MONSENHOR FREDERICO HOBOLD – LEALDADE E FIDELIDADE

Monsenhor Frederico Hobold

Frederico Hobold nasceu em São Ludgero em 28 de março de 1916, filho de Bernardo Hobold e Cecília Locks Hobold. Aluno do Seminário de Azambuja, turma 1927, foi ordenado sacerdote na Catedral de Florianópolis em 31 de dezembro de 1939.

Passou o ano de 1940 como vigário paroquial de Sombrio.

Em 10 de fevereiro de 1941 foi provisionado vigário paroquial da Catedral de Florianópolis e Oficial da Cúria, permanecendo na capital até a morte, ligado à Catedral e à Cúria Metropolitana. Em 10 de janeiro de 1942 acumula o trabalho de Secretário do Arcebispado de Florianópolis. Tem início a série de nomeações que o levam ao centro da vida arquidiocesana: sereno, obediente e fiel, foi o homem certo para o rigor e zelo do arcebispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira e ponte entre esse e o Clero. Fez jus à confiança nele depositada.

Já em 31 de dezembro de 1944 foi nomeado Cônego Honorário do Cabido de Florianópolis. Em 22 de janeiro de 1945 recebeu a provisão de Defensor do Vínculo na Arquidiocese e, em 24 de setembro de 1946, a faculdade de despachar os requerimentos de dispensa de impedimentos no impedimento do Vigário Geral. Em 24 de fevereiro de 1945 foi nomeado Diretor-Presidente da Comissão Arquidiocesana do Óbolo de São Pedro.

De 28 de fevereiro de 1946 a 1966 passou a ser o centro da vida católica em Florianópolis com sua nomeação a Cura da Catedral de Florianópolis. Num trabalho de 20 anos, seu nome foi sinônimo de Catedral: seus modos finos, voz agradável e forte, bela estatura e trato educado o fizeram amado e respeitado por todos. A partir de 1966 passou a residir na residência arquiepiscopal, pois até essa data a Cúria metropolitana funcionava nas dependências da Catedral.

Continuam as nomeações na burocracia da arquidiocese: em 08 de março de 1946 – Chanceler do Arcebispado; em 17 de janeiro de 1948 – Cônego Catedrático do Cabido Metropolitano de Florianópolis; em 31 de maio de 1948 – Pró-Vigário geral do Arcebispado e Chanceler; em 05 de maio de 1949 – Decano do Cabido Metropolitano de Florianópolis.

E, a missão mais importante: de 31 de maio de 1949 a 12 de março de 1970, Vigário Geral do Arcebispado. Privava da confiança irrestrita de Dom Joaquim e sabia onde pisava em cada situação. Para as pesquisas na história da Arquidiocese, no tocante às cartas de Dom Joaquim, deve ter presente: há cartas que Dom Joaquim escreve e assina; cartas que escreve e o Vigário Geral assina; cartas que ele escreve e algum padre que passa por lá assina sob o nome de secretário substituto. Dependia do assunto e da dureza do tom.

Com tantos cargos, as honrarias também devem ser multiplicadas, sinal da confiança do Arcebispo: em 16 de outubro de 1951 – Monsenhor Camareiro Secreto, com bula assinada por J. Baptista Montini (depois papa Paulo VI), Substituto da Secretaria de Estado; em 19 de setembro de 1955 – Monsenhor Prelado Doméstico (hoje Prelados de Honra de Sua Santidade); em 15 de janeiro de 1962 – Monsenhor Protonotário Apostólico. Para solicitar essa ambicionada distinção a seu pupilo, Dom Joaquim anexou 10 documentos de autoridades civis e eclesiásticas que o recomendavam. Essa distinção permitia a Monsenhor usar vestes episcopais em diversas circunstâncias. Algumas fotos suas desse período podem conduzir ao equívoco de pensá-lo como bispo.

A capital catarinense também o homenageia: em 23 de dezembro de 1964 recebe o título de Cidadão Honorário de Florianópolis.

O amigo do Arcebispo metropolitano

Caberia a pergunta: e por que não foi eleito bispo? A resposta mais correta: era as mãos e o apoio de Dom Joaquim. Poucas vezes duas pessoas tão bem se completavam: um bispo inteligente e intransigente, um Vigário geral competente e fiel, sem competir na inteligência. Conhecia seu lugar. O reitor de Azambuja, Mons. Jaime de Barros Câmara, no Atestado de vita et moribus descreve: “È dotado de excelente memória e da faculdade de observação” (15/11/1935). Na Teologia, suas notas ficavam entre 7 e 8.

O afeto de Dom Joaquim por ele era de gratidão e confiança, com ele partilhando momentos importantes: em 24 de outubro de 1949, no encontro do Episcopado Nacional em Porto Alegre, em carta Dom Joaquim comenta sobre a hospedagem, conferências, o Retiro pregado por um Cardeal. No segundo dia, a confidência: “Confessei-me, por minha vez, a um venerável Padre Capuchinho. Confissão de toda a vida ou quase”. O tema do encontro era sobre a Ação Católica e, depois, o Congresso Eucarístico.

Em setembro de 1950 participou do Ano Santo em Roma. Dom Joaquim pede para que traga Bênçãos papais: 22 para padres e 7 para leigos. Em 1960 Dom Joaquim viaja pela Europa, quando participou do Congresso Eucarístico Internacional de Munique. Em longa carta de 30 de maio, descreve suas impressões de Turim, Pádua, Ars, Paris, Lourdes, Münster, Fátima. Comentou o clima, a falta de apetite no avião, em Roma e que somente retornou em Pádua.

Em carta de 11 de junho de 1960 escreveu para recordar um momento de grande emoção: “Mas faltou um detalhe que merece ficar no papel, pois seria grave injustiça omiti-lo ou esquecê-lo: foi o abraço do Santo Padre. Sim, o abraço, e não somente o abraço, mas a “colade”, ou o ósculo santo em ambas as faces. Ainda hoje recordamos com a mais viva e extrema emoção”. Era o paterno Papa João XXIII, que o chamou de “bispo pequeninho”, embora suas estaturas fossem iguais!

Participando da primeira sessão do Concílio do Vaticano II, em 18 de outubro de 1962 escreveu a Monsenhor falando da viagem de avião, da excelente hospedagem e das grandiosas procissões com os 2.800 bispos. Dom Joaquim não conseguiu captar as preocupações do Concílio. Para ele, Roma tem e verdade e que os romanos fazem, é o melhor. Mas, quando viu os padres andando sem batina, sentiu visivelmente o baque: a Igreja imutável estaria abandonando veneráveis tradições.

Funções na vida pública

O nome de Monsenhor Frederico era respeitado pela seriedade, lealdade e por ser o alter ego do Arcebispo. Em 05 de junho de 1952 foi nomeado pelo Secretário dos Negócios do Interior e Justiça Educação e Saúde para a função de Professor do Curso de Alfabetização (Campanha de Educação de Adultos e Adolescentes Analfabetos do Ministério da Educação e Saúde) em Nossa Senhora de Fátima, Florianópolis, para o período de 1º de maio a 30 de novembro, recebendo Cr$350,00 mensais.

E, fato importante na cultura catarinense, a colaboração na fundação da vida universitária, que necessitou contar com figuras do clero diocesano e religioso, especialmente dos jesuítas do Colégio Catarinense. Em 1º de fevereiro de 1955, como um dos fundadores da Faculdade Catarinense de Filosofia, foi nomeado pelo Diretor Henrique da Silva Fontes regente da cadeira de História da Filosofia, com os direitos de professor catedrático.

O Governador Celso Ramos o nomeia para constituir o Conselho de Administração da Fundação Educacional de Santa Catarina em 15 de julho de 1965, cuja finalidade era criar e manter a Universidade para o Desenvolvimento do Estado de SC, cujo anteprojeto de Estatuto elaborado pelo Prof. Osvaldo Ferreira de Melo foi encaminhado em 8 de junho de 1965 com o nome de Universidade para o desenvolvimento do Estado – UDESC.

A Ação católica e a renovação da Igreja

O final da década de 50 do século passado foi marcado por uma ímpar efervescência pastoral, impulsionada pela Ação Católica, máxime pela JOC e JUC. Florianópolis tornara-se centro universitário e uma nova juventude, de formação e entusiasmo católicos, queria oferecer sua colaboração.

Em 1960 surgiu conflito com a Ação Católica, especialmente a JUC – Juventude Universitária. Monsenhor Frederico, pela natureza do cargo na Catedral, foi criticado e não estava preparado para isso. Magoado, em 16 de agosto de 1960 pediu exoneração do cargo, após 20 anos. Sente-se cansado, desestimulado e até incompreendido. Em cartas seguintes fala que quer ir trabalhar numa paróquia do interior, meio rural, pois nunca foi vigário. Dom Joaquim sente o baque do pedido. Diz que enviá-lo ao interior seria uma “diminutio capitis” (rebaixamento) e Dom Joaquim movimenta cartas e abaixo-assinados de autoridades, Irmandades, Congregações, bispos, clero em geral, para que permaneça. Funcionou.

Nem Dom Joaquim, nem Monsenhor estavam preparados para entender o espírito da Ação Católica, trabalho dos leigos sob a égide episcopal. Especialmente a JOC e JUC tinham uma mentalidade eclesial aberta: evangelizar o povo onde ele se encontra, o leigo assumindo seu papel ativo na obra pastoral. A Ação Católica também incluía a preocupação com a justiça social. Para Monsenhor e Dom Joaquim, atender o povo era não deixá-lo sem Missa.

Os fatos: em dezembro de 1960 o estudante da UFSC, Napoleão X. do Amarante (hoje Desembargador aposentado), escreveu uma carta em A GAZETA, retratando o abandono pastoral da Ilha.

Para escrever esse texto teria tido o apoio de um padre que ajudava na Catedral e outro, jesuíta, além, talvez, do Arcebispo Coadjutor: “Que infeliz, que traiçoeiro, que desagregador fermento ali estaria calculadamente sendo preparado!”, lamenta o Arcebispo.

Monsenhor escreve a Dom Joaquim (na realidade é Dom Joaquim que escreve a si mesmo!) totalmente ofendido e resolve colocar a coisa em pratos limpos: pede a Cônego Bernardo Bläsing, vigário da Ilha, quantas Missas celebra no Norte da Ilha, e aos jesuítas do Colégio Catarinense quantas no restante da cidade e do interior ilhéu. Cônego Bläsing relata seu sacrifício imenso, suas caminhadas a pé; Pe. Alvino Braun, SJ, do Colégio Catarinense faz o mesmo e conclui: “Napoleão: seja educado e respeitador da hierarquia… seja muito exato e íntegro nas reportagens… e continue zeloso, a ponto, mesmo, de abraçar a carreira eclesiástica e a candidatar-se a vigário de Canasvieiras”.

A polêmica toma novamente a página de A GAZETA. Em 23 de dezembro de 1960 Márnio Fortes de Barros, estudante da UFSC e membro da Equipe Regional Sul de JUC escreveu a Napoleão, que publica a carta. À certa altura afirma: “Nestes lados do mar uma grande parte da Igreja burocratizou-se. Tornou-se “bem”… E é por isso que certas verdades doem”. Napoleão, na apresentação da carta, conclui: “Ficaremos com a ação, trabalhando no meio universitário em prol de Cristo e da Igreja. Porque sabemos distinguir entre Igreja e Homens da Igreja”.

Em 31 de outubro de 1961, novo pedido de demissão. Aí parece haver uma mágoa por não ter sido escolhido para alguma promoção. Bispo? Mais uma vez, Dom Joaquim tudo faz para não perder seu colaborador.

As coisas se “acalmam” com o Golpe militar de 31 de março de 1964. Em 18 de abril Dom Joaquim lhe escreve para manifestar o entusiasmo pela mobilização das mulheres em favor das “tradições democráticas e cristãs” do Brasil, com a participação de 60 mil pessoas na “Cruzada do Rosário das Mulheres pela libertação do Comunismo”, capitaneada pelo irlandês/americano Pe. Patrick Peyton: “Restabelecida a “Ordem”, resta, evidentemente, assegurá-la, e, se necessário, defendê-la, para poder marchar para o “Progresso””. A alma do movimento foi Carolina Galotti Kerig.

Padre amigo e fiel

À primeira vista, o porte majestoso e o título de “Monsenhor” passavam a imagem de um homem duro, burocrático, inacessível. Não era verdade. Monsenhor era um homem simples que não se deixou devorar pelos cargos que ocupou. O centro de sua vida foi a Igreja e a fidelidade ao Arcebispo.

Quando, em dezembro de 1965, Dom Afonso Niehues assumiu a Arquidiocese como Administrador apostólico “sede plena”, fez questão de contar com Monsenhor, seu amigo desde 1927 quando ingressaram na primeira turma do Seminário de Azambuja.

Eram necessárias novas estruturas pastorais para a aplicação das decisões do Vaticano II, e Monsenhor foi amigo e colaborador fiel. Fazia a ponte entre Dom Afonso e Dom Joaquim, que conservara o título, mas, privado de todos os poderes. Monsenhor e Dom Afonso fazem parte da categoria de homens que sabem ser leais e, ao mesmo tempo, fiéis aos encargos recebidos.

Monsenhor Frederico era procurado pelos padres mais receosos de contatar o Arcebispo e nas dificuldades pastorais. Era amigo dos padres. Também foi o homem que deu racionalidade às finanças e ao patrimônio da Arquidiocese, pois Dom Joaquim, ao morrer em maio de 1967, depois de um episcopado longo de 53 anos, não sabia que existia inflação: as Irmãs que cuidavam do Palácio procuravam Monsenhor para completar o dinheiro das despesas, pois Dom Joaquim continuava repassando por décadas a mesma quantia.

Em 1963 acompanhou os bispos catarinenses na viagem a Essen, em busca de auxílio da Igreja alemã para a aquisição do prédio do Seminário catarinense em Curitiba. Socorria os Seminários sempre que podia.

Evidente que as “novidades” do Concílio, o espírito de contestação que ingressava na vida eclesial o deixavam magoado. Fora acostumado a obedecer e a respeitar e agora, até seminaristas criticavam a Igreja.

Em 3 de janeiro de 1965 foi solenemente celebrado seu Jubileu de Prata sacerdotal com solene Pontifical na Catedral. Dom Joaquim homenageou o amigo com entusiástico Sermão Gratulatório, publicado na íntegra na imprensa local (cf. A GAZETA, 24 de janeiro de 1965).

Em 9 de outubro de 1965 escreveu a Dom Afonso, recém-eleito Administrador apostólico, comentando que tinha adquirido uma residência pessoal e julgava ser tempo de poder descansar. Profunda mágoa com o resultado das eleições, onde triunfou o PSD: para Monsenhor, tudo foi politiquice e uma calamidade de padres contra padres, bispos, leigos, tudo na confusão, na compra. Udenista (UDN) convicto, sempre soube manobrar esse entusiasmo frente a Dom Joaquim, pessedista (PSD) também convicto… Evidente que Dom Afonso não poderia dispensar colaborador tão precioso e leal num período de transição.

O que aconteceu em 12 de março de 1970 foi verdadeira tragédia: Monsenhor não se levantou à hora costumeira. Desconfiados, forçaram a porta do quarto e o encontraram morto. Infarto fulminante que o colheu com apenas 54 anos de idade.

Monsenhor Frederico Hobold foi sepultado no Cemitério da Irmandade do Senhor dos Passos e, anos depois, seus restos mortais foram levados para São Ludgero, sua terra natal.

A morte de Monsenhor foi um acontecimento que determinou mudanças na vida arquidiocesana: duas estruturas fundamentais foram atingidas, com a nomeação de Mons. Valentim Loch, Reitor do Seminário de Azambuja, para Vigário Geral, o que significou a transformação pedagógica daquela instituição agora presidida pelo Pe. Vito Schlickmann. Dom Afonso passou a contar com um novo Vigário Geral após décadas de Mons. Frederico. Não é despropósito dizer: a herança pastoral de Dom Joaquim recebia os ares da renovação conciliar de Dom Afonso Niehues.

A história da Igreja na arquidiocese de Florianópolis muito deve a esse padre leal, fiel, trabalhador que foi Mons. Frederico Hobold. Um padre de verdade.

Pe. José Artulino Besen.

 

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