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BEM-AVENTURADA IRMÃ DULCE DOS POBRES

Bem-Aventura Irmã Dulce dos pobres – a Missionária da Misericórdia

Maria Rita Pontes – Irmã Dulce – nasceu em Salvador da Bahia em 26 de maio de 1914 e foi ao encontro de Deus em 13 de março de 1992 após 16 meses de sofrimento pacientemente suportado e ofertado. O Anjo Bom da Bahia que andava pelas ruas de Salvador recolhendo pobres e donativos é a Bem-aventurada Irmã Dulce. Ouvindo o povo que a amou e com ela aprendeu a misericórdia, a Igreja a proclamou Bem-aventurada em 22 de maio de 2011, em liturgia celebrada em Salvador. Seunome de Santa é Bem-aventurada Dulce dos Pobres, Bem-aventurada Irmã Dulce dos Pobres.

Em 1932, com 18 anos, Irmã Dulce entrou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, em Sergipe. Dois anos depois, retornou à Bahia, onde dedicou toda a sua vida às obras de caridade.

Sentindo o chamado a trabalhar com os pobres e doentes, serviu como enfermeira no Sanatório Espanhol. Quis preparar-se melhor e fez curso de Prática de Farmácia, aprendendo a manipular receitas. Um ano depois prestou exame na Secretaria de Educação e Saúde do Estado e foi aprovada na dissertação sobre o tema “Cápsulas e Comprimidos”.

Nomeada para lecionar Geografia no Colégio Santa Bernardete, foi mestra querida mas, as Irmãs notavam que alguma coisa não ia bem com Irmã Dulce: seus olhos contemplavam a paisagem da cidade e se comentava “Irmã Dulce só pensa nos pobres”.

Recebeu licença para abrir um curso noturno para os operários. A Madre Provincial liberou-a das obrigações no Colégio e deixou-a abrir as portas do convento para ganhar as ruas e dar-se aos pobres. Agora dedicava-se a ensinar letras e religião aos operários e seus filhos perto das fábricas e, na tarde dos domingos, visitar os moradores de uma invasão nos mangues do Caminho de Areia. Seus olhos transfigurados pelo Amor contemplavam a miséria geral, a imundície, as crianças famintas e desnutridas atrás de cada janela. Levava remédios que conseguia nas farmácias, providenciava consultas, procurava postos de emprego. A invasão crescia, era agora a favela dos Alagados, depósito do lixo urbano onde os famintos competiam com os urubus por algum alimento. Irmã Dulce teve clara sua vocação: estar com os pobres.

Bem-Aventura Irmã Dulce dos pobres – a Missionária da Misericórdia

A missionária da misericórdia

Em 1935, além da assistência aos pobres dos Alagados, visitava fábricas, oferecendo aos operários o Posto Médico instalado numa velha oficina. Em junho, com seu grande animador Frei Hildebrando, formou a União Operária de São Francisco, com posto médico, farmácia e cooperativa de consumo. Em 1937 nascia o Círculo Operário da Bahia. Dali em diante as obras foram surgindo, sempre a partir do olhar misericordioso dirigido aos pobres, aos operários, oferecendo atendimento médico, odontológico, cursos de primeiras letras, profissionais, corte e costura, culinária, oficinas, salas de recreação.

Mas, no decorrer de 1939 um fato reorientou sua vida: um pequeno jornaleiro veio a seu encontro pedindo um pouco de amparo, de amor. Irmã Dulce não podia ficar indiferente. Recolheu o menino e o abrigou num galinheiro vizinho ao Convento. Pronto: de um galinheiro nasce um hospital. Limpou o ambiente, procurou lençóis, camas, colchões. Irmã Dulce não esperava os doentes e aflitos: ia procurá-los nas ruas e tocas de Salvador. Em buraco feito quarto encontrou um homem esperando a morte. Recolheu-o.

O pequeno hospital crescia, também as necessidades. Pela manhã Irmã Dulce saía pelo comércio pedindo pão, leite, remédio, roupa e dinheiro. Alguns reclamavam: “Dar dinheiro para essa freira é como colocar água em balaio! Eta freira pidona!”.

Irmã Dulce necessitava também de um amigo no céu. Encontrou-o na pessoa de Santo Antônio. Que amizade surgiu entre os dois! Santo Antônio gostava também de brincar: numa noite fria e chuvosa, pobres pediam cobertores. Irmã Dulce pede socorro ao amigo. Pouco depois chega um Jeep carregado de cobertores. Mal acabam de descarregá-lo, desaparecem carro e motorista. Só podia ser Santo Antônio.

O Hospital dele recebeu o nome. As obras cresciam. Irmã Dulce batia em todas as portas. Movimentava empresários, banqueiros, políticos, o povo, mercados, feiras, em busca de auxílio. Suas Obras Sociais englobavam hospital, ambulatório, abrigo de idosos, centro de recuperação de dependentes químicos, casa para abrigar e profissionalizar jovens em Simões Filho. Médicos, enfermeiros, voluntários apareciam para ajudá-la. Seu Banco era a Divina Providência, o gerente Santo Antônio.

Em 1983, na alegria de seus 50 anos de vida religiosa realizou o grande sonho: inaugurar o novo Hospital Santo Antônio, com 800 leitos, conforto, o maior Hospital da Bahia, onde o doente nada paga: basta ser pobre. Um Hospital com conforto: Irmã Dulce dizia que o pobre deve receber o melhor, pois é o preferido de Deus e é bom não ofender a Nosso Senhor! E quem pagou construção e equipamentos? A Divina Providência.

Irmã Dulce, agora famosa e reconhecida, continuava pelas ruas, buscando pobres e socorro. Seu ser era inseparável do Pobre/Cristo e do Cristo/Pobre. A força dessa Irmã era sua fragilidade: somente 40% de um pulmão oxigenava seu corpo frágil e forte, sua magreza quase transparente. À noite, sentava-se uma ou duas horas, e esse era seu descanso. Tudo era urgente, pois o pobre é Jesus e deve receber a melhor atenção.

Aquela mulher de hábito branco e azul, cabeça coberta com véu azul andando pelas ruas, era a grande missionária vivendo e anunciando as Bem-aventuranças. Nela, Deus tornou-se visível ao povo baiano e brasileiro. Missionária da palavra transfigurada em vida.

Como é bom poder invocá-la, agora: Bem-aventurada Dulce dos Pobres, rogai por nós!

Pe. José Artulino Besen

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O CRISTO TRANSFIGURADO É O BOM JESUS

bom-jesus

Diz a sabedoria africana que “a mais longa e difícil viagem é a do cérebro rumo ao coração”, o que nos faz sofrer muito, pois estamos sempre racionalizando os acontecimentos, incapazes que somos de analisá-los com os olhos do coração. Nossa existência tem como fundamento o coração, o que contradiz a afirmação do filósofo Descartes, “penso, logo existo”. Se acharmos realmente que o pensamento é a base da vida, não conseguimos vivenciar o mistério central da fé cristã: “E a Palavra/Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1, 14). A palavra é a exclamação da carne dolorida ou feliz, vitoriosa ou derrotada, carinhosa ou enraivecida, por ela nosso coração se revela em plenitude. Deus feito carne em Jesus nos comunica tudo, e o Senhor se torna o narrador do Pai: toda a vida de Jesus é descrição da vida divina, é palavra viva.

No cristianismo, ao invés do que acontece com outras religiões e com a própria filosofia, não há lugar para a dualidade/divisão corpo-espírito. Isso é fruto do pecado que, dividindo o homem, transformou o corpo em objeto, em posse, a ponto de se afirmar “eu tenho um corpo, e dele faço o que bem entendo”. Então se reduz a vida ao pensar e ao libertar-se dos condicionamentos do corpo/carne. Com sua encarnação, Cristo quer restituir aos pecadores o próprio corpo: eu sou um corpo, não tenho um corpo! A distinção corpo-espírito é apenas transitória ou então um recurso para facilitar nosso raciocínio.

Na Comunhão eucarística nós recebemos o Corpo de Cristo, eficaz medicina. A cura do corpo é a cura da pessoa, recuperando sua unidade fundamental rompida pelo pecado e que nos faz querer o que não fazemos e fazer o que não queremos.

A festa litúrgica da Transfiguração do Senhor (6 de agosto) revela-nos o Senhor glorioso que se manifesta a Pedro, Tiago e João (Mc 9, 2-10). Mais resplandecente do que o sol, é o mesmo Senhor que em seguida revela sua identidade e realeza na Cruz: “Pai, chegou a hora. Glorifica teu filho, para que teu filho te glorifique” (Jo 17, 1). A identidade de Jesus é manifestada na carne doada para a nossa vida, na carne transfigurada pela doação total no amor, para que nossa carne também se transfigure no amor.

A alma popular vive a Transfiguração celebrando os passos do Bom Jesus na sua Paixão: festeja o Bom Jesus. Os pobres que vivem as Bem-aventuranças são mais capazes de ver o Bom Jesus na Transfiguração e o Transfigurado no Bom Jesus. Não separam a carne sofredora da carne gloriosa do Senhor transfigurado. É um só e mesmo Senhor, tão amado na piedade eslava como o Senhor da Humildade.

Os que vivem a pobreza evangélica “certamente conhecem a generosidade de nosso Senhor Jesus Cristo: de rico que era, tornou-se pobre por causa de nós, para que nos tornemos ricos, por sua pobreza” (cf. 2Cor 8,9; Fil  2, 5-11). Cristo veio oferecer-nos sua vida como dom, desse modo nos enriquecendo com sua pobreza. Todo dom significa empobrecimento para que o outro seja mais rico e, desse modo, nossa pobreza se torna riqueza no outro: o rico enriquece o pobre, e o pobre enriquece o rico. Desse modo, a pobreza é plenitude, não vazio. Assim, emprestando os olhos de Pedro, Tiago e João, contemplam o Cristo humilde e nele vêem o Cristo glorioso.

O Senhor que nos céus está à direita do Pai é o Senhor pobre, chagado e, por isso mesmo, glorificado pelo amor que nos doa, e o Pai se empobrece nos doando o Filho.

Não há outro caminho para nós, cristãos: ou nos enriquecemos tudo doando, ou permanecemos pobres conservando tudo. Isso se torna realidade a partir do momento em que nosso cérebro empreende a grande e dolorosa viagem rumo ao coração, em que o cálculo mesquinho da segurança pessoal dá lugar à abundância da generosidade. E sentiremos profundamente o amor divino que “ama a quem dá com alegria” (2Cor 9,7).

Ao afirmarmos que a Igreja é o Corpo de Cristo, afirmamos que ela não está em Roma, Jerusalém, Genebra, Constantinopla: a Igreja está não onde há sucesso, riqueza, prestígio, influência, mas onde é visível a pobreza de Cristo. É ali que Cristo faz a pergunta fundamental: “O que fizeste do teu irmão?”. Cristo é o mendicante que bate à porta: “Eis que estou à porta e bato (Apoc 3,20). Se o acolhemos, com ele ceamos e formamos a Igreja, seu corpo.

Entramos no espírito das Bem-aventuranças: quanto mais pobres forem os sinais cristãos, mais serão eficazes, pois Jesus valorizava os pequenos sinais: os pobres, os marginais, as crianças, a mulher pecadora… O Senhor transfigurado é sempre o Bom Jesus, o Senhor da Humildade.

Pe. José Artulino Besen

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