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A DORMIÇÃO E A ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU

 

A minh’alma glorifica o Senhor,
porque olhou para a humildade de sua serva (Lc 1,46-48).

Vinde de todos os confins do universo,
cantemos a bem-aventurada trasladação da Mãe de Deus!
Nas mãos do Filho ela depositou a sua alma sem pecado:
com a sua santa Dormição o mundo é vivificado;
e é com salmos, hinos e cânticos espirituais,
em companhia dos anjos e dos apóstolos,
que ele a celebra na alegria.

Oh, os teus mistérios, ó Pura!
Apareceste, ó Soberana, trono do Altíssimo
e nesse dia te transferiste da terra para o céu.
A tua glória brilha com o resplendor da graça.
Virgens, subi para o alto com a Mãe do Rei.
Ó cheia de graça, salve, o Senhor é contigo:
ele que doa ao mundo, por teu intermédio,
a grande misericórdia.

A comemoração da assunção de Maria ao céu deita raízes no século II e sua festa na Liturgia cristã é fixada no século VII, tanto na Igreja oriental como na ocidental. A festa foi fixada para o 15 de agosto e era precedida de um jejum de 15 dias, recebendo uma liturgia solene, devota e bela, como convinha à Mãe de Deus. Não se economizavam as palavras para o louvor daquela que deu carne ao Filho de Deus.

Tudo o que Deus, desde a eternidade, planejara para o ser humano, pôde realizá-lo em Maria.  Eva, a primeira mulher, optou pelo não à amizade divina e Maria, a nova mulher, disse sim. E nela foi plena a graça de Deus. Bendita entre as mulheres, não conheceu o pecado. Diante do Anjo, aceitou ser serva da vontade divina. E nela o Filho de Deus se fez carne para habitar entre nós.

Maria conservou íntegro o ser imagem e semelhança de Deus. Livre do pecado original foi também livre de suas consequências. Permaneceu virgem e, como virgem, concebeu e deu à luz um filho, o Messias. Nossa fé afirma que Maria, a Mãe do Messias-Cristo, é uma virgem, uma mulher na condição de quem “não conheceu homem”, não se uniu a homem algum: sua maternidade de Jesus procede da sua virgindade. Eis o paradoxo, o extraordinário, o miraculoso do nascimento de Jesus. Este paradoxo quer significar que somente Deus nos podia dar um homem como ele: Jesus não nasceu “do sangue e carne, nem da vontade do homem”, e isso é afirmado pelos evangelhos através da virgindade de Maria, tornada mãe pela potência do Espírito Santo.

São numerosos os lugares dedicados a Maria: santuários e igrejas dedicados a Maria no campo e na cidade, nos montes e nas ilhas menores e solitárias. Nesses locais, quantas orações, quantos cantos elevados a ela. A essa mulher, pintada ou esculpida, um número incalculável de pessoas olhou e olha como se olha a Mãe. Na sua desolação, em suas angústias e em seu pranto, pedem o impossível confiando que ela possa escutá-los, ter misericórdia, porque nela sentem a Mãe: “mostra-te Mãe”, invocam. Quantas vezes temos em nossas igrejas a imagem da “Pietà”, Maria que segura em seus braços o filho morto: diante dessa imagem, quantas mulheres choraram e choram o filho morto; quantos fiéis suplicam para serem acolhidos, ao final de sua vida, em seus braços maternos, braços de Maria mãe! Maria está inseparavelmente inserida no mistério do Verbo encarnado e, dirigindo-se à Mãe de Deus, sabemos estar nos dirigindo àquela que intercede junto a seu Filho.

O ano litúrgico do Oriente tem início com a festa de 8 de setembro, quando celebra o nascimento de Maria, e termina com a festa de 15 de agosto, festa da Dormição de Maria e sua Assunção ao céu.

A liturgia realça Maria como mãe do Verbo encarnado e poderosa intercessora. Há uma estreita relação entre Cristo e Maria, entre o dom feito por ela e a fonte de onde jorra o próprio Cristo: “Infunde paz em minha alma, ó Virgem, com a paz serena de teu Filho e Deus. Cura-me, ó Mãe de Deus, tu que és bondade e deste à luz o Bom”. “Tu que geraste o timoneiro, o Senhor, aplaca o tumulto das minhas paixões e as violentas ondas de minhas quedas”, rezamos no Ofício da Assunção.

Assunção de Maria ao céu

Virgem de Vladimir, século XII

Todo filho oferece o melhor possível à sua mãe. Jesus, o todo-poderoso, nada negaria à Mãe, Maria. Não permitiria que o corpo de Maria sofresse a corrupção, pois seu corpo santo e puro não poderia sofrer as consequências do pecado, de que foi livre por graça divina, pela sua imaculada conceição.

O amor a Maria, os hinos em seu louvor são entoados em toda a história da Igreja: os Santos Padres, os teólogos, os monges, papas e bispos, nenhum poupou o agradecimento a Deus por nos ter dado tão santa Mãe. Orações, cantos e ladainhas testemunham essa devoção e afeto.

A piedade popular narra que todos os Apóstolos, espalhados pelo mundo, foram chamados e transportados pelos anjos até Jerusalém para se despedirem da Mãe. Ela terminou sua jornada na terra contemplada pelos amigos dela e de seu Filho. Foi sepultada no Getsêmani, mas, seu santo corpo não permaneceu no túmulo. O Filho a transportou para a glória celeste, onde reina com o Pai, e é a intercessora dos homens e mulheres, mãe vigilante de toda a história humana.

A Igreja manteve a fé na divina assunção de Maria ao céu e, coroando o caminho de devoção à Mãe do Senhor, no dia 1º de novembro de 1950 o Papa Pio XII, após consultar o episcopado e os teólogos, proclamou o dogma da Assunção com a Constituição apostólica Munificentissimus Deus. Após percorrer pela história da teologia e a fé mariana do povo cristão, definiu:

Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus onipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.

A assunção de Maria ao céu é um sinal das coisas últimas. Em Maria nos é dada uma antecipação da glorificação de todo o universo que acontecerá no final dos tempos, quando Deus será “tudo em todos”, “tudo em toda coisa”. A dormição-assunção antecipa a parusia, e prepara nosso destino comum. A gloriosa Mãe de Deus é nossa mãe, em seu regaço guarda todos os filhos. Cheios de amor e gratidão sabemos que por mais que falemos de Maria, nunca falaremos o suficiente, nunca falaremos demais. Ao invocarmos sua proteção sabemos que nossas preces se dirigem àquela que está junto do Filho: ela é a intercessora celeste, junto do Deus Trindade.


Pe. José Artulino Besen

 

Obs.: a Festa é fixada para o dia 15 de agosto. No Brasil, onde não há o feriado, é no domingo seguinte e, neste ano de 2018, no dia 19 de agosto.

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OS CRAVOS, CHAVE DAS CHAGAS DA MISERICÓRDIA

O Senhor ressuscitado e chagado – Via-sacra de Jasna Gora

Na glória da Santíssima Trindade, Jesus o Senhor e Filho conserva as chagas de sua crucifixão. Chagas santas e gloriosas, mas chagas que rememoram a dor e a entrega total na Paixão. A cada vez que um pecador se apresenta para o julgamento, antes de olhá-lo e julgá-lo, o Pai contempla o Filho chagado por aquele pecador. E a misericórdia triunfa no julgamento.

Quando Tomé, o homem das dúvidas e que exigia provas da ressurreição, se depara com o Senhor, esse não pede que o contemple olho no olho, mas que ponha os dedos nas chagas e então entenderá quem é o Ressuscitado. Prostrado em adoração, Tomé exclama “Meu Senhor e meu Deus!”, a grande profissão de fé na divindade de Jesus. Nas suas viagens missionárias, Paulo não anunciava a sabedoria humana, mas Cristo crucificado, morto e ressuscitado, aquele que salva e torna justo quem nele crê.

Pela ressurreição, o Pai transfigurou o corpo de Cristo, mas nele quis conservar as chagas, para que nelas a Igreja pudesse buscar o mais poderoso e eficaz remédio contra o pecado. Da chaga do lado direito, donde escorreu sangue e água, Deus faz brotar o Batismo regenerador e a Eucaristia, Carne e Sangue para a vida. Provando definitivamente que o homem crucificado estava morto ao abrir-lhe o lado direito com a lança, o Centurião abriu a fonte da Vida e dela fez nascer a Igreja. E não resistiu à profissão de fé: “Verdadeiramente ele é o Filho de Deus!”.

Certas espiritualidades e devocionismos se comprazem no sacrificialismo, na lamentação da dor infringida ao corpo de Cristo e gastam o tempo num tipo de tristeza sem muito sentido. Talvez esqueçam que a paixão, morte e ressurreição de Cristo foi ato livre do Filho de Deus. Dele foi a decisão de entregar-se por nós no supremo gesto de amor, fazendo da cruz assassina a árvore que reverdece e produz a salvação: “Que selva outro lenho produz, / que traga em si fruto igual?”, canta a Liturgia.

Quem diz “Tão grande é meu pecado que não merece perdão” mostra não se interessar pelo mérito de Cristo e peca contra o Espírito Santo, negando o amor infinito de Deus. O lamento que parece humildade se transforma em negação da Paixão redentora.

São Bernardo de Claraval, ao impulsionar a devoção à Paixão de Cristo e à Mãe das Dores quis, antes de tudo, confortar os cristãos: “Vejam quanto custou a nossa salvação, vejam o nosso valor diante de Deus!” Dele é a belíssima meditação sobre os cravos que fixaram Jesus à cruz. Os cravos se tornaram chave de salvação. Através das chagas, que abrimos com o cravo de nossos pecados, podemos contemplar a Deus que está em Cristo reconciliando o mundo consigo. Através das fendas das chagas o pecador pode provar quão suave é o Senhor (cf. São Bernardo, Sermo 61,3-50).

No momento triste de nosso pecado temos à mão uma chave preciosa: os cravos da crucifixão. Com eles nos aproximamos do Senhor, abrimos as chagas e entramos no tesouro da misericórdia. A máquina de dor do Calvário é agora a porta do Jardim dos reconciliados.

O Cristianismo não é uma religião onde se busca a salvação pelo saber, pela purificação física, pelo nirvana, pela ética. Nele não há lugar para a lógica da compensação (meu perdão tem preço) ou dos sacrifícios (sem muita penitência, nada feito). Jesus nos revelou que é a comunidade dos que crêem no amor e no poder salvador de perdoar.

A fé cristã se nutre de um paradoxo único no mundo religioso: quando eu peco, Deus não me pede sacrifícios, mas ele mesmo se sacrifica por mim.

Deus não pede ao pecador que se cubra de pó e cinza, que grite seus pecados nas esquinas para ser humilhado. Silenciosamente, a cada ato pecaminoso humano Deus contempla o Filho a seu lado e nele vê as chagas, isso é, o nosso preço. Cristo é o nosso resgate, ele pagou por nós. Então se entende o alcance da palavra de Paulo: “Irmãos, deixai-vos reconciliar com Deus!” (2Cor 5,20). Nós o ofendemos e é ele quem vem oferecer o perdão!

O perdão não é extático: ele nos faz entrar num movimento de amor, alegria, paz, felicidade. O perdão divino nos lança ao encontro do irmão para também pedir-lhe que aceite que nos reconciliemos com ele. Não mais será difícil escutar “vai primeiro reconciliar-te com teu irmão”.

Os cravos/chave que nos abrem o tesouro da graça nos fazem mergulhar num mundo novo, onde não há trocas, apenas amor gratuito.

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O NATAL DO MENINO, PRIMEIRA PÁSCOA

Natividade do Senhor – Andrej Rublev – 1405

Lucas é o evangelista que acrescenta dados históricos a seu relato da anunciação e nascimento de João Batista e Jesus (cf. Lc 1-2). E afirma que muito pesquisou para narrar tudo com fidelidade. Mesmo tendo escrito seu Evangelho após a ressurreição do Senhor, portanto sob a Luz da glória, sua história é profundamente humana: suas páginas são povoadas de mulheres arrependidas, pecadores penitentes, doentes e famintos que se aproximam de Jesus, Deus Pai esculpido nas parábolas do Filho pródigo, da Ovelha perdida, da Moeda extraviada (Lc 15). E é pelo fato de ter pesquisado que não poderia chegar a outra conclusão que o Evangelho é uma história de compaixão! Para Lucas, tudo o que é divino é tão humano, que só nos resta, a exemplo de Maria, guardar e meditar tudo no silêncio do coração, lá onde não se encontram explicações, mas conduzem à adoração.

Como a noite do Natal. Uma noite em Belém.

Maria e José vão a uma gruta, as hospedarias estavam lotadas na pequenina Belém. O Menino tem necessidade de nascer numa gruta escura, de ser depositado numa manjedoura, pois a gruta é a imagem do mundo/noite porque separado de Deus e a manjedoura é a imagem da urna mortuária onde anos depois o Homem de Nazaré vai ser sepultado para vencer a morte ressuscitando. A noite de Natal já é uma Páscoa, a pequena Páscoa que à grande Páscoa antecede.

Recordada do anúncio do Anjo, Maria contempla o infinito e mergulha no mistério desse Menino gerado eternamente de um Pai sem mãe e agora gerado humanamente de uma Mãe sem pai. Seus olhos vão do Menino a José e se refugiam na noite silenciosa, a noite que preanuncia a explosão luminosa da Grande Páscoa.

José contempla Maria, tomado pela dúvida: como pode ter nascido essa Criança sem ter parte comigo? É a tentação que penetra toda a história: somente achamos verdade o que não foge aos nossos olhos ou aos limites de nossa razão, negando local à novidade continuamente recriada por Deus. Maria o contempla com profunda e infinita compaixão. José, porém, é vencido pelo encanto do amor e prorrompe num Aleluia sem fim, pois aceita participar do mistério que desliza ante seus olhos.

Nessa mesma noite pobres pastores de Belém apascentam ovelhas, livrando-as de lobos ferozes. Escutam vozes de anjos anunciando alegria, notícia nunca escutada. Incontroláveis, os anjos explodem num grande hino, pois é possível a paz na terra com a glória divina penetrando a criação. Os pastores dirigem-se à gruta que lhes é indicada e contemplam a pobreza total: Maria aquecendo o recém-nascido, José os protegendo, animais dormindo. Narram o que escutaram e nada perguntam, pois estão abertos ao Mistério. A Luz penetra a gruta, rompe-se o domínio das trevas, o céu e a terra se reúnem, a eternidade e o tempo se abraçam. O Menino enfaixado é o Homem que desata as faixas e transforma o túmulo da Morte em templo da Vida.

A Luz torna o mistério fascinante, mas o Mistério iluminado queima os olhos de quem se atrever a profaná-lo querendo dominá-lo com olhos carnais. Somente a Transfiguração dará ao ser humano olhos capazes de contemplar o Mistério, num longo caminho de transfiguração a ser percorrido. No meio das miríades de estrelas que brilham nessa noite luminosa, Maria é a Estrela que anuncia o Sol que nos vem visitar.

Todo nascimento é oportunidade para uma troca de presentes. Em primeiro lugar, o Pai eterno nos dá o Filho eterno como criança frágil de quem ninguém precisa ter medo. Seguindo a Liturgia de São João Crisóstomo, e nós, que presentes oferecer ao Menino como sinal de gratidão?

Os anjos oferecem sua gratidão, os céus a estrela, os Magos seus dons, os pastores sua admiração, a terra oferece a gruta, o deserto a manjedoura. Nós, porém, oferecemos a Deus uma Mãe Virgem. No Filho que gerou nossa natureza humana também é pacificada e virginizada.

É Natal. Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra!

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O SILÊNCIO É FÉRTIL

«São Pedro, mártir pedindo SILÊNCIO» Nicholas Lochoff (1948) - Frei Angélico (Florença, 1400? -1455), Original (após 1438), no Claustro de São Marcos, Florencia, Afresco.

«São Pedro, mártir pedindo SILÊNCIO» Nicholas Lochoff (1948) - Frei Angélico (Florença, 1400? -1455), Original (após 1438), no Claustro de São Marcos, Florencia, Afresco.

«Quem vigia sua boca, guarda sua vida,
quem muito abre seus lábios se perde»
(Provérios 13,3)

O silêncio! Ao contrário do que a maioria pensa, o silêncio não é perda de tempo, não é fuga da palavra construtiva, da ação. As pessoas que revolucionaram o mundo vieram do deserto, onde tiveram a experiência fértil do silêncio: foi no deserto que Moisés aceitou a missão de ir libertar seu povo do Egito. Foi no deserto que Jesus se preparou para sua missão de redentor do mundo. Foi no deserto que Paulo se fortaleceu para as viagens missionárias. Foi no deserto do Saara que Charles de Foucauld, oficial francês, deu a largada de um grande movimento de espiritualidade cristã e humanística.

O deserto é silêncio. O silêncio produz o encontro com o Deus da vida. Quem não passa pela experiência do silêncio, não sentirá a passagem de Deus por sua vida. Vai perder as melhores oportunidades de crescimento pessoal, pois estará sempre mergulhado na agitação do mundo.

Nossa vida precisa de silêncio a fim de que possamos refletir, avaliar nossas atitudes. A criatividade das grandes personalidades foi gerada no silêncio.

Nossas casas são agitadas pelo barulho, e o silêncio transformador é morto pela parafernália eletrônica que nos enche os ouvidos, os olhos, e embota o coração. Fazemos de tudo para fugir do silêncio: é o vazio interior.

Somos tão cercados pelo barulho do som e da imagem, que perdemos a sensibilidade pelas pessoas. Não calando, não ouvimos. Quanto mais o ruído nos dominar os sentidos, menos teremos paciência para escutar alguém. Nossas casas tornam-se ninhos de solidão e insensibilidade, porque perdemos a disposição para a conversa, para o diálogo. A mesa da refeição, lugar favorável para o encontro familiar, fica diante de uma Televisão sempre ligada: pais e filhos se desinteressam da conversa amiga, pois os ouvidos estão concentrados no programa do momento. Assim, as pessoas vão se tornando estranhas, mesmo convivendo sob o mesmo teto.

Somos os grandes prejudicados pela ausência do silêncio, porque acabamos não nos escutando mais. Pior ainda, teremos medo do silêncio que nos coloca frente a frente com nossa consciência, e não conseguimos refletir sobre nossa própria vida, nossas atitudes. No final, teremos medo de nós mesmos. Vem a depressão, o sentimento trágico e destrutivo de estarmos sozinhos no mundo, de não termos quem se preocupe positivamente conosco. A culpa inicial foi nossa, incapazes que fomos de nos preocuparmos com os outros. E o barulho será o remédio para fugirmos de nós mesmos.

O homem que gosta do silêncio é uma pessoa em paz consigo mesmo. A mulher que ama o silêncio é uma pessoa de bem com a vida. Seu silêncio será contemplação feliz da própria existência.

Deus age sempre no silêncio de nosso coração. Sem atenção, sua presença passará despercebida, e o sentiremos sempre mais distante de nós.

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A PESSOA, CENTRO DA EXISTÊNCIA HUMANA

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Marta e Maria (Mosaico “Redemptoris Mater “- Roma)

«Marta, andas muito inquieta
e preocupada com muitas coisas!
»  (Lc 10,40)

Nos seus momentos de descanso, Jesus privava da amizade dos irmãos Marta, Maria e Lázaro. Era em sua casa, em Betânia, que descansava, cultivando a amizade humana. No Evangelho, esses três irmãos são ocasião para Deus revelar seu poder: Lázaro é ressuscitado dos mortos, Marta proclama que Jesus é a ressurreição e a vida e Maria é a primeira a contemplar o Senhor ressuscitado.

Certo dia, Jesus percebeu algo estranho ao chegar para visitá-los. Marta, boa dona de casa, não perdeu tempo: foi direto para a cozinha preparar uma boa ceia, e fazer as últimas arrumações. E Maria, ficou na sala, escutando a Jesus.

Minutos depois aparece Marta, de mau humor:

— «Senhor, achas certo que eu fique sozinha na cozinha, enquanto Maria fica aí te escutando, sem fazer nada?»

Jesus a repreende:

— «Marta, Marta! Andas muito preocupada com muitas coisas. Mas te esqueces do principal: receber-me, escutar-me. Maria escolheu a melhor parte”.

Jesus coloca o problema em seus termos certos: primeiro a visita, depois a comida; primeiro a pessoa, depois o trabalho. Sua visita era para conversar, escutar, descansar. Não viera visitar uma cozinha, e sim, pessoas amigas.

Na tradição, Marta representa o trabalho; Maria, o diálogo, o silêncio. Marta, os que vivem apenas para o trabalho; Maria, o sentido da amizade, do «perder tempo» com os outros, a contemplação.

Fazemos muitas coisas que não são tão importantes. E nos esquecemos do essencial: o que adianta casa muito bonita, arrumada, banquete pronto, se não há amigos para disso compartilhar? Qual a graça de uma casa tão arrumada, que os filhos não podem pisar no chão? Que sala de visitas é essa, se não pode ser usada, pois os tapetes ficarão sujos? A que serve o casal pensar muito em boa residência se um não reside no coração do outro?

Não compensa estar acompanhado de grandes riquezas, se não temos a companhia amiga das pessoas. Não adianta habitar grande mansão não visitada por ninguém.

Jesus disse a Marta que «uma só coisa é necessária, e Maria escolheu a melhor parte». Poucas coisas são necessárias, e a melhor parte da vida é a amizade, a compreensão, o apoio mútuo, saber que há pessoas ao nosso redor. O trabalho é fundamental, mas primeiramente vem a pessoa humana. A família precisa de nosso suor, mas necessita ainda mais de nossa presença gratuita, atenciosa, solidária.

Unir trabalho e silêncio, ocupação e lazer. O que enche o coração é sabermos que amamos e somos amados, que há alguém desejando nossa felicidade, preocupado conosco.

Não esquecer que há um amigo sempre batendo à nossa porta, e que não entra se não mandarmos: é Jesus Cristo, o Salvador, que também quer morar conosco, fazer parte de nossa família.

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O CRISTÃO, IMAGEM DA BELEZA

A beleza de Cristo crucificado está na sua bondade, na sua justiça. Sua beleza é a do amor divino que se rebaixa para elevar a humanidade, e a cruz é uma de suas expressões máximas. Uma pessoa boa tem o mesmo efeito de uma obra de arte: dela nos aproximamos em invejosa contemplação.

Um velhinho, vergado pelos anos, enrugado pelos trabalhos é belo quando acarinha uma criança, desfia o rosário. Bela é a mãe que contempla o filho morto e reúne forças para dizer “Meu filho!”. A consolação e a compaixão são as mais fortes expressões do belo. A dor inefável torna-se consolação através de mãos que acarinham, protegem, partilham. Os pobres que conservam a fé não perdem a alegria da beleza sem limite.

O belo é também consolação na dor: a paisagem, as crianças irrequietas, as flores, o canto dos pássaros permanecem enquanto sofremos, e podem nos consolar.

A própria criação espera o momento de se libertar do vazio que a oprime, para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus (cf. Rom 8, 18-25).

Tudo é missão, tudo é anúncio de uma realidade que ultrapassará toda a realidade sentida e contemplada agora. Nunca podemos esquecer: o fruto final da missão cristã é o anúncio da ressurreição, da libertação final, da gloriosa e feliz contemplação da Beleza eterna, o nosso Deus e todos os que aceitaram participar de seu Banquete.

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A EUCARISTIA E A BELEZA DA HARMONIA

O martírio - experiência de morte-ressurreição - Capela de Kocevski - Eslovênia

O martírio – experiência de morte-ressurreição – Capela de Kocevski – Eslovênia

Durante seus 20 séculos de existência a Igreja tratou como seus dois tesouros a Palavra e o rito litúrgico. Surgiram famílias litúrgicas e, nelas, dezenas de ritos para expressar e celebrar o mistério pascal. A Igreja católica, em sua variedade ritual, tem no rito romano seu rito para a Igreja latina e no rito oriental, mais conhecido como a Divina Liturgia de São João Crisóstomo o rito para as Igrejas católicas orientais. A Divina Liturgia é comum à da Igreja Ortodoxa, constituindo-se numa preciosa ponte ecumênica.

O rito litúrgico pertence à Igreja e não à criatividade dos fiéis ou comunidades. Ele expressa a eterna vida divina e não a provisoriedade de nossas experiências diárias. Ele assume nosso quotidiano, é verdade, mas para divinizá-lo e mostrar sua participação da glória divina.

Uma das características do rito é a sua repetição sempre igual, dia por dia, ano por ano. O rito é sempre o mesmo, porém, a cada dia nós somos diferentes e a cada rito a Palavra de Deus proclamada é diversa, razão porque a repetição ritual não cria monotonia. Evidente que se a Palavra não é ouvida ou por distração ou por ser mal proclamada, teremos a experiência da monotonia ritual, estéril.

A Liturgia eucarística é indissociável da celebração da Liturgia da Palavra: Deus fala, nós celebramos. O mistério pascal é o mesmo, mas a extensão numérica dos séculos da história será pouco para expressar parte de sua profundidade e riqueza.

Outra característica do rito litúrgico é a sobriedade, conseqüência da simplicidade divina. O mistério leva ao fascínio e não à curiosidade. Missa enfeitada é produto de equipes de teatro e não litúrgicas. Cristo é a Palavra e não multiplicação de palavras que ocultam nossa realidade. É triste o anúncio de missas carismáticas, de descarrego, de quebra de maldição, de cura, de exorcismo, de posse de governo, de aniversário de clube, etc.: a Missa não tem adjetivo, pois a Eucaristia é sempre a celebração e memória do mistério pascal onde Deus se manifesta no silêncio e na beleza simples, sempre comunicativa. A Eucaristia jorra do lado aberto do Senhor crucificado e ressuscitado e não do farfalhar de púrpuras, brilhos de vestes litúrgicas e teatralizações cerimoniais. Muitos males provém da identificação de cerimônia com liturgia: um bom liturgista é necessariamente teólogo e um bom cerimoniário pode eventualmente ser apenas especialista em encenações. Liturgia se identifica com mistério.

A Liturgia pede a harmonia dos participantes, dos cantos, dos gestos, palavra/silêncio, das velas/flores. «O espírito tem sede de harmonia enquanto que a vida é desarmônica», afirmou o cineasta russo Andrej Tarkovskiy. Missa movimentada, agitada, rumorosa, de padre irrequieto e equipe exibicionista, «platéia» festeira abafa a harmonia de que nosso espírito tem sede: expressa a realidade da vida mas suprime a possibilidade de transfigurá-la. Não vamos à Igreja para reproduzir o barulho da rua: queremos, isto sim, trazer tudo conosco mas para entrar em comunhão com o Deus que é belo, simples, silencioso.

O fato de não nos conformarmos em viver divididos interiormente gera um movimento nascido da fé e, assim, a profundidade de nosso ser, nossas forças espirituais nos impelem a buscar a harmonia. Que não se restringe ao nível pessoal: nosso ser busca a harmonia com Deus, com o outro e com a criação. Na sua simplicidade e mistério a divina liturgia nos oferece essa sinfonia, pois o Espírito transfigura tudo o que é ofertado no Corpo do Senhor glorificado.

Ao concluirmos a celebração litúrgica, ajude-nos o Senhor a poder cantar, na verdade: «Anunciamos, Senhor, vossa morte e proclamamos vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!».

Pe. José Artulino Besen

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A CONTEMPLAÇÃO DE DEUS NA DOR

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Patriarca Athenágoras

O Dia Mundial do Enfermo é fixado na primeira aparição de Maria em Lourdes, 11 de fevereiro de 1858. De fato, o Santuário francês de Lourdes é o grande ponto de encontro dos doentes de todo o mundo. O momento alto e emocionante do final de dia é a Procissão do Santíssimo Sacramento: cada doente e seus acompanhantes contemplam o Pão consagrado e pedem o pão da saúde. Estatisticamente são poucos os que recebem a cura física, mas a verdade está além desse dado: em Lourdes recebe-se a cura espiritual, a alegria de viver, a coragem de conviver com a dor, a felicidade de oferecer a cruz pela salvação do mundo, a contemplação do amor de Deus na doença. Os peregrinos chegam à gruta de Massabiélle arcados sob o peso da dor e retornam a seus lares livres, nutridos pela certeza de que sua cruz é anúncio vivo da ressurreição.

Na vivência da fé cristã não há situações sem sentido: seriam o sinal impossível do esquecimento de Deus! Após a Cruz-Ressurreição em Jerusalém, tudo na vida humana participa do mistério da redenção. Tudo é ofertório salvífico, eucaristia.

Para quem tem saúde, a presença do enfermo é pedido de fraternidade, solidariedade, paciência, ternura. O que é frágil pede carinho, cuidado: o doente é nossa ocasião de praticá-los. Sua família é lugar ou de revolta ou de santificação: depende de como se assume a cruz. O doente muda o eixo da existência: se antes a preocupação era a casa, os móveis, os objetos, o conforto, os passeios, agora é uma pessoa, uma imagem a ser esculpida por nós, na fé.

E o doente? A experiência nos mostra que o leito de dor é um imenso altar de sacrifício, de oferta, de conversão. Passa-se da escravidão interior à liberdade: na limitação física, na imobilidade, o espírito adquire capacidade de amar, contemplar. Se antes realizava o que sonhava, agora realiza o único necessário e possível: deixar-se amar, ser ajudado, perceber o amor das pessoas, ter tempo para divisar, além da cruz, o esplendor da presença divina. A cruz alarga seu horizonte, oferecendo-lhe a esperança.

O doente matricula-se na escola da dor, tão fecunda, luminosa, na riqueza de seu silêncio. Nela aprende-se a palavra obscura do Calvário, mas palavra de Deus. Para o cristão militante, a dor é um convite a crer que Deus salvará a Igreja e o mundo em nossa fraqueza e não na força, pois é a força do Ressuscitado e não nossas estratégias que darão vida ao mundo.

Aqui pode ser repetida a palavra de uma doente pobre e cega: “Deus ama a muita gente mas, com certeza, por ninguém tem mais amor do que por mim!”

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