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MONSENHOR ANDREAS WIGGERS

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Andreas Wiggers nasceu em Cambará, Bom Retiro, SC em 20 de maio de 1933, numa família de agricultores. Descende dos Wiggers de Münster, Vestfália, que chegaram ao Brasil em 1863 e, posteriormente, foram alocados na Colônia catarinense de Teresópolis, depois dirigindo-se às terras férteis de Bom Retiro, na região serrana catarinense. Era o filho caçula de Guilherme Wiggers com Elizabeth Kauling, numa casa de sete irmãos, incluindo Rodolfo que foi frade franciscano com o nome de Frei Nicolau.

Cresceu numa família radicada no trabalho agrícola e na vivência da fé católica.

Com o desejo, alimentado na família e na paróquia, de ser padre, foi encaminhado ao Seminário Menor de Azambuja, da arquidiocese de Florianópolis e, para os estudos filosóficos e teológicos, a São Leopoldo, com os padres jesuítas. À época, a diocese de Lages não possuía Seminário.

A pedido do bispo diocesano de Lages, Dom Frei Dom Daniel Hostin, OFM, interrompeu os estudos eclesiásticos e por dois anos, em 1954 e 1955, exerceu a função de professor de português e de geografia no recém-fundado Seminário Diocesano, onde foi prefeito da divisão dos maiores. Nos seminários, os alunos eram divididos entre maiores e menores, a depender da idade, com pouquíssima comunicação entre si.

Retomando e concluindo o estudo da teologia, foi ordenado sacerdote por Dom Daniel Hostin na catedral de Nossa Senhora dos Prazeres de Lages em 10 de dezembro de 1961. Andreas se caracterizava pela piedade, espírito de oração e fez de sua opção pelo ministério sacerdotal uma entrega total e definitiva a Deus e ao serviço na Igreja. Prova disso foi o lema escolhido: “Que minhas mãos sejam uma manjedoura para que Jesus nasça todos os dias”, com profundo sentido eucarístico, pois na Eucaristia a mão do padre é a manjedoura onde brota o Pão da Vida. A celebração da Missa foi um compromisso alegre assumido em todos os dias de sua existência.

Pe. Andreas exerceu o ministério em dois campos: formação de novos padres e trabalho em âmbito diocesano na pastoral, na Cúria e na administração, além de presença constante nos organismos pastorais do Regional Sul-IV da CNBB. Sua seriedade e dedicação tornaram-no merecedor da confiança dos bispos, dos padres e ex-alunos. Sua simplicidade e ausência de ambição pessoal chamavam a atenção de quem com ele conviveu.

Ministério do serviço eclesial

Sua primeira missão foi ser professor e auxiliar na administração do Instituto São João Batista Vianney, nome do Seminário diocesano de Lages, de 1962 a 1964.

Muito estimado, era reconhecido como ótimo professor de matemática. O Professor Ary Martendal, seu ex-aluno, recorda a didática dele em outras disciplinas: “Participar de suas aulas era um alívio, tal a leveza e falta de ameaças, exceção de regra num rígido sistema de estudos demarcado por rigoroso regulamento. Sempre achava formas didáticas mais agradáveis e nos trazia curiosidades. Eu, como piazote criado na roça, escutava embevecido suas explanações ou leituras complementares”. Todos os ex-alunos dele guardam dele a bondade, compreensão e piedade.

Nos anos de 1963 a 1969, exerceu a função de prefeito de disciplina no mesmo Seminário e, em 1970, foi nomeado Reitor. Esse período foi bastante difícil para a Igreja diocesana de Lages, que vivia o forte e inesperado processo de renovação conciliar e, ao mesmo tempo, ressentia-se da diminuição no número de seminaristas, além do sofrimento pela desistência do ministério de bons sacerdotes, jovens, inclusive formadores do Seminário.

Bom na matemática e bom na administração, já em 1964 foi nomeado Ecônomo, função exercida em diversos campos diocesanos e sempre com competência. Não foi marcado pela tentação financeira.

Além do Seminário Menor de Lages, a diocese mantinha um Pré-Seminário em Peritiba, uma espécie de preparatório para o Curso ginasial, e Pe. Andreas foi nomeado seu reitor em 1971, acumulando com a missão de pároco de Santo Isidoro e vigário paroquial de Santa Catarina de Piratuba. Em 1979, o prédio do seminário foi doado ao hospital local.

Novo trabalho, em 1972, como cura da Catedral e coordenador dos Meios de Comunicação da Diocese de Lages e, de agosto de 1973 a janeiro de 1974 vigário substituto de Bom Retiro, sua terra natal.

Não lhe faltaram trabalhos nem disposição para desafios novos, sempre disposto, silencioso e sorridente.

A partir de 1977 seu ministério foi exercido ano serviço diocesano. De 26 de setembro de 1977 a 1981 foi Coordenador de Pastoral da Diocese de Lages. Conservando a função, de setembro a dezembro de 1977 foi também reitor e diretor do Seminário de Lages que, então, vivia forte crise pelos contratempos do novo sistema pedagógico e espiritual na formação dos seminaristas. Ali pode contar com a fraterna colaboração do Pe. Otávio de Lorenzi.

Em 1980, assumiu o delicado encargo de administrador da Mitra Diocesana de Lages e presidente da Ação Social e Beneficente, substituindo Mons. Luís Orth, venerado e inesquecível sacerdote. Ao mesmo tempo, foi encarregado do Arquivo diocesano, salvando e organizando os documentos históricos da diocese, portarias, provisões e o que mais restava. Lages lhe deve esse trabalho competente: não é um grande arquivo, mas possui o que foi possível catalogar.

Vida de oração e serviço

Em todos esses ofícios, afirma Ary Martendal, Pe. Andreas “foi figura humilde, serviçal, postada à sombra de qualquer honra e fama, deixando em todos aqueles que com ele conviveram um conceito unânime de homem pacífico e virtuoso”.

Dom Honorato Piazzera, SCJ, segundo bispo diocesano, quis que a diocese abrigasse um mosteiro de Irmãs contemplativas que tivessem como missão orar pela Diocese. Quando recebeu sinal positivo das Irmãs Clarissas, logo dispôs a doação do terreno na Avenida Papa João XXIII, vizinho ao Seminário e ao Centro de Pastoral. Mons. Luís Orth assumiu a construção do Mosteiro Nazaré, inaugurado em 1977. Nomeado capelão, Pe. Andreas igualmente nutriu um carinho especial pelas Clarissas e muito sofreu quando, em 2011, as Irmãs foram transferidas. Felizmente, três meses depois chegaram sete religiosas de Marília, SP, dando continuidade à vida contemplativa serrana.

Em 25 de março de 2008 faleceu seu irmão, Frei Nicolau Wiggers, OFM que, a pedido pessoal, foi sepultado em Bom Retiro, no distrito de Cambará, sua terra natal. Ele e Mons. Andreas ali tinham celebrado a Missa no dia de Finados de 2007. Frei Nicolau era um frade santo e popular, totalmente dado aos pobres, pedindo para si a pensão para reparti-la entre os necessitados. Um frade feliz, como narra o confrade Frei Pedro Galdino de Oliveira: “Numa passagem rápida por Porto União, conheci o Frei Nicolau, no ano de 1999. Notei que estava muito alegre. Perguntei-lhe: “Frei, o senhor está contente?” “Sim”, respondeu-me. E completou: “Estou cansado de ser feliz!”. Convivendo pouco (quase um ano) com ele em Paty do Alferes, pude constatar que a frase era verdadeira”.

Pe. Andreas também caminhava para o dia final: no dia 26 de abril de 2012, às 12:10h, faleceu no Hospital Nossa Senhora dos Prazeres, de Lages, aos 78 anos.

Seu corpo foi velado na capela do Mosteiro Nazaré, onde no mesmo dia foi celebrada a Eucaristia. No dia 28, às 8:30h, após as Exéquias, foi trasladado para o distrito de Cambará, em Bom Retiro.

Com a presença de multidão de amigos, de muitos sacerdotes e religiosas, às 15h, Dom Oneres Marchiori, terceiro bispo diocesano, grande amigo, com quem por anos trabalhou e agora bispo emérito de Lages, presidiu a Santa Missa com encomendação. Em seguida, foi sepultado junto as seus pais e Frei Nicolau.

Dom Irineu Andreassa, bispo de Lages, estava em Aparecida participando da Assembléia geral da CNBB, razão de não estar presente, mas enviou mensagem de gratidão por sua vida e trabalho, oferecendo esse belo testemunho: “A partida de quem amamos é sempre uma catequese para nós que ficamos. Contemplando a vida do Monsenhor Andreas, conseguimos colher muitos exemplos e virtudes. Cito, entre as tantas:

1) Monsenhor Andreas contribuiu notoriamente com a história de nossa Diocese. Seria difícil descrever a Diocese de Lages sem citar este nosso irmão. Contribuiu com seu ministério, com seu exemplo, sua presença, sua palavra. Como grande benfeitor, possibilitou que a Diocese tivesse muitos meios e espaços que facilitam a evangelização. Formou muitos dos sacerdotes como professor e formador. Acompanhou as atividades e deu a devida assistência à diocese como Vigário Geral.

2) Monsenhor é para nós um modelo de amor. Porque amava a Deus, sabia que seu sofrimento era passageiro. Porque amava ofereceu suas dores aos mais necessitados. Porque nos amava, jamais reclamou de qualquer enfermidade – porque pensava que iria incomodar. Nós, muitas vezes, rezamos juntos na oração das Laudes: “fazei-nos carregar o peso do dia, sem jamais murmurar contra a vossa vontade” e acredito, piamente, que essa oração lhe era muito presente.

3) Monsenhor morreu pobre. Morreu pobre, mas porque teve uma vida pobre. Entregou-se nos braços do Pai sem ter sequer um bem material. Homem de um desprendimento imenso, fez da sua vida um total doar-se. Carregava no coração um desejo: ajudar. Se para ajudar fosse preciso dar o que tinha, ele o fazia com alegria”.

Quem teve a graça de estar com Pe. Andréas percebia que era sempre o mesmo: humilde, afável, sorridente, pronto para servir. A simplicidade extrema lhe ocultava a inteligência, a atitude modesta, as responsabilidades que assumia. Engrandeceu o clero serrano, marcou a vida católica por tantos anos de dedicação integral nos seus 51 anos de ministério, sempre fiel a seu lema: “Que minhas mãos sejam uma manjedoura para que Jesus nasça todos os dias”.

Pe. José Artulino Besen

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FRANCISCO VISITA OS FILHOS DE ABRAÃO

Em Jerusalém, o abraço dos filhos de Abraão - Francisco, o Rabino e o mestre muçulmano

Em Jerusalém, o abraço dos filhos de Abraão – Francisco, o Rabino e o mestre muçulmano

A peregrinação que Francisco realizou nos dias 24, 25 e 26 de maio de 2014 à Terra Santa deve ser incluída nos caminhos dos patriarcas que demandaram Jerusalém em busca da Terra da Promessa, nos caminhos dos peregrinos judeus, cristãos e muçulmanos que há dois milênios seguem as trilhas que levam ao Jordão, a Belém, a Jerusalém. Francisco foi mais que um patriarca, mais que um profeta, mais que um bispo, porque foi patriarca, profeta e bispo ao mesmo tempo. Paulo VI, em 1964 deixou Roma simbolicamente para convidar a Igreja a retornar a Jerusalém, sob o signo do ecumenismo. João Paulo II, em 2000, quis refazer o caminho de Abraão de Ur da Caldéia a Jerusalém sob o signo da mais profunda espiritualidade bíblica que convidava os cristãos a sair da terra da segurança e buscar a “terra que te mostrarei”.

Francisco, o pobre desarmado, foi abraçar afetuosamente os povos cuja fé deita raízes em Abraão, os povos do Livro do único Deus: a Torá, o Evangelho, o Alcorão, JAWEH, o PAI, ALLAH. Jordânia, Palestina e Israel sentiram-se amados pelo Homem de vestes brancas que não veio como um novo cruzado, mas como um irmão, e irmão de verdade, sem jogos de sedução, de diplomacia, de teologia.

Nunca poderíamos imaginar o Papa de Roma dirigindo-se ao rio Jordão de carona num Jeep dirigido por Abdallah, rei da Jordânia. A simplicidade e despojamento de honras fez o bispo de Roma viver como Filipe que pega carona com o ministro da Rainha de Candace, como Pedro e Paulo que embarcam para Roma a fim de anunciar o Ressuscitado, como Jesus, o pobre de Nazaré que sobe para Jerusalém.

Os encontros de Francisco com cristãos e muçulmanos em Amman, em Belém, com judeus, muçulmanos e cristãos em Jerusalém revelaram que é possível a paz que nasce do coração pobre aquecido pelo amor, que é possível convidar a se encontrarem com ele em sua casa romana o presidente palestino Abu Mazen e o israelense Shimon Peres, convite prontamente aceito. Alguns comentaram que o convite não leva a nada, que o Papa arrisca seu prestígio com o provável fracasso. Há equívocos nessa dúvida: Francisco convidou para visitarem-no e para rezarem juntos, não para discutir alta geopolítica, e confia no poder da oração, na paz única que brota da fé no mesmo Deus de Abraão. Fora desse horizonte, sobra a paz do medo, da guerra, do comércio das armas.

Papa Francisco revelou toda sua humanidade – e a fé é verdadeira quando nos revela – ao sofrer com os cristãos perseguidos por causa da fé cristã no Oriente médio, sofrer com as crianças e adultos no campo de refugiados palestinos, sofrer com o povo judeu que até o fim da história recordará o Holocausto nazista.

Não deve ser fácil acompanhar Francisco, não porque quebre o protocolo, mas porque é intuitivo e age por inspiração: assim, é verdade que foi ao Muro das Lamentações, mas também parou no vergonhoso Muro que em Belém separa palestinos e judeus. Mas, não falou de muros, tocou-os com as mãos, gesto mais forte.

É verdade que reconheceu o direito dos palestinos a uma pátria, mas também reconheceu o mesmo direito aos judeus visitando o túmulo de Theodoro Herlz, pai do sionismo moderno. Acima de tudo, fez com que os moradores dessa região conflagrada há milênios antevissem a beleza do abraço da paz, que é possível, necessário.

Os gestos de Francisco confirmam e intensificam a beleza e profundidade de suas palavras. Há 50 anos, Paulo VI e Atenágoras se abraçaram em Jerusalém: Francisco abraçou Bartolomeu, e enriqueceu o gesto caminhando de mãos dadas, um ajudando o outro a caminhar, pediu até ao venerável Patriarca de Constantinopla que cuidasse para não escorregar no piso do Santo Sepulcro. Os dois gostariam de ir muito além, mas necessitam de levar em conta a realidade histórica e teológica de suas veneráveis Igrejas.

Num tempo, beijavam-se os pés aos papas, depois, beijava-se o anel. Em Francisco, o gesto de afeto e respeito se aprofundou: ele beija as mãos das pessoas. Beijou a mão da rainha Rânia e, em Jerusalém, beijou as mãos dos judeus sobreviventes do holocausto, num pedido de perdão em nome de toda a humanidade pelo crime inaudito do assassinato de seis milhões de judeus nos campos de concentração. Mas, normalmente beija as mãos de padres idosos, de doentes, de presidiários. São gestos de carinho, principalmente gestos de humildade que refletem a imagem de um Deus que em Jesus se abaixou, se anulou, fez-se servo mesmo sendo Senhor.

As palavras simples e diretas, acompanhadas desses gestos, possuem um efeito desarmador único e permitiram a Bergoglio ser ele mesmo até o mais profundo de seu ser. Ele ama, e o demonstra com os gestos, como ir à basílica romana de Santa Maria orar e pedir pela viagem, levando um buquê de rosas que depositou no altar. Quando em Buenos Aires, observando o esquife de um velho padre percebeu como estava pobre e saiu a comprar flores para ornamenta-lo.

O objetivo traçado para a peregrinação à Terra Santa foi celebrar os 50 anos da peregrinação de Paulo VI, rememorar o abraço entre Papa Montini e o patriarca Atenágoras. Conduzido pelo amor e pela espontaneidade, o objetivo foi suplantado pela visita a Belém e encontro com os refugiados palestinos, a parada diante do muro de Belém e o convite a Abu Mazen e Shimon Peres a rezarem com ele em sua casa no Vaticano.

Subtraindo o impacto das imagens desses gestos, suas palavras tocam profundamente, são palavras de profeta bíblico, palavras de um Pai da Igreja, palavras simples, embelezadas pelas parábolas, desafiantes.

Amman, Belém, Jerusalém – muçulmanos, cristãos e judeus

Em Amman, 24 de maio, em Missa na qual mais de mil crianças fizeram a Primeira Comunhão, anunciou o Paráclito que é o próprio Jesus e o “outro”, que é o Espírito Santo. O Espírito Santo que prepara Jesus para a missão, unge-o no Jordão e o envia: “Jesus é o Enviado, cheio do Espírito do Pai. Ungidos pelo mesmo Espírito, também nós somos enviados como mensageiros e testemunhas de paz. … A paz não se pode comprar, não está à venda. A paz é um dom que se deve buscar pacientemente e construir ‘artesanalmente’ através dos pequenos e grandes gestos que formam a nossa vida diária. Consolida-se o caminho da paz, se reconhecermos que todos temos o mesmo sangue e fazemos parte do gênero humano; se não nos esquecermos que temos um único Pai no Céu e que todos nós somos seus filhos, feitos à sua imagem e semelhança”.

Na Praça da Manjedoura, em Belém, dia 25, partiu do texto “Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lc 2, 12). Pergunta sobre nossa sensibilidade diante das crianças e afirma: “Quando as crianças são acolhidas, amadas, protegidas, tuteladas, a família é sadia, a sociedade melhora, o mundo é mais humano”. Lembra que o menino é frágil, como todas as crianças, o Menino de Belém é frágil e, no entanto, é a Palavra que se fez carne e veio transformar a história humana.

Francisco interroga tocando nossos mais profundos sentimentos de dignidade: “Quem somos nós diante de Jesus Menino? Quem somos nós diante das crianças de hoje? Somos como Maria e José que acolhem Jesus e cuidam d’Ele com amor maternal e paternal? Ou somos como Herodes, que quer eliminá-Lo? Somos como os pastores, que se apressam a adorá-Lo prostrando-se diante d’Ele e oferecendo-Lhe os seus presentes humildes? Ou então ficamos indiferentes?

‘Isto nos servirá de sinal: encontrareis um menino…’. Talvez aquela criança chore! Chora porque tem fome, porque tem frio, porque quer colo… Também hoje as crianças choram (e choram muito!), e o seu choro interpela-nos. Num mundo que descarta diariamente toneladas de alimentos e remédios, há crianças que choram, sem ser preciso, por fome e doenças facilmente curáveis. Num tempo que proclama a tutela dos menores, comercializam-se armas que acabam nas mãos de crianças-soldado; comercializam-se produtos confeccionados por pequenos trabalhadores-escravos. O seu choro é sufocado: o choro destes meninos é sufocado! Têm que combater, têm que trabalhar, não podem chorar! Mas choram por elas as mães, as Raquéis de hoje: choram os seus filhos, e não querem ser consoladas” (cf. Mt 2, 18).

Conclui, invocando Maria:

Ó Maria, Mãe de Jesus,
Vós que acolhestes, ensinai-nos a acolher;
Vós que adorastes, ensinai-nos a adorar;
Vós que acompanhastes, ensinai-nos a acompanhar.
Amem
.

Em Jerusalém, dia 26, visitou xeque Muhamad Ahmad Hussein, Grão Mufti de Jerusalém e de toda a Palestina, na Esplanada das Mesquitas e recordou as origens comuns de judeus, cristãos e muçulmanos que, cada um a seu modo, reconhecem em Abraão um pai na fé. Abraão o peregrino que se faz pobre, põe-se a caminho em busca da suspirada meta: “Esta foi a condição de Abraão, esta deveria ser também a nossa disposição espiritual. Não podemos jamais considerar-nos auto-suficientes, senhores da nossa vida; não podemos limitar-nos a ficar fechados, seguros nas nossas convicções. Diante do mistério de Deus, somos todos pobres, sentimos que devemos estar sempre prontos para sair de nós mesmos, dóceis à chamada que Deus nos dirige, abertos ao futuro que Ele quer construir para nós”.

E o convite

Amados irmãos, queridos amigos,
a partir deste lugar santo,
lanço um premente apelo a todas as pessoas
e comunidades que se reconhecem em Abraão:
Respeitemo-nos e amemo-nos uns aos outros como irmãos e irmãs!
Aprendamos a compreender a dor do outro!
Ninguém instrumentalize, para a violência, o nome de Deus!
Trabalhemos juntos em prol da justiça e da paz!
Salam!

Francisco não é conduzido por ingênuo otimismo, porque sabe a que ponto chegou a soberba humana na tentação de se construir sem Deus, contra Deus, transformando a história da civilização na história de Babel. Tem diante de si o mistério da Cruz redentora que, rejeitada, leva à fabricação de cruzes dolorosas colocadas sobre ombros já chagados de crianças, homens e mulheres, de judeus, cristãos e muçulmanos.

No mesmo dia 26, visitou o YAD VASHEM, o monumento da Memória em Jerusalém onde estão gravados os nomes dos quase seis milhões de judeus mortos pela ideologia racista do nazismo. O decreto da morte do povo judeu significou o desafio blasfemo ao Deus da Aliança, o repto humano “quem tem a última palavra?”. Extinguindo o Povo da Aliança Hitler pensava ter extinto a Aliança, depositando Deus no lixo da história. João Paulo II, Bento XVI visitaram o Memorial, e ali a palavra mais forte é o silêncio envergonhado do homem em seu estágio mais baixo de soberba e crueldade.

Francisco ali proferiu palavras perturbadoras, remontando ao pecado de Adão que se escondeu de Deus, em nome da humanidade confessando os pecados e clamando por misericórdia. Nelas escutamos não um homem, um papa, um crente, mas um profeta que escapa das páginas bíblicas:

“’Adão, onde estás?’ (cf. Gen 3, 9).
Onde estás, ó homem? Onde foste parar?
Neste lugar, memorial do Shoah,
ouvimos ressoar esta pergunta de Deus: ‘Adão, onde estás?’.
Nesta pergunta, há toda a dor do Pai que perdeu o filho.
O Pai conhecia o risco da liberdade;
sabia que o filho teria podido perder-se…
mas talvez nem mesmo o Pai podia imaginar uma tal queda, um tal abismo!
Aquele grito ‘onde estás?’ ressoa aqui,
perante a tragédia incomensurável do Holocausto,
como uma voz que se perde num abismo sem fundo…

Homem, quem és? Já não te reconheço.
Quem és, ó homem? Quem te tornaste?
De que horrores foste capaz?
Que foi que te fez cair tão baixo?
Não foi o pó da terra, da qual foste tirado.
O pó da terra é coisa boa, obra das minhas mãos.
Não foi o sopro de vida que insuflei nas tuas narinas.
Aquele sopro vem de Mim, é algo muito bom (cf. Gen 2, 7).
Não, este abismo não pode ser somente obra tua, das tuas mãos, do teu coração…
Quem te corrompeu? Quem te desfigurou?
Quem te contagiou a presunção de te apoderares do bem e do mal?
Quem te convenceu que eras deus?
Não só torturaste e assassinaste os teus irmãos,
mas ofereceste-los em sacrifício a ti mesmo, porque te erigiste em deus.
Hoje voltamos a ouvir aqui a voz de Deus: ‘Adão, onde estás?’”.

E Francisco, em nome da humanidade, eleva a Deus o único grito que tem sentido, pedindo perdão por todos os holocaustos hoje fabricados e alimentados pelas guerras:

Tende piedade de nós, Senhor!
Para Vós, Senhor nosso Deus, a justiça;
para nós, estampada no rosto a desonra, a vergonha (cf. Bar 1, 15).
Pecamos contra Vós.
Vós reinais para sempre”
(cf. Bar 3, 1-2).

O Bispo de Roma termina sua peregrinação pedindo perdão pelos pecados e confiando na graça divina que pode regenerar a história. Há dois mil anos o Filho perguntava ao Pai por que o abandonara e, hoje, Francisco nos coloca diante do Pai que, pelo Espírito de Jesus prepara, unge e envia os filhos de Abraão. Confia em nós.

Pe. José Artulino Besen 

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MONSENHOR HUBERTO BRUENING – VIDA DOADA A MOSSORÓ

Padre Huberto Bruening na juventude

Padre Huberto Bruening na juventude

Huberto Bruening (pode ser grafado Brüning), natural de São Ludgero, SC, filho de Reinaldo Bruening e de Isabel Rohden, nasceu em 30 de março de 1914. Era irmão de Pe. Clemente Bruening, sobrinho do filósofo e teólogo Huberto Rohden e primo irmão de Dom Afonso Niehues.

Com vocação despertada pelas Irmãs da Divina Providência do Colégio Sant’Ana de São Ludgero, seguiu o Pe. Jaime de Barros Câmara, que tinha ido a São Ludgero buscar seminaristas para o novo Seminário a ser iniciado em Florianópolis e, logo depois, foi transferido para Azambuja, Brusque, ocupando dois andares do Hospital local. Assim, integrou a primeira turma do Seminário Menor Metropolitano Nossa Senhora de Lourdes, onde estudou de 1927 a 1936, e cursou o ciclo básico da época, denominado Curso Ginasial e, em seguida, o Curso de Filosofia. Impressionam as disciplinas cursadas nesse estudo filosófico e, mais ainda, pelas disciplinas serem ministradas em latim: lógica, criteriologia, ontologia, cosmologia, psicologia, teodicéia, ética, liturgia, ciências naturais, história da filosofia e canto gregoriano.

Em 1935 seguiu para São Leopoldo, RS, a fim de completar a formação com os estudos teológicos. No meio tempo, aconteceu a eleição de Mons. Jaime de Barros Câmara para 1º. bispo diocesano de Mossoró, RN. Mons. Jaime era extremamente ligado aos seminaristas e não pretendia ir para o Nordeste sozinho, numa diocese carente de vocações e padres. Dom Joaquim Domingues de Oliveira, arcebispo de Florianópolis, permitiu que convidasse alguns seminaristas a acompanha-lo: Huberto Bruening, Ivo Calliari, Arlindo Thiesen, Walmor de Castro foram os que perseveraram. Excetuando Huberto, os três se integraram à vida episcopal de Dom Jaime em Mossoró, Belém do Pará e Rio de Janeiro.

Huberto chegou em Mossoró em 25 de abril de 1936, e foi excardinado da Arquidiocese de Florianópolis em 24 de setembro de 1936. Tendo completado os estudos teológicos em Fortaleza, foi ordenado sacerdote na catedral Santa Luzia, em Mossoró, em 30 de janeiro de 1938. Lema escolhido para o sacerdócio: “Pela graça de Deus sou o que sou” (1Cor 15,10).

Como homem de saber, lecionou nos seminários de Fortaleza, Belém do Pará e Santa Teresinha de Mossoró. Entre outras matérias, lecionou latim, português, alemão, filosofia e música. Durante os quase 60 vividos em Mossoró, Mons. Huberto fez quase tudo: foi Reitor de Seminário, Vigário Geral, Capelão do Hospital, Censor, Cura da Sé catedral e Presidente do Instituto Amantino Câmara, que amparava e abrigava idosos. O Instituto Amantino Câmara foi fundado por Dom Jaime de Barros Câmara em 1941, com o dinheiro que recebeu de herança do irmão, patrono da instituição. Evidente que Mossoró não era apenas a Catedral, mas incluía dezenas de capelas espalhadas pelo território do município, à época com com 3.000 km2.

Além disso, evangelizou e formou aquele povo através do rádio, onde apresentava, sempre às 18 horas, o programa “Mensagens de Fé”. Era homem de fé e de Igreja, rigoroso consigo e com os outros […] Continuar lendo…

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NOVOS CARDEAIS JUNTO À CÁTEDRA DE PEDRO

Chibly Langlois, arcebispo de Les Cayes, primeiro cardeal do Haiti

Chibly Langlois, arcebispo de Les Cayes, primeiro cardeal do Haiti

No dia 22 de fevereiro a liturgia celebra a Cátedra de São Pedro Apóstolo. A festa teve origem no século IV, quando os cristãos de Roma passaram a honrar Pedro junto a seu túmulo no Vaticano. A Antífona da Entrada motiva a celebração: “O Senhor disse a Simão Pedro: roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, por tua vez, confirma os teus irmãos” (Lc 22,32). E o Evangelho proclama a profissão de fé de Pedro, seguida da imposição do mandato (cf. Mt16, 13-19). No primeiro momento, o Pescador de Tiberíades se adianta aos discípulos: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. E Jesus: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela”.

A missão de Pedro e de seus sucessores, os papas, é confirmar os cristãos na proclamação de Jesus como Messias e Filho de Deus. Hoje é o papa Francisco que nos recorda continuamente a salvação dada por Deus Pai àqueles que aceitam o dom da fé no Senhor Crucificado e ressuscitado. Pedro confirma a fé vivida na Igreja, pois não é possível isolar Cristo de sua Igreja.

O Papa tem a autoridade única recebida por Pedro e transmitida aos sucessores, os bispos de Roma. Mas, ele não é uma solidão: é fortalecido pela oração dos fiéis e busca o conselho de teólogos, bispos e povo de Deus. Seus conselheiros principais são os Cardeais, que formam o Colégio apostólico e governam a Igreja na vacância papal e se reúnem em Conclave para eleger o Bispo de Roma, o Papa. Oficializado em 30 de setembro de 2013, Francisco nomeou o Conselho de Cardeais, com 8 Cardeais escolhidos dos cinco Continentes como conselheiros nos estudos e encaminhamentos para a reforma da Cúria romana.

Jean-Pierre Kutwa, arcebispo de Abidjan, Costa do Marfim

Jean-Pierre Kutwa, arcebispo de Abidjan, Costa do Marfim

Durante a liturgia de 22 de fevereiro é tradicional a nomeação de novos cardeais, anunciados com antecedência. Reunido em Consistório, Francisco também imporá o chapéu cardinalício a 19 cardeais, cujos nomes são conhecidos desde 12 de janeiro. Desses 19, três não são eleitores, pois ultrapassaram os 80 anos e foram nomeados como uma homenagem fraterna de Francisco. Um deles é Dom Loris Francesco Capovilla, por 10 anos secretário particular de João XXIII, que será canonizado em 27 de abril, juntamente com João Paulo II. Através de Loris Capovilla, o Papa quer recordar o extraordinário papa João XXIII, o Papa Bom. Capovilla não estará presente, pois seus 98 anos impedem-no de realizar uma viagem tão longa e participar de uma solenidade na qual ocupará um lugar visível.

Os 16 Cardeais completarão o quadro de 120 eleitores num eventual Conclave.

Papa Francisco, tão rico de sinais indicativos para a vida da Igreja, como a supressão dos títulos de Monsenhor, surpreendeu também nesse Consistório: os novos cardeais “representam a profunda relação eclesial entre a Igreja de Roma e as outras Igrejas espalhadas pelo mundo”.

Escolheu bispos de todos os Continentes, de 12 países: 5 das Américas, 2 da África e 2 da Ásia, com atenção a dois das mais pobres países do mundo como o Haiti e Burkina Faso. Esses homens levarão ao Papa e a Roma a voz de suas nações.

O Cardinalato é um serviço e não uma honra ou homenagem

Em outros Consistórios prevalecia a tradição de serem nomeados bispos de sedes “importantes”, mesmo que legalmente não existam mais sedes cardinalícias. Francisco indicou a superação da existência de Igrejas mais ou menos importantes, pois todas as Igrejas são apostólicas, todos os bispos sucedem os Apóstolos no mesmo grau e missão.

Como acontece com freqüência nas instituições, aquilo que era um serviço humilde se transforma em honraria e privilégio, e isso aconteceu também com os cardeais que passaram a ter vida própria quando, na verdade, seu sentido de existir é auxiliar o Papa. Assim, o Presidente da França, Portugal, Itália e o Rei da Espanha detinham o privilégio de impor o chapéu cardinalício ao núncio apostólico nomeado cardeal, numa cerimônia muito estranha de um arcebispo ajoelhar-se diante de uma autoridade civil [1]. Paulo VI suprimiu essa tradição.

No Brasil, as sedes episcopais de Salvador, São Paulo e Rio eram também consideradas sedes cardinalícias. Francisco não levou isso em consideração: escolheu Dom Orani Tempesta, do Rio de Janeiro, mas não o arcebispo de Salvador. Focalizou o interesse da Igreja, não eventuais homenagens.

A Igreja italiana sentiu isso com maior clareza: não foram escolhidos para o Colégio cardinalício nem o Patriarca de Veneza, nem o arcebispo de Turim. Francisco pôs os olhos em Gualtiero Bassetti, humilde bispo da pequena Peruggia, que vive na simplicidade e pobreza o ministério episcopal, quase ao estilo de Jorge Bergoglio quando arcebispo de Buenos Aires.

João XXIII nomeou o primeiro Cardeal negro, Laurean Rugambwa, em 1960

João XXIII nomeou o primeiro Cardeal negro, Laurean Rugambwa, em 1960

Maior significado ainda trouxe a escolha do primeiro cardeal da história do Haiti: buscou não o arcebispo da Capital, mas, na periferia haitiana, Dom Chibly Langlois, bispo da pequena cidade de Las Cayes. E nas Filipinas, escolheu Dom Orlando Quevedo, da diocese de Cotabato, Mindanau, que nunca teve cardeal. O Papa que veio “do fim do mundo” quer escutar os cristãos dessas periferias eclesiais.

Sempre mais seremos chamados a ver a missão cristã como serviço cristão, que a glória cristã é ocupar o último lugar. O trono cristão é participação do trono do Calvário, onde Nosso Senhor dá a vida.

Pe. José Artulino Besen


[1] Assis aconteceu em 1953, quando no Palácio de Versailles em Paris, o francês Vincent Auriol impôs o barrete no Núncio Ângelo Roncalli, cinco anos depois eleito Papa João XXIII.

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O QUE CRÊEM E VIVEM OS CATÓLICOS

Pedro e Paulo, carisma e instituição – colunas da Igreja de Cristo em Roma

No diálogo ecumênico é fundamental que cada um conheça e viva a fé de sua Igreja ou comunidade religiosa. O diálogo não visa a supressão de artigos da fé, mas sim, cada um se enriquecer a partir do conhecimento do outro. Nasce uma espiritualidade de comunhão, de respeito pela seriedade do outro. “Nós cremos de um modo diverso, mas o que nos une é muito mais forte do que nossas diferenças”.

O diálogo enriquece quem dialoga; se empobrece é dominação, não diálogo.

Quando me perguntaram “o que é ser católico romano?”, resolvi expressar a resposta nesta síntese, ponto de partida para um aprofundamento do tema.

 1 – Origem e desenvolvimento histórico

A Igreja nasce do lado direito do Cristo, donde escorrem Sangue (Eucaristia) e Água (Batismo) – Centro Aletti.

A Igreja nasce do lado direito de Cristo crucificado, donde correm Sangue e Água, o Batismo e a Eucaristia. Gerada aos pés da cruz, se expande pela missão do Espírito Santo no dia de Pentecostes. É o Povo de Deus e o Corpo Místico de Cristo.

O Catolicismo romano, que identifica a Igreja católica apostólica romana, se entende em continuidade com a primitiva comunidade de Jerusalém, desenvolvida pela missão apostólica e tendo como centro a cidade de Roma, onde os apóstolos Pedro e Paulo receberam a palma do martírio e estão sepultados.

O Espírito Santo desperta a fé no Senhor ressuscitado e anima a missão cristã.

Com a “reviravolta constantiniana” de 313, quando o imperador romano Constantino concedeu liberdade aos cristãos e pouco a pouco fez do Cristianismo a religião oficial do Império, a Igreja adquiriu uma fisionomia própria, de caráter organizacional e visível à imagem do Império. Quando a sede do Império foi transferida de Roma para Bizâncio/Constantinopla, em 322, esta cidade assumiu o título de Nova Roma e a Igreja católica romana passou a acentuar duas fisionomias bem definidas: a ocidental católica romana e a oriental, católica ortodoxa. Os dois Patriarcados (Roma e Constantinopla) desenvolveram eclesiologias diferentes: a católica romana centralizada na pessoa do Bispo de Roma, o Papa, e a católica oriental, sinodal (o que se refere à Igreja diocesana nela se decide; a comunhão entre as Igrejas não permite a autoridade de uma sobre outra).

Com as invasões bárbaras dos séculos IV-V e a queda de Roma, o Bispo de Roma e os bispos espalhados pela antiga estrutura geográfica e política do Império ocidental tiveram de assumir o processo de reorganização civil e de proteção aos mais fracos, o que fez com que, além da missão religiosa, assumissem funções administrativas e retomassem a evangelização, pois os bárbaros eram em sua maioria pagãos, ou cristãos arianos. Neste trabalho missionário manifestou-se o perigo, depois real, do sincretismo: o cristianismo católico recebeu fortes influências das culturas germânicas e anglo-saxônicas.

Abandonada pelo Imperador, Roma ficou sob a responsabilidade de seu Bispo, o Papa, que passou a governar um território, os Estados Pontifícios, que terminaram em 1870.

A Santa Sé – além de Pastor da Igreja universal, o Papa é chefe do Estado do Vaticano, incrustado na cidade de Roma, com o território atual (de 49 hectares) definido em 1929 e reconhecido pela comunidade internacional. A origem dos Estados Pontifícios (anexados à Itália em 1870) está ligada às doações do rei franco Pepino o Breve e seus sucessores a partir do século VIII. O Vaticano é reconhecido e mantém relações diplomáticas com 180 países e é membro-observador da ONU. Mesmo com o título de Chefe de Estado, o Papa não exerce mais funções administrativas.

2 – Ênfases teológicas centrais

O conteúdo da Fé católica

1)  Crê como divinamente revelada e inspirada a Sagrada Escritura composta de 73 Livros do Antigo e Novo Testamentos, neles incluídos os Deuterocanônicos, isto é, os Livros do AT escritos em grego.

2)  Professa um só Deus em três Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

3)  Professa que o Filho, Jesus Cristo, na plenitude dos tempos se encarnou na Virgem Maria e é Deus e Homem verdadeiro.

4)  Professa a Fé definida no Credo apostólico e no Niceno-constantinopolitano (proclamados em cada Liturgia dominical e festiva).

5)  Crê que a Tradição expressa a fidelidade ao conteúdo da Escritura através das decisões dogmáticas dos Concílios Ecumênicos (os sete primeiros, da Igreja Una) e Gerais do Ocidente.

6)  Aceita um Magistério (da Igreja local e da Igreja universal) como garantes da reta compreensão do texto revelado e que, nas decisões dogmáticas, possui a assistência que o Senhor prometeu à Igreja através do Espírito Santo.

7)  A Igreja católica romana crê como divinamente revelados Sete Sacramentos: o Batismo e a Eucaristia/Ceia/Missa criados diretamente pelo Senhor e constitutivos da Igreja e os outros cinco derivados de palavras ou gestos dele: Confirmação/Crisma, Penitência/Confissão, Ordem/Sacerdócio, Unção dos Enfermos e Matrimônio (A não se constatar nulidade, o Matrimônio é indissolúvel). A Celebração eucarística, constituída pela Liturgia da Palavra e Liturgia eucarística, é a Celebração do Mistério Pascal, isto é, da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão gloriosa do Senhor, sob a presidência de um bispo ou presbítero.

 3 – Poder e Serviço na Igreja

Todo cristão participa do sacerdócio universal dado pelo Batismo: sacerdócio real (santificar o mundo), profético (anunciar o Evangelho) e ministerial (assumir serviços e carismas eclesiais).

Dentre os cristãos, alguns exercem o sacerdócio sacramental, hierárquico, recebido no sacramento da Ordem e constituído pelos três graus do diaconato, presbiterato e episcopado. O episcopado inclui a sucessão apostólica, pela qual o bispo é ordenado pela imposição das mãos de três outros bispos, como garantia da unidade na Igreja. A Igreja católica reconhece como bispos aqueles que foram ordenados por outro bispo com a imposição das mãos significando a comunicação da graça do Episcopado. Os presbíteros são diocesanos ou religiosos (de uma Ordem ou Congregação).

A Igreja particular (dioceses e arquidioceses) tem como pastor um bispo validamente ordenado e com mandato apostólico (jurisdição conferida pelo Papa). Para o atendimento pastoral, as dioceses se dividem em paróquias e comunidades, confiadas a um padre. Nelas se dá a vivência quotidiana da fé.

A Igreja universal se constitui pela unidade em torno do Papa, Bispo de Roma e sucessor do apóstolo Pedro (assim o Catolicismo entende o mandado do Senhor em Mateus (16, 15-19: Tu és Pedro) em união com todos os bispos, o colégio episcopal. O Papa tem jurisdição direta e imediata sobre todas as Igrejas particulares e sobre todos e cada um dos fiéis e, no exercício de seu ministério, goza pessoalmente de infalibilidade (isto é, inerrância) quando define matéria de fé e de moral e declara explicitamente que pronuncia uma sentença infalível.

Quando ocorre o falecimento de um papa, reúne-se o Conclave – assembléia na qual o novo Papa é eleito por um Colégio atualmente fixado em 120 eleitores, constituído por Cardeais com idade abaixo de 80 anos. Na verdade, o Conclave elege um novo bispo de Roma que, como tal, é o Papa, sucessor de Pedro e Paulo.

Acontecimento decisivo na vida católica do século XX foi o Concílio do Vaticano II (1962-1965), que significou um novo Pentecostes para a Igreja. Convocado e inaugurado por João XXIII (1958-1963), o “Papa Bom”, continuado por Paulo VI (1963-1978), animou a vida eclesial impulsionando a renovação litúrgica, os estudos bíblico-teológicos e o uso da Escritura. O acento colocado na Eclesiologia do Povo de Deus foi ocasião para o rejuvenescimento da participação dos cristãos-leigos na Igreja, desclericalização da pastoral e da evangelização, novo lance missionário. Igreja como comunhão a participação. Outro fruto, de alcance ainda não mensurável, foi a abertura ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso.

 4 – Meios de santificação

Os sete Sacramentos

Os Sacramentais: incluem as bênçãos especiais e outras celebrações.

Culto: a Deus uno e trino unicamente se presta o culto de adoração.

Culto ao Santíssimo Sacramento: a Igreja católica afirma que o Pão consagrado, Corpo do Senhor, assim permanece mesmo após a Celebração da Eucaristia, tanto para ser levado aos doentes e idosos como para ser adorado. A adoração ao Santíssimo está intimamente ligada ao Mistério do Altar, a Eucaristia.

Culto aos Santos: chamado de “veneração”, diferente da adoração: é um respeito oferecido aos homens e mulheres que de modo mais pleno se transfiguraram em Cristo. Os santos são apresentados ao povo cristão como modelos de vida cristã e como intercessores. Entre todos os Santos sobressai a figura da Virgem Maria, de quem a Igreja católica afirma a imaculada conceição (concepção sem pecado), a maternidade divina, a virgindade perpétua e a assunção ao céus em corpo e alma.

Como não mais se vive numa cultura onde a imagem se identifica com ídolo (como acontecia nos tempos bíblicos), a Igreja católica aceita que os fiéis contemplem os fatos e pessoas da história da salvação, os Santos e suas vidas, através de imagens, vitrais e ícones. Também são veneradas as relíquias dos Santos.

É característica forte do catolicismo romano a oração dos vivos pelos falecidos, fruto da fé na comunhão dos Santos: há uma união misteriosa entre os vivos e os mortos, entre os que já estão na glória, os que militam na terra e os que são purificados para a posse da vida eterna (aqui se inclui a doutrina do Purgatório, fundamentada em 2Macabeus 12, 43-46). No mesmo contexto entra a doutrina das Indulgências – aplicação aos mortos das boas obras dos vivos e que deram ocasião a abusos, superstições e corrupção religiosa, contribuindo como causa imediata da Reforma protestante do século XVI.

4 – Práticas sócio-eclesiais características.

Para a santificação de seus membros, além da Palavra e dos Sacramentos, que são essenciais e levam à vida transformada pelo Amor e pela oração, a Igreja católica faculta:

Vida religiosa consagrada contemplativa e ativa: a partir do século III surgiu a vida monacal (eremitas e cenobitas) e, mais tarde, as Ordens e Congregações religiosas. Os contemplativos (como monges e monjas beneditinos, cistercienses, trapistas, carmelitas, eremitas camaldulenses, servitas, clarissas) que se retiram para a experiência da vida cenobítica (vida em comum) onde fazem a experiência da oração e do trabalho comunitário. Seu ministério é o da intercessão pela Igreja e pelo mundo. As Ordens e Congregações de vida ativa, masculinas e femininas (jesuítas, salesianos, franciscanos, capuchinhos, …), destinam-se à vida comunitária e ao trabalho evangélico junto às paróquias, aos pobres, órfãos, idosos, doentes, presidiários, missões e escolas.

Movimentos de espiritualidade leiga – Apostolado da Oração, Legião de Maria, Opus Dei, Focolarinos, Movimento Familiar Cristão, Ordem Franciscana Secular, Equipes de Nossa Senhora, Neocatecumenato, Schönstadt…, são característicos do Catolicismo romano e se orientam para a santificação conjugal, familiar, comunitária, pessoal. No século XX surgiu a Renovação Carismática católica, ou Renovação no Espírito, que tem atraído verdadeiras multidões: caracteriza-se pelo cultivo dos dons e frutos do Espírito Santo, assumindo uma veste forte de alegria, espontaneidade, celebrações vibrantes, impulso evangelizador.

Peregrinações – constitutivas de todas as religiões, as peregrinações significam o deslocamento penitencial e devocional a locais marcados pela história bíblica (a Terra Santa) ou pela presença de santos ou manifestações extraordinárias da graça divina (Roma, Cantuária, Compostela, Guadalupe, Lourdes, Fátima, Aparecida, estes últimos locais de devoção mariana). Não são isentas do aspecto lúdico, turístico e até comercial.

Devoções – fazem parte da vida religiosa pessoal. Podem ser a consagração dos meses de maio e outubro à Virgem Maria, a visita a igrejas significativas para sua vida, o culto a determinado santo ou a suas relíquias, a recitação do Rosário (durante o qual se meditam os mistérios da encarnação, paixão e glória do Senhor) e muitos outros modos. Podem ser ambíguas: levar a uma vida iluminada pela Palavra ou se deter em aspectos visíveis, emotivos e até supersticiosos.

 5 – Cisões e correntes

Já nos tempos do Novo Testamento surgiram divisões na comunidade cristã. Isso é compreensível, pois ainda não estava definida a doutrina e o mundo greco-romano era rico em correntes de pensamento. Grande ameaça à unidade foi o Gnosticismo, que identificava a fé com o conhecimento. No século V, surgiu a Igreja nestoriana (que nega a Maria o título de Mãe de Deus) e a monofisita, que não aceitou a definição do Concílio de Calcedônia (451) que definiu em Cristo uma pessoa divina e duas naturezas, divina e humana. Hoje se tem claro que essas divisões foram fruto mais da dificuldade lingüística de distinguir entre pessoa e natureza, do que problemas dogmáticos.

Duas grandes rupturas, porém, marcaram a história do cristianismo e da Igreja católica romana em particular: o Cisma grego de 1054 (entre a Igreja católica romana e a católica ortodoxa oriental) e as Reformas a partir de 1517, a que seguiu-se a organização das Igrejas evangélica, anglicana e reformada (calvinista). A Igreja católica romana inclui as Igrejas do ocidente romano, latino e as Igrejas católicas orientais que permaneceram unidas ou retornaram à comunhão com Roma, as “uniatas”.

Pelo Censo da Igreja católica romana de 2011, há um bilhão e 200 milhões de fiéis católicos.

 6 – Convicção e respeito

Às vezes se faz a pergunta: quem é católico se salva? Quem é protestante se salva? Essa pergunta nós não podemos responder, pois a salvação é dom, graça de Deus. Nós, católicos, podemos dizer: “Eu posso responder apenas isso: se vivo a minha fé na comunidade, com a consciência iluminada pelo Espírito, se vivo o Mandamento do Amor, se creio que Jesus é meu Senhor e Salvador, Deus Pai me dará a salvação”.

Pe. José Artulino Besen

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MISSÃO – ANUNCIAR A CRUZ DO SENHOR

Santo Hilário de Poitiers (315-368) foi batizado aos 30 anos e, oito anos depois, em 353, foi eleito bispo de Poitiers, atual França. Ali se deparou com o sucesso da heresia dos arianos, que afirmavam que Jesus foi um homem que Deus escolheu para ser seu Filho, deste modo não sendo eterno. Uma heresia agradável, pois não incluía a eternidade de Cristo e sua encarnação. Agradável, mas destruía o fundamento da fé cristã pela qual cremos que o Filho eterno entrou na história assumindo a natureza humana no seio virginal de Maria. O ensinamento de Ario foi condenado no Concílio de Nicéia (325), mas dividiu a Igreja.

O imperador Constâncio II queria tudo, menos uma Igreja dividida que mexeria com a paz no Império. Pendeu para o arianismo, condenando a verdadeira doutrina. Afinal, com seu pai Constantino a Igreja ganhara liberdade e deveria ser reconhecida e obediente, pensava.

Entra em campo o Bispo Hilário, que receberá o título de “martelo dos arianos”. Escreve ao imperador lamentando o fim da perseguição que trouxe a falta de liberdade de crer na verdade. Suas palavras são contundentes: (O Imperador) “é traiçoeiro e bajulador, não nos açoita as costas, mas nos acaricia o ventre; não nos confisca os bens (assim dando-nos a vida), mas nos enriquece para dar-nos a morte; nos impele não para a liberdade aprisionando-nos, mas para a escravidão convidando-nos e honrando-nos no palácio; não açoita nosso corpo, mas se apodera de nosso coração; não corta nossa cabeça com a espada, mas mata nossa alma com o dinheiro “ (Liber contra Constantium 5).

Para o santo bispo, não vale a pensa a liberdade se priva o cristão da verdade. Continua sua defesa intransigente do mistério da Encarnação. Em 364 foi exilado por outro imperador, Valentiniano I, defensor da heresia e que gostava de atirar o corpo dos adversários como comida para suas duas ursas favoritas, Migalha de Ouro e Inocência.

A exemplo de Hilário, nós também conhecemos a terrível e sedutora tentação de facilitar a fé e a vida cristãs. Assim como havia teólogos em Constantinopla dando razão ao Imperador, teólogos em Coimbra e Salamanca que justificavam a escravidão negra, não nos faltam teólogos envolvidos no heróico esforço de tornar o mistério cristão palatável aos humores atuais.

Pregadores transformam as exigências cristãs em esforço de mudança sujeita às desculpas psicológicas (a lei é assim, mas sou uma exceção, pois tenho minhas carências). Quantos de nós, cristãos, apreciamos o circo dos milagres que reduzem o Senhor a um curandeiro, esquecendo-nos o quanto Jesus repudiava ser procurado por causa de milagres: querem meus milagres, mas não querem minha pessoa!, afirmava. Há um pregador televisivo, autodenominado “apóstolo”, afirmando que não inicia uma pregação sem ao menos dez milagres. É dono de algum deus…

Sendo constitutivamente missionária, a Igreja não pode ingressar no mercado competitivo das facilidades. Não assim nos ensinaram os Apóstolos, os Mártires, não assim nos ensinam os missionários que se embrenham pelas selvas humanas do mundo das culturas. Servem-se de recursos que possibilitem a inculturação mas, no momento principal, gritarão: “O Senhor que vos anunciamos é o Filho de Deus, o Cristo crucificado! Ele ressuscitou!”. Não faltará serem acusados de loucura, escândalo, fraqueza. Não há, porém, outro caminho. Na sua viagem à Inglaterra (17/09/2010), Bento XVI afirmou que hoje “o preço a ser pago pelo Evangelho não é sermos enforcados, afogados ou esquartejados, mas, sermos ridicularizados”.

A medida do Deus amor é a cruz. Deus sofre e morre na carne para vencer a morte. Toda a conversão se orienta para o combate que leva da morte à ressurreição. A glória do cristianismo é a Cruz, árvore da vida. A árvore do Paraíso trouxe a morte, a árvore da Cruz traz a vida, pois o Senhor da Vida dela é inseparável. A facilitada negação do pecado esconde a negação da cruz: seguir o Senhor, renunciar, tomar a cruz.

No dia do batismo através dos pais e padrinhos, no dia da Crisma em nome pessoal, na Vigília pascal com a comunidade, somos convidados a proferir três vezes o “Renuncio!” ao pecado, à injustiça, às seduções satânicas. Não há “Renuncio” sem amor à cruz, à luta constante pela fidelidade ao Senhor e aos irmãos. E sem o “Renuncio” autêntico, consciente não há vida pascal, nem alegria pascal.

O conhecimento de Deus se dá pela adoração que leva ao amor, pelos joelhos dobrados que expressam humildade frente ao mistério, pelo fascínio diante da beleza oferecida a quem testemunha a beleza da Cruz por uma vida de combate em busca da transfiguração pascal.

Pe. José Artulino Besen

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O REINO DOS CÉUS – DEUS E O HOMEM SE PROCURAM

Disse Jesus: o Reino dos Céus é também como um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, ele vai, vende todos os bens e compra aquela pérola (Mt 13, 44-45).

O Reino dos Céus é um modo de relacionamento com Deus, um modo de relacionamento com Jesus que nos faz viver com ele e como ele.

Deve ser procurado. É oferecido, com certeza, mas para quem o busca. Como o alimento que está à mesa: a fome só é saciada se me aproximo dela.

O homem sai à procura de uma pérola preciosa

Assim o Reino dos Céus. O homem que não está satisfeito com sua vidinha pacata, com seu coração fechado em si mesmo, com relacionamentos interesseiros e superficiais, cheio de amor próprio, ressentimentos, que vive investindo no aparecer, num momento de inspiração se lembra de que é gente e, mais ainda, gente que deve ser pessoa. E pessoa só é possível existir quando há relacionamentos verdadeiros, respeitosos.

Esse homem irrequieto sai à procura de vida. Anda por caminhos equivocados, deixa-se enganar por miragens, facilmente é seduzido. Às vezes pensa ter encontrado Deus, mas foi apenas um deus à sua imagem egoísta. Prossegue sua busca: exulta, pois encontrou a religião verdadeira, mas não era nada disso, era apenas recheio terapêutico para seus vazios.

Prossegue, pois leva a sério sua busca. Vem o cansaço, mas a busca pela vida o ultrapassa. Surge uma sedutora tentação: sua vida está mais do que boa, ele é bom o suficiente, todos o dizem. Mas não é. Não quer parar no meio do caminho, pois será pior, terá sabor de derrota. Quer levar a vida a sério, quer encontrar um tesouro pelo qual tudo possa trocar.

E encontra. Sem esperar. Procurava pérolas preciosas e encontra uma de grande valor. O que encontrou vale mais do que tudo o que tem. Resolve realizar o investimento. Procura o dono da pérola, o preço é alto, não tem importância, desfaz-se de seus bens, consegue o montante e compra a pérola tão procurada. Por ela entregou tudo.

Secretamente, à noite, contempla o tesouro encontrado. Misteriosamente a pérola penetra seu peito e aninha-se em seu coração. Sua vida torna-se preciosa, cofre de um tesouro. Ninguém percebe a riqueza que carrega, mas percebem todos que ele mudou: sua face resplandece de alegria, tem o brilho de quem encontrou a fonte da luz.

O tesouro é Deus, seu valor está na amizade que oferece: ele e Deus são agora amigos de caminho. Deus não resolve seus problemas, que continuam, mas está do seu lado, como amigo.

Valeu a pena desfazer-se de pequenas riquezas para possuir a riqueza, de tesouros pouco valiosos para estar de posse do Tesouro: Deus.

Deus sai à procura de uma pérola preciosa

Sentiu Deus a falta de uma pérola preciosa, de valor superior ao de tudo o mais que tinha criado. Era um filho seu perdido pelos espaços do mundo, seduzido pelos vazios oferecidos. Seu Pai não o interessava mais. Não é por isso, pensou Deus: não é para ser amado que dele sinto falta. O que doía era sabê-lo perdido e vivendo na angústia que considerava o modo normal de viver.

Deus tudo deixa para encontrá-lo. Quando o acha, percebe-o indiferente, e o Pai desinteressante. Deixa claro que não sente falta de nada, muito menos de ser procurado por alguém. A vida é isso mesmo, quem não se mexe nada alcança.

Deus se aproxima dele e fala-lhe aos ouvidos. Fala-lhe ao coração. Oferece-lhe tudo. Diz o quanto sente sua falta e que há muito o procura. O filho diz que não vale tanto assim, e que seu preço é ser ele mesmo. Então o Pai lhe mostra o Filho chagado, crucificado, morto e declara: “ofereço a vida de meu Filho por sua vida! Ele e tudo o que é dele serão seus”. Não convence. Por fim, mostra-lhe o Filho ressuscitado: “Ele morreu por você e lhe oferece a vitória sobre a morte, a ressurreição”.

A palavra “ressurreição” mexeu com o filho: a vida não acaba, alguém a garantiu por ele. Tem início sua transformação do interior ao perceber o amor com que é amado, que a vida sem amor não é vida, e que amor lhe é oferecido.

Tempos depois, cedeu totalmente e Deus recebia a pérola preciosa. E escutou o Filho chamando-o: Vinde, bendito de meu Pai! Fora conquistado pelo amor.

Pe. José Artulino Besen

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