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MARIA, MÃE DE DEUS E NOSSA, NA FÉ CRISTÃ

Maria com o Menino - Mosteiro de São Bento de Aniane - França - século IX

Tudo o que se afirma de Maria tem como causa única Jesus Cristo, nela encarnado por obra do Espírito Santo. As afirmações da fé cristã sobre Maria não são invenções da piedade cristã, mas conseqüência do mistério da Encarnação, donde elas brotam. Seu início é a resposta dada ao Arcanjo Gabriel “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38) e, depois, se prolonga nas Bodas de Caná, “Façam tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Maria acolhe a salvação pela obediência, pela fidelidade e pelo contínuo indicar onde está o Caminho. Nosso amor por ela segue o mesmo espírito.

Podemos dizer que, em Maria, repousou por nove meses todo o projeto divino em relação à humanidade: é a Arca da Aliança, a Escada, a Porta do Céu. Dando carne e sangue ao Filho eterno de Deus, ela uniu indissoluvelmente as naturezas humana e a divina no Cristo Senhor. Maria é o mais belo hino de ação de graças que a criação consegue oferecer a Deus: nela, humilde criatura, se oculta o mistério trinitário do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Se os textos dos Evangelhos nos descrevem, talvez, menos de três anos da vida do Senhor, Maria contemplou-o mais de 30 anos, desde o berço até a Ascensão. Abraçando-o com ternura, seu coração pulsava no ritmo do coração do Filho. O que para nós é graça que vem da fé, para Maria foi contemplação real. Seu coração guardou cada passo do Homem-Deus, a infância, a adolescência, o ingresso na vida adulta, os gestos e as palavras. É divino mistério o mistério de sua vida em Nazaré, nas festas em Jerusalém, nas visitas aos povoados à beira do lago de Tiberíades. A humilde serva do Senhor contemplou com os olhos e o coração a ação de Deus Pai em seu Filho. A casa de Maria e José era a Casa de Deus.

Os dogmas marianos

A palavra dogma significa conteúdo de fé, mas não expressa toda a realidade, pois os mistérios são insondáveis: quanto mais conhecemos, mais falta conhecer. A verdade é uma fonte que nunca se esgota: quanto mais bebemos, mais aumenta a sede e maior é a água que dela jorra. Não é porque a Igreja formula um dogma que ele expressa a verdade e sim, porque é verdade, a Igreja o proclama como dogma de fé. Podemos dizer que o dogma afirma o máximo que a inteligência e a fé humanas, iluminadas pelo Espírito Santo, podem dizer a respeito de uma verdade e, ao mesmo tempo, expressa o mínimo que se deve afirmar.

Com essa introdução queremos falar dos quatro dogmas marianos: sua Imaculada Conceição, a Maternidade divina de Maria, a Virgindade perpétua e sua Assunção ao céu.

Imaculada conceição de Maria: a primeira Eva, no Paraíso, foi criada sem pecado, mas não resistiu à tentação e rejeitou a Deus. Maria é a Nova Eva, com ela Deus restaura a criação por obra de seu Filho Jesus. Em previsão de sua Maternidade divina, quis Deus que Maria fosse preservada do pecado desde o ventre de sua mãe, Ana. E Maria respondeu a essa graça nunca pecando, sendo a vontade de Deus a sua vontade, como respondeu ao Arcanjo Gabriel, na Anunciação. O mais importante não é que Maria tenha nascido sem pecado, mas que tenha vivido sem pecado, razão pela qual o Anjo a chama de “cheia de Graça”.

Maternidade divina de Maria: Maria recebe o título de Mãe de Deus porque o Filho eterno de Deus dela recebeu a natureza humana. Jesus é Deus e Homem verdadeiro, não se podendo separar a divindade da humanidade. Por isso, cabe a Maria o título de Mãe de Deus. Negando-lhe esse título, estaríamos negando a divindade de Jesus, o Filho de Deus, ou o estaríamos dividindo em duas partes, uma divina e outra, humana.

Virgindade perpétua de Maria: ao contemplarmos o ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e tantos outros, percebemos na imagem de Maria três estrelas: uma na fronte e uma em cada ombro. Com esse símbolo a Igreja afirma que Maria é Virgem antes, durante e depois do parto. Maria não concebe de José, mas por obra do Espírito. O significado mais profundo desse dogma é que Maria teve o coração unido a Deus, sem divisões. Seu amor foi virgem na fidelidade contínua e perpétua a Deus nosso Senhor. Nenhuma infidelidade ao amor divino tocou seu coração imaculado.

Assunção de Maria aos céus: terminados os dias de sua vida terrena, Maria foi levada (assunta) aos céus. Aquela que foi preservada do pecado, sempre virgem, Mãe de Deus, teve o privilégio de ser glorificada após a vida terrena. Seu corpo, do qual se formou a natureza humana de Cristo, ficou incorruptível e logo foi transfigurado na glória da Santíssima Trindade.

Maria, nosso caminho de fé

Os dogmas são alimento de espiritualidade, e não afirmações para nosso deleite intelectual. Eles agem em nossa vida cristã.

Os dogmas marianos propõem-nos um caminho mariano: o que Deus realizou em sua pobre serva, realizará também em nós, pobres servos. Tudo por graça.

Imaculados pelo batismo – Nós nascemos no pecado, mas, pelo batismo, nos tornamos imaculados, recriados pela graça divina. Quando pecamos, peçamos logo o perdão e nosso coração se torna imaculado. Através da Eucaristia somos continuamente divinizados pelo alimento divino recebido.

Construir a maternidade – Nossa natureza humana foi santificada na natureza humana de Jesus. Por isso é sagrada. Na glória eterna da Santíssima Trindade estamos incluídos na natureza glorificada do Senhor. Na Eucaristia recebemos o Cristo Deus e Homem. Maria gerou o Senhor. Nossa vida, nossa palavra e testemunho podem gerar filhos para Deus, reconciliar os que estão dispersos: temos a graça de ser pai/mãe de novos filhos de Deus.

Virgindade renovada – Deus é fiel a nós, sempre, e nós somos infiéis a seu amor. Estamos divididos pelo pecado, pela fragilidade, pela tentação, por falsos amores, pelo medo da morte. Busquemos a virgindade espiritual, a fidelidade contínua ao Senhor. Pelo Batismo, pelo perdão e pela Eucaristia Deus nos oferece também o dom da virgindade. A cada dia podemos readquiri-la. Mesmo prostituídos, a graça recupera nossa virgindade, tira de nosso coração as divisões.

Nossa assunção aos céus – Maria foi a primeira criatura glorificada em corpo e alma. Igualmente, nós temos a graça de podermos ser glorificados no céu, junto de Deus. Deus nos dará um novo corpo, transfigurado, pois nossa primeira natureza retorna ao pó. Desejemos ardentemente o encontro final com Deus. E Maria intercede continuamente por nós para que sejamos de Deus. Como as primeiras comunidades, peçamos sempre: Vem, Senhor Jesus!

Pe. José Artulino Besen

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ASSUNÇÃO DA SILENCIOSA MÃE DO REDENTOR

Maria, silenciosa Mãe do Redentor – Mosteiro de Olinda PE

É de São Boaventura, teólogo, filósofo e santo a afirmação “De Maria nunquam satis”, que bem pode ser traduzida por “De Maria ainda não se falou bastante” (outros preferem “de Maria nunca se falará demais”). Por mais que os santos e o povo amem a Mãe de Jesus, nela venerem a obra prima da criação, nunca se falará o suficiente dessa humilde jovem e mulher de Nazaré, pois nela reside e se esconde o mistério da Salvação. Ao proclamarmos Maria Mãe de Deus porque Mãe do Filho de Deus, estamos mergulhando no mistério do Deus Uno e Trino, buscamos água num poço que nunca termina de manar água cristalina. Tão grande é o mistério dessa mulher que a nós mortais, conhecedores da fragilidade humana, é mais fácil dizer que dela já se falou que chega, que o importante é falar de Cristo, pois somente Ele salva.

Evidente: somente Cristo salva. E é isso o que se fortalece em nosso espírito ao falarmos do Salvador nascido de Maria. Ele é a ponte, o Pontífice, que possibilita nossa comunicação com Deus, e essa ponte é feita de divindade e de humanidade. Coube a Maria gerar o humano que se uniu ao divino, e graças à sua maternidade o Filho de Deus é Deus e Homem verdadeiro.

Em outras épocas se afirmava Maria como “inimiga de todas as heresias”: parece exagero, mas como não ser isso verdade se todas as heresias cristãs têm origem ou na negação de Jesus Homem verdadeiro ou na negação de Jesus Deus verdadeiro? Quando proclamamos Maria Mãe de Deus – a Theotókos – estamos libertando o Cristianismo de toda heresia cristológica: as que afirmam Jesus não ser humano e as que negam sua divindade. Estamos fincando nossa fé no solo firme da redenção em Cristo.

Se de Cristo nunca se falará o suficiente, também de Maria não se falou ou falará.

 Silenciosa Mãe do Redentor

Na sua humildade, Maria nunca revelou o segredo de seu Filho e da maternidade divina. Mesmo suportando a humilhação sua e de seu Filho, nunca anunciou o mistério que dela brotou e nela se formou. Não tomou como afirmação pessoal proclamar que Deus a fizera Mãe do Altíssimo, do Filho de Deus.

Mãe silenciosa: ela guardava tudo em seu coração. Tanto por não querer revelar seu segredo, quanto por querer compreender melhor o segredo que de Deus recebera. Era humildade e também sabedoria, sabia de sua pequenez e de sua grandeza. Ninguém mais precisaria saber, pois o único importante era fazer tudo o que o Filho dissesse (cf. Jo 2,5).

A maternidade divina é por ela tão ocultada que os Evangelhos têm pudor em citá-la. Paulo apenas fala de “mulher” (Gl 4,4) que completou em si a plenitude dos tempos trazendo-nos o Filho eterno que ingressou no tempo pelo ventre de Maria, a todos dando-nos a dignidade de filhos de Deus.

No encontro com a prima Isabel, que lhe fala que João pulara no ventre ao sentir a presença do Filho nela, e por revelação agradece a visita da “Mãe do meu Senhor”, Maria esconde seu mistério proclamando a bondade de Deus que olhou para sua humilhação. E serve sua prima aquela que carrega o Senhor de todos.

Maria recebera um segredo de Deus Pai. Deus Pai reservou um segredo a Maria: sua carne não conheceria a corrupção de pecado que não cometera. O Filho reservara para sua Mãe o segredo da vida eterna, da qual participaria como primeira entre os mortais.

A carne que formara a Carne do Redentor foi transfigurada e assunta aos céus.

 Nós não guardamos esse segredo

Se Maria, com pudor, guardou o segredo de sua maternidade divina, a Igreja não conseguiu fazer o mesmo: desde o Pentecostes ela se dirige amorosamente à Mulher de Nazaré que lhe deu a existência de tão grande Redentor. De modo particular a Liturgia, que é a Teologia em oração, expressa o privilégio de Maria assunta ao céu. Vem do século IV a solenidade da Assunção festejada em 15 de agosto.

A Liturgia ortodoxa encerra o ano litúrgico celebrando a Assunção e proclama: “Deus, Rei do universo, concedeu-vos privilégios que superam a natureza; assim como no parto vos conservou a virgindade, assim no sepulcro vos preservou o corpo da corrupção e o conglorificou pela divina translação”.

No final do século VIII, o rei Carlos Magno recebe do papa Adriano I um Sacramentário em que, referindo-se à Assunção, louva: “É digna de veneração, Senhor, a festividade deste dia, em que a santa Mãe de Deus sofreu a morte temporal; mas não pôde ficar presa com as algemas da morte aquela que gerou no seu seio o Verbo de Deus encarnado, vosso Filho, nosso Senhor”.

A Assunção da Mãe de Deus foi a grande devoção do Pe. José de Anchieta. Junto com a Festa da Imaculada Conceição, a Assunção foi e é a grande alegria do povo católico latino-americano.

No dia 1º de novembro de 1950, Festa de Todos os Santos, na presença de bispos de todo o mundo, o papa Pio XII proclamou com a Igreja e inspirado pelo Espírito Santo: “pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste”.

Apesar de tanta claridade, continuamos pedindo ainda mais luz para penetrarmos o mistério daquela que saudamos como Estrela do mar, Mãe silenciosa do Redentor, sempre virgem e porta do céu.

Pe. José Artulino Besen

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DUAS MULHERES, DOIS CAMINHOS

"Arbe de vie et mort" - de um manuscrito alemão medieval datado aproximadamente de 1481 e autoria de Berthold Furtmeyr. Nele vemos a Árvore da Vida e da Morte. A Virgem e Eva encontram-se em lados opostos à árvore e, nas folhas acima de Maria, um crucifixo e acima de Eva, um crânio que simboliza a morte. A serpente está enrolada em volta do tronco da árvore. Tem aparência elegante e, ao mesmo tempo, sinistra.

«Eis aqui a serva do Senhor,
faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38).

Com sua decisão, duas mulheres marcaram o destino da humanidade: Eva e Maria. Duas mulheres, dois caminhos. Sua decisão continua a ser proposta ao ser humano no momento de definir seu destino pessoal.

Uma, Eva, foi criada sem pecado. Outra, Maria, concebida sem pecado. A primeira simbolizou o sonho do Criador para seus filhos. A segunda, recuperou este sonho. Ambas foram colocadas diante de Deus. Eva respondeu: Eu quero ser como Deus! (cf. Gn 1,1-6). E Maria: Eis aqui a serva do Senhor! (cf. Lc 1,26-31) A primeira inaugurou a história da morte. A segunda, recuperou a história da vida.

O caminho que Eva escolheu trouxe a morte, o fratricídio, as divisões, a guerra, a fome. O caminho de Maria conduz à vida, à santidade, à fraternidade, à união, à paz, à alegria.

Eva caiu na ilusão de que a criatura pode viver sem o Criador. Maria descobriu que somente em Deus podemos ser verdadeiramente humanos.

Querendo ser como Deus para nunca morrer, Eva trouxe a morte.

Querendo servir a Deus para viver em Deus, Maria venceu a morte.

A história dessas duas mulheres é exemplar para todos. A cada dia também nós somos colocados diante de Deus para darmos nossa resposta pessoal ao encaminhamento que daremos à nossa existência. Às vezes criticamos Eva por seu egoísmo, e nos esquecemos que com freqüência fazemos a mesma coisa: também queremos ser como Deus, viver como se Deus não existisse.

Não podemos prosseguir sem essa resposta, nem há uma terceira resposta possível. Podemos responder eu quero viver como se eu fosse Deus, ou sou servo do Senhor, luz do meu caminho. Está à nossa frente a história de Eva e a história de Maria. A morte ou a vida. A guerra ou a paz. A esperança ou o desespero. Luz ou trevas. A história de Adão e Eva ou a história de Maria e de Jesus.

Nem sempre damos esta resposta conscientemente, mas nossas atitudes são indicativas. Ou nosso estilo de vida a revela nossas opções fundamentais.

Cada pessoa vive do jeito que gosta, mas depois reclama dos efeitos de seu gosto. Há daqueles cuja vida é uma sucessão de tristezas, vinganças, intrigas, egoísmo. E caem na depressão, não vendo mais gosto na vida. Parece-lhes que todos os caminhos estão fechados quando, na verdade, eles os fecharam.

Há casais que se dão o direito das discussões gratuitas, das palavras ofensivas, e depois lamentam dolorosamente a separação não esperada, mas preparada ao longo do tempo.

Uma vida sem Deus é uma vida nas trevas, pois Deus é luz. Inicialmente pode-se ter a ilusão do bem-estar, como o dependente de alguma droga: tudo parece claro, tudo traz prazer. Depois, porém, vem a angústia, a destruição da personalidade, a morte.

Há aqueles que encontraram a paz. Não ficaram livres dos problemas que são vistos como desafios e não como destruição da felicidade. Deus é sempre a luz no seu caminho. E conseguem ser luz para quem cruza seu caminho.

Essas duas mulheres, Eva e Maria, estarão colocadas diante de cada ser humano até o fim dos tempos. Suas respostas serão as duas únicas possíveis para a história humana, que não poderá mais dizer como Eva: A serpente me enganou!, pois já lhes conhece os frutos. Eva era inexperiente, não conhecia a história da morte, o que não é o nosso caso após o Filho de Deus ter-nos revelado o Caminho, a Verdade e a Vida.

No 8 de dezembro a Liturgia celebra a Imaculada Conceição, a concebida sem pecado. E celebra, de modo intenso, aquela que foi concebida sem pecado, mas livremente escolheu nunca pecar. Sua vida foi SIM a Deus.

Com Maria de Nazaré, façamos nossa escolha pela vida plena: a escolha por Deus.

Pe. José Artulino Besen

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O ROSÁRIO, ORAÇÃO DOS POBRES

O Rosário - A Oração dos Pobres

O Rosário se insere nas múltiplas formas de oração com que os féis renovam permanentemente seu encontro com Cristo. É uma oração cristológica, não mariana: com Maria contempla a vida de Cristo. Ensina-nos a olhar Cristo com o olhar de Maria. É a oração dos pobres, dos anciãos, dos analfabetos, dos doentes, de todos.

O Rosário é uma oração dos pobres e uma oração “pobre”: nem sempre temos ocasião ou possibilidade de acesso à Palavra e à Eucaristia, mas podemos, com profunda fé, expressar nossa pobreza com uma dezena, um Terço, um Rosário. Quem sabe, outros se servem do mesmo Terço do Rosário com todo o proveito e unção repetindo muitas vezes o Nome “Jesus” ou, como fazem os orientais com a Oração do Coração, repetindo noite e dia o Kyrie eleison, Senhor Jesus, piedade. Também nesta pequena fórmula há profissão de fé e louvor (Jesus é o Senhor), o Nome (Jesus), a invocação (piedade).

É a oração dos velhinhos, dos doentes que, dia após dia, desfiando as contas do rosário lembram com afeto a Virgem Maria, passam em recordação os dias de sua vida. Uma oração humilde, silenciosa, que traz a paz. Quantos cristãos, na sua pobreza, seguram um rosário tão velhinho como sua idade. Emociona vê-los, no dia do sepultamento, com o rosário unindo suas mãos. Quantos segredos, quantas graças estão ali simbolizados.

Fruto da ternura gerada pela devoção à Mãe de Jesus, essa forma de oração traz ternura e paz a uma vida cansada, onde não houve muito lugar para meditações teológicas, leituras bíblicas, mas houve sempre lugar para a humilde meditação da vida do Senhor.

João Paulo II escreveu, em 2003, uma Carta Apostólica com o título “O Rosário da Virgem Maria”. Pedia – e pede – a toda a Igreja que contemple a Cristo com os olhos de Maria, que veja o mundo com o olhar da Mãe de Deus. Podemos olhar Cristo e o mundo com muitos olhares: o olhar de Maria, de João, de Paulo, de Pedro, da pecadora, do filho pródigo, de Zaqueu. No Rosário contemplamos Jesus com os olhos de Maria: a Mãe contemplando a infância de Jesus, a vida pública, seu caminho de dor, sua vitória final sobre a morte, o nascimento da Igreja no Pentecostes. E, no final, contemplamos Maria com os olhos de Jesus que eleva sua Mãe ao céu e a coroa de glória.

Não se quer retornar a um marianismo piedoso, água-com-açúcar, mas retornar a Maria para acompanhar, com ela, os passos do Senhor por nossa salvação. João Paulo II, que tinha como lema TOTUS TUUS (Sou todo teu, Maria) afirma: “a escuta da Palavra de Deus torne-se um encontro vital, na antiga e sempre válida tradição da lectio divina, que faz tirar das Santas Escrituras a Palavra viva que interpela, orienta, plasma a existência”. O Rosário nasce das Sagradas Escrituras, pois, através dos mistérios gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos contemplamos a vida de Jesus narrada nos Evangelhos.

O Rosário – uma oração e muitas orações

Toda oração cristã tem dois tempos essenciais, louvor e invocação. Assim também no Rosário que é a repetição da oração da Ave-Maria: na primeira parte da Ave-Maria repete-se a alegria da Encarnação, com a saudação do Anjo (Lc 1,28) e de Isabel (Lc 1,42). No centro, a invocação terna e confiante do Nome Jesus, único Nome pelo qual podemos recebemos salvação. Segue-se, na segunda parte, a invocação para que Maria interceda por nós agora (nosso presente de pobres pecadores) e na hora da morte (a hora do êxodo para o Pai). A oração da Ave-Maria convida-nos a contemplar, com ela, os mistérios da Salvação operada em nossa existência.

O fundamental é que toda a nossa vida espiritual, nossos exercícios de piedade, tenham um único objetivo: o louvor e a súplica Àquele que pode e quer salvar-nos, o Filho de Deus.

A Igreja oferece hoje 20 Mistérios para acompanhar as 20 dezenas. Mas, podemos também recitar o Terço meditando um texto bíblico, uma parábola, meditando nossa vida cristã, contemplando as pessoas que passaram por nossa vida, nos reconciliando com passagens que deixaram marcas dolorosas, e nos alegrando com tantas recordações felizes que a graça de Deus nos proporciona.

Contemplando Jesus em sua vida terrena, Maria meditava continuamente a Palavra de Deus feito Carne. E hoje, com o Rosário, pedimos a Maria que nos empreste seu olhar para contemplarmos, também nós, a vida de seu Filho e meditarmos suas palavras.

Pe. José Artulino Besen

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A ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU

Assunção de Maria aos Céus (Rubens)

A Virgem Maria recebe tem duas celebrações no calendário católico: em 8 de dezembro, a Imaculada Conceição (Maria foi concebida sem pecado no ventre de sua mãe Ana) e, em 15 de agosto, a sua assunção ao céu.

A assunção de Maria significa que, ao terminar sua existência terrena, Maria foi levada ao céu em corpo e alma. Não há sepultura com os restos mortais da Mãe de Jesus: imediatamente após a morte ela foi glorificada. Certamente os Apóstolos que naquele dia estavam em Jerusalém ficaram desolados ao ver morta a Mãe amada do Senhor e que na cruz lhes fora entregue como mãe. Podemos meditar o carinho que os discípulos tinham por essa mulher cheia de graça, de bondade, exemplo de fé total. A tristeza, porém, converteu-se em festa quando viram Maria ser glorificada e ressuscitada.

A morte é conseqüência do pecado e inclui o retorno ao pó donde viemos. Com Maria isso não aconteceu porque ela foi concebida sem pecado e, em toda a sua vida, jamais pecou. Por isso não poderia pagar o preço por algo que não cometera.

Quando o arcanjo Gabriel a visitou para anunciar-lhe que fora escolhida para ser a mãe do Salvador, saudou-a como “cheia de graça”, “bendita entre as mulheres”. Maria era pura graça, pura obediência a Deus, nascera e vivera na total fidelidade à vontade de Deus: “eu sou a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a sua vontade”, respondeu ela a Gabriel. Maria entregara a Deus sua vontade: a vontade de Deus era a vontade dela.

Por causa dessa sua obediência total e por ter gerado o Salvador do mundo, Maria foi a primeira criatura a receber de seu Filho a vida eterna em plenitude, em corpo e alma.

Nossa esperança é a ressurreição

Ao contemplarmos a glória de Maria, devemos nos encher de alegria: também nós queremos e podemos ser glorificados; basta que declaremos a vontade de Deus como nossa vontade, basta que aceitemos ser tocados pela graça do Espírito Santo, ser lavados pela Água viva que jorra do trono de Deus.

Nosso destino não é a tragédia de uma sepultura onde se diz: aqui descansa fulano de tal. Nosso destino é a Casa de Deus na eternidade, nossa casa paterna. O que Maria recebeu logo após a morte, nós também receberemos se seguirmos o mesmo caminho de fidelidade.

A sociedade consumista nos faz pensar que é impossível haver coisa melhor do que a vida terrena e, deste modo, muitos duvidam da eternidade, julgando que nosso endereço final é a sepultura. Chegamos a duvidar da criatividade de Deus, pensando que a vida eterna não pode ser melhor do que essa vidinha que levamos. Deus nos oferece muito mais: oferece a vida divina, a posse dos bens celestes, a libertação dos desejos, do egoísmo, da angústia.

Não é difícil o caminho de Deus: ele mesmo vai à nossa frente. Basta segui-lo com generosidade, e sabendo que não podemos ir sozinhos: nossos irmãos devem ter nossas mãos para conduzi-los. A fraternidade terrestre é condição para a fraternidade celeste.

Festejemos a assunção da Mãe de Deus. E, com Maria, sigamos o caminho de Jesus, aceitemos sua verdade e teremos sua vida.

Pe. José Artulino Besen

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MARIA, A MÃE DE JESUS

 

A Anunciação – Michel Ciry

Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus.
Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus.
Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo
e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi! (Lc 1,26-38)

Maria tinha 14 anos, alguns achando que 13, pois as meninas judias ingressavam na puberdade muito cedo. Vivia em Nazaré, com seus pais Joaquim e Ana. Vida simples de gente simples. Seu sonho era casar, ter filhos, continuar a descendência de Abraão, dar filhos a seu povo. Gostara do jovem José, descendente de Davi. Já tinham contraído noivado.

Num dia, um encontro mudou radicalmente seus planos. Um Anjo lhe aparece e a saúda como cheia de graça, predileta de Deus. Para ter certeza de que não estava sonhando, ficou pensando no significado de tão estranha saudação. O Arcanjo Gabriel pede que não tenha receio de nada, pois seria mãe de um menino que receberia o nome de Jesus, isto é, Salvador, e que seria grande, e rei de um reino eterno.

Maria se lembrou de que era apenas noiva e que ainda não convivia com José. Como seria isso? Gabriel lhe responde que o menino que ela geraria não seria filho de homem, mas Filho de Deus, concebido por obra do Espírito Santo. Jovem de fé, iluminada pelo Espírito, não teve mais dúvidas e aceitou o que não podia ainda entender: Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (cf. Lc 1,26-38).

Maria estava de posse de um segredo guardado entre ela, o Anjo e Deus. Dera um “sim” ao plano de Deus. Quem a compreenderia?

Dotada de um equilíbrio e maturidade surpreendentes, guarda tudo no silêncio de seu coração. Se fosse vaidosa, sairia às ruas, anunciando que um Anjo lhe tinha aparecido, falado com ela pessoalmente, que estava grávida sem ter dormido com o noivo, coisa do Espírito Santo, que seria mãe de um rei poderoso e eterno, e assim por diante. Mas nada de fofoca, nada de vaidades e competições com as moças de Nazaré.

Arruma suas trouxas e apressadamente vai às montanhas, a uma pequena cidade de Judá. O Anjo lhe dissera que a prima Isabel estava no sexto mês. Já de idade avançada, esperando o primeiro filho, precisava de sua ajuda. Sobe às montanhas e lá permanece três meses, até o nascimento de João Batista (cf. Lc 1,39-56).

É hora de voltar para casa. Começam a surgir, discretamente, os primeiros sinais de gravidez. Com profunda dor no coração, Maria pensa em seus pais: como encarariam a filha grávida? Sente a dor de uma espada atravessando o peito quando pensa no querido noivo José, que tinha quase pronta a casa onde a recolheria como esposa.

Pobre do bom José, o mais belo e sério jovem de Nazaré, que a escolhera para ser mãe de seus filhos exatamente por ser bela, séria e madura. E o Filho que ela gerava não era filho de seu noivo. Imaginou o sofrimento de José quando a notícia lhe chegasse aos ouvidos.

Se pudesse esquecer a conversa com o Anjo, dizer-lhe não em vez de sim, sentir a satisfação de que tudo não passara de um engano… Não era mais possível. Um serzinho se formava em seu ventre. Escutava conversas maliciosas. Todos sabiam que era apenas noiva. Um que outro a chamava de adúltera… Conhecia a lei: seria difamada e condenada à morte por apedrejamento. Pobre Maria, tão jovem e diante do drama de explicar o que humanamente não tinha explicação.

Sofria, mas não tinha dúvidas de uma verdade: Deus não vem ao encontro do ser humano para destruí-lo. Conhecia as Escrituras: as promessas que Deus faz sempre serão cumpridas, apesar da demora por vezes angustiante, os prazos dilatados da fidelidade do Deus de seus pais.

A fé não permitia que alimentasse dúvidas sobre o amor de Deus. Oferecera, com seu a sim ao Arcanjo, o caminho de sua existência. Não mais se pertencia. Era toda de Deus, do Senhor fiel às promessas. Ela sabia, e nós sabemos, quando Deus traça os caminhos, o traçado é dele. De nossa parte, basta a confiança, o ato de fé corajoso e generoso.

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MARIA IMACULADA, MÃE DE DEUS

Ícone da Virgem de Vladimir – Séc. XII

Primeiramente a piedade popular e, em seguida, a Liturgia, festejou a Imaculada Conceição de Maria. A humilde invocação de uma jaculatória faz-nos lembrar essa verdade: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”. Na Ladainha Lauretana o gênio cristão sintetizou esse título mariano de modo perfeito em três invocações: Virgem Puríssima, Virgem Santíssima, Virgem Mãe de Deus. Ela é Mãe de Deus porque Puríssima e Santíssima, e é Santíssima por ser a Mãe de Deus.

Quando em meio às controvérsias doutrinais do século V se discutia a divindade do Homem Deus Jesus Cristo, alguns teólogos afirmavam que Cristo Filho de Deus é Deus verdadeiro, mas Jesus Filho de Maria não o seria. A discussão toda tinha um objetivo único: afirmar que aquele homem que viveu em Nazaré e ressuscitou em Jerusalém é Deus verdadeiro. Para preservar a unidade da Igreja, os Bispos da Igreja se reuniram em Éfeso em Concílio Ecumênico, o quarto, no ano 431. Perceberam que em Maria estava o caminho para definir a unidade da humanidade e da divindade em Jesus: se Maria fosse Mãe apenas do Menino de Belém, aquele Menino seria somente humano, e se estaria negando o mistério da Encarnação do Verbo. “Está bem, dizia o Patriarca Nestório: Maria é Mãe de Jesus homem e Deus é Pai de Jesus Deus”. Com isso se dividia a Pessoa de Jesus, nosso Senhor, o que seria blasfemo.

Movidos pelo Espírito Santo, o Pais da Igreja em Éfeso afirmaram a unidade divina e humana de Jesus proclamando Maria Mãe de Deus, a THEOTÓKOS, em língua grega. É a Mãe de Deus porque não se pode dividir em dois o Senhor. Esse título mariano nos faz ingressar na esfera do amor de Deus, onde somente a adoração silenciosa pode expressar a fé e mover à caridade: Maria é Mãe de Deus, é Virgem Filha de seu Filho, é o abismo nos qual se precipitam os verdadeiros adoradores.

A proclamação do dogma da Imaculada Conceição (Maria concebida sem pecado) em 1854, pelo Papa Pio IX, com festa celebrada em oito de dezembro, se insere em toda a reflexão eclesial sobre o mistério de Jesus, Deus de Deus e Luz da Luz. Maria é concebida sem pecado, livre da herança dos filhos de Adão que nascemos com o pecado das origens. Maria inaugura a derrota do antigo Inimigo, Satanás (Gn 3,15).

Talvez essa invocação nos faça perder a grandeza do mistério do amor do Pai por sua Filha predileta, melhor expressada nas três invocações da Ladainha: Virgem Puríssima, Virgem Santíssima, Virgem Mãe de Deus. São João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, meditando sobre Maria afirma: “O nome Theotókos, Mãe de Deus, contém todo o mistério da história da salvação”. Nesse nome está tudo o que dizemos de Cristo e, por conseqüência, tudo o que dizemos da Maria. Ela é a Mulher inimiga da Serpente, a Mulher vestida de Sol, é a Coroa de todos os dogmas: Mãe de Deus, filha de Deus.

Maria não é apenas concebida sem pecado. Ela é puríssima e santíssima. Esse mistério de sua santidade absoluta, que torna virginal todo o seu ser, é fruto do encontro com o Anjo da Anunciação (Lc 1, 26-38): após seu livre “sim”, Maria é totalmente envolvida pelo Espírito Santo. Em sua liberdade, o Espírito Santo a guarda de toda impureza e a torna puríssima e santíssima. O Espírito que personifica a santidade divina concede a Maria personificar a santidade humana: nela é-nos oferecida a santidade divina.

A carne puríssima de Maria dá a carne da natureza humana ao Filho de Deus e João Batista salta de alegria no seio de Isabel quando as duas mulheres se encontram (Lc 1, 39-53).

O Santo que dela nasce é o troféu da humanidade e Maria é o troféu do Santo que gerou. Cada vez que veneramos os belíssimos ícones da Mãe de Deus, como a Virgem de Vladimir, ou do Perpétuo Socorro, entramos no Reino da Beleza onde tudo se resolve no amor salvífico: a Mãe extasiada contempla o Infinito, o Filho carinhosamente acaricia sua Mãe. Tomando o lugar do Filho no colo mariano, ouvimos a palavra de consolo e entrega do Calvário: “Mulher, eis aí teu filho”, “Filho, eis aí tua Mãe”.

Pe. José Artulino Besen

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