Arquivo para categoria Santos da Bíblia

NASCEU SÃO JOÃO BATISTA

São João Batista – Andrea Mantegna

Normalmente a festa de um Santo é fixada no dia de sua morte, que é o dia de seu nascimento para a vida eterna. São João Batista é uma exceção, pois tem duas festas: seu nascimento em 24 de junho e sua morte em 29 de agosto. Por que? Quando Maria visitou Isabel, que estava grávida dele, o bebê João pulou de alegria em seu seio. Neste momento foi santificado pelo bebê Jesus que estava no seio da Virgem Maria. Assim, ele já nasceu santo. E foi João quem recebeu o maior elogio de Cristo, que afirmou ser ele o maior entre todos os nascidos de mulher. Ficando nessa história: vocês já imaginaram a graça que é para um bebê quando sua mãe comunga? Também ele se encontra com Jesus e é santificado!

Zacarias e Isabel eram um casal idoso e padeciam de uma grande tristeza: não tinham filhos. Isabel era estéril, idosa, sem condições de ser mãe. No mundo judeu, não ter descendência era visto como um grande castigo, uma desgraça. Mas, para quem tem fé, a esterilidade se transforma em vida. E assim foi. Num dia Zacarias, que era sacerdote, estava no templo de Jerusalém oferecendo incenso ao Senhor quando um anjo lhe apareceu e disse que Deus tinha ouvido suas preces. Isabel conceberia um filho na velhice, e que filho! Zacarias achou graça disso tudo pois, pelas leis da natureza, isso seria impossível. Então o anjo deu-lhe um sinal: ficaria surdo e mudo até que isso acontecesse (Lc 1,5-25).

E pouco depois Isabel estava grávida…

No sexto mês da gravidez teve a alegria de receber a visita de sua prima Maria, que esperava Jesus. Que encontro fantástico: a mãe do último profeta do Antigo Testamento ser visitada pela mãe do profeta dos profetas, o Filho de Deus. Maria não resiste de emoção ao ver tantas maravilhas e proclama seu hino Magnificat, “A minha alma engrandece o Senhor, porque ele pôs os olhos em sua humilde serva” (Lc 1,46-55). Maria ajudou Isabel três meses, voltando depois para casa, pois tinha um segredo para relatar a José: sua gravidez miraculosa.

No dia em que Isabel deu à luz, houve festa nas montanhas da Judéia: mais um filho dado por Deus ao mundo. Os vizinhos acenderam fogueiras em sinal de júbilo e para terem luz para a festa e as conversas. Um filho não é patrimônio somente da família: pertence a toda a comunidade e a festa é de todos (Lc 1,57-67).

O nome João – Deus teve compaixão

E veio a pergunta normal nestas ocasiões: que nome colocar nesse menino tão esperado e anunciado? Pela tradição, seria Zacarias, o nome do pai. Nos tempos da Bíblia, o nome era muito importante, pois indicava a vocação de uma pessoa. Mudar o nome era o mesmo que mudar a qualificação da pessoa, como Abrão que fica Abraão, Jacó que fica Israel, Simão que fica Pedro. Isabel disse que não seria Zacarias, pois o anjo tinha dito outro nome. Então, com sinais, consultam o velho Zacarias. Ele pede uma tabuinha e escreve: João é o seu nome. O nome João significa “Deus teve compaixão”. Neste momento, Zacarias começou a falar e a ouvir, explodindo de alegria num hino que começa assim: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e libertou o seu povo!” (Lc 1,68-79).

Tudo isso foi muito comentado em toda a região, pois, de fato, Deus estava visitando seu povo. Os sinais da presença de Deus eram claros: uma mulher, Maria, tinha concebido pelo poder do Espírito Santo; uma senhora idosa, estéril, Isabel, dera à luz ao menino João; um homem, Zacarias, que tinha ficado surdo e mudo, passou a ouvir e a falar. Deus estava irrompendo na história: a esterilidade dava lugar à vida, a vergonha e a tristeza era substituída pela alegria, os mudos falam, os surdos ouvem. Era a presença do Deus da vida! Uma primavera sem fim. Começavam os tempos do Messias.

Quando João cresceu tornou-se um grande profeta, peregrinava ao longo do rio Jordão: anunciava a penitência, o perdão dos pecados, a conversão e batizava as pessoas que aceitavam mudar de vida, recebendo assim o apelido de “Batista”. E anunciava uma notícia esperada há milhares de anos: o Messias, o Cordeiro de Deus, estava para chegar, aliás, já tinha nascido. João afirmava que o Messias seria enérgico, um juiz rigoroso. Neste ponto se enganou: o Messias, Jesus, era a mais doce e bondosa das criaturas, veio para salvar e não para condenar, veio anunciar a graça divina, e não os castigos divinos. Mas João foi muito humilde: apesar de todo o seu sucesso, das multidões que o procuravam, ao ver Jesus considerou encerrada a sua missão de precursor, de abridor de caminhos: daqui para a frente é Jesus quem tem a palavra final. E Jesus também foi muito humilde, pedindo para ser batizado por João. No mundo das grandezas divinas, tudo é simplicidade, ninguém se considera maior, todos querem ser servidores. Assim foi com João, São João Batista.

Pe. José Artulino Besen

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O PATRIARCA SÃO JOSÉ

Jacó gerou José, esposo de Maria,
da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo (Mt 1,16).

São José medita as Escrituras Sagradas – Gerrit van Honthorst – 1619-20 ca

Celebrado em 19 de março, São José foi o último patriarca da antiga Aliança. Germinando no Antigo Testamento, cresceu no Novo. Patriarcas foram os homens a quem Deus se revelou em sonhos. E José, por três vezes, teve essas revelações: na gravidez de Maria (Mt 1,19-24), na fuga para o Egito (Mt 2,13-14) e no retorno a Nazaré (Mt 2,22).

Jovem, pensando em casamento, em oferecer filhos aos povo de Israel, entre tantas moças de Nazaré, elegeu para si Maria, Virgem concebida sem pecado. Homem privilegiado, levou para sua casa Maria, a mais bela entre todas as mulheres. Quantas vezes não se quedou em êxtase contemplando essa mulher única que gerou o próprio Jesus, o Senhor do mundo! Na sua humildade, aceitou ser o pai de criação dele. Um gesto generoso numa sociedade patriarcal como a judia.

A Bíblia não nos transmite nenhuma palavra de José, nem uma exclamação sequer. O Patriarca do silêncio! Silenciosamente levou Maria para sua casa, em silêncio viajou até Belém, onde ajudou no nascimento de Jesus. Oito dias depois, ouvindo a esposa, dá ao menino o nome de “Jesus”, que significa “Deus salva”. Na sua humildade, recebe a visita dos Reis magos que, do Oriente, vieram adorar e render homenagens à criança recém-nascida.

No devido tempo, junto com Maria leva a criança ao Templo de Jerusalém para apresentá-la ao Senhor. Em silêncio escuta a profetiza Ana, as profecias do velho Simeão que, cheio de alegria, afirmou que já podia morrer em paz, pois seus olhos tinham visto o Salvador (Lc 2,21-38). Diz Lucas que José e Maria escutavam em silêncio as coisas que se falavam do Menino. Tão humildes e pobres, não podiam entender o que estava acontecendo.

O caminho da cruz teve início cedo: roído pelo medo de que Jesus fosse seu concorrente, Herodes mandou matá-lo. Um rei com medo de uma criança pobre! Em plena noite, a família de Nazaré foge para o Egito. Largando tudo, a viagem difícil para uma terra estranha, para o desterro.

Passado o perigo, retornou com a família para Nazaré, onde garantiu o sustento de Maria e de Jesus. Pai feliz, viu o menino crescer em sabedoria e graça. Todos os anos iam em peregrinação a Jerusalém, para a festa da Páscoa. A alegria da viagem, da festa, a preocupação com a criança. Apesar de todos os cuidados, o menino se extraviou da comitiva. Tinha 12 anos. Com preocupação o procuraram em todos os grupos. Nada. O jeito foi voltar à Capital. E, surpresa, Jesus estava no Templo e, mais ainda, discutia com velhos doutores. Maria fala, José cala. Certamente levou um susto quando o adolescente declarou que deve ocupar-se das coisas de seu Pai (Lc 2,41-52). Não era ele o pai!? José não fala. Guarda tudo no silêncio do seu coração.

José e o Menino – Dony Macmanus

Depois, a vida pacata em Nazaré: trabalhos na oficina, alguma plantação, o cuidado da Família. Nada mais se comenta de José. Mergulha no silêncio do mistério de Deus que se revela no Jesus que tinha visto nascer, crescer, tornar-se homem. O crescimento da Salvação da história acontece na solidão de Nazaré.

Quando tudo terminou na dor da Cruz, lá não estava mais José. Jesus entrega sua Mãe a João. Se José estivesse vivo, não a confiaria a um estranho. Com pouco mais de 50 anos, José morre nos braços do Filho e amparado pela esposa. Quanta felicidade a desse homem, fechar os olhos entre o Filho de Deus e a Mãe de Deus! Morre o último Patriarca do Antigo Testamento, deixando como testamento pessoal a colaboração eficaz e insubstituível de ter sido o pai adotivo do Senhor dos senhores e esposo da Rainha de todas as rainhas, Jesus e Maria.

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MOISÉS, O AMIGO DE DEUS

Moisés desce o Monte Sinai. Escultura em Madeira feita por Curt E. Teichmann - Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, Itajaí, SC.

Moisés desce o Monte Sinai. Escultura em Madeira feita por Curt E. Teichmann – Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, Itajaí, SC.

No dia 4 de setembro, tanto o calendário maronita como o ortodoxo e greco-católico celebram Moisés, a quem a Torá se refere como “amigo de Deus”. Quando, de modo particular refletimos a Palavra de Deus, faz bem recordar a figura central da Antiga Aliança, Moisés, a quem a Torá se refere como “amigo de Deus”. É nos montes que se revela sua amizade e intimidade com Deus, é lá que Deus se revela face a face. É nos montes Horeb, Sinai, Rafidim, Nebo que os dois amigos trocam confidências e falam de si e do Povo eleito. Viveu no século XIII AC e morreu antes de entrar na Terra da Promessa. Na Transfiguração do Senhor é ele e Elias que ladeiam Jesus, confirmando-o como o novo Moisés e o novo Profeta. Pela mão do Senhor ele deu ao povo pão e água no deserto: Jesus, o novo Moisés é a Água viva e o Pão da vida.

A missão divina de libertação do povo

Criado no palácio do faraó do Egito, Moisés se revolta com o sofrimento de seu povo. Num primeiro momento, age sem credenciais: matando opressores egípcios julga que, por ser do palácio do faraó, o povo o seguiria numa revolta pela libertação (cf. 2, 11-14). Teve de fugir para Madiã, onde se casou e tornou-se pastor de ovelhas.

Num dia subiu o Horeb e ali viu uma sarça em chamas, mas que não se consumia. Moisés quis se aproximar para ver a maravilha, mas a voz do Senhor clamou: “Moisés, não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos pés, porque este lugar é sagrado. Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó. … Eu vi a opressão de meu povo, ouvi o grito de aflição dele. Vai! Eu te envio ao faraó para que faças sair o meu povo do Egito!” (cf. Ex 3, 1-14). Nessa teofania Moisés tem a experiência do Deus vivo: ele é a frágil sarça tomada pelo fogo divino, que o queima, mas não o destrói. Deus assume sua fragilidade fortalecendo-o e lhe revela que está com ele: “Eu sou aquele que é, que está sempre presente”.

Agora, sim, recebe as credenciais, e Deus o conduzirá com o povo. Quando resolve voltar ao Egito, Moisés sente-se impotente e tem a tentação de desistir. Deus vai-lhe ao encontro e ameaça matá-lo (Ex 4,12). Texto estranho, mas que lembra a luta de Deus com Jacó: a luta com Deus o fortalece e lhe demonstra que essa luta é mais difícil do que todas as outras: quem poderá resistir ao Deus vivo? É a noite do espírito dos místicos.

Moisés, libertador e intercessor

Após atravessar o Mar Vermelho, Moisés canta, grato e exultante: “Minha força e meu canto é o Senhor, ele me salvou” (Ex 15,2). Moisés sempre mais se sente instrumento de Deus. Antes confortara o povo, garantindo-lhe que o Senhor o salvaria, combateria por ele. Podiam agora caminhar tranqüilos.

Quando o povo, faminto, bate continuamente à tenda, reclamando da falta de comida, Deus se irou. Moisés reclamou: “Por que tratas assim o teu servo? Acaso fui eu quem concebeu e deu à luz este povo, para que me digas: ‘carrega-o ao colo, como se fosse uma babá a levar uma criança…?’” (Nm 11, 11-12). E Deus assumiu sua responsabilidade e alimentou o povo com o maná e as codornizes.

Na guerra contra os amalecitas, em Rafidim, enquanto os soldados lutavam, Moisés subiu ao topo da colina e ficou de braços erguidos, invocando a proteção do Senhor. Era o orante.  Enquanto os braços estavam erguidos, Israel vencia. Como se cansasse, um homem de cada lado sustentava-lhe os braços até o por do sol, quando Israel venceu (cf. Ex 17, 8-16).

No monte Sinai recebe a Aliança. Ao descer, a decepção com o povo adorando um bezerro de ouro. Após um pecado tão grave, Deus se revela a Moisés como bondade, ternura, misericórdia: “Deus de ternura e de piedade, lento para a cólera, rico em amor e fidelidade; que guarda o seu amor a milhares, tolera a falta, a transgressão e o pecado” (cf. Ex 33, 6-7). Moisés imediatamente caiu de joelhos por terra e o adorou: “Senhor, se agora encontrei graça aos teus olhos, segue em nosso meio, conosco, mesmo que esse povo seja de cabeça dura. Perdoa as nossas faltas e os nossos pecados, e torna-nos a tua herança” (Ex 33, 9).

Quando Moisés desceu do Sinai, onde contemplara a glória do Senhor, sua face resplandecia a tal ponto que não era possível olhá-lo. Então cobria o rosto com um véu, que somente retirava diante do Senhor (cf. Ex 34, 19-35). Quem contempla o Senhor participa de sua luz, tem a face transfigurada.

A morte de Moisés

Moisés não entrou na Terra da Promessa. A obra é divina, não humana. Seu testamento espiritual, após realizar a missão de libertar, orientar e salvar o povo de Israel é um hino de bênção e de amor ao povo: “Feliz és tu, Israel! Quem é semelhante a ti, povo salvo pelo Senhor?” (Dt 33,29). Feliz, Moisés demonstra todo o amor pelo povo que o consumira, mas que era o Povo do Senhor.

A Torá se fecha com a narração de sua morte: “Moisés, servo do Senhor, morreu no monte Nebo, na terra de Moab, conforme o Senhor havia dito. E ele o enterrou no vale, na terra de Moab. Nunca mais surgiu em Israel profeta semelhante a Moisés, com quem o Senhor tratasse face a face, como um homem fala com um amigo” (Dt 34, 5.10).

Carinhoso com seu amigo, Deus cavou a sepultura e nela o depositou; e escondeu-a de modo que ninguém sabe onde está. O poeta alemão R. M. Rilke assim descreve a encantadora cena: “Então, lentamente, o velho Deus inclinou a velha face sobre o velho Moisés e com um beijo o trouxe para sua idade, eterna. E com a mão que criou o mundo recompôs o monte que escavara, deixando-o como os outros montes da terra, recriado, não mais reconhecível a nenhum homem” (A morte de Moisés).

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PAULO, OU A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ

A  comunidade cristã de Roma tinha sido fundada por judeus que aderiram a Cristo, os judeu-cristãos. Era tendência desses cristãos julgar que, para aceitar Cristo, seria necessário vincular-se à Lei da Antiga Aliança com os seus preceitos de circuncisão, guarda do sábado, abluções, alimentos puros e impuros. Isso constrangia os pagãos que queriam aceitar Cristo como seu Senhor, mas não queriam ser judeus.

Surgiu o conflito entre a Lei e a Graça, entre a salvação pela Lei e a salvação pela Fé, tema esse que levou ao primeiro Concílio em Jerusalém.

Apóstolo Paulo

A experiência pessoal de Paulo era muito clara: judeu fervoroso, do grupo dos fariseus, ele perseguia os cristãos e odiava o Cristo. Ora, se bastasse a Lei para a salvação, estaria salvo com toda a tranqüilidade, pois era um judeu correto, zeloso da tradição dos Pais. Mas, o Senhor o buscou e o transformou por Graça, não pela Lei. No caminho de Damasco não lhe foi confirmado continuar a ser fariseu, mas a aceitar a salvação pela invocação do Nome de Jesus. Merecimento de Paulo? Não. Tudo obra da Graça, da gratuidade do amor de Deus revelado em Jesus morto e ressuscitado.

Paulo não abandonou a vivência das tradições da lei mosaica, mas defendeu com todo o vigor que elas não salvavam e que os pagãos que aceitassem Cristo não deveriam ser judaizados, distinguindo entre povo e nação. Sofreu muito por isso: foi chamado de traidor de seu povo num momento difícil da história de Israel, foi apedrejado, difamado, muitas vezes, até pelos cristãos oriundos do judaísmo. Ao chegar a uma cidade, Paulo primeiramente se dirigia à sinagoga, para pregar o Evangelho a seus irmãos judeus. Sempre escorraçado, passou a anunciar Cristo aos pagãos, definitivamente libertando o Cristianismo do nacionalismo judeu.

Escutando que os cristãos de Roma exigiam que os pagãos aceitassem a Lei de Moisés, Paulo escreve-lhes uma Carta pelo ano 57/58, a Carta aos Romanos, um dos textos centrais da fé cristã. A preocupação do Apóstolo é grave: se a Lei mosaica é necessária para a salvação, então o Cristianismo não é necessário. Basta ser bom judeu.

Escreve: “Nele (o Evangelho) se revela a justiça de Deus, que vem pela fé e conduz à fé, como está escrito: ‘O justo viverá pela fé’” (Rom 1, 17). Comentando as três palavras: Evangelho (o Senhor morto e ressuscitado), Justiça (Deus justo que nos faz justos, mesmo sendo nós merecedores de castigo) e (crer no Senhor Jesus, aceitá-lo com Salvador, receber os frutos nascidos da Cruz/Ressurreição e entregar-lhe nossa existência).

Ser cristão não é ser bem comportado (bastaria a lei humana), não é obedecer a Deus como se obedece a um Rei (bastaria um poder punitivo). Ser cristão é entregar a vida, confiantemente, não a um código de conduta, mas a uma Pessoa, o Filho de Deus. Fruto dessa entrega é o amor do Pai que nos chama também de filhos, filhos-no-Filho. Para os que pregam Jesus como modelo de vida e fonte de leis, reafirmaria: O Justo vive pela fé. Somos justos porque Jesus realiza em nós essa obra, por pura Graça, a Graça da Cruz.

Paulo quis que os judeus retomassem as Escrituras, pois eles têm a Lei, mas o que os salva é a Promessa feita a Abraão. A lei serve para conhecer o pecado, não para salvar. Pagãos e judeus têm dívida universal com Deus e são justificados pela fé.

Então, para que servem as obras? É muito claro: uma boa árvore produz bons frutos. Se pela fé aceitamos Jesus como nosso Senhor, nossas boas obras são conseqüência dela. Quem faz de Jesus seu Senhor, vive em Jesus, vive as Bem-aventuranças.

Paulo nunca cedeu na doutrina da Graça. Alguns historiadores atribuem sua condenação à morte não aos pagãos romanos, mas aos judeus que o viam como traidor ou talvez, pior, denunciado pelos judeu-cristãos. Paulo derramou seu sangue com alegria, pois nenhuma dor ou alegria poderiam ser superiores ao conhecimento do amor pessoal de Cristo por ele. E hoje, por nós.

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Paulo, Apóstolo do Crucificado e Ressuscitado

«Saulo, entretanto, respirava ameaças de morte
contra os discípulos do Senhor»
(At 9,1)

S. Paulo (por Marco Zoppo - séc. XV)

S. Paulo (por Marco Zoppo – séc. XV)

Uns 10 anos mais jovem do que Jesus de Nazaré, Saulo nascera em Tarso (hoje Turquia), cidade romana, rica e culta. Filho de pais fariseus, cresceu recordando Jerusalém, cidade santa, morada do Senhor. Para lá se dirigiu, ainda jovem, aos pés de Gamaliel, a fim de tornar-se doutor da Lei. Mais claro ainda lhe ficou que Deus escolhera um povo, o seu, para revelar o mistério da salvação.

O pobrezinho da Galiléia, que anos atrás subira o Calvário carregando uma cruz, bem merecida por suas blasfêmias, não lhe chamara a atenção. Jesus tinha sido um personagem marginal da capital de Israel e a morte, de acordo com a Lei, foi merecida e justa. Não era estranho ao mundo judeu o multiplicar-se de seitas. O judaísmo convivia com todas, desde que se fosse fiel aos preceitos da Lei. Os galileus eram mais um desses grupos, pensava.

E é tomado pelo horror o jovem doutor e teólogo Saulo: ficou sabendo explicavam as Escrituras a não judeus que, ao se converterem, não aderiam aos preceitos mosaicos. Sua ira cresceu mais ainda ao escutar que o grupo de judeus, adeptos de um certo Caminho, aceitava a Lei, sim, mas esperava a salvação não dela, mas de um certo Senhor, aquele coitado Galileu que fora morrera crucificado há uns três anos e do qual anunciavam a ressurreição, e sob cuja invocação completava-se o mistério da Revelação. Saulo treme até o mais profundo de seu ser: onde ficam as Escrituras, as Promessas, os Profetas, a Lei? Era preciso agir com mão forte e com as armas. Tem-se fundadas suspeitas de que Saulo, além de fariseu era também zelota, aquele grupo de judeus que aceitavam a luta armada para a defesa da Lei e do Povo. Saulo vibra quando Estevão é apedrejado: ele invocava como Senhor o Ressuscitado de Jerusalém. Nada mais justo do que o apedrejamento. Enquanto Estevão é morto, Saulo lhe segura as vestes. A Lei foi desagravada.

Mas, a situação piorara. O grupo dos seguidores de Jesus tinha fundado uma Igreja, uma nova comunidade religiosa onde, ao lado da observância da Lei, praticavam-se outros ritos, celebrava-se uma Ceia de ação de graças nos sábados à noite e domingo de manhã, freqüentavam o Templo, a Sinagoga, mas se reuniam para comentar e viver os ensinamentos e a vida do Ressuscitado da Galiléia. A Torá era explicada a partir da Pessoa dele. A coisa piorava: também em Damasco se fundara uma Igreja semelhante.

“Saulo apresentou-se ao sumo sacerdote e pediu-lhe cartas de recomendação para as sinagogas de Damasco, a fim de trazer presos para Jerusalém os homens e mulheres que encontrasse, adeptos do Caminho” (At 9, 1-2). Recebera poder de convencê-los a retornarem à Lei mesmo ao preço da tortura. E Saulo segue no caminho para Damasco. Deixou para trás Jerusalém, a cidade de Deus, a cidade do Monte Sião. Saulo cavalga rápido. Nada pode ser anteposto à vontade de Deus, para ele razão da existência, força para seu povo. Já estava perto de Damasco e…«de repente viu-se cercado por uma luz que vinha do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saul, Saul, por que me persegues? Saulo perguntou: Quem és tu, Senhor? A voz respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu estás perseguindo. Agora, levanta-te, entra na cidade, e ali te será dito o que deves fazer» (At 9, 3-6).

Levantando-se, Saulo estava cego. O Senhor tirou dele todas as seguranças, toda a clareza da visão religiosa. Não para iludi-lo, mas para que, ao recuperar a visão, tivesse outros olhos, enxergasse a Lei de Deus além dos limites de uma cultura e a fixasse numa nova Lei, realizada plenamente pelo pobre da Galiléia. Saulo foi envolvido por ele, por sua voz, pela pergunta “por quê?”. E a revelação da identidade: «Eu sou Jesus, a quem tu persegues». Saulo sentiu então que não perseguia um grupo, uma Igreja, não defendia uma Lei, um Templo: perseguia o Senhor!

Em Tarso, Ananias o introduziu na vida do Senhor. Duas palavras a identificavam: Cruz e Ressurreição. O Homem crucificado era o Ressuscitado. Era judeu, e era o Senhor, o único Senhor, de quem falaram a Lei e os Profetas. Saulo pede o Batismo: a água penetrada pelo Espírito Santo lava seus olhos. Saulo vê de novo, e vê o novo: a salvação é oferecida a seu Povo, a quem sempre amou e amará, mas também a todos os povos. Deus salva não pela Lei, mas pela fé confiante numa Pessoa, o Senhor. Não há outra escolha: é preciso que todos saibam disso, primeiro os judeus, depois os pagãos. E Saulo não teve mais descanso. O Saulo judeu revela-se também o Paulo cidadão romano. O homem de Tarso foi transfigurado pelo Homem de Nazaré. Não há mais paz na história humana: todos merecem conhecer o Crucificado que ressuscitou e dá a ressurreição.

Uns 20 anos depois, Paulo está em Roma, prisioneiro. Vê as correntes da prisão como correntes de amor que o amarram ao seu Senhor. O algoz o decapita. A cabeça cai em solo romano, o sangue penetra terra pagã e, através dela, toda a criação é fecundada com o sangue apostólico, como no Calvário o fora pelo Sangue Redentor. O doutor de Jerusalém inaugurou uma nova fase do Caminho, onde não há escolha melhor do que a única: «anunciarmos a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, nossa Redenção e Vida, nossa esperança de Ressurreição».

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MATEUS, DE PECADOR A APÓSTOLO

“Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes” (Mt 9,12)

Apóstolo São Mateus

Apóstolo São Mateus

Jesus tinha um modo muito próprio de fazer amigos, de chamar discípulos. Não fazia interrogatórios, nem pedia contas do passado da pessoa. Achegava se, olhava a nos olhos, e dizia, sem outro comentário: “Vem e segue me”. Se a pessoa lhe perguntasse para onde, a resposta simples: “Vem e vê!” Assim aconteceu com Mateus, homem que desempenhava a profissão de coletor de impostos, mal vista pelos judeus, pois, além de terem fama de não serem honestos, estavam a serviço dos romanos, que dominavam a Palestina.

Estava Mateus na sua banca de cobrança, quando Jesus dele se aproximou e disse: “Segue me” (Mt 9,9). Entre assustado e comovido, o cobrador de impostos o segue: sentiu se amado sem ser cobrado sobre seu passado. Logo depois, Jesus é convidado à sua casa. Outros pecadores públicos, sabendo do acontecido, vão também à casa de Mateus. Intimamente sentiram que em Jesus teriam acolhida amiga, um salvador e não um juiz.

Entram em cena, então, os que se achavam justos, acima do bem e do mal, os “bons” da sociedade. Não cansam de criticar a Jesus: como é possível que esse homem, que se diz profeta, aceite a convivência poluída com essa gente, conhecida de todos como pecadora, desonesta? Como é que um homem sério não pede distância desse tipo de ralé?

Jesus, ouvindo a conversa, explica sua atitude: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Quero misericórdia, e não sacrifício” (Mt 9,12). Os que se consideram “justos” acham que basta cumprir a lei, enquanto Jesus afirma que a lei suprema é a misericórdia, ter coração para os pecadores e sofredores. Pouco adianta grande fidelidade religiosa se não for acompanhada pela caridade, pelo perdão.

Foi por isso que os marginalizados pela pobreza, doença ou pecado se faziam amigos do Filho de Deus. Diante de sua bondade, sentiam sua miséria interior ou física, reconheciam se necessitados de perdão, de graça. E o perdão e a graça nunca faltavam a Jesus.

Não é condenando alguém, que o atrairemos ao bem. Não é julgando, que levaremos as pessoas a Deus, e sim amando, sendo ricos em misericórdia. Mateus sentiu se amado, e tornou se o apóstolo Mateus. Após a traição, Pedro sentiu se amado, e deu a vida por Jesus. Esse é também o nosso caminho: ao sentirmos a acolhida misericordiosa de Jesus para conosco, nos tornaremos seus amigos. Ninguém que tenha sentido o amor sem limites do Filho de Deus, permaneceu o mesmo!

Obs: São Mateus é celebrado em 21 de setembro.

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