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Paulo, Apóstolo do Crucificado e Ressuscitado

«Saulo, entretanto, respirava ameaças de morte
contra os discípulos do Senhor»
(At 9,1)

S. Paulo (por Marco Zoppo - séc. XV)

S. Paulo (por Marco Zoppo – séc. XV)

Uns 10 anos mais jovem do que Jesus de Nazaré, Saulo nascera em Tarso (hoje Turquia), cidade romana, rica e culta. Filho de pais fariseus, cresceu recordando Jerusalém, cidade santa, morada do Senhor. Para lá se dirigiu, ainda jovem, aos pés de Gamaliel, a fim de tornar-se doutor da Lei. Mais claro ainda lhe ficou que Deus escolhera um povo, o seu, para revelar o mistério da salvação.

O pobrezinho da Galiléia, que anos atrás subira o Calvário carregando uma cruz, bem merecida por suas blasfêmias, não lhe chamara a atenção. Jesus tinha sido um personagem marginal da capital de Israel e a morte, de acordo com a Lei, foi merecida e justa. Não era estranho ao mundo judeu o multiplicar-se de seitas. O judaísmo convivia com todas, desde que se fosse fiel aos preceitos da Lei. Os galileus eram mais um desses grupos, pensava.

E é tomado pelo horror o jovem doutor e teólogo Saulo: ficou sabendo explicavam as Escrituras a não judeus que, ao se converterem, não aderiam aos preceitos mosaicos. Sua ira cresceu mais ainda ao escutar que o grupo de judeus, adeptos de um certo Caminho, aceitava a Lei, sim, mas esperava a salvação não dela, mas de um certo Senhor, aquele coitado Galileu que fora morrera crucificado há uns três anos e do qual anunciavam a ressurreição, e sob cuja invocação completava-se o mistério da Revelação. Saulo treme até o mais profundo de seu ser: onde ficam as Escrituras, as Promessas, os Profetas, a Lei? Era preciso agir com mão forte e com as armas. Tem-se fundadas suspeitas de que Saulo, além de fariseu era também zelota, aquele grupo de judeus que aceitavam a luta armada para a defesa da Lei e do Povo. Saulo vibra quando Estevão é apedrejado: ele invocava como Senhor o Ressuscitado de Jerusalém. Nada mais justo do que o apedrejamento. Enquanto Estevão é morto, Saulo lhe segura as vestes. A Lei foi desagravada.

Mas, a situação piorara. O grupo dos seguidores de Jesus tinha fundado uma Igreja, uma nova comunidade religiosa onde, ao lado da observância da Lei, praticavam-se outros ritos, celebrava-se uma Ceia de ação de graças nos sábados à noite e domingo de manhã, freqüentavam o Templo, a Sinagoga, mas se reuniam para comentar e viver os ensinamentos e a vida do Ressuscitado da Galiléia. A Torá era explicada a partir da Pessoa dele. A coisa piorava: também em Damasco se fundara uma Igreja semelhante.

“Saulo apresentou-se ao sumo sacerdote e pediu-lhe cartas de recomendação para as sinagogas de Damasco, a fim de trazer presos para Jerusalém os homens e mulheres que encontrasse, adeptos do Caminho” (At 9, 1-2). Recebera poder de convencê-los a retornarem à Lei mesmo ao preço da tortura. E Saulo segue no caminho para Damasco. Deixou para trás Jerusalém, a cidade de Deus, a cidade do Monte Sião. Saulo cavalga rápido. Nada pode ser anteposto à vontade de Deus, para ele razão da existência, força para seu povo. Já estava perto de Damasco e…«de repente viu-se cercado por uma luz que vinha do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saul, Saul, por que me persegues? Saulo perguntou: Quem és tu, Senhor? A voz respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu estás perseguindo. Agora, levanta-te, entra na cidade, e ali te será dito o que deves fazer» (At 9, 3-6).

Levantando-se, Saulo estava cego. O Senhor tirou dele todas as seguranças, toda a clareza da visão religiosa. Não para iludi-lo, mas para que, ao recuperar a visão, tivesse outros olhos, enxergasse a Lei de Deus além dos limites de uma cultura e a fixasse numa nova Lei, realizada plenamente pelo pobre da Galiléia. Saulo foi envolvido por ele, por sua voz, pela pergunta “por quê?”. E a revelação da identidade: «Eu sou Jesus, a quem tu persegues». Saulo sentiu então que não perseguia um grupo, uma Igreja, não defendia uma Lei, um Templo: perseguia o Senhor!

Em Tarso, Ananias o introduziu na vida do Senhor. Duas palavras a identificavam: Cruz e Ressurreição. O Homem crucificado era o Ressuscitado. Era judeu, e era o Senhor, o único Senhor, de quem falaram a Lei e os Profetas. Saulo pede o Batismo: a água penetrada pelo Espírito Santo lava seus olhos. Saulo vê de novo, e vê o novo: a salvação é oferecida a seu Povo, a quem sempre amou e amará, mas também a todos os povos. Deus salva não pela Lei, mas pela fé confiante numa Pessoa, o Senhor. Não há outra escolha: é preciso que todos saibam disso, primeiro os judeus, depois os pagãos. E Saulo não teve mais descanso. O Saulo judeu revela-se também o Paulo cidadão romano. O homem de Tarso foi transfigurado pelo Homem de Nazaré. Não há mais paz na história humana: todos merecem conhecer o Crucificado que ressuscitou e dá a ressurreição.

Uns 20 anos depois, Paulo está em Roma, prisioneiro. Vê as correntes da prisão como correntes de amor que o amarram ao seu Senhor. O algoz o decapita. A cabeça cai em solo romano, o sangue penetra terra pagã e, através dela, toda a criação é fecundada com o sangue apostólico, como no Calvário o fora pelo Sangue Redentor. O doutor de Jerusalém inaugurou uma nova fase do Caminho, onde não há escolha melhor do que a única: «anunciarmos a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, nossa Redenção e Vida, nossa esperança de Ressurreição».

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MATEUS, DE PECADOR A APÓSTOLO

“Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes” (Mt 9,12)

Apóstolo São Mateus

Apóstolo São Mateus

Jesus tinha um modo muito próprio de fazer amigos, de chamar discípulos. Não fazia interrogatórios, nem pedia contas do passado da pessoa. Achegava se, olhava a nos olhos, e dizia, sem outro comentário: “Vem e segue me”. Se a pessoa lhe perguntasse para onde, a resposta simples: “Vem e vê!” Assim aconteceu com Mateus, homem que desempenhava a profissão de coletor de impostos, mal vista pelos judeus, pois, além de terem fama de não serem honestos, estavam a serviço dos romanos, que dominavam a Palestina.

Estava Mateus na sua banca de cobrança, quando Jesus dele se aproximou e disse: “Segue me” (Mt 9,9). Entre assustado e comovido, o cobrador de impostos o segue: sentiu se amado sem ser cobrado sobre seu passado. Logo depois, Jesus é convidado à sua casa. Outros pecadores públicos, sabendo do acontecido, vão também à casa de Mateus. Intimamente sentiram que em Jesus teriam acolhida amiga, um salvador e não um juiz.

Entram em cena, então, os que se achavam justos, acima do bem e do mal, os “bons” da sociedade. Não cansam de criticar a Jesus: como é possível que esse homem, que se diz profeta, aceite a convivência poluída com essa gente, conhecida de todos como pecadora, desonesta? Como é que um homem sério não pede distância desse tipo de ralé?

Jesus, ouvindo a conversa, explica sua atitude: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Quero misericórdia, e não sacrifício” (Mt 9,12). Os que se consideram “justos” acham que basta cumprir a lei, enquanto Jesus afirma que a lei suprema é a misericórdia, ter coração para os pecadores e sofredores. Pouco adianta grande fidelidade religiosa se não for acompanhada pela caridade, pelo perdão.

Foi por isso que os marginalizados pela pobreza, doença ou pecado se faziam amigos do Filho de Deus. Diante de sua bondade, sentiam sua miséria interior ou física, reconheciam se necessitados de perdão, de graça. E o perdão e a graça nunca faltavam a Jesus.

Não é condenando alguém, que o atrairemos ao bem. Não é julgando, que levaremos as pessoas a Deus, e sim amando, sendo ricos em misericórdia. Mateus sentiu se amado, e tornou se o apóstolo Mateus. Após a traição, Pedro sentiu se amado, e deu a vida por Jesus. Esse é também o nosso caminho: ao sentirmos a acolhida misericordiosa de Jesus para conosco, nos tornaremos seus amigos. Ninguém que tenha sentido o amor sem limites do Filho de Deus, permaneceu o mesmo!

Obs: São Mateus é celebrado em 21 de setembro.

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