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OS CRAVOS, CHAVE DAS CHAGAS DA MISERICÓRDIA

O Senhor ressuscitado e chagado – Via-sacra de Jasna Gora

Na glória da Santíssima Trindade, Jesus o Senhor e Filho conserva as chagas de sua crucifixão. Chagas santas e gloriosas, mas chagas que rememoram a dor e a entrega total na Paixão. A cada vez que um pecador se apresenta para o julgamento, antes de olhá-lo e julgá-lo, o Pai contempla o Filho chagado por aquele pecador. E a misericórdia triunfa no julgamento.

Quando Tomé, o homem das dúvidas e que exigia provas da ressurreição, se depara com o Senhor, esse não pede que o contemple olho no olho, mas que ponha os dedos nas chagas e então entenderá quem é o Ressuscitado. Prostrado em adoração, Tomé exclama “Meu Senhor e meu Deus!”, a grande profissão de fé na divindade de Jesus. Nas suas viagens missionárias, Paulo não anunciava a sabedoria humana, mas Cristo crucificado, morto e ressuscitado, aquele que salva e torna justo quem nele crê.

Pela ressurreição, o Pai transfigurou o corpo de Cristo, mas nele quis conservar as chagas, para que nelas a Igreja pudesse buscar o mais poderoso e eficaz remédio contra o pecado. Da chaga do lado direito, donde escorreu sangue e água, Deus faz brotar o Batismo regenerador e a Eucaristia, Carne e Sangue para a vida. Provando definitivamente que o homem crucificado estava morto ao abrir-lhe o lado direito com a lança, o Centurião abriu a fonte da Vida e dela fez nascer a Igreja. E não resistiu à profissão de fé: “Verdadeiramente ele é o Filho de Deus!”.

Certas espiritualidades e devocionismos se comprazem no sacrificialismo, na lamentação da dor infringida ao corpo de Cristo e gastam o tempo num tipo de tristeza sem muito sentido. Talvez esqueçam que a paixão, morte e ressurreição de Cristo foi ato livre do Filho de Deus. Dele foi a decisão de entregar-se por nós no supremo gesto de amor, fazendo da cruz assassina a árvore que reverdece e produz a salvação: “Que selva outro lenho produz, / que traga em si fruto igual?”, canta a Liturgia.

Quem diz “Tão grande é meu pecado que não merece perdão” mostra não se interessar pelo mérito de Cristo e peca contra o Espírito Santo, negando o amor infinito de Deus. O lamento que parece humildade se transforma em negação da Paixão redentora.

São Bernardo de Claraval, ao impulsionar a devoção à Paixão de Cristo e à Mãe das Dores quis, antes de tudo, confortar os cristãos: “Vejam quanto custou a nossa salvação, vejam o nosso valor diante de Deus!” Dele é a belíssima meditação sobre os cravos que fixaram Jesus à cruz. Os cravos se tornaram chave de salvação. Através das chagas, que abrimos com o cravo de nossos pecados, podemos contemplar a Deus que está em Cristo reconciliando o mundo consigo. Através das fendas das chagas o pecador pode provar quão suave é o Senhor (cf. São Bernardo, Sermo 61,3-50).

No momento triste de nosso pecado temos à mão uma chave preciosa: os cravos da crucifixão. Com eles nos aproximamos do Senhor, abrimos as chagas e entramos no tesouro da misericórdia. A máquina de dor do Calvário é agora a porta do Jardim dos reconciliados.

O Cristianismo não é uma religião onde se busca a salvação pelo saber, pela purificação física, pelo nirvana, pela ética. Nele não há lugar para a lógica da compensação (meu perdão tem preço) ou dos sacrifícios (sem muita penitência, nada feito). Jesus nos revelou que é a comunidade dos que crêem no amor e no poder salvador de perdoar.

A fé cristã se nutre de um paradoxo único no mundo religioso: quando eu peco, Deus não me pede sacrifícios, mas ele mesmo se sacrifica por mim.

Deus não pede ao pecador que se cubra de pó e cinza, que grite seus pecados nas esquinas para ser humilhado. Silenciosamente, a cada ato pecaminoso humano Deus contempla o Filho a seu lado e nele vê as chagas, isso é, o nosso preço. Cristo é o nosso resgate, ele pagou por nós. Então se entende o alcance da palavra de Paulo: “Irmãos, deixai-vos reconciliar com Deus!” (2Cor 5,20). Nós o ofendemos e é ele quem vem oferecer o perdão!

O perdão não é extático: ele nos faz entrar num movimento de amor, alegria, paz, felicidade. O perdão divino nos lança ao encontro do irmão para também pedir-lhe que aceite que nos reconciliemos com ele. Não mais será difícil escutar “vai primeiro reconciliar-te com teu irmão”.

Os cravos/chave que nos abrem o tesouro da graça nos fazem mergulhar num mundo novo, onde não há trocas, apenas amor gratuito.

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TUDO ESTÁ CONSUMADO! TUDO COMEÇA!

007E Jesus tomou o vinagre e disse: “Tudo está consumado”. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,30). Meditando esse momento extremo da vida de Jesus, o romancista grego Nikos Katzanzakis, em seu A Última tentação de Cristo, deduz: “Tudo começa”. De fato, a história mostra que aquele momento de total derrota deu início a um processo religioso e humano irrefreável, a tal ponto que a humanidade pode amar ou odiar a Cristo, mas não ser-lhe indiferente. O homem humilhado e derrotado na cruz revolucionou as certezas e atitudes religiosas humanas: o verbo subir foi substituído pelo descer, o ser servido pelo servir, o acumular pelo repartir, a palavra vingança ganha seus antídoto no amor ao inimigo, os menores passam a ser os maiores, e o trono de nosso coração e ação deve ser ocupado pelo mais humilde e desprotegido sofredor a cujos pés reis e rainhas se prostram.

O homem cuja última bebida foi o vinagre numa esponja, que inclina a cabeça para olhar pela última vez aqueles que o condenaram ou amaram, revoluciona a imagem religiosa de Deus: é um Deus compassivo que olha o mundo, um Deus derrotado pelo amor e, por isso, incapaz de fazer justiça com as próprias mãos, pois o amor o torna frágil diante daqueles que crucificaram a mataram seu Filho. O Homem crucificado revolucionou o culto: seus seguidores não são chamados a agradar a Deus e sim, aceitarem o tudo que Deus faz para agradá-los. Os 10 Mandamentos da Antiga lei são completados por oito Bem-aventuranças, promessas de felicidade que fortalecem os fracos e enfraquecem os fortes, pelo amor.

No topo da cruz estava escrito “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”, um título desconfortável para quem iniciava o reinado entre dois ladrões, contemplado por algumas mulheres e um discípulo, ridicularizado por tantos inimigos e ingratos. É um paradoxo: o título era demasiado para um derrotado, mas reduzido para esse homem que veio dividir a história. Tudo começa! Ele desperta tantos sentimentos que um escritor moderno, o Henry Miller (1890-1980) do Trópico do Câncer, mandava gravar um cruz na sola de seus sapatos para continuamente pisotear o Crucificado e sua religião. Por que o grande romancista tinha essa preocupação? Porque o “Tudo começa” ressoa sempre e é um incômodo impertinente para quem nada quer com ele.

Aquela cabeça inclinada tirou a paz dos bem pensantes, tirou a paz dos ateus devotos, dos religiosos ateizados, desinstalou os sábios cujo grande projeto é negar qualquer transcendência. Se tudo é ilusão, por que essa preocupação? Para medirem a existência do Crucificado usam o rigor de dias, meses e anos: são cientistas! Já, para chutarem do mundo a presença divina, trabalham tranqüilamente com datas que se dividem em dogmáticos bilhões de anos.

Realmente, no alto do Monte Calvário o “Tudo está consumado” é perfeito: todos os passos foram percorridos para que tudo comece. Tudo começa num cruz, numa sepultura e explode num sepulcro vazio. Pela primeira vez na história humana ressoa a palavra “Ressuscitou!”. Palavra contagiante, imantada, que conduz a humanidade do nada ao tudo, do desespero à esperança, da fé à visão. Tudo começa porque o Morto ressuscitou, foi contemplado pelos seus e o mundo não consegue ter vida sem ele.

O grande escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), judeu, assim respondeu ao amigo Gustav Janouch que lhe perguntava a respeito de Cristo: “Ele é um abismo de luz. É melhor ter os olhos fechados para não mergulhar nele”. Em nossa geral mediocridade religiosa, que transforma o Cristo num milagreiro ou objeto ritual, é bom ter muito cuidado: se abrirmos os olhos mergulharemos em seu abismo de luz, e seremos luz. Se não nos prevenirmos em tempo, Cristo nos seduzirá e não conseguiremos mais viver sem seu amor.

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A CRUZ DO SENHOR, FORÇA DA IGREJA

A Crucifixão (Rublev)

A Crucifixão (Rublev)

Onde hoje temos a Basílica da Ressurreição, no dia 13 de setembro de 335, consagraram-se duas basílicas em Jerusalém: uma no Gólgota, onde Cristo tinha sido crucificado e outra no Santo Sepulcro. No dia seguinte, 14 de setembro, era apresentada ao povo a relíquia da Santa Cruz. Ao ser tocado por ela, um morto tinha recuperado a vida, sinal de que era a cruz do Senhor, a cruz que nos deu a Vida.

Celebrando o acontecimento, toda a Igreja, do Oriente e do Ocidente, em 14 de setembro comemora a Exaltação da Santa Cruz. Os hinos litúrgicos cantam o madeiro santo que, plantado na terra, brotou regado pelo Sangue do Senhor. Quem come dos frutos desta Árvore tem a graça de vencer a morte e cantar o hino à vida. O sangue que escorreu do lado direito do Crucificado simboliza a Eucaristia; a água, o Batismo.

Cada vez que a comunidade celebra a Eucaristia, ela e o celebrante têm diante dos olhos a imagem da Cruz, recordando que a Igreja nasceu do lado direito de Cristo crucificado. A liturgia, com a cruz diante dos olhos da comunidade, une a Antiga e a Nova Aliança: no deserto, os judeus contemplaram a serpente de bronze e foram curados do mal mortal provocado pela picada das serpentes (cf. Nm 21, 4b-9); hoje, os que contemplam a cruz, nela contemplam aquele que os libertou da morte (cf. Jo 3, 14-15).

Teologia da Cruz – Teologia da Consolação

A cruz, símbolo de maldição, de humilhação, de fraqueza, recorda-nos a “loucura” de Deus por nós. Deus pode tudo, menos uma coisa: obrigar-nos a amá-lo. Por isso mesmo, a Trindade serviu-se da cruz ao menos para convencer-nos de que Ela nos ama: o poder de Deus é o poder do amor. A “loucura do amor” trinitário deixou o Filho no abandono total: “Meu Deus, por que me abandonaste?”. Naquele instante, que se prolonga por toda a história terrena da salvação, aquele que é a Vida tornou-se vida para nós no coração da morte. No Horto e no Gólgota, o Filho sentiu a amargura total do abandono do amor para nos amar, ele que “tem o poder de oferecer a vida e tem o poder de retomá-la” (cf. Jo 10,18). Quem bebe do Sangue eucarístico, recebe também o poder de dar a vida.

A Cruz, trono da Glória de quem ama até a morte

“Agradou a Deus salvar os crentes com a loucura da pregação … porque …. aquilo que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens… Deus escolheu o que no mundo é fraco para confundir os fortes” (cf. 1Cor 1,21-28).

A Glória de Deus tem a Cruz como Trono: seu poder se manifesta plenamente na fraqueza assumida por causa de nós. O homem que se identifica com o Crucificado recebe a força do Ressuscitado: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). Se esse é o caminho do Senhor, é necessariamente o caminho da Igreja, dos cristãos.

Durante os séculos de sua história, a Igreja corre o perigo da tentação da sabedoria humana, da adaptação ao mundo: tirar Cristo da cruz e vesti-lo com seda. O mistério da fraqueza de Deus é o mistério escondido na essência profunda da Igreja, na existência crucifixa dos santos e santas. Assim como não existiu santo ostentando vestimentas e enfeites principescos, do mesmo modo não há força eficaz numa evangelização feita na imponência de cerimônias, na ameaça de punições aos que erram, na segregação eclesial daqueles que o mundo também marginaliza.

O poder da Igreja só existe na participação do poder de Cristo: poder da fé e da humildade, e se expressa como serviço: quem quiser ser o maior, torne-se o menor (cf. Lc 22,25-27).

Graça a alto preço – graça descartável

Desde o dia de Pentecostes, quando o Espírito despojou-se de sua glória e veio habitar o coração da Igreja e da criação, a evangelização corre o risco terrível de vender a Graça a baixo preço, de enfeitar a Cruz para aumentar o rebanho. Levar ao torpe mercado da salvação uma Graça tornada barata, descartável, comercial e até grátis, facilitadora e descompromissada.

A Graça é sempre muito cara, Paulo afirmando que fomos comprados por alto preço (1Cor 6, 20): ela é tesouro escondido no campo, pérola preciosa, rede a ser lançada, senhorio de Cristo, Evangelho buscado, dom sempre suplicado, porta sempre batida, seguimento ao preço da própria vida.

Veremos aqueles que crucificamos

Em cada Eucaristia fazemos o memorial do Calvário: junto ao altar contemplamos a cruz. Seremos cristãos se nela, identificados com o Senhor, contemplarmos os famintos, os sedentos, os nus, os peregrinos, os prisioneiros, os doentes, os sem-casa, os sem-terra, os desempregados. Somos convidados ao exercício do invencível poder do amor.

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