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NOSSA SENHORA DE LOURDES – SAÚDE DOS ENFERMOS

Gruta de Lourdes, onde Maria apareceu a Bernadete em 1858.

Gruta de Lourdes, onde Maria apareceu a Bernadete em 1858.

O médico francês Alexis Carrel (1873-1944) foi agraciado em 1912 com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina. Descrente, em maio de 1902 aceitou acompanhar uma doente, Marie Bailly, no trem que a levava a Lourdes, em busca de cura. Seu caso, peritonite tuberculosa em último grau, era totalmente perdido. Alexis Carrel ajudou-a a mergulhar na piscina e, para espanto seu, Maria Bailly saiu da água curada. Nos cinco dias seguintes o médico viveu intensa experiência espiritual que o levou à fé católica. O relato da cura milagrosa se encontra disponível no “Dossier 54”, no conhecido “Caso Bailly”.

Desde 1858, a Gruta de Lourdes é reconhecida como local de grandes graças para doentes físicos e espirituais, e as águas que ali nascem testemunham a fé e a regeneração de grande número de peregrinos. O Dia Mundial do Enfermo foi fixado na data da primeira aparição de Maria em Lourdes, 11 de fevereiro de 1858.

Há mais de século e meio, de todos os Continentes chega gente para visitar a Gruta de Massabielle, em Lourdes. Na pequena cidade francesa aos pés dos Pirineus, dia por dia, ano após ano, centenas, milhares, milhões, se reúnem os peregrinos: papas, cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos, doutores, leigos, católicos e não católicos e até ateus. Ali os bispos franceses reúnem sua Conferência episcopal. Mas, e isso conta muito mais, se reúnem os doentes, sofredores de todos os países, trazidos e acolhidos por voluntários.

Uma equipe de médicos está permanentemente em Lourdes para descrever as curas, atestar os milagres que a ciência não explica, e que já são 69. Há equipes de hospitaleiros para receberem os doentes, conduzirem-nos à piscina, fazer com que se sintam bem. Anualmente 80.000 doentes vão a Lourdes para rezar, tocar a Gruta, beber da água. Em diferentes países se encontram voluntários para acompanharem os doentes nas viagens de trem, de avião.

Em Lourdes o mundo se transforma numa família, sem distinção de etnia, origem, nação. Superam-se as barreiras de cor da pele, língua, cultura, riqueza, das deficiências provocadas pela doença. Lourdes assiste ao milagre da fraternidade sem muros. Os milagres comprovados pela ciência, os inumeráveis milagres de cura espiritual, emocional, de recuperação do sentido da vida, da alegria de viver confirmam o reconhecimento oficial das Aparições da parte da Igreja em 1862. A Gruta de Massabielle gera a alegria da vida fraterna e da Igreja universal.

Tudo teve início em 11 de fevereiro de 1858, quando Bernadete Soubirous, jovem vidente, pobre, sem instrução falou que tinha visto uma Senhora, bela, belíssima, que entre os dedos debulhava as contas do rosário. Aparição silenciosa, nenhuma palavra ainda para essa menina tão sofrida pela doença, humilhação da família, e pela pobreza.

Bernadete Soubirous – a vidente de Lourdes

Bernadete, em 4 fotos de 1861 ou 1863, feitas pelo padre P. Barnadou.

Bernadete nasceu em 7 de janeiro de 1844, no moinho de Boly onde trabalhavam seus pais Francisco e Luíza. Viveu seus primeiros 10 anos numa casa decente, e lá nasceram os 9 filhos, 5 dos quais morreram no início da vida. O amor humano sentido e vivido na família deu-lhe uma personalidade equilibrada, especialmente nas provações, na miséria e na doença.

Durante um ano e meio foi entregue a uma família porque Luiza, devido a um acidente, não poderia amamentá-la. Francisco é um homem bom, não se preocupa em cobrar pelo trabalho, especialmente dos pobres, e os negócios começam a ir mal. Em 1850, perde um olho num acidente e Bernadete tem a saúde piorada com a asma e dores no estômago.

Em 1854, aos 10 anos, a família deve mudar e Bernadete deixa o moinho feliz de sua infância. Buscando o pão para os 4 filhos, Francisco vive buscando serviço, e de moleiro passa aos trabalhos manuais, enquanto que Luíza brabalha como lavadeira, faxineira e agricultora. No ano seguinte, Bernadete é atingida pela epidemia de cólera e sua saúde já delicada se torna pior e a asma se torna crônica. Após negócios mal feitos, o inverno 1856-1857 aumenta a miséria, a fome bate às portas. O casal Soubirous vê-se obrigado a confiar Bernadete à sua madrinha Bernarda, onde ajuda nos trabalhos de casa.

Barnadete ignorava completamente o catecismo, mas foi educada cristãmente. Sabe o Pai nosso e a Ave Maria, e carrega sempre consigo o rosário. Enquanto os irmãozinhos podiam freqüentar as aulas de Catecismo, ela devia trabalhar no campo, cuidar de animais, pastorear ovelhas, para ajudar no sustento. Mas, muito queria ter a graça da Primeira Comunhão.

No início de 1857, devido à desocupação, Francisco perde a casa e o trabalho, e precisou ocupar a cela de uma velha prisão em Cachot, mal conservada, escura e úmida, com pouco mais de 15 m2. Pouco depois, a polícia bate à porta: Francisco é acusado de roubo. Mesmo inocentado, uma vez incluído na categoria de ladrão tornou-se quase impossível encontrar trabalho.

Após mais um tempo junto à madrinha, com saudades da família Bernadete retorna a Cachot. Era 17 de janeiro de 1858. Em 28 de janeiro, aos 14 anos, teve a graça e a felicidade de receber a Primeira Comunhão. Estava preparada para viver outra experiência, definitiva para sua vida e marcante para a vida de sua Pátria e de toda a Igreja: 14 dias depois, recebeu a visita da Imaculada Conceição, de Nossa Senhora de Lourdes.

AS APARIÇÕES DA IMACULADA CONCEIÇÃO

Escolhi narrar de forma breve as 18 aparições a Bernadete. Breve e simples foi o modo como aconteceram e do mesmo modo gostaria de repassá-las, seguindo fielmente os relatos publicados em Lourdes.

1ª. aparição: na quinta-feira de 11 de fevereiro de 1958, acompanhada de sua irmã e de uma amiga, Bernadete se dirige a Massabielle, ao longo do rio Gave, para recolherem lenha seca. As amigas saem na frente e, enquanto Bernadete tira as meias para atravessar o rio, ouviu um barulho, semelhante a um pé de vento, e olha em direção à gruta. Depois narrou: “Vi uma senhora vestida de branco. Vestia um vestido branco, um véu branco, uma cinta azul e uma rosa amarela em cada pé”. Bernadete faz o sinal de cruz e recita o rosário com a Senhora. Terminada a oração, a Senhora desaparece de repente.

2ª. aparição: no dia 14, domingo, Bernadete sente uma força interior que a leva a retornar à gruta de Massabielle, apesar da proibição dos pais. Após recitar a primeira dezena do rosário, vê aparecer a mesma Senhora, e lhe lança água benta. A Senhora sorri e inclina a cabeça. Finda a oração do rosário, desaparece.

3ª. aparição: quinta-feira, 18 de fevereiro, a Senhora fala, pela primeira vez. Bernadete lhe entrega uma caneta e um pedaço de papel e pede-lhe que escreva seu nome. A Senhora responde: “Não é necessário”. Depois acrescenta: “Não lhe prometo a felicidade neste mundo, mas no outro. Você pode fazer-me a gentileza de vir aqui por 15 dias?”.

4ª. aparição: na sexta-feira, dia 20. Bernadete dirige-se à Gruta levando acesa uma vela benta. Devido ao fato, surgiu o costume de levar velas e acendê-las diante da Gruta. A Senhora se manifesta silenciosamente e logo parte.

5ª. aparição: sábado, 20 de fevereiro. A Senhora ensina a Bernadete uma oração pessoal. Ao final da visão, uma grande tristeza invade Bernadete.

6ª. aparição: domingo, 21 de fevereiro. É bem cedinho quando a Senhora se apresenta a Bernadete, que estava acompanhada por uma centena de pessoas. Em seguida, Jacomet, comissário de polícia, a interroga e quer que Bernadete lhe conte tudo o que viu. Ela, porém, lhe falará somente de “Aquero” (aquela coisa).

7ª. aparição: terça-feira, 23 de maio. Rodeada de 150 pessoas, Bernadete dirige-se à Gruta. A Aparição lhe revela um segredo, “somente para ela”.

8ª. aparição: quarta-feira, 24 de fevereiro. A Senhora lhe dirige essa mensagem: “Penitência! Penitência! Penitência! Rogai a Deus pelos pecadores! Beijareis a terra em expiação pelos pecadores!”.

9ª. aparição: quinta-feira, 25 de fevereiro. Estão presentes 300 pessoas. Bernadete narra: “Ela me disse para me dirigir à fonte para beber água. Escavei e encontrei apenas um pouco de água lamacenta. Ela insistiu que eu bebesse. Na quarta tentativa pude beber. Ela também me fez comer da erva que se encontrava vizinha à fonte. Então a visão desapareceu e eu fui embora”. Diante da multidão que lhe diz: “Sabes que te julgam doida fazendo essas coisas?” ela somente responde: “É pelos pecadores”.

10ª. aparição: sábado, 27 de fevereiro. Oitocentas pessoas estão presentes. A aparição é silenciosa. Bernadete bebe água da fonte e cumpre os gestos habituais de penitência.

11ª. aparição: domingo, 28 de fevereiro. Mais de mil pessoas assistem ao êxtase de Bernadete. Ela reza, beija a terra e caminha com os joelhos em sinal de penitência. Imediatamente é levada à presença do juiz Ribes, que ameaça de pô-la na prisão.

12ª. aparição: segunda-feira, 1º de março. Mais de 1.500 pessoas se reúnem e, dentre ela, pela primeira vez, um sacerdote. De noite, Catarina Latapie, de Loubajac, dirige-se à Gruta, mergulha seu braço aleijado na água da fonte: seu braço e sua mão recuperam a mobilidade. É o primeiro milagre operado nas águas de Lourdes.

13ª. aparição: terça-feira, 2 de março. Aumenta sempre mais a multidão. A Senhora lhe diz: “Dizei aos sacerdotes que venham aqui em procissão e que construam aqui uma capela”. Bernadete refere isso ao padre Peyramale, pároco de Lourdes. O padre nada mais quer saber do que uma coisa: o nome da Senhora. E mais ainda, exige uma prova: ver florescer a roseira da Gruta em pleno inverno.

14ª. aparição: quarta-feira, 3 de março. Bernadete dirige-se à Gruta às 7 da manhã, na presença de 3.000 pessoas, mas a visão não vem! Depois das aulas, sente o convite interior da Senhora. Dirige-se à Gruta e Lhe pede o Seu nome. A resposta é um sorriso. O pároco Peyramale lhe repete: “Se a Senhora realmente quer uma capela, que diga o seu nome e faça florescer a roseira da Gruta”.

15ª. aparição: quinta-feira, 4 de março. A multidão, sempre mais numerosa (cerca de 8.000 pessoas) espera um milagre no final dessas quinze aparições. A visão é silenciosa. O pároco Peyramale permanece em sua posição. Nos 20 dias seguintes, Bernadete não se dirigirá mais à Gruta, pois não sentiu mais o irresistível convite interior.

16ª. aparição: quinta-feira, 25 de março. A Visão revela, enfim, Seu nome, mas a roseira (de rosa canina) no qual a Visão apóia os pés durante Suas aparições, não floresce. Bernadete diz: “Ela ergueu os olhos aos céus, unindo, em sinal de oração, as suas mãos que estavam estendidas e abertas em direção à terra, e me disse: QUE SOY ERA IMMACULADA COUNCEPCIOU” – Eu sou a Imaculada Conceição.

Bernadete sai correndo e repete continuamente, durante o caminho, essas palavras que ela não compreendia. Falava o francês com muita dificuldade, pois sua língua era o dialeto occitano-guascão. Mas, são palavras que impressionam e comovem o insensível pároco. Bernadete ignorava essa expressão teológica que descrevia a Santa Virgem. Somente quatro anos antes, em 1854, o papa Pio IX tinha-a definido uma verdade da fé católica.

17ª. aparição: quarta-feira, 7 de abril. Durante essa aparição, Bernadete conserva acesa sua vela. Entrou em êxtase e chama da vela roçou longamente sua mão, sem queimá-la. Esse fato foi imediatamente constatado por um médico presente no meio da multidão, o médico Douzous.

18ª. e última aparição: quinta-feira, 16 de julho de 1858. Bernadete sente a misteriosa chamada à Gruta, mas o acesso está proibido e tornado impossível por uma cerca de arame. Então fica defronte à Gruta, do outro lado do rio Gave, na pradaria. “Me parecia estar diante da Gruta, na mesma distância das outras vezes, eu via somente a Virgem, jamais a vi tão bela”.

A simplicidade dessas linhas não revela o tumulto que as Aparições provocaram na região, envolvendo padres, bispo, polícia, juízes, autoridades políticas, povo, cada vez mais povo, interrogatórios, ameaças, proibições e ela, a humilde e singela Bernadete, nunca perdendo a paz, a alegria e a veracidade nas palavras. Não perdia a paz, mesmo sendo o centro de uma confusão e movimentação cada vez maior.

Bernadete, em 5 fotos de 1863, feitas por Billard-Perrin.

A Igreja investiga as Aparições

Dom Bertrand-Sévère Laurence, bispo de Tarbes, se ocupa imediatamente dos fatos, nomeando uma Comissão de investigação para documentar e constatar os fatos ocorridos ou que viessem a ocorrer, com a finalidade de tomar uma resolução a respeito das curas operadas através do uso da água da Gruta. Durante 4 anos a Comissão pesquisa os fatos, interroga testemunhas, consulta especialistas da ciência, os médicos que trataram dos doentes antes da cura, especialistas em ciências físicas, químicas, geológicas. Bernadete é interrogada repetidamente. O Bispo tirou suas conclusões em 1862 e, com Decreto de 18 de janeiro emitiu seu julgamento sobre as Aparições na Gruta de Lourdes, oficialmente reconhecendo a autenticidade e a veracidade das Aparições, nas quais Bernadete viu a Santíssima Virgem e, especialmente, que os fatos ali ocorridos não podem ser explicados a não ser por intervenção divina.

A grande prova, para o Bispo, é que Bernadete jamais quis enganar: impressionam sua simplicidade, sua pureza e sua modéstia. Somente fala quando interrogada, tudo narra sem ostentação, com inocência, com respostas nítidas, precisas, sem hesitação. Sincera, não caiu em contradição, nada acrescentando, nada mudando. A sabedoria de suas respostas manifesta espírito reto, bom senso superior à sua idade. Seu agir religioso foi sempre humilde. Nela nunca se percebeu desequilíbrio mental, alteração dos sentidos, esquisitices de caráter, nem morbosidade que poderia predispô-la a fantasias imaginativas.

Não foi vítima de alucinação: ela realmente viu e ouviu um ser que se proclamou A Imaculada Conceição. Ela não chegaria a isso por via natural, donde se tem motivo fundado para crer que a aparição seja sobrenatural.

As maravilhas da graça

O argumento final, para Dom Bertrand-Sévère Laurence, bispo de Tarbes, para a Igreja, é constituído pelos frutos que tornam legítima a árvore: os fatos narrados por Bernadete geram benefícios sobrenaturais e divinos. Cita: a multidão que acompanha as aparições, sempre mais numerosa e, após, os peregrinos de regiões sempre mais distantes que acorrem à Gruta para pedir graças a Maria Imaculada; muitos corações cristãos foram fortalecidos nas virtudes, espíritos indiferentes retornaram às práticas religiosas, muitos peregrinos de coração endurecido se reconciliaram com Deus após invocarem Nossa Senhora de Lourdes. Somente Deus, conclui o bispo, pode ser o autor dessas maravilhas da graça que confirmam a verdade das aparições.

O bispo também cita os doentes que provaram da água da Gruta e improvisamente recuperaram a saúde. Doentes terminais e irrecuperáveis ficaram curados ao beberem da água que, após rigorosos exames, demonstrou ser água pura, sem outras propriedades, o que comprova que as curas são obra de Deus.

Lembra o bispo a coincidência da revelação do nome da Senhora “Eu sou a Imaculada Conceição”, desconhecido pela Vidente e revelado em 1854 pelo papa Pio IX.

Então conclui: “Há uma estreita ligação entre as curas e as aparições: a aparição é divina porque as curas têm marca divina; o que vem de Deus é verdade! Por isso, o que Bernadete viu e ouviu, e a Aparição que se proclama ‘Imaculada Conceição’, é a Santíssima Virgem! Declaramos, portanto, que aqui está a mão de Deus!”.

Após ter invocado o nome de Deus, procedeu à leitura da declaração do reconhecimento oficial das Aparições.

Corpo incorrupto de Santa Bermadete (Foto 02).

Corpo incorrupto de Santa Bernadete.

De Bernadete a Santa Bernadete

Após longo discernimento, acompanhada pelo diretor espiritual e pelo bispo, em 4 de julho de 1866  inicia Bernadete sua viagem ao convento da Congregação das Irmãs de Caridade de Nevers. Com o coração sofrido, deu adeus à família, aos seus, à querida Gruta de Massabielle e a Lourdes. Não mais retornaria. Nesse mesmo ano morreu sua mãe, aos 41 anos; cinco anos depois, seu querido e sofrido pai. Antes da partida, tinha perdido um irmãozinho.

Sua saúde sempre esteve comprometida e passou muito tempo no leito. Mas, Bernadete era muito feliz, a cruz a fortalecia. Dizia, nos momentos de muita saudade: “Minha missão em Lourdes terminou”, “Lourdes não é o céu”.

Pronunciou os votos perpétuos em meio à doença. Em 11 de dezembro de 1878 se acama definitivamente. Durante os 15 anos de vida conventual suportou em silêncio sofrimentos físicos e morais, como a indiferença das próprias irmãs. As superioras a tratavam com indiferença. Exerceu as funções de enfermeira e de sacristã, até o agravamento da doença. Não pedia alívio, mas força e paciência. Lembrava as palavras da Imaculada: “Não lhe prometo a felicidade neste mundo, mas no outro”.  A quem a confortava, respondia com um sorriso radiante, na recordação da Senhora de Lourdes: “Maria é tão bonita que todos que a vêem gostariam de morrer para revê-la”.

No silêncio e na paz, morreu em 16 de abril de 1879. Não podia imaginar como Lourdes tinha progredido, o Santuário que estava sendo construído, a fonte milagrosa a atrair sempre mais peregrinos. A Gruta de Massabielle se transformou em centro de cura e libertação, de fé e de caridade. Bernadete contemplava agora a beleza de Maria.

Com a introdução da causa de beatificação e canonização, seu túmulo foi aberto três vezes, em 1909, 1919 e 1925. Para espanto dos examinadores, seu corpo está intacto. Na exumação de 1925, assim o médico responsável descreveu o corpo: “O que mais me impressionou durante esta exumação foi o perfeito estado de conservação do esqueleto, tecidos fibrosos, musculatura flexível e firme, ligamentos e pele após quarenta e seis anos de sua morte”.

Desde 3 de agosto de 1925, o corpo intacto da Santa se encontra exposto numa urna de cristal na capela do convento de Saint-Gildard, na cidade de Nevers, França, a 260 km. de Paris.

Foi declarada Bem-aventurada pelo papa Pio XI em 12 de junho de 1925 e canonizada, pelo mesmo Papa, em 8 de dezembro de 1933. Após a proclamação de Santa, a multidão reunida da Praça de São Pedro prorrompeu no canto do Ave de Lourdes, o mesmo cantado hoje em todo o mundo:

Louvando Maria/ o povo fiel/ A voz repetia/ de São Gabriel:
Ave, ave, ave Maria.

Um anjo descendo/ num raio de luz/ Feliz, Bernadete/ à fonte conduz.
Ave, ave, ave Maria.

Vestida de branco/ da glória desceu/ Trazendo na cinta/ as cores do céu.
Ave, ave, ave Maria.

Mostrando o rosário/ na cândida mão/ Ensina o caminho/ da santa oração.
Ave, ave, ave Maria.

No dia 16 de abril de cada ano, a Igreja festeja Santa Bernadete Soubirous.

MENSAGEM DE LOURDES

Tanto os que peregrinam a Lourdes, como seus devotos pelo mundo, recebem os sinais das Aparições:

A Água que jorrou do chão sujo, escavado por Bernadete, continua a brotar, é o grande sinal da cura física e espiritual. Essa água abastece a piscina onde os doentes se banham. Nunca cessou de brotar, a cada dia aproximadamente 5.000 litros. A Água nos lembra o Batismo e a vida cristã.

A Oração pelos pecadores, pedida por Maria, é oração pela conversão de toda a humanidade, de cada um de nós. O rosário é a grande oração, a oração dos humildes, dos doentes e anciãos, é a oração de Maria.

Fazer Penitência, aceitar e oferecer os sofrimentos pela salvação da humanidade.

A Vela que Bernadete levou acesa se repete como o sinal de Lourdes e de todas as grutas espalhadas pela terra, sinal da fé, da luz.

A Eucaristia é o sinal principal de Lourdes, do mesmo modo que é o centro da vida da Igreja. Todos os dias, à tarde,  se realiza a Procissão com o Santíssimo Sacramento, acompanhada de milhares de devotos que carregam velas acesas.

Em Lourdes, Deus continua a chamar a humanidade à conversão através de meios pobres, mas que sabem nos orientar para a graça.

Pe. José Artulino Besen

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O PROFETA JONAS PRECISA DE CONVERSÃO

Jonas expelido pela baleia

Jonas expelido pela baleia

O livro do profeta Jonas é uma parábola que retrata o povo de Israel após o exílio (século IV-III AC) quando, tendo recuperado a identidade religiosa e nacional, buscava reforçar a consciência do próprio valor e o desprezo pelos outros povos. Alimentava a convicção de que somente ele, Israel, era amado por Deus, somente ele tinha salvação: para os judeus, a misericórdia divina, para os pecadores, uma justiça implacável. Na verdade, Deus “é lento para a ira e rico em misericórdia e bondade” (Ex 34, 5-6): esse é o resumo da parábola de Jonas.

O profeta estava tranqüilo, desocupado, pois seu povo estava salvo, não necessitava de profetas, bastava-lhe seguir as leis. Surge a voz divina que o inquieta e irrita: “Levanta-te! Vai a Nínive, aquela grande cidade, e denuncia suas injustiças, que chegaram à minha presença” (Jn 1,2). Jonas se levanta, faz que vai a Nínive, mas toma o caminho contrário, rumo ao Ocidente, embarca num navio para fugir de Deus.

Jonas, que conhecia Deus, procurou fugir da missão porque sabia que Deus é misericordioso, lento na ira e pronto para anular as ameaças (cf. Jn 4,2). Ele não queria ser visto como profeta humilhado, desmentido, o que lhe parecia mais importante que realizar a missão que Deus lhe confiara. Estava aborrecido com Deus: o que adianta ameaçar um povo pagão com castigos se depois Deus muda a decisão e o salva? Profeta desmentido perde a fama.

Deus, porém, topou dar uma lição ao Jonas fugitivo: provocou uma grande tempestade, o navio parecia afundar e buscava-se o responsável pelo perigo. Escondido, o profeta tomou consciência de que ele era o responsável, pois estava fugindo de Deus. Apresentou-se ao comandante e pediu que o atirassem ao mar. Assim foi feito, o mar se acalmou, mas Jonas foi engolido por um enorme peixe, uma baleia. Preso por três dias e três noites no ventre do peixe, lembrou-se do Senhor, reconheceu seu pecado e recuperou a esperança da salvação e pediu perdão.

Deus ouviu sua prece e ordenou à baleia que o vomitasse em terra firme. Jonas ficou muito feliz, tudo estava resolvido, achou que Deus o deixaria em paz. O que não aconteceu, pois ouviu novamente a voz: “Levanta-te! Vai a Nínive, aquela grande cidade, e anuncia o que vou te dizer” (Jn 3,2). A mesma voz, a mesma ordem. Vendo que não tinha outro jeito, Jonas se levantou e tomou o caminho de Nínive. Acabou aprontando: Deus ordenara que anunciasse o que ele diria, mas Jonas falou por conta própria: “Dentro de quarenta dias Nínive será destruída!” (Jn 3, 4). Não queria a salvação da cidade, mas sua destruição e assim livraria a cara de profeta que acerta.

Nínive era uma grande cidade e eram necessários três dias para atravessá-la. Construída por Senaquerib, chegou a quase 150 mil habitantes, quatro vezes maior do que Babilônia.

Jonas deveria ter anunciado: “Se não vos converterdes morrereis do mesmo modo”, mas preferiu falar secamente “Daqui a 40 dias Nínive será destruída”. Para seu espanto, os ninivitas não se deixaram desanimar pela profecia e se colocaram em penitência e jejum desde o rei até o último dos animais: acreditaram que Deus poderia voltar atrás.

Seu arrependimento é correspondido pela misericórdia divina que parece desmentir o profeta. É a dialética da misericórdia, que supõe exatamente que a profecia não se cumpra, para que se realize seu sentido mais profundo, o convite à conversão.

Jonas ficou profundamente magoado, pois Deus não lhe obedecera. A conversão dos ninivitas gerou a conversão de Deus e o único a resistir é exatamente o profeta, preocupado com seu posto, em livrar a cara. Chega à conclusão de que com Deus não dá para trabalhar pois “é bondoso demais, sentimental, lerdo para ficar com raiva, de muita misericórdia e tolerante com a injustiça” (Jn 4, 2-4). Pediu a morte, e Deus lhe perguntou: “Será que está correto ficares tão irritado?”. O profeta achou que sim, retirou-se fez um abrigo e ficou observando o que iria acontecer com a cidade.

Para refrescar-lhe a cabeça raivosa, o Senhor fez crescer uma mamoneira que ofereceu sombra. Ficou contente mas, no dia seguinte a planta secou e ao nascer do sol Deus mandou vento muito quente e Jonas sentiu-se mal. Deprimido novamente pediu a morte e Deus lhe perguntou: “Será que está correto tu ficares tão irritado por causa da mamoneira?”. Cabeçudo, Jonas respondeu secamente: “Está certo, sim, eu ficar com raiva e até pedir a morte” (Jn 4, 9). O Senhor aceita nossas malcriações.

O livro de Jonas termina com uma pergunta, não respondida, feita por Deus: Se tu tens pena de uma mamoneira que nem plantaste, não terei pena de Nínive, onde mora tanta gente que nem sabe distinguir entre direita e esquerda? (cf. Jn 4, 10-11).

O profeta Jonas se achava dono de Deus e lhe dá conselhos. Deus dá a lição de que cuida de todos os povos, também dos pagãos, não está reduzido aos muros de Jerusalém. São os ninivitas que anunciam a misericórdia do Senhor e não o profeta cheio de razão. Jonas é o oposto de Abraão: o patriarca intercedeu por Sodoma e Gomorra (cf. Gn 18, 20-33) e Jonas se contenta em anunciar a destruição. O fruto também é oposto: Sodoma destruída, Nínive salva.

A verdadeira alegria de um profeta

Um profeta anuncia castigos, é verdade, mas alimenta a esperança de que eles não aconteçam.

O autor do livro de Jonas quis abrir os olhos e o coração dos israelitas para que não ficassem fechados em si, numa orgulhosa certeza da salvação, mas tivessem a alegria de uma salvação universal, pois Deus tem a todos como filhos. Para narrar a parábola escolheu uma grande cidade, Nínive, que nem existia mais, pois fora destruída pelos babilônios em 612AC, séculos antes de nosso profeta.

Escolhi escrever sobre Jonas tendo diante de mim a figura de papa Francisco, grande presente de Deus à Igreja, um papa que veio do futuro, de um magnetismo irresistível pois retrato do Senhor servo e pobre, puro instrumento da paz. Ainda cardeal Jorge Bergoglio, em 2007 afirmou numa entrevista à revista 30 Giorni, entrevista essa republicada pelo jornal Corriere della Sera em 14 de março de 2013. É uma chamada de atenção a nós, cristãos, que olhamos para o próprio umbigo, fechados em orgulhosas seguranças pseudo-históricas e canônicas, mas que manipulam o Evangelho. Se não formos ao encontro dos pobres, Cristo irá. Como Jonas, ficaremos reclamando dos outros que não são católicos ou cristãos, mas aceitam Jesus como seu Senhor e Salvador.

Jonas deve se converter, afirmou o Card. Bergoglio: “Jonas tinha idéias claras sobre Deus, idéias muito claras sobre o bem e sobre o mal. Sobre aquilo que Deus faz e aquilo que Deus quer, sobre aqueles que eram fiéis à Aliança. Tinha a receita para ser um bom profeta. Mas, Deus irrompe em sua vida e o envia a Nínive, símbolo dos separados, dos perdidos, das periferias da humanidade. O que o fez fugir não era tanto Nínive, mas a rejeição do amor de Deus, amor sem limites por aqueles homens”.

Pe. José Artulino Besen

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ZACARIAS E MARIA, JOÃO BATISTA E JESUS

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Maria visita Isabel – afresco românico catalão

No tempo de Advento e de Natal a Palavra proclamada na Liturgia nos apresenta João Batista, o último profeta da Antiga Aliança, e Jesus, aquele que contém em si a Nova Aliança. Dois homens dos quais o evangelista Lucas afirma o parentesco e o encontro: João filho de Isabel, a estéril, Jesus filho de Maria, a virgem de Nazaré. Ainda no ventre de suas mães, os dois se encontram e acontece um pentecostes: João salta de alegria no ventre de sua mãe e Jesus leva Maria a prorromper no canto do Magnificat-A minh’alma engrandece o Senhor, o hino dos humildes (cfr. Lc 1,39-56). Maria, a Mãe do Redentor correu a ajudar Isabel: a presença de Jesus em seu seio arrebata ao serviço, pois o encontro com Jesus torna extrovertida nossa vida introvertida e nos conduz ao próximo.

João Batista é o profeta que fala no deserto, preparando os caminhos do Senhor. Jesus é o Senhor e Mestre que no silêncio e na humildade anuncia o Reino. Muito significativos os anúncios feitos pelo arcanjo Gabriel sobre o nascimento dos dois: o anjo anuncia a Zacarias (Lc 1,5-25) e a Maria (Lc 1,26-38). O papa Bento XVI, em seu terceiro volume sobre Jesus intitulado “A infância de Jesus” propõe um belo confronto: de um lado o Sacerdote, o Templo, a liturgia; de outro lado, uma jovem desconhecida, uma pequena cidade, uma casa particular.

O Antigo Testamento leva à solenidade litúrgica do incenso oferecido no Templo de Jerusalém e o Novo Testamento conduz à simplicidade, ao silêncio, ao grão de trigo lançado ao solo. Zacarias simboliza o poder sacerdotal, Maria é o símbolo do não-poder, do serviço humilde. Gabriel dirige-se ao Templo para o anúncio a Zacarias e dirige-se à humilde casa de Nazaré para o anúncio a Maria.

A liturgia do Templo revela o poder da classe sacerdotal; a liturgia da Nova Aliança transforma a liturgia em serviço, em pequenez, onde os poderosos são derrubados, os humildes são elevados. Mas, existe uma unidade intrínseca entre Zacarias e Isabel e Maria: a vida nasce da impossibilidade humana: um casal idoso, estéril, uma virgem que não conhece homem. Deus irrompe na história fazendo brotar a vida nova que é graça e que produz, em quem a aceita, a fecundidade de gerar novas vidas através do serviço aos pobres. A Bíblia narra diversos nascimentos inexplicáveis aos olhos humanos mas que revelam o poder do Deus da vida.

Ao ouvir o anjo, Zacarias duvida, pede uma prova, a certeza de que gerará um filho. Ao ouvir o anjo, Maria pergunta como Deus agirá e logo entra no plano divino, sem medir conseqüências nem pedir provas: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Por ter duvidado, Zacarias ficou mudo até o nascimento de João e Maria foi às montanhas da Judéia servir a Isabel. Ao nascer-lhe o filho, Zacarias prorrompe no hino Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que a seu povo visitou e libertou.

João Batista torna-se profeta de renome, respeitado pelas autoridades, por Herodes, cria um movimento religioso conhecido como dos batistas. E Jesus, o pobrezinho, durante 30 anos mergulha na insignificância de Nazaré, no silêncio da oficina de José e da casa de Maria. Quando fala, riem dele: “Não é esse o filho do carpinteiro?”. Ele, porém, não se impressiona: é o poderoso, o todo-poderoso, mas detém um poder que é amor, acolhida, reconciliação. Humildes e importantes vão ao deserto ouvir João. A Jesus procuram os doentes, aleijados, os famintos, os pecadores, gente sem eira nem beira. Somente quem dá o passo do silêncio, da oferta da vida é capaz de reconhecer quem é Jesus.

Jesus apresenta João como o maior entre os nascidos de mulher; João apresenta Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. João anuncia a salvação, Jesus é a Salvação. O nome “João” significa Deus tem compaixão; o nome “Jesus” quer dizer Deus salva. Ambos nos oferecem o caminho da reconciliação com Deus e nos fazem ouvir o canto dos anjos a anunciar “glória a Deus e paz na terra”. Um encaminha, o outro é a luz sem ocaso.

Pe. José Artulino Besen

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ABRAÃO, NOSSO PAI NA FÉ

Sacrifício de Isaac – Rembrandt

A teologia, a arte, a literatura, a religiosidade adulta nunca se cansaram do fascínio de contemplar Abrão – pai exaltado e Abraão – pai de uma multidão (cf. Gn 17,5). A sonoridade rude de seu nome já indica a estatura desse homem verdadeiro, fiel e santo. É o elo ecumênico das grandes religiões monoteístas: judeus, cristãos e muçulmanos o chamam de “Pai”. Através de Paulo, Abraão entrará na tradição cristã como o Santo da Fé e a Igreja católica o celebra em 9 de outubro. É impossível não amá-lo e admirá-lo com reverência. Sören Kierkegaard escreveu em Temor e tremor: “Homens foram grandes pela sua energia, sabedoria, esperança ou amor. Abraão, porém, foi o maior de todos: grande pela energia cuja força é a fraqueza, grande pela sabedoria, cujo segredo é a loucura, grande pela esperança cuja força é a demência, grande pelo amor que é o ódio de si mesmo. Foi pela fé que Abraão abandonou a terra de seus pais e foi estrangeiro em terra prometida. Deixou uma coisa, a sua razão terrestre, e assumiu uma outra: a fé”.

Ele foi justificado por Deus pela fé (Gn 15,6) antes de ser circuncidado (Gn 17,24). Circuncisos e incircuncisos são herdeiros de Abraão, pois a salvação não vem das obras humanas, mas como dom divino acolhido na fé, na aridez da fé. Não se é filho de Abraão pela raça ou nação, mas pela adesão de fé. O seio de Abraão (Lc 16, 22-23) é símbolo da comunhão de todos os homens com Deus.

O chamado de Abraão

Dezenove século antes de Jesus Cristo, muito rico em ouro e prata, estava Abraão com seus 75 anos, cuidando de seu numeroso rebanho em Ur, perto do grande rio Eufrates, quando o Senhor lhe falou: “Parte da tua terra, da tua família e da casa de teus pais para a terra que eu te mostrarei. Eu farei de ti uma grande nação e te abençoarei” (cf. Gn 12, 1ss). A segurança que Deus propõe de uma grande nação será conseqüência da insegurança radical: deixar tudo e não indicar nada, nem lugar nem caminho, somente partir e seguir. E isso Abraão faz, partindo com sua mulher e rebanho.

No meio do caminho houve grande seca e fome, e Abraão seguiu para o Egito, ali padecendo dura provação: sua esposa Sara era muito bonita e os comentários chegaram ao Faraó. Para dispor dela, os homens assassinariam Abraão. Para salvá-la, Abraão pediu-lhe que dissesse ser sua irmã, mas, por isso mesmo o Faraó a possuiu. Ao saber que era sua esposa, o Faraó lamentou e devolveu-a, ofereceu presentes ao casal. Foi salvo por sua esposa ao preço de grande dor. E, de pastagem em pastagem, seguiu o cominho anunciado por Deus, mas não indicado.

Descendência de Abraão

Sempre caminhando, peregrinos em busca de pastagens, Abraão e Sara chegaram a Jerusalém, onde foram abençoados pelo rei e sacerdote Melquisedec a quem ofereceram o dízimo de tudo. Não pede identidade, ele que tinha enfrentado e vencido tantos reis tribais. Diante do mistério desse homem que o abençoava, seguiu a estrada de honrá-lo.

Anos depois, o Senhor novamente lhe fala, prometendo-lhe grandes riquezas, e Abraão lamenta essa doação, pois não tinha filhos e tudo iria para a mão de estranhos. Grande promessa a um velho sem filhos: “Contempla o céu e conta as estrelas, se conseguires contá-las. Tal será a tua descendência” (cf. Gn 15, 1ss). Homem de fé, acreditou, mas, estava com 86 anos e Sara não lhe tinha dado filhos. É Sara que o aconselha a procurar a serva Agar, e essa dá-lhe Ismael, o filho do pranto. Sara foi tomada pelo ciúme e Abraão deu-lhe permissão de fazer o que quisesse com Agar e Ismael. Sara os expulsa de sua tenda e seguem pelo deserto, sendo também objeto de promessa de descendência numerosa. Ismael é o Pai dos árabes.

Estava Abraão com 99 anos quando, em Mambré, recebeu a visita de três homens aos quais, como homem do deserto, ofereceu água, alimento e hospedagem. A recompensa vem com a bênção dada por um dos homens: “Eis que Sara, tua mulher, terá um filho” (cf. Gn 18, 1ss). Sara deu risadas: “Murcha como estou, poderia eu ainda gozar? E meu senhor é tão velho!” (Gn 18,12-15). O mesmo Senhor, porém, que faz o galho seco brotar, torna o útero estéril fecundo. Houve discussão entre o casal, pois Deus perguntou por que Sara tinha rido. Ela negou: “eu não ri”, pois tinha medo. “Sim! disse Abraão, tu riste!”. Ficaram em paz e Sara concebeu e deu à luz um filho a quem pôs o nome de Isaac (que significa filho do riso). Ela exclamou: “Deus me deu de que rir!” (Gn 21, 6).

Abraão ainda não sabia pedir

Lot, sobrinho de Abraão, residia com sua família em Sodoma. Juntamente com Gomorra, eram antros de perdição e o Senhor decidiu destruí-las. Violando toda a lei da hospitalidade, quiseram sodomizar os homens que visitavam Lot. Respeitando a hospitalidade, Lot ofereceu suas filhas virgens. Não aceitaram e agora queriam tudo: sodomizar homens e mulheres. Deus salvou-os: uma cegueira impediu-os de enxergar a entrada da tenda (Gn 19, 1ss).

Comovido com o destino de toda a população, onde nem todos eram perversos, Abraão intercedeu pela cidade, num diálogo cheio de confiança. Abraão pergunta: Senhor, se houver 50 justos em Sodoma, perdoas? – Perdôo, responde o Senhor. E se houver 45? – Eu salvo a cidade, responde Deus. – E se houver 40? Sodoma está salva! – E apenas 30? Salvo pelos 30. – E se houver 20 ou 10? E o Senhor responde: Eu não a destruirei por causa dos 10. Nessa hora Abraão fraquejou, pois conhecia a misericórdia divina, mas não sua infinita misericórdia: perdoaria se intercedesse por apenas um. E assim, Sodoma e Gomorra foram destruídas pelo fogo, tendo sido salvos Lot e a família (cf. Gn 18, 16-33).

Isaac – promessa e sacrifício

Por muitos anos Abraão pastoreou seu rebanho em Gaza, terra dos filisteus. O Senhor julgou que estava tudo indo muito bem e que necessitava de mais uma prova. E o chama: “Abraão”; ele respondeu como em todos os chamados: “Eis-me aqui”. Ele prosseguiu: “Toma o teu filho, o teu único filho Isaac, que amas. Parte para a terra de Moriá, e lá o oferecerás em holocausto”. Abraão não respondeu, mas decidiu pela obediência da fé. Na manhã seguinte, em meio ao absoluto silêncio de Deus, viaja com Isaac e mais dois criados. No terceiro dia, ao aproximar-se do lugar indicado pelo Senhor, disse aos criados que ficassem ali e, catando achas de lenha, seguiu com seu filho Isaac, a quem explica que oferecerão um sacrifício ao Senhor. O inocente jovem pergunta: Meu pai, onde está a vítima para o sacrifício? Deus providenciará, meu filho, responde o velho pai. Na solidão extrema restavam somente “meu pai” e “meu filho” e a silenciosa exclamação de Abrão, nas palavras do poeta Turoldo (O sacrifício de Isaac): “Ó meu Senhor, amado e cruel!”. Tinha afastado Ismael, o filho do pranto, e perderia Isaac, o filho do riso.

Abraão ergue um altar, espalha sobre ele a lenha e nela amarra Isaac. Estende a mão para apanhar o cutelo e imolar seu filho. O anjo do Senhor intervém, segura a mão de Abraão e grita: Abraão!, e este responde: Aqui estou! Ordena-lhe não sacrificar o menino e apresenta-lhe um carneiro (cf. Gn 22,1-18). Certo da fé irremovível de Abraão, o Senhor renova as bênçãos a ele e àqueles que o seguirem na fé.

Quando o anjo lhe apresenta o carneiro, Abraão e seus seguidores entenderam que Deus não quer sacrifícios humanos. O único que ele aceitou, séculos depois, foi o de seu Filho.

Sacrifício de Isaac – Rembrandt – detalhe

No decorrer da história, muitos artistas tentaram com tintas expressar a cena do sacrifício de Isaac. Um  dos mais significativos seja Rembrandt (1606-1669), na tela reproduzida no início do texto: as mãos enormes do velho pastor Abraão, cheio de dor, mas sereno, tampam o rosto do filho para que não veja o que seu pai lhe fará; com força ergue o punhal e um anjo espantado, também com força aperta-lhe o punho e a arma se desprende.

O gesto de amarrar o filho sobre o altar é a mais pura prova da fé, levada a seu extremo: a promessa divina tinha-lhe dado um filho e agora o tomava, anulando-a. Abraão estava disponível para renunciar a tudo, confiando apenas em Deus. Faltava-lhe ainda a Terra prometida.

A única propriedade de Abraão

Desde que deixou sua terra, em busca da Terra da Promessa, Abraão não teve mais propriedades. Vivia como pastor errante, procurando pastagens para seu rebanho, na mesma paisagem palestina onde hoje os beduínos pastoreiam.

Estão velhos, e Abraão se preocupa em ter um lugar para a sepultura de Sara. Não queria que fosse numa terra cujos futuros donos nada soubessem de quem ali estaria sepultada. Em Hebron adquiriu uma propriedade, a primeira de sua existência errante, pois sempre foi um peregrino em busca da Terra da Promessa, e ali sepultou Sara. Não quis ser separado dela, por isso um chão para os dois, lugar final do descanso.

E ali, no hoje denominado Túmulo dos Patriarcas, foram depositados Sara e, anos depois, Abraão, o homem que teve fé (cf. Gn 23, 1ss; Gn 25, 8-10). Anos depois ali também foram sepultados Isaac e Rebeca, Jacó e Lia, os Três Patriarcas. Hoje o local é chamado pelos árabes muçulmanos de Haram el-Khalil, que quer dizer “lugar sagrado do amigo (de Deus)”. É o lugar de Abraão, o amigo de Deus.

Esse pequeno chão foi a confirmação do longo e demorado caminho cujo início tinha sido: “Parte da tua terra, da tua família e da casa de teus pais para a terra que eu te mostrarei. Eu farei de ti uma grande nação e te abençoarei” (cf. Gn 12, 1ss).

Pe. José Artulino Besen

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A QUEDA DE SAULO – CONVERSÃO DE PAULO

Queda de Saulo – Enrico Manfrini

Enrico Manfrini (1917-2004), escultor italiano de intensa espiritualidade, amigo do Papa Paulo VI, representou em bronze o momento dramático do encontro de Saulo com Cristo, no caminho de Damasco, encontro que marcou de modo definitivo o Cristianismo e Paulo, o teólogo por excelência. Juntamente com Pedro, Paulo é celebrado pela Liturgia em 29 de junho.

O artista inspirou-se nas três narrações transmitidas nos Atos dos Apóstolos (At 9, 3-9; 22, 6-11; 26, 12-19) pelo próprio Paulo. O presente texto é reflexão a partir da escultura de Manfrini.

Deixando Jerusalém, com cartas do Sinédrio, Saulo se dirigia a Damasco cheio daquela segurança que a observância da Lei conferia. Uma Lei de tantos compromissos que se apresentava como uma veste que escondia a pessoa. A Lei tinha de ser observada, sendo blasfêmia punível com prisão a desobediência. A Lei mosaica garantia ao povo judeu sua identidade histórica e religiosa.

Saulo era um homem de consciência íntegra, cuja segurança estava na fiel observância da Lei, símbolo da aliança de Deus com seu povo. Dirigia-se a Damasco para prender os que seguiam o Caminho, palavra rica de significado para os judeus que aceitavam Cristo: um Caminho que levava da Antiga à Nova Aliança, um caminho que significava a saída de uma religião marcada por sinais exteriores para outra, cujo fundamento era a interioridade, radicada no coração.

A caminho de Damasco Paulo pensava no Caminho quando, improvisamente, foi envolto por uma luz. Caiu ao chão, não tinha mais apoios. A luz vinha do céu. Nesse momento, com as mãos Paulo cobre os olhos: a ninguém via e por ninguém era visto. Suas seguranças tinham derretido ao calor da luz e, tendo como único apoio a terra, ouviu uma voz amiga: “Saul, Saul, por que me persegues?”.

À pergunta, respondeu com outra pergunta: “Quem és tu, Senhor?”. O homem das seguranças não sabe responder, somente perguntar. Saulo está despido e, com os olhos vedados, nem ele o percebe. A veste que deu a Adão e Eva a dignidade perdida, lhe tinha sido subtraída. Escuta a resposta: “Eu sou Jesus, a quem tu estás perseguindo”.

E, a partir desse momento, tem início a reconstrução desse homem nu, lançado por terra, com os olhos vendados: “Levanta-te, entra na cidade e te será dito o que fazer”.

Saulo levantou-se e abriu os olhos, mas não conseguia ver nada. O Caminho não tem o início que se escolhe, mas o início que o guia. Não pode seguir sozinho, pois não enxerga. A Luz que o derrubara conduzia-o pelas mãos daqueles que o acompanhavam no ódio aos cristãos.

Paulo inicia o caminho da Graça

A voz que ouvira era, agora, a voz que o levava à casa de Ananias, em Damasco. Ananias já tinha sido advertido da chegada desse homem que atemorizava os cristãos, mas, homem justo, na voz ouviu a voz do Senhor. E em sua casa entrou um Saulo fragilizado, humilde, que ficou três dias sem ver, nem comer, nem beber. Ouvia e bebia, porém, o anúncio do Caminho, do Senhor que o ódio crucificara, mas o poder do Amor ressuscitara. Colocou no coração a Palavra de que o nome do Senhor era o único Nome pelo qual poderia ser salvo.

No terceiro dia, Ananias impôs-lhe as mãos, dizendo: “Saul, meu irmão, o Senhor Jesus, que te apareceu quando vinhas pela estrada, mandou-me aqui para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo”. Quanto afeto no tratamento que Ananias dá a Paulo: “Saul, meu irmão”. Paulo vinha para Damasco a fim de prender inimigos da Lei, e encontra quem o chama de “meu irmão”. Imediatamente recobrou a vista.

Em seguida, levantou-se e foi batizado. Ergueu-se da queda, seus olhos se abriram e se revestiu de Cristo (cf. Gl 3,27).

A queda no caminho foi vencida pelo levantar-se no Caminho.

Paulo nunca mais perdeu o “espanto” diante da graça que Cristo lhe concedera, a ele, o perseguidor. É o Doutor da Graça: dele, com carinho, lembrou-se o Senhor que ele lembrava com ódio. Sua vida foi um anúncio ininterrupto do Senhor ressuscitado que nos dá a salvação por crermos em seu Nome. Sua grande dor foi a rejeição de seu povo, o povo da Aliança, ao Senhor. Ele estaria disposto a ser condenado em favor da conversão de seus irmãos. Queria que tivessem a mesma felicidade dele: mesmo se fosse condenado, a alegria do encontro jamais se apagaria de seu coração.

Muitos anos depois, muitas viagens, sofrimentos físicos e morais, muito cansaço e perseverança depois, Paulo recebeu a bênção final: dar a vida pelo Senhor que lhe deu a Vida. Tudo é graça.

Pe. José Artulino Besen

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SÃO JOÃO BATISTA – PROFETA E PRECURSOR

São João Batista – bronze de Lourenço Ghiberti em Florença.

A Liturgia privilegiou São João Batista com duas festas: seu nascimento em 24 de junho e sua morte em 29 de agosto. Quando Maria visitou Isabel, que estava grávida, o bebê João pulou de alegria em seu seio. Neste momento foi santificado pelo bebê no seio da Virgem Maria: já nasceu santo. Foi João quem recebeu o maior elogio de Cristo, que afirmou ser ele o maior entre todos os nascidos de mulher (Mt 11,11).

Zacarias e Isabel, casal já idoso que padecia de grande tristeza: não tinha filhos. Isabel era estéril, idosa, sem condições de ser mãe. No mundo judeu, não deixar descendência era visto como uma desgraça, pois não se oferecia um filho ao povo de Israel. Mas, para quem tem fé, a esterilidade se transforma em vida: veja-se a história de Abraão e Sara, de Sansão.

Num dia Zacarias, que era sacerdote, estava no templo de Jerusalém oferecendo incenso ao Senhor quando um anjo lhe apareceu e disse que Deus tinha ouvido suas preces. Isabel conceberia um filho na velhice! Zacarias achou graça, pois, pelas leis da natureza, seria impossível. Então o anjo deu-lhe um sinal: ficaria surdo e mudo até que isso acontecesse (Lc 1,5-25). E pouco depois Isabel estava grávida…

No sexto mês da gravidez teve a alegria de receber a visita de sua prima Maria, que esperava Jesus. Um encontro misterioso: a mãe do último profeta do Antigo Testamento é visitada pela mãe do Profeta dos profetas, o Filho de Deus. Isabel se alegrou por ter sido digna de receber a mãe de seu Senhor, e Maria não resistiu à emoção de ver tantas maravilhas, prorrompendo num hino de gratidão a Deus: “A minha alma engrandece o Senhor, porque ele pôs os olhos em sua humilde serva” (Lc 1,46-55). Maria ajudou Isabel três meses, voltando depois para casa, pois tinha um segredo para relatar a José: sua gravidez miraculosa.

No dia em que Isabel deu à luz, houve festa nas montanhas da Judéia: mais um filho nascia para Israel. Os vizinhos acenderam fogueiras para anunciar à vizinhança a grande alegria. Um filho não é patrimônio somente da família: pertence a toda a comunidade e a festa é de todos (Lc 1,57-67).

O nome João – Deus teve compaixão

E veio a pergunta: que nome dar ao menino? Pela tradição, seria Zacarias, o nome do pai. Nos tempos da Bíblia, o nome era muito importante, indicava a vocação de uma pessoa. Mudar o nome era o mesmo que mudar a qualificação da pessoa, como Abrão que fica Abraão, Sara que fica Sarai, Jacó que fica Israel, Simão que fica Pedro. Isabel disse que não seria Zacarias, pois o anjo tinha dito outro nome. Com sinais, consultaram o velho Zacarias, que escreveu numa tabuinha: João é o seu nome. O nome João significa “Deus teve compaixão”. Neste momento, Zacarias começou a falar e a ouvir, explodindo de alegria: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e libertou o seu povo!” (Lc 1,68-79).

Tudo isso foi muito comentado em toda a região, pois, de fato, Deus estava visitando seu povo. Os sinais da presença de Deus eram claros: uma mulher, Maria, tinha concebido pelo poder do Espírito Santo; uma senhora idosa, estéril, Isabel, dera à luz ao menino João; um homem, Zacarias, que tinha ficado surdo e mudo, passou a ouvir e a falar. Deus estava irrompendo na história: a esterilidade dava lugar à vida, a vergonha e a tristeza eram substituídas pela alegria, os mudos falam, os surdos ouvem. Era a presença do Deus da vida! Uma primavera sem fim. Começavam os tempos do Messias.

O Profeta João Batista

João Batista ocupa primeiro plano no cristianismo e no islamismo. Sua pregação tem início entre os anos 27-29, e sua morte foi pouco depois, motivada pela força profética e revolucionária de suas palavras.

O ambiente de seu ministério foi o “deserto”, isso é, o espaço aberto, fora das cidades, perto de nascentes de água, especialmente o rio Jordão. Era pregador itinerante pela Transjordânia e Samaria. A Judéia inteira ia a seu encontro (cf. Mc 1, 4-8).

João anunciava a penitência, o perdão dos pecados, a conversão e batizava as pessoas que aceitavam mudar de vida, recebendo assim o apelido de “Batista”. E anunciava uma notícia esperada há milhares de anos: o Messias, o Cordeiro de Deus, estava para chegar, aliás, já tinha nascido. João afirmava que o Messias seria enérgico, um juiz rigoroso. Neste ponto se enganou: o Messias, Jesus, era a mais doce e bondosa das criaturas, veio para salvar e não para condenar, veio anunciar a graça divina, e não os castigos divinos, era a imagem visível do Deus invisível.

Mas João foi muito humilde: apesar de todo o seu sucesso, das multidões que o procuravam, ao ver Jesus considerou encerrada a sua missão de precursor, abridor de caminhos: daqui para frente é Jesus quem tem a palavra final. E Jesus também foi muito humilde, pedindo para ser batizado por João e, durante o ritual, Deus revela Jesus como seu Filho amado, a nova voz que deve ser escutada (cf. Mt 3, 13-17).

João foi um judeu preocupado em seguir as leis do Levítico sobre a pureza ritual, mas, radicalizando-as e também subvertendo-as quando julgava necessário. Daí sua crítica a Herodes Antipas por ter casado com a cunhada Herodíades, o que legalmente seria permitido (Mc 6,18). Não comia carne, mas gafanhotos sim, pois não eram considerados carne. Absteve-se de alimentos manipulados por mãos humanas como o pão, e se nutria de mel, mas mel silvestre. João considera puro o que é produzido espontaneamente, vindo das mãos do Criador.

Os fariseus consideravam o rio Jordão impuro para os banhos rituais, mas João não, pois o rio não é produto humano, por isso não era contaminado. Considerava o batismo por imersão próprio para o perdão dos pecados. Vestia-se com peles, referência à missão profética (2Re 1,8), mas peles de camelo, o primeiro dentre os animais impuros, símbolo do mal e do demoníaco (cf. Lv 11,4), parecendo indicar crítica às vestes de linho sacerdotais.

Era um homem fiel à Lei, mas era um homem livre.

João Batista, anunciador de um novo tempo

Um profeta revolucionário: se os doutores da Lei ensinavam que o perdão dos pecados era obtido pelos sacrifícios e ofertas no Tempo de Jerusalém, batizando na água João retirava a prática penitencial do controle sacerdotal e dos fariseus: o perdão de Deus é gratuito e assim minava o poder econômico cuja base eram as ofertas. Considerando puro o que vinha de Deus, subverte o próprio sistema legalista das purificações, das definições puro/impuro. Hoje se diria: João minou o sistema por dentro, pois reconduziu-o ao essencial.

A pregação de João tinha caráter também apocalíptico: parece que esperava para logo o fim dos tempos e o julgamento de Deus. O batismo criado por ele era o último instrumento de salvação para fugir da ira divina. O fato de esperar a vinda de um homem extraordinário levou os cristãos a fazer dele o Precursor. Assim, João era parente “mais velho”, destinado a ser superado pelo “menor”, “amigo” e “testemunha”, Jesus (cf. Lc 1-2; 7,28; Jo 3,29; 1, 15.33).

João Batista iniciou um movimento religioso que tinha como centro a penitência e o jejum, o arrependimento e a mudança de vida, o perdão dos pecados pelo batismo. Seus discípulos eram chamados de “batistas” (dissidência religiosa que sobreviveu a João) e se consideravam livres da religião como poder centralizada no templo. Pobres, cobradores de impostos, militares, pescadores, habitantes das redondezas o procuravam. Jesus e seus discípulos buscavam ouvi-lo. Era bem recebido nos palácios, Herodes Antipas o admirava. A todos a palavra: convertei-vos, mudai de vida, a ira de Deus se aproxima.

E se aproximou a ira dos mesmos que depois levaram Jesus à morte: inconformados por esse profeta do/no deserto, conseguiram que fosse aprisionado na fortaleza de Maqueronte, perto do Mar Morto. A causa final da prisão foi a crítica de João Batista a Herodes por ter desposado Herodíades, mulher do irmão dele, Filipe.

Conhecia Jesus, tinha-o apresentado, mas estranhava seu silêncio na Galiléia. Da prisão enviou discípulos a Jesus para certificar-se do Messias, “se era ele ou deveríamos esperar outro?”. E Jesus responde não pela palavra, mas pela vida: cegos vêem, surdos ouvem, leprosos são curados, paralíticos andam e por toda parte se anuncia a boa notícia (cf. Mt 11,1-6).

Na fortaleza-palácio de Maqueronte Herodes promoveu uma festa com a nobreza da Galiléia: ali Salomé, filha de Herodíades, dançou com tal arte que seduziu a Herodes. O rei, encantado com a dança, ofereceu à jovem o presente que desejasse. Consultando a mãe, essa pediu a cabeça de João Batista num prato. Herodes ficou triste, pois estimava o Batista e sabia também o quanto o povo lhe queria bem (cf. Mt 14,1-12).

E assim foi feito e naquele baile devasso entrou a cabeça do grande profeta, o maior entre os nascidos de mulher. Todos lamentaram a morte, inclusive Jesus e seus discípulos. Quiseram calá-lo, mas sua voz ganhou ressonância maior.

Jesus, o Messias, continua a palavra e a ação de João que o apresentara como “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,13). Jesus também inicia no deserto, mas ingressa nas vilas e povoados, com duas predileções: o amor pelos pobres, pecadores e doentes, e o amor de Deus a quem chama, não de Juiz, mas de Abbá, Pai. Continua o batismo de João, mas um batismo novo, com o Espírito Santo (Mc 1,8).

Celebrar São João Batista é retornar ao essencial da fé cristã anunciada por ele e realizada em definitivo pelo Senhor morto e ressuscitado.

Pe. José Artulino Besen

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NASCEU SÃO JOÃO BATISTA

São João Batista – Andrea Mantegna

Normalmente a festa de um Santo é fixada no dia de sua morte, que é o dia de seu nascimento para a vida eterna. São João Batista é uma exceção, pois tem duas festas: seu nascimento em 24 de junho e sua morte em 29 de agosto. Por que? Quando Maria visitou Isabel, que estava grávida dele, o bebê João pulou de alegria em seu seio. Neste momento foi santificado pelo bebê Jesus que estava no seio da Virgem Maria. Assim, ele já nasceu santo. E foi João quem recebeu o maior elogio de Cristo, que afirmou ser ele o maior entre todos os nascidos de mulher. Ficando nessa história: vocês já imaginaram a graça que é para um bebê quando sua mãe comunga? Também ele se encontra com Jesus e é santificado!

Zacarias e Isabel eram um casal idoso e padeciam de uma grande tristeza: não tinham filhos. Isabel era estéril, idosa, sem condições de ser mãe. No mundo judeu, não ter descendência era visto como um grande castigo, uma desgraça. Mas, para quem tem fé, a esterilidade se transforma em vida. E assim foi. Num dia Zacarias, que era sacerdote, estava no templo de Jerusalém oferecendo incenso ao Senhor quando um anjo lhe apareceu e disse que Deus tinha ouvido suas preces. Isabel conceberia um filho na velhice, e que filho! Zacarias achou graça disso tudo pois, pelas leis da natureza, isso seria impossível. Então o anjo deu-lhe um sinal: ficaria surdo e mudo até que isso acontecesse (Lc 1,5-25).

E pouco depois Isabel estava grávida…

No sexto mês da gravidez teve a alegria de receber a visita de sua prima Maria, que esperava Jesus. Que encontro fantástico: a mãe do último profeta do Antigo Testamento ser visitada pela mãe do profeta dos profetas, o Filho de Deus. Maria não resiste de emoção ao ver tantas maravilhas e proclama seu hino Magnificat, “A minha alma engrandece o Senhor, porque ele pôs os olhos em sua humilde serva” (Lc 1,46-55). Maria ajudou Isabel três meses, voltando depois para casa, pois tinha um segredo para relatar a José: sua gravidez miraculosa.

No dia em que Isabel deu à luz, houve festa nas montanhas da Judéia: mais um filho dado por Deus ao mundo. Os vizinhos acenderam fogueiras em sinal de júbilo e para terem luz para a festa e as conversas. Um filho não é patrimônio somente da família: pertence a toda a comunidade e a festa é de todos (Lc 1,57-67).

O nome João – Deus teve compaixão

E veio a pergunta normal nestas ocasiões: que nome colocar nesse menino tão esperado e anunciado? Pela tradição, seria Zacarias, o nome do pai. Nos tempos da Bíblia, o nome era muito importante, pois indicava a vocação de uma pessoa. Mudar o nome era o mesmo que mudar a qualificação da pessoa, como Abrão que fica Abraão, Jacó que fica Israel, Simão que fica Pedro. Isabel disse que não seria Zacarias, pois o anjo tinha dito outro nome. Então, com sinais, consultam o velho Zacarias. Ele pede uma tabuinha e escreve: João é o seu nome. O nome João significa “Deus teve compaixão”. Neste momento, Zacarias começou a falar e a ouvir, explodindo de alegria num hino que começa assim: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e libertou o seu povo!” (Lc 1,68-79).

Tudo isso foi muito comentado em toda a região, pois, de fato, Deus estava visitando seu povo. Os sinais da presença de Deus eram claros: uma mulher, Maria, tinha concebido pelo poder do Espírito Santo; uma senhora idosa, estéril, Isabel, dera à luz ao menino João; um homem, Zacarias, que tinha ficado surdo e mudo, passou a ouvir e a falar. Deus estava irrompendo na história: a esterilidade dava lugar à vida, a vergonha e a tristeza era substituída pela alegria, os mudos falam, os surdos ouvem. Era a presença do Deus da vida! Uma primavera sem fim. Começavam os tempos do Messias.

Quando João cresceu tornou-se um grande profeta, peregrinava ao longo do rio Jordão: anunciava a penitência, o perdão dos pecados, a conversão e batizava as pessoas que aceitavam mudar de vida, recebendo assim o apelido de “Batista”. E anunciava uma notícia esperada há milhares de anos: o Messias, o Cordeiro de Deus, estava para chegar, aliás, já tinha nascido. João afirmava que o Messias seria enérgico, um juiz rigoroso. Neste ponto se enganou: o Messias, Jesus, era a mais doce e bondosa das criaturas, veio para salvar e não para condenar, veio anunciar a graça divina, e não os castigos divinos. Mas João foi muito humilde: apesar de todo o seu sucesso, das multidões que o procuravam, ao ver Jesus considerou encerrada a sua missão de precursor, de abridor de caminhos: daqui para a frente é Jesus quem tem a palavra final. E Jesus também foi muito humilde, pedindo para ser batizado por João. No mundo das grandezas divinas, tudo é simplicidade, ninguém se considera maior, todos querem ser servidores. Assim foi com João, São João Batista.

Pe. José Artulino Besen

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O PATRIARCA SÃO JOSÉ

Jacó gerou José, esposo de Maria,
da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo (Mt 1,16).

São José medita as Escrituras Sagradas – Gerrit van Honthorst – 1619-20 ca

Celebrado em 19 de março, São José foi o último patriarca da antiga Aliança. Germinando no Antigo Testamento, cresceu no Novo. Patriarcas foram os homens a quem Deus se revelou em sonhos. E José, por três vezes, teve essas revelações: na gravidez de Maria (Mt 1,19-24), na fuga para o Egito (Mt 2,13-14) e no retorno a Nazaré (Mt 2,22).

Jovem, pensando em casamento, em oferecer filhos aos povo de Israel, entre tantas moças de Nazaré, elegeu para si Maria, Virgem concebida sem pecado. Homem privilegiado, levou para sua casa Maria, a mais bela entre todas as mulheres. Quantas vezes não se quedou em êxtase contemplando essa mulher única que gerou o próprio Jesus, o Senhor do mundo! Na sua humildade, aceitou ser o pai de criação dele. Um gesto generoso numa sociedade patriarcal como a judia.

A Bíblia não nos transmite nenhuma palavra de José, nem uma exclamação sequer. O Patriarca do silêncio! Silenciosamente levou Maria para sua casa, em silêncio viajou até Belém, onde ajudou no nascimento de Jesus. Oito dias depois, ouvindo a esposa, dá ao menino o nome de “Jesus”, que significa “Deus salva”. Na sua humildade, recebe a visita dos Reis magos que, do Oriente, vieram adorar e render homenagens à criança recém-nascida.

No devido tempo, junto com Maria leva a criança ao Templo de Jerusalém para apresentá-la ao Senhor. Em silêncio escuta a profetiza Ana, as profecias do velho Simeão que, cheio de alegria, afirmou que já podia morrer em paz, pois seus olhos tinham visto o Salvador (Lc 2,21-38). Diz Lucas que José e Maria escutavam em silêncio as coisas que se falavam do Menino. Tão humildes e pobres, não podiam entender o que estava acontecendo.

O caminho da cruz teve início cedo: roído pelo medo de que Jesus fosse seu concorrente, Herodes mandou matá-lo. Um rei com medo de uma criança pobre! Em plena noite, a família de Nazaré foge para o Egito. Largando tudo, a viagem difícil para uma terra estranha, para o desterro.

Passado o perigo, retornou com a família para Nazaré, onde garantiu o sustento de Maria e de Jesus. Pai feliz, viu o menino crescer em sabedoria e graça. Todos os anos iam em peregrinação a Jerusalém, para a festa da Páscoa. A alegria da viagem, da festa, a preocupação com a criança. Apesar de todos os cuidados, o menino se extraviou da comitiva. Tinha 12 anos. Com preocupação o procuraram em todos os grupos. Nada. O jeito foi voltar à Capital. E, surpresa, Jesus estava no Templo e, mais ainda, discutia com velhos doutores. Maria fala, José cala. Certamente levou um susto quando o adolescente declarou que deve ocupar-se das coisas de seu Pai (Lc 2,41-52). Não era ele o pai!? José não fala. Guarda tudo no silêncio do seu coração.

José e o Menino – Dony Macmanus

Depois, a vida pacata em Nazaré: trabalhos na oficina, alguma plantação, o cuidado da Família. Nada mais se comenta de José. Mergulha no silêncio do mistério de Deus que se revela no Jesus que tinha visto nascer, crescer, tornar-se homem. O crescimento da Salvação da história acontece na solidão de Nazaré.

Quando tudo terminou na dor da Cruz, lá não estava mais José. Jesus entrega sua Mãe a João. Se José estivesse vivo, não a confiaria a um estranho. Com pouco mais de 50 anos, José morre nos braços do Filho e amparado pela esposa. Quanta felicidade a desse homem, fechar os olhos entre o Filho de Deus e a Mãe de Deus! Morre o último Patriarca do Antigo Testamento, deixando como testamento pessoal a colaboração eficaz e insubstituível de ter sido o pai adotivo do Senhor dos senhores e esposo da Rainha de todas as rainhas, Jesus e Maria.

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MOISÉS, O AMIGO DE DEUS

Moisés desce o Monte Sinai. Escultura em Madeira feita por Curt E. Teichmann - Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, Itajaí, SC.

Moisés desce o Monte Sinai. Escultura em Madeira feita por Curt E. Teichmann – Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, Itajaí, SC.

No dia 4 de setembro, tanto o calendário maronita como o ortodoxo e greco-católico celebram Moisés, a quem a Torá se refere como “amigo de Deus”. Quando, de modo particular refletimos a Palavra de Deus, faz bem recordar a figura central da Antiga Aliança, Moisés, a quem a Torá se refere como “amigo de Deus”. É nos montes que se revela sua amizade e intimidade com Deus, é lá que Deus se revela face a face. É nos montes Horeb, Sinai, Rafidim, Nebo que os dois amigos trocam confidências e falam de si e do Povo eleito. Viveu no século XIII AC e morreu antes de entrar na Terra da Promessa. Na Transfiguração do Senhor é ele e Elias que ladeiam Jesus, confirmando-o como o novo Moisés e o novo Profeta. Pela mão do Senhor ele deu ao povo pão e água no deserto: Jesus, o novo Moisés é a Água viva e o Pão da vida.

A missão divina de libertação do povo

Criado no palácio do faraó do Egito, Moisés se revolta com o sofrimento de seu povo. Num primeiro momento, age sem credenciais: matando opressores egípcios julga que, por ser do palácio do faraó, o povo o seguiria numa revolta pela libertação (cf. 2, 11-14). Teve de fugir para Madiã, onde se casou e tornou-se pastor de ovelhas.

Num dia subiu o Horeb e ali viu uma sarça em chamas, mas que não se consumia. Moisés quis se aproximar para ver a maravilha, mas a voz do Senhor clamou: “Moisés, não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos pés, porque este lugar é sagrado. Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó. … Eu vi a opressão de meu povo, ouvi o grito de aflição dele. Vai! Eu te envio ao faraó para que faças sair o meu povo do Egito!” (cf. Ex 3, 1-14). Nessa teofania Moisés tem a experiência do Deus vivo: ele é a frágil sarça tomada pelo fogo divino, que o queima, mas não o destrói. Deus assume sua fragilidade fortalecendo-o e lhe revela que está com ele: “Eu sou aquele que é, que está sempre presente”.

Agora, sim, recebe as credenciais, e Deus o conduzirá com o povo. Quando resolve voltar ao Egito, Moisés sente-se impotente e tem a tentação de desistir. Deus vai-lhe ao encontro e ameaça matá-lo (Ex 4,12). Texto estranho, mas que lembra a luta de Deus com Jacó: a luta com Deus o fortalece e lhe demonstra que essa luta é mais difícil do que todas as outras: quem poderá resistir ao Deus vivo? É a noite do espírito dos místicos.

Moisés, libertador e intercessor

Após atravessar o Mar Vermelho, Moisés canta, grato e exultante: “Minha força e meu canto é o Senhor, ele me salvou” (Ex 15,2). Moisés sempre mais se sente instrumento de Deus. Antes confortara o povo, garantindo-lhe que o Senhor o salvaria, combateria por ele. Podiam agora caminhar tranqüilos.

Quando o povo, faminto, bate continuamente à tenda, reclamando da falta de comida, Deus se irou. Moisés reclamou: “Por que tratas assim o teu servo? Acaso fui eu quem concebeu e deu à luz este povo, para que me digas: ‘carrega-o ao colo, como se fosse uma babá a levar uma criança…?’” (Nm 11, 11-12). E Deus assumiu sua responsabilidade e alimentou o povo com o maná e as codornizes.

Na guerra contra os amalecitas, em Rafidim, enquanto os soldados lutavam, Moisés subiu ao topo da colina e ficou de braços erguidos, invocando a proteção do Senhor. Era o orante.  Enquanto os braços estavam erguidos, Israel vencia. Como se cansasse, um homem de cada lado sustentava-lhe os braços até o por do sol, quando Israel venceu (cf. Ex 17, 8-16).

No monte Sinai recebe a Aliança. Ao descer, a decepção com o povo adorando um bezerro de ouro. Após um pecado tão grave, Deus se revela a Moisés como bondade, ternura, misericórdia: “Deus de ternura e de piedade, lento para a cólera, rico em amor e fidelidade; que guarda o seu amor a milhares, tolera a falta, a transgressão e o pecado” (cf. Ex 33, 6-7). Moisés imediatamente caiu de joelhos por terra e o adorou: “Senhor, se agora encontrei graça aos teus olhos, segue em nosso meio, conosco, mesmo que esse povo seja de cabeça dura. Perdoa as nossas faltas e os nossos pecados, e torna-nos a tua herança” (Ex 33, 9).

Quando Moisés desceu do Sinai, onde contemplara a glória do Senhor, sua face resplandecia a tal ponto que não era possível olhá-lo. Então cobria o rosto com um véu, que somente retirava diante do Senhor (cf. Ex 34, 19-35). Quem contempla o Senhor participa de sua luz, tem a face transfigurada.

A morte de Moisés

Moisés não entrou na Terra da Promessa. A obra é divina, não humana. Seu testamento espiritual, após realizar a missão de libertar, orientar e salvar o povo de Israel é um hino de bênção e de amor ao povo: “Feliz és tu, Israel! Quem é semelhante a ti, povo salvo pelo Senhor?” (Dt 33,29). Feliz, Moisés demonstra todo o amor pelo povo que o consumira, mas que era o Povo do Senhor.

A Torá se fecha com a narração de sua morte: “Moisés, servo do Senhor, morreu no monte Nebo, na terra de Moab, conforme o Senhor havia dito. E ele o enterrou no vale, na terra de Moab. Nunca mais surgiu em Israel profeta semelhante a Moisés, com quem o Senhor tratasse face a face, como um homem fala com um amigo” (Dt 34, 5.10).

Carinhoso com seu amigo, Deus cavou a sepultura e nela o depositou; e escondeu-a de modo que ninguém sabe onde está. O poeta alemão R. M. Rilke assim descreve a encantadora cena: “Então, lentamente, o velho Deus inclinou a velha face sobre o velho Moisés e com um beijo o trouxe para sua idade, eterna. E com a mão que criou o mundo recompôs o monte que escavara, deixando-o como os outros montes da terra, recriado, não mais reconhecível a nenhum homem” (A morte de Moisés).

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PAULO, OU A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ

A  comunidade cristã de Roma tinha sido fundada por judeus que aderiram a Cristo, os judeu-cristãos. Era tendência desses cristãos julgar que, para aceitar Cristo, seria necessário vincular-se à Lei da Antiga Aliança com os seus preceitos de circuncisão, guarda do sábado, abluções, alimentos puros e impuros. Isso constrangia os pagãos que queriam aceitar Cristo como seu Senhor, mas não queriam ser judeus.

Surgiu o conflito entre a Lei e a Graça, entre a salvação pela Lei e a salvação pela Fé, tema esse que levou ao primeiro Concílio em Jerusalém.

Apóstolo Paulo

A experiência pessoal de Paulo era muito clara: judeu fervoroso, do grupo dos fariseus, ele perseguia os cristãos e odiava o Cristo. Ora, se bastasse a Lei para a salvação, estaria salvo com toda a tranqüilidade, pois era um judeu correto, zeloso da tradição dos Pais. Mas, o Senhor o buscou e o transformou por Graça, não pela Lei. No caminho de Damasco não lhe foi confirmado continuar a ser fariseu, mas a aceitar a salvação pela invocação do Nome de Jesus. Merecimento de Paulo? Não. Tudo obra da Graça, da gratuidade do amor de Deus revelado em Jesus morto e ressuscitado.

Paulo não abandonou a vivência das tradições da lei mosaica, mas defendeu com todo o vigor que elas não salvavam e que os pagãos que aceitassem Cristo não deveriam ser judaizados, distinguindo entre povo e nação. Sofreu muito por isso: foi chamado de traidor de seu povo num momento difícil da história de Israel, foi apedrejado, difamado, muitas vezes, até pelos cristãos oriundos do judaísmo. Ao chegar a uma cidade, Paulo primeiramente se dirigia à sinagoga, para pregar o Evangelho a seus irmãos judeus. Sempre escorraçado, passou a anunciar Cristo aos pagãos, definitivamente libertando o Cristianismo do nacionalismo judeu.

Escutando que os cristãos de Roma exigiam que os pagãos aceitassem a Lei de Moisés, Paulo escreve-lhes uma Carta pelo ano 57/58, a Carta aos Romanos, um dos textos centrais da fé cristã. A preocupação do Apóstolo é grave: se a Lei mosaica é necessária para a salvação, então o Cristianismo não é necessário. Basta ser bom judeu.

Escreve: “Nele (o Evangelho) se revela a justiça de Deus, que vem pela fé e conduz à fé, como está escrito: ‘O justo viverá pela fé’” (Rom 1, 17). Comentando as três palavras: Evangelho (o Senhor morto e ressuscitado), Justiça (Deus justo que nos faz justos, mesmo sendo nós merecedores de castigo) e (crer no Senhor Jesus, aceitá-lo com Salvador, receber os frutos nascidos da Cruz/Ressurreição e entregar-lhe nossa existência).

Ser cristão não é ser bem comportado (bastaria a lei humana), não é obedecer a Deus como se obedece a um Rei (bastaria um poder punitivo). Ser cristão é entregar a vida, confiantemente, não a um código de conduta, mas a uma Pessoa, o Filho de Deus. Fruto dessa entrega é o amor do Pai que nos chama também de filhos, filhos-no-Filho. Para os que pregam Jesus como modelo de vida e fonte de leis, reafirmaria: O Justo vive pela fé. Somos justos porque Jesus realiza em nós essa obra, por pura Graça, a Graça da Cruz.

Paulo quis que os judeus retomassem as Escrituras, pois eles têm a Lei, mas o que os salva é a Promessa feita a Abraão. A lei serve para conhecer o pecado, não para salvar. Pagãos e judeus têm dívida universal com Deus e são justificados pela fé.

Então, para que servem as obras? É muito claro: uma boa árvore produz bons frutos. Se pela fé aceitamos Jesus como nosso Senhor, nossas boas obras são conseqüência dela. Quem faz de Jesus seu Senhor, vive em Jesus, vive as Bem-aventuranças.

Paulo nunca cedeu na doutrina da Graça. Alguns historiadores atribuem sua condenação à morte não aos pagãos romanos, mas aos judeus que o viam como traidor ou talvez, pior, denunciado pelos judeu-cristãos. Paulo derramou seu sangue com alegria, pois nenhuma dor ou alegria poderiam ser superiores ao conhecimento do amor pessoal de Cristo por ele. E hoje, por nós.

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Paulo, Apóstolo do Crucificado e Ressuscitado

«Saulo, entretanto, respirava ameaças de morte
contra os discípulos do Senhor»
(At 9,1)

S. Paulo (por Marco Zoppo - séc. XV)

S. Paulo (por Marco Zoppo – séc. XV)

Uns 10 anos mais jovem do que Jesus de Nazaré, Saulo nascera em Tarso (hoje Turquia), cidade romana, rica e culta. Filho de pais fariseus, cresceu recordando Jerusalém, cidade santa, morada do Senhor. Para lá se dirigiu, ainda jovem, aos pés de Gamaliel, a fim de tornar-se doutor da Lei. Mais claro ainda lhe ficou que Deus escolhera um povo, o seu, para revelar o mistério da salvação.

O pobrezinho da Galiléia, que anos atrás subira o Calvário carregando uma cruz, bem merecida por suas blasfêmias, não lhe chamara a atenção. Jesus tinha sido um personagem marginal da capital de Israel e a morte, de acordo com a Lei, foi merecida e justa. Não era estranho ao mundo judeu o multiplicar-se de seitas. O judaísmo convivia com todas, desde que se fosse fiel aos preceitos da Lei. Os galileus eram mais um desses grupos, pensava.

E é tomado pelo horror o jovem doutor e teólogo Saulo: ficou sabendo explicavam as Escrituras a não judeus que, ao se converterem, não aderiam aos preceitos mosaicos. Sua ira cresceu mais ainda ao escutar que o grupo de judeus, adeptos de um certo Caminho, aceitava a Lei, sim, mas esperava a salvação não dela, mas de um certo Senhor, aquele coitado Galileu que fora morrera crucificado há uns três anos e do qual anunciavam a ressurreição, e sob cuja invocação completava-se o mistério da Revelação. Saulo treme até o mais profundo de seu ser: onde ficam as Escrituras, as Promessas, os Profetas, a Lei? Era preciso agir com mão forte e com as armas. Tem-se fundadas suspeitas de que Saulo, além de fariseu era também zelota, aquele grupo de judeus que aceitavam a luta armada para a defesa da Lei e do Povo. Saulo vibra quando Estevão é apedrejado: ele invocava como Senhor o Ressuscitado de Jerusalém. Nada mais justo do que o apedrejamento. Enquanto Estevão é morto, Saulo lhe segura as vestes. A Lei foi desagravada.

Mas, a situação piorara. O grupo dos seguidores de Jesus tinha fundado uma Igreja, uma nova comunidade religiosa onde, ao lado da observância da Lei, praticavam-se outros ritos, celebrava-se uma Ceia de ação de graças nos sábados à noite e domingo de manhã, freqüentavam o Templo, a Sinagoga, mas se reuniam para comentar e viver os ensinamentos e a vida do Ressuscitado da Galiléia. A Torá era explicada a partir da Pessoa dele. A coisa piorava: também em Damasco se fundara uma Igreja semelhante.

“Saulo apresentou-se ao sumo sacerdote e pediu-lhe cartas de recomendação para as sinagogas de Damasco, a fim de trazer presos para Jerusalém os homens e mulheres que encontrasse, adeptos do Caminho” (At 9, 1-2). Recebera poder de convencê-los a retornarem à Lei mesmo ao preço da tortura. E Saulo segue no caminho para Damasco. Deixou para trás Jerusalém, a cidade de Deus, a cidade do Monte Sião. Saulo cavalga rápido. Nada pode ser anteposto à vontade de Deus, para ele razão da existência, força para seu povo. Já estava perto de Damasco e…«de repente viu-se cercado por uma luz que vinha do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saul, Saul, por que me persegues? Saulo perguntou: Quem és tu, Senhor? A voz respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu estás perseguindo. Agora, levanta-te, entra na cidade, e ali te será dito o que deves fazer» (At 9, 3-6).

Levantando-se, Saulo estava cego. O Senhor tirou dele todas as seguranças, toda a clareza da visão religiosa. Não para iludi-lo, mas para que, ao recuperar a visão, tivesse outros olhos, enxergasse a Lei de Deus além dos limites de uma cultura e a fixasse numa nova Lei, realizada plenamente pelo pobre da Galiléia. Saulo foi envolvido por ele, por sua voz, pela pergunta “por quê?”. E a revelação da identidade: «Eu sou Jesus, a quem tu persegues». Saulo sentiu então que não perseguia um grupo, uma Igreja, não defendia uma Lei, um Templo: perseguia o Senhor!

Em Tarso, Ananias o introduziu na vida do Senhor. Duas palavras a identificavam: Cruz e Ressurreição. O Homem crucificado era o Ressuscitado. Era judeu, e era o Senhor, o único Senhor, de quem falaram a Lei e os Profetas. Saulo pede o Batismo: a água penetrada pelo Espírito Santo lava seus olhos. Saulo vê de novo, e vê o novo: a salvação é oferecida a seu Povo, a quem sempre amou e amará, mas também a todos os povos. Deus salva não pela Lei, mas pela fé confiante numa Pessoa, o Senhor. Não há outra escolha: é preciso que todos saibam disso, primeiro os judeus, depois os pagãos. E Saulo não teve mais descanso. O Saulo judeu revela-se também o Paulo cidadão romano. O homem de Tarso foi transfigurado pelo Homem de Nazaré. Não há mais paz na história humana: todos merecem conhecer o Crucificado que ressuscitou e dá a ressurreição.

Uns 20 anos depois, Paulo está em Roma, prisioneiro. Vê as correntes da prisão como correntes de amor que o amarram ao seu Senhor. O algoz o decapita. A cabeça cai em solo romano, o sangue penetra terra pagã e, através dela, toda a criação é fecundada com o sangue apostólico, como no Calvário o fora pelo Sangue Redentor. O doutor de Jerusalém inaugurou uma nova fase do Caminho, onde não há escolha melhor do que a única: «anunciarmos a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, nossa Redenção e Vida, nossa esperança de Ressurreição».

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