Posts Marcados Deserto

IREI AO TEU ENCONTRO

Oração ao encontro da morte

Creio, sim, eu creio que num dia,
o teu dia, ó meu Deus,
me dirigirei ao teu encontro com meus passos titubeantes,
com todas as minhas lágrimas na palma da mão,
e com esse coração maravilhoso que tu nos deste,
esse coração grande demais para nós
porque foi feito para ti…

Um dia te encontrarei, e tu lerás em minha face
todo o desconforto, todas as lutas
todo o lixo dos caminhos da liberdade.
E verás todo o meu pecado.
Mas eu sei, meu Deus,
que o pecado não é grave,
quando se está na tua presença.
É diante dos homens que somos humilhados.
Mas, diante de ti, é maravilhoso sermos assim tão pobres,
a tal ponto somos amados!

Um dia, no teu dia, meu Deus, eu irei ao teu encontro.
E na autêntica explosão da minha ressurreição,
saberei então que és tu, a ternura,
que és tu, a minha liberdade.
Irei ao teu encontro, meu Deus,
E tu me darás a tua face.
Irei ao teu encontro com o meu sonho mais louco:
Entregar-te o mundo em meus braços.

Irei ao teu encontro, e gritarei a plenos pulmões
toda a verdade da vida sobre a terra.
Te gritarei o meu grito que vem da profundeza dos séculos:
“Pai! Tentei ser um homem,
E sou teu filho”.

JACQUES LECLERCQ
Collectif, Ecoute, Seigneur, ma prière,
Paris 1988, p. 490
tradução: Pe. José A. Besen
­

, , ,

Deixe um comentário

O SILÊNCIO É FÉRTIL

«São Pedro, mártir pedindo SILÊNCIO» Nicholas Lochoff (1948) - Frei Angélico (Florença, 1400? -1455), Original (após 1438), no Claustro de São Marcos, Florencia, Afresco.

«São Pedro, mártir pedindo SILÊNCIO» Nicholas Lochoff (1948) - Frei Angélico (Florença, 1400? -1455), Original (após 1438), no Claustro de São Marcos, Florencia, Afresco.

«Quem vigia sua boca, guarda sua vida,
quem muito abre seus lábios se perde»
(Provérios 13,3)

O silêncio! Ao contrário do que a maioria pensa, o silêncio não é perda de tempo, não é fuga da palavra construtiva, da ação. As pessoas que revolucionaram o mundo vieram do deserto, onde tiveram a experiência fértil do silêncio: foi no deserto que Moisés aceitou a missão de ir libertar seu povo do Egito. Foi no deserto que Jesus se preparou para sua missão de redentor do mundo. Foi no deserto que Paulo se fortaleceu para as viagens missionárias. Foi no deserto do Saara que Charles de Foucauld, oficial francês, deu a largada de um grande movimento de espiritualidade cristã e humanística.

O deserto é silêncio. O silêncio produz o encontro com o Deus da vida. Quem não passa pela experiência do silêncio, não sentirá a passagem de Deus por sua vida. Vai perder as melhores oportunidades de crescimento pessoal, pois estará sempre mergulhado na agitação do mundo.

Nossa vida precisa de silêncio a fim de que possamos refletir, avaliar nossas atitudes. A criatividade das grandes personalidades foi gerada no silêncio.

Nossas casas são agitadas pelo barulho, e o silêncio transformador é morto pela parafernália eletrônica que nos enche os ouvidos, os olhos, e embota o coração. Fazemos de tudo para fugir do silêncio: é o vazio interior.

Somos tão cercados pelo barulho do som e da imagem, que perdemos a sensibilidade pelas pessoas. Não calando, não ouvimos. Quanto mais o ruído nos dominar os sentidos, menos teremos paciência para escutar alguém. Nossas casas tornam-se ninhos de solidão e insensibilidade, porque perdemos a disposição para a conversa, para o diálogo. A mesa da refeição, lugar favorável para o encontro familiar, fica diante de uma Televisão sempre ligada: pais e filhos se desinteressam da conversa amiga, pois os ouvidos estão concentrados no programa do momento. Assim, as pessoas vão se tornando estranhas, mesmo convivendo sob o mesmo teto.

Somos os grandes prejudicados pela ausência do silêncio, porque acabamos não nos escutando mais. Pior ainda, teremos medo do silêncio que nos coloca frente a frente com nossa consciência, e não conseguimos refletir sobre nossa própria vida, nossas atitudes. No final, teremos medo de nós mesmos. Vem a depressão, o sentimento trágico e destrutivo de estarmos sozinhos no mundo, de não termos quem se preocupe positivamente conosco. A culpa inicial foi nossa, incapazes que fomos de nos preocuparmos com os outros. E o barulho será o remédio para fugirmos de nós mesmos.

O homem que gosta do silêncio é uma pessoa em paz consigo mesmo. A mulher que ama o silêncio é uma pessoa de bem com a vida. Seu silêncio será contemplação feliz da própria existência.

Deus age sempre no silêncio de nosso coração. Sem atenção, sua presença passará despercebida, e o sentiremos sempre mais distante de nós.

, ,

Deixe um comentário

DEUS NOS CONDUZ AO DESERTO PARA FALAR-NOS

“Assim diz o Senhor: ‘Eu a conduzirei levando-a à solidão, onde lhe falarei ao coração’”

(Os 2, 15-16).

O deserto é o local do encontro: nele o Povo conheceu a Aliança; nele João Batista anunciou o Salvador; nele Jesus enfrentou Satanás; nele os cristãos dos primeiros séculos (e de hoje) buscaram a liberdade de escutar a Deus; nele Charles de Foucauld enfrentou a sedução do retorno ao passado. Nele, no deserto do silêncio, está a possibilidade de fugirmos da esterilidade de uma vida espiritual feita de ruídos, sentimentalismos e palavrório estéril, gritado por pregadores sem vida interior para ouvintes que fogem da vida interior. E todos saem satisfeitos, porque pensam estar livres do “inimigo”. Enganam-se: o “inimigo” arma sua tenda na próxima esquina e de barulho em barulho os privará da experiência amorosa do Senhor.

Se o homem é um apêndice do barulho, não é sujeito de uma história pessoal. Se o barulho é um apêndice da vida humana, pode e deve ser combatido para que atinjamos a riqueza da intimidade.

No barulho não há liberdade. E a liberdade nos liberta para a escuta de todas as vozes da criação, vozes sutis, captadas somente por quem vive com atenção a construção de sua existência. Nas vozes da criação discerniremos a voz de Deus.

O Senhor nos fala ao coração. Ele nos rapta para conduzir-nos ao deserto, a fim de que escutemos sua confissão de amor por nós. O Cristo frágil de Belém e fragilizado na cruz de Jerusalém nos comunica a força em seu silêncio de amor

,

Deixe um comentário

A CRUZ, IMAGEM DA TRINDADE E DA IGREJA

Exaltação da Santa Cruz

Exaltação da Santa Cruz

Através do “Vitória! Tu reinarás! Ó Cruz, tu nos salvarás!” entoamos um hino eslavo que expressa ricamente o mistério da Cruz. A primeira estrofe não deixa dúvidas sobre a vocação da Igreja: “À sombra de teus braços, a Igreja viverá. Por ti, no eterno abraço, o Pai nos acolherá!”. A Cruz é o abraço amoroso da Trindade. Sem a Cruz, e sem cristãos assumindo a cruz, não há vida na Igreja: apenas a ilusão diabólica de que estar livre da cruz é sinal de amor privilegiado de Deus.

A tentação de Cristo no deserto (cf. Lc 4, 1-13) foi a tentação da fuga da cruz e da apresentação do sucesso como caminho messiânico, tentação de tudo resolver através do milagre, do espetáculo: “Se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: ‘Ordenou aos seus anjos a teu respeito que te guardassem. E que te sustivessem em suas mãos, para não ferires o teu pé nalguma pedra’ (Sl 90,11ss). Jesus disse: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’ (Dt 6,16)”.

Na Sexta-feira santa, sofrendo as mais atrozes dores e o abandono do Pai, o diabo volta à carga pela boca da multidão: “Que o Cristo, rei de Israel, desça agora da cruz, para que vejamos e creiamos” (Mc 15, 32). Queriam espetáculo! Jesus poderia ter descido da cruz e tudo estaria resolvido. Pelos quatro cantos do mundo se falaria do homem que prometeu morrer, sofreu dramaticamente, tudo em preparação para o grande teatro: descer da cruz poderoso, nos braços do povo sedento por milagres.

A Cruz, imagem da Trindade

Mas, o Senhor não poderia negar a própria identidade: ele é amor, e tudo o que é e faz brota do amor. A crucifixão não é a derrota, e sim, o sinal inequívoco de um amor total na doação: “Quando tiverdes levantado o Filho do homem, então conhecereis que EU SOU (=Deus) e que nada faço de mim mesmo, mas falo do modo como o Pai me ensinou” (Jo 8,29).

A Escola do Pai foi a da doação: alguém pode imaginar que um pai, separando-se do filho para doá-lo em resgate de uma multidão ingrata, sinta prazer? A primeira Cruz foi a do Pai, quando permitiu que seu Filho se despojasse da condição divina para ser igual a nós (cf. Fil 2,6-8). Quando Jesus se retirava para orar, consolava o Pai por sua ausência, e o Pai o consolava em seu abandono filial. Deus Pai esvaziou-se da paternidade e o Filho, da filiação. A Cruz é a imagem da Trindade: nela sofreram o Pai, o Filho e o Espírito Santo, pois o amor sem medida fez as três Pessoas se esvaziarem da comunhão divina.

O amor não é uma festa inocente. Dar o passo para declarar, na verdade, “eu te amo”, supõe enfrentar o sofrimento de se auto-anular: “Presentemente, a minh’alma está perturbada. Mas que direi?… Pai, salva-me desta hora… Mas é exatamente para isso que vim a essa hora. Pai, glorifica o teu nome!” (Jo 12, 27-28). A cada momento de sua vida pública Jesus era tentado a ser infiel ao Pai, caindo na ilusão do aplauso dos curados e alimentados. Ao mesmo tempo em que pedia ao Pai ser libertado daquela “hora”, sabia que aquela era a “Hora” da glorificação: o amor teria a última palavra, por toda a eternidade seria impossível amar com mais intensidade do que no Calvário, sinal da grandeza divina capaz de assumir a pequenez total.

A Cruz, imagem da Igreja

Fiódor Dostoiévski, na célebre passagem de Os Irmãos Karamázov (livro V), colocou essas palavras na boca do Grande Inquisidor: “Tu não desceste da cruz porque, mais uma vez, não quiseste alimentar o homem com o milagre, e desejavas ardentemente uma fé livre, e não uma fé dependente de milagres. Ardias por um amor livre, e não a bajulação servil do escravo diante do senhor”.

Cristo quer seus discípulos nutridos de uma fé livre, que se possa expressar num amor livre. A busca do milagre impede a liberdade da fé e a liberdade do amor. A fé e o amor incluem o esvaziamento de si para poder abandonar-se no outro. Assim, o Pai esvaziou-se do Filho para abandoná-lo em nossas mãos.

A Cruz permite ao homem a experiência do amor na liberdade, sem a necessidade de milagres. Somente quem participa do sofrimento de Cristo pode participar de sua glória e, deste modo, ser digno da ressurreição. Quando afirmamos que a Igreja é o Corpo de Cristo a contemplamos crucificada, renovando a fidelidade ao Pai e fazendo germinar a Vida nova: a cruz é sinal de sofrimento e de sacrifício, mas também sinal da salvação e da manifestação da glória de Deus. Uma Igreja que despreza a fidelidade da Cruz, e se empolga com a facilidade da estrada do espetáculo, nega a existência de Deus, pois, negando a fecundidade do sofrimento, ridiculariza o Deus Trindade cuja imagem é a Cruz. Ridiculariza os sofredores do pecado do mundo, pois considera-os vítimas do próprio pecado, quando a verdade cristã é outra: todo inocente que morre na sua inocência, carrega os pecados do mundo, e nisso é semelhante a Cristo e unido a ele. Afirmava São Serafim de Sarov: “Onde não há aflição não existe salvação”, pois não é possível a conversão, podemos acrescentar.

Celebrando a Exaltação da Santa Cruz, em 14 de setembro, cantemos o hino bizantino: “Senhor, tu nos deste a cruz como arma contra o demônio; ele se atemoriza e treme, não tendo coragem de contemplar esta potência que faz ressurgir os mortos e vence a morte; por isso nós veneramos a tua sepultura e a tua ressurreição”.

, , , , , ,

Deixe um comentário

QUARESMA – CAMINHO, SILÊNCIO, JEJUM

entrada_jerusalem2_med

Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém

O mistério pascal é o centro da vida de Igreja. Por este motivo ela nos oferece um caminho de quarenta dias (quaresma-quadraginta-quarenta) de preparação para que o vivenciemos. Na sociedade de consumo e das dependências materiais, custa-nos fazer a experiência do mínimo, do essencial, do silêncio, do cansaço da subida, da renúncia ao poder e à magia. O tempo quaresmal está cheio de ressonâncias bíblicas que nos levam à Aliança, à Terra prometida e à Glória.

O Dilúvio – mergulho nas águas da morte

“O Senhor viu que a maldade do homem se multiplicava na terra: o dia todo, seu coração não fazia outra coisa senão conceber o mal, e o Senhor se arrependeu de ter feito o homem sobre a terra. […] A chuva derramou-se sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites” (Gn 6, 5-6. 7, 12).

Assim como a água, símbolo da vida, pode levar à morte, assim a vida pode deixar de ser vida e transformar-se em morte quando voltada para si, distanciando-se daquele que é a Fonte, e também se distanciando daqueles que lhe dão sentido. Distante do Criador, o homem e a mulher adquirem uma imensa capacidade de forjar o mal e torná-lo atraente. Perde-se a capacidade de sentir que nada mais somos do que pó e cinza, aos quais somente o Senhor pode dar vida. O Senhor nos oferece uma água que, dando liga ao pó e à cinza, nos recria, faz de nós seres à sua imagem e semelhança: a água do batismo.

A peregrinação do povo pelo deserto

“Eu vos levarei ao deserto dos povos e lá, face-a-face, estabelecerei meu direito sobre vós” (Ez 20,35). É de Deus a iniciativa de restaurar a união, união à imagem da aliança conjugal: “Pois então vou seduzi-la. Eu a levarei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração” (Os 2,16).

O povo judeu vivera a experiência de um êxodo de 40 anos através do deserto, cujo limite era a Terra prometida. Para nos mostrar sua face, Deus não aceita concorrentes: exige que nos despojemos de todas as seguranças humanas. Então sentiremos como nele se encontra a verdadeira segurança e, mais ainda, a segurança de um amor adquirido na liberdade. Somente quem aceita entrar no deserto do silêncio, da insegurança, pode escutar as palavras sedutoras do Senhor, senti-lo aquecendo o próprio coração.

A aliança no deserto do Sinai

Após 40 dias no alto do monte Sinai, Moisés ficou de tal envolvido pela nuvem na qual ardia a glória de Deus que seu rosto confundiu-se com a própria nuvem. Ninguém mais podia olhar sua face, tal era o resplendor que dela emanava. A luz de Deus era também a sua luz. Nessa nuvem de luz o Senhor lhe entregou as tábuas da Lei: não tem sentido obedecer a Deus sem primeiro ter sentido seu amor, seu consolo, participado de sua luz.

Pedro, Tiago e João também contemplaram o Senhor, e caíram por terra, fascinados pelo esplendor que dele irradiava. O ser humano é feito para galgar alturas sempre mais desafiantes. O silêncio da subida – sempre na solidão – torna possível contemplar a glória de Deus. Se nos contentarmos em viver a batalha espiritual na planície, veremos sempre apenas alianças humanas, sem a alegria de sentir o Senhor.

Os 40 dias do caminho de Elias rumo ao Horeb

O coração de Elias ardia de ciúme por Deus: o povo tinha traído aquele a quem mais amava. Resolveu então pedir a morte, julgando não valer a pena trabalhar com um povo cuja história era sinônimo de infidelidade. Mas o Senhor não aceitou a decisão: “Levanta-te e come, senão o caminho será demasiado longo para ti” (1Re 19,7). Foi alimentado a cada dia com um pão e uma bilha de água trazidos por um anjo. Pouco alimento, mas suficiente. Uma existência carregada de supérfluos torna impossível trilhar as estradas do essencial. Em nenhum momento da história humana alguém viveu a aventura espiritual vestido de seda e púrpura, recostado em tronos macios, ressonando em torno de banquetes sem fim. O caminho é longo e ascendente: quem aceita o essencial tem energia para percorrê-lo e depois contemplar o Senhor no monte.

Os 40 dias de Jesus no deserto

Jesus, novo Moisés, também nos arrebata para a experiência do deserto. Deus feito homem, foi para o deserto onde, durante 40 dias, lutou com o inimigo (Mt 4, 1-11). E foi ali, no deserto, que Jesus afastou as tentações da magia e do poder, as tentações de reduzir o Mistério ao milagre, a Salvação ao espetáculo e ao poder.

As Igrejas parecem conformar-se com o silêncio e a pobreza quando não encontram outro caminho. Mas, encontrando, se esbaldam nos leitos prostituídos do sucesso, dos falsos milagres, dos dons egoístas. Uma sociedade que valoriza a magia e o poder também aceitará de bom grado evangelizadores que servem o prato da magia e do poder.

Não foi esse o caminho do Senhor: sua Glória foi o trono da Cruz, e seu leito o túmulo de pedra. Mas o caminho do Senhor venceu: a ressurreição foi sua última palavra.

E pode também ser a nossa, se tivermos paciência para lermos nossa vida nesses quarenta dias de observância quaresmal.

, , , , ,

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: