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DOM PIERRE CLAVERIE E OS 18 MÁRTIRES DA ARGÉLIA

Dom Pierre Claverie e os 18 Mártires da Argélia

No dia 8 de dezembro de 2018 a Igreja celebrará o martírio de 19 cristãos e os declarará bem-aventurados. A grande liturgia acontecerá na basílica de Santa Cruz em Oran, donde era bispo Dom Pierre Claverie. Pela primeira vez uma beatificação acontecerá num país 99% muçulmano, um grupo de mártires que incluirá Dom Claverie, os 7 monges trapistas de Tibhirine, 6 religiosas e 5 religiosos.

Na década da 1990, a Argélia foi mergulhada numa guerra com motivação religiosa: um movimento armado de islamitas se levantou contra o regime vigente para instaurar uma república islâmica, uma teocracia.  São contados 150.000 assassinatos entre os islâmicos e numerosos cristãos entre bispo, padres, religiosos e religiosas, que eram estrangeiros e tinham recebido ordens de deixar o país. Eram estrangeiros, sim, mas estavam bem integrados no mundo argelino.

Eram religiosas consagradas ao atendimento dos mais pobres, crianças, doentes inválidos, um trabalho de amor e dedicação sem nada pedir do que poder amá-los.

Durante os anos da guerra civil na Argélia, “o sangue cristão e o sangue muçulmano se misturaram, fazendo crescer a fraternidade”. Tornou-se um só sangue o dos adoradores de Deus/Alá.

Os grupos terroristas islâmicos lançaram campanha contra os estrangeiros residentes no país, especialmente contra os de nacionalidade francesa, e os lugares cristãos foram um dos seus principais alvos.

A comunidade monástica trapista da Ordem cisterciense de estrita observância

Apesar disso, os monges trapistas do mosteiro de Tibhirine decidiram permanecer devido ao forte vínculo de afeto que tinham com a população local. Na madrugada do dia 27 março de 1996, terroristas do Grupo Islâmico Armado (GIA) assaltaram o mosteiro e sequestraram 7 dos 9 monges que havia naquele momento, todos de nacionalidade francesa.

As negociações para trocar os monges pelos prisioneiros do GIA não funcionaram e, em 21 de maio de 1996, os terroristas anunciaram que tinham-nos decapitado. Suas cabeças foram localizadas em 30 de maio, mas seus corpos nunca foram encontrados.

Como surgiram esses monges? No ano de 1938 um grupo de monges trapistas franceses fundou a comunidade monástica de Nossa Senhora do Monte Atlas, em Tibhirine, Argélia. Situados num país muçulmano ocupado pela França, sem permissão de realizar conversões, esses homens de Deus tinham como sentido de sua presença estar junto dos muçulmanos, acolhê-los, conversar, colocar em comum os dons. E praticar a oração comunitária, tanto na intimidade monástica como com os irmãos que invocavam Alá.

Tudo isso não encontra explicações aos olhos do mundo, e nem de muitos cristãos. O martírio dos missionários, porém, é um dom, é uma experiência concreta do projeto de amor que Deus tem pela humanidade. O sangue que penetrou a terra argelina dela fará brotarem flores de paz. O sangue dos missionários é esperança de paz para o mundo.

Dois anos antes, em abril de 1994, o Irmão Lucas, monge médico, escrevera a um amigo, também médico, em Lyon: “É através da pobreza, do fracasso e da morte que caminhamos ao encontro de Deus”. O sete mártires do Monte Atlas, tão antigos e tão modernos, estavam disponíveis para condividir até a morte todas as alegrias e dores, angústias e esperanças, e a doar inteiramente a vida a Deus e aos irmãos da Argélia.

Dom Pierre Claverie, bispo de Oran

Dom Pierre Claverie, bispo de Oran

Em 1º de agosto de 1996, coube a Dom Pierre Claverie, bispo de Oran, também na Argélia, sofrer o martírio. Após celebrar missa pelos monges martirizados retornava à sua residência, no carro conduzido pelo motorista muçulmano Mohammed, quando uma bomba colocada na garagem explodiu, estraçalhando a tal ponto os dois corpos que tornou impossível distinguir-lhes o sangue. Entusiasta do diálogo cristão-muçulmano, Dom Pierre fecundou o amado solo argelino com sangue cristão e muçulmano, na demonstração de que o amor é forte, mais forte que a morte, que discussões religiosas.

As missões da Igreja obedecem à palavra do Senhor: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). O Evangelho, como tão evidente era para Paulo, não é uma doutrina, uma estrutura, concentrações, organizações: o Evangelho é uma pessoa, Jesus. Jesus que nos trouxe a Boa Notícia de que seu Pai é nosso Pai, e é Pai dos humildes, dos doentes, dos pecadores, dos perseguidos e perseguidores. Jesus é o narrador do Pai, o missionário é outro Jesus narrando o Pai. Aqueles missionários frágeis e fragilizados pelo ambiente eram a narração viva do Evangelho para os muçulmanos: “Querem conhecer aquele em quem nós cremos? Olhem nossa vida!”. A um repórter que perguntou aos cristãos argelinos a razão de sua missão, foi respondido: somos simplesmente cristãos.

Jesus, o pobre da Galileia, não pode ser anunciado coerentemente com meios ricos. Sua vida que narra o Pai somente é compreendida através dos meios pobres que são marcados pela cruz: a dor, o joelho dobrado em adoração, o silêncio, a oração, a contemplação, o jejum, a obediência, o sofrimento. Não permitem medições estatísticas, não dão manchetes, são marcados pelo silêncio humilde; são os meios preferidos de Deus, são os meios que tocam o coração de Deus (cf. J. Maritain, Filosofia da História, 1957).

Há sete séculos, afirmava Santo Tomás de Aquino: “O fruto da vida ativa é proporcional à plenitude da vida contemplativa”. Em outras palavras: sem a retaguarda da oração, a mais pobre dos meios pobres, a ação pastoral e evangelizadora nos deixará felizes, com a sensação do dever cumprido, mas não implantará no mundo o Reino de Deus.

Se a missão da Igreja se apoiar nos meios ricos da persuasão, da palavra bem falada, da autoridade impositiva, como já foi em outros tempos, causará impressão, será motivo de congratulações aos olhos do mundo, mas estará ocultando o Pobre de Nazaré, estará ocultando o Pobre Deus. Será inútil.

Talvez o Senhor não nos tenha concedido a graça da missão, do testemunho em terras distantes, mas nos dá sempre uma graça imensa: viver o Evangelho, ser Jesus em meio aos estrangeiros, revelar a face do Pai aos que nos cercam, aceitar a violência do desprezo, do ódio, da concorrência do sucesso.

Testamento do Irmão Christian de Chergé

Irmão Christian de Chergé

Como cristãos e cidadãos, viver a missão da paz e da reconciliação. Retornando ao Mosteiro do Monte Atlas, uma palavra escrita pelo Irmão Lucas às vésperas do sequestro: “Não penso que a violência possa extirpar a violência. Não podemos existir como homens a não ser aceitando fazer-nos imagem do amor como foi manifestado no Cristo que, justo, quis sofrer a sorte do injusto. A morte injusta de Cristo rompe a espiral infernal do ódio e dá vida a uma nova humanidade, animada pelo sopro do Espírito”.

São páginas de intensa vida mística o Testamento espiritual do Irmão Christian de Chergé, prior do mosteiro de Tibhirine, escrito em dois momentos:  em Argel, no dia 1º de dezembro de 1993, e em Tibhirine, no dia 1º de janeiro de 1994. Transcrevemos dois momentos: a aceitação do martírio e a oração por aquele que lhe provocasse a morte, a quem chama “amigo do último instante”.

Se algum dia me acontecesse – e isso poderia acontecer hoje – ser vítima do terrorismo que parece querer abarcar agora todos os estrangeiros que vivem na Argélia, eu gostaria que a minha comunidade, a minha Igreja, a minha família, se lembrassem de que a minha vida estava ENTREGUE a Deus e a este país. Que eles soubessem que o Único Mestre de toda a vida não me abandonaria nesta brutal partida. (…)

“Como posso ser digno dessa oferenda? Eu desejaria, ao chegar esse momento da morte, ter um instante de lucidez tal, que me permitisse pedir o perdão de Deus e o dos meus irmãos os homens, e perdoar eu, ao mesmo tempo, de todo o coração, aos que me tiverem ferido.”…

Por essa minha vida perdida, totalmente minha e totalmente dele, dou graças a Deus que parece tê-la querido inteiramente para a alegria, apesar de tudo. Neste ‘obrigado’, em que tudo está dito, agora, da minha vida, eu certamente incluo os amigos de ontem e de hoje, e vocês, meus amigos daqui, do lado da minha mãe e do lado do meu pai, de minhas irmãs e meus irmãos e dos seus, o cêntuplo dado como foi prometido! E a ti também, meu amigo do último instante, que não sabias o que estavas fazendo. Sim, também para ti eu quero esse ‘obrigado’, e este ‘A-Deus’ cara a cara. E que possamos nos encontrar, ladrões felizes, no Paraíso, se for do agrado de Deus, o Pai de nós dois. Amém! Im Jallah!”.

Pe. José Artulino Besen

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PADRE LUIZ CARLOS RODRIGUES

Padre Luiz Carlos Rodrigues

Na década de 60 do século passado, especialmente após o Vaticano II, falou-se bastante de vocações “adultas”, isto é, receber no seminário jovens já saídos da adolescência, com maior maturidade afetiva, que tivessem completado o 2º. Grau. A tradição formativa preferia receber vocacionados crianças e adolescentes, e os estudos seminarísticos pediam um percurso de sete anos antes de iniciar o Seminário maior, o que facilitaria o trabalho da formação integral da personalidade. A multiplicação de colégios e ginásios em municípios do interior sinalizava a possibilidade de ingressar no seminário diretamente nos estudos filosóficos, favorecendo a formação no âmbito da família e da comunidade.

Dom Afonso Niehues, arcebispo de Florianópolis, foi favorável a esse novo caminho ainda como experiência, e recebeu vocacionados encaminhados para Curitiba, diretamente para os estudos filosóficos e teológicos. Isso acarretou novas exigências, especialmente na formação humana e religiosa: era desafiante acompanhar um seminarista vindo do seminário menor ou do colégio público. Incluído nos primeiros que trilharam o novo caminho está Luiz Carlos Rodrigues.

Luiz Carlos Rodrigues nasceu em Serraria, Barreiros, São José, SC em 22 de novembro de 1946, filho de Jorge Turíbio e Benta Paulina Farias, numa numerosa família de 10 irmãos. Seu pai era pescador, embarcado, passando tempos fora de casa. Uma família pobre alicerçada na coragem e perseverança da mãe. Sua formação escolar aconteceu em colégios públicos até a conclusão do 2º Grau: estudos primários em Barreiros, ensino fundamental na Escola Industrial de Florianópolis (1960-1963) e o ensino médio no Instituto Estadual de Educação (1964-1967). Leia o resto deste post »

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PAPA FRANCISCO NOS 500 ANOS DA REFORMA

Francisco visita os luteranos na Suécia

Francisco visita os luteranos na Suécia

No dia 31 de outubro de 1517 Frei Martinho Lutero afixou suas 95 teses sobre as Indulgências na porta da igreja de Todos os Santos em Wittenberg. Foi o início não planejado da Reforma que levou à divisão da Igreja entre Católica e Luterana, levou às guerras religiosas, à fragmentação da Alemanha, à divisão da unidade européia que tinha como fundamento histórico a fé católica. Somente a Itália, Espanha e Portugal permaneceram católicos.

No dia 31 de outubro de 2016, o Papa Francisco e Igrejas luteranas celebrarão um Culto ecumênico pela passagem dos 500 anos do início da Reforma, com o tema da ação de graças, da penitência e do compromisso no testemunho comum. O objetivo é expressar os dons da Reforma e pedir perdão pela divisão perpetuada pelos cristãos das duas tradições. E, pela primeira vez, a celebração não será marcada pelos ataques teológicos, pela culpabilização, pela busca de quem estava/está certo ou errado. Afinal, quando se processa uma divisão entre irmãos na fé, com o ódio pelo outro, há culpa e acerto nos dois lados. Ecclesia semper reformanda é um mandamento que vale para o século XVI e o século XXI. Do mesmo modo que Francisco busca renovar a Igreja católica a partir da fidelidade ao Evangelho, os evangélicos também necessitam de uma renovação interior no confronto com as Sagradas Escrituras.

O encontro celebrativo dos 500 anos da Reforma será em Lund, cidade sueca onde em 1947 foi fundada a Federação Luterana Mundial, que hoje congrega 147 Igrejas protestantes.

Alguns dados biográficos do reformador alemão

Martinho Lutero (Martin Luther) nasceu em 1483 em Eisleben, de pais camponeses. Vencendo as limitações econômicas da família, entre 1501-1505 estudou na Universidade de Erfurt. Em 18 de julho de 1505, após muitas dúvidas e reflexões, entrou no Convento dos Eremitas Agostinianos de Erfurt, onde foi ordenado padre em 1507.

Em 1512, Lutero é superior do Convento Agostiniano de Wittenberg, doutor em teologia e em exegese bíblica, lecionando as Cartas paulinas aos Gálatas e ao Romanos.

Por uma formação religiosa deficiente, onde contava muito o peso e o medo da condenação eterna, Lutero sofria o pavor do inferno, e era escrupuloso. Alcançou a paz interior entre 1512-1513, na famosa Experiência da Torre (Turmerlebnis): após muita oração, Deus lhe permitiu descobrir que a salvação é dada ao homem somente pela fé em Cristo, como puro dom, e não como recompensa pelas obras: “O justo vive pela fé”  (Rm 1,17). Sentiu paz interior e nunca mais a perdeu, mesmo no ardor dos embates em que esteve envolvido.

Frei Martinho Lutero, um homem religioso

Martinho Lutero não era um monge corrupto, degenerado, psicopata, mentiroso, como durante séculos quis ensinar a apologética católica. Foi monge, viveu como monge e morreu casado; não foi anjo, nem demônio, mas testemunha de Cristo. O século XVI, século da Reforma, mostrou com clareza as deficiências da organização eclesiástica e, o que era mais grave, as deficiências na condução da espiritualidade e piedade cristãs.

Hoje, todos reconhecem em Lutero uma autêntica religiosidade. Teve uma experiência pessoal de Deus, um autêntico sentido do pecado e da própria nulidade, que vencia por uma entrega total a Cristo e uma confiança cega nele e em sua redenção. Possuía um sentido trágico da miséria humana, da qual deriva a escassa ou quase nula utilidade das muitas práticas religiosas. Grande apego à oração e uma imensa confiança na graça. A tudo isso, unia um grande amor pelos pobres.

Pela sua índole, pelos seus dotes de pregador, de chefe, de guia, pela vivíssima fantasia, rica em imagens, demonstrava estar convencido de ser enviado por Deus para anunciar uma experiência íntima e transformadora, único caminho de paz e salvação. Lutero tinha sido feito para inflamar as massas populares e convencer e agitar os ouvintes. O dom de comando, nele, se unia a uma irradiação interior e grande sensibilidade pelos outros.

Era dotado de caráter forte, unilateral, impulsivo, forte subjetivismo, com pouca disposição para aceitar mediadores entre Deus e os homens. Autêntica e profunda religiosidade, mas tendência ao autoritarismo e violência. Mesmo reconhecendo nele toda a seriedade religiosa, pode-se afirmar que faltou-lhe uma autêntica humildade, a capacidade de ouvir os outros, a Igreja.

O jesuíta alemão Ludwig Hertling, historiador da Igreja católica, reconhecendo a aventura espiritual de Lutero, afirma que por sua personalidade, força de comando, acentuou no caráter alemão algumas características que se impuseram nos séculos seguintes, até de modo trágico: a autossuficiência, arrogância, orgulho nacional, o sentido dos deveres cívicos.

É fácil e confortável apontar as deficiências de um homem, mas não se pode ignorar que Lutero foi um homem religioso, homem de oração. Sua vida não pode ser confundida com as turbulências da Reforma, onde o desejo de uma fé pura misturou-se com a ambição de príncipes ansiosos para tirar proveito das divisões e apossar-se dos bens da Igreja.

O papa João Paulo II [1], escreveu em 31 de outubro de 1983 : “Os esforços dos evangélicos e católicos que, em grande medida, coincidem nos resultados, permitiram delinear um quadro mais complexo e articulado da personalidade de Lutero e do complexo entrelaçamento das circunstâncias históricas, da sociedade, da vida política e da Igreja na primeira metade do século XVI. Resplandeceu evidente a profunda religiosidade de Lutero, com a sua problemática da salvação eterna vivida com ardente paixão”.

Os estudos do século XX revelaram com clareza a profunda religiosidade de Lutero, homem cujo impulso e paixão era a pergunta sobre a salvação eterna.

Tudo requer uma pesquisa sem preconceitos para se revelar uma imagem justa do reformador, e não somente dele, mas do período da Reforma e das pessoas nela envolvidas, reconhecendo a culpa de uma e de outra parte. Uma atitude de purificação através da verdade permite-nos encontrar uma comum interpretação do passado e, ao mesmo tempo, construir um novo ponto de partida para o diálogo hoje obtido pela clareza histórica.

O estudo dos escritos confessionais evangélico-luteranos encontram sua base sólida naquilo que nos une também depois da separação: a Palavra da Escritura, as Profissões de Fé e os Concílios da Igreja antiga.

João Paulo II, conclui: “Na humilde contemplação do Mistério da divina Providência e na devota escuta daquilo que o Espírito de Deus hoje nos ensina na recordação dos acontecimentos da época da Reforma, a Igreja tende a dilatar os limites de seu amor, para ir ao encontro da unidade de todos aqueles que, através do Batismo, carregam no nome de Jesus Cristo”.

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O drama de Martinho Lutero: como posso me salvar?

Lutero saiu da Igreja após séria luta e sem ter intenção de fazê-lo. Tornou-se reformador na luta contra uma interpretação do catolicismo que de fato era cheia de deficiências. Deixou a Igreja para descobrir aquilo que é o centro da própria Igreja: o primado da graça.

Por que houve a Reforma? Hoje podemos afirmar que ela foi provocada pelos católicos, pois Lutero era católico, monge sério e sincero, que nunca quis deixar de ser católico. Séculos de aversão a Roma, envolvida na política internacional, mergulhada no Humanismo renascentista, a decadência da própria vida católica alemã, com uma hierarquia não livre de máculas morais e corrupções (houve bispos que não celebraram três missas em longo episcopado!), mosteiros decadentes, fizeram com que boa parte da população alemã visse na pregação de Martinho Lutero o renascer do verdadeiro Cristianismo. Isso ajuda a entender porque tantos alemães, desde Carlos Magno fiéis e dóceis ao Papa, tenham aceitado romper a unidade católica.

Bento XVI analisou com empatia a questão central de Frei Lutero[2]: O que não lhe dava paz era a questão sobre Deus, que foi a paixão profunda e a mola mestra de sua vida e de seu caminho. “Como posso ter um Deus misericordioso?”: esta pergunta lhe penetrava no coração e estava por trás de toda sua pesquisa teológica e de toda a luta interior. Para Lutero, a teologia não era uma questão acadêmica, mas a luta interior consigo mesmo, na luta a respeito de Deus e com Deus. “Como posso ter um Deus misericordioso?”. Escreve Bento XVI: “que esta pergunta tenha sido a força motora de todo o seu caminho me toca sempre novamente o coração. De fato, quem hoje ainda se preocupa com isso, mesmo entre os cristãos? O que significa a questão sobre Deus em nossa vida?”.

 A pergunta “qual é a posição de Deus em relação a mim? Como eu me encontro diante de Deus?”, esta palpitante pergunta de Lutero deve novamente, e em forma nova, ser a nossa pergunta, não acadêmica, mas concreta.

O pensamento de Lutero, toda a sua espiritualidade era de todo cristocêntrica: “O que promove a causa de Cristo” era, para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura. Isto pressupõe que Cristo seja o centro de nossa espiritualidade e que o amor por ele, o viver junto com ele oriente a nossa vida.

A coisa mais necessária para o ecumenismo é, antes de tudo que, sob a pressão da secularização, inadvertidamente não percamos as
grandes coisas que temos em comum, que nos tornam cristãos. O erro da época confessional foi ter visto mais o que separa, e não ter percebido em modo existencial aquilo que temos em comum nas grandes diretrizes da Sagrada Escritura e nas Profissões de fé do cristianismo antigo.

Em sua passagem por Lund, casa mundial do Luteranismo, Francisco nos ensinará a levar adiante, com decisão, o caminho do ecumenismo, da busca da unidade na diversidade.

Pe. José Artulino Besen


[1] Mensagem de João Paulo II ao Cardeal J. Willebrands, Presidente do Secretariado para a unidade dos Cristãos, em 31 de outubro de 1983, por ocasião do 5o centenário de nascimento de Lutero.

[2] Discurso de Bento XVI no encontro com representantes da Igreja Evangélica na Alemanha, em 23 de setembro d 2011, na Sala do Capítulo do ex-Convento dos Agostinianos de Erfurt.

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DE LAMPEDUSA A LESBOS, MERGULHO NO SOFRIMENTO

Jovem refugiada em Lesbos - 2016

Jovem refugiada em Lesbos – 2016

Em julho de 2013, Papa Francisco visitou Lampedusa, pequena ilha mediterrânea localizada abaixo da Sicília, sendo o ponto geográfico italiano mais próximo da África. Ali são despejados os migrantes norte-africanos, ali perto chegam os corpos de tantos refugiados cujo transporte naufragou. Lampedusa é um lugar-testemunho da violência e da miséria humanas provocadas pela história econômica de nossa época, colocando em confronto a África explorada e a opulenta Europa.

Francisco fez dessa sua primeira viagem fora de Roma o símbolo indicativo de sua preocupação pastoral. Tanto escolhia o pobre como centro da ação cristã como mostrava ao mundo a incoerência de esconder no silêncio o grito de centenas de milhares de homens, mulheres, jovens e crianças fugitivos da miséria e da guerra que sufocam a vida nos países da África e do Oriente médio.

No dia 16 de abril de 2016, mais uma viagem simbólica de Francisco: a Lesbos, ilha grega que, como Lampedusa, funciona como depósito de migrantes e cemitério de esperanças. Viagem breve, com estadia de cinco horas, mas carregada de simbolismo: fez-se acompanhar dos ortodoxos Bartolomeus, Patriarca de Constantinopla e Hieronymos, arcebispo de Atenas. Além do ecumenismo de sangue, fundou o ecumenismo da caridade cristã indo ao encontro dos sofredores do mundo, dentre eles um significativo número de muçulmanos. O sangue da violência do martírio se une ao sangue da pobreza gerada pelas guerras sem fim (a guerra mundial em pedaços, definiu) filhas dos poderosos interesses do comércio internacional de armas, cujos interesses não levam em conta o inenarrável sofrimento dos povos.

O Papa Francisco visitou o campo de refugiados de Mória, na ilha de Lesbos, que acolhe cerca de 2.500 pessoas, refugiados excluídos da rica Europa e ali depositados enquanto esperam a devolução aos países de onde fugiram, segundo determinação legal dos países da comunidade européia. O Papa foi recebido ao som dos gritos de ‘freedom, freedom’ (liberdade, liberdade).

“Quero dizer-vos que não estais sozinhos”, declarou, depois de ter passado vários minutos a cumprimentar refugiados, muitos deles menores, de países como a Síria, Iraque, Iro, Paquistão ou Afeganistão, entre eles muçulmanos, yazidis e cristãos.

Acompanhado por um intérprete, conversou com várias das famílias presentes e recebeu desenhos de crianças como presente, prometendo guardá-los em sua mesa de trabalho. Era de cortar o coração homens e mulheres narrando suas histórias trágicas e caindo aos prantos. Testemunhavam plasticamente a maior tragédia humana desde a segunda grande Guerra.

Francisco tinha consciência do que o aguardava: “Esta é uma viagem um pouco diferente das outras, é marcada pela tristeza”, confessou aos jornalistas que o acompanharam desde Roma, no voo que aterrou em Mitilene, capital de Lesbos. Falou de um “cemitério no mar”, onde muitas pessoas se afogaram: “Vamos ver tanta gente que sofre, que é obrigada a fugir e não sabe para onde ir”.

O Papa foi acolhido em Lesbos pelo arcebispo ortodoxo de Atenas, Hieronymos II, pelo patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeus I, e pelo primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras. Após a cerimônia oficial de boas-vindas, Francisco e Tsipras encontraram-se em privado, tendo o chefe do governo grego sublinhado o “peso” que a crise dos refugiados tem representado para o país. O Papa, por sua vez, explicou que a viagem visava “agradecer ao povo grego pela sua generosidade”, que tem sido oferecida “corajosamente”, mesmo em meio à crise econômica que vive, lembrando que a Grécia, estava oferecendo “exemplo de humanidade”.

Memória, oração e caridade

A visita humanitária e ecumênica a Lesbos, como foi definida pelo Vaticano, incluiu uma visita ao campo de refugiados de Mória e uma homenagem aos migrantes que morreram no mar, quando os três bispos lançaram ao mar coroas de louro, precedidas de oração de cada um, de que transcrevemos parte.

homenagem-aos-mortos-mar-egeu

Homenagem aos mortos no Mar Egeu.

FRANCISCO

Deus de misericórdia,
pedimo-vos por todos os homens, mulheres e crianças,
que morreram depois de ter deixado as suas terras
à procura duma vida melhor.

Embora muitos dos seus túmulos não tenham nome,
cada um é conhecido, amado e querido por Vós.
Que nunca sejam esquecidos por nós, mas possamos honrar
o seu sacrifício mais com as obras do que com as palavras.

Confiamo-vos todos aqueles que realizaram esta viagem,
suportando medos, incertezas e humilhações,
para chegar a um lugar seguro e esperançoso.

Como Vós não abandonastes o vosso Filho
quando foi levado para um lugar seguro por Maria e José,
assim agora mantende-vos perto destes vossos filhos e filhas
através da nossa ternura e proteção. (…).

Ajudai-nos a partilhar com eles as bênçãos
que recebemos das vossas mãos
e a reconhecer que juntos, como uma única família humana,
somos todos migrantes, viajantes de esperança rumo a Vós,
que sois a nossa verdadeira casa,
onde todas as lágrimas serão enxugadas,
onde estaremos na paz, seguros no vosso abraço
.

BARTOLOMEU I

Senhor de misericórdia, de compaixão e de toda consolação, te pedimos pelos nossos irmãos que vivem em situações difíceis e nos voltamos para a tua Bondade: nutre os recém-nascidos; instrui os jovens; aumenta as forças dos anciãos; infunde coragem nos fracos; reúne os que estão divididos; navega junto com os navegantes; viaja com os viajantes; defende as viúvas; protege os órfãos; liberta os prisioneiros; cura os enfermos.

Recorda-te, Senhor, dos que trabalham nas minas, estão exilados, exercem um trabalho pesado, todos aqueles que vivem todo tipo de aflição, de necessidade, de perigo; e de todos aqueles que imploram a tua amorosa bondade; de todos aqueles que nos amam e daqueles que nos odeiam; infunde em todos a tua infinita misericórdia, atendendo às suas invocações para obter salvação.

HIERONYMOS II

HOMENAGEM AOS MIGRANTES MORTOS NO MAR

HOMENAGEM AOS MIGRANTES MORTOS NO MAR

Ó Deus de todo espírito e de toda carne, que venceste a morte destruindo o poder do demônio, dando vida ao cosmo, às almas dos teus servos que partiram desta vida. Tu, Senhor, dá-lhes repouso num lugar de luz, num lugar de verdes pastagens, num lugar de descanso, do qual desapareceram a dor, a tristeza e o luto. Tu, nosso Deus bom e amoroso, perdoa todo pecado cometido por eles em pensamento, palavras e obras, pois não existe homem algum que possa viver sem pecar, porque somente Tu és sem pecado: a tua justiça e a tua lei é verdade.

Ao final da viagem, os líderes religiosos assinaram empenhativa DECLARAÇÃO CONJUNTA, reportando o drama da migração e o desafio que oferece às Igrejas e aos governos envolvidos, e que assim inicia:

Nós, Papa Francisco, Patriarca Ecumênico Bartolomeu e Arcebispo Hieronymos de Atenas e de toda a Grécia, reunimo-nos na Ilha grega de Lesbos para manifestar a nossa profunda preocupação pela situação trágica de numerosos refugiados, migrantes e requerentes asilo que têm chegado à Europa fugindo de situações de conflito e, em muitos casos, de ameaças diárias à sua sobrevivência. A opinião mundial não pode ignorar a crise humanitária colossal, criada pelo incremento de violência e conflitos armados, a perseguição e deslocamento de minorias religiosas e étnicas e o desenraizamento de famílias dos seus lares, violando a sua dignidade humana, os seus direitos humanos fundamentais e liberdades.

A tragédia da migração e deslocamento forçados afeta milhões de pessoas e é, fundamentalmente, uma crise da humanidade, clamando por uma resposta feita de solidariedade, compaixão, generosidade e um compromisso econômico imediato e prático. (…)

No momento da despedida, um emocionado Francisco expressou sua gratidão com essas palavras: A vós, eu digo obrigado, porque sois guardiões da humanidade, porque cuidais ternamente da carne de Cristo, que sofre no menor dos irmãos, faminto e forasteiro, que acolhestes (cf. Mt 25, 35).

No mesmo avião de retorno, o Papa levou consigo 12 pessoas de três famílias muçulmanas, que foram assumidas pelo Vaticano e acolhidas na Comunidade Santo Egídio. A velha Europa, pátria dos direitos humanos, é desafiada a acolher os pobres do mundo e a repartir do muito que recebeu desses mesmos povos deserdados da vida que chegam a suas fronteiras.

Pe. José Artulino Besen

 

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FRANCISCO NA TERRA DE PAULO E ANDRÉ

Na Mesquita Azul, descalço, reza com o Grão Mufti Mehmet

Na Mesquita Azul, descalço, reza com o Grão Mufti Mehmet

Em sua sexta viagem apostólica, Francisco dirigiu-se à Turquia, na Ásia Menor, epicentro dos conflitos atuais no mundo árabe, da guerra civil na Síria, no Iraque, palco da fúria do auto-intitulado Califado Islâmico que pretende reviver, às custas da violência sem limites, os antigos sonhos de um domínio religioso da sociedade. A Turquia procura manter o equilíbrio entre tantas pendências geográficas, políticas, religiosas e econômicas, naturalmente que salvaguardando seus interesses geopolíticos, nem sempre ficando claras suas intenções e compromissos. Sempre que há o uso das armas, a verdade é escondida, e assim todos parecem inocentes, bombardeando e destruindo a serviço “do bem”.

Mas, para o mundo cristão, a Turquia é a pátria do Apóstolo Paulo de Tarso, é o solo sagrado dos sete primeiros concílios ecumênicos, dos Santos Pais da Igreja, dos mártires. Numa cidade turca, Éfeso, Maria morou com João, reza a tradição. Em sua capital hodierna está localizada a Igreja fundada por Santo André, o primeiro apóstolo chamado por Jesus, Constantinopla. E foi para visitar Bartolomeu I, patriarca sucessor de André, que Francisco deixou a Roma de Pedro entre 28 e 30 de novembro.

Hoje, 98% da população turca professa a fé muçulmana, e pouco menos de 2%, a fé cristã. Numericamente pequena, e ainda assim dividida em diversas Igrejas, Ritos e Patriarcados. Na primeira parte de sua peregrinação, o Papa foi ao mundo muçulmano representado pelo presidente turco Erdogan e pelo Grão Mufti de Istambul. Descalço – os muçulmanos comentaram “Ele faz como nós”, repetindo o gesto de Bento XVI, Francisco entrou na Mesquita Azul para silenciosa oração. Os discursos oficiais foram uma denúncia forte do uso da religião para justificar a violência, a rejeição de qualquer legitimidade nas ações militares em nome de Deus, um pedido angustiado pela acolhida aos refugiados da guerra e da miséria. Francisco também visitou Santa Sofia, a grande basílica ortodoxa do século VI, a partir de 1453 mesquita, e de 1938 em diante museu. Quando Paulo VI nela entrou em 1967, caiu de joelhos sob o êxtase causado pelo impacto da história, sendo muito criticado pelos muçulmanos, que viram no gesto um querer retomar a propriedade. Paulo VI apenas queria rezar, mas nestas terras cada pequeno sinal recorda imensidões de fatos históricos e antigas sensibilidades.

O ecumenismo do martírio

Os momentos fortes da viagem apostólica estavam reservados ao encontro fraterno com a Igreja de Constantinopla, separada de Roma desde o ano de 1054. Há 50 anos, em Jerusalém, Paulo VI encontrou-se com o Patriarca Atenágoras, trocando-se o beijo da paz e em seguida suspendendo as bulas de excomunhão de 1054. Acordava-se, nesse encontro, a decisão irrevogável de buscar a unidade cristã, vendo-se com clareza que não há sentido nas divisões cristãs. O caminho é longo, faltam muitos passos ainda, mas existe decisão, porque assim o Senhor determina. Muitas questões nascem de sutilezas teológicas e não foi por menos que naquele 1964 Atenágoras brincou com Paulo VI dizendo que no dia em que se recolhessem todos os teólogos numa ilha, haveria a unidade…

Patriarca Bartolomeu abençoa Papa Francisco e a Igreja de Roma

Patriarca Bartolomeu abençoa Papa Francisco e a Igreja de Roma

No dia 29, sábado, Francisco encontrou-se com Bartolomeu e ali pudemos contemplar a espontaneidade fraterna desses grandes homens: o Papa inclinou a cabeça pedindo que o Patriarca o abençoasse e à Igreja católica, o Patriarca beijou a mão pedindo a bênção do Papa. Pedro e André se encontraram e se abraçaram. No dia 30, domingo, Francisco assistiu à Divina Liturgia na Igreja de São Jorge, sede do Patriarcado de Constantinopla. Não pôde partilhar o Pão eucarístico, porque falta a unidade na fé. Sofrimento para os dois. Pouco antes, o Bispo de Roma disse palavras extremamente importantes: que Roma e Constantinopla, que a ortodoxia e o catolicismo, o Oriente e o Ocidente, devem buscar a unidade sem nenhuma imposição, sem nenhuma pretensão de domínio canônico, bastando que a unidade tenha como fundamento a prática cristã do primeiro milênio, cada Igreja respeitando as diferentes tradições canônicas e litúrgicas. Bento XVI disse as mesmas palavras, e é bom que se diga, porque alguns afirmarão que Francisco não leva a teologia a sério.

Na declaração conjunta, após a Divina Liturgia, reafirmaram a decisão da busca da unidade e, muito tocante, lembraram que hoje está acontecendo o ecumenismo de sangue, pois cristãos no Oriente estão sendo mortos pela fé em Cristo e não se lhes pergunta se são católicos, evangélicos, ortodoxos, antioquenos: “Estamos unidos no martírio”, comentou Francisco. O sangue derramado pela fé é o grande ecumenismo que se acrescenta ao ecumenismo teológico, ao espiritual, ao fraternal. Aos católicos de Constantinopla: “Nós, cristãos, nos tornamos autênticos discípulos missionários, capazes de interpelar as consciências, se abandonarmos um estilo defensivo para deixarmo-nos conduzir pelo Espírito, deixando de lado qualquer tentação de olhar-se a si mesmos”.

Dirigindo-se para o embarque, Francisco visitou a obra salesiana que acolhe uma centena de crianças vítimas da guerra, filhos de refugiados. Queria visitar muitos mais, porém não teve autorização. Ali clamou pela misericórdia para com tantas milhares de crianças, mães, jovens vítimas de uma guerra sem sentido, de bombas que são jogadas sem nenhuma consideração pela vida humana, como se as pessoas fossem descartáveis. Bombas que ampliam o raio de violência rumo ao Oriente e à África. As palavras e gestos de Francisco foram convite aos muçulmanos e cristãos, aos cristãos entre si, para que se quebre a lógica da violência. Visitando o Grão Rabino também incluiu o povo da Antiga Aliança no processo da paz.

Num convite à unidade, Francisco abriu a todos os braços e o coração: “Encontrar-nos, olhar a face um do outro, trocar o abraço da paz, rezar um pelo outro são dimensões essenciais do caminho para o restabelecimento da plena comunhão que buscamos”.

Pe. José Artulino Besen

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SÍNODO DOS BISPOS – IGREJA FAROL E IGREJA TOCHA

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E DEUS OS FEZ HOMEM E MULHER – Igor Mitoraj

Graças ao falar misericordioso de Francisco desde o início de seu ministério como bispo de Roma, também nas intervenções sinodais prevalece a afirmação da misericórdia, da compreensão, do acompanhamento frente às diversas situações vividas pelos casais. Para Francisco, “é tempo de propor caminhos de diálogo, de misericórdia”. Distante dos discursos que viam nos tempos presentes apenas heresia, imoralidade, blasfêmia, nos defrontamos com o caminho aberto pelo Concílio em cujo discurso de abertura São João XXIII afirmou que “a Igreja prefere servir-se da misericórdia em vez do rigor”, e o Bem-aventurado Paulo VI explicava que “a misericórdia é a chave hermenêutica dos Mandamentos”.

Quem tem oportunidade de acompanhar as intervenções dos Padres sinodais percebe o clima propositivo, distante das fáceis afirmações que denunciam a homossexualidade como “intrinsecamente desordenada”, a “mentalidade contraceptiva”, o “hedonismo egoísta”, as ideologias aberrantes que atacam a família, a influência invasiva dos meios de comunicação. As solenes condenações apenas facilitam a vida de quem pretende passar à história como defensor incansável da verdade. O estilo combativo em nada auxilia as pessoas a se aproximarem de Jesus Cristo, cuja mensagem e vida foi sempre misericordiosa, de vizinhança dos que viviam situações difíceis. É belo e verdadeiro anunciar que o amor divino da Trindade é o modelo do amor humano entre os esposos, mas, não se pode esquecer que na maioria das vezes o amor conjugal é ferido pelo pecado, marcado por uma história de lutas e limitações, sofrimentos e privações que devem ser levados em conta no relacionamento com os casais. Cristo veio para nos redimir do enfraquecimento da graça provocado pelo pecado original. Ele é o redentor dos caminhantes no caminho de superar o pecado e não aquele que vem selecionar os bons e condenar os pecadores. A fraqueza pessoal inerente à condição humana permanece na existência do homem e da mulher unidos pelo matrimônio.

O jesuíta Antônio Spadaro, especialista em comunicação, foi muito feliz ao se referir a dois modelos de Igreja: a Igreja-farol e a Igreja-tocha. O farol é sólido, construído sobre um morro, ou sobre uma rocha no mar, para indicar os perigos aos navegantes. Sua luz é forte para orientar. Igreja-farol é a Igreja luz da verdade. A tocha acompanha uma procissão, um caminhante, sua luz é mais fraca, mas orienta o suficiente para evitar quedas, esbarradas. A Igreja-tocha é a Igreja que acompanha, caminha na história, entre as pessoas. As duas são necessárias: a luz da tocha é frágil e o vento pode apagá-la, por isso a necessidade do farol. Infelizmente, acontece preferirmos ser farol, denúncia do erro, proclamação da verdade, deixando de acompanhar as pessoas concretas, de carne e osso, nas suas alegrias e tristezas. Normalmente conhecemos o farol, mas necessitamos muito de uma chama, que pode até ser frágil, mas aquele que a carrega está ao nosso lado.

O encontro da doutrina com a vida real

O Sínodo, pelo fato de contar com o resultado das consultas feitas em todo o mundo a respeito de 38 temas, se encaminha para a pastoral concreta com pessoas concretas. Quando foram apresentados ao Papa possíveis temas a serem nele tratados, em primeiro lugar foram apresentadas temáticas cristológicas e antropológicas, preocupações de cunho doutrinal. A novidade introduzida por Francisco está na passagem do doutrinal para o real.

Papa Francisco

Papa Francisco

O Cardeal de Aparecida, Dom Raimundo Damasceno, na 6ª. Congregação Geral (dia 8-10) apresentou situações familiares difíceis e reais que exigem urgente resposta pastoral: as convivências; as uniões de fato; a situação dos separados, dos divorciados e dos divorciados recasados; os filhos e aqueles que permanecem sozinhos; as jovens mães; as situações de irregularidade canônica; o acesso aos sacramentos, nestes casos; o cuidado pastoral das situações difíceis, entre as quais os casais gays. A respeito dessas situações, afirmou o Cardeal: “Longe de nos fecharmos numa atitude moralista, queremos penetrar no profundo destas situações difíceis para acolher quem nelas está envolvido, para fazer da Igreja a casa paterna onde há lugar para cada um com sua vida provada por dificuldades”.

Permanece tenso o clima entre os Padres que olham apenas o aspecto doutrinal da indissolubilidade e os que buscam um caminho para o acesso aos sacramentos da parte dos divorciados recasados, o que inclui a revisão dos processos de nulidade de matrimônios. Há quem defenda o caminho da “nulidade espiritual” para casamentos que se desfazem em dois anos. Nesses casos, 95% das decisões dos tribunais são favoráveis e, sendo assim, por que fazer o casal passar por um processo caro e demorado e não permitir que a decisão seja tomada pelo bispo diocesano ou vigário geral? Como caminho de estudo, são três as possíveis soluções, sintetizadas pelo Cardeal Coccopalmerio, da Comissão para os Textos Legislativos: a eliminação da dupla sentença, a eliminação do colegiado de juizes (basta a sentença de um juiz), e o procedimento administrativo, ou seja, a nulidade declarada diretamente pelo bispo local em casos de matrimônio “certamente nulo”.

Dom Rino Fisichella, do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização observou que o sacramento do matrimônio ficou engessado num excesso de acentuação canonística em que o legal foi substituído pelo legalismo, de certo modo enfraquecendo a dimensão sacramental.

Iniciando a apresentação de novo tema, os métodos não naturais de controle da natalidade, o casal brasileiro Artur e Hermelinda Zamperlini foi revolucionário ao afirmar que os métodos naturais “são bons, mas na cultura atual nos parecem privados de praticidade” e os casais católicos “na grande maioria não recusam a utilização de outros métodos contraceptivos”. Realçaram a importância da vida sexual porque “um casamento é fecundo não só porque gera filhos, mas porque ama e amando se abre à vida”.  O casal é o lugar onde se articulam as três funções da sexualidade: a função relação, a função prazer e a função fecundidade. O casal se constrói ao integrar de forma equilibrada essas três dimensões.

Concluindo: a Igreja não deve assumir a atitude de um juiz que condena, mas a de uma mãe que sempre acolhe seus filhos, trata suas feridas com vistas à cura. Misericórdia, acompanhamento, compreensão e paciência são atitudes cristãs no acolhimento de tantos casais em busca de reconciliação.

Pe. José Artulino Besen

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SÍNODO DOS BISPOS – MEDO E PROFECIA

 

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O Papa Francisco foi eleito em 2013 num Conclave onde se pediam reformas estruturais na Igreja. E iniciou o ministério petrino fiel ao que os Cardeais eleitores assinalaram nas congregações gerais antes do conclave. Evidente que sua pessoa foi uma surpresa do Espírito: um argentino sem solenidades, humano, com cheiro de pobres e pecadores.

Iniciou pela reforma das finanças vaticanas, contrariando interesses poderosos e até mafiosos. Não era possível que os católicos continuassem a ouvir que havia corrupção, desperdício, lavagem de dinheiro na Santa Sé. Isso foi feito com rigor e o Banco do Vaticano está prestes a receber a aprovação da banca mundial atestando que adotou a legislação internacional pertinente à lavagem de dinheiro. Ao mesmo tempo, age na vida interna da Igreja com relação aos bens, às suntuosidades, não receando punir desperdiçadores, o que faz com que os cristãos ousem pedir bispos e padres pastores e não administradores.

Toma decisões, mesmo que dolorosas, nisso seguindo e aprofundando a coragem de Bento XVI que, em sete anos de Pontificado, demitiu centenas de padres e numerosos bispos por escândalos ou seu acobertamento. A prisão do núncio Wesolowski, um arcebispo, a demissão do bispo paraguaio Livieres é indicação clara: foi-se o tempo das dinâmicas clericais que desfiguram o rosto da Igreja, das patologias que se expressam nos compromissos que alimentam o carreirismo clerical, sinaliza-se o final do excesso de burocracia, onde um monsenhor curial detinha mais poder do que uma Conferência episcopal. Tudo isso produz(ia) uma patologia esclerosada na vida das dioceses onde bispos carreiristas multiplicavam e alimentavam a dependência com relação a Roma, tendo em vista sua própria carreira e, com essa finalidade, entupiam Roma com questões que um padre, para não dizer um bispo, deve e pode responder com o discernimento pastoral.

Antes disso tudo, porém, a pessoa e a vida de Francisco dão testemunho de sua vida de pastor que vive a simplicidade evangélica: residindo na Casa Santa Marta, libertou-se do isolamento do Palácio apostólico, tem contato real com pessoas e, decisivo, sua Missa diária com breves homilias faz com que entre em contato espiritual e pastoral com o povo católico. Nunca se viu isso no último milênio: um Papa que fala como pároco de aldeia, que comenta a Palavra sem se escudar em afirmações doutrinais. Francisco é um Papa da Palavra, do encantamento do Evangelho, revelando-nos a cada dia o rosto do Pai narrado pelo Filho.

A maioria do povo cristão sente natural empatia por Francisco, bispo de Roma “que veio do fim do mundo”, escuta sua palavra e reanima as esperanças enfraquecidas por anos de escândalos e intrigas, como os que fizeram sofrer Bento XVI, cercado por uma corte que o controlava. Sinal evidente disso: o Papa aparece no meio do povo e nas audiências sem a antiga onipresença do Secretário de Estado.

Evidente, há muitos que não estão contentes, revoltados até com esse Papa que ocultamente acusam de pouco preparo teológico, destruidor da tradição, de fala intempestiva, demagogo nos gestos e decisões. Aproveitam os meios de comunicação ou conversas para tirar qualquer legitimidade a tudo o que Francisco faça ou diga. Oficialmente, protestam fidelidade irrestrita e, reservadamente, alimentam irrestrita infidelidade. Antes, o posicionamento era mais fácil e compensador: tudo se inseria no binômio conservador (fiel) / progressista (infiel) que alimentava carreiras e pretensas ortodoxias. Era muito bom esperar uma nomeação como recompensa pela fidelidade ao Papa, mas, no estilo de Bergoglio, o que decide é a fidelidade aos pobres, a abertura às questões sociais, ser pastor que saiba falar sem berrar, não importando ser conservador ou progressista.

O Sínodo da fidelidade e da misericórdia

Num gesto sem precedentes, Francisco delegou ao Sínodo a redação do documento final, contra o costume anterior de se levar as conclusões ao Papa e que depois redigia uma exortação apostólica. O Papa crê na assistência do Espírito numa assembléia sinodal. Os representantes das 114 conferências episcopais trabalharão a idéia que Francisco tem da Igreja como “hospital de campanha” no qual se age com “misericórdia”, sobretudo com os “feridos”, sem menosprezar os temas mais espinhosos de nossa época. O Cardeal hondurenho, Oscar Maradiaga, coordenador do Conselho de Cardeais, pediu mais flexibilidade ao Card. Müller, do ex-Santo Ofício, intransigente com relação aos divorciados recasados: “O mundo, meu irmão, não é assim. Não é preto sobre branco”.

Os sinodais discutirão casos humanos e delicados hoje se multiplicando: como trabalhar pastoralmente pessoas do mesmo sexo que adotaram crianças com vistas à transmissão da fé? O que diz o povo que está nas “periferias” da comunidade cristã? Em janeiro passado o Papa falou aos superiores gerais das ordens religiosas: “Os filhos dos casais gays e de pais separados apresentam desafios educativos novos à Igreja”.

O Sínodo sobre a família, de 4 a 19 de outubro, oferece uma demonstração bela de que Francisco não trabalha com projetos abstratos e solitários, o que seria mais simples: reafirmar a doutrina da Igreja sobre o sacramento do matrimônio, denunciar os desvios. Em nenhum momento está em jogo a indissolubilidade matrimonial, do mesmo modo que acolher um pecador não põe em jogo a lei divina. Mas, pode-se entender: há bispos, teólogos, leigos e padres burocratas bem intencionados, longe do povo, incapazes de estar próximos dos homens e das mulheres na vida real.

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Francisco autografa no gesso de menina – 3-04-2013

O Evangelho é tão simples que incomoda os amantes das tradições clericais e demoras canônicas. É tão simples como Jesus de Nazaré que fez-se pobre e recolheu à sua volta pecadores, pobres, doentes, doidos, o povo. Francisco tem o instinto do amor e do afeto: sente as dores e alegrias do povo que, por sua volta, nele sente um pai, um amigo.

O Sínodo, que se prolonga e conclui num outro Sínodo em 2015, apresentará o casamento como aliança entre homem e mulher em comunhão de amor, fidelidade e fecundidade. Um de seus frutos será reanimar o desejo de constituir uma família. E constatará o colapso da cultura do casamento, a mentalidade anti-casamento. A família ficou problemática, com frutos dolorosos para pais e filhos, para a vida cristã. O matrimônio é indissolúvel e, ao mesmo tempo, canonistas do porte de um Pe. Jesus Hortal afirmam que 60% dos casamentos não são sacramentos, pois, ou falta a fé necessária ou incluem impedimentos para um verdadeiro sacramento. O que fazer para tantos casais que, numa segunda união, vivem um amor verdadeiro, educam os filhos na fé? Não seria possível reestudar os processos de declaração de nulidade matrimonial? Não seria melhor suprimir a necessidade de sempre recorrer a uma segunda instância? O bispo não teria autoridade e discernimento para decidir casos particulares?

Em 27 de agosto o Vaticano anunciou a criação de uma “Comissão especial de estudo para a reforma do processo matrimonial canônico”, para simplificar seu encaminhamento, torná-lo mais rápido e justo. Fazem parte da Comissão canonistas, bispos, padres e leigos. O ato é importante: o Sínodo não será dominado por alguns Cardeais que, com o peso do cargo, podem centrar tudo na indissolubilidade e assim encerrar as discussões, e pode encontrar um caminho de misericórdia para tantos casais que sofrem e estão cansados e desanimados diante de tribunais que levam até décadas para decidir. O falecido Cardeal Martini afirmou, em seus últimos dias: os cristãos precisam de mais sacramentos, de mais graças, pois os sacramentos são para os pecadores. Ao invés, queremos reduzir os que podem recebê-los, condenando-os à anemia espiritual.

Francisco deseja um encontro fiel e evangélico. O Sínodo não é uma competição entre dois times, mas um encontro na coragem que brota da fé de uma mesma torcida, os fiéis cristãos.

Pe. José Artulino Besen

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