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A DORMIÇÃO E A ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU

 

A minh’alma glorifica o Senhor,
porque olhou para a humildade de sua serva (Lc 1,46-48).

Vinde de todos os confins do universo,
cantemos a bem-aventurada trasladação da Mãe de Deus!
Nas mãos do Filho ela depositou a sua alma sem pecado:
com a sua santa Dormição o mundo é vivificado;
e é com salmos, hinos e cânticos espirituais,
em companhia dos anjos e dos apóstolos,
que ele a celebra na alegria.

Oh, os teus mistérios, ó Pura!
Apareceste, ó Soberana, trono do Altíssimo
e nesse dia te transferiste da terra para o céu.
A tua glória brilha com o resplendor da graça.
Virgens, subi para o alto com a Mãe do Rei.
Ó cheia de graça, salve, o Senhor é contigo:
ele que doa ao mundo, por teu intermédio,
a grande misericórdia.

A comemoração da assunção de Maria ao céu deita raízes no século II e sua festa na Liturgia cristã é fixada no século VII, tanto na Igreja oriental como na ocidental. A festa foi fixada para o 15 de agosto e era precedida de um jejum de 15 dias, recebendo uma liturgia solene, devota e bela, como convinha à Mãe de Deus. Não se economizavam as palavras para o louvor daquela que deu carne ao Filho de Deus.

Tudo o que Deus, desde a eternidade, planejara para o ser humano, pôde realizá-lo em Maria.  Eva, a primeira mulher, optou pelo não à amizade divina e Maria, a nova mulher, disse sim. E nela foi plena a graça de Deus. Bendita entre as mulheres, não conheceu o pecado. Diante do Anjo, aceitou ser serva da vontade divina. E nela o Filho de Deus se fez carne para habitar entre nós.

Maria conservou íntegro o ser imagem e semelhança de Deus. Livre do pecado original foi também livre de suas consequências. Permaneceu virgem e, como virgem, concebeu e deu à luz um filho, o Messias. Nossa fé afirma que Maria, a Mãe do Messias-Cristo, é uma virgem, uma mulher na condição de quem “não conheceu homem”, não se uniu a homem algum: sua maternidade de Jesus procede da sua virgindade. Eis o paradoxo, o extraordinário, o miraculoso do nascimento de Jesus. Este paradoxo quer significar que somente Deus nos podia dar um homem como ele: Jesus não nasceu “do sangue e carne, nem da vontade do homem”, e isso é afirmado pelos evangelhos através da virgindade de Maria, tornada mãe pela potência do Espírito Santo.

São numerosos os lugares dedicados a Maria: santuários e igrejas dedicados a Maria no campo e na cidade, nos montes e nas ilhas menores e solitárias. Nesses locais, quantas orações, quantos cantos elevados a ela. A essa mulher, pintada ou esculpida, um número incalculável de pessoas olhou e olha como se olha a Mãe. Na sua desolação, em suas angústias e em seu pranto, pedem o impossível confiando que ela possa escutá-los, ter misericórdia, porque nela sentem a Mãe: “mostra-te Mãe”, invocam. Quantas vezes temos em nossas igrejas a imagem da “Pietà”, Maria que segura em seus braços o filho morto: diante dessa imagem, quantas mulheres choraram e choram o filho morto; quantos fiéis suplicam para serem acolhidos, ao final de sua vida, em seus braços maternos, braços de Maria mãe! Maria está inseparavelmente inserida no mistério do Verbo encarnado e, dirigindo-se à Mãe de Deus, sabemos estar nos dirigindo àquela que intercede junto a seu Filho.

O ano litúrgico do Oriente tem início com a festa de 8 de setembro, quando celebra o nascimento de Maria, e termina com a festa de 15 de agosto, festa da Dormição de Maria e sua Assunção ao céu.

A liturgia realça Maria como mãe do Verbo encarnado e poderosa intercessora. Há uma estreita relação entre Cristo e Maria, entre o dom feito por ela e a fonte de onde jorra o próprio Cristo: “Infunde paz em minha alma, ó Virgem, com a paz serena de teu Filho e Deus. Cura-me, ó Mãe de Deus, tu que és bondade e deste à luz o Bom”. “Tu que geraste o timoneiro, o Senhor, aplaca o tumulto das minhas paixões e as violentas ondas de minhas quedas”, rezamos no Ofício da Assunção.

Assunção de Maria ao céu

Virgem de Vladimir, século XII

Todo filho oferece o melhor possível à sua mãe. Jesus, o todo-poderoso, nada negaria à Mãe, Maria. Não permitiria que o corpo de Maria sofresse a corrupção, pois seu corpo santo e puro não poderia sofrer as consequências do pecado, de que foi livre por graça divina, pela sua imaculada conceição.

O amor a Maria, os hinos em seu louvor são entoados em toda a história da Igreja: os Santos Padres, os teólogos, os monges, papas e bispos, nenhum poupou o agradecimento a Deus por nos ter dado tão santa Mãe. Orações, cantos e ladainhas testemunham essa devoção e afeto.

A piedade popular narra que todos os Apóstolos, espalhados pelo mundo, foram chamados e transportados pelos anjos até Jerusalém para se despedirem da Mãe. Ela terminou sua jornada na terra contemplada pelos amigos dela e de seu Filho. Foi sepultada no Getsêmani, mas, seu santo corpo não permaneceu no túmulo. O Filho a transportou para a glória celeste, onde reina com o Pai, e é a intercessora dos homens e mulheres, mãe vigilante de toda a história humana.

A Igreja manteve a fé na divina assunção de Maria ao céu e, coroando o caminho de devoção à Mãe do Senhor, no dia 1º de novembro de 1950 o Papa Pio XII, após consultar o episcopado e os teólogos, proclamou o dogma da Assunção com a Constituição apostólica Munificentissimus Deus. Após percorrer pela história da teologia e a fé mariana do povo cristão, definiu:

Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus onipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.

A assunção de Maria ao céu é um sinal das coisas últimas. Em Maria nos é dada uma antecipação da glorificação de todo o universo que acontecerá no final dos tempos, quando Deus será “tudo em todos”, “tudo em toda coisa”. A dormição-assunção antecipa a parusia, e prepara nosso destino comum. A gloriosa Mãe de Deus é nossa mãe, em seu regaço guarda todos os filhos. Cheios de amor e gratidão sabemos que por mais que falemos de Maria, nunca falaremos o suficiente, nunca falaremos demais. Ao invocarmos sua proteção sabemos que nossas preces se dirigem àquela que está junto do Filho: ela é a intercessora celeste, junto do Deus Trindade.


Pe. José Artulino Besen

 

Obs.: a Festa é fixada para o dia 15 de agosto. No Brasil, onde não há o feriado, é no domingo seguinte e, neste ano de 2018, no dia 19 de agosto.

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O CRISTIANISMO, OU «CRER É BELO»

Cristo, o Divino Mestre

Cristo, o Divino Mestre

Crer tornou-se mais difícil, afirmou Bento XVI à TV alemã, numa entrevista em meados de agosto. Na homilia em Munique (10 de setembro) referiu-se a um mundo “surdo para Deus”, que confunde nossos ouvidos com muitas “freqüências” de mensagens de felicidade mágica e que brinca com Deus e o Sagrado. Num mundo assim, crer é mais difícil, é remar contra a corrente mas, por isso mesmo, “crer é belo”.

A beleza da vida cristã consiste em procurar tornar visível o Deus com o rosto humano de Jesus Cristo. Em outras palavras: a vida cristã é bela porque tem como vocação esculpir no homem, através da graça e da vontade, a imagem divina perdida pelo pecado. O fruto maduro é a criatura resplandecente da beleza do Criador.

Nós, cristãos, não obedecemos a um deus ameaçador, mas oferecemos obediência filial a Deus que é amigo do ser humano: tudo, língua, etnia, cultura, moral é assumido pelo cristão para que depois seja transfigurado através do Senhor que ressuscitou e venceu toda as mortes. Nós somos convidados a olhar o mundo com simpatia: mesmo que o mundo rejeite a Igreja, a Igreja não rejeita o mundo, pois sabe que é obra divina.

O pregador irado, o profeta ameaçador, o evangelizador distribuidor de raios e notícias de fim dos tempos não servem para o anúncio do Evangelho, Boa Notícia, Bela Notícia, Evangelho belo como um ícone escurecido pelas velas que por séculos o iluminam e, ao mesmo tempo, resplandecente pela fé e esperança dos que o contemplam.

O cristão não mercadeja a verdade sobre Deus, o homem e o mundo: ele não receia o confronto quando está em jogo a vida humana como Deus a pensou para o homem e tornou visível em Jesus de Nazaré, e quando diz respeito à criação como casa da humanidade. Sua firmeza tem origem no amor e não no dardo do inferno muitas vezes desferido por neuróticos contra suas pobres vítimas.

O grande instrumento da evangelização é o testemunho diário do discipulado do Senhor, e não a palavra de soldados improvisados: lembrando as palavras de João XXIII na abertura do Concílio Vaticano II, em 1962, os pessimistas e tradicionalistas em tudo vêm males e num utópico passado buscam o paraíso perdido. Os tradicionalistas não são evangelizadores, pois propagam o que não existiu e ocultam o que existe: a face radiante e sofrida da Igreja, sempre Igreja do Senhor.

“A vida cristã é boa”: a fé cristã é humana, está a serviço da humanização autêntica. É bom ser humano, fraterno, reconciliado, justo, manso, generoso.

É uma “vida de discípulo de Jesus”, que manifesta a beleza de viver a “Bela Notícia”, o Evangelho. Não uma vida seguidora da moda, mas construída na contemplação do Senhor que se revela na Palavra.

A vida cristã é “uma vida feliz”: não está livre das provas, das tragédias, mas é feliz porque a felicidade é a resposta à procura de sentido, livre dos ídolos. É fruto de uma vida construída, não arrastada pela última novidade leiloada na praça. Ser cristão é ser feliz!

O cristianismo é “amor da beleza”, caminho da beleza, ou não é nada, afirmaram os mestres da espiritualidade cristã. Na língua grega se usa a palavra filocalia, que se traduz por amor da beleza: ser cristão é ser filocálico, é ser buscador e construtor do belo que é reflexo do Belo.

Deus caritas est: Deus é amor. Tudo o que fazemos e anunciamos aprofunda as raízes nessa certeza: Deus é amor. Amor que transforma o mármore bruto em obra de arte, em beleza. Quem de nós não conhece pessoas que eram pedra bruta, mármore sem brilho e pela graça foram transformados em beleza, em seres luminosos? Crer é belo! O Cristianismo é anúncio da vida bela, brotada da fonte do amor de Deus.

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O CRISTÃO, IMAGEM DA BELEZA

A beleza de Cristo crucificado está na sua bondade, na sua justiça. Sua beleza é a do amor divino que se rebaixa para elevar a humanidade, e a cruz é uma de suas expressões máximas. Uma pessoa boa tem o mesmo efeito de uma obra de arte: dela nos aproximamos em invejosa contemplação.

Um velhinho, vergado pelos anos, enrugado pelos trabalhos é belo quando acarinha uma criança, desfia o rosário. Bela é a mãe que contempla o filho morto e reúne forças para dizer “Meu filho!”. A consolação e a compaixão são as mais fortes expressões do belo. A dor inefável torna-se consolação através de mãos que acarinham, protegem, partilham. Os pobres que conservam a fé não perdem a alegria da beleza sem limite.

O belo é também consolação na dor: a paisagem, as crianças irrequietas, as flores, o canto dos pássaros permanecem enquanto sofremos, e podem nos consolar.

A própria criação espera o momento de se libertar do vazio que a oprime, para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus (cf. Rom 8, 18-25).

Tudo é missão, tudo é anúncio de uma realidade que ultrapassará toda a realidade sentida e contemplada agora. Nunca podemos esquecer: o fruto final da missão cristã é o anúncio da ressurreição, da libertação final, da gloriosa e feliz contemplação da Beleza eterna, o nosso Deus e todos os que aceitaram participar de seu Banquete.

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A IGREJA E A MISSÃO DA CRUZ – ANÚNCIO DA BELEZA

Crucifixão

Crucifixão

A crise do Cristianismo está apenas começando. Vivemos ainda numa espécie de ilusão cultural em que a fé se confunde com religiosidade e o Cristianismo com a tradição cristã. Vivemos um conflito interior entre aquilo que é de Deus e aquilo que é da carne, e tentamos misturar os dois num mesmo prato, sem perceber que ambos se contestam às escondidas, pois a fé não nasce da carne, mas de Deus.

Misturamos a herança dos Apóstolos e dos Santos Pais com o orgulho confessional (“eu sou católico”, “eu sou crente”), a graça da vida segundo o Espírito com o peso histórico e étnico (que também pede seus “direitos místicos”, como pensar que todo brasileiro tem de ser católico, todo árabe, muçulmano). Confundimos o sentido da verdade com o gosto pelo poder mas, a carne e o sangue não poderão herdar o Reino de Deus (cf. 1Cor 15,50).

A missão é anunciar a beleza da Cruz.

A paixão de Cristo é a “hora” da glória. Ele se desfez através do sofrimento por amor e depois o Pai o transfigurou na carne ressuscitada. O Senhor glorioso é o Senhor crucificado. Paulo, após ter sido tocado pela Luz arrebatadora no caminho de Damasco, não anunciou o poder, o espetáculo do sucesso, mas a fragilidade do Amor: “Irmãos, eu mesmo, quando fui ter convosco, não me apresentei com o prestígio da palavra ou da sabedoria para vos anunciar o mistério de Deus. Pois não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado, … a fim de que a vossa fé não se baseie na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus” (1Cor 2, 1.5; cf. 1, 23-25).

A grande Liturgia da Igreja vivencia esse anúncio paradoxal na forma do Belo em estado puro: a Eucaristia é a ação de graças pela Paixão-Morte-Ressurreição-Ascensão gloriosa do Senhor: a pequenez do Pão oculta/revela a Glória infinita do Senhor; o altar é belo, a Palavra é bela, os cantos são belos, os paramentos são belos; belo é o povo que celebra os acontecimentos centrais da história, mas ergue os olhos e imediatamente contempla o Crucificado, belo na dor pelo amor.

A missão cristã não é anunciar uma teoria, um código de comportamento que provoca cansaço e temor. É algo mais fascinante: é mostrar Cristo, suprema revelação do ser, da forma, da glória e da beleza de Deus. O missionário tem consciência de que a beleza e a luz de Deus compreendem também o abismo da treva na qual mergulha o Crucifixo, de que o caminho da fé supõe o grito “Meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34).

A beleza do Crucificado é tão irresistível, porém, que leva quem o busca a uma aventura onde luz/treva, consolo/abandono, certeza/dúvida parecem se confundir e, ao mesmo tempo, são distintas, pois sabemos que no final do caminho repousaremos dizendo “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). As vertigens do mergulho em busca do Belo nos farão contemplá-lo na serenidade de quem o amou.

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A EUCARISTIA E A BELEZA DA HARMONIA

O martírio - experiência de morte-ressurreição - Capela de Kocevski - Eslovênia

O martírio – experiência de morte-ressurreição – Capela de Kocevski – Eslovênia

Durante seus 20 séculos de existência a Igreja tratou como seus dois tesouros a Palavra e o rito litúrgico. Surgiram famílias litúrgicas e, nelas, dezenas de ritos para expressar e celebrar o mistério pascal. A Igreja católica, em sua variedade ritual, tem no rito romano seu rito para a Igreja latina e no rito oriental, mais conhecido como a Divina Liturgia de São João Crisóstomo o rito para as Igrejas católicas orientais. A Divina Liturgia é comum à da Igreja Ortodoxa, constituindo-se numa preciosa ponte ecumênica.

O rito litúrgico pertence à Igreja e não à criatividade dos fiéis ou comunidades. Ele expressa a eterna vida divina e não a provisoriedade de nossas experiências diárias. Ele assume nosso quotidiano, é verdade, mas para divinizá-lo e mostrar sua participação da glória divina.

Uma das características do rito é a sua repetição sempre igual, dia por dia, ano por ano. O rito é sempre o mesmo, porém, a cada dia nós somos diferentes e a cada rito a Palavra de Deus proclamada é diversa, razão porque a repetição ritual não cria monotonia. Evidente que se a Palavra não é ouvida ou por distração ou por ser mal proclamada, teremos a experiência da monotonia ritual, estéril.

A Liturgia eucarística é indissociável da celebração da Liturgia da Palavra: Deus fala, nós celebramos. O mistério pascal é o mesmo, mas a extensão numérica dos séculos da história será pouco para expressar parte de sua profundidade e riqueza.

Outra característica do rito litúrgico é a sobriedade, conseqüência da simplicidade divina. O mistério leva ao fascínio e não à curiosidade. Missa enfeitada é produto de equipes de teatro e não litúrgicas. Cristo é a Palavra e não multiplicação de palavras que ocultam nossa realidade. É triste o anúncio de missas carismáticas, de descarrego, de quebra de maldição, de cura, de exorcismo, de posse de governo, de aniversário de clube, etc.: a Missa não tem adjetivo, pois a Eucaristia é sempre a celebração e memória do mistério pascal onde Deus se manifesta no silêncio e na beleza simples, sempre comunicativa. A Eucaristia jorra do lado aberto do Senhor crucificado e ressuscitado e não do farfalhar de púrpuras, brilhos de vestes litúrgicas e teatralizações cerimoniais. Muitos males provém da identificação de cerimônia com liturgia: um bom liturgista é necessariamente teólogo e um bom cerimoniário pode eventualmente ser apenas especialista em encenações. Liturgia se identifica com mistério.

A Liturgia pede a harmonia dos participantes, dos cantos, dos gestos, palavra/silêncio, das velas/flores. «O espírito tem sede de harmonia enquanto que a vida é desarmônica», afirmou o cineasta russo Andrej Tarkovskiy. Missa movimentada, agitada, rumorosa, de padre irrequieto e equipe exibicionista, «platéia» festeira abafa a harmonia de que nosso espírito tem sede: expressa a realidade da vida mas suprime a possibilidade de transfigurá-la. Não vamos à Igreja para reproduzir o barulho da rua: queremos, isto sim, trazer tudo conosco mas para entrar em comunhão com o Deus que é belo, simples, silencioso.

O fato de não nos conformarmos em viver divididos interiormente gera um movimento nascido da fé e, assim, a profundidade de nosso ser, nossas forças espirituais nos impelem a buscar a harmonia. Que não se restringe ao nível pessoal: nosso ser busca a harmonia com Deus, com o outro e com a criação. Na sua simplicidade e mistério a divina liturgia nos oferece essa sinfonia, pois o Espírito transfigura tudo o que é ofertado no Corpo do Senhor glorificado.

Ao concluirmos a celebração litúrgica, ajude-nos o Senhor a poder cantar, na verdade: «Anunciamos, Senhor, vossa morte e proclamamos vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!».

Pe. José Artulino Besen

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EUCARISTIA E BELEZA

A Divina Liturgia

A Divina Liturgia

O Mestre pergunta: Onde está a sala em que eu devo comer a Páscoa com os meus discípulos? E ele vos mostrará uma grande sala no andar superior, mobiliada e pronta; fazei ali os preparativos”. (Mc 14, 14-15).

Hoje somos muito atraídos pela beleza. Bela é a Igreja em seus sacramentos e em sua liturgia. Reflexos de beleza se encontram por toda a parte, nas culturas. A beleza atrai com a força de uma nostalgia de divino o coração dos fiéis. A beleza humano-divina resplandece nas pessoas e nas obras dos Santos e Santas.

A espiritualidade litúrgica pode ser uma tradução concreta em aspectos e modos de pensar, agir, rezar, celebrar, na cultura do cotidiano, do reflexo da vontade de Deus na vida humana, da harmonia da vida.

O texto de Marcos, citado acima, narra que Jesus prepara o espaço para a Páscoa. Além disso, prepara os discípulos, lavando-lhes os pés. E, depois, no gesto sacerdotal, toma o pão e o cálice e neles se oferece pela salvação do mundo: inaugura a nova Páscoa, em que ele é o Cordeiro sem mancha.

A harmonia dos gestos do Senhor

O espaço que Jesus manda preparar é o espaço que lhe pertence, pois ele é o Senhor. A sala não pode ser qualquer sala, porque todos os atos de Jesus têm significado divino: no convite feito ele manifesta a fraternidade “em que eu devo comer com os meus discípulos?”. O eu de Jesus entrará em comunhão com os seus, a finalidade da Ceia é a comunhão. Os discípulos também são preparados: o Mestre, como sacerdote, toca seus corpos com suas mãos divino-humanas. A graça se manifesta eficaz, também para Judas, o traidor. Judas não aceitou a harmonia, a comunhão, a fraternidade.

A beleza final da Ceia são os gestos precisos do Senhor: tomou o pão em suas mãos, elevou os olhos ao Pai, deu graças e o partiu e o deu a seus discípulos, dizendo: Tomai, todos, e comei: isto é o meu corpo, que será entregue por vós.

Os mesmos gestos sacerdotais são repetidos com o Cálice.

A beleza dos gestos de Cristo não é apenas plástica: são gestos cristológicos, nos colocam diante da beleza que Cristo é. Poucas horas depois, a beleza sem fim estará revestida de pus, sangue, poeira e escarros, crucificada. Uma Beleza total, nua, que se expõe aos nossos olhos para revelar a face absoluta da beleza: o amor, a doação, a vida dada aos inimigos. João Paulo II, na Novo Millennio, nos convidava a “contemplar a beleza do Senhor na sua dor lancinante e na sua glória sem fim”. O Cristo crucificado e belo prolonga sua Beleza no corpo desfigurado dos mártires, nos seios cansados das mães que amamentaram, dos anciãos enrugados pelas vigílias, trabalhos, mas perseverantes no amor, dos operários suados e pensando naqueles que amam.

E a ordem de Cristo no final da Ceia, vale para todos os seus gestos: Fazei isto em memória de mim. Fazer somente isto, do modo como ele o fez. Como ele fez é belo: o espaço, a preparação, os gestos, a doação incondicional.

A Última Ceia nos traz às nossas ceias, espaços, gestos e doação, remete-nos às nossas liturgias: elas devem ser revestidas da mesma Beleza, da mesma simplicidade radical, para expressar os gestos salvíficos e crísticos. Qualquer tentação de pomposidade, de espaços luxuosos revela a queda na tentação do supérfluo, da expropriação para o desnecessário daquilo que é necessário aos pobres. A beleza da liturgia desaparece se acrescentarmos elementos estranhos a seu conteúdo. Devemos viver a emoção do Belo, na Liturgia, mas do Belo dos gestos de Cristo e não dos recursos humanos que desviam da Beleza sempre bela e nos distraem nas belezas transitórias e até vazias de nossos caprichos.

Os Evangelhos são de uma beleza irritante, tal sua simplicidade: qual escritor seria capaz de narrar tanto (que é tudo) com tão poucas palavras e gestos? Os artistas não se cansam de reproduzir as cenas da vida do Senhor, mas nunca se dão por satisfeitos, pois um pincel, um poema, uma partitura, um mármore são incapazes de esgotar a profundidade do divino. Há um segredo na beleza divina da Liturgia: cada gesto é verdadeiro, cada palavra é verdadeira. Bela é a verdade!

E tudo isso nos é oferecido nos Sacramentos, tão singelos e tão belos, tão frágeis e tão poderosos.

Viver a beleza da Graça

“Manifestou-se a graça de Deus, portadora de salvação para todos os homens” (Tt 2,11). Jesus é a graça de Deus, a beleza infinita do Pai que, pelo Espírito Santo, faz-nos possuir a mesma beleza. A graça é bela: Deus é belo. A eucaristia é bela porque celebra os gestos do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Beleza eterna. O tempo e as festas litúrgicas – Anunciação, Natal, Páscoa, Ascensão, Pentecostes, Corpus Christi, Imaculada Conceição, Assunção de Maria, festas dos Santos – nos seus rituais e conteúdos revestem-se da mais pura beleza porque narram a vida divina em si e em nós. Uma beleza tão intensa e generosa que apaga a deformidade causada por nossos pecados.

É bela a comunhão que o Espírito Santo realiza entre o céu e a terra e entre nós; é bela a comunidade de irmãos com os braços erguidos ao céu reconhecendo a presença do Pai; é bela a procissão da comunhão: crianças, jovens, adultos, anciãos, todos refletindo na face a Luz daquele que comungaram. Neste momento em que o Senhor é tudo em todos, a beleza atinge seu mais alto estágio de verdade aqui na terra, restando-nos somente desejar a beleza última, a comunhão final com o Deus Trindade.

A beleza é o reflexo da vida em Deus. É também uma dimensão da espiritualidade: a beleza da Liturgia exerce uma poderosa atração para que cada vez mais desejemos entrar definitivamente em comunhão com o nosso Deus, razão de nossa existência.

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A LITURGIA – PALAVRA E SACRAMENTO

A Divina Liturgia

A Divina Liturgia

Por mais bela que seja a celebração eucarística, por mais simbólicos que sejam os sinais realizados na sucessão dos ritos, permanecemos numa celebração religiosa sim, mas não ainda cristã. É o grande perigo do ritualismo, da crença mágica de que uma cerimônia comunica a graça por ser bem feita.

Para iluminarmos os sinais e atingirmos o mistério há um só caminho: o da fé. A fé é o encontro de duas liberdades: a de Deus que se revela com a do homem que, por obra do Espírito Santo, crê na revelação de Cristo. O Pai se entrega a nós através do Filho, no Espírito: é esse o sentido da Palavra de Deus proclamada em cada Liturgia.

O Sacramento se alimenta da Palavra

O ícone (cartaz) do 15o CEN representa plasticamente esse encontro: se o artista permanecesse no desenho de cruz, peixes, águas, ponte, pão repartido, estaríamos diante de sinais sagrados, de uma cena sacra, ainda não indicativa do mistério que quer simbolizar: o encontro entre Deus e o ser humano na Eucaristia.

Por isso, fecundam a cena duas Palavras reveladoras do conteúdo e da eficácia do mistério: “Vinde e vede!” e “Ele está no meio de nós!”. Por obra do Espírito, o revelador-realizador dos mistérios, a Liturgia da Palavra dá eficácia à Liturgia eucarística.

A Liturgia cristã, deste modo, ultrapassa o culto do Antigo Testamento e todos os outros cultos religiosos. Seria arrogante esta afirmação? A resposta está na Encarnação do Filho que se despojou em dois momentos decisivos da história: no Natal, deixando a condição divina para assumir a condição humana de servo; na Cruz-Ressurreição despojando-se da própria vida para dar-nos a Vida. O culto cristão é a memória atual desta verdade, novo absoluto na história humana.

A salvação operada por Cristo tem um objetivo: a divinização do homem e a humanização de Deus. O corpo sofrido-glorioso de Cristo torna-se o sacramento da glória de Deus e da salvação da humanidade, segundo a afirmação de Santo Irineu de Lião: “A glória de Deus é o homem vivente e a vida do homem é a manifestação de Deus” (Adv. Haer. 4,20,7).

No primeiro momento, aceitamos isso movidos por nossa liberdade de crer, pela liberdade da fé que nos leva a receber a revelação de Cristo, pelo Espírito Santo, na Palavra. No momento seguinte, o Espírito transforma em Cristo o que ofertamos e, momento último, comungamos o que foi consagrado, o Corpo glorioso do Senhor: a vida divina penetra todo o nosso ser e o nosso ser penetra a vida divina. É a comunhão sacramental.

Uma só Liturgia – a celeste e a terrestre

O Livro do Apocalipse nos ilumina a respeito do mistério sacramental: rasgam-se as cortinas dos céus e a assembléia terrena contempla a liturgia celeste: “Eram milhares de milhares, milhões de milhões e proclamavam em alta voz: ‘O Cordeiro imolado é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória e o louvor’. Ouvi também todas as criaturas que estão no céu, na terra, debaixo da terra e no mar, e tudo o que neles existe, e diziam: ‘Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro, o louvor e a honra, a glória e o poder para sempre’” (Apc 5,11-30).

Congresso Eucarístico em Florianópolis - SC

Congresso Eucarístico em Florianópolis – SC

O Espírito nos ensina que, nos Sacramentos, participamos da Liturgia celeste e ela participa da Liturgia terrestre, no diálogo fecundo entre o céu e a terra, entre o divino e o humano, entre o Pai e nós, seus filhos, divinizados por seu Filho. Caem as muralhas que nos separam de Deus e a cidade terrestre pregusta a cidade celeste. Não há nenhum exagero em afirmarmos que participar da Liturgia é já viver a vida celeste.

Negar essa realidade seria tirar do Sacramento sua essência e transformá-lo em estéril cerimônia que pode, emocionalmente bem conduzida, levar a um encontro estético-sentimental consigo mesmo, mas nunca com o Senhor da Vida. A Eucaristia é louvor e glória da graça divina e deificação do homem (cf. Ef 1,1-10).

Deste modo, adquire toda a verdade de sentido o mergulho da Palavra dentro do ícone (cartaz) do Congresso: a Trindade nos fala: “Vinde e vede, o homem está no meio de nós!”, e nós falamos: “Vinde e vede: Deus está no meio de nós!”. Pela Encarnação, Deus vem morar no meio de nós; na Liturgia, nós vamos morar no seio da Trindade. O mistério da descida divina inclui o mistério da subida humana: “Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu… . Deus veio morar no meio deles. Eis que faço novas todas as coisas” (cf. Apc 21,1-5a).

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A TRINDADE, BELEZA QUE SALVARÁ O MUNDO

“Belo é Deus, Verbo junto de Deus; é belo no céu, belo na terra; belo no seio, belo nos braços dos pais; belo nos milagres, belo nos suplícios; belo no convidar à vida e belo no não preocupar-se com a morte; belo no abandonar a vida e belo no retomá-la; belo na cruz, belo no sepulcro, belo no céu. Ouvi o cântico com inteligência, e a fraqueza da carne não distraia os vossos olhos do esplendor de sua beleza…” (Agostinho, Enarrat. in Psal., 4,3).

Ícone da Trindade - Andrei Rublev

Ícone da Trindade – Andrei Rublev

Iniciando o mês de outubro com a encantadora Teresinha do Menino Jesus e com Francisco de Assis, cantor da criação, vem-nos à mente o amor que o ser humano moderno devota à beleza, à estética, à arte, à organização. O belo penetra todas as esferas da vida humana. No fundo, a beleza é um reflexo, em nós, da nostalgia da beleza divina colocada em nós no momento criador. O pecado não é belo, e pode estragar toda a beleza que Deus colocou em sua obra, sinfonia de movimentos, cores e formas. A beleza do Evangelho tem o poder de transfigurar o mundo, torná-lo inteiro um monte Tabor. A luz tabórica revelará progressivamente a beleza de cada espaço e de cada ser e nos colocará na infinitude da luz de Deus, beleza sem fim. A beleza humano-divina resplandece nas pessoas e nas obras dos santos e santas. A fé vivida verdadeiramente dá à pessoa uma equilíbrio psíquico, afetivo, corporal, moral. A fé traz harmonia e gera o amor, edificador da beleza das famílias, das igrejas e comunidades.

Francisco de Assis, como nenhum outro, teve a intuição da beleza da criação. Atraído por essa beleza, passou a cantar todas as coisas como irmãos-irmãs. O mundo por ele era visto e sentido como um imenso templo no qual continuamente se celebra a grande liturgia do louvor à Trindade. Quem ama o Belo, sente como tudo canta e respira as belezas do Senhor.

O mês de outubro, mês missionário por excelência, pode nos impulsionar ao trabalho pela criação, pela salvaguarda do mundo. O cristão ama a Deus e suas obras, o cristão é eco-teológico. Anuncia o Cristo crucificado  e o apresenta ressuscitado. Mostra o túmulo repleto de trevas e o faz explodir em luz, em vida.

Tudo o que se refere à vida e à obra divina interessa à missão.

O grande modelo para o anúncio da Beleza que salvará o mundo é a Trindade: harmonia e beleza sem limites, amor que une três Pessoas num Deus, a juventude do Filho, a feminilidade do Espírito, o encanto do Pai. A Trindade se revelou de modo pleno na beleza de Maria, venerada por todos os povos em sua beleza e encanto. Os místicos gostam de falar de Deus como “el Hermoso”,  o Formoso. Deus é formosura.

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