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TRINDADE SANTA – PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO

A Trindade Santa - ícone de Andrej Rublev - 1425.

A Trindade Santa – ícone de Andrej Rublev – 1425.

No primeiro domingo depois do Pentecostes, a Liturgia nos faz contemplar nosso Deus, a Trindade Una e Santa, nos leva a mergulhar em sua beleza de amor. Há cristãos que acham o Deus Trindade um assunto muito complicado, que quase ninguém sabe explicar menos ainda, entender. Lembro aqui algo fundamental na fé: Deus não se explica, mas é narrado através daquilo que revela na Escritura e na criação, e Deus não se entende, mas se vive no mistério revelado por Jesus. É claro que se pode explicar e entender como analogia, pois a razão está a serviço da fé mas, que não se pode é transformá-lo em teorema, pois ele é amor. Trilhando a narração da história da Salvação chegaremos ao caminho de Jesus.

“Desde o nascimento da Igreja, é ele (o Espírito Santo) quem dá a todos os povos o conhecimento do verdadeiro Deus” (Prefácio de Pentecostes). Nosso Deus não é somente o Deus do Antigo Testamento, não é o Alá dos muçulmanos, não é Brahman, não é Buda. Nosso Deus é o Pai, o Filho e o Espírito Santo, três Pessoas divinas pelo amor unidas num só Deus. E, após a Encarnação, nosso Deus é Pai, Filho divino e humano e Espírito Santo. Em Cristo, a humanidade participa da vida trinitária.

Por que podemos falar assim, quase com soberba, com tanta segurança? Porque Deus nos revelou através de seu Filho, que esteve entre nós. É um Mistério tão fascinante que se procura “humanizar”, tornar palatável à inteligência através também de uma teologia avessa à contemplação. Vale a frase do convertido romancista inglês G.K. Chesterton: “os tempos modernos estão infestados de ‘virtudes cristãs tornadas loucas’ para que possamos aceitar o mistério”. Nosso Deus é conhecido por comunhão de amor, por contemplação maravilhada e não por discussões ou pela inteligência. Dele sabemos o que nos revelou, assim como também nós somos conhecidos somente naquilo que revelamos.

Contemplemos nosso Deus, concretamente, agindo em nossas vidas pelo amor sem medida, fiel, misericordioso, excessivo na beleza de criação. É escândalo para judeus, muçulmanos, religiosos de todas as nações, intelectuais, ouvir que nosso Deus morreu na cruz por amor, que ele é frágil, sofre da mais bela das doenças: a doença do amor.

Nosso Deus é comunhão – Tri-Unidade

Nosso Deus é a Tri-Unidade, Deus uno e três vezes santo, comunhão de amor entre Pai, Filho e Espírito Santo, comunhão não fechada em si, mas, que se abre a nós, chamados a acolher e a responder a tal amor. Como sempre, no Cristianismo, a meditação sobre Deus parte do homem Jesus Cristo, “o Filho unigênito que narrou Deus” (cf. Jo 1,18), que não traz uma “mensagem”, mas sua própria Pessoa divina e humana.

O Deus Trindade não é intimismo, solidão: é voltado para fora, comunica-se com o homem, seu amor é para o mundo, é “Deus para nós e por nós”. Rémi Brague, filósofo e historiador francês, afirma que “O dogma trinitário é o esforço obstinado de aprofundar a afirmação do apóstolo João de que “Deus é amor” (1Jo 4,8). “Deus é amor” é o nome de nosso Deus, pleno de compaixão e misericórdia, capaz de graça e de perdão, desce para alcançar o homem na escravidão e no pecado, como no caminho do Êxodo do Egito.

Deus ama a tal ponto o mundo, a humanidade, que lhe dá seu Filho para a salvação dele. Um filho único é toda a vida de um pai, é o que ele mais ama: o Deus que doa o Filho único, Jesus, é o todo-poderoso Deus movido por um amor louco. Há um excesso no amor divino e esse excesso é o Filho Jesus Cristo: que consumiu sua vida até à morte na liberdade e por amor de nós e, com o seu passar entre nós, fazendo o bem na potência do Espírito Santo (cf. At 10,38), narrou-nos que “Deus é amor” (1Jo 4, 8.16).

“Deus tanto amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito, para que quem nele crer não morra, mas tenha a vida eterna”. Com sua vida e com sua auto-doação, Jesus revelou o amor louco de Deus pelos homens. Renascido do alto, Paulo procura fazer da comunidade de Corinto uma morada do “Deus do amor e da paz” (2Cor 13,11). O homem é chamado à semelhança divina.

“Deste modo se manifestou o amor de Deus por nós: Deus enviou seu Filho ao mundo para que nós vivêssemos por meio dele. Assim é o amor de Deus: não fomos nós que amamos Deus, mas é ele que nos amou e enviou seu Filho como vítima de expiação por nossos pecados. Desse modo conhecemos que permanecemos em Deus e Deus em nós: pelo Espírito que ele nos deu como prêmio. E nós contemplamos e testemunhamos que o Pai enviou o Filho como Salvador do mundo (cf. 1Jo 4, 9-14). E, pela potência de Deus, o Espírito Santo, podemos renascer de verdade, do alto.

Assim nos ama Deus

A ação do Deus Uno-Trindade é perdão, amor, comunhão e podemos experimentá-la em nossa vida de . O modo com que Deus nos ama é antes de tudo fidelidade ao homem infiel, incapaz de querer corresponder a esse amor: a fidelidade e o amor de Deus tornam-se sua responsabilidade pelos homens pecadores. Deus se preocupa conosco, sente-se responsável por cada um de nós. E é assim que seu amor, unilateral e incondicionado, não condena, mas salva.

E como Deus provou seu amor? Na cruz, assumindo a forma do escândalo, do excesso que quebra todos os parâmetros humanos de reciprocidade, correspondência e retribuição do amor. O dom superabundante demonstrado na cruz é o perdão de Deus, o amor que Deus já predispõe para aquele que peca ou pecará. Nossos pecados já foram contemplados pelo Filho na cruz: o perdão já foi ofertado, aceitá-lo é da nossa responsabilidade.

O Deus que ama é também o Deus que sofre se não aceitarmos seu amor, se rejeitarmos a graça que vem do Filho e da comunhão no Espírito. Sofre se encetamos uma viagem que o torna sempre mais distante do horizonte de nossa vida. O Deus Trindade é o Deus que não vive sem o homem. E o homem, pela fé situando-se em Cristo e deixando-se guiar pelo Espírito, passa a morar no ágape, no amor, e assim, conhece a comunhão com Deus, com o Deus que é amor. O ágape, amor em plenitude, gratuito, é o coração da vida trinitária.

O grande modelo para o anúncio da Beleza que salvará o mundo é a Trindade: harmonia e beleza sem limites, amor que une três Pessoas num Deus, a juventude do Filho, a feminilidade do Espírito, o encanto do Pai. A Trindade se revelou de modo pleno na beleza de Maria, venerada por todos os povos em sua beleza e encanto. Os místicos gostam de falar de Deus como “el Hermoso”,  o Formoso. Deus é formosura.

Nossa resposta ao nosso Deus: acolhendo tal amor somos capazes de exercitá-lo, amando-nos uns aos outros. O Filho nos redime, o Espírito cria a unidade, o Pai acolhe sem condições e passamos a profetizar. Deste modo o amor de Deus pode difundir-se e manifestar-se na história. E com o universo cantaremos o hino: “Onde o amor é verdadeiro, aí Deus está!”.

Pe. José Artulino Besen

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A CONVIVÊNCIA SUPÕE A PACIÊNCIA

Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo
que nos amou e por nós se entregou a Deus
 (Ef 5,2).

Li em algum lugar que um frio terrível se abatera sobre o reino dos animais. Frio tão intenso que, se alguém ficasse sozinho, acabaria congelando. Por isso os animais se agrupavam, um encostado no outro, para que se aquecessem. O porco espinho fez o mesmo, mas logo desistiu: ficou incomodado com as pequenas espetadas de seu colega porco-espinho. Preferiu dormir sozinho. Resultado: morreu congelado. E assim, a cada dia morria um porco-espinho no reino dos animais. Nenhum suportava as espinhadas do outro. Prevendo um fim trágico para todos, entraram num acordo: ficar todos bem juntinhos, se aquecendo, apesar dos espinhos, para não morrerem.

Essa historinha traz uma lição importante: ninguém consegue viver sozinho e ninguém consegue conviver sem algum tipo de sacrifício. Cada pessoa tem “espinhos” que incomodam outros, e os outros têm alguns espinhos que a irritam. Os espinhos são os defeitos pessoais, as limitações, manias. São o modo de falar, de agir, a aparência externa, limites emocionais, cacoetes, pequenas coisas que nos irritam. Percebo os defeitos do outro e ele percebe os meus. Fica a escolha: viver sem incômodos e morrer, ou conviver com eles para viver.

Essas coisas dependem muito de nosso olhar, de nossos sentimentos: atrás de um espinho podemos ver uma roseira ou um espinheiro. Se vemos uma roseira, vale a pena suportar os espinhos devido à beleza da rosa. Se vemos um espinheiro, tomamos distância. No romantismo do namoro e do noivado, os defeitos parecem pequenos encantos, porque o amor é muito forte, é ainda paixão. Depois, no casamento, se entra na rotina, e os defeitos “encantadores” viram motivo de confusão…

A convivência tem por objetivo ajudarmos as pessoas a se aperfeiçoarem. Pelo afeto, compreensão e diálogo ajudá-las a superarem seus limites. Se exijo que o outro não tenha nenhum defeito, tudo bem, somente que o outro também exigirá isso de mim e acabaremos morrendo de solidão, de tédio.

A moça que procura um jovem perfeito para o casamento, acaba ficando sozinha. O marido que sonha com uma rainha dentro do lar, vai perceber que a esposa também quer um rei e lá se vai água abaixo o amor familiar. Há gente sem amigo porque procura o impossível: um amigo perfeito. Muita coisa boa não é construída porque, de tanto enxergar defeito nas pessoas, não temos mais colaboradores.

Atingimos a arte de conviver suportando as pequenas “espetadas” de cada dia, sabendo que nossa paciência ajudará o outro a ser melhor. Vale a pena conviver com pequenas limitações, pois a alegria do estarmos juntos com os outros é muito maior. Se nos isolamos para não nos incomodarmos com os defeitos alheios, acabaremos aumentando o tamanho de nossos defeitos pessoais. O isolamento nos torna incapazes de nos enxergarmos a nós mesmos e nos torna amargos frente à vida.

O outro é meu espelho e eu sou o espelho dele. Às vezes, o que mais me irrita nas pessoas é aquilo que eu tenho e também as irrita. Dizem que vemos nos outros os defeitos que não enxergamos em nós!

Mas não é só por isso, por interesse pessoal, que aceitamos os pequenos sacrifícios impostos pela convivência. Nosso objetivo é maior vai além: existimos para que o outro possa existir. Fomos criados para multiplicar a solidariedade e não a solidão. Ninguém é uma ilha.

Precisamos de humildade, se não quisermos acabar sozinhos. Apesar de alguma “espetada“, a convivência enche nossa vida de calor humano. E então, vale a pena viver!

Pe. José Artulino Besen

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O CASAMENTO, UMA FORMA DE AMAR.

Por isso o homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne (Gn 2,24).

 O homem foi feito para a mulher, a mulher foi feita para o homem (cf Gn 2,18). O Criador achou que não seria bom para o homem estar só. Por isso, deu-lhe uma companheira que formasse com ele uma união tão forte de modo a não serem mais dois, mas uma só carne. É mais profunda a ligação marido-mulher que a ligação pais-filhos. O casamento acontece sem filhos e a família de certo modo é provisória: os filhos também deixarão pai e mãe e se casarão. Permanece uma só carne, o esposo e a esposa. Se eles não se acostumaram a olhar um para o outro, coração no coração, acabarão sentindo inutilidade no casamento quando o último filho deixar o lar.

O casamento é uma forma de amar e traz em si algumas características:

Todo amor supõe uma “escolha“: João escolheu Maria, Maria escolheu João. Escolha livre, pensada, responsável. Ninguém pode ser obrigado a se casar com determinada pessoa, por interesses dos pais, ou sociais, ou econômicos. O namoro foi o tempo de uma eleição: sobra um candidato.

Toda escolha supõe “renúncia“: no início do casamento, quando ainda se vive o fascínio original, a realização de uma expectativa, tudo parece encantador, os jovens esposos não se dão bem conta da enorme renúncia que assumiram. Depois tomam consciência de que a escolha realizada significou para o homem a renúncia a todas as outras mulheres, para a mulher a renúncia a todos os outros homens. Há a renúncia a continuar a viver com os pais, com os irmãos, com os amigos, com a liberdade de programação de fim de dia e fim de semana. É uma renúncia que precisa ser sentida como libertação, não como opressão. A escolha foi livre!

Toda escolha supõe um “risco“. É aí que muito casamento entra em crise. Já no dia das núpcias o casal assumiu o compromisso definitivo de se amar fielmente na dor e na alegria, na saúde e na doença. Tudo parece romântico, porque o primeiro amor está vivo, entusiasmante. Os jovens proferem o consentimento como se tudo fosse fácil, esquecendo-se dos riscos que assumem livremente.

Há o risco de uma doença que pode deixar um dos dois inválido. O risco da gravidez impossível, quando o sonho do casal é ter filhos. O risco de nascer um filho portador de deficiência física ou mental. O risco de se acentuar a diferença de temperamento. O risco da pobreza, do fracasso social e econômico. O risco está indissoluvelmente ligado à escolha do amor matrimonial. Não há amor sem risco!

O amor matrimonial é uma forma de “mediação divina“. Em outras palavras, a mulher descobre Deus através do marido, o marido é o mediador entre Deus e a mulher. Ama-se a Deus através do esposo e da esposa.

O que sustenta a escolha e os riscos do casamento é Deus, ppois Deus é a fonte donde jorra o amor conjugal. Sem ele, os melhores sonhos caem por terra quando surgem as primeiras dificuldades e desafios.

É muito fácil querer amar. Divino é amar de verdade, na dor e na alegria, na saúde e na doença. Quem atinge isso, fez do casamento uma forma de amar e de ser feliz. Um modo de compromisso sem condições: apenas o compromisso de amar sempre.

Pe. José Artulino Besen

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COMUNHÃO ESPIRITUAL – DEVOÇÃO E EUCARISTIA

Esperando a Missa de Páscoa em Kiev

Há intuições do devocionário popular que, confrontadas com a Liturgia, podem ganhar um significado profundo e serem símbolos de uma verdade maior. É o caso da “comunhão espiritual”: era e é recomendada para quem não pode participar da Missa, ou por não haver a Celebração pela ausência do padre ou por impedimento de consciência, como viver situação irregular. Na piedade popular mais estimulada nos seminários, conventos e associações religiosas era a “oração do desejo de comungar”, donde comunhão espiritual, não real, como se o espiritual pudesse ser não real. Por ocasião de aniversários, tempos fortes, se estimulavam os “ramalhetes espirituais” nos quais a comunhão espiritual ganhava destaque e tinha o peso medido pela quantia de vezes.

Os atos devocionais podem ter origem tanto na ausência/desconhecimento da Palavra de Deus e da Liturgia quanto num conhecimento menos eclesial da Palavra, ou então são a cristianização de ritos de outras religiões.

Não se quer negar o mérito ou a qualidade das devoções, apenas dizer que podemos extrair desse poço valores teológicos para elas.

Encontramos no Profeta Malaquias (480/460AC), o último na lista dos profetas bíblicos, uma profecia messiânica que nos insere no caminho da Comunhão espiritual: “De onde nasce o sol até onde ele se põe, o meu nome é glorificado entre as nações, e em todo lugar se oferece a meu nome um sacrifício puro, porque meu nome é glorificado entre as nações – diz o Senhor (Ml 1, 11). Malaquias fala de um sacrifício puro de louvor celebrado ininterruptamente em todas as nações. Não há momento ou lugarem que Deus não esteja recebendo esse sacrifício verdadeiro.

A Liturgia católica, na Oração eucarística III, após o canto do Santo, nos insere nessa profecia messiânica ao iniciar e epíclese: “Na verdade, vós sois santo, ó Deus do universo, e tudo o que criastes proclama o vosso louvor, porque, por Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso, e pela força do Espírito Santo, dais vida e santidade a todas as coisas e não cessais de reunir o vosso povo, para que vos ofereça em toda parte, do nascer ao pôr-do-sol, um sacrifício perfeito”.

A cada momento e em todo lugar, por Cristo, na força do Espírito, o Pai nos reúne para um sacrifício perfeito celebrado ininterruptamente, do nascer ao por do sol. Não podemos imaginar que em algum instante não se esteja unido ao Deus Uno e Trino com o sacrifício eucarístico. A Eucaristia é a celebração da Cruz e Ressurreição do Senhor, celebração do mistério em que, pela força gerada no Amor crucificado, nossos pecados são perdoados.

O drama da redenção pela Cruz é situado historicamente: em Jerusalém, numa sexta-feira da primavera do ano 32. Com isso podemos dizer que nessa data há um antes e um depois da Cruz, mas, no momento da Morte (tempo)-Ressurreição (eternidade) se revela a divindade do Senhor e a Eucaristia sai do tempo histórico e penetra na eternidade divina. Por quê? Deus é eterno, sem passado ou futuro e a Liturgia se realiza fora do tempo. Nossa vida humana transcorre nos fragmentos do tempo histórico, é verdade, mas nossa redenção se situa no eterno de Deus.

Assim, a Liturgia revelada no Apocalipse, em que o Cordeiro imolado desde a fundação do mundo assume o trono donde jorra a água redentora para o perdão dos pecados, permanece até o final da história (cf. Apc 21, 22-25): Cristo, o Cordeiro, é o templo onde se realiza a história. Cristo continua crucificado e ressuscitado, pois disse: “Se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados”; “Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então sabereis que EU SOU” (cf. Jo 8, 24.28). EU SOU é o nome de Deus, é a afirmação da divindade de Jesus o Cristo. Seguindo a palavra de João, Deus está crucificado e é na Cruz que se revela o Filho eterno. Desse modo o sacrifício redentor – a Eucaristia – se estende a todos os tempos e lugares, do nascer ao pôr-do-sol.

Se crermos no Crucificado, temos continuamente o perdão de nossos pecados, continuamente Cristo se oferece ao Pai por nós, na força do Espírito Santo. Esse gesto redentor não comporta datas e tempos, porque é obra divina, eterna. Cada comunidade eucarística intercede por toda a criação.

A Comunhão espiritual eucarística

Não há instante ou lugar em que não seja oferecido o sacrifício perfeito anunciado por Malaquias e proclamado na Liturgia. Isso nos dá uma grande alegria: espiritualmente participarmos da Eucaristia, hino de ação de graças e remissão dos pecados. Todo o cosmos é transformado e santificado pela Eucaristia, pois o Messias crucificado e ressuscitado a tudo consagra, e sempre, e em todo lugar.

Deste modo, a Comunhão espiritual pode ir muito além de um piedoso desejo de receber a Comunhão, de ser ato individual de alguém privado da Missa. A Comunhão espiritual é eucarística, é redentora, pois é participação real do mistério do Cordeiro imolado, cujo fruto é a remissão de nossos pecados. Ao invés de pensarmos numa igreja onde a Eucaristia é celebrada, creiamos que estamos mergulhados na Eucaristia cósmica, participando do sacrifício permanente e perfeito. Os pecados de todos os que crêem entram em contato e perfeitamente em comunhão com aquele que os perdoa. A cada comunhão espiritual eucarística somos o filho pródigo sendo recebido pelo Pai e recriado pela sua misericórdia.

São Francisco de Assis pediu que seus frades, quando passassem diante de uma igreja ou dum crucifixo, ou mesmo avistando de longe uma torre, se ajoelhassem e recitassem a pequena oração: “Nós vos adoramos e bendizemos, Senhor Jesus Cristo, presente aqui e em todas as igrejas do mundo”. Na Comunhão espiritual podemos e devemos rezar: “Nós vos louvamos e glorificamos, Senhor nosso Pai, e estamos unidos à Eucaristia que vossos filhos celebram nesse momento em todos os lugares do mundo”.

Pe. José Artulino Besen


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CORPUS CHRISTI – EUCARISTIA, COMUNHÃO E GRATIDÃO

Toalha que recebeu as gotas de Sangue no Milagre de Bolsena em 1263 e que deu origem à Festa de Corpus Christi. Está na Catedral de Orvieto

“No Calvário se escondia tua divindade, mas aqui também se esconde tua humanidade”, canta a Igreja em texto de Santo Tomás de Aquino, acrescentando “Venha a fé, por suplemento, os sentidos completar”. O mais visível dos sinais sacramentais é, paradoxalmente, o mais invisível. No Pão não se contempla nem a humanidade nem a divindade do Senhor, mas nele contemplamos sua Presença: é o Senhor!

A festa litúrgica de Corpus Domini (popularmente Corpus Christi) está ligada a uma série de visões, revelações pessoais e milagres eucarísticos acontecidos no século XIII. A causa principal foi a reafirmação de presença real do Senhor no Pão consagrado frente a doutrinas que a colocavamem dúvida. Em 1246 foi instituída como festa na diocese belga de Liège, a pedido da mística Juliana.

Muitas vozes suplicavam que Roma aprovasse uma festa que demonstrasse pública e festivamente a fé católica na presença real. A causa próxima foi o “Milagre de Bolsena”, em 1263, quando, nessa cidade um padre, Pedro de Praga, duvidara da transubstanciação. Quando ele se preparava para distribuir a comunhão, da Hóstia escorreram gotas de sangue que mancharam de vermelho a toalha. Como o Papa Urbano IV residia em Orvieto, cidade próxima, foi-lhe mostrada a toalha, o que o deixou impressionado. Após muita reflexão, um ano depois declarou que foi milagre.

Assim, atendendo aos apelos da Igreja, em 8 de setembro de 1264 instituiu a Festa de Corpus Domini para toda a Igreja. A seu pedido, São Tomás de Aquino compôs as inspiradas orações e os hinos dessa Liturgia, da qual cantamos sempre o “Tão sublime Sacramento”.

Após a morte de Urbano IV, a celebração da festa do Corpus Domini limitou-se a algumas regiões da França, Alemanha, Hungria e Itália Setentrional. Foi em 1317 que o Papa João XXII restaurou-a para toda a Igreja. Desde então, a festa teve um desenvolvimento extraordinário, e continua sendo especial no coração dos católicos.

Diante do grande e humilde mistério da Eucaristia somos convidados a manifestar nossa alegria externamente. Nossa gratidão nos impele a prestar homenagem pública de amor a Cristo Pão da Vida.

A Hóstia é uma Presença, a Presença do Cristo ressuscitado. Ao passar pelas ruas de cidades e vilas, aclamada pelos crentes que, na delicadeza da fé, lhe oferecem tapetes de flores, de cores, sua Presença se une à nossa presença e à presença em todo o universo. Não há lugar onde o Ressuscitado não esteja, em todos os tempos e lugares a Eucaristia e celebrada.

Eucaristia – encontro e comunhão

De tal modo nos sentimos unidos ao Senhor que, durante a Missa afirmamos que vamos “receber a Comunhão”. O horizonte dessa Comunhão se amplia, dilata, expande num raio sem limites, escreveu Paulo VI em 1969. É uma Comunhão dupla: com Cristo e entre nós que, nele, nos tornamos irmãos. É Comunhão com nossos irmãos, com a comunidade, com a Igreja: “Assim como há um só pão, nós, que somos muitos, formamos um só corpo, pois todos participamos do mesmo pão” (1Cor 15,17).

Na Eucaristia nosso encontro-comunhão com Deus é total: nada se interpõe entre nós e ele. Podemos dizer que é momento de Parusia, de vinda gloriosa do Senhor, de fim dos tempos. De certo modo, a cada celebração da Eucaristia acontece o que professamos no Creio: “e de novo há de vir para julgar os vivos e os mortos”. Ao final da Consagração o povo reunido reza, fervorosamente “Vinde, Senhor Jesus!”. E o Senhor vem ao nosso encontro na Comunhão. Nesse encontro aceitamos ser julgados: Cristo divino e humano une-se aos horrores da história, às nossas divisões e competições, ao nosso egoísmo, e também às alegrias e generosidades da humanidade que se une à liturgia celeste: “O nosso coração está em Deus”. Agostinho repetia que a Igreja é a prostituta que Cristo não cessa de lavar em seu sangue, o sangue eucarístico, para dela fazer a Esposa sem mancha. Nós somos os prostitutos que, tomando a Carne e o Sangue do Senhor, somos lavados em nossa interioridade e nos tornamos novas criaturas, renascemos.

O historiador francês, Henri Marrou, quando lhe perguntavam “ virá logo o fim dos tempos, a Parusia?”, respondia: “Não, não creio que será amanhã, mas sei que acontecerá hoje!”. Na Eucaristia.

A potência de Cristo é tão imensa que também na Eucaristia – segundo seu estilo de Belém, de Nazaré, do Calvário – esconde as mais sublimes realidades sob as aparências tão humildes do pão e do vinho que, desse modo, se tornam acessíveis a todos nós. Esse Sacramento é sinal de que Cristo Senhor quer ser nosso alimento, nossa comida, geradora de vida interior para todos nós e, em nós, aplica os frutos da Encarnação: “O Filho de Deus, de certo modo, uniu-se a cada homem” (GS 22).

No pão e no vinho Cristo, em sua humildade, se reparte para todos nós. Nossa resposta é a fraternidade em torno da mesa universal onde, unidos com Cristo, oferecemos uma grande Ceia ao Pai e a seus filhos. Assim, a festa do Corpo do Senhor é também a festa da Humanidade divinizada na Eucaristia.

Pe. José Artulino Besen

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CRISTÃO ISOLADO, NENHUM CRISTÃO

Irmã Dulce com crianças – Salvador – BA

O crescente individualismo de nossa cultura faz com que o transfiramos também para a esfera religiosa: minha fé, minhas crenças, minhas escolhas. Além disso, torna bastante difícil o estabelecimento de laços interpessoais e do sentido de pertença. O outro não me é necessário: eu me basto a mim mesmo.

E assim, no campo da fé, a consciência de viver numa comunidade torna-se um peso, pois não gostamos de ter com o outro um compromisso além daquele que me é necessário de imediato. O individualismo traz consigo o enfraquecimento da consciência eclesial  e muitos batizados não se sentem membros vivos e participativos da comunidade cristã, vivendo à margem. Só se dirigem às paróquias em determinadas circunstâncias, para receberem serviços religiosos.

Falamos muito em Cristianismo, e pouco em Igreja. É bom lembrar que o termo “Cristianismo” não é da Igreja primitiva. Os primeiros cristãos sentiam-se o Novo Israel em continuidade do Velho Testamento, serviam-se das palavras Aliança, Reino, Igreja, Comunidade dos Santos para se identificarem. Quando Paulo escreve às comunidades ele sabe que todos os seus membros têm uma identidade própria, cada seguidor de Cristo é membro de uma comunidade particular incluída numa comunidade universal. A preocupação com os pobres da Igreja de Jerusalém da parte das Igrejas da Ásia menor atesta bem essa consciência de comunidade única.

Muitos abandonam a comunidade eclesial por decepção, por terem sido mal acolhidos, pelos escândalos nas esferas religiosas. Acham que sozinhos é mais fácil ser santo, viver a fé, pois não precisarão mais nem fazer nem responder a perguntas sobre o que acontece em sua comunidade de fé.

Ao se agir desse modo, perde-se a beleza e a alegria de ser e sentir-se Igreja: “A Igreja não é uma comunidade daqueles que ‘não têm necessidade do médico’, mas sim uma comunidade de pecadores convertidos que vivem da graça do perdão, transmitindo-a por sua vez a outros” (J. Ratzinger). Agora como Papa Bento XVI, J. Ratzinger afirmou em recente alocução a respeito da beleza da Igreja: “A propósito da Igreja, os homens são levados a ver, sobretudo, os pecados, o negativo. Mas, com a ajuda da fé, que nos torna capazes de ver de modo autêntico, podemos também hoje e sempre ver nela a beleza divina”.

“Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9,13), afirmou Jesus. Ele continua a chamar a todos, formando uma comunidade admirável. Se ele chamasse apenas pessoas maravilhosas e virtuosas, que jamais errassem, não seria um sinal do Reino de Deus. O Padre Radcliffe, dominicano, a esse respeito nos oferece significativa meditação: “No coração de nossa vida cristã está a imensa vulnerabilidade da Última Ceia. Jesus coloca-se nas mãos de seus discípulos: “Tomai, isto é o meu corpo, entregue por vós”. Um dentre os discípulos o traiu, outro o negou, a maioria fugiu. Pertencer à Igreja é aceitar um pouquinho desta vulnerabilidade. Nós devemos aceitar estar implicados nos fiascos da Igreja e em seu heroísmo, em sua tolice como em sua sabedoria, em seus pecados como em sua santidade. E a Igreja também me aceita com meus pecados e com minha estupidez. É por isso que ela é “sinal e sacramento da unidade de todo gênero humano” (Lumen Gentium, 1,1). Nós pertencemos à Igreja não porque somos bons ou maus, mas porque somos discípulos de Jesus, aprendendo a caminhar juntos com ele e com aquele que está em nossa comunidade.

Para os primeiros Pais da Igreja era muito claro que “um cristão isolado não é cristão” (Unus christianus, nullus christianus). Mas, é importante lembrar, somente é cristão e membro de uma comunidade cristã aquele que decidiu dar uma resposta livre ao dom de Deus que é Jesus Cristo. Ser cristão é exercitar a arte da comunhão, da reconciliação na diversidade de pessoas, culturas e condições sociais. Quem é fechado em si, com medo do diferente, prefere uma religião ou individualista, ou de massa, tradicional, uma ideologia onde não precisa entrar em diálogo com o outro, gesto essencial na comunidade.

Quem sabe, a rejeição da comunidade e opção por viver sozinho a fé não seriam reflexos de nosso individualismo, de nosso fechamento interior?

Façamos nossa a oração que São Quodvultdeus, bispo de Cartago no século V, prescrevia para os candidatos ao batismo:

Concede, Senhor, a todos nós amar a Tua Igreja, a Tua amada. Faz com que lhe permaneçamos inabalavelmente fiéis, como a uma mãe amorosa, solícita e benigna, para que, com ela e por seu intermédio, possamos ser de casa junto de Ti, Deus e Pai nosso”.

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«Tomai e Comei, Tomai e Bebei»

Acontece com a Eucaristia o mesmo que a alguns estudiosos: para marcar o nome e a espécie de uma planta, amarram-lhe com arame uma plaquinha indicativa. Às vezes apertam tanto que a pobre planta morre sufocada.

Assim, de tanto definirmos que na Eucaristia recebemos real e verdadeiramente o Corpo e o Sangue do Senhor, a sufocamos nessa redução às vezes apologética, pois a Celebração vai muito além, sintetizando todo o mistério de Cristo, da Igreja e do mundo.

Após sua ascensão ao céu, a Igreja é o Corpo de Cristo-Cabeça, de maneira inseparável e eterna. Enviando o Espírito Santo, o Senhor transfigura toda a criação e no pão e vinho ofertados se inclui a consagração toda a criação.

Predito pelo profeta Malaquias (cf. Mal 1,11 e Oração Eucarística III), o Sacramento da Nova Aliança é celebrado continuamente em todo o mundo: não há instante em que não se faz ação de graças/eucaristia, não há momento em que o Corpo místico de Cristo e o mundo não são oferecidos e consagrados.

No Sacrifício espiritual da Eucaristia faz-se a memória real (não a recordação simbólica) da Paixão/morte/ressurreição/ascensão do Senhor. Nela ouve-se o grito de Cristo na cruz «Meu Deus, meu Deus» e nesse grito está incluído o grito da Igreja, o grito de cada membro do Corpo, um grito que chega ao Pai até o final da história. Todos os gemidos da humanidade e da criação prostituída se unem aos gemidos de Jesus e ressoam no céu (cf. Agostinho, Exp. in Psal. 85,5). A liturgia anglicana, recuperando a Liturgia da Igreja antiga, reza: «Nós te oferecemos e te apresentamos, Senhor, nossas almas e nossos corpos como sacrifício espiritual, santo e vivente aos teus olhos.» O sacrifício de Cristo e o sacrifício espiritual da Igreja tornam-se uma só realidade, pois Cristo engloba os membros de seu corpo no seu sacrifício. Tudo o que é ofertado é consagrado e transfigurado no Espírito. Por isso, em cada Missa a Igreja morre e ressuscita para poder subir aos céus com o Senhor.

O momento da Consagração, tão sagrado e íntimo para cada um de nós que vive o Mistério, é de um compromisso e entrega radicais: após rezar ao Pai, pedindo o Espírito Santo para a transfiguração/transubstanciação do pão e vinho, todo o Corpo se une nas palavras do Senhor.

Ao se entregar «tomai e comei, isto é meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei…», o Senhor se doa como nosso alimento e bebida. O bispo que preside a Eucaristia se entrega a seu rebanho como bom pastor e se oferta pessoalmente: «tomai e comei, isto pé meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei…». O presbítero que preside a Eucaristia se oferece a seu povo sem restrições: «tomai e comei, isto é meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei….» Cada cristão que participa da Eucaristia também se entrega a seus irmãos como alimento: «tomai e comei, isto é meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei…

Todos unem-se profundamente nessa oferta total «tomai e comei, isto pé meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei…», tendo consciência de que se tornam uma coisa só com o Senhor, para sempre. Na hora da Comunhão dá-se a conseqüência final: todos os que se ofereceram «…será entregue…» tornam-se alimento no Senhor pois, ao ouvir «O Corpo de Cristo» sabem que estão recebendo o Senhor-Cabeça e seu Corpo/Igreja. Recebemos e trituramos (comei, em grego traghein=triturar) os que se nos ofertaram, sabendo que somos recebidos e triturados pelos que receberam nossa oferta. Tudo se torna uma única realidade, o Espírito faz resplandecer em cada um de nós a beleza dos que se alimentam desse alimento fruto de doação incondicional.

O Espírito Santo jorra no mundo a partir do cálice eucarístico: cada assembléia é um contínuo Pentecostes, todos são recriados e o mundo renovado, pois todos se recebem e se dão «em Cristo.»

Cada rosto celebrante é o rosto do Senhor e o rosto do irmão, em cada rosto humano contemplamos todos os rostos, dos que cantam, dos que gemem, dos que blasfemam e nosso rosto é a totalidade desses rostos. O reino dos rostos é o reino do Espírito: Cristo, tomando nossa carne fragilizada, devolve-a unida à sua carne transfigurada. A procissão eucarística é a procissão da multiplicidade dos rostos: chegam humanos, partem divinos. Só nos resta proclamar, adorando: «Tudo isso é mistério da fé!»

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«CREIO NA COMUNHÃO DOS SANTOS»

Todos os Santos

Todos os Santos

Nós cremos na oração em favor dos vivos e dos mortos, porque Cristo, o único mediador, está no meio de todos e leva ao Pai nossas preces. O amor de Deus não permanece insensível às súplicas de seus filhos, e também se sensibiliza se algum de seus filhos opta pelo caminho da perdição.

Martin Heidegger, filósofo alemão, afirmou que “a morte é a plenitude da vida”: como cristãos podemos deduzir que é o momento em que abrimos nossas mãos diante de Deus e lhe apresentamos tudo o que fizemos com o dom de nossa vida. Quem sabe, naquele momento, muito pouco de bom teremos a mostrar mas, esse é o milagre, podemos mostrar ao Senhor as orações que se fizeram ou farão por nós. E o coração divino se enternecerá diante de tantos que por nós rezam ou rezarão: ele, eterno presente, tudo conhece.

É da necessidade de um coração cristão rezar pelos que morrem e pelos quais ninguém chora, reza, pelos que são sepultados como “indigentes”, como necessitados, dos quais ninguém tem necessidade. Rezar por aqueles aos quais tantos “mandam” para o inferno!

“Saber amar aqueles que se perderam e amá-los mesmo na sua perdição”, ensinava o humilde mendigo romano, São Bento Labre. Também os que porventura estão no inferno são amados por Deus e devem ser amados por nós. Até podemos crer que antes do Juízo final eles serão tocados pelo amor e reavaliarão sua opção de uma eternidade sem Deus. O amor tudo quer e tudo pode!

Se estamos sofrendo, ofertemos as dores: todas as dores que não libertam são dores perdidas. Por que desperdiçá-las? Cada vez que resgatamos um pecado, tornamos o mundo melhor. Esse resgate é a retribuição que podemos apresentar aos milhões de inocentes sofredores que remendam continuamente o tecido do mundo rasgado pelo pecado. O sofrimento do inocente clama ao céu por justiça e pela redenção dos injustos.

O inferno – anjos e homens sem rosto

O inferno é a consciência trágica da não-comunhão, a consciência de enfermidade do próprio eu. É fruto de uma escolha, na vida terrena, de viver sem comunhão. O homem foi feito para a comunhão com Deus, com os outros e, ao mesmo tempo, sua vontade de estar curvado sobre si mesmo priva-o dessa comunhão. É, para o condenado, desespero em estado puro saber que continua sendo uma pessoa e escolhendo um modo de vida radicalmente contrário.

São Macário (século IV) afirma que um condenado lhe contou que seu suplício no inferno era não poder ver a face do outro; eles estão ali, lado a lado, até de mãos dadas, mas não se podem ver. De tempo em tempo, graças às orações dos cristãos, um pode ligeiramente ver a face do outro e o sofrimento é diminuído. Estamos doentes quando uma agressão nos suprimiu a capacidade de nos comunicar, a comunhão. O pecado é a tentativa de preencher essa solidão existencial.

É o rosto que caracteriza os seres que só podem viver se em comunhão: Deus, os anjos, os seres humanos. O demônio não tem mais rosto e, por isso, procura suprimir o rosto dos outros (Bertrand Vergely, filósofo e teólogo ortodoxo francês, nascido em 1953). Cair em tentação é ceder o próprio rosto ao demônio e entrar em desespero, tentando roubar o rosto do próximo, provocando violência avassaladora. O pecador vive essa realidade infernal, mas dela pode se libertar tanto por abertura à graça quanto pela prece dos fiéis.

O céu – Deus, anjos e homens em comunhão

“A fé cristã não é um sistema de doutrinas, mas o modo de reabilitar o homem decaído, em virtude da crucifixão do Homem-Deus e com a graça do Espírito Santo” (Teófano o Recluso, Cartas I, 135). A fé cristã nos tira da solidão em que o pecado nos mergulha e, através do Filho que assumiu a natureza humana, recupera a felicidade da comunhão e, nela, a verdadeira oração leva a uma intensificação do amor pelo próximo. E o amor pelo próximo leva a uma intensificação da oração.

“A maior graça que temos é saber que os outros existem!” (Simone Weil, 1909-1943). Não há maior felicidade para um ser redimido do que saber que há outras pessoas diante dele, pois “o maior dom que podemos receber é o outro”. A jovem convertida francesa, mística cristã sem nunca pedir o batismo, conclui que é o outro que nos possibilita dar sentido à vida através da ação e da contemplação: agir pelo Outro/outro, contemplar o Outro/outro, isto é, Deus e o homem.

Se no pecado cedemos nosso rosto para o demônio e o roubamos do outro, na vida celeste da graça o rosto é transfigurado e procurado, porque refletido sempre na Luz do rosto divino.

O céu é a comunhão com Deus. À imagem da Trindade, um Deus em três Pessoas, somos/seremos um com Deus, dele inseparáveis na comunhão eterna: nossa existência individual não subsistirá e sim, nossa pessoa, que é sempre comunhão. A melhor imagem do Céu é a Liturgia: a comunhão de todos na Trindade ao redor da mesa que se faz altar. Felizes nós, os convidados para a Ceia do Senhor!: naquele dia, que será dia para sempre, não seremos mais convidados, mas comensais. E queremos, de coração, que toda a família humana esteja reunida na comunhão eterna.

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«DAR PÃO AO PÃO»

Jesus entre os discípulos de Emaús

Jesus entre os discípulos de Emaús

Nascido no Egito há 5 mil anos, o pão lançou um dos fundamentos da civilização, a distinção entre os bárbaros que comiam sementes e frutos e os povos que cultivavam o grão, conheciam a moagem, seu cozimento e o recolher-se em torno de uma mesa para saboreá-lo. No séc. III PC os gregos conheciam 72 tipos de pães!

Ao pão uniu-se o vinho e ambos são o símbolo mais conhecido da vida e da festa, da condivisão, do trabalho de muitos, da solidariedade, da “companhia” autêntica.. É remédio contra a fome física e contra a fome espiritual de encontro, amizade.

O pão nosso de cada dia pede pão: pede a redescoberta de seu sentido, pede alimento humano para que possa continuar a ser alimento integralmente humano. Pede sentido, significado.

Temos problemas com o pão. Não gostamos do pão porque engorda, achamos que o pão sendo meu não preciso repartir, não nos sentamos à mesma mesa porque temos coisas mais importantes a fazer, não comemos do mesmo pão porque a família se dispersou, não participamos da Eucaristia porque achamos perda de tempo a reunião dos cristãos.

O pão – fruto da terra e do trabalho

A comunhão eucarística é um meio precioso para redescobrirmos o sentido do pão e, por conseqüência, da Eucaristia. Quase sempre o pão encabeça a lista dos bens concedidos, com a terra, como dom de Deus: “Fruto da terra e do trabalho do homem e da mulher”, proclama o Presidente da Celebração na apresentação das Oferendas. O altar onde está o pão é chamado de “Mesa do Senhor”: ele inclui toda a criação e todo o trabalho humano. A assembléia se reúne em ação de graças (eucaristia) por todos os dons do Pai: a terra, a vida, o trabalho, o alimento, a redenção, a páscoa, a ascensão, o pentecostes: “Anunciamos, Senhor, vossa morte e proclamamos vossa ressurreição!”. Ao povo reunido ao redor de sua Mesa Deus tudo concede: o convite é universal e total.

No mundo bíblico o pão não era cortado com a faca, mas partido com as mãos. Jesus repartiu o pão e o deu a seus discípulos. Tomando e comendo, cada um come um pedaço e o pão retoma sua forma, o mesmo pão, através da comunidade que é gerada. Na família reunida o pão reúne seus pedaços partilhados e dispersos e na família da fé rezamos: “Senhor, como este pão durante um tempo estava espalhado pelas colinas e foi recolhido para fazer uma coisa só, assim recolhe a tua santa Igreja de toda raça e de toda a terra e de toda cidade e de todo povoado e de toda família, e faz dela a Igreja una, vivente e católica” (Anáfora de Serapião – séc. IV)).

A participação na Eucaristia simboliza a unidade dos cristãos em um só pão e em um só corpo (1Cor 10,17). Quando Paulo fala no estar preparado, ser digno, não se refere apenas a uma pureza ritual e moral: ele se refere à partilha do pão entre todos os que estão participando da assembléia: havia aqueles que comiam tudo bem ligeiro, pois não queriam partilhar. Paulo quer dizer: quem come o pão sozinho, não comunga salvação, mas come a própria condenação. Não há Corpo de Cristo no egoísmo (cf. 1Cor 11, 27-29).

Na comunhão o pão sempre é dado e recebido. A não ser por abuso, a Liturgia não permite que cada comungante tome o Pão diretamente da âmbula: ele deve ser entregue e recebido, sinal da fraternidade e da mútua dependência. Nas antigas liturgias, também o Presidente da Celebração (patriarca, metropolita, bispo, (…) o recebia – hoje apenas na liturgia síria se conserva essa bela tradição.

O pão pede para ser pão

Comer pão no Reino de Deus significa participar do banquete messiânico (Lc 14,15), pois o pão tem a propriedade de sintetizar todo o mistério da redenção: Deus que se faz carne, Deus encarnado que se faz Pão, Deus Pão que gera a Igreja, transfigura, diviniza. A Mesa do banquete é a mesa do Pão que desceu do céu. Jesus chama-se a si mesmo de verdadeiro pão, pão da vida, pão que desce do céu (Jo 6, 32ss). Desceu para que nos alimentemos e possamos com ele subir.

Segundo o mandamento do Criador, a Eucaristia desafia os cristãos a contribuir, com a força “comungada” do Senhor, para a valorização dos bens criados. E isso graças ao trabalho humano, à técnica e à cultura, para o bem de todos, sem exceção (LG 36). O pão pede respeito, simplicidade, moderação. O pecado da gula é o empanturrar-se enquanto o outro definha por falta de pão. O pão pede pão: pede mesa, família, partilha.

A Eucaristia nos dá o prazer da unidade, ninguém rejeite ou sinta-se rejeitado: “Aproxime-se, creia, deixe-se incorporar para ser vivificado. Não tenha repugnância de ser unido com outros membros num único organismo, não seja um membro afligido pela gangrena que precisa ser extirpado, não seja um membro defeituoso do qual sentir vergonha. Seja belo, seja bem adaptado, seja sadio, associe-se ao Corpo, viva para Deus e de Deus, trabalhe agora na terra para em seguida reinar no Céu” (Agostinho, In Joan. tratact. 26,13).

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A ANUNCIAÇÃO DA ENCARNAÇÃO DO SENHOR

Anunciação

Anunciação

O dia 25 de março, festa da Anunciação do Senhor, celebra o momento central da história da salvação: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória (Jo 1, 14). O Filho eterno de Deus renuncia à glória divina (cf. Fl 2, 6-11) e, pela ação do Espírito Santo, germina como homem/Deus em Maria.

O seio virginal de Maria representa toda a criação que acolhe a divindade: o ventre de Maria é a arca que recebe a eternidade e nesta, a plenitude dos tempos. O russo Pavel Florensky, cientista-teólogo e mártir do stalinismo afi0rma que toda a história mundial está contida inteiramente em Maria e tudo o que Maria significa se expressa no momento doa anunciação. Com a humanização de Deus se inicia a divinização do homem.

Maria dá início a seu caminho espiritual

A encarnação do Filho de Deus reconstrói as pontes entre Deus e o homem, entre o céu e a terra. Um anjo, Gabriel, que se aproxima de Maria de Nazaré, filha de Joaquim e de Ana, noiva de José (Lc 1, 26-38) e lhe quebra as seguranças. Ela é colocada diante do Deus do diálogo que a interpela a colaborar. Se quiser, pode continuar com seus projetos; é assim que Deus aborda aqueles a quem ama: Deus é diálogo.

O Anjo revela a Maria que Deus é promovedor: se ela quiser, deixará a vida privada e se inserirá num desígnio divino. Ela, porém, é livre e deve decidir.

Maria escuta, pergunta, silencia: Deus respeita a sua pessoa e está ali, esperando a resposta. Livremente, aceita entrar no plano de Deus: Eu sou a serva do Senhor. Aconteça-me segundo a tua palavra! (Lc 1,38). Nesta hora, em Maria estão todas as criaturas, ela contém todos os tesouros que o amor divino preparou para a humanidade que ele quer à sua imagem e semelhança.

Comunhão com o Espírito Santo

O sim a Deus é como o vento impetuoso: tudo é transformado. A virgindade de Maria transforma-se em maternidade. O Deus onipotente aceita a oferta virginal e, preservando-a, gera a maternidade divina. O Todo-Poderoso rebaixa a divindade e eleva a humanidade, num diálogo cujo autor é o Espírito Santo: despojado da condição divina, o Filho eterno aceita ser o filho.

Muitas vezes nossa fé conhece dificuldades porque gostaríamos que Deus se servisse da nossa lógica. Mas ele é paradoxal (cf. Lc 1, 46a.-55, o Magnificat): coloca, lado a lado, a grandeza e a miséria, a maternidade e a virgindade, a presença divina e a fragilidade. Maria é a realização perfeita do paradoxo divino: a virgem de Nazaré é, ao mesmo tempo, a Mãe do Senhor. O fruto de seu ventre é o Criador imortal que quis ser um mortal; gerado eternamente, quis ser gerado no tempo; o mistério incompreensível quis ser compreendido; quem sempre existiu começa a existir nos tempos. O Deus verdadeiro gerado em Maria é o homem verdadeiro (cf. Leão Magno, Tomo a Flaviano, 3-4).

O sim de Maria, como todos os “sim” a Deus proferidos na história, revoga certezas e oferece a mão a quem livremente aceita mergulhar na lógica divina.

E o anjo a deixou, conclui Lucas a sua narração. Maria continua ali, não na solidão humana, mas na solidão de não ter mais planos pessoais. Por pouco tempo. Logo irá ao encontro de Isabel e passará a experimentar o Deus imprevisível que realiza o Reino através da fraqueza e do sofrimento. Mas em suas experiência de Deus, no mistério de seu Filho, a Virgem de Nazaré sempre ouvirá a ternura da saudação do Anjo: Alegra-te, Maria!

E nós vimos a sua glória

Maria de Nazaré é a primeira visibilidade da glória de Deus (Jo 1, 14; 1Jo 1,2), pois nela está o Senhor da glória. A eternidade a contempla e todos os povos se alegram pois “a raiz de Jessé haverá de brotar, e haverá de surgir uma flor de seu ramos; pousará sobre ele o Espírito Santo” (Ant. das Vésperas). E o mesmo Espírito encherá de alegria os que esperam o Salvador, os corações simples abertos à grandeza do Deus pobre: Isabel dá um grande grito, João Batista pula no ventre de sua mãe, Simeão se alegra tanto que aceita morrer, a profetiza Ana torna-se louvor contínuo. Rompeu-se o dique construído por Adão e Eva e as águas celestes purificam as terrestres. Através de Maria a glória de Deus passou a ser glória de todos os homens e mulheres de boa vontade.

A Liturgia oriental penetra com profundidade o mistério do Filho através do mistério da Virgem Mãe que é saudada como “sarsa que arde mas não se consome” (Ex 3,2), “abismo insondável”, “ponte que conduz ao céu e escada que até lá se eleva” (Gn 28,12), “nova Eva que desfaz a maldição da primeira Eva”, “porta pela qual o Eterno passará e que depois permanecerá fechada” (Ez 44,2).

O mistério de Maria – Deus em Maria

Assim como a tradição da Igreja viu no Antigo Testamento a figura do Novo Testamento, lá a sombra, aqui a luz, vê em Maria a criatura que livremente aceitou ser modelada pelo Espírito Santo, artista do Pai e do Filho. Nela se concretizou o plano eterno de Deus de nos reconciliar consigo e nos divinizar.

A presença do Filho no ventre de Maria já é realização da divinização da humanidade: como só é redimido o que é assumido, na carne de Maria está a carne de toda a humanidade.

O teólogo e místico alemão Wilhelm Klein (1889-1996: 107 anos!) vê no mistério de Maria “Deus em Maria”: nela todos os homens são purificados, justificados, santificados, por meio de Jesus no Espírito Santo. Ela é o “segredo” da Trindade: nela o Pai e o Espírito encarnaram o Filho eterno.

Um anjo se encarrega dessa missão prodigiosa;
um regaço virginal acolhe o Filho;
o Espírito Santo é enviado do alto;
o Pai, nos céus, se compraz
e a união acontece por vontade comum
 .

(Tropário da Festa).

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A LITURGIA – COMUNHÃO COM DEUS E A CRIAÇÃO

Congresso Eucarístico em Florianópolis - SC

Congresso Eucarístico em Florianópolis – SC

No logo do 15o CEN, uma ponte surge do ocidente e conduz ao oriente: a luz do entardecer caminha para a Luz sem ocaso. Cristo é a ponte, o Pontífice entre o homem e Deus: realiza nossa comunicação com Deus, com os seres humanos, com toda a criação. O Senhor que ascende aos céus é a ponte pela qual desce o Espírito Santo e subimos à comunhão trinitária.

Solidão de Deus, solidão do homem

Na vida divina não há lugar para a solidão: é a comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a Trindade santa. Na criação divina não há lugar para a solidão, caos inicial no qual Deus pronunciou o “Que a luz seja!”. E a luz veio a ser”, gerando a vida (Gn 1,3). A luz organizou o caos primitivo e, ordenando um ser para o outro, iniciou a comunhão entre os seres. Na vida humana também não há lugar para a solidão: “Não é bom para o homem ficar sozinho. Quero fazer para ele uma ajuda que lhe seja adequada” (Gn 2,18). Somente agora, o homem que tinha tudo sob seu domínio, pôde exclamar: “Eis, desta vez, o osso dos meus ossos e a carne de minha carne” (Gn 3,23). O “osso dos meus ossos” refere-se a todos os seres humanos e não somente à mulher: a comunicação supõe sempre outro ser humano, a face do outro.

A felicidade que brotava da comunhão entre o homem e a mulher tinha como fonte a comunhão divina, pois foram feitos à imagem e semelhança de Deus. Paradoxalmente, a ruptura dessa comunhão pelo pecado produziu duas solidões: Deus sentiu-se só e o homem sentiu-se só: Deus não pode mais existir sem aquele que criou à sua imagem, nem o homem pode subsistir sem sua semelhança. Nasce uma sede inextinguível no coração divino e no coração humano.

Sede de Deus, sede do homem

“Adão, onde estás?” (Gn 3,9):

é a sede do Deus vivo à procura do homem e da mulher. Toda a história da salvação é conseqüência desta sede de Deus pelo homem: a salvação de Noé, a chamada dos patriarcas, a eleição de um povo, a aliança no Sinai, a aliança com os profetas e, finalmente, o ventre de Maria Deus encontra o primeiro lugar onde matar sua sede: seu Verbo se encarna no ventre virginal dela e assume a natureza humana, ali gerando a primeira ponte entre o divino e o humano desde o pecado dos primeiros pais.

Por sua vez, toda a história humana é também a busca de poços onde matar a sede de Deus, inseparável da condição humana: “Ó Deus, … minh’alma tem sede de ti; minha carne desfalece por ti, em uma terra ressequida, esgotada, sem água” (Sl 63(62) 2). Afirma Orígenes (Hom. in Gen., 13,1) que a história humana é a história de cavar poços: “Meu povo cometeu uma dupla perversidade: abandonou-me a mim, fonte de água viva, para cavar poços, poços fendidos que não retém água” (Jr 2,13). No encontro com a mulher samaritana deparamo-nos com a dupla sede: Jesus busca água, a mulher busca água (cf. Jo 4,1-42). À samaritana Jesus sugere: “Se conhecêsseis o dom de Deus!” (cf. Jo 4,40). Neste encontro à beira de um poço é anunciada a fonte da água viva que jorrará do lado aberto do Senhor, água na qual se constrói a ponte de comunicação entre Deus e o homem.

A comunhão, restauração do diálogo divino-humano

“Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim” (1Cor 24).

A eucaristia aplaca a sede divina e a sede humana: quando Deus oferece seu Filho como pão para nós, assume nossa natureza, elevada até o trono divino donde jorram rios de água viva. Através da comunhão, entramos no mistério da comunhão trinitária, onde termina toda solidão. É antecipação da comunhão definitiva na consumação da história.

O momento em que comungamos o Corpo do Senhor ressuscitado foi precedido de outra comunhão, obra do Espírito: ele nos fez entrar em comunhão uns com os outros. Deste modo, a comunhão no Espírito nos fez ser comunhão fraterna pondo-nos em comunhão com Cristo, com Deus e com tudo o que é de Deus, pois a eucaristia é comunhão cósmica: o pão e o vinho, frutos do primeiro trabalho do Criador, frutos do segundo trabalho, do homem e da mulher, e agora, frutos do trabalho do Espírito, a tudo diviniza e mergulha no esplendor da luz inicial: faz-se, a cada vez, a Luz.

A Liturgia edifica a ponte entre as comunidades humanas – a água do batismo une as ilhas onde vivem os homens: ela cura as nações (cf. Apc 22,2) e faz correr para elas, como um rio, a paz (cf. Is 66,12).

Comunhão com Cristo, comunhão com a criação

Atravessamos a ponte que nos conduz à Jerusalém celeste não de mãos limpas e ombros leves: nossas mãos estão marcadas pelo sangue e os ombros pelo peso do homem que foi assaltado no caminho: no pão e no vinho depositados no altar incluímos os pecadores, os leprosos, os doentes, os famintos, os solitários, os estrangeiros, nosso evangelho vivência do Evangelho. Tudo oferecemos para que tudo seja transfigurado pelo Espírito.

E não oferecemos solitariamente: toda Igreja oferece conosco, a do céu e a da terra. Cada um de nós representa misticamente a totalidade da obra divina, pois Deus está em tudo e, pela comunhão, estamos em Deus.

Termina a solidão e a sede: Deus nos encontra e nós o encontramos: “A glória de Deus é o homem vivente e a vida do homem é a manifestação de Deus. […] Deus é a glória do homem, e o homem é o receptáculo da energia de Deus e de toda a sua sabedoria e poder” (Ad. Haer. 4,20,7 e 3,20,2)

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