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JOÃO PAULO II E A CRUZ REDENTORA

João Paulo II rezando o Rosário em Pompei (8-10-2003)

Na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte de 6 de janeiro de 2001, o Papa João Paulo II nos convidava a contemplar a face de Cristo na profundidade do mistério que os Evangelhos nos revelam, de modo especial a face de Cristo Crucificado e Abandonado, no seu grito angustiante e na sua glória sem fim (nn. 16-28). Um programa para a Igreja e para cada cristão neste século que então iniciava a balbuciar.

Na Sexta-feira santa comovia ver, nas páginas dos jornais, a figura dolorosa do Papa em seus aposentos segurando e contemplando a Cruz do Senhor durante a Via Sacra no Coliseu. Dois amigos no abandono total de amor, Cristo por livre decisão por nós, o Papa por livre aceitação por si e pela Igreja. Cristo crucificado e abandonado, o Papa crucificado, mas recebendo forças do seu Senhor e Mestre. Cristo, sentado na Cruz, seu glorioso trono de amor, o Papa preso a uma cadeira de rodas, a face devastada pela dor, mas sentindo-se revigorado por aquele cujo nome gritou na Praça de São Pedro, em outubro de 1978: “Povos do mundo, não tenhais medo de Cristo!”. E este polonês escolhido para o Trono de Pedro deu provas de não ter medo de Cristo e de sua Cruz: como catequista anunciou-o nas audiências semanais das quartas-feiras; como pregador, anunciou-o no Ângelus do meio-dia de domingo; como cruzado da fé e da paz, anunciou-o em suas 104 viagens apostólicas. Anunciou-o nos numerosos documentos, sínodos, cartas, encíclicas, audiências.

O Papa prisioneiro da doença foi o evangelizador de multidões; aceitou com paciência a rotina da Cúria romana, ele que se sentia o mundo uma praça donde era pároco.

O Papa estava doente, mas sua pessoa não é uma doença. Nossa cultura é do detalhe, do pormenor mórbido e buscava no corpo do Papa sinais de doença: lentes poderosas, filmadoras indiscretas procuravam nas mãos, nos dedos, nos lábios, sinais, quem sabe, do fim. Também nós, católicos, corremos o risco de confundir a missão de Pedro com a doença de Pedro, confundir o Papa com o governo do Papa. Karol Wojtylla não era um executivo de empresa, não era o gerente do Estado do Vaticano: a Igreja é mistério, Corpo de Cristo e Povo de Deus. Transcende infinitamente a dimensão burocrática à qual queremos reduzi-la e à qual muitos burocratas eclesiásticos tentam prazerosamente resumi-la.

Na doença do Papa o Espírito que fala às Igrejas nos revelava a necessidade da dimensão colegial da unidade e nos revelava uma outra face do pontificado romano: a paternidade espiritual, a paternidade da cruz oferecida pela Igreja e pelo mundo, tão ou mais eficaz do que a inteligência humana do governo.

João Paulo II alimentou um prazer imenso de ver o povo e de ser por ele visto. Também na doença gostava de ver o rebanho aflito e por ele ser contemplado. Nas últimas semanas de vida terrena ainda apareceu na janela de seu apartamento, contemplando o “seu” povo e sendo por ele contemplado. Mas não conseguia falar: estava mudo. Nem sempre foi assim: os papas se faziam ver raramente, nunca na doença. Pio XII viveu doente 6 anos e aparecia somente quando podia passar a falsa imagem de um homem saudável. João XXIII buscou refúgio na Torre Leonina, onde os ares lhe pareciam mais saudáveis. Paulo VI recolheu-se ao silêncio para meditar o Pai-nosso à espera do dia da Transfiguração (6 de agosto).

João Paulo II, testemunha qualificada das dores humanas de todos os matizes e credos, das hecatombes do nazismo e do comunismo, que fez suas as dores do ser humano onde quer que se encontrasse, que sentiu na carne o que é ser atravessado por projéteis do terror, que sentiu a inexorabilidade da doença incurável, revelava sua face solidária e paterna com todos os sofredores do mundo.

Foi ele que insistiu na dimensão do viver a descoberta do Jesus Abandonado, como experiência de vida humana e divina e, portanto, do fazer-se um conosco e com o Pai, com todas as conseqüências: o esvaziamento de cada um de nós para o dom total de si, para ser um no amor.

Sua vida foi aplacar a sede de almas manifestada por Cristo na Cruz: Tenho sede! Com seu ministério, João Paulo procurou aplacar essa sede. E o fez com a palavra, os escritos, as viagens, com sua pessoa.

Suas últimas palavras foram profissão de fé no amor do Pai e na ressurreição: “Deixai-me ir para a Casa do Pai”!

Nesse domingo da misericórdia, abrindo o mês de Maria, Mãe amável a quem consagrou a existência, nos louvamos o Senhor pela fé católica, pedimos perdão por nossos pecados, agradecemos a Deus pelo Bem-aventurado João Paulo II.

Pe. José Artulino Besen

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MISSÃO – ANUNCIAR A CRUZ DO SENHOR

Santo Hilário de Poitiers (315-368) foi batizado aos 30 anos e, oito anos depois, em 353, foi eleito bispo de Poitiers, atual França. Ali se deparou com o sucesso da heresia dos arianos, que afirmavam que Jesus foi um homem que Deus escolheu para ser seu Filho, deste modo não sendo eterno. Uma heresia agradável, pois não incluía a eternidade de Cristo e sua encarnação. Agradável, mas destruía o fundamento da fé cristã pela qual cremos que o Filho eterno entrou na história assumindo a natureza humana no seio virginal de Maria. O ensinamento de Ario foi condenado no Concílio de Nicéia (325), mas dividiu a Igreja.

O imperador Constâncio II queria tudo, menos uma Igreja dividida que mexeria com a paz no Império. Pendeu para o arianismo, condenando a verdadeira doutrina. Afinal, com seu pai Constantino a Igreja ganhara liberdade e deveria ser reconhecida e obediente, pensava.

Entra em campo o Bispo Hilário, que receberá o título de “martelo dos arianos”. Escreve ao imperador lamentando o fim da perseguição que trouxe a falta de liberdade de crer na verdade. Suas palavras são contundentes: (O Imperador) “é traiçoeiro e bajulador, não nos açoita as costas, mas nos acaricia o ventre; não nos confisca os bens (assim dando-nos a vida), mas nos enriquece para dar-nos a morte; nos impele não para a liberdade aprisionando-nos, mas para a escravidão convidando-nos e honrando-nos no palácio; não açoita nosso corpo, mas se apodera de nosso coração; não corta nossa cabeça com a espada, mas mata nossa alma com o dinheiro “ (Liber contra Constantium 5).

Para o santo bispo, não vale a pensa a liberdade se priva o cristão da verdade. Continua sua defesa intransigente do mistério da Encarnação. Em 364 foi exilado por outro imperador, Valentiniano I, defensor da heresia e que gostava de atirar o corpo dos adversários como comida para suas duas ursas favoritas, Migalha de Ouro e Inocência.

A exemplo de Hilário, nós também conhecemos a terrível e sedutora tentação de facilitar a fé e a vida cristãs. Assim como havia teólogos em Constantinopla dando razão ao Imperador, teólogos em Coimbra e Salamanca que justificavam a escravidão negra, não nos faltam teólogos envolvidos no heróico esforço de tornar o mistério cristão palatável aos humores atuais.

Pregadores transformam as exigências cristãs em esforço de mudança sujeita às desculpas psicológicas (a lei é assim, mas sou uma exceção, pois tenho minhas carências). Quantos de nós, cristãos, apreciamos o circo dos milagres que reduzem o Senhor a um curandeiro, esquecendo-nos o quanto Jesus repudiava ser procurado por causa de milagres: querem meus milagres, mas não querem minha pessoa!, afirmava. Há um pregador televisivo, autodenominado “apóstolo”, afirmando que não inicia uma pregação sem ao menos dez milagres. É dono de algum deus…

Sendo constitutivamente missionária, a Igreja não pode ingressar no mercado competitivo das facilidades. Não assim nos ensinaram os Apóstolos, os Mártires, não assim nos ensinam os missionários que se embrenham pelas selvas humanas do mundo das culturas. Servem-se de recursos que possibilitem a inculturação mas, no momento principal, gritarão: “O Senhor que vos anunciamos é o Filho de Deus, o Cristo crucificado! Ele ressuscitou!”. Não faltará serem acusados de loucura, escândalo, fraqueza. Não há, porém, outro caminho. Na sua viagem à Inglaterra (17/09/2010), Bento XVI afirmou que hoje “o preço a ser pago pelo Evangelho não é sermos enforcados, afogados ou esquartejados, mas, sermos ridicularizados”.

A medida do Deus amor é a cruz. Deus sofre e morre na carne para vencer a morte. Toda a conversão se orienta para o combate que leva da morte à ressurreição. A glória do cristianismo é a Cruz, árvore da vida. A árvore do Paraíso trouxe a morte, a árvore da Cruz traz a vida, pois o Senhor da Vida dela é inseparável. A facilitada negação do pecado esconde a negação da cruz: seguir o Senhor, renunciar, tomar a cruz.

No dia do batismo através dos pais e padrinhos, no dia da Crisma em nome pessoal, na Vigília pascal com a comunidade, somos convidados a proferir três vezes o “Renuncio!” ao pecado, à injustiça, às seduções satânicas. Não há “Renuncio” sem amor à cruz, à luta constante pela fidelidade ao Senhor e aos irmãos. E sem o “Renuncio” autêntico, consciente não há vida pascal, nem alegria pascal.

O conhecimento de Deus se dá pela adoração que leva ao amor, pelos joelhos dobrados que expressam humildade frente ao mistério, pelo fascínio diante da beleza oferecida a quem testemunha a beleza da Cruz por uma vida de combate em busca da transfiguração pascal.

Pe. José Artulino Besen

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PAI, EM TUAS MÃOS ENTREGO O MEU ESPÍRITO

Solidão de Jesus - Michel Ciry

Solidão de Jesus – Michel Ciry

Ninguém tem maior amor
do que aquele que
dá a sua vida por seus amigos
(Jo 15,13).

O homem, por si só, não busca a salvação. É Deus quem vem salvá-lo. Por si só, o homem prefere viver sem Deus: mas Deus não consegue viver sem o homem. O amor divino não se permite excluir alguém, muito menos ser feliz sozinho. Por isso, por amor a cada um de nós, pessoalmente, Deus veio ao nosso encontro através de seu Filho Jesus. Que se fez igual a nós em tudo, menos no pecado. Fez-se o menor de todos, o servidor universal. Curou os doentes, consolou os tristes, perdoou os pecadores, ensinou um novo caminho de verdade e de vida.

Achou, porém, que era pouco: quis dar tudo, para que tivéssemos a certeza de que nos ama plenamente, apesar do que somos e fazemos de misérias e pecados: Jesus, tendo amado os seus que estavam no mundo, até ao extremo os amou (Jo 13,1). E amar ao extremo, perfeitamente, é não ficar com nada para si: é dar a própria vida. Esse o grande sinal da morte de Jesus, de sua fraqueza plena na Sexta-feira santa, quando ele, que poderia destruir todos os poderes deste mundo, aceitou por eles ser levado à morte. Não qualquer morte, mas a morte mais humilhante no seu tempo, a morte na cruz. Não uma morte rápida: queria tudo sofrer, da humilhação à tortura, da dor ao abandono dos seus, da coroa de espinhos à cruz, do manto de púrpura à nudez total, do suor de sangue ao derramamento da última gota de sangue. No final, pendurado na cruz, desprezado por quase todos, morto, de seu lado aberto saiu sangue e água. Nada mais tinha a oferecer por nós e no sangue deu-nos a Eucaristia e, na água, o Batismo.

O Cristo morto parecia representar a vitória do ódio, do pecado: era, porém, a vitória do amor. Aqueles que o humilharam, flagelaram e crucificaram, esperavam palavras de ódio, exclamações pedindo vingança, que entrasse no jogo humano do ódio. Mas não! O que ouviram foi uma palavra mansa, brotada do coração do homem das dores: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem! (Lc 23,34) Achavam que tinham morto um homem prepotente, blasfemo, que queria conspirar contra a ordem política e religiosa. Mas o homem de Nazaré somente queria amar, que aceitassem ser amados por ele. Ele poderia nos salvar pelo poder do amor, mas preferiu salvar-nos pelo amor puro, sem outra força que a do próprio amor.

Naquela tarde de sexta-feira, no Monte Calvário assistiu-se a uma cena que somente o amor poderia criar: o Filho de Deus, Senhor e Rei, tomando sobre si todos os pecados da humanidade, de todos os tempos e lugares, aceitando ser transformado num ser irreconhecível, desfigurado, fedendo suor e sangue em decomposição, cercado de dois ladrões, para poder dizer a cada um de nós: “O que podia fazer por você, eu fiz! Recebam meu amor!” Jesus colocou-se entre nós e Deus, como a galinha que esconde sob as asas seus pintinhos para que, antes de nos ver, Deus enxergue seu Filho e não leve em conta nossos pecados.

Podemos não compreender o amor de Jesus, mas temos que ser muito insensíveis para não perceber o amor que ele tem por cada um de nós e não aceitá-lo em nossa vida. Mas, não vale a pena viver sem Jesus, pois não vale a pena viver sem um amor tão grande!

Pe. José Artulino Besen

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A SABEDORIA QUE VEM DA CRUZ

«Completo, em minha carne,
o que falta às tribulações de Cristo
pelo seu Corpo, que é a Igreja»
(Cl 1,24)

A Cruz - Andy Wahrol

A Cruz – Andy Wahrol

Ninguém deve querer sofrer, mas também ninguém escapa do sofrimento. A fragilidade moral, física e emocional é companheira de toda a vida. É quase impossível imaginarmos que uma pessoa passe pela vida sem ter carregado alguma cruz. Inclusive podemos dizer, sem medo de errar, que uma pessoa que nunca sofreu sabe muito pouco da vida. Nem é capaz de dar conselho! De que modo confortar uma pessoa que sofre, se nunca se sofreu? Um exemplo: quem nunca passou pela experiência da morte de um ente queridoé capaz de se aproximar de uma mãe que chora o filho morto e destilar‑lheum discurso sobre a conformidade com o sofrimento, o que é inútil e até ofensivo. Por outro lado, quem viveu essa experiência, permanecerá silencioso ao lado da mãe enlutada, pois sabe que nenhuma palavra serve para quem está dilacerado pela dor.

Nós podemos sofrer ou revoltados ou dando um sentido redentor ao sofrimento: como que Cristo não sofreu tudo na cruz. Deixou um pouco para nós. São Paulo diz que completamos em nossa carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pela salvação do mundo (Cl 1,24). Podemos oferecer nosso sofrimento por aqueles que não sabem sofrer, por aqueles que não aceitam Deus. Um sofrimento solidário e redentor.

Tem mais, porém. A dor é grande mestra para nossa vida: faz‑nos mais humildes, coloca‑nos em nossa verdade de pó e cinza, onde não tem muito sentido a vaidade: “Tudo ia de vento em popa… e a cruz veio mudar a direção dos acontecimentos”, choramos decepcionado.

A dor, com a solidão que produz, nos faz valorizar mais o que realmente conta: as pessoas que nos cercam. Vivíamos insensíveis, pensando apenas nos nossos projetos e sonhos. E no sofrimento podemos perceber quanta gente quer o nosso bem, torce por nós, fica de nosso lado. E nós que não víamos ninguém ao nosso lado…

Quando pensamos que o dinheiro resolve tudo, a cruz e a doença nos explicam com muita clareza que o maior bem é a vida, e não o lado material que a rodeia. Que adiantam tesouros para um canceroso vivendo os últimos dias!?

A dor nos ensina a viver com intensidade cada dia. Não amontoar tesouros para um futuro que nem sabemos se existirá. Sermos prudentes, é claro, mas viver hoje o dia de hoje, como se fosse o último. Amar as pessoas como se fosse o último dia que as temos entre nós.

Quanta sabedoria vem pela cruz! Pode acontecer que sejamos visitados por ela, e nada aprendamos. Mas, se quisermos, sairemos muito mais amadurecidos para a vida após o sofrimento físico, ou moral, ou psicológico. Nele veremos a visita carinhosa de Deus nos admoestando a cultivarmos os verdadeiros valores. Não foi por acaso que Jesus quis‑nos salvar pela cruz. Foi porque toda cruz é redentora, toda cruz purifica. Lutemos para vencer a dor, mas, enquanto ela nos visita, aprendamos com ela a grande lição da vida, da verdadeira vida.

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NÃO MEXAM COM AQUELE HOMEM CRUCIFICADO

ref25crucifixo

O juiz gaúcho Roberto Arriada Lorea, defensor de causas polêmicas, tornou-se conhecido em setembro de 2005 ao decretar a retirada do Crucifixo da sala de audiência de um tribunal de Porto Alegre, pois, afirmou em sua peroração, a presença da Cruz fere a separação entre a Igreja e o Estado. Ele advoga a retirada dos Crucifixos de todos os espaços públicos.

O texto e o contexto fazem recordar a frase lapidar de uma escritora italiana, Natália Ginzburg (1916-1991), judia e atéia, publicada no jornal do Partido Comunista Unità, em 1988, por ocasião de igual conflito na Itália: “Não tirem aquela cruz. Ele está lá, mudo e silencioso. Sempre esteve. É o sinal da dor humana, da solidão da morte. Não conheço outros sinais que com tanta força ofereçam o sentido do nosso destino!”.

Não é preciso ter fé para se comover com a presença daquele Homem crucificado: silencioso, Ele continua lá, nas paredes de igrejas, casas, escolas, escritórios, tribunais, bancos, lojas. Mudo e dolorido, poucas vezes nos damos conta de sua presença: poucos de nós respondemos ao lamento “povo meu, que te fiz eu, ou em que te contristei?”. Na vergonha de sua nudez não há Maria nem João para dele se compadecerem; somente o silêncio da indiferença de nossas salas e palácios. A vergonha de sua nudez humilhada contrasta com a nudez transformada em lucro, orgia, bacanal.

Ele está ali, diante de nós, fazendo lembrar milhares de corpos abandonados, famintos esquálidos. Sua presença comove mães de crianças mortas, mães de jovens assassinados, mães à beira da estrada da vida pedindo uma palavra de compaixão. Seu corpo dilacerado reflete o corpo do menino João Hélio Fernandes Vieites (7/2/2007) amarrado na cruz de um carro roubado e arrastado por quatro quarteirões, num Calvário que o deixou sem cabeça, sem joelhos, sem vida.

O Homem de Nazaré, representado em todas as formas artísticas e humanas, é testemunha solitária e solidária da dor universal que não conhece povo ou nação. Diferentemente do Calvário, Ele está sozinho em nossas paredes. Não bastasse sua dor, há quem o olhe com o ódio dos que não suportam serem desinstalados pela dor alheia, o ódio dos sábios deste mundo que o percebem como incômodo insuportável para a inteligência liberta de qualquer fé, mas que não encontra paz.

É melhor não procurar tirar esse Homem da cruz, preferindo uma cruz vazada que afirme que ele não está mais ali. Ele está! A cruz sem Ele não tem significado, porque é matéria sem a forma humana da dor. Talvez seja mais fácil descê-lo logo da cruz, porque assim não seremos desafiados por tantas dores crucificadas de nosso mundo. A cruz sem o Homem e o Homem sem a cruz aliviam a tensão de nosso conforto: tudo está resolvido, pois a morte foi vencida. É verdade, mas deixemos o Crucificado com sua Cruz, sua única companhia na solidão arrasadora da dor.

Essa mesma Cruz, que em nossas igrejas é adorno e não sinal de sofrimento, é incômodo para uma religiosidade que busca fugir da redenção pela dor, que prefere não mais escutar o “carregue sua cruz e me siga”. Ele já carregou a cruz, e basta, pensamos nós que transformamos o Cristianismo em moral e ética, em bom comportamento sem a necessidade da dor.

Não mexamos com esse Homem crucificado. Sem Ele não há mais fé cristã, pois nos contentamos com a ilusão de salvar o mundo com a transformação do Evangelho crucificado em evangelho de bolso, de baixo preço, descartável. O Homem crucificado é desafio para os não crentes, é desafio para os crentes. Aqueles são obrigados a conviver com a presença de um Homem que perpetua a morte solitária enquanto não gera vida solidária; esses são convidados a responder ao porquê da fuga frente àquilo que na fé exige a companhia da dor, mesmo sabendo que sem dor não há redenção.

Não mexamos com aquele Homem crucificado: é o Filho de Deus testemunhando de forma desolada o Amor que não é amado. Pobres de nós, com Cristo sem a Cruz; pobres de nós, com a Cruz sem Cristo.

Pe. José Artulino Besen

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PAZ E CORAGEM: ATITUDES DE QUEM TEM FÉ

barco_tempestade1“Por que tendes medo assim? Ainda não tendes fé?”  (Mc 4,35-41)

A tempestade ameaçava a segurança do barco, o vento batia cada vez com mais força, e Jesus… dormia! Os discípulos, coitados, temiam pela vida enquanto o Mestre descansava. “Mestre, não te preocupas conosco que estamos para morrer?”, reclamaram. O consolo que Jesus lhes ofereceu, além de acalmar a tempestade, foi uma repreensão: “Ainda não tendes fé?”

Pela fé nós já possuímos o que ainda não vemos. Porque tenho fé, acredito no que diz uma pessoa, mesmo não tendo condições de apurar a verdade. Creio, porque a pessoa é digna de crédito. Assim, creio em Jesus Cristo, porque ele é digno de crédito, o que ele disse e fez me dão a certeza de que não estou sendo enganado.

A fé verdadeira nos faz assumir, entre tantas, duas atitudes: a paz e a coragem. Creio! Por isso não tenho medo, nem me deixo abalar pelos problemas que possam me atingir.

Pela fé nós somos possuídos por Deus: estamos nele e ele está em nós. Isso nos dá segurança para enfrentarmos a vida. Não estamos sozinhos. Há um problema? O poder de Deus e minha colaboração ajudarão a resolvê-lo. Veio a doença? A graça de Deus estará comigo e saberei enxergar além dela.

Nenhum mal tirará a paz daquele que crê. Saberá empenhar todas as suas energias e competência para afastá-lo. Cristo é a nossa paz. Assume nossas tempestades pessoais e as pacifica: “Silêncio! Quieto!” (Mc 4, 39) Os problemas podem até permanecer, mas não nos tirarão a paz com a vida.

A paz de Jesus nos traz coragem, atitude necessária para quem crê estar com Deus e nele permanece. Coragem para viver feliz apesar das provações (1Pd 1,8), e coragem para testemunhar a fé. Desde o início, o Cristianismo possuiu heróis que não recearam derramar o sangue para comprovar sua fidelidade a Cristo. Os Apóstolos eram até covardes. A fé em Cristo os fez missionários ardorosos e o amor que por ele nutriam fê-los aceitar o martírio. Milhares de idosos, adultos, jovens e crianças a tudo enfrentaram para poder crer.

O cristão verdadeiro não tem medo de dizer que crê e vive o que crê. Não tem respeito humano. A perseguição, a calúnia, o deboche, não o derrubam. Sabe que é feliz quem sofre por causa de Jesus. Terá a recompensa aqui e depois, na eternidade (Mt 5,11-12).

A fé o tornará capaz de gestos heróicos em favor do próximo, o engajará nos projetos evangélicos de transformação da sociedade. Será um voluntário de todas as causas que favoreçam a justiça e a fraternidade.

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A IGREJA E A MISSÃO DA CRUZ – ANÚNCIO DA BELEZA

Crucifixão

Crucifixão

A crise do Cristianismo está apenas começando. Vivemos ainda numa espécie de ilusão cultural em que a fé se confunde com religiosidade e o Cristianismo com a tradição cristã. Vivemos um conflito interior entre aquilo que é de Deus e aquilo que é da carne, e tentamos misturar os dois num mesmo prato, sem perceber que ambos se contestam às escondidas, pois a fé não nasce da carne, mas de Deus.

Misturamos a herança dos Apóstolos e dos Santos Pais com o orgulho confessional (“eu sou católico”, “eu sou crente”), a graça da vida segundo o Espírito com o peso histórico e étnico (que também pede seus “direitos místicos”, como pensar que todo brasileiro tem de ser católico, todo árabe, muçulmano). Confundimos o sentido da verdade com o gosto pelo poder mas, a carne e o sangue não poderão herdar o Reino de Deus (cf. 1Cor 15,50).

A missão é anunciar a beleza da Cruz.

A paixão de Cristo é a “hora” da glória. Ele se desfez através do sofrimento por amor e depois o Pai o transfigurou na carne ressuscitada. O Senhor glorioso é o Senhor crucificado. Paulo, após ter sido tocado pela Luz arrebatadora no caminho de Damasco, não anunciou o poder, o espetáculo do sucesso, mas a fragilidade do Amor: “Irmãos, eu mesmo, quando fui ter convosco, não me apresentei com o prestígio da palavra ou da sabedoria para vos anunciar o mistério de Deus. Pois não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado, … a fim de que a vossa fé não se baseie na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus” (1Cor 2, 1.5; cf. 1, 23-25).

A grande Liturgia da Igreja vivencia esse anúncio paradoxal na forma do Belo em estado puro: a Eucaristia é a ação de graças pela Paixão-Morte-Ressurreição-Ascensão gloriosa do Senhor: a pequenez do Pão oculta/revela a Glória infinita do Senhor; o altar é belo, a Palavra é bela, os cantos são belos, os paramentos são belos; belo é o povo que celebra os acontecimentos centrais da história, mas ergue os olhos e imediatamente contempla o Crucificado, belo na dor pelo amor.

A missão cristã não é anunciar uma teoria, um código de comportamento que provoca cansaço e temor. É algo mais fascinante: é mostrar Cristo, suprema revelação do ser, da forma, da glória e da beleza de Deus. O missionário tem consciência de que a beleza e a luz de Deus compreendem também o abismo da treva na qual mergulha o Crucifixo, de que o caminho da fé supõe o grito “Meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34).

A beleza do Crucificado é tão irresistível, porém, que leva quem o busca a uma aventura onde luz/treva, consolo/abandono, certeza/dúvida parecem se confundir e, ao mesmo tempo, são distintas, pois sabemos que no final do caminho repousaremos dizendo “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). As vertigens do mergulho em busca do Belo nos farão contemplá-lo na serenidade de quem o amou.

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