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O CORAÇÃO DE JESUS, CORAÇÃO DE DEUS

Sagrado Coração de Jesus – por Salvador Dalí

Venham a mim,
vocês todos que estão aflitos e sobrecarregados sob o fardo,
e eu vos aliviarei” (Mt 11,28).

A mais profunda e significativa entre as devoções cristãs é a do Sagrado Coração de Jesus: é a devoção afetuosa e adoradora do próprio Filho entregue a nós pelo Pai. Nenhuma beleza se compara à imagem do Homem‑Deus, rasgando o peito e oferecendo ao mundo, ardendo em chamas, seu coração! Parece dizer‑nos: “Eis o coração que tanto ama o mundo. Eis um coração ardendo de amor, mas que tem tão poucos dispostos a aceitar serem amados por ele”.

Forte desde a Idade Média, a devoção se intensificou a partir das revelações privadas de Jesus à francesa Santa Margarida Maria de Alacoque (1647-1690). As revelações se estenderam por 17 anos e nelas Jesus a chamava de “discípula predileta” e que desejava revelar-lhe “os segredos de seu coração divino” e ensinar-lhe “a ciência do amor”. Mal compreendida, acusada de propagar fantasias místicas, foi determinante o encontro com o padre São Cláudio de la Colombière (1641-1682) que assumiu sua direção espiritual e atestou a autenticidade das revelações. Não era fácil para as autoridades eclesiásticas aceitarem visões de mulheres, sempre acusadas de propensas à fantasia.

Jesus pedia que uma Festa fosse dedicada a seu Coração. Após dúvidas, foi celebrada pela primeira vez na França, em 1672, e tornou-se festa de toda a Igreja em 1856, com data fixada na oitava de Corpus Christi. Os padres jesuítas foram e são seus grandes propagadores, de modo especial através do Apostolado da Oração.

Na devoção ao Coração de Jesus a Igreja presta culto ao coração humano de Jesus, inseparável de sua divindade, e ao amor do Salvador pela humanidade, cujo símbolo é seu coração.

Entre as Doze Promessas feitas por Jesus a Santa Margarida, salientamos: – os pecadores encontrão em meu Coração a fonte e o mar infinito da misericórdia (6ª.), as almas tíbias se tornarão fervorosas (7ª.) e as almas fervorosas elevar-se-ão rapidamente a grande perfeição (8ª.). O centro é o acolhimento à pessoa humana em sua situação real de santa ou pecadora, triste ou feliz, piedosa ou blasfema, sadia ou depressiva.

O Coração de Jesus, fonte e mar infinito da misericórdia, ao ser traspassado pela lança, com o sangue e a água fez jorrar para o mundo o batismo e a eucaristia, a fonte regeneradora da vida. Revelando-se como fogo, chama de amor, Jesus nos convida ao calor que brota do amor, do perdão, da misericórdia.

Numa época em que se afirmava o rigor de Deus, a distância instransponível entre Deus e o homem, o acesso mínimo, por indignidade, à Comunhão, Jesus anuncia a proximidade, a amizade. Convida-nos a residir em seu Coração divino. Não foi outra a causa de sua vinda ao mundo. 

Nossa resposta ao amor misericordioso

Preferimos continuar na solidão, sofrendo amarguras, sozinhos carregando os fardos da existência humana. Mas, há alguém disposto a ajudar‑nos a carregá‑los. Há alguém pedindo que lhe ofereçamos nossas aflições, querendo ser companheiro de jornada. É Jesus, oferecendo-nos abrigo em seu coração. Importante, há alguém que quer ser nosso companheiro no socorro aos sofredores.

Os olhos de Jesus nos fixam, até com angústia: pedem que aceitemos ser amados por ele. É verdade que muitas cruzes tornam pesada nossa vida. Jesus sabe disso melhor do que ninguém e, por isso mesmo, quer ser nosso amigo, compartilhar nossas dores e alegrias.

Coração de Jesus, coração de misericórdia, abrigo de santos e pecadores, de mansos e violentos, abrigo com vagas ilimitadas. Lembra o homem de Nazaré diante da pecadora a quem desejam apedrejar: “Mulher, eu não te condeno. Vai em paz, e não tornes a pecar”. Lembra Jesus rodeado de crianças: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino dos céus”. Lembra os usurários Mateus e Zaqueu, o amigo Pedro que o trai, o bom Ladrão na cruz. Lembra Jesus se opondo a deixar a multidão faminta, multiplicando‑lhe o pão. E, acima de tantos gestos de ternura, amizade, compreensão, nos faz elevar os olhos e contemplar o Crucificado: nada mais restando para comprovar‑nos seu amor, oferece a própria vida!

Homens e mulheres, jovens e velhos, encontram no Coração de Jesus não o conformismo, mas a força para a luta, para a vida. A ele se dirigem devastados pela dor, e dele retornam novas criaturas, com o fogo do amor tendo devorado as causas do sofrimento. Nele buscam amor, e saem para amar. São agressivos, orgulhosos: com ele aprendem a ser mansos e humildes de coração.

Quando Filipe pediu a Jesus: “Senhor, mostra‑nos o Pai”, obteve a resposta que revoluciona nossa relação com Deus: “Filipe, quem me vê, vê também o Pai!” (Jo 13,8‑9). O Coração de Jesus é o coração de Deus. A ternura de Jesus é a ternura de Deus, o Pai. Tudo o que podemos imaginar de carinho, compreensão, misericórdia, justiça, em Jesus, podemos ter a certeza de encontrar no Pai.

O medo sai de nossa vida. A tristeza nela não tem mais lugar. Se o pecado e o fracasso nos deprimem, o perdão e o afeto divinos nos reerguem. No Sagrado Coração de Jesus, fonte de vida e santidade encontramos, enfim, a paz que nos fará ter paz, e lutar pela paz.

Pe. José Artulino Besen

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CORPUS CHRISTI – EUCARISTIA, COMUNHÃO E GRATIDÃO

Toalha que recebeu as gotas de Sangue no Milagre de Bolsena em 1263 e que deu origem à Festa de Corpus Christi. Está na Catedral de Orvieto

“No Calvário se escondia tua divindade, mas aqui também se esconde tua humanidade”, canta a Igreja em texto de Santo Tomás de Aquino, acrescentando “Venha a fé, por suplemento, os sentidos completar”. O mais visível dos sinais sacramentais é, paradoxalmente, o mais invisível. No Pão não se contempla nem a humanidade nem a divindade do Senhor, mas nele contemplamos sua Presença: é o Senhor!

A festa litúrgica de Corpus Domini (popularmente Corpus Christi) está ligada a uma série de visões, revelações pessoais e milagres eucarísticos acontecidos no século XIII. A causa principal foi a reafirmação de presença real do Senhor no Pão consagrado frente a doutrinas que a colocavamem dúvida. Em 1246 foi instituída como festa na diocese belga de Liège, a pedido da mística Juliana.

Muitas vozes suplicavam que Roma aprovasse uma festa que demonstrasse pública e festivamente a fé católica na presença real. A causa próxima foi o “Milagre de Bolsena”, em 1263, quando, nessa cidade um padre, Pedro de Praga, duvidara da transubstanciação. Quando ele se preparava para distribuir a comunhão, da Hóstia escorreram gotas de sangue que mancharam de vermelho a toalha. Como o Papa Urbano IV residia em Orvieto, cidade próxima, foi-lhe mostrada a toalha, o que o deixou impressionado. Após muita reflexão, um ano depois declarou que foi milagre.

Assim, atendendo aos apelos da Igreja, em 8 de setembro de 1264 instituiu a Festa de Corpus Domini para toda a Igreja. A seu pedido, São Tomás de Aquino compôs as inspiradas orações e os hinos dessa Liturgia, da qual cantamos sempre o “Tão sublime Sacramento”.

Após a morte de Urbano IV, a celebração da festa do Corpus Domini limitou-se a algumas regiões da França, Alemanha, Hungria e Itália Setentrional. Foi em 1317 que o Papa João XXII restaurou-a para toda a Igreja. Desde então, a festa teve um desenvolvimento extraordinário, e continua sendo especial no coração dos católicos.

Diante do grande e humilde mistério da Eucaristia somos convidados a manifestar nossa alegria externamente. Nossa gratidão nos impele a prestar homenagem pública de amor a Cristo Pão da Vida.

A Hóstia é uma Presença, a Presença do Cristo ressuscitado. Ao passar pelas ruas de cidades e vilas, aclamada pelos crentes que, na delicadeza da fé, lhe oferecem tapetes de flores, de cores, sua Presença se une à nossa presença e à presença em todo o universo. Não há lugar onde o Ressuscitado não esteja, em todos os tempos e lugares a Eucaristia e celebrada.

Eucaristia – encontro e comunhão

De tal modo nos sentimos unidos ao Senhor que, durante a Missa afirmamos que vamos “receber a Comunhão”. O horizonte dessa Comunhão se amplia, dilata, expande num raio sem limites, escreveu Paulo VI em 1969. É uma Comunhão dupla: com Cristo e entre nós que, nele, nos tornamos irmãos. É Comunhão com nossos irmãos, com a comunidade, com a Igreja: “Assim como há um só pão, nós, que somos muitos, formamos um só corpo, pois todos participamos do mesmo pão” (1Cor 15,17).

Na Eucaristia nosso encontro-comunhão com Deus é total: nada se interpõe entre nós e ele. Podemos dizer que é momento de Parusia, de vinda gloriosa do Senhor, de fim dos tempos. De certo modo, a cada celebração da Eucaristia acontece o que professamos no Creio: “e de novo há de vir para julgar os vivos e os mortos”. Ao final da Consagração o povo reunido reza, fervorosamente “Vinde, Senhor Jesus!”. E o Senhor vem ao nosso encontro na Comunhão. Nesse encontro aceitamos ser julgados: Cristo divino e humano une-se aos horrores da história, às nossas divisões e competições, ao nosso egoísmo, e também às alegrias e generosidades da humanidade que se une à liturgia celeste: “O nosso coração está em Deus”. Agostinho repetia que a Igreja é a prostituta que Cristo não cessa de lavar em seu sangue, o sangue eucarístico, para dela fazer a Esposa sem mancha. Nós somos os prostitutos que, tomando a Carne e o Sangue do Senhor, somos lavados em nossa interioridade e nos tornamos novas criaturas, renascemos.

O historiador francês, Henri Marrou, quando lhe perguntavam “ virá logo o fim dos tempos, a Parusia?”, respondia: “Não, não creio que será amanhã, mas sei que acontecerá hoje!”. Na Eucaristia.

A potência de Cristo é tão imensa que também na Eucaristia – segundo seu estilo de Belém, de Nazaré, do Calvário – esconde as mais sublimes realidades sob as aparências tão humildes do pão e do vinho que, desse modo, se tornam acessíveis a todos nós. Esse Sacramento é sinal de que Cristo Senhor quer ser nosso alimento, nossa comida, geradora de vida interior para todos nós e, em nós, aplica os frutos da Encarnação: “O Filho de Deus, de certo modo, uniu-se a cada homem” (GS 22).

No pão e no vinho Cristo, em sua humildade, se reparte para todos nós. Nossa resposta é a fraternidade em torno da mesa universal onde, unidos com Cristo, oferecemos uma grande Ceia ao Pai e a seus filhos. Assim, a festa do Corpo do Senhor é também a festa da Humanidade divinizada na Eucaristia.

Pe. José Artulino Besen

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«ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS»

Ele está no meio de nós!

Ele está no meio de nós!

O Verbo se fez carne, e habitou entre nós.

 (Jo 1,14).

O mistério da encarnação do Filho de Deus torna possível e dá sentido a todos os mistérios cristãos. Se Deus não tivesse assumido a condição humana, nós não poderíamos ir ao seu encontro. Deus quer ser nosso amigo, mas, permanecendo um Deus inacessível, não poderia ter amigos humanos, pois seria impossível a comunhão, o diálogo. Assim, na sua bondade, Deus se faz homem para que nós possamos conversar com ele, privar de sua amizade. A oração é esse momento impressionante de comunhão: por ela vamos até Deus e, por ela, Deus vem até nós. Força do homem, fraqueza de Deus.

Por causa do diálogo Criador-criatura, todos os sacramentos têm matéria e espírito: água, óleo, pão, vinho, homem-mulher, imposição das mãos. Isso de nossa parte; da parte de Deus, a Palavra que faz o Espírito consagrar a matéria. Pelos sacramentos Deus se humaniza e o homem se diviniza.

Ele está no meio de nós

Pelos sacramentos, Ele está no meio de nós. A Eucaristia é a prova mais sensível dessa presença: oferecemos pão e vinho, Deus devolve Corpo e Sangue de seu Filho. Apresentamos nossa miséria, Deus a transforma em força e nos alimenta com o Pão e o Vinho consagrados. Dizermos: Ele está no meio de nós! é pouco: Ele está dentro de nós, Ele e nós nos tornamos um. Se tivéssemos os olhos purificados pela graça, como os Apóstolos no Tabor, veríamos que a procissão da Comunhão é uma procissão de luz. Cada criança, velho, jovem, homem, mulher, ao receber a comunhão se tornam luminosos. Uma igreja, mesmo escura, se torna resplandecente na procissão eucarística: pena que nossos olhos sejam ainda puramente físicos e não enxerguem essa beleza real, verdadeira. Deus humano e Homem divino. Mistério de fé, esse, porque é o grande mistério do amor. Custa-nos crer, porque custa-nos aceitar que alguém possa amar-nos a tal ponto, como Deus.

Ele está no meio de nós: vinde e vede! Podemos ver a Presença no Pão. Mesmo correndo o risco dos exageros e coisificações da piedade popular, a Igreja sempre afirma que o Pão consagrado pode ser guardado, exposto, adorado, reservado para os doentes. A Igreja o expõe para a adoração e a bênção. Passando por uma igreja, podemos adorar a Presença que se encontra no sacrário. São Francisco pedia a seus frades que, ao passarem por uma igreja, se ajoelhassem e dissessem: Nós vos adoramos Senhor Jesus Cristo, presente nesta igreja e em todas as igrejas do mundo! Podemos ver o Senhor, se formos capazes de ir além das aparências. No Santíssimo Sacramento, o que vemos é aparência, o que existe é a realidade: o Senhor.

A Festa do Corpo de Deus

Em 1264, o papa Urbano IV estendeu para toda a Igreja [Latina] a Festa de Corpus Christi. Santo Tomás compôs os hinos do Ofício litúrgico. Quem não conhece e canta o Tão sublime Sacramento? Pois é de Santo Tomás e a Igreja [Latina} o canta há quase 800 anos.

Por entre aclamações, cantos, fogos, orações, incensos, multidões, tapetes floridos, vai o Senhor em procissão. Ele sente as alegrias das aclamações humanas, para que as criaturas sintam as alegrias divinas. É o Senhor festejando conosco o Mistério da Fé. Vinde e vede, o Senhor está em nós e no meio de nós.

A Igreja sofreu muito quando teve de nos obrigar a comungar ao menos uma vez ao ano. Sofreu pela indiferença de seus filhos que não querem ver o Senhor, que não querem com ele fazer amizade, que não o querem como Pão e Vinho, festa de amor. Fujamos do caminho das obrigações e enveredemos pelas estradas da amizade que conduzem ao altar: lá está o Senhor, cheio de afeto, majestade e poder. Para ser adorado e consumido.

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