”, “porta pela qual o Eterno passará e que depois permanecerá fechada” (Ez 44,2).

O mistério de Maria – Deus em Maria

Assim como a tradição da Igreja viu no Antigo Testamento a figura do Novo Testamento, lá a sombra, aqui a luz, vê em Maria a criatura que livremente aceitou ser modelada pelo Espírito Santo, artista do Pai e do Filho. Nela se concretizou o plano eterno de Deus de nos reconciliar consigo e nos divinizar.

A presença do Filho no ventre de Maria já é realização da divinização da humanidade: como só é redimido o que é assumido, na carne de Maria está a carne de toda a humanidade.

O teólogo e místico alemão Wilhelm Klein (1889-1996: 107 anos!) vê no mistério de Maria “Deus em Maria”: nela todos os homens são purificados, justificados, santificados, por meio de Jesus no Espírito Santo. Ela é o “segredo” da Trindade: nela o Pai e o Espírito encarnaram o Filho eterno.

Um anjo se encarrega dessa missão prodigiosa;
um regaço virginal acolhe o Filho;
o Espírito Santo é enviado do alto;
o Pai, nos céus, se compraz
e a união acontece por vontade comum
 .

(Tropário da Festa).

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«ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS»

Ele está no meio de nós!

Ele está no meio de nós!

O Verbo se fez carne, e habitou entre nós.

 (Jo 1,14).

O mistério da encarnação do Filho de Deus torna possível e dá sentido a todos os mistérios cristãos. Se Deus não tivesse assumido a condição humana, nós não poderíamos ir ao seu encontro. Deus quer ser nosso amigo, mas, permanecendo um Deus inacessível, não poderia ter amigos humanos, pois seria impossível a comunhão, o diálogo. Assim, na sua bondade, Deus se faz homem para que nós possamos conversar com ele, privar de sua amizade. A oração é esse momento impressionante de comunhão: por ela vamos até Deus e, por ela, Deus vem até nós. Força do homem, fraqueza de Deus.

Por causa do diálogo Criador-criatura, todos os sacramentos têm matéria e espírito: água, óleo, pão, vinho, homem-mulher, imposição das mãos. Isso de nossa parte; da parte de Deus, a Palavra que faz o Espírito consagrar a matéria. Pelos sacramentos Deus se humaniza e o homem se diviniza.

Ele está no meio de nós

Pelos sacramentos, Ele está no meio de nós. A Eucaristia é a prova mais sensível dessa presença: oferecemos pão e vinho, Deus devolve Corpo e Sangue de seu Filho. Apresentamos nossa miséria, Deus a transforma em força e nos alimenta com o Pão e o Vinho consagrados. Dizermos: Ele está no meio de nós! é pouco: Ele está dentro de nós, Ele e nós nos tornamos um. Se tivéssemos os olhos purificados pela graça, como os Apóstolos no Tabor, veríamos que a procissão da Comunhão é uma procissão de luz. Cada criança, velho, jovem, homem, mulher, ao receber a comunhão se tornam luminosos. Uma igreja, mesmo escura, se torna resplandecente na procissão eucarística: pena que nossos olhos sejam ainda puramente físicos e não enxerguem essa beleza real, verdadeira. Deus humano e Homem divino. Mistério de fé, esse, porque é o grande mistério do amor. Custa-nos crer, porque custa-nos aceitar que alguém possa amar-nos a tal ponto, como Deus.

Ele está no meio de nós: vinde e vede! Podemos ver a Presença no Pão. Mesmo correndo o risco dos exageros e coisificações da piedade popular, a Igreja sempre afirma que o Pão consagrado pode ser guardado, exposto, adorado, reservado para os doentes. A Igreja o expõe para a adoração e a bênção. Passando por uma igreja, podemos adorar a Presença que se encontra no sacrário. São Francisco pedia a seus frades que, ao passarem por uma igreja, se ajoelhassem e dissessem: Nós vos adoramos Senhor Jesus Cristo, presente nesta igreja e em todas as igrejas do mundo! Podemos ver o Senhor, se formos capazes de ir além das aparências. No Santíssimo Sacramento, o que vemos é aparência, o que existe é a realidade: o Senhor.

A Festa do Corpo de Deus

Em 1264, o papa Urbano IV estendeu para toda a Igreja [Latina] a Festa de Corpus Christi. Santo Tomás compôs os hinos do Ofício litúrgico. Quem não conhece e canta o Tão sublime Sacramento? Pois é de Santo Tomás e a Igreja [Latina} o canta há quase 800 anos.

Por entre aclamações, cantos, fogos, orações, incensos, multidões, tapetes floridos, vai o Senhor em procissão. Ele sente as alegrias das aclamações humanas, para que as criaturas sintam as alegrias divinas. É o Senhor festejando conosco o Mistério da Fé. Vinde e vede, o Senhor está em nós e no meio de nós.

A Igreja sofreu muito quando teve de nos obrigar a comungar ao menos uma vez ao ano. Sofreu pela indiferença de seus filhos que não querem ver o Senhor, que não querem com ele fazer amizade, que não o querem como Pão e Vinho, festa de amor. Fujamos do caminho das obrigações e enveredemos pelas estradas da amizade que conduzem ao altar: lá está o Senhor, cheio de afeto, majestade e poder. Para ser adorado e consumido.

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