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O QUE CRÊEM E VIVEM OS CATÓLICOS

Pedro e Paulo, carisma e instituição – colunas da Igreja de Cristo em Roma

No diálogo ecumênico é fundamental que cada um conheça e viva a fé de sua Igreja ou comunidade religiosa. O diálogo não visa a supressão de artigos da fé, mas sim, cada um se enriquecer a partir do conhecimento do outro. Nasce uma espiritualidade de comunhão, de respeito pela seriedade do outro. “Nós cremos de um modo diverso, mas o que nos une é muito mais forte do que nossas diferenças”.

O diálogo enriquece quem dialoga; se empobrece é dominação, não diálogo.

Quando me perguntaram “o que é ser católico romano?”, resolvi expressar a resposta nesta síntese, ponto de partida para um aprofundamento do tema.

 1 – Origem e desenvolvimento histórico

A Igreja nasce do lado direito do Cristo, donde escorrem Sangue (Eucaristia) e Água (Batismo) – Centro Aletti.

A Igreja nasce do lado direito de Cristo crucificado, donde correm Sangue e Água, o Batismo e a Eucaristia. Gerada aos pés da cruz, se expande pela missão do Espírito Santo no dia de Pentecostes. É o Povo de Deus e o Corpo Místico de Cristo.

O Catolicismo romano, que identifica a Igreja católica apostólica romana, se entende em continuidade com a primitiva comunidade de Jerusalém, desenvolvida pela missão apostólica e tendo como centro a cidade de Roma, onde os apóstolos Pedro e Paulo receberam a palma do martírio e estão sepultados.

O Espírito Santo desperta a fé no Senhor ressuscitado e anima a missão cristã.

Com a “reviravolta constantiniana” de 313, quando o imperador romano Constantino concedeu liberdade aos cristãos e pouco a pouco fez do Cristianismo a religião oficial do Império, a Igreja adquiriu uma fisionomia própria, de caráter organizacional e visível à imagem do Império. Quando a sede do Império foi transferida de Roma para Bizâncio/Constantinopla, em 322, esta cidade assumiu o título de Nova Roma e a Igreja católica romana passou a acentuar duas fisionomias bem definidas: a ocidental católica romana e a oriental, católica ortodoxa. Os dois Patriarcados (Roma e Constantinopla) desenvolveram eclesiologias diferentes: a católica romana centralizada na pessoa do Bispo de Roma, o Papa, e a católica oriental, sinodal (o que se refere à Igreja diocesana nela se decide; a comunhão entre as Igrejas não permite a autoridade de uma sobre outra).

Com as invasões bárbaras dos séculos IV-V e a queda de Roma, o Bispo de Roma e os bispos espalhados pela antiga estrutura geográfica e política do Império ocidental tiveram de assumir o processo de reorganização civil e de proteção aos mais fracos, o que fez com que, além da missão religiosa, assumissem funções administrativas e retomassem a evangelização, pois os bárbaros eram em sua maioria pagãos, ou cristãos arianos. Neste trabalho missionário manifestou-se o perigo, depois real, do sincretismo: o cristianismo católico recebeu fortes influências das culturas germânicas e anglo-saxônicas.

Abandonada pelo Imperador, Roma ficou sob a responsabilidade de seu Bispo, o Papa, que passou a governar um território, os Estados Pontifícios, que terminaram em 1870.

A Santa Sé – além de Pastor da Igreja universal, o Papa é chefe do Estado do Vaticano, incrustado na cidade de Roma, com o território atual (de 49 hectares) definido em 1929 e reconhecido pela comunidade internacional. A origem dos Estados Pontifícios (anexados à Itália em 1870) está ligada às doações do rei franco Pepino o Breve e seus sucessores a partir do século VIII. O Vaticano é reconhecido e mantém relações diplomáticas com 180 países e é membro-observador da ONU. Mesmo com o título de Chefe de Estado, o Papa não exerce mais funções administrativas.

2 – Ênfases teológicas centrais

O conteúdo da Fé católica

1)  Crê como divinamente revelada e inspirada a Sagrada Escritura composta de 73 Livros do Antigo e Novo Testamentos, neles incluídos os Deuterocanônicos, isto é, os Livros do AT escritos em grego.

2)  Professa um só Deus em três Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

3)  Professa que o Filho, Jesus Cristo, na plenitude dos tempos se encarnou na Virgem Maria e é Deus e Homem verdadeiro.

4)  Professa a Fé definida no Credo apostólico e no Niceno-constantinopolitano (proclamados em cada Liturgia dominical e festiva).

5)  Crê que a Tradição expressa a fidelidade ao conteúdo da Escritura através das decisões dogmáticas dos Concílios Ecumênicos (os sete primeiros, da Igreja Una) e Gerais do Ocidente.

6)  Aceita um Magistério (da Igreja local e da Igreja universal) como garantes da reta compreensão do texto revelado e que, nas decisões dogmáticas, possui a assistência que o Senhor prometeu à Igreja através do Espírito Santo.

7)  A Igreja católica romana crê como divinamente revelados Sete Sacramentos: o Batismo e a Eucaristia/Ceia/Missa criados diretamente pelo Senhor e constitutivos da Igreja e os outros cinco derivados de palavras ou gestos dele: Confirmação/Crisma, Penitência/Confissão, Ordem/Sacerdócio, Unção dos Enfermos e Matrimônio (A não se constatar nulidade, o Matrimônio é indissolúvel). A Celebração eucarística, constituída pela Liturgia da Palavra e Liturgia eucarística, é a Celebração do Mistério Pascal, isto é, da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão gloriosa do Senhor, sob a presidência de um bispo ou presbítero.

 3 – Poder e Serviço na Igreja

Todo cristão participa do sacerdócio universal dado pelo Batismo: sacerdócio real (santificar o mundo), profético (anunciar o Evangelho) e ministerial (assumir serviços e carismas eclesiais).

Dentre os cristãos, alguns exercem o sacerdócio sacramental, hierárquico, recebido no sacramento da Ordem e constituído pelos três graus do diaconato, presbiterato e episcopado. O episcopado inclui a sucessão apostólica, pela qual o bispo é ordenado pela imposição das mãos de três outros bispos, como garantia da unidade na Igreja. A Igreja católica reconhece como bispos aqueles que foram ordenados por outro bispo com a imposição das mãos significando a comunicação da graça do Episcopado. Os presbíteros são diocesanos ou religiosos (de uma Ordem ou Congregação).

A Igreja particular (dioceses e arquidioceses) tem como pastor um bispo validamente ordenado e com mandato apostólico (jurisdição conferida pelo Papa). Para o atendimento pastoral, as dioceses se dividem em paróquias e comunidades, confiadas a um padre. Nelas se dá a vivência quotidiana da fé.

A Igreja universal se constitui pela unidade em torno do Papa, Bispo de Roma e sucessor do apóstolo Pedro (assim o Catolicismo entende o mandado do Senhor em Mateus (16, 15-19: Tu és Pedro) em união com todos os bispos, o colégio episcopal. O Papa tem jurisdição direta e imediata sobre todas as Igrejas particulares e sobre todos e cada um dos fiéis e, no exercício de seu ministério, goza pessoalmente de infalibilidade (isto é, inerrância) quando define matéria de fé e de moral e declara explicitamente que pronuncia uma sentença infalível.

Quando ocorre o falecimento de um papa, reúne-se o Conclave – assembléia na qual o novo Papa é eleito por um Colégio atualmente fixado em 120 eleitores, constituído por Cardeais com idade abaixo de 80 anos. Na verdade, o Conclave elege um novo bispo de Roma que, como tal, é o Papa, sucessor de Pedro e Paulo.

Acontecimento decisivo na vida católica do século XX foi o Concílio do Vaticano II (1962-1965), que significou um novo Pentecostes para a Igreja. Convocado e inaugurado por João XXIII (1958-1963), o “Papa Bom”, continuado por Paulo VI (1963-1978), animou a vida eclesial impulsionando a renovação litúrgica, os estudos bíblico-teológicos e o uso da Escritura. O acento colocado na Eclesiologia do Povo de Deus foi ocasião para o rejuvenescimento da participação dos cristãos-leigos na Igreja, desclericalização da pastoral e da evangelização, novo lance missionário. Igreja como comunhão a participação. Outro fruto, de alcance ainda não mensurável, foi a abertura ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso.

 4 – Meios de santificação

Os sete Sacramentos

Os Sacramentais: incluem as bênçãos especiais e outras celebrações.

Culto: a Deus uno e trino unicamente se presta o culto de adoração.

Culto ao Santíssimo Sacramento: a Igreja católica afirma que o Pão consagrado, Corpo do Senhor, assim permanece mesmo após a Celebração da Eucaristia, tanto para ser levado aos doentes e idosos como para ser adorado. A adoração ao Santíssimo está intimamente ligada ao Mistério do Altar, a Eucaristia.

Culto aos Santos: chamado de “veneração”, diferente da adoração: é um respeito oferecido aos homens e mulheres que de modo mais pleno se transfiguraram em Cristo. Os santos são apresentados ao povo cristão como modelos de vida cristã e como intercessores. Entre todos os Santos sobressai a figura da Virgem Maria, de quem a Igreja católica afirma a imaculada conceição (concepção sem pecado), a maternidade divina, a virgindade perpétua e a assunção ao céus em corpo e alma.

Como não mais se vive numa cultura onde a imagem se identifica com ídolo (como acontecia nos tempos bíblicos), a Igreja católica aceita que os fiéis contemplem os fatos e pessoas da história da salvação, os Santos e suas vidas, através de imagens, vitrais e ícones. Também são veneradas as relíquias dos Santos.

É característica forte do catolicismo romano a oração dos vivos pelos falecidos, fruto da fé na comunhão dos Santos: há uma união misteriosa entre os vivos e os mortos, entre os que já estão na glória, os que militam na terra e os que são purificados para a posse da vida eterna (aqui se inclui a doutrina do Purgatório, fundamentada em 2Macabeus 12, 43-46). No mesmo contexto entra a doutrina das Indulgências – aplicação aos mortos das boas obras dos vivos e que deram ocasião a abusos, superstições e corrupção religiosa, contribuindo como causa imediata da Reforma protestante do século XVI.

4 – Práticas sócio-eclesiais características.

Para a santificação de seus membros, além da Palavra e dos Sacramentos, que são essenciais e levam à vida transformada pelo Amor e pela oração, a Igreja católica faculta:

Vida religiosa consagrada contemplativa e ativa: a partir do século III surgiu a vida monacal (eremitas e cenobitas) e, mais tarde, as Ordens e Congregações religiosas. Os contemplativos (como monges e monjas beneditinos, cistercienses, trapistas, carmelitas, eremitas camaldulenses, servitas, clarissas) que se retiram para a experiência da vida cenobítica (vida em comum) onde fazem a experiência da oração e do trabalho comunitário. Seu ministério é o da intercessão pela Igreja e pelo mundo. As Ordens e Congregações de vida ativa, masculinas e femininas (jesuítas, salesianos, franciscanos, capuchinhos, …), destinam-se à vida comunitária e ao trabalho evangélico junto às paróquias, aos pobres, órfãos, idosos, doentes, presidiários, missões e escolas.

Movimentos de espiritualidade leiga – Apostolado da Oração, Legião de Maria, Opus Dei, Focolarinos, Movimento Familiar Cristão, Ordem Franciscana Secular, Equipes de Nossa Senhora, Neocatecumenato, Schönstadt…, são característicos do Catolicismo romano e se orientam para a santificação conjugal, familiar, comunitária, pessoal. No século XX surgiu a Renovação Carismática católica, ou Renovação no Espírito, que tem atraído verdadeiras multidões: caracteriza-se pelo cultivo dos dons e frutos do Espírito Santo, assumindo uma veste forte de alegria, espontaneidade, celebrações vibrantes, impulso evangelizador.

Peregrinações – constitutivas de todas as religiões, as peregrinações significam o deslocamento penitencial e devocional a locais marcados pela história bíblica (a Terra Santa) ou pela presença de santos ou manifestações extraordinárias da graça divina (Roma, Cantuária, Compostela, Guadalupe, Lourdes, Fátima, Aparecida, estes últimos locais de devoção mariana). Não são isentas do aspecto lúdico, turístico e até comercial.

Devoções – fazem parte da vida religiosa pessoal. Podem ser a consagração dos meses de maio e outubro à Virgem Maria, a visita a igrejas significativas para sua vida, o culto a determinado santo ou a suas relíquias, a recitação do Rosário (durante o qual se meditam os mistérios da encarnação, paixão e glória do Senhor) e muitos outros modos. Podem ser ambíguas: levar a uma vida iluminada pela Palavra ou se deter em aspectos visíveis, emotivos e até supersticiosos.

 5 – Cisões e correntes

Já nos tempos do Novo Testamento surgiram divisões na comunidade cristã. Isso é compreensível, pois ainda não estava definida a doutrina e o mundo greco-romano era rico em correntes de pensamento. Grande ameaça à unidade foi o Gnosticismo, que identificava a fé com o conhecimento. No século V, surgiu a Igreja nestoriana (que nega a Maria o título de Mãe de Deus) e a monofisita, que não aceitou a definição do Concílio de Calcedônia (451) que definiu em Cristo uma pessoa divina e duas naturezas, divina e humana. Hoje se tem claro que essas divisões foram fruto mais da dificuldade lingüística de distinguir entre pessoa e natureza, do que problemas dogmáticos.

Duas grandes rupturas, porém, marcaram a história do cristianismo e da Igreja católica romana em particular: o Cisma grego de 1054 (entre a Igreja católica romana e a católica ortodoxa oriental) e as Reformas a partir de 1517, a que seguiu-se a organização das Igrejas evangélica, anglicana e reformada (calvinista). A Igreja católica romana inclui as Igrejas do ocidente romano, latino e as Igrejas católicas orientais que permaneceram unidas ou retornaram à comunhão com Roma, as “uniatas”.

Pelo Censo da Igreja católica romana de 2011, há um bilhão e 200 milhões de fiéis católicos.

 6 – Convicção e respeito

Às vezes se faz a pergunta: quem é católico se salva? Quem é protestante se salva? Essa pergunta nós não podemos responder, pois a salvação é dom, graça de Deus. Nós, católicos, podemos dizer: “Eu posso responder apenas isso: se vivo a minha fé na comunidade, com a consciência iluminada pelo Espírito, se vivo o Mandamento do Amor, se creio que Jesus é meu Senhor e Salvador, Deus Pai me dará a salvação”.

Pe. José Artulino Besen

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MISSÃO – ANUNCIAR A CRUZ DO SENHOR

Santo Hilário de Poitiers (315-368) foi batizado aos 30 anos e, oito anos depois, em 353, foi eleito bispo de Poitiers, atual França. Ali se deparou com o sucesso da heresia dos arianos, que afirmavam que Jesus foi um homem que Deus escolheu para ser seu Filho, deste modo não sendo eterno. Uma heresia agradável, pois não incluía a eternidade de Cristo e sua encarnação. Agradável, mas destruía o fundamento da fé cristã pela qual cremos que o Filho eterno entrou na história assumindo a natureza humana no seio virginal de Maria. O ensinamento de Ario foi condenado no Concílio de Nicéia (325), mas dividiu a Igreja.

O imperador Constâncio II queria tudo, menos uma Igreja dividida que mexeria com a paz no Império. Pendeu para o arianismo, condenando a verdadeira doutrina. Afinal, com seu pai Constantino a Igreja ganhara liberdade e deveria ser reconhecida e obediente, pensava.

Entra em campo o Bispo Hilário, que receberá o título de “martelo dos arianos”. Escreve ao imperador lamentando o fim da perseguição que trouxe a falta de liberdade de crer na verdade. Suas palavras são contundentes: (O Imperador) “é traiçoeiro e bajulador, não nos açoita as costas, mas nos acaricia o ventre; não nos confisca os bens (assim dando-nos a vida), mas nos enriquece para dar-nos a morte; nos impele não para a liberdade aprisionando-nos, mas para a escravidão convidando-nos e honrando-nos no palácio; não açoita nosso corpo, mas se apodera de nosso coração; não corta nossa cabeça com a espada, mas mata nossa alma com o dinheiro “ (Liber contra Constantium 5).

Para o santo bispo, não vale a pensa a liberdade se priva o cristão da verdade. Continua sua defesa intransigente do mistério da Encarnação. Em 364 foi exilado por outro imperador, Valentiniano I, defensor da heresia e que gostava de atirar o corpo dos adversários como comida para suas duas ursas favoritas, Migalha de Ouro e Inocência.

A exemplo de Hilário, nós também conhecemos a terrível e sedutora tentação de facilitar a fé e a vida cristãs. Assim como havia teólogos em Constantinopla dando razão ao Imperador, teólogos em Coimbra e Salamanca que justificavam a escravidão negra, não nos faltam teólogos envolvidos no heróico esforço de tornar o mistério cristão palatável aos humores atuais.

Pregadores transformam as exigências cristãs em esforço de mudança sujeita às desculpas psicológicas (a lei é assim, mas sou uma exceção, pois tenho minhas carências). Quantos de nós, cristãos, apreciamos o circo dos milagres que reduzem o Senhor a um curandeiro, esquecendo-nos o quanto Jesus repudiava ser procurado por causa de milagres: querem meus milagres, mas não querem minha pessoa!, afirmava. Há um pregador televisivo, autodenominado “apóstolo”, afirmando que não inicia uma pregação sem ao menos dez milagres. É dono de algum deus…

Sendo constitutivamente missionária, a Igreja não pode ingressar no mercado competitivo das facilidades. Não assim nos ensinaram os Apóstolos, os Mártires, não assim nos ensinam os missionários que se embrenham pelas selvas humanas do mundo das culturas. Servem-se de recursos que possibilitem a inculturação mas, no momento principal, gritarão: “O Senhor que vos anunciamos é o Filho de Deus, o Cristo crucificado! Ele ressuscitou!”. Não faltará serem acusados de loucura, escândalo, fraqueza. Não há, porém, outro caminho. Na sua viagem à Inglaterra (17/09/2010), Bento XVI afirmou que hoje “o preço a ser pago pelo Evangelho não é sermos enforcados, afogados ou esquartejados, mas, sermos ridicularizados”.

A medida do Deus amor é a cruz. Deus sofre e morre na carne para vencer a morte. Toda a conversão se orienta para o combate que leva da morte à ressurreição. A glória do cristianismo é a Cruz, árvore da vida. A árvore do Paraíso trouxe a morte, a árvore da Cruz traz a vida, pois o Senhor da Vida dela é inseparável. A facilitada negação do pecado esconde a negação da cruz: seguir o Senhor, renunciar, tomar a cruz.

No dia do batismo através dos pais e padrinhos, no dia da Crisma em nome pessoal, na Vigília pascal com a comunidade, somos convidados a proferir três vezes o “Renuncio!” ao pecado, à injustiça, às seduções satânicas. Não há “Renuncio” sem amor à cruz, à luta constante pela fidelidade ao Senhor e aos irmãos. E sem o “Renuncio” autêntico, consciente não há vida pascal, nem alegria pascal.

O conhecimento de Deus se dá pela adoração que leva ao amor, pelos joelhos dobrados que expressam humildade frente ao mistério, pelo fascínio diante da beleza oferecida a quem testemunha a beleza da Cruz por uma vida de combate em busca da transfiguração pascal.

Pe. José Artulino Besen

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O REINO DOS CÉUS – DEUS E O HOMEM SE PROCURAM

Disse Jesus: o Reino dos Céus é também como um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, ele vai, vende todos os bens e compra aquela pérola (Mt 13, 44-45).

O Reino dos Céus é um modo de relacionamento com Deus, um modo de relacionamento com Jesus que nos faz viver com ele e como ele.

Deve ser procurado. É oferecido, com certeza, mas para quem o busca. Como o alimento que está à mesa: a fome só é saciada se me aproximo dela.

O homem sai à procura de uma pérola preciosa

Assim o Reino dos Céus. O homem que não está satisfeito com sua vidinha pacata, com seu coração fechado em si mesmo, com relacionamentos interesseiros e superficiais, cheio de amor próprio, ressentimentos, que vive investindo no aparecer, num momento de inspiração se lembra de que é gente e, mais ainda, gente que deve ser pessoa. E pessoa só é possível existir quando há relacionamentos verdadeiros, respeitosos.

Esse homem irrequieto sai à procura de vida. Anda por caminhos equivocados, deixa-se enganar por miragens, facilmente é seduzido. Às vezes pensa ter encontrado Deus, mas foi apenas um deus à sua imagem egoísta. Prossegue sua busca: exulta, pois encontrou a religião verdadeira, mas não era nada disso, era apenas recheio terapêutico para seus vazios.

Prossegue, pois leva a sério sua busca. Vem o cansaço, mas a busca pela vida o ultrapassa. Surge uma sedutora tentação: sua vida está mais do que boa, ele é bom o suficiente, todos o dizem. Mas não é. Não quer parar no meio do caminho, pois será pior, terá sabor de derrota. Quer levar a vida a sério, quer encontrar um tesouro pelo qual tudo possa trocar.

E encontra. Sem esperar. Procurava pérolas preciosas e encontra uma de grande valor. O que encontrou vale mais do que tudo o que tem. Resolve realizar o investimento. Procura o dono da pérola, o preço é alto, não tem importância, desfaz-se de seus bens, consegue o montante e compra a pérola tão procurada. Por ela entregou tudo.

Secretamente, à noite, contempla o tesouro encontrado. Misteriosamente a pérola penetra seu peito e aninha-se em seu coração. Sua vida torna-se preciosa, cofre de um tesouro. Ninguém percebe a riqueza que carrega, mas percebem todos que ele mudou: sua face resplandece de alegria, tem o brilho de quem encontrou a fonte da luz.

O tesouro é Deus, seu valor está na amizade que oferece: ele e Deus são agora amigos de caminho. Deus não resolve seus problemas, que continuam, mas está do seu lado, como amigo.

Valeu a pena desfazer-se de pequenas riquezas para possuir a riqueza, de tesouros pouco valiosos para estar de posse do Tesouro: Deus.

Deus sai à procura de uma pérola preciosa

Sentiu Deus a falta de uma pérola preciosa, de valor superior ao de tudo o mais que tinha criado. Era um filho seu perdido pelos espaços do mundo, seduzido pelos vazios oferecidos. Seu Pai não o interessava mais. Não é por isso, pensou Deus: não é para ser amado que dele sinto falta. O que doía era sabê-lo perdido e vivendo na angústia que considerava o modo normal de viver.

Deus tudo deixa para encontrá-lo. Quando o acha, percebe-o indiferente, e o Pai desinteressante. Deixa claro que não sente falta de nada, muito menos de ser procurado por alguém. A vida é isso mesmo, quem não se mexe nada alcança.

Deus se aproxima dele e fala-lhe aos ouvidos. Fala-lhe ao coração. Oferece-lhe tudo. Diz o quanto sente sua falta e que há muito o procura. O filho diz que não vale tanto assim, e que seu preço é ser ele mesmo. Então o Pai lhe mostra o Filho chagado, crucificado, morto e declara: “ofereço a vida de meu Filho por sua vida! Ele e tudo o que é dele serão seus”. Não convence. Por fim, mostra-lhe o Filho ressuscitado: “Ele morreu por você e lhe oferece a vitória sobre a morte, a ressurreição”.

A palavra “ressurreição” mexeu com o filho: a vida não acaba, alguém a garantiu por ele. Tem início sua transformação do interior ao perceber o amor com que é amado, que a vida sem amor não é vida, e que amor lhe é oferecido.

Tempos depois, cedeu totalmente e Deus recebia a pérola preciosa. E escutou o Filho chamando-o: Vinde, bendito de meu Pai! Fora conquistado pelo amor.

Pe. José Artulino Besen

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DEUS ENVIOU A PALAVRA E O HOMEM CRIOU O PALAVRÓRIO

A Palavra traspassa a Virgem que acolhe a Palavra – Centro Aletti

Há um complô contra o silêncio: ruas, casas, lojas, clínicas estão povoadas por sistemas de som com música, anúncios, vantagens. O lar está tomado pelo barulho da TV, do rádio, celular, telefone, aparelho de som. Há barulhos nas imagens, anúncios nas estradas e vias públicas, sites de internet que também rompem o silêncio, às vezes com efeitos mais desastrosos ainda.

Por que temos tanta dificuldade em parar, fechar os olhos, permanecer silenciosos ou, silenciosamente, contemplar as pessoas que nos cercam, a paisagem oferecida gratuitamente? É o medo de nós. Medo da vida que levamos e fingimos que não levamos.

Fugimos da palavra verdadeira, autêntica, que nasce do silêncio e por ele é guardada. O silêncio é a embalagem mais preciosa para a palavra legítima que nos orienta. Uma embalagem frágil, diga-se, e se prefere esmagá-la quando nos fala palavras que nos machucam por dizerem a verdade.

Mas, vida sólida não combina com barulho, pois, sem o silêncio, não é possível uma vida de combate à dispersão, à ânsia, à distração, ao vazio interior.

A solidão, o silêncio e a ascese permitem olhar face a face os pensamentos-tentações que nos afligem: não crer em Deus nem em nada, a conclusão de que tudo se acaba em nada, o peso dos pecados que leva a duvidar do perdão, a capacidade de ver o bem no ser humano. O silêncio e a solidão nos obrigam a dar uma resposta a esses verdadeiros problemas, tão ocultos na vida social, mas tão exigentes para que possamos existir com sentido.

Ouvir o silêncio que fala, ouvir a Palavra de Deus exige que se calem as outras palavras, que se escute o outro, o irmão e a irmã que batem à nossa porta a fim de escutarmos seus problemas, sofrimentos, a palavra de sua vida. Foi no silêncio eterno que a criação ainda informe e vazia ouviu a primeira Palavra do Criador: “Faça-se a luz!” (Gn 1,3). Essa Palavra continua a ecoar pela história daqueles que decidem tornar suas existências luminosas mas, somente é ouvida no silêncio. E, sem a luz, a palavra não discerne o belo e o mau.

O barulho nos faz escutar o nada, leva-nos ao esvaziamento das profundezas de nosso coração, chegando a impedir-nos o grande grito silencioso e necessário “Das profundezas, Senhor, a vós eu clamo!” (Sl 129,1).

Silêncio – a Palavra veio morar entre nós

O silêncio é um caminho que se percorre no exercício perseverante e até árduo do encontro conosco. Às vezes o silêncio espanta e vem a tentação de retornar ao barulho, ao palavrório vazio. Prefere-se o sonambulismo espiritual, o não se conhecer em profundidade e se cai na alienação.

Numa espiritualidade movida a vácuo multiplicamos a ação, nos embebedamos para gritar falsas alegrias, transformamos o louvor em algazarra, o ato penitencial em gemido narcisista, a Liturgia em espetáculo, gritamos para Deus a fim de que ele não possa ser ouvido. Permaneceremos como semente lançada em chão sem profundidade.

E a Palavra se fez carne, e veio morar entre nós” (Jo 1,14). O Filho eterno do Pai não veio ao mundo com palavras, mas como Palavra feito carne, vida, encontro, misericórdia. Não Palavra de ensino, legalista, mas Palavra encarnada que nos narra o Pai, possibilitando-nos o confronto com aquele que, único, pode dizer: “Faça-se a luz!”.

Cristo-Palavra é o Filho estampado no rosto humano e permite decifrar Deus em cada rosto de homem, onde o Deus pessoal o trata como um “tu” e com ele estabelece diálogo. Então o homem mergulha no Absoluto e recupera sua imagem dialogal – somente se é pessoa diante de um tu – e emerge indo ao encontro do mistério do próximo, dando um significado infinito ao rosto do outro.

Na Palavra que se manifesta na Bíblia o homem se descobre vivendo o barulho angustiado, tomado pelo nihilismo, “eu não existo, não sou nada” para, em seguida, alimentado pelo silêncio, descobrir que existe, que necessita de salvação e que o Senhor é essa salvação.

A Bíblia é uma Palavra, a Palavra é Cristo, Deus é uma Palavra: Amor.

Para fugir do Amor criamos palavrórios sedutores envolvidos em embalagens de teologias prolixas, criamos igrejas movidas a milagres, competições denominacionais, proferimos conferências e sermões gritantes, colocamos o demônio em todos os problemas, transformamos o Cristianismo em terapia.

Não é necessário tanto palavrório. Servem apenas para fugir da verdade que é mais simples: é Palavra-amor no qual Cristo nos revela quem é Deus e, ao mesmo tempo, quem é o homem.

Pe. José Artulino Besen

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CREIO, MAS AJUDA-ME NA MINHA INCREDULIDADE

De Chirico – Jesus na Barca

Jesus declarou: “Tudo é possível para quem crê!” O pai do menino epilético que a Jesus pedia a cura do filho, imediatamente exclamou: “Eu creio, mas ajuda-me na minha incredulidade” (cf. Mc 9, 14-28).

Um popular refrão para o canto do Creio reza “Creio, Senhor, mas aumentai minha fé”. Supõe gradações na fé e a oração para que a fé aumente de grau. Mas, se atentarmos ao texto bíblico de onde vem a prece, percebemos que há uma simplificação, normal quando os textos são radicais. O pai do menino epilético não diz “aumentai” e sim, ajuda-me na minha “incredulidade”. Em outras palavras, aquele homem que está diante do Senhor proclama “eu creio, Senhor”, mas vem em meu socorro, pois “eu não creio”. Sua alma hospeda simultaneamente a fé e a incredulidade. Jesus leva em conta a autenticidade da oração desse pai e lhe cura o filho.

Dando um passo adiante, podemos contemplar o centurião romano diante de Cristo crucificado e morto, e que proclama “na verdade, este homem era o Filho de Deus” (Mc 15,39). Aqui a proclamação se inverte: “Eu não creio, mas eu creio”. O pai estava diante do Senhor que curava e tinha fé, mas queria ter fé; o centurião pagão estava diante de um homem fracassado, morto e nele não tinha fé, mas proclamou que tinha fé. Paulo, no caminho de Damasco, ao ser tocado pela Luz do Ressuscitado, fala como incrédulo “Quem és tu?” e conclui com fé ao proclamar “Senhor” – Quem és tu, Senhor? (At 9,5).

A Palavra nunca nos deixa com soluções simplificadoras, mas nos desafia a passos sempre maiores. A fé é uma realidade tão constitutiva do ser humano que nunca a dominamos, mesmo professando-a. Quando ela atinge o nível do sentimento e torna-se compensador dizer “eu creio”, somos em seguida levados ao deserto e gritamos “eu não creio”. Não é a incredulidade, mas o grito angustiado para continuar a ter fé na solidão que desertifica nossa existência e que nos leva à constatação de que ainda não cremos.

Deus nos permite viver esse paradoxo, para que não o dominemos com receitas emocionais, não o compremos com “graças recebidas”, não o seduzamos para obter prosperidade. O mistério da redenção seria mais palatável com o Filho chegando ao mundo resplandecente: por isso mesmo Deus escolheu o caminho da encarnação na Virgem de Nazaré e o triunfo da derrota na Cruz em Jerusalém. Quem crê no Homem derrotado por amor é capaz de crer verdadeiramente no Ressuscitado. Por isso mesmo, Paulo faz questão de dizer “nós, porém, proclamamos Cristo crucificado” (1Cor 1,23), “Pois, entre vós, não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” (1Cor 2,2). Quem não crê na derrota divina, não está apto a crer na sua vitória sobre a morte.

O pai que professou a fé e pediu a Jesus que lhe tirasse a incredulidade realmente tinha fé: ele acreditava, mas sentia que não acreditava. Por isso pediu o dom da fé àquele em quem não tinha fé: o Senhor. Numa palavra mais fácil: “Senhor, eu creio em ti, mas sei que não creio, por isso eu te peço que tu me dês a graça da fé, porque eu creio em ti”.

Nossa vida hoje percorre uma estrada asfaltada, com margens ajardinadas, cheia de sinalização, segurança e placas de boas vindas. Não queremos experimentar o árduo trabalho de construir o caminho, embelezá-lo, sinalizá-lo. A primeira opção é o abandono da fé pela negociata de uma religiosidade vazia e que desemboca no vazio a ser preenchido por outros caminhos que parecem mais seguros, e que nos levam a maiores inseguranças ainda. O segundo caminho é a árdua experiência de crer, de ter fé, de realizar o encontro com aquele que nascemos para procurar e que nunca nos deixa sentados nas certezas fáceis das quais se retira todo sentido de combate, de cruz, de renúncia.

Na superficialidade não há possibilidade da fé e na seriedade do caminho não há ocasião para fé facilitada. A palavra fé está inserida na palavra confiança, significando entrega total àquele em quem acreditamos. Algo tão vital e belo que teremos que sempre repetir com o pai do menino epilético: “Senhor, é evidente que eu creio em ti, mas, ao mesmo tempo, és tão grande que eu sei que não creio; somente tu podes me fazer crer em ti. Dá-me fé, Senhor”. Lembro aqui o lamento do atormentado do convertido francês Leon Bloy: “Ó Cristo, que oras pelos que te crucificam e crucificas aqueles que te amam!” Ter fé é aceitar o drama do amor divino.

Dá-se então a experiência religiosa fundante das pessoas de Deus: quanto mais o procuram, menos o encontram, quanto mais o encontram, mais precisam procurá-lo. No caminho da fé Deus vai se revelando na glória e, em seguida, vai se ocultando no pobre que encontramos pelo caminho e nas cruzes plantadas ao longo do trajeto. E então a fé continuará a ser desafiada, agora pelo amor.

Pe. José Artulino Besen

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ANO SACERDOTAL E TRANSFIGURAÇÃO

“O Senhor não é um imenso papagaio vermelho na praça” (S. Kirkegaard – 1813-1855). A afirmação do filósofo e teólogo dinamarquês torna-se estranhamente atual quando se fala em religiões de prosperidade, pregadores de sucesso, marketing da fé lidando com estatísticas e não com convertidos. Estatísticas que oferecem o consolo para o sucesso, aumento do rebanho, retomada de trânsfugas.

A Igreja católica não está imune à tentação de busca de sucesso. Nós, padres, também não estamos imunes. Numa sociedade que valoriza o sucesso, as multidões reunidas, o “acontecer” nos meios de comunicação, essa tentação é forte e até fatal. Teremos a posse do ter, a posse da fama, o poder nos será delegado pelas instâncias eclesiásticas com o argumento que seguramos o rebanho e, talvez não por último, mas pela lógica, a posse do prazer. Buscando anunciar o Senhor, ingenuamente caímos nas tentações que ele rechaçou no deserto. Talvez os males que hoje fazem a Igreja sofrer, as fraquezas em que alguns de nós, padres, mergulhamos, encontre a raiz nesse engano de sedução no mercado do sucesso fácil. E, ainda mais, a raiz pode estar no esquecimento da missão de sermos ministros de Cristo, ministros do Senhor crucificado, que dá a vida e não confundindo Jesus com um imenso papagaio vermelho na praça. O campo de ação de Jesus é a interioridade disponibilizada e não a exterioridade evasiva. O Ressuscitado que envia o Espírito Santo continua a ser o Senhor da Humildade batendo à porta com a Cruz às costas.

“Não as pompas, os sinos, os natais-troca-de-presentes, tranqüilidade, esplendor, brilho e sim, cruz verdadeira, enorme, pútrida, indiferente, suja, nojenta. Isso é o Cristianismo”, define o intelectual romeno, batizado na prisão e depois monge, Nicu Steinhardt (cf. O Diário da Felicidade, p. 82). O discípulo-missionário reproduz plasticamente os intestinos quase à vista do Senhor chutado, coroado de espinhos, o suor, sangue, escárnio, pregos: não há cristianismo sem Cruz, ela sim, Trono de Glória a serviço de novos céus e nova terra.

Nossa legitimidade nunca será o apoio dos bem-de-vida, dos intelectuais, dos poderosos, pois isso já tivemos, e até de sobra. Nossa legitimidade é dada pelos pobres, encarcerados, pecadores, doentes – cruz pútrida, suja, nojenta – eles os destinatários do Reino. E estão nas praças incomodando, perturbando nosso sossego. Quando o amor cristão os atrai, somos verdadeiros ministros, como na parábola do algodão: se estiver branco, macio, não teve utilidade; se estiver sujo, cheio de pus, foi algodão verdadeiro.

Sem o oxigênio dado pelos carregadores da cruz fabricada pelo mundo do consumo, teremos pouca energia para o apostolado e pouca força para vencermos as tentações que cruzam nossa estrada apostólica, tirando de nós aquilo que é nossa glória: o amor dos pobres e pequeninos.

Dois homens de nosso tempo, dois sacerdotes de imensa estatura de santidade pastoral podem nos dar uma palavra: João Paulo II (1920-2005) e o Cardeal Nguyên Van Thuân (1928-2002). Provaram toda a alegria de servir ao Senhor e beberam do cálice da cruz.

“Recordo-me que, quando era jovem e lia o Evangelho, para mim o argumento mais forte da veracidade daquilo que estava lendo era que no Evangelho não existe nenhuma promessa secreta. Ele disse aos discípulos uma verdade absolutamente dura: não esperar nada, nenhum reino deste mundo, nenhum posto à direita ou à esquerda nos ministérios desse futuro messiânico. O rei messiânico andará sobre a cruz e lá será provado. Depois a ressurreição vos dará a força para tornar-vos capazes de testemunhar ao mundo esse Crucificado. … O mundo faz o contrário: quer atrair com promessas, com carreira, com ganhos” (João Paulo II, 10 de junho de 1987, a um grupo de jovens).

E o Cardeal Van Thuân: “O que mais me atraiu em Jesus foram seus defeitos: pouca memória (perdoa e logo esquece os pecados), mau matemático (deixa 99 ovelhas para buscar uma), mau candidato (promete a seus seguidores cruzes, problemas), mau economista (paga o mesmo a quem trabalha uma ou oito horas)”, e assim por diante. “Por que esses defeitos? – Porque ama sem medida!”.

Nós padres, cada um de nós, em nossa história se deparou com esses homens e mulheres que foram seduzidos por Cristo e o seguiram por amor. E, sem dúvida, nossa vida também é resultado do fascínio por aquele que ama sem medida, o Senhor.

É a hora de nossa transfiguração, de nosso Tabor: somos carne fragilizada, somos pecado, mas brilha em nossa face o Senhor que nos fez seus sacerdotes. Transfiguração que torna verdadeiro o título amoroso de Alter Christus – Outro Cristo. Não será o medo de punições eclesiásticas e civis o motor de nossa conversão, de nossa alegria ministerial. As punições têm efeito rápido e o demônio que nos assaltou voltará como legião. Somente o amor de Jesus nos transfigura e faz de nosso ministério caminho de transfiguração do rebanho. “Somente Cristo acalma a tempestade e renova a força e a coragem para viver uma vida santa, na plena fidelidade ao ministério, à consagração a Deus e ao testemunho cristão” (Bento XVI).

Não somos papagaios vermelhos nas praças, em busca de aplausos. Nossa força brotará da intimidade com a pequenez assumida por Deus: “Ó Imenso! Ocupas somente uma minúscula cela e gostas de lugares vazios e solitários” (K. Wojtyla, Canto do Deus escondido). E diante de nós continua a figura sacerdotal frágil e poderosa do Santo Cura d’Ars a nos repetir: “O sacerdote é o amor do Coração de Jesus”.

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O CACO DE TELHA EMPRESTADO DE JÓ

Jó ridicularizado por sua mulher - Gioacchino Assereto

Jó ridicularizado por sua mulher – Gioacchino Assereto

Um dos mais perturbadores livros da história humana, assim tem início o Livro de Jó: “Havia na terra de Us uma homem chamado Jó: era íntegro e reto, temia a Deus e mantinha-se afastado do mal. Tinha sete filhos e três filhas. Era o mais rico entre todos os habitantes do Oriente” (Jo 1, 1-3). Satanás não se conformava com a integridade desse homem rico, poderoso, temente a Deus. E tem início o drama de Jó, que é o drama da vida humana. Deus respeita tanto a liberdade do tentador quanto a do santo homem. Primeiramente perde os filhos e seus bens. Em segundo lugar perde a saúde e torna-se um homem repugnante coberto de chagas malignas, desde a ponta dos pés até o alto da cabeça. Sentado no meio do lixo, raspava o pus com um caco de telha. De seus lábios, porém, a palavra da fé: “Seja bendito o nome do Senhor”. Terminado o tempo da provação de sua liberdade, Deus tudo lhe restituiu. Jó, a partir desse momento, não é o homem que teve seus bens de volta, mas o homem que foi fiel ao Senhor.

Naquele corpo chagado, repugnante, permaneceu a chama da fé que, pouco a pouco, tomou conta de toda a sua pessoa e tornou-a luminosa. O caco de telha com que raspava o pus era a força que lhe mantinha a dignidade: se Jó não limpasse o pus teria desistido de ser pessoa e nenhuma transformação seria possível.

Em nossos dias, a Igreja católica é o Jó atirado no meio da praça: é pretexto para o ataque, o ridículo, a rudeza, a ingratidão. Mas, deve-se dizer, ela também guarda carniça em seu ventre, o pus escorre de seu corpo materno, humano e divino. Muitas vezes afirmamos que a Igreja é santa, que não precisa de conversão, o que compete a seus membros. A história, porém, nos revela que o caminho eclesial é diferente: encarnada nas culturas, com facilidade a Igreja pode se deixar seduzir por elas e assim, ao invés de converter o que há de mau nas culturas, por elas é contaminada. O espírito do mundo nunca deixará a Igreja no repouso dos justos: sua missão é o contínuo combater o bom combate, reconhecer os próprios pecados e converter-se.

O drama de nossos dias é a história de Jó: temos todas as bênçãos, toda a riqueza da Palavra e dos Sacramentos, mas não nos submetemos à provação. Achamos que é possível transfiguração sem cruz, salvação sem fidelidade. Cristãos ouvem as palavras dos amigos de Jó convidando à blasfêmia, ao desânimo, a abandonar o ventre da mãe onde convivemos com nossas virtudes, chagas e pus. O caco de telha será o grito de toda a Igreja “Kyrie!”, “Senhor, piedade!” Se o caco de telha for a revolta, a acusação ao mundo que não reconhece a nossa “santidade”, nossos méritos históricos, a ferida se aprofundará. É a hora da conversão, sempre é hora da conversão, da Igreja e dos membros.

É triste que os ataques se dirijam à pessoa de Bento XVI, o Papa que mais agiu e age para a transparência na Igreja, que submeteu os casos de pedofilia diretamente aos tribunais civis, que em nenhum momento teve a pretensão de ocultar a verdade. A assim chamada imprensa laica corre o risco de invadir a esfera própria da Igreja que é sua autonomia de condenar os pecados e redimir os pecadores. Certos tipos de intelectuais querem tirar da Igreja seu conteúdo de caridade cristã. A defesa mais contundente vem de Ross Douthat, um dos mais lidos opinionistas do The New York Times, num artigo com o sugestivo título “O melhor Papa”: defende a intergidade moral de Bento XVI que não se pode colocar em dúvida mesmo nos tempos anteriores ao Pontificado. Persegue-o a fama de “Rotweiler de Deus”, dos tempo da Doutrina da Fé, em confronto com o envolvente e simpático João Paulo II. Talvez a história julgará Bento XVI como um Papa maior.

A graça de Jó nos atinge para que provemos onde está nossa fé, nossa coragem, nosso amor pela Igreja. Foram muitas as crianças e jovens desintegrados na sua intimidade por padres e religiosos, seus naturais protetores na vida e na fé, foram muitos os pastores que preferiram o triunfo eclesiástico à defesa das vítimas. Se nós padres e bispos estamos chagados, não é pela fidelidade e obediência, mas pela omissão e amor próprio.

Um fato leva-nos a refletir com muita seriedade: quem nos chama à conversão não está sendo o Evangelho. O Senhor, não se sentindo escutado, deu voz ao mundo, aos inimigos da fé cristã, da Igreja católica, aos meios de comunicação laicistas, aos advogados ansiosos por dinheiro. Também isso é verdade e, como Jó, devemos dizer, cheios de dor e humilhação, “seja bendito o nome santo do Senhor”. Jó nos empresta o caco de telha para que limpemos o pus que escorre de nosso íntimo. Achávamos que não necessitaríamos desse caco de telha, mas necessitamos da purificação do que não faz parte de nosso ministério de serviço misericordioso e que apenas provoca essas feridas e chagas da cabeça aos pés. “Nós, cristãos, nos últimos tempos evitamos a palavra penitência. Agora, sob os ataques do mundo que nos falam de nossos pecados, percebemos que fazer penitência é graça e vemos como seja necessário fazer penitência”, afirmou o Papa em 15 de abril.

Penitência e conversão são obrigação também do povo de Deus que se omitiu, que por amizade e medo se calou. Quem sabe, a estrutura de poder sacral que montamos e alimentamos tira do povo de Deus a coragem, temendo por ela ser ameaçado.

Abrir-se ao perdão, preparar-se para o perdão, falou Bento XVI. A dor da penitência é graça, pois é renovação, é obra da Misericórdia divina

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CRISTÃO ISOLADO, NENHUM CRISTÃO

Irmã Dulce com crianças – Salvador – BA

O crescente individualismo de nossa cultura faz com que o transfiramos também para a esfera religiosa: minha fé, minhas crenças, minhas escolhas. Além disso, torna bastante difícil o estabelecimento de laços interpessoais e do sentido de pertença. O outro não me é necessário: eu me basto a mim mesmo.

E assim, no campo da fé, a consciência de viver numa comunidade torna-se um peso, pois não gostamos de ter com o outro um compromisso além daquele que me é necessário de imediato. O individualismo traz consigo o enfraquecimento da consciência eclesial  e muitos batizados não se sentem membros vivos e participativos da comunidade cristã, vivendo à margem. Só se dirigem às paróquias em determinadas circunstâncias, para receberem serviços religiosos.

Falamos muito em Cristianismo, e pouco em Igreja. É bom lembrar que o termo “Cristianismo” não é da Igreja primitiva. Os primeiros cristãos sentiam-se o Novo Israel em continuidade do Velho Testamento, serviam-se das palavras Aliança, Reino, Igreja, Comunidade dos Santos para se identificarem. Quando Paulo escreve às comunidades ele sabe que todos os seus membros têm uma identidade própria, cada seguidor de Cristo é membro de uma comunidade particular incluída numa comunidade universal. A preocupação com os pobres da Igreja de Jerusalém da parte das Igrejas da Ásia menor atesta bem essa consciência de comunidade única.

Muitos abandonam a comunidade eclesial por decepção, por terem sido mal acolhidos, pelos escândalos nas esferas religiosas. Acham que sozinhos é mais fácil ser santo, viver a fé, pois não precisarão mais nem fazer nem responder a perguntas sobre o que acontece em sua comunidade de fé.

Ao se agir desse modo, perde-se a beleza e a alegria de ser e sentir-se Igreja: “A Igreja não é uma comunidade daqueles que ‘não têm necessidade do médico’, mas sim uma comunidade de pecadores convertidos que vivem da graça do perdão, transmitindo-a por sua vez a outros” (J. Ratzinger). Agora como Papa Bento XVI, J. Ratzinger afirmou em recente alocução a respeito da beleza da Igreja: “A propósito da Igreja, os homens são levados a ver, sobretudo, os pecados, o negativo. Mas, com a ajuda da fé, que nos torna capazes de ver de modo autêntico, podemos também hoje e sempre ver nela a beleza divina”.

“Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9,13), afirmou Jesus. Ele continua a chamar a todos, formando uma comunidade admirável. Se ele chamasse apenas pessoas maravilhosas e virtuosas, que jamais errassem, não seria um sinal do Reino de Deus. O Padre Radcliffe, dominicano, a esse respeito nos oferece significativa meditação: “No coração de nossa vida cristã está a imensa vulnerabilidade da Última Ceia. Jesus coloca-se nas mãos de seus discípulos: “Tomai, isto é o meu corpo, entregue por vós”. Um dentre os discípulos o traiu, outro o negou, a maioria fugiu. Pertencer à Igreja é aceitar um pouquinho desta vulnerabilidade. Nós devemos aceitar estar implicados nos fiascos da Igreja e em seu heroísmo, em sua tolice como em sua sabedoria, em seus pecados como em sua santidade. E a Igreja também me aceita com meus pecados e com minha estupidez. É por isso que ela é “sinal e sacramento da unidade de todo gênero humano” (Lumen Gentium, 1,1). Nós pertencemos à Igreja não porque somos bons ou maus, mas porque somos discípulos de Jesus, aprendendo a caminhar juntos com ele e com aquele que está em nossa comunidade.

Para os primeiros Pais da Igreja era muito claro que “um cristão isolado não é cristão” (Unus christianus, nullus christianus). Mas, é importante lembrar, somente é cristão e membro de uma comunidade cristã aquele que decidiu dar uma resposta livre ao dom de Deus que é Jesus Cristo. Ser cristão é exercitar a arte da comunhão, da reconciliação na diversidade de pessoas, culturas e condições sociais. Quem é fechado em si, com medo do diferente, prefere uma religião ou individualista, ou de massa, tradicional, uma ideologia onde não precisa entrar em diálogo com o outro, gesto essencial na comunidade.

Quem sabe, a rejeição da comunidade e opção por viver sozinho a fé não seriam reflexos de nosso individualismo, de nosso fechamento interior?

Façamos nossa a oração que São Quodvultdeus, bispo de Cartago no século V, prescrevia para os candidatos ao batismo:

Concede, Senhor, a todos nós amar a Tua Igreja, a Tua amada. Faz com que lhe permaneçamos inabalavelmente fiéis, como a uma mãe amorosa, solícita e benigna, para que, com ela e por seu intermédio, possamos ser de casa junto de Ti, Deus e Pai nosso”.

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NÓS, PADRES, PERDOAMOS E PEDIMOS PERDÃO

A face de Cristo retrata todos os sofrimentos e pecados, dos inocentes e dos pecadores. Todos são tocados por sua misericórdia (Grünewald – pormenor trabalhado da Crucifixão).

As palavras do Papa foram contundentes: “crimes hediondos”, “confiança traída”, “dignidade violada”, “dano imenso”, “ultraje”, “indignação”, “tristeza”, “lágrima”, declarando-se “profundamente desolado” ante os sofrimentos das vítimas de abusos cometidos por padres. Em 20 de março pp. Bento XVI dirigiu Carta à Igreja irlandesa e a toda a Igreja tocando nesse drama cujos sinais se alastram como tsunami de país a país. Numa passagem, ficou grafado: “Em nome da Igreja exprimo abertamente vergonha e o remorso que todos sentimos, experimentamos”. O Papa também critica a “preocupação descabida” em manter o bom nome da Igreja para evitar escândalos, o que levou à impunidade sob o pretexto de preservar a dignidade de cada pessoa, atitude essa tomada por diversos bispos e que está na raiz do drama atual.

A tragédia da pedofilia e do abuso sexual de jovens é a mais dolorosa das violências, a mais perturbadora invasão na afetividade de uma criança ou jovem. O Papa João Paulo II manifestava sua profunda dor diante daqueles que detêm a primeira responsabilidade de defender os mais frágeis da sociedade e dão-se o direito de profaná-los sacrilegamente.

“Nós perdoamos e pedimos perdão” foi a palavra repetida na Celebração do Perdão, em março de 2000, corajosamente presidida e conduzida por Papa Wojtila. Nós perdoamos a todos os que nos ofenderam, e pedimos perdão aos que nós ofendemos: as minorias, a violência da Inquisição, das Cruzadas, do Colonialismo, o anti-semitismo, a mulher, o negro escravizado.

Os filhos não pagam pelo pecado dos pais, mas somente viverão a verdadeira filiação pedindo perdão por seus pais. Reconciliar-se com a História diante do Deus misericordioso é ato de humildade cristã, de santificação em praça pública na confissão dos pecados.

Assim nós, padres, perdoamos e pedimos perdão. Nada justifica a chaga da pedofilia, do sexo a pagamento, do escândalo de padres e religiosos. Num tempo se usava o argumento de que se atacava a Igreja para calar-lhe a boca. Não serve mais: nossa boca será livre para proclamar o Evangelho da Graça se ela mesma for purificada pela graça e – dolorosamente – pela humilhação em praça pública. Tantas vezes erguemos nossas mãos no gesto divino de absolver o penitente dos pecados, e o fazemos com imensa alegria. É também a vez dos cristãos erguerem as mãos para nos perdoarem em nome das comunidades, das famílias, das vítimas marcadas pela violência sexual.

Diante do Senhor misericordioso todos seremos mais humildes: o pecado é fruto da infidelidade, da auto-suficiência, do Evangelho na prateleira das facilidades. Pedir perdão é fortalecer-nos para o combate do bem, da integridade pessoal. Quanto mais sentirmos a fragilidade corroendo nossos ideais, nosso primeiro amor, mais a força do Espírito nos renovará com seu sopro de Vida. E todos, padres, cristãos e pessoas de boa vontade nos daremos as mãos em defesa da infância e da juventude.

Maturidade afetiva, condição para o celibato

As acusações que nos levam à confissão dos pecados também devem ser purificadas. O ato de uma pessoa não é o ato de uma comunidade. Os pecados de alguns – ou mais – sacerdotes, não são pecados da Igreja de tal País. É injusto acusar a Igreja dos Estados Unidos de pedófila, pois se estará negando a dedicação heróica, fiel de dezenas de milhares de sacerdotes frente ao pecado de um pequeno número. Agora é a vez da Igreja na Alemanha e as acusações têm um endereço cruel: a todo custo quer-se atingir a pessoa do Papa Bento XVI. Responde-se à tragédia da pedofilia nas hostes clericais com a crueldade do ataque à Igreja Católica, que incomoda, e muito, os que defendem um relaxamento moral a qualquer preço no campo do aborto, do casamento homossexual, da criminalização de qualquer palavra que cheire a homofobia.

Aproveita-se para atacar a disciplina do celibato católico afirmando: existe pedofilia na Igreja porque os padres não se casam. As estatísticas não o comprovam. Segundo a ONG Cecria, dedicada à proteção dos menores, de 291 casos de abuso sexual no Brasil em 2009, as crianças foram vítimas: 33% do pai ou mãe, 14% do padrasto ou madrasta, 13% do vizinho, 10% do tio, 9% de conhecido, 6% do avô, 5% do professor, sendo 4% de desconhecidos. E mais ainda: o consagrado psiquiatra e neurologista alemão Marfed Lutz, da Universidade de Wuerzburg, derrubou a polêmica tese do criminalista europeu Bill Marshall. Para o criminalista, a castidade não representa um fato natural e pode predispor a uma conduta desviante. Segundo Lutz, não há “déficit de intimidade” entre celibatários. Quem “consegue manter uma vida espiritual iluminada pela presença de Deus não padece de déficit afetivo”, frisou Lutz.

Um mal não elimina outro mal, evidente, mas deve-se notar que o sacerdócio às vezes tem sido o refúgio de pessoas sexualmente desequilibradas que se escondem no celibato. A pedofilia, além de crime, pode também ser uma patologia, da qual os próprios pedófilos são vítimas. Em muitos casos, o pedófilo de hoje foi vítima de violência sexual na infância, na mocidade.

A santidade da Igreja cresce nos grandes tempos de reconciliação, de humilhação. É tempo de Páscoa, é tempo de ressurreição. Nós, padres, perdoamos e pedimos perdão. Nós que tanto anunciamos o Senhor das misericórdias, cremos firmemente que também seremos lavados pela misericórdia do Senhor.

Fazemos nossa a oração pelas vítimas, proposta pela Igreja irlandesa:

“Senhor, sofremos muito por aquilo que alguns de nossos fizeram a teus filhos:

foram tratados de modo sumamente cruel, especialmente na hora da necessidade.

Deixamos dentro deles um sofrimento que carregarão por toda a vida.

Isto não estava nos teus planos para eles e para nós.

Por favor, Senhor, ajuda-nos a ajudá-los. Guia-nos, Senhor. Amém.”

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A FORÇA DA FRAQUEZA CRISTÃ

Maria encontra seu Filho

No musical Jesus Christ Superstar (refilmagem de 2000), a certa altura um Judas decepcionado com o rumo catastrófico das coisas reclama que “Jesus teria feito melhor se tivesse planejado”. O fracasso foi por mau planejamento, inclusive de época: Jerusalém era pobrezinha, sem as comunicações modernas que hoje possui: por que Jesus não deixou para vir agora? Tudo seria televisionado, comentado, o mundo ficaria entusiasmado. Um sucesso! O pobre Judas não podia se conformar com um final tão desalentador depois de três anos de anúncio do Reino, de expectativas messiânicas.

São muitas as histórias de pessoas que não encontram Deus apesar de procurá-lo de coração sincero. É que se equivocam no ponto de partida: nosso Deus é fraco e se revela somente aos pobres e pequenos, capazes de recebê-lo em sua fragilidade.

Blaise Pascal (1623-1662) foi físico, matemático, filósofo moralista e teólogo francês. Como matemático (criou dois novos ramos: a Geometria Projetiva e a Teoria das Probabilidades) queria provar e sentir a existência de Deus. Sua ciência nada resolvia e, para ele, crer era questão de vida. Numa noite, cansado e suado, teve a revelação: “Deus é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, não o Deus dos filósofos e sábios”. Pascal escreveu essa frase num pano e o costurou em seu paletó, para lembrar dessa verdade cada vez que o vestisse. Toda a Bíblia revela nosso Deus caminhando com seu povo, na bondade, paciência, admoestação, perdão. Se nós nos aproximamos dele, ele se aproxima de nós (Tg 4,7).

Pascal descobriu que é o coração o órgão pelo qual se chega à existência de Deus, e não a razão. A melhor forma de crer é amar, pois somente podemos crer num Deus a quem podemos amar siceramente. O Cristo é o sempre-vivo, o que segue conosco todos os dias.

O Pe. Irenée Hausherr, grande estudioso da teologia ortodoxa, expressou a realidade e seriedade da encarnação nesses termos: o evangelista João, ao proclamar a verdade central da fé cristã “E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14) está afirmando que Deus, após ter emigrado do céu para o meio de nós através de seu Filho, possibilita a nossa emigração deste mundo para a eternidade com ele. Santo Atanásio, o fogoso patriarca de Alexandria, que sofreu quatro exílios para defender esse mistério, faz essa “emigração” divina remontar à criação dos primeiros Pais a fim de que pudéssemos aceitar seu Filho: “Deus quis doar-se, por meio de Jesus, a todas as suas criaturas, imprimindo-lhes alguma coisa da semelhança e da beleza de si mesmo em todas e em cada uma. Assim nos tornamos aptos a conhecer o Pai” (cf. Oratio 2, 78.81-82).

Na profundeza do amor trinitário, o Pai deixou sua marca em nós para que conheçamos o Filho e o Filho, por amor, deixa em nós sua marca para conhecermos o Pai. A um Filipe espantado, Jesus diz: “Filipe, não me conheces? Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9). Nesse momento Jesus une dois verbos: conhecer e ver: quem o conhece, viu o Pai. E o Pai dirá: “Quem quiser me ver, veja meu Filho amado e o escute” (cf. Lc 9, 35).

A insistência em querer conhecer a Deus sem primeiro deixar-nos envolver por seu amor misericordioso nos leva a transformar o Cristianismo numa grande estrutura, com planejamento sofisticado (que é necessário, mas não leva a Deus). Ficamos até impressionados com a imponência de certos hierarcas, com o esplendor de certas Eucaristias que transformam em espetáculo a íntima Ceia do Senhor antes da Paixão, Morte e Ressurreição.

O Cardeal François-Xavier Van Thuan (1928-2002), fascinado por Cristo, pelo qual sofreu 13 anos de cárcere comunista no Vietnam, no retiro pregado ao Papa citou algumas causas que o levaram a amar o Senhor: Eu o segui porque vi que era fraco e fracassado. Cristo é um péssimo economista (paga o mesmo a quem trabalhou uma hora ou 8 horas, mau matemático (deixa 99 ovelhas para procurar uma), memória fraca (esquece os pecados quando perdoa, como no caso do bom ladrão) e assim por diante. Tudo por amor, um amor impossível de não nos arrastar. A vida de Van Thuan foi uma prova do “desperdício” divino: cheio de entusiasmo, saúde, ao ser nomeado arcebispo coadjutor de Saigon sai do Palácio do Governo para a prisão (1975-1988), ele, com tantos projetos pastorais, com tanta energia para acompanhar seu povo. Logo, porém, aceitou as regras de Deus e não viveu de ilusão: “Eu não esperarei a libertação. Vou viver o momento presente, enchendo-o de amor”. E muito pôde fazer pelo testemunho de sua vida, mais do que pelas obras.

Voltemos ao musical Jesus Christ Superstar, na filmagem original de 1973. Antevendo o desenlace de sua missão, Jesus lamenta: “Não sobrarão minhas palavras, meus atos, apenas eu”. Mas é isso mesmo o que importa: Ele.

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A MODERNIDADE, OU, TANTAS ALMAS ESTICADAS NO CURTUME

Solidão e intimidade – Antoni Music – 1996

Esse verso cantado por Caetano Veloso em “O Ciúme” serviu-me de inspiração para contemplar muitas vidas transformadas em exposição desnecessária de corpos e almas: “Tantas almas esticadas no curtume” parece muito bem expressar a miséria a que se pode reduzir a vida humana e seu mistério. “Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê / tanta gente canta, tanta gente cala”, continua o poeta.

Tantas almas esticadas no curtume

Hoje querem desnudar tudo, nossa intimidade, os mistérios que possibilitam que a vida seja preservada. E vemos os espetáculos dos BBB da Globo, do A FAZENDA da Record, onde nada se guarda, o pudor é defeito, tudo é revelado com o termômetro do escândalo. E vemos atores, atrizes, modelos, gente VIP alvoroçados para serem entrevistados sobre sua vida íntima, num presumido “jogo da verdade”. O que importa é chamar a atenção para aquilo que é estranho, escandaloso até, como que a dizer: “Vejam, aqui está minha vida, meu segredo. Perguntem mais, quero dizer tudo sobre minhas cirurgias estéticas, meus amores, minhas taras, passem por cima de mim, destruam-me, porque sem destruição não serei objeto de comentários, de capa de revista, de entrevistas televisivas, de um gordo prêmio para lançar minha carreira!”. Quero “acontecer”!

Ser VIP (Very Important Person)  descamba, na verdade, em NIP (No Important Person). Nossa importância é um segredo guardado a sete chaves e nunca revelado em público. Já a alma VIP é esticada no curtume do espetáculo, torna-se couro sem vida, colorizado ao gosto de quem quer passar por cima. Essa “alma-couro-esticado” é estendida no asfalto quente/frio por onde passam os carros da moda, dos escândalos, da fama que se converterá em dor, em droga, em morte.

É sintomática a morte de tanta gente bonita, famosa, rica, tanta gente rica de dons, de sucesso se refugiar nas drogas. Privaram-se de sua intimidade e, nus, o jeito que encontraram para ter algum tipo de alma foi a receita médica de anfetaminas, ansiolíticos, antidepressivos para uma vida turbinada à droga. E a receita é consumida aos montes, à proporção da angústia da procura da alma, de alguém que os ame como pessoas e não os admire como couro esticado estendido no asfalto por cima de onde se passa, se ri, se busca mais. É insaciável a curiosidade pelo escândalo, pelo íntimo.

Somos feitos para os abismos profundos da intimidade

“Quando entrares no teu quarto (= na tua intimidade), fecha a porta e teu Pai, que vê o que está em segredo, te recompensará” (cf. Mt 6, 6-18). É do abismo profundo que clamamos a Deus (cf. Salmo 129, 1) e tem início o eu pessoal. Ali, Deus entra somente com nossa permissão. Aliás, nem entra: ele ali está, nos mais escondidos precipícios de nossa alma, como fiador de nossa existência.

É nesse segredo que nossa vida se torna projeto, diálogo, se define nosso rosto. Deus vê esse segredo guardado em nosso abismo profundo porque esse mesmo segredo esconde nossa imagem e semelhança com ele. Somente ele, que se conhece, nos reconhece. Ele, que conhece a sua e nossa voz, reconhece nossos vagidos de criança assustada, o grito do entusiasmo juvenil, a descrição de projetos adultos, a inspiração do artista, o gemido inseguro do idoso enfraquecido.

É nas grutas de nosso abismo pessoal que Deus vê escondidos e esconde nossos anseios humanos, a vontade de amar e ser amado, as dores das rejeições, as feridas saradas, mas que ainda requerem curativos. A ninguém o revela, pois ouve/vê no segredo.

Mas, se abrirmos sem pudor as comportas de nossa intimidade, aquilo que era segredo vital, razão de nossos passos, se transforma em alimento estragado que vomitamos para o deleite dos amigos dos vômitos, do sangue escorrido na lama, da infecção escarrada. Sobrará um couro bonito, fofo, mas batido, seco, esticado para servir de tapete ou de asfalto para as locomotivas da vida.

Expondo na ribalta do mundo nossa intimidade pessoal nos tornamos nosso pior inimigo. Vamos nos construindo à medida em que diligentemente nos desconstruímos, e acordamos a morte que nos espreitava.

Nosso caminho feliz está em nos recolhermos ao nosso quarto, fechar a porta e estabelecermos amizade franca com aquele que se oferece à nossa amizade, o Senhor residente em nossas profundezas. Nossas almas não são couro esticado em curtume, mas pessoas que se criam no silêncio e que se abrem delicadamente a outras almas forjadas no segredo, por isso amigas com quem podemos confidenciar e crescer.

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