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PADRE LUIZ CARLOS RODRIGUES

Padre Luiz Carlos Rodrigues

Na década de 60 do século passado, especialmente após o Vaticano II, falou-se bastante de vocações “adultas”, isto é, receber no seminário jovens já saídos da adolescência, com maior maturidade afetiva, que tivessem completado o 2º. Grau. A tradição formativa preferia receber vocacionados crianças e adolescentes, e os estudos seminarísticos pediam um percurso de sete anos antes de iniciar o Seminário maior, o que facilitaria o trabalho da formação integral da personalidade. A multiplicação de colégios e ginásios em municípios do interior sinalizava a possibilidade de ingressar no seminário diretamente nos estudos filosóficos, favorecendo a formação no âmbito da família e da comunidade.

Dom Afonso Niehues, arcebispo de Florianópolis, foi favorável a esse novo caminho ainda como experiência, e recebeu vocacionados encaminhados para Curitiba, diretamente para os estudos filosóficos e teológicos. Isso acarretou novas exigências, especialmente na formação humana e religiosa: era desafiante acompanhar um seminarista vindo do seminário menor ou do colégio público. Incluído nos primeiros que trilharam o novo caminho está Luiz Carlos Rodrigues.

Luiz Carlos Rodrigues nasceu em Serraria, Barreiros, São José, SC em 22 de novembro de 1946, filho de Jorge Turíbio e Benta Paulina Farias, numa numerosa família de 10 irmãos. Seu pai era pescador, embarcado, passando tempos fora de casa. Uma família pobre alicerçada na coragem e perseverança da mãe. Sua formação escolar aconteceu em colégios públicos até a conclusão do 2º Grau: estudos primários em Barreiros, ensino fundamental na Escola Industrial de Florianópolis (1960-1963) e o ensino médio no Instituto Estadual de Educação (1964-1967). Leia o resto deste post »

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PAPA FRANCISCO NOS 500 ANOS DA REFORMA

Francisco visita os luteranos na Suécia

Francisco visita os luteranos na Suécia

No dia 31 de outubro de 1517 Frei Martinho Lutero afixou suas 95 teses sobre as Indulgências na porta da igreja de Todos os Santos em Wittenberg. Foi o início não planejado da Reforma que levou à divisão da Igreja entre Católica e Luterana, levou às guerras religiosas, à fragmentação da Alemanha, à divisão da unidade européia que tinha como fundamento histórico a fé católica. Somente a Itália, Espanha e Portugal permaneceram católicos.

No dia 31 de outubro de 2016, o Papa Francisco e Igrejas luteranas celebrarão um Culto ecumênico pela passagem dos 500 anos do início da Reforma, com o tema da ação de graças, da penitência e do compromisso no testemunho comum. O objetivo é expressar os dons da Reforma e pedir perdão pela divisão perpetuada pelos cristãos das duas tradições. E, pela primeira vez, a celebração não será marcada pelos ataques teológicos, pela culpabilização, pela busca de quem estava/está certo ou errado. Afinal, quando se processa uma divisão entre irmãos na fé, com o ódio pelo outro, há culpa e acerto nos dois lados. Ecclesia semper reformanda é um mandamento que vale para o século XVI e o século XXI. Do mesmo modo que Francisco busca renovar a Igreja católica a partir da fidelidade ao Evangelho, os evangélicos também necessitam de uma renovação interior no confronto com as Sagradas Escrituras.

O encontro celebrativo dos 500 anos da Reforma será em Lund, cidade sueca onde em 1947 foi fundada a Federação Luterana Mundial, que hoje congrega 147 Igrejas protestantes.

Alguns dados biográficos do reformador alemão

Martinho Lutero (Martin Luther) nasceu em 1483 em Eisleben, de pais camponeses. Vencendo as limitações econômicas da família, entre 1501-1505 estudou na Universidade de Erfurt. Em 18 de julho de 1505, após muitas dúvidas e reflexões, entrou no Convento dos Eremitas Agostinianos de Erfurt, onde foi ordenado padre em 1507.

Em 1512, Lutero é superior do Convento Agostiniano de Wittenberg, doutor em teologia e em exegese bíblica, lecionando as Cartas paulinas aos Gálatas e ao Romanos.

Por uma formação religiosa deficiente, onde contava muito o peso e o medo da condenação eterna, Lutero sofria o pavor do inferno, e era escrupuloso. Alcançou a paz interior entre 1512-1513, na famosa Experiência da Torre (Turmerlebnis): após muita oração, Deus lhe permitiu descobrir que a salvação é dada ao homem somente pela fé em Cristo, como puro dom, e não como recompensa pelas obras: “O justo vive pela fé”  (Rm 1,17). Sentiu paz interior e nunca mais a perdeu, mesmo no ardor dos embates em que esteve envolvido.

Frei Martinho Lutero, um homem religioso

Martinho Lutero não era um monge corrupto, degenerado, psicopata, mentiroso, como durante séculos quis ensinar a apologética católica. Foi monge, viveu como monge e morreu casado; não foi anjo, nem demônio, mas testemunha de Cristo. O século XVI, século da Reforma, mostrou com clareza as deficiências da organização eclesiástica e, o que era mais grave, as deficiências na condução da espiritualidade e piedade cristãs.

Hoje, todos reconhecem em Lutero uma autêntica religiosidade. Teve uma experiência pessoal de Deus, um autêntico sentido do pecado e da própria nulidade, que vencia por uma entrega total a Cristo e uma confiança cega nele e em sua redenção. Possuía um sentido trágico da miséria humana, da qual deriva a escassa ou quase nula utilidade das muitas práticas religiosas. Grande apego à oração e uma imensa confiança na graça. A tudo isso, unia um grande amor pelos pobres.

Pela sua índole, pelos seus dotes de pregador, de chefe, de guia, pela vivíssima fantasia, rica em imagens, demonstrava estar convencido de ser enviado por Deus para anunciar uma experiência íntima e transformadora, único caminho de paz e salvação. Lutero tinha sido feito para inflamar as massas populares e convencer e agitar os ouvintes. O dom de comando, nele, se unia a uma irradiação interior e grande sensibilidade pelos outros.

Era dotado de caráter forte, unilateral, impulsivo, forte subjetivismo, com pouca disposição para aceitar mediadores entre Deus e os homens. Autêntica e profunda religiosidade, mas tendência ao autoritarismo e violência. Mesmo reconhecendo nele toda a seriedade religiosa, pode-se afirmar que faltou-lhe uma autêntica humildade, a capacidade de ouvir os outros, a Igreja.

O jesuíta alemão Ludwig Hertling, historiador da Igreja católica, reconhecendo a aventura espiritual de Lutero, afirma que por sua personalidade, força de comando, acentuou no caráter alemão algumas características que se impuseram nos séculos seguintes, até de modo trágico: a autossuficiência, arrogância, orgulho nacional, o sentido dos deveres cívicos.

É fácil e confortável apontar as deficiências de um homem, mas não se pode ignorar que Lutero foi um homem religioso, homem de oração. Sua vida não pode ser confundida com as turbulências da Reforma, onde o desejo de uma fé pura misturou-se com a ambição de príncipes ansiosos para tirar proveito das divisões e apossar-se dos bens da Igreja.

O papa João Paulo II [1], escreveu em 31 de outubro de 1983 : “Os esforços dos evangélicos e católicos que, em grande medida, coincidem nos resultados, permitiram delinear um quadro mais complexo e articulado da personalidade de Lutero e do complexo entrelaçamento das circunstâncias históricas, da sociedade, da vida política e da Igreja na primeira metade do século XVI. Resplandeceu evidente a profunda religiosidade de Lutero, com a sua problemática da salvação eterna vivida com ardente paixão”.

Os estudos do século XX revelaram com clareza a profunda religiosidade de Lutero, homem cujo impulso e paixão era a pergunta sobre a salvação eterna.

Tudo requer uma pesquisa sem preconceitos para se revelar uma imagem justa do reformador, e não somente dele, mas do período da Reforma e das pessoas nela envolvidas, reconhecendo a culpa de uma e de outra parte. Uma atitude de purificação através da verdade permite-nos encontrar uma comum interpretação do passado e, ao mesmo tempo, construir um novo ponto de partida para o diálogo hoje obtido pela clareza histórica.

O estudo dos escritos confessionais evangélico-luteranos encontram sua base sólida naquilo que nos une também depois da separação: a Palavra da Escritura, as Profissões de Fé e os Concílios da Igreja antiga.

João Paulo II, conclui: “Na humilde contemplação do Mistério da divina Providência e na devota escuta daquilo que o Espírito de Deus hoje nos ensina na recordação dos acontecimentos da época da Reforma, a Igreja tende a dilatar os limites de seu amor, para ir ao encontro da unidade de todos aqueles que, através do Batismo, carregam no nome de Jesus Cristo”.

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O drama de Martinho Lutero: como posso me salvar?

Lutero saiu da Igreja após séria luta e sem ter intenção de fazê-lo. Tornou-se reformador na luta contra uma interpretação do catolicismo que de fato era cheia de deficiências. Deixou a Igreja para descobrir aquilo que é o centro da própria Igreja: o primado da graça.

Por que houve a Reforma? Hoje podemos afirmar que ela foi provocada pelos católicos, pois Lutero era católico, monge sério e sincero, que nunca quis deixar de ser católico. Séculos de aversão a Roma, envolvida na política internacional, mergulhada no Humanismo renascentista, a decadência da própria vida católica alemã, com uma hierarquia não livre de máculas morais e corrupções (houve bispos que não celebraram três missas em longo episcopado!), mosteiros decadentes, fizeram com que boa parte da população alemã visse na pregação de Martinho Lutero o renascer do verdadeiro Cristianismo. Isso ajuda a entender porque tantos alemães, desde Carlos Magno fiéis e dóceis ao Papa, tenham aceitado romper a unidade católica.

Bento XVI analisou com empatia a questão central de Frei Lutero[2]: O que não lhe dava paz era a questão sobre Deus, que foi a paixão profunda e a mola mestra de sua vida e de seu caminho. “Como posso ter um Deus misericordioso?”: esta pergunta lhe penetrava no coração e estava por trás de toda sua pesquisa teológica e de toda a luta interior. Para Lutero, a teologia não era uma questão acadêmica, mas a luta interior consigo mesmo, na luta a respeito de Deus e com Deus. “Como posso ter um Deus misericordioso?”. Escreve Bento XVI: “que esta pergunta tenha sido a força motora de todo o seu caminho me toca sempre novamente o coração. De fato, quem hoje ainda se preocupa com isso, mesmo entre os cristãos? O que significa a questão sobre Deus em nossa vida?”.

 A pergunta “qual é a posição de Deus em relação a mim? Como eu me encontro diante de Deus?”, esta palpitante pergunta de Lutero deve novamente, e em forma nova, ser a nossa pergunta, não acadêmica, mas concreta.

O pensamento de Lutero, toda a sua espiritualidade era de todo cristocêntrica: “O que promove a causa de Cristo” era, para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura. Isto pressupõe que Cristo seja o centro de nossa espiritualidade e que o amor por ele, o viver junto com ele oriente a nossa vida.

A coisa mais necessária para o ecumenismo é, antes de tudo que, sob a pressão da secularização, inadvertidamente não percamos as
grandes coisas que temos em comum, que nos tornam cristãos. O erro da época confessional foi ter visto mais o que separa, e não ter percebido em modo existencial aquilo que temos em comum nas grandes diretrizes da Sagrada Escritura e nas Profissões de fé do cristianismo antigo.

Em sua passagem por Lund, casa mundial do Luteranismo, Francisco nos ensinará a levar adiante, com decisão, o caminho do ecumenismo, da busca da unidade na diversidade.

Pe. José Artulino Besen


[1] Mensagem de João Paulo II ao Cardeal J. Willebrands, Presidente do Secretariado para a unidade dos Cristãos, em 31 de outubro de 1983, por ocasião do 5o centenário de nascimento de Lutero.

[2] Discurso de Bento XVI no encontro com representantes da Igreja Evangélica na Alemanha, em 23 de setembro d 2011, na Sala do Capítulo do ex-Convento dos Agostinianos de Erfurt.

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DE LAMPEDUSA A LESBOS, MERGULHO NO SOFRIMENTO

Jovem refugiada em Lesbos - 2016

Jovem refugiada em Lesbos – 2016

Em julho de 2013, Papa Francisco visitou Lampedusa, pequena ilha mediterrânea localizada abaixo da Sicília, sendo o ponto geográfico italiano mais próximo da África. Ali são despejados os migrantes norte-africanos, ali perto chegam os corpos de tantos refugiados cujo transporte naufragou. Lampedusa é um lugar-testemunho da violência e da miséria humanas provocadas pela história econômica de nossa época, colocando em confronto a África explorada e a opulenta Europa.

Francisco fez dessa sua primeira viagem fora de Roma o símbolo indicativo de sua preocupação pastoral. Tanto escolhia o pobre como centro da ação cristã como mostrava ao mundo a incoerência de esconder no silêncio o grito de centenas de milhares de homens, mulheres, jovens e crianças fugitivos da miséria e da guerra que sufocam a vida nos países da África e do Oriente médio.

No dia 16 de abril de 2016, mais uma viagem simbólica de Francisco: a Lesbos, ilha grega que, como Lampedusa, funciona como depósito de migrantes e cemitério de esperanças. Viagem breve, com estadia de cinco horas, mas carregada de simbolismo: fez-se acompanhar dos ortodoxos Bartolomeus, Patriarca de Constantinopla e Hieronymos, arcebispo de Atenas. Além do ecumenismo de sangue, fundou o ecumenismo da caridade cristã indo ao encontro dos sofredores do mundo, dentre eles um significativo número de muçulmanos. O sangue da violência do martírio se une ao sangue da pobreza gerada pelas guerras sem fim (a guerra mundial em pedaços, definiu) filhas dos poderosos interesses do comércio internacional de armas, cujos interesses não levam em conta o inenarrável sofrimento dos povos.

O Papa Francisco visitou o campo de refugiados de Mória, na ilha de Lesbos, que acolhe cerca de 2.500 pessoas, refugiados excluídos da rica Europa e ali depositados enquanto esperam a devolução aos países de onde fugiram, segundo determinação legal dos países da comunidade européia. O Papa foi recebido ao som dos gritos de ‘freedom, freedom’ (liberdade, liberdade).

“Quero dizer-vos que não estais sozinhos”, declarou, depois de ter passado vários minutos a cumprimentar refugiados, muitos deles menores, de países como a Síria, Iraque, Iro, Paquistão ou Afeganistão, entre eles muçulmanos, yazidis e cristãos.

Acompanhado por um intérprete, conversou com várias das famílias presentes e recebeu desenhos de crianças como presente, prometendo guardá-los em sua mesa de trabalho. Era de cortar o coração homens e mulheres narrando suas histórias trágicas e caindo aos prantos. Testemunhavam plasticamente a maior tragédia humana desde a segunda grande Guerra.

Francisco tinha consciência do que o aguardava: “Esta é uma viagem um pouco diferente das outras, é marcada pela tristeza”, confessou aos jornalistas que o acompanharam desde Roma, no voo que aterrou em Mitilene, capital de Lesbos. Falou de um “cemitério no mar”, onde muitas pessoas se afogaram: “Vamos ver tanta gente que sofre, que é obrigada a fugir e não sabe para onde ir”.

O Papa foi acolhido em Lesbos pelo arcebispo ortodoxo de Atenas, Hieronymos II, pelo patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeus I, e pelo primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras. Após a cerimônia oficial de boas-vindas, Francisco e Tsipras encontraram-se em privado, tendo o chefe do governo grego sublinhado o “peso” que a crise dos refugiados tem representado para o país. O Papa, por sua vez, explicou que a viagem visava “agradecer ao povo grego pela sua generosidade”, que tem sido oferecida “corajosamente”, mesmo em meio à crise econômica que vive, lembrando que a Grécia, estava oferecendo “exemplo de humanidade”.

Memória, oração e caridade

A visita humanitária e ecumênica a Lesbos, como foi definida pelo Vaticano, incluiu uma visita ao campo de refugiados de Mória e uma homenagem aos migrantes que morreram no mar, quando os três bispos lançaram ao mar coroas de louro, precedidas de oração de cada um, de que transcrevemos parte.

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Homenagem aos mortos no Mar Egeu.

FRANCISCO

Deus de misericórdia,
pedimo-vos por todos os homens, mulheres e crianças,
que morreram depois de ter deixado as suas terras
à procura duma vida melhor.

Embora muitos dos seus túmulos não tenham nome,
cada um é conhecido, amado e querido por Vós.
Que nunca sejam esquecidos por nós, mas possamos honrar
o seu sacrifício mais com as obras do que com as palavras.

Confiamo-vos todos aqueles que realizaram esta viagem,
suportando medos, incertezas e humilhações,
para chegar a um lugar seguro e esperançoso.

Como Vós não abandonastes o vosso Filho
quando foi levado para um lugar seguro por Maria e José,
assim agora mantende-vos perto destes vossos filhos e filhas
através da nossa ternura e proteção. (…).

Ajudai-nos a partilhar com eles as bênçãos
que recebemos das vossas mãos
e a reconhecer que juntos, como uma única família humana,
somos todos migrantes, viajantes de esperança rumo a Vós,
que sois a nossa verdadeira casa,
onde todas as lágrimas serão enxugadas,
onde estaremos na paz, seguros no vosso abraço
.

BARTOLOMEU I

Senhor de misericórdia, de compaixão e de toda consolação, te pedimos pelos nossos irmãos que vivem em situações difíceis e nos voltamos para a tua Bondade: nutre os recém-nascidos; instrui os jovens; aumenta as forças dos anciãos; infunde coragem nos fracos; reúne os que estão divididos; navega junto com os navegantes; viaja com os viajantes; defende as viúvas; protege os órfãos; liberta os prisioneiros; cura os enfermos.

Recorda-te, Senhor, dos que trabalham nas minas, estão exilados, exercem um trabalho pesado, todos aqueles que vivem todo tipo de aflição, de necessidade, de perigo; e de todos aqueles que imploram a tua amorosa bondade; de todos aqueles que nos amam e daqueles que nos odeiam; infunde em todos a tua infinita misericórdia, atendendo às suas invocações para obter salvação.

HIERONYMOS II

HOMENAGEM AOS MIGRANTES MORTOS NO MAR

HOMENAGEM AOS MIGRANTES MORTOS NO MAR

Ó Deus de todo espírito e de toda carne, que venceste a morte destruindo o poder do demônio, dando vida ao cosmo, às almas dos teus servos que partiram desta vida. Tu, Senhor, dá-lhes repouso num lugar de luz, num lugar de verdes pastagens, num lugar de descanso, do qual desapareceram a dor, a tristeza e o luto. Tu, nosso Deus bom e amoroso, perdoa todo pecado cometido por eles em pensamento, palavras e obras, pois não existe homem algum que possa viver sem pecar, porque somente Tu és sem pecado: a tua justiça e a tua lei é verdade.

Ao final da viagem, os líderes religiosos assinaram empenhativa DECLARAÇÃO CONJUNTA, reportando o drama da migração e o desafio que oferece às Igrejas e aos governos envolvidos, e que assim inicia:

Nós, Papa Francisco, Patriarca Ecumênico Bartolomeu e Arcebispo Hieronymos de Atenas e de toda a Grécia, reunimo-nos na Ilha grega de Lesbos para manifestar a nossa profunda preocupação pela situação trágica de numerosos refugiados, migrantes e requerentes asilo que têm chegado à Europa fugindo de situações de conflito e, em muitos casos, de ameaças diárias à sua sobrevivência. A opinião mundial não pode ignorar a crise humanitária colossal, criada pelo incremento de violência e conflitos armados, a perseguição e deslocamento de minorias religiosas e étnicas e o desenraizamento de famílias dos seus lares, violando a sua dignidade humana, os seus direitos humanos fundamentais e liberdades.

A tragédia da migração e deslocamento forçados afeta milhões de pessoas e é, fundamentalmente, uma crise da humanidade, clamando por uma resposta feita de solidariedade, compaixão, generosidade e um compromisso econômico imediato e prático. (…)

No momento da despedida, um emocionado Francisco expressou sua gratidão com essas palavras: A vós, eu digo obrigado, porque sois guardiões da humanidade, porque cuidais ternamente da carne de Cristo, que sofre no menor dos irmãos, faminto e forasteiro, que acolhestes (cf. Mt 25, 35).

No mesmo avião de retorno, o Papa levou consigo 12 pessoas de três famílias muçulmanas, que foram assumidas pelo Vaticano e acolhidas na Comunidade Santo Egídio. A velha Europa, pátria dos direitos humanos, é desafiada a acolher os pobres do mundo e a repartir do muito que recebeu desses mesmos povos deserdados da vida que chegam a suas fronteiras.

Pe. José Artulino Besen

 

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FRANCISCO NA TERRA DE PAULO E ANDRÉ

Na Mesquita Azul, descalço, reza com o Grão Mufti Mehmet

Na Mesquita Azul, descalço, reza com o Grão Mufti Mehmet

Em sua sexta viagem apostólica, Francisco dirigiu-se à Turquia, na Ásia Menor, epicentro dos conflitos atuais no mundo árabe, da guerra civil na Síria, no Iraque, palco da fúria do auto-intitulado Califado Islâmico que pretende reviver, às custas da violência sem limites, os antigos sonhos de um domínio religioso da sociedade. A Turquia procura manter o equilíbrio entre tantas pendências geográficas, políticas, religiosas e econômicas, naturalmente que salvaguardando seus interesses geopolíticos, nem sempre ficando claras suas intenções e compromissos. Sempre que há o uso das armas, a verdade é escondida, e assim todos parecem inocentes, bombardeando e destruindo a serviço “do bem”.

Mas, para o mundo cristão, a Turquia é a pátria do Apóstolo Paulo de Tarso, é o solo sagrado dos sete primeiros concílios ecumênicos, dos Santos Pais da Igreja, dos mártires. Numa cidade turca, Éfeso, Maria morou com João, reza a tradição. Em sua capital hodierna está localizada a Igreja fundada por Santo André, o primeiro apóstolo chamado por Jesus, Constantinopla. E foi para visitar Bartolomeu I, patriarca sucessor de André, que Francisco deixou a Roma de Pedro entre 28 e 30 de novembro.

Hoje, 98% da população turca professa a fé muçulmana, e pouco menos de 2%, a fé cristã. Numericamente pequena, e ainda assim dividida em diversas Igrejas, Ritos e Patriarcados. Na primeira parte de sua peregrinação, o Papa foi ao mundo muçulmano representado pelo presidente turco Erdogan e pelo Grão Mufti de Istambul. Descalço – os muçulmanos comentaram “Ele faz como nós”, repetindo o gesto de Bento XVI, Francisco entrou na Mesquita Azul para silenciosa oração. Os discursos oficiais foram uma denúncia forte do uso da religião para justificar a violência, a rejeição de qualquer legitimidade nas ações militares em nome de Deus, um pedido angustiado pela acolhida aos refugiados da guerra e da miséria. Francisco também visitou Santa Sofia, a grande basílica ortodoxa do século VI, a partir de 1453 mesquita, e de 1938 em diante museu. Quando Paulo VI nela entrou em 1967, caiu de joelhos sob o êxtase causado pelo impacto da história, sendo muito criticado pelos muçulmanos, que viram no gesto um querer retomar a propriedade. Paulo VI apenas queria rezar, mas nestas terras cada pequeno sinal recorda imensidões de fatos históricos e antigas sensibilidades.

O ecumenismo do martírio

Os momentos fortes da viagem apostólica estavam reservados ao encontro fraterno com a Igreja de Constantinopla, separada de Roma desde o ano de 1054. Há 50 anos, em Jerusalém, Paulo VI encontrou-se com o Patriarca Atenágoras, trocando-se o beijo da paz e em seguida suspendendo as bulas de excomunhão de 1054. Acordava-se, nesse encontro, a decisão irrevogável de buscar a unidade cristã, vendo-se com clareza que não há sentido nas divisões cristãs. O caminho é longo, faltam muitos passos ainda, mas existe decisão, porque assim o Senhor determina. Muitas questões nascem de sutilezas teológicas e não foi por menos que naquele 1964 Atenágoras brincou com Paulo VI dizendo que no dia em que se recolhessem todos os teólogos numa ilha, haveria a unidade…

Patriarca Bartolomeu abençoa Papa Francisco e a Igreja de Roma

Patriarca Bartolomeu abençoa Papa Francisco e a Igreja de Roma

No dia 29, sábado, Francisco encontrou-se com Bartolomeu e ali pudemos contemplar a espontaneidade fraterna desses grandes homens: o Papa inclinou a cabeça pedindo que o Patriarca o abençoasse e à Igreja católica, o Patriarca beijou a mão pedindo a bênção do Papa. Pedro e André se encontraram e se abraçaram. No dia 30, domingo, Francisco assistiu à Divina Liturgia na Igreja de São Jorge, sede do Patriarcado de Constantinopla. Não pôde partilhar o Pão eucarístico, porque falta a unidade na fé. Sofrimento para os dois. Pouco antes, o Bispo de Roma disse palavras extremamente importantes: que Roma e Constantinopla, que a ortodoxia e o catolicismo, o Oriente e o Ocidente, devem buscar a unidade sem nenhuma imposição, sem nenhuma pretensão de domínio canônico, bastando que a unidade tenha como fundamento a prática cristã do primeiro milênio, cada Igreja respeitando as diferentes tradições canônicas e litúrgicas. Bento XVI disse as mesmas palavras, e é bom que se diga, porque alguns afirmarão que Francisco não leva a teologia a sério.

Na declaração conjunta, após a Divina Liturgia, reafirmaram a decisão da busca da unidade e, muito tocante, lembraram que hoje está acontecendo o ecumenismo de sangue, pois cristãos no Oriente estão sendo mortos pela fé em Cristo e não se lhes pergunta se são católicos, evangélicos, ortodoxos, antioquenos: “Estamos unidos no martírio”, comentou Francisco. O sangue derramado pela fé é o grande ecumenismo que se acrescenta ao ecumenismo teológico, ao espiritual, ao fraternal. Aos católicos de Constantinopla: “Nós, cristãos, nos tornamos autênticos discípulos missionários, capazes de interpelar as consciências, se abandonarmos um estilo defensivo para deixarmo-nos conduzir pelo Espírito, deixando de lado qualquer tentação de olhar-se a si mesmos”.

Dirigindo-se para o embarque, Francisco visitou a obra salesiana que acolhe uma centena de crianças vítimas da guerra, filhos de refugiados. Queria visitar muitos mais, porém não teve autorização. Ali clamou pela misericórdia para com tantas milhares de crianças, mães, jovens vítimas de uma guerra sem sentido, de bombas que são jogadas sem nenhuma consideração pela vida humana, como se as pessoas fossem descartáveis. Bombas que ampliam o raio de violência rumo ao Oriente e à África. As palavras e gestos de Francisco foram convite aos muçulmanos e cristãos, aos cristãos entre si, para que se quebre a lógica da violência. Visitando o Grão Rabino também incluiu o povo da Antiga Aliança no processo da paz.

Num convite à unidade, Francisco abriu a todos os braços e o coração: “Encontrar-nos, olhar a face um do outro, trocar o abraço da paz, rezar um pelo outro são dimensões essenciais do caminho para o restabelecimento da plena comunhão que buscamos”.

Pe. José Artulino Besen

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SÍNODO DOS BISPOS – IGREJA FAROL E IGREJA TOCHA

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E DEUS OS FEZ HOMEM E MULHER – Igor Mitoraj

Graças ao falar misericordioso de Francisco desde o início de seu ministério como bispo de Roma, também nas intervenções sinodais prevalece a afirmação da misericórdia, da compreensão, do acompanhamento frente às diversas situações vividas pelos casais. Para Francisco, “é tempo de propor caminhos de diálogo, de misericórdia”. Distante dos discursos que viam nos tempos presentes apenas heresia, imoralidade, blasfêmia, nos defrontamos com o caminho aberto pelo Concílio em cujo discurso de abertura São João XXIII afirmou que “a Igreja prefere servir-se da misericórdia em vez do rigor”, e o Bem-aventurado Paulo VI explicava que “a misericórdia é a chave hermenêutica dos Mandamentos”.

Quem tem oportunidade de acompanhar as intervenções dos Padres sinodais percebe o clima propositivo, distante das fáceis afirmações que denunciam a homossexualidade como “intrinsecamente desordenada”, a “mentalidade contraceptiva”, o “hedonismo egoísta”, as ideologias aberrantes que atacam a família, a influência invasiva dos meios de comunicação. As solenes condenações apenas facilitam a vida de quem pretende passar à história como defensor incansável da verdade. O estilo combativo em nada auxilia as pessoas a se aproximarem de Jesus Cristo, cuja mensagem e vida foi sempre misericordiosa, de vizinhança dos que viviam situações difíceis. É belo e verdadeiro anunciar que o amor divino da Trindade é o modelo do amor humano entre os esposos, mas, não se pode esquecer que na maioria das vezes o amor conjugal é ferido pelo pecado, marcado por uma história de lutas e limitações, sofrimentos e privações que devem ser levados em conta no relacionamento com os casais. Cristo veio para nos redimir do enfraquecimento da graça provocado pelo pecado original. Ele é o redentor dos caminhantes no caminho de superar o pecado e não aquele que vem selecionar os bons e condenar os pecadores. A fraqueza pessoal inerente à condição humana permanece na existência do homem e da mulher unidos pelo matrimônio.

O jesuíta Antônio Spadaro, especialista em comunicação, foi muito feliz ao se referir a dois modelos de Igreja: a Igreja-farol e a Igreja-tocha. O farol é sólido, construído sobre um morro, ou sobre uma rocha no mar, para indicar os perigos aos navegantes. Sua luz é forte para orientar. Igreja-farol é a Igreja luz da verdade. A tocha acompanha uma procissão, um caminhante, sua luz é mais fraca, mas orienta o suficiente para evitar quedas, esbarradas. A Igreja-tocha é a Igreja que acompanha, caminha na história, entre as pessoas. As duas são necessárias: a luz da tocha é frágil e o vento pode apagá-la, por isso a necessidade do farol. Infelizmente, acontece preferirmos ser farol, denúncia do erro, proclamação da verdade, deixando de acompanhar as pessoas concretas, de carne e osso, nas suas alegrias e tristezas. Normalmente conhecemos o farol, mas necessitamos muito de uma chama, que pode até ser frágil, mas aquele que a carrega está ao nosso lado.

O encontro da doutrina com a vida real

O Sínodo, pelo fato de contar com o resultado das consultas feitas em todo o mundo a respeito de 38 temas, se encaminha para a pastoral concreta com pessoas concretas. Quando foram apresentados ao Papa possíveis temas a serem nele tratados, em primeiro lugar foram apresentadas temáticas cristológicas e antropológicas, preocupações de cunho doutrinal. A novidade introduzida por Francisco está na passagem do doutrinal para o real.

Papa Francisco

Papa Francisco

O Cardeal de Aparecida, Dom Raimundo Damasceno, na 6ª. Congregação Geral (dia 8-10) apresentou situações familiares difíceis e reais que exigem urgente resposta pastoral: as convivências; as uniões de fato; a situação dos separados, dos divorciados e dos divorciados recasados; os filhos e aqueles que permanecem sozinhos; as jovens mães; as situações de irregularidade canônica; o acesso aos sacramentos, nestes casos; o cuidado pastoral das situações difíceis, entre as quais os casais gays. A respeito dessas situações, afirmou o Cardeal: “Longe de nos fecharmos numa atitude moralista, queremos penetrar no profundo destas situações difíceis para acolher quem nelas está envolvido, para fazer da Igreja a casa paterna onde há lugar para cada um com sua vida provada por dificuldades”.

Permanece tenso o clima entre os Padres que olham apenas o aspecto doutrinal da indissolubilidade e os que buscam um caminho para o acesso aos sacramentos da parte dos divorciados recasados, o que inclui a revisão dos processos de nulidade de matrimônios. Há quem defenda o caminho da “nulidade espiritual” para casamentos que se desfazem em dois anos. Nesses casos, 95% das decisões dos tribunais são favoráveis e, sendo assim, por que fazer o casal passar por um processo caro e demorado e não permitir que a decisão seja tomada pelo bispo diocesano ou vigário geral? Como caminho de estudo, são três as possíveis soluções, sintetizadas pelo Cardeal Coccopalmerio, da Comissão para os Textos Legislativos: a eliminação da dupla sentença, a eliminação do colegiado de juizes (basta a sentença de um juiz), e o procedimento administrativo, ou seja, a nulidade declarada diretamente pelo bispo local em casos de matrimônio “certamente nulo”.

Dom Rino Fisichella, do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização observou que o sacramento do matrimônio ficou engessado num excesso de acentuação canonística em que o legal foi substituído pelo legalismo, de certo modo enfraquecendo a dimensão sacramental.

Iniciando a apresentação de novo tema, os métodos não naturais de controle da natalidade, o casal brasileiro Artur e Hermelinda Zamperlini foi revolucionário ao afirmar que os métodos naturais “são bons, mas na cultura atual nos parecem privados de praticidade” e os casais católicos “na grande maioria não recusam a utilização de outros métodos contraceptivos”. Realçaram a importância da vida sexual porque “um casamento é fecundo não só porque gera filhos, mas porque ama e amando se abre à vida”.  O casal é o lugar onde se articulam as três funções da sexualidade: a função relação, a função prazer e a função fecundidade. O casal se constrói ao integrar de forma equilibrada essas três dimensões.

Concluindo: a Igreja não deve assumir a atitude de um juiz que condena, mas a de uma mãe que sempre acolhe seus filhos, trata suas feridas com vistas à cura. Misericórdia, acompanhamento, compreensão e paciência são atitudes cristãs no acolhimento de tantos casais em busca de reconciliação.

Pe. José Artulino Besen

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SÍNODO DOS BISPOS – MEDO E PROFECIA

 

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O Papa Francisco foi eleito em 2013 num Conclave onde se pediam reformas estruturais na Igreja. E iniciou o ministério petrino fiel ao que os Cardeais eleitores assinalaram nas congregações gerais antes do conclave. Evidente que sua pessoa foi uma surpresa do Espírito: um argentino sem solenidades, humano, com cheiro de pobres e pecadores.

Iniciou pela reforma das finanças vaticanas, contrariando interesses poderosos e até mafiosos. Não era possível que os católicos continuassem a ouvir que havia corrupção, desperdício, lavagem de dinheiro na Santa Sé. Isso foi feito com rigor e o Banco do Vaticano está prestes a receber a aprovação da banca mundial atestando que adotou a legislação internacional pertinente à lavagem de dinheiro. Ao mesmo tempo, age na vida interna da Igreja com relação aos bens, às suntuosidades, não receando punir desperdiçadores, o que faz com que os cristãos ousem pedir bispos e padres pastores e não administradores.

Toma decisões, mesmo que dolorosas, nisso seguindo e aprofundando a coragem de Bento XVI que, em sete anos de Pontificado, demitiu centenas de padres e numerosos bispos por escândalos ou seu acobertamento. A prisão do núncio Wesolowski, um arcebispo, a demissão do bispo paraguaio Livieres é indicação clara: foi-se o tempo das dinâmicas clericais que desfiguram o rosto da Igreja, das patologias que se expressam nos compromissos que alimentam o carreirismo clerical, sinaliza-se o final do excesso de burocracia, onde um monsenhor curial detinha mais poder do que uma Conferência episcopal. Tudo isso produz(ia) uma patologia esclerosada na vida das dioceses onde bispos carreiristas multiplicavam e alimentavam a dependência com relação a Roma, tendo em vista sua própria carreira e, com essa finalidade, entupiam Roma com questões que um padre, para não dizer um bispo, deve e pode responder com o discernimento pastoral.

Antes disso tudo, porém, a pessoa e a vida de Francisco dão testemunho de sua vida de pastor que vive a simplicidade evangélica: residindo na Casa Santa Marta, libertou-se do isolamento do Palácio apostólico, tem contato real com pessoas e, decisivo, sua Missa diária com breves homilias faz com que entre em contato espiritual e pastoral com o povo católico. Nunca se viu isso no último milênio: um Papa que fala como pároco de aldeia, que comenta a Palavra sem se escudar em afirmações doutrinais. Francisco é um Papa da Palavra, do encantamento do Evangelho, revelando-nos a cada dia o rosto do Pai narrado pelo Filho.

A maioria do povo cristão sente natural empatia por Francisco, bispo de Roma “que veio do fim do mundo”, escuta sua palavra e reanima as esperanças enfraquecidas por anos de escândalos e intrigas, como os que fizeram sofrer Bento XVI, cercado por uma corte que o controlava. Sinal evidente disso: o Papa aparece no meio do povo e nas audiências sem a antiga onipresença do Secretário de Estado.

Evidente, há muitos que não estão contentes, revoltados até com esse Papa que ocultamente acusam de pouco preparo teológico, destruidor da tradição, de fala intempestiva, demagogo nos gestos e decisões. Aproveitam os meios de comunicação ou conversas para tirar qualquer legitimidade a tudo o que Francisco faça ou diga. Oficialmente, protestam fidelidade irrestrita e, reservadamente, alimentam irrestrita infidelidade. Antes, o posicionamento era mais fácil e compensador: tudo se inseria no binômio conservador (fiel) / progressista (infiel) que alimentava carreiras e pretensas ortodoxias. Era muito bom esperar uma nomeação como recompensa pela fidelidade ao Papa, mas, no estilo de Bergoglio, o que decide é a fidelidade aos pobres, a abertura às questões sociais, ser pastor que saiba falar sem berrar, não importando ser conservador ou progressista.

O Sínodo da fidelidade e da misericórdia

Num gesto sem precedentes, Francisco delegou ao Sínodo a redação do documento final, contra o costume anterior de se levar as conclusões ao Papa e que depois redigia uma exortação apostólica. O Papa crê na assistência do Espírito numa assembléia sinodal. Os representantes das 114 conferências episcopais trabalharão a idéia que Francisco tem da Igreja como “hospital de campanha” no qual se age com “misericórdia”, sobretudo com os “feridos”, sem menosprezar os temas mais espinhosos de nossa época. O Cardeal hondurenho, Oscar Maradiaga, coordenador do Conselho de Cardeais, pediu mais flexibilidade ao Card. Müller, do ex-Santo Ofício, intransigente com relação aos divorciados recasados: “O mundo, meu irmão, não é assim. Não é preto sobre branco”.

Os sinodais discutirão casos humanos e delicados hoje se multiplicando: como trabalhar pastoralmente pessoas do mesmo sexo que adotaram crianças com vistas à transmissão da fé? O que diz o povo que está nas “periferias” da comunidade cristã? Em janeiro passado o Papa falou aos superiores gerais das ordens religiosas: “Os filhos dos casais gays e de pais separados apresentam desafios educativos novos à Igreja”.

O Sínodo sobre a família, de 4 a 19 de outubro, oferece uma demonstração bela de que Francisco não trabalha com projetos abstratos e solitários, o que seria mais simples: reafirmar a doutrina da Igreja sobre o sacramento do matrimônio, denunciar os desvios. Em nenhum momento está em jogo a indissolubilidade matrimonial, do mesmo modo que acolher um pecador não põe em jogo a lei divina. Mas, pode-se entender: há bispos, teólogos, leigos e padres burocratas bem intencionados, longe do povo, incapazes de estar próximos dos homens e das mulheres na vida real.

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Francisco autografa no gesso de menina – 3-04-2013

O Evangelho é tão simples que incomoda os amantes das tradições clericais e demoras canônicas. É tão simples como Jesus de Nazaré que fez-se pobre e recolheu à sua volta pecadores, pobres, doentes, doidos, o povo. Francisco tem o instinto do amor e do afeto: sente as dores e alegrias do povo que, por sua volta, nele sente um pai, um amigo.

O Sínodo, que se prolonga e conclui num outro Sínodo em 2015, apresentará o casamento como aliança entre homem e mulher em comunhão de amor, fidelidade e fecundidade. Um de seus frutos será reanimar o desejo de constituir uma família. E constatará o colapso da cultura do casamento, a mentalidade anti-casamento. A família ficou problemática, com frutos dolorosos para pais e filhos, para a vida cristã. O matrimônio é indissolúvel e, ao mesmo tempo, canonistas do porte de um Pe. Jesus Hortal afirmam que 60% dos casamentos não são sacramentos, pois, ou falta a fé necessária ou incluem impedimentos para um verdadeiro sacramento. O que fazer para tantos casais que, numa segunda união, vivem um amor verdadeiro, educam os filhos na fé? Não seria possível reestudar os processos de declaração de nulidade matrimonial? Não seria melhor suprimir a necessidade de sempre recorrer a uma segunda instância? O bispo não teria autoridade e discernimento para decidir casos particulares?

Em 27 de agosto o Vaticano anunciou a criação de uma “Comissão especial de estudo para a reforma do processo matrimonial canônico”, para simplificar seu encaminhamento, torná-lo mais rápido e justo. Fazem parte da Comissão canonistas, bispos, padres e leigos. O ato é importante: o Sínodo não será dominado por alguns Cardeais que, com o peso do cargo, podem centrar tudo na indissolubilidade e assim encerrar as discussões, e pode encontrar um caminho de misericórdia para tantos casais que sofrem e estão cansados e desanimados diante de tribunais que levam até décadas para decidir. O falecido Cardeal Martini afirmou, em seus últimos dias: os cristãos precisam de mais sacramentos, de mais graças, pois os sacramentos são para os pecadores. Ao invés, queremos reduzir os que podem recebê-los, condenando-os à anemia espiritual.

Francisco deseja um encontro fiel e evangélico. O Sínodo não é uma competição entre dois times, mas um encontro na coragem que brota da fé de uma mesma torcida, os fiéis cristãos.

Pe. José Artulino Besen

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MONSENHOR ANDREAS WIGGERS

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Andreas Wiggers nasceu em Cambará, Bom Retiro, SC em 20 de maio de 1933, numa família de agricultores. Descende dos Wiggers de Münster, Vestfália, que chegaram ao Brasil em 1863 e, posteriormente, foram alocados na Colônia catarinense de Teresópolis, depois dirigindo-se às terras férteis de Bom Retiro, na região serrana catarinense. Era o filho caçula de Guilherme Wiggers com Elizabeth Kauling, numa casa de sete irmãos, incluindo Rodolfo que foi frade franciscano com o nome de Frei Nicolau.

Cresceu numa família radicada no trabalho agrícola e na vivência da fé católica.

Com o desejo, alimentado na família e na paróquia, de ser padre, foi encaminhado ao Seminário Menor de Azambuja, da arquidiocese de Florianópolis e, para os estudos filosóficos e teológicos, a São Leopoldo, com os padres jesuítas. À época, a diocese de Lages não possuía Seminário.

A pedido do bispo diocesano de Lages, Dom Frei Dom Daniel Hostin, OFM, interrompeu os estudos eclesiásticos e por dois anos, em 1954 e 1955, exerceu a função de professor de português e de geografia no recém-fundado Seminário Diocesano, onde foi prefeito da divisão dos maiores. Nos seminários, os alunos eram divididos entre maiores e menores, a depender da idade, com pouquíssima comunicação entre si.

Retomando e concluindo o estudo da teologia, foi ordenado sacerdote por Dom Daniel Hostin na catedral de Nossa Senhora dos Prazeres de Lages em 10 de dezembro de 1961. Andreas se caracterizava pela piedade, espírito de oração e fez de sua opção pelo ministério sacerdotal uma entrega total e definitiva a Deus e ao serviço na Igreja. Prova disso foi o lema escolhido: “Que minhas mãos sejam uma manjedoura para que Jesus nasça todos os dias”, com profundo sentido eucarístico, pois na Eucaristia a mão do padre é a manjedoura onde brota o Pão da Vida. A celebração da Missa foi um compromisso alegre assumido em todos os dias de sua existência.

Pe. Andreas exerceu o ministério em dois campos: formação de novos padres e trabalho em âmbito diocesano na pastoral, na Cúria e na administração, além de presença constante nos organismos pastorais do Regional Sul-IV da CNBB. Sua seriedade e dedicação tornaram-no merecedor da confiança dos bispos, dos padres e ex-alunos. Sua simplicidade e ausência de ambição pessoal chamavam a atenção de quem com ele conviveu.

Ministério do serviço eclesial

Sua primeira missão foi ser professor e auxiliar na administração do Instituto São João Batista Vianney, nome do Seminário diocesano de Lages, de 1962 a 1964.

Muito estimado, era reconhecido como ótimo professor de matemática. O Professor Ary Martendal, seu ex-aluno, recorda a didática dele em outras disciplinas: “Participar de suas aulas era um alívio, tal a leveza e falta de ameaças, exceção de regra num rígido sistema de estudos demarcado por rigoroso regulamento. Sempre achava formas didáticas mais agradáveis e nos trazia curiosidades. Eu, como piazote criado na roça, escutava embevecido suas explanações ou leituras complementares”. Todos os ex-alunos dele guardam dele a bondade, compreensão e piedade.

Nos anos de 1963 a 1969, exerceu a função de prefeito de disciplina no mesmo Seminário e, em 1970, foi nomeado Reitor. Esse período foi bastante difícil para a Igreja diocesana de Lages, que vivia o forte e inesperado processo de renovação conciliar e, ao mesmo tempo, ressentia-se da diminuição no número de seminaristas, além do sofrimento pela desistência do ministério de bons sacerdotes, jovens, inclusive formadores do Seminário.

Bom na matemática e bom na administração, já em 1964 foi nomeado Ecônomo, função exercida em diversos campos diocesanos e sempre com competência. Não foi marcado pela tentação financeira.

Além do Seminário Menor de Lages, a diocese mantinha um Pré-Seminário em Peritiba, uma espécie de preparatório para o Curso ginasial, e Pe. Andreas foi nomeado seu reitor em 1971, acumulando com a missão de pároco de Santo Isidoro e vigário paroquial de Santa Catarina de Piratuba. Em 1979, o prédio do seminário foi doado ao hospital local.

Novo trabalho, em 1972, como cura da Catedral e coordenador dos Meios de Comunicação da Diocese de Lages e, de agosto de 1973 a janeiro de 1974 vigário substituto de Bom Retiro, sua terra natal.

Não lhe faltaram trabalhos nem disposição para desafios novos, sempre disposto, silencioso e sorridente.

A partir de 1977 seu ministério foi exercido ano serviço diocesano. De 26 de setembro de 1977 a 1981 foi Coordenador de Pastoral da Diocese de Lages. Conservando a função, de setembro a dezembro de 1977 foi também reitor e diretor do Seminário de Lages que, então, vivia forte crise pelos contratempos do novo sistema pedagógico e espiritual na formação dos seminaristas. Ali pode contar com a fraterna colaboração do Pe. Otávio de Lorenzi.

Em 1980, assumiu o delicado encargo de administrador da Mitra Diocesana de Lages e presidente da Ação Social e Beneficente, substituindo Mons. Luís Orth, venerado e inesquecível sacerdote. Ao mesmo tempo, foi encarregado do Arquivo diocesano, salvando e organizando os documentos históricos da diocese, portarias, provisões e o que mais restava. Lages lhe deve esse trabalho competente: não é um grande arquivo, mas possui o que foi possível catalogar.

Vida de oração e serviço

Em todos esses ofícios, afirma Ary Martendal, Pe. Andreas “foi figura humilde, serviçal, postada à sombra de qualquer honra e fama, deixando em todos aqueles que com ele conviveram um conceito unânime de homem pacífico e virtuoso”.

Dom Honorato Piazzera, SCJ, segundo bispo diocesano, quis que a diocese abrigasse um mosteiro de Irmãs contemplativas que tivessem como missão orar pela Diocese. Quando recebeu sinal positivo das Irmãs Clarissas, logo dispôs a doação do terreno na Avenida Papa João XXIII, vizinho ao Seminário e ao Centro de Pastoral. Mons. Luís Orth assumiu a construção do Mosteiro Nazaré, inaugurado em 1977. Nomeado capelão, Pe. Andreas igualmente nutriu um carinho especial pelas Clarissas e muito sofreu quando, em 2011, as Irmãs foram transferidas. Felizmente, três meses depois chegaram sete religiosas de Marília, SP, dando continuidade à vida contemplativa serrana.

Em 25 de março de 2008 faleceu seu irmão, Frei Nicolau Wiggers, OFM que, a pedido pessoal, foi sepultado em Bom Retiro, no distrito de Cambará, sua terra natal. Ele e Mons. Andreas ali tinham celebrado a Missa no dia de Finados de 2007. Frei Nicolau era um frade santo e popular, totalmente dado aos pobres, pedindo para si a pensão para reparti-la entre os necessitados. Um frade feliz, como narra o confrade Frei Pedro Galdino de Oliveira: “Numa passagem rápida por Porto União, conheci o Frei Nicolau, no ano de 1999. Notei que estava muito alegre. Perguntei-lhe: “Frei, o senhor está contente?” “Sim”, respondeu-me. E completou: “Estou cansado de ser feliz!”. Convivendo pouco (quase um ano) com ele em Paty do Alferes, pude constatar que a frase era verdadeira”.

Pe. Andreas também caminhava para o dia final: no dia 26 de abril de 2012, às 12:10h, faleceu no Hospital Nossa Senhora dos Prazeres, de Lages, aos 78 anos.

Seu corpo foi velado na capela do Mosteiro Nazaré, onde no mesmo dia foi celebrada a Eucaristia. No dia 28, às 8:30h, após as Exéquias, foi trasladado para o distrito de Cambará, em Bom Retiro.

Com a presença de multidão de amigos, de muitos sacerdotes e religiosas, às 15h, Dom Oneres Marchiori, terceiro bispo diocesano, grande amigo, com quem por anos trabalhou e agora bispo emérito de Lages, presidiu a Santa Missa com encomendação. Em seguida, foi sepultado junto as seus pais e Frei Nicolau.

Dom Irineu Andreassa, bispo de Lages, estava em Aparecida participando da Assembléia geral da CNBB, razão de não estar presente, mas enviou mensagem de gratidão por sua vida e trabalho, oferecendo esse belo testemunho: “A partida de quem amamos é sempre uma catequese para nós que ficamos. Contemplando a vida do Monsenhor Andreas, conseguimos colher muitos exemplos e virtudes. Cito, entre as tantas:

1) Monsenhor Andreas contribuiu notoriamente com a história de nossa Diocese. Seria difícil descrever a Diocese de Lages sem citar este nosso irmão. Contribuiu com seu ministério, com seu exemplo, sua presença, sua palavra. Como grande benfeitor, possibilitou que a Diocese tivesse muitos meios e espaços que facilitam a evangelização. Formou muitos dos sacerdotes como professor e formador. Acompanhou as atividades e deu a devida assistência à diocese como Vigário Geral.

2) Monsenhor é para nós um modelo de amor. Porque amava a Deus, sabia que seu sofrimento era passageiro. Porque amava ofereceu suas dores aos mais necessitados. Porque nos amava, jamais reclamou de qualquer enfermidade – porque pensava que iria incomodar. Nós, muitas vezes, rezamos juntos na oração das Laudes: “fazei-nos carregar o peso do dia, sem jamais murmurar contra a vossa vontade” e acredito, piamente, que essa oração lhe era muito presente.

3) Monsenhor morreu pobre. Morreu pobre, mas porque teve uma vida pobre. Entregou-se nos braços do Pai sem ter sequer um bem material. Homem de um desprendimento imenso, fez da sua vida um total doar-se. Carregava no coração um desejo: ajudar. Se para ajudar fosse preciso dar o que tinha, ele o fazia com alegria”.

Quem teve a graça de estar com Pe. Andréas percebia que era sempre o mesmo: humilde, afável, sorridente, pronto para servir. A simplicidade extrema lhe ocultava a inteligência, a atitude modesta, as responsabilidades que assumia. Engrandeceu o clero serrano, marcou a vida católica por tantos anos de dedicação integral nos seus 51 anos de ministério, sempre fiel a seu lema: “Que minhas mãos sejam uma manjedoura para que Jesus nasça todos os dias”.

Pe. José Artulino Besen

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FRANCISCO VISITA OS FILHOS DE ABRAÃO

Em Jerusalém, o abraço dos filhos de Abraão - Francisco, o Rabino e o mestre muçulmano

Em Jerusalém, o abraço dos filhos de Abraão – Francisco, o Rabino e o mestre muçulmano

A peregrinação que Francisco realizou nos dias 24, 25 e 26 de maio de 2014 à Terra Santa deve ser incluída nos caminhos dos patriarcas que demandaram Jerusalém em busca da Terra da Promessa, nos caminhos dos peregrinos judeus, cristãos e muçulmanos que há dois milênios seguem as trilhas que levam ao Jordão, a Belém, a Jerusalém. Francisco foi mais que um patriarca, mais que um profeta, mais que um bispo, porque foi patriarca, profeta e bispo ao mesmo tempo. Paulo VI, em 1964 deixou Roma simbolicamente para convidar a Igreja a retornar a Jerusalém, sob o signo do ecumenismo. João Paulo II, em 2000, quis refazer o caminho de Abraão de Ur da Caldéia a Jerusalém sob o signo da mais profunda espiritualidade bíblica que convidava os cristãos a sair da terra da segurança e buscar a “terra que te mostrarei”.

Francisco, o pobre desarmado, foi abraçar afetuosamente os povos cuja fé deita raízes em Abraão, os povos do Livro do único Deus: a Torá, o Evangelho, o Alcorão, JAWEH, o PAI, ALLAH. Jordânia, Palestina e Israel sentiram-se amados pelo Homem de vestes brancas que não veio como um novo cruzado, mas como um irmão, e irmão de verdade, sem jogos de sedução, de diplomacia, de teologia.

Nunca poderíamos imaginar o Papa de Roma dirigindo-se ao rio Jordão de carona num Jeep dirigido por Abdallah, rei da Jordânia. A simplicidade e despojamento de honras fez o bispo de Roma viver como Filipe que pega carona com o ministro da Rainha de Candace, como Pedro e Paulo que embarcam para Roma a fim de anunciar o Ressuscitado, como Jesus, o pobre de Nazaré que sobe para Jerusalém.

Os encontros de Francisco com cristãos e muçulmanos em Amman, em Belém, com judeus, muçulmanos e cristãos em Jerusalém revelaram que é possível a paz que nasce do coração pobre aquecido pelo amor, que é possível convidar a se encontrarem com ele em sua casa romana o presidente palestino Abu Mazen e o israelense Shimon Peres, convite prontamente aceito. Alguns comentaram que o convite não leva a nada, que o Papa arrisca seu prestígio com o provável fracasso. Há equívocos nessa dúvida: Francisco convidou para visitarem-no e para rezarem juntos, não para discutir alta geopolítica, e confia no poder da oração, na paz única que brota da fé no mesmo Deus de Abraão. Fora desse horizonte, sobra a paz do medo, da guerra, do comércio das armas.

Papa Francisco revelou toda sua humanidade – e a fé é verdadeira quando nos revela – ao sofrer com os cristãos perseguidos por causa da fé cristã no Oriente médio, sofrer com as crianças e adultos no campo de refugiados palestinos, sofrer com o povo judeu que até o fim da história recordará o Holocausto nazista.

Não deve ser fácil acompanhar Francisco, não porque quebre o protocolo, mas porque é intuitivo e age por inspiração: assim, é verdade que foi ao Muro das Lamentações, mas também parou no vergonhoso Muro que em Belém separa palestinos e judeus. Mas, não falou de muros, tocou-os com as mãos, gesto mais forte.

É verdade que reconheceu o direito dos palestinos a uma pátria, mas também reconheceu o mesmo direito aos judeus visitando o túmulo de Theodoro Herlz, pai do sionismo moderno. Acima de tudo, fez com que os moradores dessa região conflagrada há milênios antevissem a beleza do abraço da paz, que é possível, necessário.

Os gestos de Francisco confirmam e intensificam a beleza e profundidade de suas palavras. Há 50 anos, Paulo VI e Atenágoras se abraçaram em Jerusalém: Francisco abraçou Bartolomeu, e enriqueceu o gesto caminhando de mãos dadas, um ajudando o outro a caminhar, pediu até ao venerável Patriarca de Constantinopla que cuidasse para não escorregar no piso do Santo Sepulcro. Os dois gostariam de ir muito além, mas necessitam de levar em conta a realidade histórica e teológica de suas veneráveis Igrejas.

Num tempo, beijavam-se os pés aos papas, depois, beijava-se o anel. Em Francisco, o gesto de afeto e respeito se aprofundou: ele beija as mãos das pessoas. Beijou a mão da rainha Rânia e, em Jerusalém, beijou as mãos dos judeus sobreviventes do holocausto, num pedido de perdão em nome de toda a humanidade pelo crime inaudito do assassinato de seis milhões de judeus nos campos de concentração. Mas, normalmente beija as mãos de padres idosos, de doentes, de presidiários. São gestos de carinho, principalmente gestos de humildade que refletem a imagem de um Deus que em Jesus se abaixou, se anulou, fez-se servo mesmo sendo Senhor.

As palavras simples e diretas, acompanhadas desses gestos, possuem um efeito desarmador único e permitiram a Bergoglio ser ele mesmo até o mais profundo de seu ser. Ele ama, e o demonstra com os gestos, como ir à basílica romana de Santa Maria orar e pedir pela viagem, levando um buquê de rosas que depositou no altar. Quando em Buenos Aires, observando o esquife de um velho padre percebeu como estava pobre e saiu a comprar flores para ornamenta-lo.

O objetivo traçado para a peregrinação à Terra Santa foi celebrar os 50 anos da peregrinação de Paulo VI, rememorar o abraço entre Papa Montini e o patriarca Atenágoras. Conduzido pelo amor e pela espontaneidade, o objetivo foi suplantado pela visita a Belém e encontro com os refugiados palestinos, a parada diante do muro de Belém e o convite a Abu Mazen e Shimon Peres a rezarem com ele em sua casa no Vaticano.

Subtraindo o impacto das imagens desses gestos, suas palavras tocam profundamente, são palavras de profeta bíblico, palavras de um Pai da Igreja, palavras simples, embelezadas pelas parábolas, desafiantes.

Amman, Belém, Jerusalém – muçulmanos, cristãos e judeus

Em Amman, 24 de maio, em Missa na qual mais de mil crianças fizeram a Primeira Comunhão, anunciou o Paráclito que é o próprio Jesus e o “outro”, que é o Espírito Santo. O Espírito Santo que prepara Jesus para a missão, unge-o no Jordão e o envia: “Jesus é o Enviado, cheio do Espírito do Pai. Ungidos pelo mesmo Espírito, também nós somos enviados como mensageiros e testemunhas de paz. … A paz não se pode comprar, não está à venda. A paz é um dom que se deve buscar pacientemente e construir ‘artesanalmente’ através dos pequenos e grandes gestos que formam a nossa vida diária. Consolida-se o caminho da paz, se reconhecermos que todos temos o mesmo sangue e fazemos parte do gênero humano; se não nos esquecermos que temos um único Pai no Céu e que todos nós somos seus filhos, feitos à sua imagem e semelhança”.

Na Praça da Manjedoura, em Belém, dia 25, partiu do texto “Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lc 2, 12). Pergunta sobre nossa sensibilidade diante das crianças e afirma: “Quando as crianças são acolhidas, amadas, protegidas, tuteladas, a família é sadia, a sociedade melhora, o mundo é mais humano”. Lembra que o menino é frágil, como todas as crianças, o Menino de Belém é frágil e, no entanto, é a Palavra que se fez carne e veio transformar a história humana.

Francisco interroga tocando nossos mais profundos sentimentos de dignidade: “Quem somos nós diante de Jesus Menino? Quem somos nós diante das crianças de hoje? Somos como Maria e José que acolhem Jesus e cuidam d’Ele com amor maternal e paternal? Ou somos como Herodes, que quer eliminá-Lo? Somos como os pastores, que se apressam a adorá-Lo prostrando-se diante d’Ele e oferecendo-Lhe os seus presentes humildes? Ou então ficamos indiferentes?

‘Isto nos servirá de sinal: encontrareis um menino…’. Talvez aquela criança chore! Chora porque tem fome, porque tem frio, porque quer colo… Também hoje as crianças choram (e choram muito!), e o seu choro interpela-nos. Num mundo que descarta diariamente toneladas de alimentos e remédios, há crianças que choram, sem ser preciso, por fome e doenças facilmente curáveis. Num tempo que proclama a tutela dos menores, comercializam-se armas que acabam nas mãos de crianças-soldado; comercializam-se produtos confeccionados por pequenos trabalhadores-escravos. O seu choro é sufocado: o choro destes meninos é sufocado! Têm que combater, têm que trabalhar, não podem chorar! Mas choram por elas as mães, as Raquéis de hoje: choram os seus filhos, e não querem ser consoladas” (cf. Mt 2, 18).

Conclui, invocando Maria:

Ó Maria, Mãe de Jesus,
Vós que acolhestes, ensinai-nos a acolher;
Vós que adorastes, ensinai-nos a adorar;
Vós que acompanhastes, ensinai-nos a acompanhar.
Amem
.

Em Jerusalém, dia 26, visitou xeque Muhamad Ahmad Hussein, Grão Mufti de Jerusalém e de toda a Palestina, na Esplanada das Mesquitas e recordou as origens comuns de judeus, cristãos e muçulmanos que, cada um a seu modo, reconhecem em Abraão um pai na fé. Abraão o peregrino que se faz pobre, põe-se a caminho em busca da suspirada meta: “Esta foi a condição de Abraão, esta deveria ser também a nossa disposição espiritual. Não podemos jamais considerar-nos auto-suficientes, senhores da nossa vida; não podemos limitar-nos a ficar fechados, seguros nas nossas convicções. Diante do mistério de Deus, somos todos pobres, sentimos que devemos estar sempre prontos para sair de nós mesmos, dóceis à chamada que Deus nos dirige, abertos ao futuro que Ele quer construir para nós”.

E o convite

Amados irmãos, queridos amigos,
a partir deste lugar santo,
lanço um premente apelo a todas as pessoas
e comunidades que se reconhecem em Abraão:
Respeitemo-nos e amemo-nos uns aos outros como irmãos e irmãs!
Aprendamos a compreender a dor do outro!
Ninguém instrumentalize, para a violência, o nome de Deus!
Trabalhemos juntos em prol da justiça e da paz!
Salam!

Francisco não é conduzido por ingênuo otimismo, porque sabe a que ponto chegou a soberba humana na tentação de se construir sem Deus, contra Deus, transformando a história da civilização na história de Babel. Tem diante de si o mistério da Cruz redentora que, rejeitada, leva à fabricação de cruzes dolorosas colocadas sobre ombros já chagados de crianças, homens e mulheres, de judeus, cristãos e muçulmanos.

No mesmo dia 26, visitou o YAD VASHEM, o monumento da Memória em Jerusalém onde estão gravados os nomes dos quase seis milhões de judeus mortos pela ideologia racista do nazismo. O decreto da morte do povo judeu significou o desafio blasfemo ao Deus da Aliança, o repto humano “quem tem a última palavra?”. Extinguindo o Povo da Aliança Hitler pensava ter extinto a Aliança, depositando Deus no lixo da história. João Paulo II, Bento XVI visitaram o Memorial, e ali a palavra mais forte é o silêncio envergonhado do homem em seu estágio mais baixo de soberba e crueldade.

Francisco ali proferiu palavras perturbadoras, remontando ao pecado de Adão que se escondeu de Deus, em nome da humanidade confessando os pecados e clamando por misericórdia. Nelas escutamos não um homem, um papa, um crente, mas um profeta que escapa das páginas bíblicas:

“’Adão, onde estás?’ (cf. Gen 3, 9).
Onde estás, ó homem? Onde foste parar?
Neste lugar, memorial do Shoah,
ouvimos ressoar esta pergunta de Deus: ‘Adão, onde estás?’.
Nesta pergunta, há toda a dor do Pai que perdeu o filho.
O Pai conhecia o risco da liberdade;
sabia que o filho teria podido perder-se…
mas talvez nem mesmo o Pai podia imaginar uma tal queda, um tal abismo!
Aquele grito ‘onde estás?’ ressoa aqui,
perante a tragédia incomensurável do Holocausto,
como uma voz que se perde num abismo sem fundo…

Homem, quem és? Já não te reconheço.
Quem és, ó homem? Quem te tornaste?
De que horrores foste capaz?
Que foi que te fez cair tão baixo?
Não foi o pó da terra, da qual foste tirado.
O pó da terra é coisa boa, obra das minhas mãos.
Não foi o sopro de vida que insuflei nas tuas narinas.
Aquele sopro vem de Mim, é algo muito bom (cf. Gen 2, 7).
Não, este abismo não pode ser somente obra tua, das tuas mãos, do teu coração…
Quem te corrompeu? Quem te desfigurou?
Quem te contagiou a presunção de te apoderares do bem e do mal?
Quem te convenceu que eras deus?
Não só torturaste e assassinaste os teus irmãos,
mas ofereceste-los em sacrifício a ti mesmo, porque te erigiste em deus.
Hoje voltamos a ouvir aqui a voz de Deus: ‘Adão, onde estás?’”.

E Francisco, em nome da humanidade, eleva a Deus o único grito que tem sentido, pedindo perdão por todos os holocaustos hoje fabricados e alimentados pelas guerras:

Tende piedade de nós, Senhor!
Para Vós, Senhor nosso Deus, a justiça;
para nós, estampada no rosto a desonra, a vergonha (cf. Bar 1, 15).
Pecamos contra Vós.
Vós reinais para sempre”
(cf. Bar 3, 1-2).

O Bispo de Roma termina sua peregrinação pedindo perdão pelos pecados e confiando na graça divina que pode regenerar a história. Há dois mil anos o Filho perguntava ao Pai por que o abandonara e, hoje, Francisco nos coloca diante do Pai que, pelo Espírito de Jesus prepara, unge e envia os filhos de Abraão. Confia em nós.

Pe. José Artulino Besen 

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MONSENHOR HUBERTO BRUENING – VIDA DOADA A MOSSORÓ

Padre Huberto Bruening na juventude

Padre Huberto Bruening na juventude

Huberto Bruening (pode ser grafado Brüning), natural de São Ludgero, SC, filho de Reinaldo Bruening e de Isabel Rohden, nasceu em 30 de março de 1914. Era irmão de Pe. Clemente Bruening, sobrinho do filósofo e teólogo Huberto Rohden e primo irmão de Dom Afonso Niehues.

Com vocação despertada pelas Irmãs da Divina Providência do Colégio Sant’Ana de São Ludgero, seguiu o Pe. Jaime de Barros Câmara, que tinha ido a São Ludgero buscar seminaristas para o novo Seminário a ser iniciado em Florianópolis e, logo depois, foi transferido para Azambuja, Brusque, ocupando dois andares do Hospital local. Assim, integrou a primeira turma do Seminário Menor Metropolitano Nossa Senhora de Lourdes, onde estudou de 1927 a 1936, e cursou o ciclo básico da época, denominado Curso Ginasial e, em seguida, o Curso de Filosofia. Impressionam as disciplinas cursadas nesse estudo filosófico e, mais ainda, pelas disciplinas serem ministradas em latim: lógica, criteriologia, ontologia, cosmologia, psicologia, teodicéia, ética, liturgia, ciências naturais, história da filosofia e canto gregoriano.

Em 1935 seguiu para São Leopoldo, RS, a fim de completar a formação com os estudos teológicos. No meio tempo, aconteceu a eleição de Mons. Jaime de Barros Câmara para 1º. bispo diocesano de Mossoró, RN. Mons. Jaime era extremamente ligado aos seminaristas e não pretendia ir para o Nordeste sozinho, numa diocese carente de vocações e padres. Dom Joaquim Domingues de Oliveira, arcebispo de Florianópolis, permitiu que convidasse alguns seminaristas a acompanha-lo: Huberto Bruening, Ivo Calliari, Arlindo Thiesen, Walmor de Castro foram os que perseveraram. Excetuando Huberto, os três se integraram à vida episcopal de Dom Jaime em Mossoró, Belém do Pará e Rio de Janeiro.

Huberto chegou em Mossoró em 25 de abril de 1936, e foi excardinado da Arquidiocese de Florianópolis em 24 de setembro de 1936. Tendo completado os estudos teológicos em Fortaleza, foi ordenado sacerdote na catedral Santa Luzia, em Mossoró, em 30 de janeiro de 1938. Lema escolhido para o sacerdócio: “Pela graça de Deus sou o que sou” (1Cor 15,10).

Como homem de saber, lecionou nos seminários de Fortaleza, Belém do Pará e Santa Teresinha de Mossoró. Entre outras matérias, lecionou latim, português, alemão, filosofia e música. Durante os quase 60 vividos em Mossoró, Mons. Huberto fez quase tudo: foi Reitor de Seminário, Vigário Geral, Capelão do Hospital, Censor, Cura da Sé catedral e Presidente do Instituto Amantino Câmara, que amparava e abrigava idosos. O Instituto Amantino Câmara foi fundado por Dom Jaime de Barros Câmara em 1941, com o dinheiro que recebeu de herança do irmão, patrono da instituição. Evidente que Mossoró não era apenas a Catedral, mas incluía dezenas de capelas espalhadas pelo território do município, à época com com 3.000 km2.

Além disso, evangelizou e formou aquele povo através do rádio, onde apresentava, sempre às 18 horas, o programa “Mensagens de Fé”. Era homem de fé e de Igreja, rigoroso consigo e com os outros […] Continuar lendo…

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NOVOS CARDEAIS JUNTO À CÁTEDRA DE PEDRO

Chibly Langlois, arcebispo de Les Cayes, primeiro cardeal do Haiti

Chibly Langlois, arcebispo de Les Cayes, primeiro cardeal do Haiti

No dia 22 de fevereiro a liturgia celebra a Cátedra de São Pedro Apóstolo. A festa teve origem no século IV, quando os cristãos de Roma passaram a honrar Pedro junto a seu túmulo no Vaticano. A Antífona da Entrada motiva a celebração: “O Senhor disse a Simão Pedro: roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, por tua vez, confirma os teus irmãos” (Lc 22,32). E o Evangelho proclama a profissão de fé de Pedro, seguida da imposição do mandato (cf. Mt16, 13-19). No primeiro momento, o Pescador de Tiberíades se adianta aos discípulos: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. E Jesus: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela”.

A missão de Pedro e de seus sucessores, os papas, é confirmar os cristãos na proclamação de Jesus como Messias e Filho de Deus. Hoje é o papa Francisco que nos recorda continuamente a salvação dada por Deus Pai àqueles que aceitam o dom da fé no Senhor Crucificado e ressuscitado. Pedro confirma a fé vivida na Igreja, pois não é possível isolar Cristo de sua Igreja.

O Papa tem a autoridade única recebida por Pedro e transmitida aos sucessores, os bispos de Roma. Mas, ele não é uma solidão: é fortalecido pela oração dos fiéis e busca o conselho de teólogos, bispos e povo de Deus. Seus conselheiros principais são os Cardeais, que formam o Colégio apostólico e governam a Igreja na vacância papal e se reúnem em Conclave para eleger o Bispo de Roma, o Papa. Oficializado em 30 de setembro de 2013, Francisco nomeou o Conselho de Cardeais, com 8 Cardeais escolhidos dos cinco Continentes como conselheiros nos estudos e encaminhamentos para a reforma da Cúria romana.

Jean-Pierre Kutwa, arcebispo de Abidjan, Costa do Marfim

Jean-Pierre Kutwa, arcebispo de Abidjan, Costa do Marfim

Durante a liturgia de 22 de fevereiro é tradicional a nomeação de novos cardeais, anunciados com antecedência. Reunido em Consistório, Francisco também imporá o chapéu cardinalício a 19 cardeais, cujos nomes são conhecidos desde 12 de janeiro. Desses 19, três não são eleitores, pois ultrapassaram os 80 anos e foram nomeados como uma homenagem fraterna de Francisco. Um deles é Dom Loris Francesco Capovilla, por 10 anos secretário particular de João XXIII, que será canonizado em 27 de abril, juntamente com João Paulo II. Através de Loris Capovilla, o Papa quer recordar o extraordinário papa João XXIII, o Papa Bom. Capovilla não estará presente, pois seus 98 anos impedem-no de realizar uma viagem tão longa e participar de uma solenidade na qual ocupará um lugar visível.

Os 16 Cardeais completarão o quadro de 120 eleitores num eventual Conclave.

Papa Francisco, tão rico de sinais indicativos para a vida da Igreja, como a supressão dos títulos de Monsenhor, surpreendeu também nesse Consistório: os novos cardeais “representam a profunda relação eclesial entre a Igreja de Roma e as outras Igrejas espalhadas pelo mundo”.

Escolheu bispos de todos os Continentes, de 12 países: 5 das Américas, 2 da África e 2 da Ásia, com atenção a dois das mais pobres países do mundo como o Haiti e Burkina Faso. Esses homens levarão ao Papa e a Roma a voz de suas nações.

O Cardinalato é um serviço e não uma honra ou homenagem

Em outros Consistórios prevalecia a tradição de serem nomeados bispos de sedes “importantes”, mesmo que legalmente não existam mais sedes cardinalícias. Francisco indicou a superação da existência de Igrejas mais ou menos importantes, pois todas as Igrejas são apostólicas, todos os bispos sucedem os Apóstolos no mesmo grau e missão.

Como acontece com freqüência nas instituições, aquilo que era um serviço humilde se transforma em honraria e privilégio, e isso aconteceu também com os cardeais que passaram a ter vida própria quando, na verdade, seu sentido de existir é auxiliar o Papa. Assim, o Presidente da França, Portugal, Itália e o Rei da Espanha detinham o privilégio de impor o chapéu cardinalício ao núncio apostólico nomeado cardeal, numa cerimônia muito estranha de um arcebispo ajoelhar-se diante de uma autoridade civil [1]. Paulo VI suprimiu essa tradição.

No Brasil, as sedes episcopais de Salvador, São Paulo e Rio eram também consideradas sedes cardinalícias. Francisco não levou isso em consideração: escolheu Dom Orani Tempesta, do Rio de Janeiro, mas não o arcebispo de Salvador. Focalizou o interesse da Igreja, não eventuais homenagens.

A Igreja italiana sentiu isso com maior clareza: não foram escolhidos para o Colégio cardinalício nem o Patriarca de Veneza, nem o arcebispo de Turim. Francisco pôs os olhos em Gualtiero Bassetti, humilde bispo da pequena Peruggia, que vive na simplicidade e pobreza o ministério episcopal, quase ao estilo de Jorge Bergoglio quando arcebispo de Buenos Aires.

João XXIII nomeou o primeiro Cardeal negro, Laurean Rugambwa, em 1960

João XXIII nomeou o primeiro Cardeal negro, Laurean Rugambwa, em 1960

Maior significado ainda trouxe a escolha do primeiro cardeal da história do Haiti: buscou não o arcebispo da Capital, mas, na periferia haitiana, Dom Chibly Langlois, bispo da pequena cidade de Las Cayes. E nas Filipinas, escolheu Dom Orlando Quevedo, da diocese de Cotabato, Mindanau, que nunca teve cardeal. O Papa que veio “do fim do mundo” quer escutar os cristãos dessas periferias eclesiais.

Sempre mais seremos chamados a ver a missão cristã como serviço cristão, que a glória cristã é ocupar o último lugar. O trono cristão é participação do trono do Calvário, onde Nosso Senhor dá a vida.

Pe. José Artulino Besen


[1] Assis aconteceu em 1953, quando no Palácio de Versailles em Paris, o francês Vincent Auriol impôs o barrete no Núncio Ângelo Roncalli, cinco anos depois eleito Papa João XXIII.

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O QUE CRÊEM E VIVEM OS CATÓLICOS

Pedro e Paulo, carisma e instituição – colunas da Igreja de Cristo em Roma

No diálogo ecumênico é fundamental que cada um conheça e viva a fé de sua Igreja ou comunidade religiosa. O diálogo não visa a supressão de artigos da fé, mas sim, cada um se enriquecer a partir do conhecimento do outro. Nasce uma espiritualidade de comunhão, de respeito pela seriedade do outro. “Nós cremos de um modo diverso, mas o que nos une é muito mais forte do que nossas diferenças”.

O diálogo enriquece quem dialoga; se empobrece é dominação, não diálogo.

Quando me perguntaram “o que é ser católico romano?”, resolvi expressar a resposta nesta síntese, ponto de partida para um aprofundamento do tema.

 1 – Origem e desenvolvimento histórico

A Igreja nasce do lado direito do Cristo, donde escorrem Sangue (Eucaristia) e Água (Batismo) – Centro Aletti.

A Igreja nasce do lado direito de Cristo crucificado, donde correm Sangue e Água, o Batismo e a Eucaristia. Gerada aos pés da cruz, se expande pela missão do Espírito Santo no dia de Pentecostes. É o Povo de Deus e o Corpo Místico de Cristo.

O Catolicismo romano, que identifica a Igreja católica apostólica romana, se entende em continuidade com a primitiva comunidade de Jerusalém, desenvolvida pela missão apostólica e tendo como centro a cidade de Roma, onde os apóstolos Pedro e Paulo receberam a palma do martírio e estão sepultados.

O Espírito Santo desperta a fé no Senhor ressuscitado e anima a missão cristã.

Com a “reviravolta constantiniana” de 313, quando o imperador romano Constantino concedeu liberdade aos cristãos e pouco a pouco fez do Cristianismo a religião oficial do Império, a Igreja adquiriu uma fisionomia própria, de caráter organizacional e visível à imagem do Império. Quando a sede do Império foi transferida de Roma para Bizâncio/Constantinopla, em 322, esta cidade assumiu o título de Nova Roma e a Igreja católica romana passou a acentuar duas fisionomias bem definidas: a ocidental católica romana e a oriental, católica ortodoxa. Os dois Patriarcados (Roma e Constantinopla) desenvolveram eclesiologias diferentes: a católica romana centralizada na pessoa do Bispo de Roma, o Papa, e a católica oriental, sinodal (o que se refere à Igreja diocesana nela se decide; a comunhão entre as Igrejas não permite a autoridade de uma sobre outra).

Com as invasões bárbaras dos séculos IV-V e a queda de Roma, o Bispo de Roma e os bispos espalhados pela antiga estrutura geográfica e política do Império ocidental tiveram de assumir o processo de reorganização civil e de proteção aos mais fracos, o que fez com que, além da missão religiosa, assumissem funções administrativas e retomassem a evangelização, pois os bárbaros eram em sua maioria pagãos, ou cristãos arianos. Neste trabalho missionário manifestou-se o perigo, depois real, do sincretismo: o cristianismo católico recebeu fortes influências das culturas germânicas e anglo-saxônicas.

Abandonada pelo Imperador, Roma ficou sob a responsabilidade de seu Bispo, o Papa, que passou a governar um território, os Estados Pontifícios, que terminaram em 1870.

A Santa Sé – além de Pastor da Igreja universal, o Papa é chefe do Estado do Vaticano, incrustado na cidade de Roma, com o território atual (de 49 hectares) definido em 1929 e reconhecido pela comunidade internacional. A origem dos Estados Pontifícios (anexados à Itália em 1870) está ligada às doações do rei franco Pepino o Breve e seus sucessores a partir do século VIII. O Vaticano é reconhecido e mantém relações diplomáticas com 180 países e é membro-observador da ONU. Mesmo com o título de Chefe de Estado, o Papa não exerce mais funções administrativas.

2 – Ênfases teológicas centrais

O conteúdo da Fé católica

1)  Crê como divinamente revelada e inspirada a Sagrada Escritura composta de 73 Livros do Antigo e Novo Testamentos, neles incluídos os Deuterocanônicos, isto é, os Livros do AT escritos em grego.

2)  Professa um só Deus em três Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

3)  Professa que o Filho, Jesus Cristo, na plenitude dos tempos se encarnou na Virgem Maria e é Deus e Homem verdadeiro.

4)  Professa a Fé definida no Credo apostólico e no Niceno-constantinopolitano (proclamados em cada Liturgia dominical e festiva).

5)  Crê que a Tradição expressa a fidelidade ao conteúdo da Escritura através das decisões dogmáticas dos Concílios Ecumênicos (os sete primeiros, da Igreja Una) e Gerais do Ocidente.

6)  Aceita um Magistério (da Igreja local e da Igreja universal) como garantes da reta compreensão do texto revelado e que, nas decisões dogmáticas, possui a assistência que o Senhor prometeu à Igreja através do Espírito Santo.

7)  A Igreja católica romana crê como divinamente revelados Sete Sacramentos: o Batismo e a Eucaristia/Ceia/Missa criados diretamente pelo Senhor e constitutivos da Igreja e os outros cinco derivados de palavras ou gestos dele: Confirmação/Crisma, Penitência/Confissão, Ordem/Sacerdócio, Unção dos Enfermos e Matrimônio (A não se constatar nulidade, o Matrimônio é indissolúvel). A Celebração eucarística, constituída pela Liturgia da Palavra e Liturgia eucarística, é a Celebração do Mistério Pascal, isto é, da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão gloriosa do Senhor, sob a presidência de um bispo ou presbítero.

 3 – Poder e Serviço na Igreja

Todo cristão participa do sacerdócio universal dado pelo Batismo: sacerdócio real (santificar o mundo), profético (anunciar o Evangelho) e ministerial (assumir serviços e carismas eclesiais).

Dentre os cristãos, alguns exercem o sacerdócio sacramental, hierárquico, recebido no sacramento da Ordem e constituído pelos três graus do diaconato, presbiterato e episcopado. O episcopado inclui a sucessão apostólica, pela qual o bispo é ordenado pela imposição das mãos de três outros bispos, como garantia da unidade na Igreja. A Igreja católica reconhece como bispos aqueles que foram ordenados por outro bispo com a imposição das mãos significando a comunicação da graça do Episcopado. Os presbíteros são diocesanos ou religiosos (de uma Ordem ou Congregação).

A Igreja particular (dioceses e arquidioceses) tem como pastor um bispo validamente ordenado e com mandato apostólico (jurisdição conferida pelo Papa). Para o atendimento pastoral, as dioceses se dividem em paróquias e comunidades, confiadas a um padre. Nelas se dá a vivência quotidiana da fé.

A Igreja universal se constitui pela unidade em torno do Papa, Bispo de Roma e sucessor do apóstolo Pedro (assim o Catolicismo entende o mandado do Senhor em Mateus (16, 15-19: Tu és Pedro) em união com todos os bispos, o colégio episcopal. O Papa tem jurisdição direta e imediata sobre todas as Igrejas particulares e sobre todos e cada um dos fiéis e, no exercício de seu ministério, goza pessoalmente de infalibilidade (isto é, inerrância) quando define matéria de fé e de moral e declara explicitamente que pronuncia uma sentença infalível.

Quando ocorre o falecimento de um papa, reúne-se o Conclave – assembléia na qual o novo Papa é eleito por um Colégio atualmente fixado em 120 eleitores, constituído por Cardeais com idade abaixo de 80 anos. Na verdade, o Conclave elege um novo bispo de Roma que, como tal, é o Papa, sucessor de Pedro e Paulo.

Acontecimento decisivo na vida católica do século XX foi o Concílio do Vaticano II (1962-1965), que significou um novo Pentecostes para a Igreja. Convocado e inaugurado por João XXIII (1958-1963), o “Papa Bom”, continuado por Paulo VI (1963-1978), animou a vida eclesial impulsionando a renovação litúrgica, os estudos bíblico-teológicos e o uso da Escritura. O acento colocado na Eclesiologia do Povo de Deus foi ocasião para o rejuvenescimento da participação dos cristãos-leigos na Igreja, desclericalização da pastoral e da evangelização, novo lance missionário. Igreja como comunhão a participação. Outro fruto, de alcance ainda não mensurável, foi a abertura ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso.

 4 – Meios de santificação

Os sete Sacramentos

Os Sacramentais: incluem as bênçãos especiais e outras celebrações.

Culto: a Deus uno e trino unicamente se presta o culto de adoração.

Culto ao Santíssimo Sacramento: a Igreja católica afirma que o Pão consagrado, Corpo do Senhor, assim permanece mesmo após a Celebração da Eucaristia, tanto para ser levado aos doentes e idosos como para ser adorado. A adoração ao Santíssimo está intimamente ligada ao Mistério do Altar, a Eucaristia.

Culto aos Santos: chamado de “veneração”, diferente da adoração: é um respeito oferecido aos homens e mulheres que de modo mais pleno se transfiguraram em Cristo. Os santos são apresentados ao povo cristão como modelos de vida cristã e como intercessores. Entre todos os Santos sobressai a figura da Virgem Maria, de quem a Igreja católica afirma a imaculada conceição (concepção sem pecado), a maternidade divina, a virgindade perpétua e a assunção ao céus em corpo e alma.

Como não mais se vive numa cultura onde a imagem se identifica com ídolo (como acontecia nos tempos bíblicos), a Igreja católica aceita que os fiéis contemplem os fatos e pessoas da história da salvação, os Santos e suas vidas, através de imagens, vitrais e ícones. Também são veneradas as relíquias dos Santos.

É característica forte do catolicismo romano a oração dos vivos pelos falecidos, fruto da fé na comunhão dos Santos: há uma união misteriosa entre os vivos e os mortos, entre os que já estão na glória, os que militam na terra e os que são purificados para a posse da vida eterna (aqui se inclui a doutrina do Purgatório, fundamentada em 2Macabeus 12, 43-46). No mesmo contexto entra a doutrina das Indulgências – aplicação aos mortos das boas obras dos vivos e que deram ocasião a abusos, superstições e corrupção religiosa, contribuindo como causa imediata da Reforma protestante do século XVI.

4 – Práticas sócio-eclesiais características.

Para a santificação de seus membros, além da Palavra e dos Sacramentos, que são essenciais e levam à vida transformada pelo Amor e pela oração, a Igreja católica faculta:

Vida religiosa consagrada contemplativa e ativa: a partir do século III surgiu a vida monacal (eremitas e cenobitas) e, mais tarde, as Ordens e Congregações religiosas. Os contemplativos (como monges e monjas beneditinos, cistercienses, trapistas, carmelitas, eremitas camaldulenses, servitas, clarissas) que se retiram para a experiência da vida cenobítica (vida em comum) onde fazem a experiência da oração e do trabalho comunitário. Seu ministério é o da intercessão pela Igreja e pelo mundo. As Ordens e Congregações de vida ativa, masculinas e femininas (jesuítas, salesianos, franciscanos, capuchinhos, …), destinam-se à vida comunitária e ao trabalho evangélico junto às paróquias, aos pobres, órfãos, idosos, doentes, presidiários, missões e escolas.

Movimentos de espiritualidade leiga – Apostolado da Oração, Legião de Maria, Opus Dei, Focolarinos, Movimento Familiar Cristão, Ordem Franciscana Secular, Equipes de Nossa Senhora, Neocatecumenato, Schönstadt…, são característicos do Catolicismo romano e se orientam para a santificação conjugal, familiar, comunitária, pessoal. No século XX surgiu a Renovação Carismática católica, ou Renovação no Espírito, que tem atraído verdadeiras multidões: caracteriza-se pelo cultivo dos dons e frutos do Espírito Santo, assumindo uma veste forte de alegria, espontaneidade, celebrações vibrantes, impulso evangelizador.

Peregrinações – constitutivas de todas as religiões, as peregrinações significam o deslocamento penitencial e devocional a locais marcados pela história bíblica (a Terra Santa) ou pela presença de santos ou manifestações extraordinárias da graça divina (Roma, Cantuária, Compostela, Guadalupe, Lourdes, Fátima, Aparecida, estes últimos locais de devoção mariana). Não são isentas do aspecto lúdico, turístico e até comercial.

Devoções – fazem parte da vida religiosa pessoal. Podem ser a consagração dos meses de maio e outubro à Virgem Maria, a visita a igrejas significativas para sua vida, o culto a determinado santo ou a suas relíquias, a recitação do Rosário (durante o qual se meditam os mistérios da encarnação, paixão e glória do Senhor) e muitos outros modos. Podem ser ambíguas: levar a uma vida iluminada pela Palavra ou se deter em aspectos visíveis, emotivos e até supersticiosos.

 5 – Cisões e correntes

Já nos tempos do Novo Testamento surgiram divisões na comunidade cristã. Isso é compreensível, pois ainda não estava definida a doutrina e o mundo greco-romano era rico em correntes de pensamento. Grande ameaça à unidade foi o Gnosticismo, que identificava a fé com o conhecimento. No século V, surgiu a Igreja nestoriana (que nega a Maria o título de Mãe de Deus) e a monofisita, que não aceitou a definição do Concílio de Calcedônia (451) que definiu em Cristo uma pessoa divina e duas naturezas, divina e humana. Hoje se tem claro que essas divisões foram fruto mais da dificuldade lingüística de distinguir entre pessoa e natureza, do que problemas dogmáticos.

Duas grandes rupturas, porém, marcaram a história do cristianismo e da Igreja católica romana em particular: o Cisma grego de 1054 (entre a Igreja católica romana e a católica ortodoxa oriental) e as Reformas a partir de 1517, a que seguiu-se a organização das Igrejas evangélica, anglicana e reformada (calvinista). A Igreja católica romana inclui as Igrejas do ocidente romano, latino e as Igrejas católicas orientais que permaneceram unidas ou retornaram à comunhão com Roma, as “uniatas”.

Pelo Censo da Igreja católica romana de 2011, há um bilhão e 200 milhões de fiéis católicos.

 6 – Convicção e respeito

Às vezes se faz a pergunta: quem é católico se salva? Quem é protestante se salva? Essa pergunta nós não podemos responder, pois a salvação é dom, graça de Deus. Nós, católicos, podemos dizer: “Eu posso responder apenas isso: se vivo a minha fé na comunidade, com a consciência iluminada pelo Espírito, se vivo o Mandamento do Amor, se creio que Jesus é meu Senhor e Salvador, Deus Pai me dará a salvação”.

Pe. José Artulino Besen

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