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MARIA, MÃE DE DEUS E NOSSA, NA FÉ CRISTÃ

Maria com o Menino - Mosteiro de São Bento de Aniane - França - século IX

Tudo o que se afirma de Maria tem como causa única Jesus Cristo, nela encarnado por obra do Espírito Santo. As afirmações da fé cristã sobre Maria não são invenções da piedade cristã, mas conseqüência do mistério da Encarnação, donde elas brotam. Seu início é a resposta dada ao Arcanjo Gabriel “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38) e, depois, se prolonga nas Bodas de Caná, “Façam tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Maria acolhe a salvação pela obediência, pela fidelidade e pelo contínuo indicar onde está o Caminho. Nosso amor por ela segue o mesmo espírito.

Podemos dizer que, em Maria, repousou por nove meses todo o projeto divino em relação à humanidade: é a Arca da Aliança, a Escada, a Porta do Céu. Dando carne e sangue ao Filho eterno de Deus, ela uniu indissoluvelmente as naturezas humana e a divina no Cristo Senhor. Maria é o mais belo hino de ação de graças que a criação consegue oferecer a Deus: nela, humilde criatura, se oculta o mistério trinitário do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Se os textos dos Evangelhos nos descrevem, talvez, menos de três anos da vida do Senhor, Maria contemplou-o mais de 30 anos, desde o berço até a Ascensão. Abraçando-o com ternura, seu coração pulsava no ritmo do coração do Filho. O que para nós é graça que vem da fé, para Maria foi contemplação real. Seu coração guardou cada passo do Homem-Deus, a infância, a adolescência, o ingresso na vida adulta, os gestos e as palavras. É divino mistério o mistério de sua vida em Nazaré, nas festas em Jerusalém, nas visitas aos povoados à beira do lago de Tiberíades. A humilde serva do Senhor contemplou com os olhos e o coração a ação de Deus Pai em seu Filho. A casa de Maria e José era a Casa de Deus.

Os dogmas marianos

A palavra dogma significa conteúdo de fé, mas não expressa toda a realidade, pois os mistérios são insondáveis: quanto mais conhecemos, mais falta conhecer. A verdade é uma fonte que nunca se esgota: quanto mais bebemos, mais aumenta a sede e maior é a água que dela jorra. Não é porque a Igreja formula um dogma que ele expressa a verdade e sim, porque é verdade, a Igreja o proclama como dogma de fé. Podemos dizer que o dogma afirma o máximo que a inteligência e a fé humanas, iluminadas pelo Espírito Santo, podem dizer a respeito de uma verdade e, ao mesmo tempo, expressa o mínimo que se deve afirmar.

Com essa introdução queremos falar dos quatro dogmas marianos: sua Imaculada Conceição, a Maternidade divina de Maria, a Virgindade perpétua e sua Assunção ao céu.

Imaculada conceição de Maria: a primeira Eva, no Paraíso, foi criada sem pecado, mas não resistiu à tentação e rejeitou a Deus. Maria é a Nova Eva, com ela Deus restaura a criação por obra de seu Filho Jesus. Em previsão de sua Maternidade divina, quis Deus que Maria fosse preservada do pecado desde o ventre de sua mãe, Ana. E Maria respondeu a essa graça nunca pecando, sendo a vontade de Deus a sua vontade, como respondeu ao Arcanjo Gabriel, na Anunciação. O mais importante não é que Maria tenha nascido sem pecado, mas que tenha vivido sem pecado, razão pela qual o Anjo a chama de “cheia de Graça”.

Maternidade divina de Maria: Maria recebe o título de Mãe de Deus porque o Filho eterno de Deus dela recebeu a natureza humana. Jesus é Deus e Homem verdadeiro, não se podendo separar a divindade da humanidade. Por isso, cabe a Maria o título de Mãe de Deus. Negando-lhe esse título, estaríamos negando a divindade de Jesus, o Filho de Deus, ou o estaríamos dividindo em duas partes, uma divina e outra, humana.

Virgindade perpétua de Maria: ao contemplarmos o ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e tantos outros, percebemos na imagem de Maria três estrelas: uma na fronte e uma em cada ombro. Com esse símbolo a Igreja afirma que Maria é Virgem antes, durante e depois do parto. Maria não concebe de José, mas por obra do Espírito. O significado mais profundo desse dogma é que Maria teve o coração unido a Deus, sem divisões. Seu amor foi virgem na fidelidade contínua e perpétua a Deus nosso Senhor. Nenhuma infidelidade ao amor divino tocou seu coração imaculado.

Assunção de Maria aos céus: terminados os dias de sua vida terrena, Maria foi levada (assunta) aos céus. Aquela que foi preservada do pecado, sempre virgem, Mãe de Deus, teve o privilégio de ser glorificada após a vida terrena. Seu corpo, do qual se formou a natureza humana de Cristo, ficou incorruptível e logo foi transfigurado na glória da Santíssima Trindade.

Maria, nosso caminho de fé

Os dogmas são alimento de espiritualidade, e não afirmações para nosso deleite intelectual. Eles agem em nossa vida cristã.

Os dogmas marianos propõem-nos um caminho mariano: o que Deus realizou em sua pobre serva, realizará também em nós, pobres servos. Tudo por graça.

Imaculados pelo batismo – Nós nascemos no pecado, mas, pelo batismo, nos tornamos imaculados, recriados pela graça divina. Quando pecamos, peçamos logo o perdão e nosso coração se torna imaculado. Através da Eucaristia somos continuamente divinizados pelo alimento divino recebido.

Construir a maternidade – Nossa natureza humana foi santificada na natureza humana de Jesus. Por isso é sagrada. Na glória eterna da Santíssima Trindade estamos incluídos na natureza glorificada do Senhor. Na Eucaristia recebemos o Cristo Deus e Homem. Maria gerou o Senhor. Nossa vida, nossa palavra e testemunho podem gerar filhos para Deus, reconciliar os que estão dispersos: temos a graça de ser pai/mãe de novos filhos de Deus.

Virgindade renovada – Deus é fiel a nós, sempre, e nós somos infiéis a seu amor. Estamos divididos pelo pecado, pela fragilidade, pela tentação, por falsos amores, pelo medo da morte. Busquemos a virgindade espiritual, a fidelidade contínua ao Senhor. Pelo Batismo, pelo perdão e pela Eucaristia Deus nos oferece também o dom da virgindade. A cada dia podemos readquiri-la. Mesmo prostituídos, a graça recupera nossa virgindade, tira de nosso coração as divisões.

Nossa assunção aos céus – Maria foi a primeira criatura glorificada em corpo e alma. Igualmente, nós temos a graça de podermos ser glorificados no céu, junto de Deus. Deus nos dará um novo corpo, transfigurado, pois nossa primeira natureza retorna ao pó. Desejemos ardentemente o encontro final com Deus. E Maria intercede continuamente por nós para que sejamos de Deus. Como as primeiras comunidades, peçamos sempre: Vem, Senhor Jesus!

Pe. José Artulino Besen

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A ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU

Assunção de Maria aos Céus (Rubens)

A Virgem Maria recebe tem duas celebrações no calendário católico: em 8 de dezembro, a Imaculada Conceição (Maria foi concebida sem pecado no ventre de sua mãe Ana) e, em 15 de agosto, a sua assunção ao céu.

A assunção de Maria significa que, ao terminar sua existência terrena, Maria foi levada ao céu em corpo e alma. Não há sepultura com os restos mortais da Mãe de Jesus: imediatamente após a morte ela foi glorificada. Certamente os Apóstolos que naquele dia estavam em Jerusalém ficaram desolados ao ver morta a Mãe amada do Senhor e que na cruz lhes fora entregue como mãe. Podemos meditar o carinho que os discípulos tinham por essa mulher cheia de graça, de bondade, exemplo de fé total. A tristeza, porém, converteu-se em festa quando viram Maria ser glorificada e ressuscitada.

A morte é conseqüência do pecado e inclui o retorno ao pó donde viemos. Com Maria isso não aconteceu porque ela foi concebida sem pecado e, em toda a sua vida, jamais pecou. Por isso não poderia pagar o preço por algo que não cometera.

Quando o arcanjo Gabriel a visitou para anunciar-lhe que fora escolhida para ser a mãe do Salvador, saudou-a como “cheia de graça”, “bendita entre as mulheres”. Maria era pura graça, pura obediência a Deus, nascera e vivera na total fidelidade à vontade de Deus: “eu sou a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a sua vontade”, respondeu ela a Gabriel. Maria entregara a Deus sua vontade: a vontade de Deus era a vontade dela.

Por causa dessa sua obediência total e por ter gerado o Salvador do mundo, Maria foi a primeira criatura a receber de seu Filho a vida eterna em plenitude, em corpo e alma.

Nossa esperança é a ressurreição

Ao contemplarmos a glória de Maria, devemos nos encher de alegria: também nós queremos e podemos ser glorificados; basta que declaremos a vontade de Deus como nossa vontade, basta que aceitemos ser tocados pela graça do Espírito Santo, ser lavados pela Água viva que jorra do trono de Deus.

Nosso destino não é a tragédia de uma sepultura onde se diz: aqui descansa fulano de tal. Nosso destino é a Casa de Deus na eternidade, nossa casa paterna. O que Maria recebeu logo após a morte, nós também receberemos se seguirmos o mesmo caminho de fidelidade.

A sociedade consumista nos faz pensar que é impossível haver coisa melhor do que a vida terrena e, deste modo, muitos duvidam da eternidade, julgando que nosso endereço final é a sepultura. Chegamos a duvidar da criatividade de Deus, pensando que a vida eterna não pode ser melhor do que essa vidinha que levamos. Deus nos oferece muito mais: oferece a vida divina, a posse dos bens celestes, a libertação dos desejos, do egoísmo, da angústia.

Não é difícil o caminho de Deus: ele mesmo vai à nossa frente. Basta segui-lo com generosidade, e sabendo que não podemos ir sozinhos: nossos irmãos devem ter nossas mãos para conduzi-los. A fraternidade terrestre é condição para a fraternidade celeste.

Festejemos a assunção da Mãe de Deus. E, com Maria, sigamos o caminho de Jesus, aceitemos sua verdade e teremos sua vida.

Pe. José Artulino Besen

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