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PAPA FRANCISCO NOS 500 ANOS DA REFORMA

Francisco visita os luteranos na Suécia

Francisco visita os luteranos na Suécia

No dia 31 de outubro de 1517 Frei Martinho Lutero afixou suas 95 teses sobre as Indulgências na porta da igreja de Todos os Santos em Wittenberg. Foi o início não planejado da Reforma que levou à divisão da Igreja entre Católica e Luterana, levou às guerras religiosas, à fragmentação da Alemanha, à divisão da unidade européia que tinha como fundamento histórico a fé católica. Somente a Itália, Espanha e Portugal permaneceram católicos.

No dia 31 de outubro de 2016, o Papa Francisco e Igrejas luteranas celebrarão um Culto ecumênico pela passagem dos 500 anos do início da Reforma, com o tema da ação de graças, da penitência e do compromisso no testemunho comum. O objetivo é expressar os dons da Reforma e pedir perdão pela divisão perpetuada pelos cristãos das duas tradições. E, pela primeira vez, a celebração não será marcada pelos ataques teológicos, pela culpabilização, pela busca de quem estava/está certo ou errado. Afinal, quando se processa uma divisão entre irmãos na fé, com o ódio pelo outro, há culpa e acerto nos dois lados. Ecclesia semper reformanda é um mandamento que vale para o século XVI e o século XXI. Do mesmo modo que Francisco busca renovar a Igreja católica a partir da fidelidade ao Evangelho, os evangélicos também necessitam de uma renovação interior no confronto com as Sagradas Escrituras.

O encontro celebrativo dos 500 anos da Reforma será em Lund, cidade sueca onde em 1947 foi fundada a Federação Luterana Mundial, que hoje congrega 147 Igrejas protestantes.

Alguns dados biográficos do reformador alemão

Martinho Lutero (Martin Luther) nasceu em 1483 em Eisleben, de pais camponeses. Vencendo as limitações econômicas da família, entre 1501-1505 estudou na Universidade de Erfurt. Em 18 de julho de 1505, após muitas dúvidas e reflexões, entrou no Convento dos Eremitas Agostinianos de Erfurt, onde foi ordenado padre em 1507.

Em 1512, Lutero é superior do Convento Agostiniano de Wittenberg, doutor em teologia e em exegese bíblica, lecionando as Cartas paulinas aos Gálatas e ao Romanos.

Por uma formação religiosa deficiente, onde contava muito o peso e o medo da condenação eterna, Lutero sofria o pavor do inferno, e era escrupuloso. Alcançou a paz interior entre 1512-1513, na famosa Experiência da Torre (Turmerlebnis): após muita oração, Deus lhe permitiu descobrir que a salvação é dada ao homem somente pela fé em Cristo, como puro dom, e não como recompensa pelas obras: “O justo vive pela fé”  (Rm 1,17). Sentiu paz interior e nunca mais a perdeu, mesmo no ardor dos embates em que esteve envolvido.

Frei Martinho Lutero, um homem religioso

Martinho Lutero não era um monge corrupto, degenerado, psicopata, mentiroso, como durante séculos quis ensinar a apologética católica. Foi monge, viveu como monge e morreu casado; não foi anjo, nem demônio, mas testemunha de Cristo. O século XVI, século da Reforma, mostrou com clareza as deficiências da organização eclesiástica e, o que era mais grave, as deficiências na condução da espiritualidade e piedade cristãs.

Hoje, todos reconhecem em Lutero uma autêntica religiosidade. Teve uma experiência pessoal de Deus, um autêntico sentido do pecado e da própria nulidade, que vencia por uma entrega total a Cristo e uma confiança cega nele e em sua redenção. Possuía um sentido trágico da miséria humana, da qual deriva a escassa ou quase nula utilidade das muitas práticas religiosas. Grande apego à oração e uma imensa confiança na graça. A tudo isso, unia um grande amor pelos pobres.

Pela sua índole, pelos seus dotes de pregador, de chefe, de guia, pela vivíssima fantasia, rica em imagens, demonstrava estar convencido de ser enviado por Deus para anunciar uma experiência íntima e transformadora, único caminho de paz e salvação. Lutero tinha sido feito para inflamar as massas populares e convencer e agitar os ouvintes. O dom de comando, nele, se unia a uma irradiação interior e grande sensibilidade pelos outros.

Era dotado de caráter forte, unilateral, impulsivo, forte subjetivismo, com pouca disposição para aceitar mediadores entre Deus e os homens. Autêntica e profunda religiosidade, mas tendência ao autoritarismo e violência. Mesmo reconhecendo nele toda a seriedade religiosa, pode-se afirmar que faltou-lhe uma autêntica humildade, a capacidade de ouvir os outros, a Igreja.

O jesuíta alemão Ludwig Hertling, historiador da Igreja católica, reconhecendo a aventura espiritual de Lutero, afirma que por sua personalidade, força de comando, acentuou no caráter alemão algumas características que se impuseram nos séculos seguintes, até de modo trágico: a autossuficiência, arrogância, orgulho nacional, o sentido dos deveres cívicos.

É fácil e confortável apontar as deficiências de um homem, mas não se pode ignorar que Lutero foi um homem religioso, homem de oração. Sua vida não pode ser confundida com as turbulências da Reforma, onde o desejo de uma fé pura misturou-se com a ambição de príncipes ansiosos para tirar proveito das divisões e apossar-se dos bens da Igreja.

O papa João Paulo II [1], escreveu em 31 de outubro de 1983 : “Os esforços dos evangélicos e católicos que, em grande medida, coincidem nos resultados, permitiram delinear um quadro mais complexo e articulado da personalidade de Lutero e do complexo entrelaçamento das circunstâncias históricas, da sociedade, da vida política e da Igreja na primeira metade do século XVI. Resplandeceu evidente a profunda religiosidade de Lutero, com a sua problemática da salvação eterna vivida com ardente paixão”.

Os estudos do século XX revelaram com clareza a profunda religiosidade de Lutero, homem cujo impulso e paixão era a pergunta sobre a salvação eterna.

Tudo requer uma pesquisa sem preconceitos para se revelar uma imagem justa do reformador, e não somente dele, mas do período da Reforma e das pessoas nela envolvidas, reconhecendo a culpa de uma e de outra parte. Uma atitude de purificação através da verdade permite-nos encontrar uma comum interpretação do passado e, ao mesmo tempo, construir um novo ponto de partida para o diálogo hoje obtido pela clareza histórica.

O estudo dos escritos confessionais evangélico-luteranos encontram sua base sólida naquilo que nos une também depois da separação: a Palavra da Escritura, as Profissões de Fé e os Concílios da Igreja antiga.

João Paulo II, conclui: “Na humilde contemplação do Mistério da divina Providência e na devota escuta daquilo que o Espírito de Deus hoje nos ensina na recordação dos acontecimentos da época da Reforma, a Igreja tende a dilatar os limites de seu amor, para ir ao encontro da unidade de todos aqueles que, através do Batismo, carregam no nome de Jesus Cristo”.

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O drama de Martinho Lutero: como posso me salvar?

Lutero saiu da Igreja após séria luta e sem ter intenção de fazê-lo. Tornou-se reformador na luta contra uma interpretação do catolicismo que de fato era cheia de deficiências. Deixou a Igreja para descobrir aquilo que é o centro da própria Igreja: o primado da graça.

Por que houve a Reforma? Hoje podemos afirmar que ela foi provocada pelos católicos, pois Lutero era católico, monge sério e sincero, que nunca quis deixar de ser católico. Séculos de aversão a Roma, envolvida na política internacional, mergulhada no Humanismo renascentista, a decadência da própria vida católica alemã, com uma hierarquia não livre de máculas morais e corrupções (houve bispos que não celebraram três missas em longo episcopado!), mosteiros decadentes, fizeram com que boa parte da população alemã visse na pregação de Martinho Lutero o renascer do verdadeiro Cristianismo. Isso ajuda a entender porque tantos alemães, desde Carlos Magno fiéis e dóceis ao Papa, tenham aceitado romper a unidade católica.

Bento XVI analisou com empatia a questão central de Frei Lutero[2]: O que não lhe dava paz era a questão sobre Deus, que foi a paixão profunda e a mola mestra de sua vida e de seu caminho. “Como posso ter um Deus misericordioso?”: esta pergunta lhe penetrava no coração e estava por trás de toda sua pesquisa teológica e de toda a luta interior. Para Lutero, a teologia não era uma questão acadêmica, mas a luta interior consigo mesmo, na luta a respeito de Deus e com Deus. “Como posso ter um Deus misericordioso?”. Escreve Bento XVI: “que esta pergunta tenha sido a força motora de todo o seu caminho me toca sempre novamente o coração. De fato, quem hoje ainda se preocupa com isso, mesmo entre os cristãos? O que significa a questão sobre Deus em nossa vida?”.

 A pergunta “qual é a posição de Deus em relação a mim? Como eu me encontro diante de Deus?”, esta palpitante pergunta de Lutero deve novamente, e em forma nova, ser a nossa pergunta, não acadêmica, mas concreta.

O pensamento de Lutero, toda a sua espiritualidade era de todo cristocêntrica: “O que promove a causa de Cristo” era, para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura. Isto pressupõe que Cristo seja o centro de nossa espiritualidade e que o amor por ele, o viver junto com ele oriente a nossa vida.

A coisa mais necessária para o ecumenismo é, antes de tudo que, sob a pressão da secularização, inadvertidamente não percamos as
grandes coisas que temos em comum, que nos tornam cristãos. O erro da época confessional foi ter visto mais o que separa, e não ter percebido em modo existencial aquilo que temos em comum nas grandes diretrizes da Sagrada Escritura e nas Profissões de fé do cristianismo antigo.

Em sua passagem por Lund, casa mundial do Luteranismo, Francisco nos ensinará a levar adiante, com decisão, o caminho do ecumenismo, da busca da unidade na diversidade.

Pe. José Artulino Besen


[1] Mensagem de João Paulo II ao Cardeal J. Willebrands, Presidente do Secretariado para a unidade dos Cristãos, em 31 de outubro de 1983, por ocasião do 5o centenário de nascimento de Lutero.

[2] Discurso de Bento XVI no encontro com representantes da Igreja Evangélica na Alemanha, em 23 de setembro d 2011, na Sala do Capítulo do ex-Convento dos Agostinianos de Erfurt.

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SANTA TERESA DE CALCUTÁ

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Madre Teresa foi recebida pelos Papas diversas vezes e sua pessoa e vida tocaram-nos profundamente. Paulo VI recebeu-a três meses antes de morrer, em 6 de maio de 1978, e falou, olhando para ela: “É uma coincidência que Jesus ousa fazer, direi com surpreendente grandeza e bondade, de colocar-se no lugar do irmão menor e mais necessitado, mais sofrido e degradado, e dizer: “A mim o fizeste”. Essa “encarnação” mística de Jesus no pobre, no miserável, está verdadeiramente entre as coisas mais luminosas e mais instrutivas do Evangelho”.

E João Paulo II, na homilia de beatificação, em 19 de outubro de 2003: “Sou pessoalmente grato a esta mulher corajosa, que senti sempre ao meu lado. Ícone do Bom Samaritano, ela ia a toda a parte para servir Cristo nos mais pobres entre os pobres”.

Madre Teresa foi uma santa contracorrente, que em grande parte de sua vida experimentou a escuridão, as noites da fé. Por muitos anos não pode mais escutar a voz de Deus. É contracorrente sua defesa da família e da vida: “Hoje, o aborto é o maior destruidor da paz porque, se um mãe pode matar o próprio filho, não há mais nada que impede a mim de matar a ti, e a ti de matar a mim”, falou em 1979, ao receber o Nobel da Paz.

Na mesma ocasião revelou o amor pelos pobres que inclui o êxtase: “Os pobres são grandes pessoas. Podem ensinar-nos muitas coisas belas”. E assim explicou: “Todo ser humano é uma grande pessoa, mas, nos pobres há uma intensidade única, uma aura própria e específica. Neles, a necessidade de amor é visível e se pode tocar com as mãos. Eles nos ensinam que a realidade verdadeira, em cada coisa, é o amor. Eles nos recordam essa verdade. A presença deles é um pró-memória que faz bem à nossa humanidade”. “Quando conhecermos verdadeiramente os pequenos e os fracos, poderemos experimentar a esperança que sabem dar. Os pobres são nossa alegria” (Aos jovens, em Milão, 1973).

Madre Teresa pedia que não se julgassem as pessoas: “Se julgas as pessoas, não terás tempo para amá-las”.  Isso fazia com que encontrasse a bondade em cada pessoa e ao mesmo tempo a suscitava nela, quer fosse pecador, quer santo. O efeito era impressionante: a pessoa sentia-se amada.

Há 50 anos da aprovação pontifícia por Paulo VI em 1964, as Missionárias da Caridade de Madre Teresa passaram de algumas centenas a 5.300 religiosas em 758 fundações que ela gostava de denominar “tabernáculos de Jesus”, espalhadas em 123 países.  Seria um erro ler a história dessa mulher à luz da estatística dos “sucessos” numéricos. Ela pôs no centro de sua vida e de seu testemunho o amor incondicionado pelos pobres, pelos últimos.

Para poder enfrentar as necessidades de um apostolado sempre em aumento, fundou as Missionárias da Caridade, os Irmãos Missionários da Caridade, os dois ramos contemplativos (das Irmãs e dos Irmãos), e o ramo dos sacerdotes.

madre-teresa (2)Cristo foi o primeiro missionário da caridade: “o serviço que oferecemos é um trabalho humilde entre os pobres mais pobres. Não julgamos que seja uma perda de tempo gastar toda a nossa vida matando a fome dos famintos, dando uma casa aos pobres sem teto, vestindo os nus, assistindo os doentes, ensinando os ignorantes, amando quem não é amado, aceitando quem é rejeitado, porque Jesus disse: ‘A mim vós o fizestes’”.

Navin Chawla – intelectual hindu, biógrafo de Madre Teresa, afirmou que ela aprendeu a mendigar. Essa mais profunda humilhação a fortaleceu. Quando encontrava alguém pensava: “o que pode fazer por mim?”, ou seja, como pode ajudar os pobres através de minha obra? Não necessitava converter alguém porque a criança pobre abandonada pela estrada era Jesus. O leproso era Jesus. O moribundo era Jesus.  Não precisava converter alguém que já era Deus. (cfr. N. 22 da GS: “Com a encarnação, o Filho de Deus de certo modo se uniu a cada homem”).

Na Europa e na América, escreveu Madre Teresa, dedicamos o nosso trabalho aqueles que consideramos os mais pobres entre os pobres espiritualmente, e esses são aqueles que não são amados, não são queridos, não são assistidos, pessoas que ninguém ama: “A doença mais grave, hoje, não é a lepra ou a tuberculose, mas a solidão, o sentir-se ignorados, não amados, não desejados”. A solidão é a lepra do Ocidente.

Teresa de Calcutá – a santa da escuridão

Na história da espiritualidade cristã, Madre Teresa mergulha na tradição dos grandes santos e místicos, entre os quais citamos João da Cruz, Teresa d’Ávila, Elisabeth da Trindade, Edith Stein. Passou pela noite escura da fé, essa experiência de amor perfeito na qual o Amado se esconde, aumenta no amante o desejo de possuí-lo e sempre mais se esconde. Noite escura, sim, mas noite plena de claridade, porque vivida entre o Senhor e sua amada. A noite escura é o não sentir-se amado.

Através de alguns de seus escritos, hoje temos algum conhecimento dessa imensa e fascinante aventura de Madre Teresa. Deus dela se escondeu, para que fosse visto apenas numa pessoa: a do pobre. Seus olhos estão sempre abertos, procuram, mas não encontram o Senhor e sim, os pobres deste mundo. E ela está sempre sorrindo, pois no rosto do pobre contempla seu Amado, o Senhor.

Para que o leitor tenha uma pálida idéia do combate da fé vivido Madre Teresa de Calcutá, citamos alguns textos.

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

“Meu sorriso é um grande manto que cobre uma multidão de dores”, escreveu ao diretor espiritual.  O início de sua missão foi na “escuridão”, mediante as locuções interiores que teve no trem noturno que a conduzia a Darjeeling, em 10 de setembro de 1946. Todo o resto de sua existência – após seis meses de extraordinário confronto com Jesus – foi vivido por Teresa na completa escuridão espiritual, sem mais confortos espirituais, pelo contrário, com a constante sensação de viver na distância e na ausência de Deus. É como se, desde o início, ela tivesse tido que experimentar não só a pobreza material e a impotência dos marginalizados, mas também sua trágica desolação.

Escrevia a Dom Périer, em março de 1953, ao assumir a direção da Congregação das Missionárias: “Por favor, reze especialmente por mim, para que eu não arruíne o trabalho de Jesus, e Nosso Senhor se revele, porque há em mim uma terrível escuridão, como se tudo fosse morto desde que eu iniciei a obra. Peça a Nossa Senhora que me dê coragem”. Suas forças vinham de uma certeza: o trabalho pela Congregação das Missionárias da Caridade “não é feito por mim, mas por Jesus: estou mais certa disso do que de minha real existência”.

Em janeiro de 1955, escrevia ao arcebispo Périer de Cacutá: “Há em meu coração uma solidão tão profunda que não sei expressá-la”. Em dezembro do mesmo ano: “Tudo está gelado dentro de mim. É somente a fé cega que me transporta, porque, na verdade, para mim tudo é escuridão”. “Às vezes a agonia da desolação é tão grande e, ao mesmo tempo, é tão profundo o desejo do Ausente, que a única oração que ainda consigo fazer é: “Sagrado Coração de Jesus, eu confio em ti. Saciarei a tua sede de almas” (março de 1956).

Em abril de 1957: “Quero sorrir até para Jesus, de forma a esconder também a ele, se possível, a dor e a escuridão de minha alma”. Em janeiro de 1958: “O desejo vivo de Deus é terrivelmente doloroso e, contudo, a escuridão se torna sempre maior. Que contradição há em minha alma! É tão grande a dor interior, que nada sinto com toda a publicidade e o falar do povo”.

Por apenas um mês seu sofrimento teve alívio: foi em outubro de 1958, quando era celebrada na Catedral de Calcutá a missa em sufrágio de Pio XII: naquela ocasião, Madre Teresa, sufocada pelo sofrimento espiritual, pediu a Jesus um sinal de sua presença. Na carta de 17 de outubro narrou a Dom Périer que “então desapareceu aquela longa escuridão, aquele sentimento de perda, de solidão, daquela estranha e prolongada dor. Hoje a minha alma está cheia de amor, de alegria indizível, de uma ininterrupta união de amor”.

Mas, Jesus foi breve. Já em novembro escrevia que “Nosso Senhor pensou que era melhor para mim permanecer no túnel, e assim ele novamente se foi. Sou-lhe grata por aquele mês de amor que me concedeu”.

O tormento continuou até sua morte, por 39 anos, de modo a purificá-la sempre mais no seu amor por Deus e pelos irmãos. Passou a perceber melhor o significado dessa dolorosa experiência e a colocá-la em relação com sua vocação. Em novembro de 1958, disse a Dom Picachy que nunca soubera “que o amor pudesse fazer sofrer tanto, tanto pela ausência como pelo desejo”. No início de 1960 confidenciou ao Pe. Neuner: “Pela primeira vez, nestes onze anos, comecei a amar a escuridão. Porque agora creio que ela é uma parte, uma pequeníssima parte, da escuridão e da dor vivida por Jesus na terra”.

Sua pergunta era sempre a mesma: “Que proveito Deus tem comigo, enquanto vivo neste estado, sem fé, sem amor, sem nem mesmo um sentimento? Num outro dia houve um momento no qual quase rejeitei aceitar essa situação, e então tomei do Rosário e comecei a recitá-lo lentamente e com calma, sem nada meditar ou pensar. Assim passou aquele momento duro, mas a escuridão é verdadeiramente densa e a dor muito tormentosa. Em todo caso, aceito tudo o que ele me dá e dou-lhe tudo o que ele pega”.

Ficava perturbada diante da reação das pessoas que lhe estavam próximas. Em setembro de 1962, escreveu a Dom Picachy: “As pessoas dizem que se sentem jogadas rumo a Deus vendo minha sólida fé. Isso não significa enganar o povo? Mas, a cada vez que eu queria dizer a verdade – que eu não tinha fé – as palavras não saíam, minha boca permanecia fechada e continuava a sorrir a Deus e a todos”.

Apesar dos sofrimentos e da escuridão espiritual, Madre Teresa sempre tinha clara consciência de que a fé era o verdadeiro farol de sua vida. Era freqüente interromper uma frase para dizer: “Olha o que Deus está fazendo”, e “Admira a grandeza de Deus”.

Uma carta às Missionárias, de 31 de julho de 1962, num dos períodos mais dolorosos de sua experiência espiritual, manifesta a convicção que ela colocara em prática por toda a vida: “Cristo se servirá de ti para fazer grandes coisas com a condição de que tu creias mais no seu amor do que na tua fraqueza. Crê nele, tem fé nele com absoluta e cega confiança porque ele é Jesus, e somente ele é a vida; e que a santidade não é outra coisa que o próprio Jesus que vive intimamente em ti”.

O olhar e o sorriso de Madre Teresa: viveu buscando a Deus e sempre encontrando os pobres. Mas, em 5 de setembro de 1997, encontrou-se com seu Amado, para sempre.

madre-teresa-enrugadaSua vida e santidade foram aprovadas pela Igreja quando, em 19 de outubro de 2003, apenas seis anos após a morte, foi beatificada por São João Paulo II na Praça de São Pedro.  Era o Dia Mundial das Missões, e assim falou o Papa: “Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10, 45). Madre Teresa partilhou a paixão do Crucificado, de modo especial durante longos anos de “obscuridade interior”. Aquela foi a prova, por vezes lancinante, acolhida como um singular “dom e privilégio”.

Nos momentos mais difíceis ela recorria com mais tenacidade à oração diante do Santíssimo Sacramento. Esta difícil angústia espiritual levou-a a identificar-se cada vez mais com aqueles que servia todos os dias, experimentando o sofrimento e por vezes até a recusa. Gostava de repetir que a maior pobreza é não sermos desejados, não ter ninguém que se ocupe de nós.

“Dai-nos, Senhor, a Vossa graça, em Vós esperamos!”. Quantas vezes, como o Salmista, também Madre Teresa, nos momentos de desolação interior, repetiu ao seu Senhor: “Em Vós, meu Deus, em Vós espero!”.

E, no dia 4 de setembro de 2016, no Ano da Misericórdia, na Praça de São Pedro o papa Francisco a proclamou Santa Teresa de Calcutá, glorificando a aventura humana e espiritual de uma das mais fascinantes personalidades da Igreja do século XX, uma mulher pequeninha, frágil como uma borboleta, forte como um leão.

Pe. José Artulino Besen

 Pode ler, nesse blog:

 

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DE LAMPEDUSA A LESBOS, MERGULHO NO SOFRIMENTO

Jovem refugiada em Lesbos - 2016

Jovem refugiada em Lesbos – 2016

Em julho de 2013, Papa Francisco visitou Lampedusa, pequena ilha mediterrânea localizada abaixo da Sicília, sendo o ponto geográfico italiano mais próximo da África. Ali são despejados os migrantes norte-africanos, ali perto chegam os corpos de tantos refugiados cujo transporte naufragou. Lampedusa é um lugar-testemunho da violência e da miséria humanas provocadas pela história econômica de nossa época, colocando em confronto a África explorada e a opulenta Europa.

Francisco fez dessa sua primeira viagem fora de Roma o símbolo indicativo de sua preocupação pastoral. Tanto escolhia o pobre como centro da ação cristã como mostrava ao mundo a incoerência de esconder no silêncio o grito de centenas de milhares de homens, mulheres, jovens e crianças fugitivos da miséria e da guerra que sufocam a vida nos países da África e do Oriente médio.

No dia 16 de abril de 2016, mais uma viagem simbólica de Francisco: a Lesbos, ilha grega que, como Lampedusa, funciona como depósito de migrantes e cemitério de esperanças. Viagem breve, com estadia de cinco horas, mas carregada de simbolismo: fez-se acompanhar dos ortodoxos Bartolomeus, Patriarca de Constantinopla e Hieronymos, arcebispo de Atenas. Além do ecumenismo de sangue, fundou o ecumenismo da caridade cristã indo ao encontro dos sofredores do mundo, dentre eles um significativo número de muçulmanos. O sangue da violência do martírio se une ao sangue da pobreza gerada pelas guerras sem fim (a guerra mundial em pedaços, definiu) filhas dos poderosos interesses do comércio internacional de armas, cujos interesses não levam em conta o inenarrável sofrimento dos povos.

O Papa Francisco visitou o campo de refugiados de Mória, na ilha de Lesbos, que acolhe cerca de 2.500 pessoas, refugiados excluídos da rica Europa e ali depositados enquanto esperam a devolução aos países de onde fugiram, segundo determinação legal dos países da comunidade européia. O Papa foi recebido ao som dos gritos de ‘freedom, freedom’ (liberdade, liberdade).

“Quero dizer-vos que não estais sozinhos”, declarou, depois de ter passado vários minutos a cumprimentar refugiados, muitos deles menores, de países como a Síria, Iraque, Iro, Paquistão ou Afeganistão, entre eles muçulmanos, yazidis e cristãos.

Acompanhado por um intérprete, conversou com várias das famílias presentes e recebeu desenhos de crianças como presente, prometendo guardá-los em sua mesa de trabalho. Era de cortar o coração homens e mulheres narrando suas histórias trágicas e caindo aos prantos. Testemunhavam plasticamente a maior tragédia humana desde a segunda grande Guerra.

Francisco tinha consciência do que o aguardava: “Esta é uma viagem um pouco diferente das outras, é marcada pela tristeza”, confessou aos jornalistas que o acompanharam desde Roma, no voo que aterrou em Mitilene, capital de Lesbos. Falou de um “cemitério no mar”, onde muitas pessoas se afogaram: “Vamos ver tanta gente que sofre, que é obrigada a fugir e não sabe para onde ir”.

O Papa foi acolhido em Lesbos pelo arcebispo ortodoxo de Atenas, Hieronymos II, pelo patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeus I, e pelo primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras. Após a cerimônia oficial de boas-vindas, Francisco e Tsipras encontraram-se em privado, tendo o chefe do governo grego sublinhado o “peso” que a crise dos refugiados tem representado para o país. O Papa, por sua vez, explicou que a viagem visava “agradecer ao povo grego pela sua generosidade”, que tem sido oferecida “corajosamente”, mesmo em meio à crise econômica que vive, lembrando que a Grécia, estava oferecendo “exemplo de humanidade”.

Memória, oração e caridade

A visita humanitária e ecumênica a Lesbos, como foi definida pelo Vaticano, incluiu uma visita ao campo de refugiados de Mória e uma homenagem aos migrantes que morreram no mar, quando os três bispos lançaram ao mar coroas de louro, precedidas de oração de cada um, de que transcrevemos parte.

homenagem-aos-mortos-mar-egeu

Homenagem aos mortos no Mar Egeu.

FRANCISCO

Deus de misericórdia,
pedimo-vos por todos os homens, mulheres e crianças,
que morreram depois de ter deixado as suas terras
à procura duma vida melhor.

Embora muitos dos seus túmulos não tenham nome,
cada um é conhecido, amado e querido por Vós.
Que nunca sejam esquecidos por nós, mas possamos honrar
o seu sacrifício mais com as obras do que com as palavras.

Confiamo-vos todos aqueles que realizaram esta viagem,
suportando medos, incertezas e humilhações,
para chegar a um lugar seguro e esperançoso.

Como Vós não abandonastes o vosso Filho
quando foi levado para um lugar seguro por Maria e José,
assim agora mantende-vos perto destes vossos filhos e filhas
através da nossa ternura e proteção. (…).

Ajudai-nos a partilhar com eles as bênçãos
que recebemos das vossas mãos
e a reconhecer que juntos, como uma única família humana,
somos todos migrantes, viajantes de esperança rumo a Vós,
que sois a nossa verdadeira casa,
onde todas as lágrimas serão enxugadas,
onde estaremos na paz, seguros no vosso abraço
.

BARTOLOMEU I

Senhor de misericórdia, de compaixão e de toda consolação, te pedimos pelos nossos irmãos que vivem em situações difíceis e nos voltamos para a tua Bondade: nutre os recém-nascidos; instrui os jovens; aumenta as forças dos anciãos; infunde coragem nos fracos; reúne os que estão divididos; navega junto com os navegantes; viaja com os viajantes; defende as viúvas; protege os órfãos; liberta os prisioneiros; cura os enfermos.

Recorda-te, Senhor, dos que trabalham nas minas, estão exilados, exercem um trabalho pesado, todos aqueles que vivem todo tipo de aflição, de necessidade, de perigo; e de todos aqueles que imploram a tua amorosa bondade; de todos aqueles que nos amam e daqueles que nos odeiam; infunde em todos a tua infinita misericórdia, atendendo às suas invocações para obter salvação.

HIERONYMOS II

HOMENAGEM AOS MIGRANTES MORTOS NO MAR

HOMENAGEM AOS MIGRANTES MORTOS NO MAR

Ó Deus de todo espírito e de toda carne, que venceste a morte destruindo o poder do demônio, dando vida ao cosmo, às almas dos teus servos que partiram desta vida. Tu, Senhor, dá-lhes repouso num lugar de luz, num lugar de verdes pastagens, num lugar de descanso, do qual desapareceram a dor, a tristeza e o luto. Tu, nosso Deus bom e amoroso, perdoa todo pecado cometido por eles em pensamento, palavras e obras, pois não existe homem algum que possa viver sem pecar, porque somente Tu és sem pecado: a tua justiça e a tua lei é verdade.

Ao final da viagem, os líderes religiosos assinaram empenhativa DECLARAÇÃO CONJUNTA, reportando o drama da migração e o desafio que oferece às Igrejas e aos governos envolvidos, e que assim inicia:

Nós, Papa Francisco, Patriarca Ecumênico Bartolomeu e Arcebispo Hieronymos de Atenas e de toda a Grécia, reunimo-nos na Ilha grega de Lesbos para manifestar a nossa profunda preocupação pela situação trágica de numerosos refugiados, migrantes e requerentes asilo que têm chegado à Europa fugindo de situações de conflito e, em muitos casos, de ameaças diárias à sua sobrevivência. A opinião mundial não pode ignorar a crise humanitária colossal, criada pelo incremento de violência e conflitos armados, a perseguição e deslocamento de minorias religiosas e étnicas e o desenraizamento de famílias dos seus lares, violando a sua dignidade humana, os seus direitos humanos fundamentais e liberdades.

A tragédia da migração e deslocamento forçados afeta milhões de pessoas e é, fundamentalmente, uma crise da humanidade, clamando por uma resposta feita de solidariedade, compaixão, generosidade e um compromisso econômico imediato e prático. (…)

No momento da despedida, um emocionado Francisco expressou sua gratidão com essas palavras: A vós, eu digo obrigado, porque sois guardiões da humanidade, porque cuidais ternamente da carne de Cristo, que sofre no menor dos irmãos, faminto e forasteiro, que acolhestes (cf. Mt 25, 35).

No mesmo avião de retorno, o Papa levou consigo 12 pessoas de três famílias muçulmanas, que foram assumidas pelo Vaticano e acolhidas na Comunidade Santo Egídio. A velha Europa, pátria dos direitos humanos, é desafiada a acolher os pobres do mundo e a repartir do muito que recebeu desses mesmos povos deserdados da vida que chegam a suas fronteiras.

Pe. José Artulino Besen

 

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DOM OSCAR ROMERO, MARTÍRIO E MEMÓRIA

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Pe. Oscar Romero

Era segunda-feira, 24 de março de 1980. Às 18 horas, Dom Oscar Arnulfo Romero iniciou a celebração da Missa na capela do hospital da Divina Providência na colônia Miramonte de San Salvador, para onde se tinha mudado. Ele percebeu que alguém se postou à porta de entrada da igreja, ergueu o fuzil e disparou um tiro certeiro que lhe perfurou o coração. Caiu fulminado, e morreu pouco depois no hospital, aos 62 anos de idade. Somente 31 anos depois, por imposição de organismos internacionais, soube-se quem foi o assassino e quem foram os mandantes: foi Marino Samayor Acosta, sub-sargento da seção II da Guarda Nacional, membro da equipe de segurança do presidente da república, por ordem do major Roberto d’Aubuisson, criador dos esquadrões da morte e do coronel Arturo Armando Molina. Preço do serviço para assassinar Dom Romero: 114 dólares.

Na véspera, domingo, dia 23 de março, preocupado com a violência dos esquadrões da morte e das guerrilhas, lançara um pedido dramático:

“Eu gostaria de fazer um apelo muito especial aos homens do Exército e, concretamente, às bases da Guarda Nacional, da polícia, dos quartéis. Irmãos, vocês são do nosso próprio povo, vocês matam os seus próprios irmãos camponeses, e, diante de uma ordem de matar dada por um homem, deve prevalecer a Lei de Deus, que disse: ‘Não matar’. Nenhum soldado é obrigado a obedecer a uma ordem contra a Lei de Deus. Uma lei imoral, ninguém precisa cumprir. Já é hora de recuperarem a consciência e obedecerem antes à sua consciência que à ordem do pecado. A Igreja, defensora dos direitos de Deus, da Lei de Deus, da dignidade humana, da pessoa, não pode ficar calada diante de tanta abominação. Queremos que o Governo leve a sério que para nada servem as reformas se forem manchadas com tanto sangue. Em nome de Deus, pois, e em nome deste sofrido povo, cujos lamentos sobem ao céu cada dia mais tumultuosos, lhes suplico, lhes rogo, lhes ordeno, em nome de Deus: cesse a repressão!”

A repressão era sempre mais intensa naquele pequeno país de 22.000 km2. Entre 1979 e 1992, ano do acordo de paz, foram assassinados 85.000 salvadorenhos, 80% deles civis. Eram jovens, camponeses, 13 sacerdotes, 3 religiosas. De um lado estavam as forças da repressão, financiadas pelos Estados Unidos e pelos proprietários das melhores terras, de outro, os camponeses vítimas da miséria, da exploração de sua mão de obra, seduzidos pelo movimento de guerrilha de inspiração marxista.

Foto de arquivo do arcebispo Oscar Arnulfo Romero (Foto: A)

Foto de arquivo do arcebispo Oscar Arnulfo Romero (Foto: A)

Sacerdote e bispo à imagem de Cristo

Oscar Arnulfo Romero nasceu em 15 de agosto de 1917 em El Salvador, segundo de sete irmãos. Desde a infância manifestou profunda piedade, cujo centro era a oração noturna diária e a veneração ao Imaculado Coração de Maria. Aos 13 anos, em 1930, ingressou no seminário de San Miguel. Em 1937 dirigiu-se ao Seminário São José de San Salvador e, no mesmo ano, foi enviado a Roma, onde residiu no Pontifício Colégio Pio Latino e estudou na Universidade Gregoriana.

Foi ordenado padre em Roma aos 24 anos, em 4 de abril de 1942. Retornou à pátria em 1943, recebido com entusiasmo pelo seu povo, que muito o estimava. Foi pároco de Anamorós e, depois, de Nossa Senhora da Paz e, ao mesmo tempo, secretário do Bispo diocesano.

Em 1968 foi nomeado secretário da Conferência episcopal, acompanhando todo o processo da Conferência de Medellín e sua opção pelos pobres. Em 21 de abril de 1970, foi nomeado bispo auxiliar de San Salvador, sendo ordenado em 21 de junho. O próximo passo foi a nomeação de bispo diocesano de Santiago de Maria em 15 de outubro de 1974, vivendo ali seus mais felizes anos. Finalmente, em 3 de fevereiro de 1977, o papa Paulo VI o elegeu arcebispo de San Salvador, assumindo em 22 de fevereiro. O clero não recebeu essa nomeação com entusiasmo, pois o tinha como bispo conservador e preferia o auxiliar Dom Artur Rivera y Damas (que depois foi o sucessor).

Pe. Rutílio Grande, mártir

Pe. Rutílio Grande, mártir

Pouco depois, em 12 de março de 1977, um acontecimento mexeu com todos os sentimentos humanos, espirituais e pastorais de Dom Romero: o assassinato de seu íntimo amigo, o jesuíta Pe. Rutílio Grande, pároco de Aguilares, com dois camponeses que o acompanhavam. Pe. Rutílio encarnara em seu ministério a opção pelos pobres de Medellín e se dedicava à formação de Comunidades Eclesiais de Base. Não concordava com seus colegas da Universidade Católica, pois via sua teologia muito comprometida ideologicamente. A teologia da libertação de Pe. Rutílio era essencialmente fruto da reflexão do Evangelho junto aos camponeses, que se alegravam por descobrirem sua dignidade e capacidade de organização para fazerem frente aos latifundiários que tomavam as melhores terras e exploravam sua força de trabalho.

O martírio do amigo, cujo processo de canonização foi aberto em 2015, iluminou sua vida cristã e episcopal: após a noite inteira em vigília junto ao corpo de Rutílio Grande, entendeu que os camponeses tinham ficado órfãos de pai. Era necessário assumir o lado dos pobres, dos camponeses, o trabalho de reconciliação nacional e lhe tocava essa missão. Tinha consciência dos perigos que lhe estavam reservados, mas não tinha mais nenhum medo. Arriscando a vida, procurou as partes no conflito, governo e guerrilha. Conhecendo pessoalmente o presidente Arturo Molina, foi-lhe ao encontro, exigindo que investigasse o assassinato de Pe. Rutílio. Com riso de deboche, Molina apresentou-lhe os pêsames e disse que investigaria. Nada acontecendo, Dom Romero decidiu e comunicou que não participaria mais de nenhuma cerimônia oficial do Estado. E decidiu que, aos domingos, haveria somente uma Missa na catedral, para que ricos e pobres se encontrassem e escutassem sua mensagem em defesa dos camponeses.

Ao se reunir com o presidente Arturo Molina este lhe apresentou uma lista com os nomes de 30 sacerdotes que deveriam deixar o país, ao que o arcebispo respondeu: “Os sacerdotes são intocáveis”.

Vida oferecida pelo povo

A partir dessa hora, as homilias do arcebispo são sempre mais claras e proféticas. Num dia, seu irmão Gaspar pediu que ele amaciasse o tom, pois corria perigo e recebeu a reposta: “Alguém deve falar que essa tragédia não pode continuar. De uma parte, o exército mata e incendeia povoados inteiros, de outra, a guerrilha… Devo intervir e dizer a minha verdade”.

De Roma, através do núncio de Costa Rica, lhe chega a comunicação que queriam assassiná-lo. Paulo VI, paternalmente, lhe propõe um caminho: se a situação se tornasse muito perigosa, alegando doença poderia pedir transferência. Dom Romero respondeu: “Escolho viver aqui, porque é aqui que devo concluir meu apostolado. Se me matarem, já os perdoei a todos. Em todo caso, é aqui que devo morrer porque devo ressuscitar no meio de meu povo”.

O Arcebispo redobrou seu empenho pessoal pelo povo que o procurava: gente influente pedia sua mediação pela libertação de um filho seqüestrado pela guerrilha, camponeses que pediam que encontrasse os filhos seqüestrados pelo exército, pobres que pediam pão e esmola e ele procurava um modo de atender a todos.

A perseguição desencadeada pelo governo contra ele se intensifica: ameaças a seus familiares, desmoralização através de campanhas que diziam que ele escrevia as homilias sob o efeito do álcool, que tinha sido diagnosticado doente mental. Uma delegação de católicos de direita foi a Roma para denunciá-lo e pedir sua remoção. Roma envia um representante que, lendo suas homilias, aprovou sua ação. Com toda essa campanha de difamação e ameaça, aumentava sempre mais a coragem e o amor pelo seu povo. Se transfigurava a cada dia, o que podia ser constatado na simplicidade amorosa com que reunia as famílias, comia de sua feijoada, explicava o Evangelho. Ao mesmo tempo, no mesmo dia participava de reunião no Ministério do Exterior, recebia delegação da ONU e se transformava: falava com firmeza e com capacidade de líder experimentado.

As ameaças fazem sofrer seus familiares que quase se sentiam na necessidade de negar que fossem seus parentes. Recebe cartas sempre mais ameaçadoras.

Dom Romero sofre a noite escura dentro de sua Igreja: os irmãos no episcopado o abandonam, acusando-o de ser responsável pelo recrudescimento da violência; Dom Lopes Trujillo, arcebispo de Medellín é porta-vos das acusações que chegam a Roma. Dentro do Vaticano se encontram seus maiores opositores e difamadores, num primeiro momento levando João Paulo II a crer nas acusações. Chegavam a Roma quilos de cartas contra ele, acusando-o de envolver-se na política, de seguir a teologia da libertação, de desequilíbrios de caráter. Numa viagem a Roma, o Papa o recebeu friamente, deixando-o muito sofrido, mas, Dom Romero não podia voltar atrás: seguia o caminho do Evangelho, o Vaticano II, Medellín e Puebla, era um arcebispo fiel às orientações católicas no tocante à defesa dos pobres. Como poderia abandonar a palavra da Igreja e seu povo?

Sua perseverança em meio a tantos conflitos preparou o tapete que lhe foi estendido naquela tarde de segunda-feira, 24 de março de 1980, pelas 18 horas, quando a tirania cobrou o preço: uma bala de fuzil furou-lhe o coração. Não mataram Dom Oscar Romero na rua, num atentado: quiseram assassiná-lo dentro da Igreja, quiseram calar a Igreja.

Religiosa beija a fronte de Dom Romero

O povo sofreu dolorosamente a morte de seu pastor. Seu corpo ficou exposto na catedral durante quatro dias, visitado por mais de 250 mil pessoas. O mundo chorou o ato violento contra um homem frágil, suja única força era o amor a Cristo e aos pobres. O Vaticano fez-se representar pelo Cardeal arcebispo do México, Ernesto Corrípio y Arrumada. O povo que chorava seu bispo tentou organizar uma grande procissão e, nessa hora, o exército mostrou sua face cruel: fez explodir uma bomba em meio à multidão e 42 pessoas morreram.

A verdade liberta e triunfa

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Papa João Paulo II, rezando diante do túmulo do arcebispo Romero

A maioria dos bispos de El Salvador negou-lhe qualquer sinal de gratidão pelo trabalho heróico. Quando, em março de 1983, João Paulo II visitou o país, não estava prevista nenhum visita a seu túmulo, mas o Papa fez questão de ir lá para rezar. Teve que esperar bons minutos até que se encontrasse a chave da Catedral. Na preparação da celebração das Testemunhas da Fé, em Pentecostes do ano 2000, os bispos fizeram chegar o pedido de evitar citar o nome de Dom Romero. João Paulo II, num de seus grandes gestos, acrescentou de próprio punho do nome de Romero no Oremus final.

Nesses anos operava em Roma um influente grupo de prelados que faziam o possível para resistir à canonização do arcebispo. No mesmo ano 2000, o Cardeal vietnamita Van Thuan orientou os exercícios espirituais ao Papa e à Cúria romana e foi severamente criticado por ter incluído Dom Romero entre as grandes testemunhas da fé de nosso tempo e citado esse nome diante do Papa. Meses depois, quando as meditações foram publicadas em livro de grande repercussão, o nome de Dom Romero não apareceu em nenhuma citação.

Quando Bento XVI viajava para o Brasil, em maio de 2007, durante o vôo alguém lhe perguntou sobre Romero e o papa respondeu com uma pequena apologia do arcebispo assassinado, descrevendo-o como “uma grande testemunha da fé”, recordando sua morte incrível diante do altar e que era digno de ser beatificado. Novamente aconteceu o inusitado: mesmo tendo falado diante de tele câmeras, dezenas de gravadores, essas palavras foram apagadas nas versões oficiais da entrevista publicada nas mídia do Vaticano.

Menos mal, em 2012 Bento XVI desbloqueou o processo, trancado em Roma havia 17 anos. Dom Romero não foi assassinado por questões políticas, como quiseram impor seus acusadores dentro e fora da Igreja. Foi martirizado in odium fidei, por ódio à fé cristã, e disso dá testemunho o tiro disparado dentro de uma igreja, com mensagem clara: atingir um cristão. A acusação de comunismo era uma “acusação fácil” que se fazia contra quem estava perto dos pobres e foi morto durante a Missa e não em casa ou na rua. “Queriam matá-lo no altar”.

Dom Oscar Arnulfo Romero repousa em sua Catedral, vizinho à cátedra onde anunciou a justiça e denunciou a injustiça e ali ressuscitou no meio de seu povo. Seu túmulo é meta de peregrinação de ricos e pobres, dos fortes e dos fracos do mundo. Quatro anjos ladeiam seu túmulo, simbolizando os quatro Evangelhos que anunciou ao povo. A catedral anglicana de Westminster, em Londres, ergueu uma estátua sua como homenagem aos que deram a vida em defesa dos direitos humanos. A Assembléia Geral das Nações Unidas – ONU, proclamou o dia 24 de março – data da sua morte – como o “Dia Internacional pelo Direito à Verdade, em relação a graves violações e a dignidade das vítimas”, em honra ao mártir salvadorenho.

E chegou a vez da Igreja: reconhecendo-lhe o martírio em 3 de fevereiro de 2015, Francisco, o primeiro Papa latino-americano, marcou sua beatificação para o dia 23 de maio de 2015, véspera de Pentecostes. O povo cristão poderá invocá-lo como São Romero da América. O arcebispo salvadorenho vai ser declarado bem-aventurado pelo primeiro papa sul-americano da história, que pede “uma Igreja pobre para os pobres”, centro da ação de Dom Oscar Romero e causa de seu martírio.

Pe. José Artulino Besen

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FRANCISCO E OS CARDEAIS DAS PERIFERIAS

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Sábado, 14 de fevereiro, na basílica de São Pedro, Francisco presidirá seu segundo Consistório Ordinário Público, no qual criará 20 novos Cardeais, anunciados por ele em 4 de janeiro, aos quais imporá o barrete cardinalício, entregará o anel e designará o Título ou Diaconia romana. Serão 15 Cardeais eleitores e 5 eméritos, ou seja, que já atingiram os 80 anos e não participarão de futuro Conclave. Dessa forma, o Colégio cardinalício passa a contar com 125 Cardeais eleitores, ultrapassando em 5 o limite de 120. O número logo sofre alteração, pois outros Cardeais atingirão os 80 e, além disso, o Papa é livre para as escolhas.

Francisco se refere com carinho aos 5 Cardeais eméritos: “são conhecidos por sua caridade pastoral no serviço à Santa Sé e à Igreja, e representam tantos bispos que, com a mesma solicitude de pastores, deram testemunho de amor a Cristo e ao povo de Deus nas Igrejas particulares, na Cúria romana, no serviço diplomático da Santa Sé”.

Esse Consistório revela claramente que Francisco redimensiona o Colégio e dá mais atenção às periferias, sem automatismo com relação às sedes mais ambicionadas, as assim chamadas “sedes cardinalícias” cujo titular tinha certeza de receber o barrete num Consistório. A universalidade da Igreja não pode estar condicionada a tradições históricas, é a mensagem clara. Não existem dioceses ou bispos mais importantes e o Cardeal é um amigo fraterno de Francisco, conselheiro e não um príncipe distante ou cortesão.

Na sua decisão de ouvir as Igrejas espalhadas pelo mundo, especialmente as Igrejas de fronteira, de missão, do “fim do mundo”, o Papa surpreendeu: como no Consistório anterior, abandonou o costume de considerar Sedes diocesanas como cardinalícias por tradição histórica – como exemplo Veneza, Turim, Salvador, o que dava margem ao carreirismo, lepra da Igreja em suas palavras, com bispos procurando criar zonas de influência para serem nomeados para essas sedes, e depois serem feitos cardeais. Desse modo, a eleição do papa ficava condicionada a esses eleitores, geralmente de sedes maiores e européias.

Francisco usa sua autoridade para fortalecer a Igreja missionária e pobre, cujo espírito e programa explicitou na Evangelii Gaudium.  O futuro papa será um bom pastor voltado para o mundo pobre e missionário, e não condicionado a repetir o modelo de Igreja marcado pelo mundo europeu.

No Consistório anterior, escolheu para primeiro Cardeal do Haiti não o arcebispo da capital, mas um humilde bispo da distante e pobre Les Cayes. No Consistório dessa semana, os 15 Cardeais eleitores são originários de 14 países: um do Uruguai, há bastante tempo sem cardeal e, pela primeira vez, 3 das Igrejas sofridas e missionárias do Cabo Verde, Tonga e Myanmar (Birmânia) e, também pela primeira vez, do Panamá . O Papa não levou em conta a importância ou o número de católicos destas nações, porque seu interesse é ouvir o que acontece nessas Igrejas distantes. No clima anterior, os bispos “importantes” falavam para a Igreja universal; agora, os bispos distantes falam e possuem uma palavra nova para as Igrejas historicamente estabelecidas.

Francisco, latino-americano, sentiu o que era estar condicionado à teologia e pastoral eurocêntrica e sabia da vivacidade das Igrejas do mundo periférico. Também não se sente obrigado a criar Cardeais pelo fato de trabalharem na Cúria romana, com exceção das Sagradas Congregações, pois sabia como cardeais curiais tinham a ousadia de ditarem regras para os bispos diocesanos, de esconderem do papa informações das Igrejas que não brilhavam pela teologia, pelo número de doutores, mas espelhavam a alegria, a criatividade e o heroísmo do Evangelho vivido no seguimento de Jesus de Nazaré.

Como jesuíta cujo sonho da juventude foi ser missionário no Japão, Francisco tem o coração na Ásia, no imenso Continente das grandes religiões, Continente misterioso cuja sabedoria ancestral desfia a missão cristã. Suas Viagens apostólicas, que são um claro modelo pastoral, o fizeram estar na Coréia do Sul, no Sri Lanka, nas Filipinas. É claro seu amor pela China, pela Igreja sonhada por São Francisco Xavier. Na Europa visitou a pobre Albânia e visitará Seravejo na Bósnia. Neste ano visitará a África e a América latina. Será o primeiro papa a falar no Congresso norte-americano, dirigindo-se aos deputados e senadores em 24 de setembro, fazendo sua a voz das vítimas do sistema econômico cujo deus é o mercado.

Escolhendo como seu lugar estar do lado dos pobres, o Papa quer escutar o que o Espírito diz às Igrejas. Decidiu ser solidário na causa da justiça e da paz, despertar as imensas energias que pulsam no coração das comunidades cristãs, dos doentes, pobres, idosos, jovens e crianças. O rico Norte do mundo já falou o suficiente: deve aprender a ouvir e ver o Sul. O desafio posto aos cristãos não é somente doutrina e teologia, como talvez pensam os romanos, mas é despertar a vida no seguimento evangélico de Jesus.

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Os Cardeais de Francisco, pastores das periferias do mundo

No Consistório de 14 de fevereiro o Papa criará apenas um Cardeal curial, pois sua opção é pelos pastores das periferias do mundo. Segundo John Allen, vaticanista do Boston Globe, “a maneira como Francisco está modificando a sociologia do Colégio cardinalício é, talvez, seu ato mais revolucionário e que cimentará sua herança”: é corte seco à velha Europa, porta fechada às ambições romanas e de bispos carreiristas cujo sonho pastoral era a púrpura, reconhecimento do trabalho das Igrejas periféricas cujo exemplo mais claro é Tonga, Arquipélago de ilhas na Polinésia, cujo bispo criado Cardeal pastoreia 14 mil almas no total. É o jovem cardeal Dom Soane Patita Paini Mafi, nascido em 1961, e que respondeu a quem lhe perguntou o que achava da escolha: “Apenas posso imaginar que o Papa está querendo mostrar sua posição e, para fazê-lo, necessita fazer entender que a Igreja é formada por todos os quatro ângulos do planeta. O Papa busca fazer entender uma coisa que ainda é pouco familiar a muitas pessoas: a existência dos “pequenos”, e o fato de que esse “pequenos” podem dar uma contribuição e serem reconhecidos”.

Deve ser lembrado que na Igreja não existem postos de grandeza, de honra, que o ser cardeal é o máximo a que se possa aspirar, como se a fama mundana devesse contar. O máximo na Igreja é claro: é ser santo e servidor; o máximo mesmo é dar a vida.

Evidente que Francisco não inventou o Colégio cardinalício, como também é evidente que os papas anteriores criaram grandes e zelosos cardeais; também é conhecido que foi Pio XII que, no Consistório de 1946, pela primeira vez tornou os europeus minoritários no Colégio. O que parece claro, agora, é o acento missionário e pastoral, com o desafio de “manter-se humilde no serviço, que não é fácil quando se considera o cardinalato como um prêmio, o apogeu da carreira, uma dignidade de poder”.

Na carta que dirigiu aos novos purpurados em 4 de janeiro, pediu ao Senhor que os “acompanhasse em sua nova vocação que é um serviço de ajuda, sustentáculo e proximidade especial à pessoa do Papa e para o bem da Igreja”. Francisco recorda que ser cardeal significa incardinar-se na diocese de Roma para dar-lhe testemunho da ressurreição do Senhor e dar a vida totalmente, até o sangue, se necessário, e que deve estar consciente da palavra “somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer”, porque a vaidade separa da cruz do Senhor.

Missão importante dos cardeais é a eleição de novo papa, conduzir a Igreja na Sede vacante, poderíamos até dizer que é o momento mais visível, “jornalístico”, mas não esgota o serviço, que é de auxiliar o papa em sua missão.

Os vaticanistas falam que o fevereiro será “quente”: o Consistório será precedido da reunião do Colégio dos 9 Cardeais de 9 a 11 de fevereiro, quando apresentarão e discutirão propostas para a reforma da Cúria. Os novos Cardeais já vão participar das discussões posteriores nos dias 12 e 13, exercendo sua missão de ajudar o Papa porque aqueles que procedem do mundo da missão têm muito a dizer sobre a organização da Igreja, a missão e a pastoral cristãs.

Numa Igreja servidora, a palavra que Francisco sugeriu aos cardeais é a mesma que vale para todos os cristãos: “abaixamento e humildade”.

 Pe, José Artulino Besen

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FRANCISCO – «QUINZE DOENÇAS NA IGREJA»

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Aquele encontro de 23 de dezembro de 2014 seria um encontro formal, dentro dos costumes seculares da Cúria romana, onde o Papa saudaria e agradeceria a todos os cardeais, bispos e monsenhores, desejaria um Feliz Natal e encerraria com a bênção apostólica. Francisco, porém, quis fazer dele um ato penitencial pré-natalino e, para facilitar, ofereceu a lista de pecados para o exame de consciência: elencou 15 doenças eclesiásticas que devem ser extirpados na Cabeça e no Corpo da Igreja que se deve reformar. A raiz das doenças dos homens religiosos está em cair na tentação-chave: a do poder, tentação que o demônio apresentou a Cristo, mas foi rejeitado. A sede de poder torna os homens de Igreja capazes da velhacaria, da calúnia. Francisco conhece os homens que o cercam nos corredores apostólicos, muitos deles santos e devotados, e muitos deles carreiristas em oposição surda à reforma que ele está empreendendo, e que levará a cabo. Na história da Igreja, sempre que se fala em reforma surge a oposição dos mais poderosos, pois não é possível reforma sem a perda de privilégios ou abandono de vícios próprios de uma burocracia.

Se olharmos as 15 doenças da alma, teremos a oportunidade de contemplar a imagem que Francisco tem da Igreja “corpo místico de Cristo” e das manchas que se grudaram em seu corpo e o impedem de contemplar sua beleza e simplicidade. São doenças que fazem da Cúria um poder em si, auto-centrado, sem conexão vital autêntica com Cristo. Em outras palavras: o Papa quer conduzir a burocracia eclesiástica à sua verdadeira natureza de corpo comunitário a serviço da Igreja universal. Segundo Enzo Bianchi, prior de Bose, “tudo em Francisco ecoa o Evangelho e sua paixão pelo Evangelho leva-o a medir a vida da Igreja e de cada membro seu a respeito da fidelidade ao Evangelho.

Quanto mais Francisco percorrer essa estrada de recondução ao Evangelho mais sentirá o despertar de forças demoníacas que agem na história, e o resultado para os verdadeiros crentes será o aparecer da cruz de Cristo. A reforma não facilitará a vida cristã, mas ensinará que somente se pode seguir Jesus na rejeição e na perseguição, e ninguém colherá sucessos mundanos se encarnar a mensagem do Senhor”.

O ataque do Papa às “doenças” curiais é sinal das dificuldades que encontra em seu projeto reformador. Nós, que estamos longe, percebemos apenas sua figura simples, misericordiosa e não podemos avaliar o forte oposição dentro da Cúria, onde é minoria, e nos episcopados dos cinco continentes, na maioria fascinados pelas estruturas de poder e acomodação. Sente a oposição de tantos que se contentam com abstrações doutrinais com a convicção de poder engaiolar o Espírito Santo. São os fariseus eclesiásticos, isto é, os que se contentam em cumprir o dever não necessitando olhar o próximo, e que se esquecem que o Espírito Santo é novidade, imprevisto, fantasia, juventude.

A oposição ao Papa se situa naqueles que preferem o Papa-monarca que garante a imutabilidade da Corte e deixa a máquina do poder funcionar de acordo com normas seculares. Alguns, entre cardeais, bispos, monsenhores acusam Francisco de trair sua “missão eterna”, até duvidando de sua legitimidade como papa. São João XXIII experimentou pessoalmente essa sabotagem à sua obra reformadora e as contínuas maledicências com relação à sua pessoa. Francisco experimenta também diariamente nos sites da web que, mês após mês, instilam veneno para desacreditar seus projetos. Numa requisição venenosa, o intelectual cristão Vittorio Messori se refere ao Papa como “aquele homem que saiu do Conclave vestido de branco”, pois sente saudade do tempo em que era “importante” na Igreja, quando entrevistou São João Paulo II e o Cardeal Ratzinger. Muito estranha também a declaração do Cardeal Scola, de Milão, afirmando que nada mudará com relação à comunhão aos divorciados, até porque os que pensam diferente são minoria no Sínodo. Em outras palavras: o Papa perde tempo e está em minoria. Um grupo de cardeais da Cúria colocou em dúvida a consistência teológica de Francisco, pois não entendem – ou não querem entender – o sentido da renovação em marcha. Também não admitem um Papa “que veio do fim do mundo”, esquecendo que a Igreja hoje é majoritária na Ásia, África e América Latina. É o mesmo argumento insidioso que jogaram contra São João XXIII: “o papa tem boa intenção, mas capenga na doutrina”. Esquecem que Jesus ordenou a Pedro apascentar as ovelhas e não ser catedrático em teologia. Bento XVI atuou mais como catedrático de teologia do que como pastor, e não triunfou. A hierarquia se empenhou mais em impor a pureza doutrinal do que em animar a vivência da fé. A bem da verdade, deve-se dizer que João XXIII e Francisco são teólogos, dotados de consistência teológica irrefutável. Foi eminentemente pastoral o exame de consciência que apresentou a uma assustada platéia na Sala Clementina.

Francisco fala na tradicional reunião natalina com a Cúria romana

Francisco fala na tradicional reunião natalina com a Cúria romana

FRANCISCO E AS DOENÇAS DA CÚRIA ROMANA

Francisco declarou: “seria belo pensar na Cúria romana como um pequeno modelo da Igreja, como um corpo que diariamente se esforça para ser mais vivo, mais harmonioso e mais unido entre si e com Cristo”. A Cúria, como a Igreja, não pode viver “sem uma relação vital, pessoal, autêntico e firme com Cristo”. “Um membro da Cúria que não se alimenta diariamente com esse alimento se transforma num burocrata”.

Cairíamos nas mesmas doenças se não aplicarmos o exame de consciência às nossas estruturas diocesanas e paroquiais. Todos somos chamados à contínua reforma e à confissão dos pecados que Francisco nos propõe:

  1. Sentir-se imortal, indispensável – uma Cúria que não faz autocrítica, que não procura renovar-se é um corpo doente. Doença dos que se sentem imunes, indispensáveis, que se transformam em patrões e se sentem superiores. Tem origem na patologia do poder, no “complexo dos eleitos”, no narcisismo.
  2. Excessiva operosidade – mergulham no trabalho, ativismo e esquecem “a parte melhor”, sentar-se aos pés de Jesus.
  3. Petrificação mental e espiritual –  quando se perde a serenidade interior, a vivacidade e a audácia, e se esconde sob papéis, transformando-se em “máquina de práticas” e não em homens de Deus, incapazes de “chorar com aqueles que choram e se alegrar com os que se alegram!”.
  4. O excessivo planejamento – quando o apóstolo planeja tudo minuciosamente achando que desse modo as coisas progridem, assim tornando-se um contador ou comerciante. É bom que se prepare tudo, mas não cair na tentação de querer encaixotar e pilotar a liberdade do Espírito Santo.
  5. A má coordenação – doença própria dos que perdem a comunhão recíproca e então o corpo enfraquece a harmoniosa funcionalidade, transformando-se numa orquestra que produz apenas barulho, porque seus membros não colaboram nem vivem no espírito de comunhão e de time.
  6. O Alzheimer espiritual – é o declínio progressivo das faculdades espirituais e que produz graves deficiências na pessoa, fazendo-a viver num estado de absoluta dependência de suas visões muitas vezes imaginárias. É a doença de quem “perdeu a memória” de seu encontro com o Senhor, de quem depende doas próprias “paixões, caprichos e manias”, de quem constrói muros e hábitos em torno de si.
  7. A rivalidade e a vanglória – doença de quando as aparências das vestes e as insígnias se tornam o objetivo primário da vida. É a doença que nos leva a ser homens e mulheres falsos e leva a viver um falso “misticismo” e um falso “quietismo”.
  8. Esquizofrenia existencial – doença daqueles que vivem “uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica do medíocre e do progressivo vazio espiritual que láureas ou títulos acadêmicos não podem preencher”. Atinge mais aqueles que “abandonando o serviço pastoral, se limitam a ações burocráticas, perdendo assim o contato com a realidade, com as pessoas concretas. Deste modo criam seu mundo paralelo onde põem de lado tudo o que ensinam severamente aos outros” e levam uma vida “oculta” e muitas vezes “dissoluta”.
  9. Fofocas e intrigas – doença que toma conta da pessoa fazendo-a tornar-se “semeadora de cizânia” (como satanás), e em tantos casos “homicida a sangue frio” da fama dos próprios colegas e confrades. É a doença das pessoas velhacas que não têm coragem de falar diretamente e preferem falar pelas costas.
  10. Divinizar os chefes – doença daqueles que “cortejam os superiores”, vítimas do “carreirismo e do oportunismo” e “vivem o serviço pensando unicamente naquilo que devem obter e não naquilo que devem fazer”. Pessoas mesquinhas, inspiradas apenas em seu fatal egoísmo. Também atinge os superiores “quando cortejam alguns colaboradores seus para obter sua submissão, lealdade e dependência psicológica, mas o resultado final é uma verdadeira cumplicidade”.
  11. Indiferença diante dos outros – “quando alguém pensa somente em si mesmo perde a sinceridade e o calor das relações humanas”. Não coloca seu conhecimento ao serviço dos menos preparados. Por ciúme ou safadeza, sente alegria em ver o outro cair ao invés de levantá-lo e encorajá-lo.
  12. A cara fúnebre – doença das pessoas que julgam ser necessário, para ser sérios, ter o rosto triste, melancólico, severo, e tratar os outros com rigidez, dureza e arrogância. “A severidade teatral e o pessimismo estéril geralmente são sintomas de medo e de insegurança. O apóstolo deve ser uma pessoa cortês, serena, entusiasta e feliz e que transmite alegria”.  Humor e auto-ironia são sinais saudáveis.
  13. Acumular – é quando o apóstolo busca preencher o vazio existencial no seu coração acumulando bens materiais, não por necessidade, mas somente para sentir-se seguro.
  14. Grupos fechados – quando pertencer ao grupinho se torna mais importante do que pertencer ao Corpo e, em algumas situações, ao próprio Cristo. Também essa doença tem início com boas intenções, mas com o passar do tempo escraviza os membros tornando-se um câncer.
  15. Proveito mundano, exibicionismos – “quando o apóstolo transforma seu serviço em poder, e seu poder para obter proveitos mundanos ou mais poder. Doença das pessoas que buscam insaciavelmente multiplicar poderes e para isso são capazes de caluniar, difamar e desacreditar os outros, até em jornais e revistas. Naturalmente, fazem-no para exibir-se e demonstrar-se mais competentes do que os outros”. Doença que faz muito mal ao corpo, porque leva as pessoas a justificar o uso de qualquer meio para atingir tal finalidade, às vezes em nome da justiça e da transparência.

Como seria bom se cada cristão se examinasse diante das 15 doenças diagnosticadas por Francisco. Se optarmos por “achar graça” da Cúria romana, nossa vida diocesana, paroquial e comunitária será contaminada pelos mesmos males.

Pe. José Artulino Besen

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FRANCISCO NA TERRA DE PAULO E ANDRÉ

Na Mesquita Azul, descalço, reza com o Grão Mufti Mehmet

Na Mesquita Azul, descalço, reza com o Grão Mufti Mehmet

Em sua sexta viagem apostólica, Francisco dirigiu-se à Turquia, na Ásia Menor, epicentro dos conflitos atuais no mundo árabe, da guerra civil na Síria, no Iraque, palco da fúria do auto-intitulado Califado Islâmico que pretende reviver, às custas da violência sem limites, os antigos sonhos de um domínio religioso da sociedade. A Turquia procura manter o equilíbrio entre tantas pendências geográficas, políticas, religiosas e econômicas, naturalmente que salvaguardando seus interesses geopolíticos, nem sempre ficando claras suas intenções e compromissos. Sempre que há o uso das armas, a verdade é escondida, e assim todos parecem inocentes, bombardeando e destruindo a serviço “do bem”.

Mas, para o mundo cristão, a Turquia é a pátria do Apóstolo Paulo de Tarso, é o solo sagrado dos sete primeiros concílios ecumênicos, dos Santos Pais da Igreja, dos mártires. Numa cidade turca, Éfeso, Maria morou com João, reza a tradição. Em sua capital hodierna está localizada a Igreja fundada por Santo André, o primeiro apóstolo chamado por Jesus, Constantinopla. E foi para visitar Bartolomeu I, patriarca sucessor de André, que Francisco deixou a Roma de Pedro entre 28 e 30 de novembro.

Hoje, 98% da população turca professa a fé muçulmana, e pouco menos de 2%, a fé cristã. Numericamente pequena, e ainda assim dividida em diversas Igrejas, Ritos e Patriarcados. Na primeira parte de sua peregrinação, o Papa foi ao mundo muçulmano representado pelo presidente turco Erdogan e pelo Grão Mufti de Istambul. Descalço – os muçulmanos comentaram “Ele faz como nós”, repetindo o gesto de Bento XVI, Francisco entrou na Mesquita Azul para silenciosa oração. Os discursos oficiais foram uma denúncia forte do uso da religião para justificar a violência, a rejeição de qualquer legitimidade nas ações militares em nome de Deus, um pedido angustiado pela acolhida aos refugiados da guerra e da miséria. Francisco também visitou Santa Sofia, a grande basílica ortodoxa do século VI, a partir de 1453 mesquita, e de 1938 em diante museu. Quando Paulo VI nela entrou em 1967, caiu de joelhos sob o êxtase causado pelo impacto da história, sendo muito criticado pelos muçulmanos, que viram no gesto um querer retomar a propriedade. Paulo VI apenas queria rezar, mas nestas terras cada pequeno sinal recorda imensidões de fatos históricos e antigas sensibilidades.

O ecumenismo do martírio

Os momentos fortes da viagem apostólica estavam reservados ao encontro fraterno com a Igreja de Constantinopla, separada de Roma desde o ano de 1054. Há 50 anos, em Jerusalém, Paulo VI encontrou-se com o Patriarca Atenágoras, trocando-se o beijo da paz e em seguida suspendendo as bulas de excomunhão de 1054. Acordava-se, nesse encontro, a decisão irrevogável de buscar a unidade cristã, vendo-se com clareza que não há sentido nas divisões cristãs. O caminho é longo, faltam muitos passos ainda, mas existe decisão, porque assim o Senhor determina. Muitas questões nascem de sutilezas teológicas e não foi por menos que naquele 1964 Atenágoras brincou com Paulo VI dizendo que no dia em que se recolhessem todos os teólogos numa ilha, haveria a unidade…

Patriarca Bartolomeu abençoa Papa Francisco e a Igreja de Roma

Patriarca Bartolomeu abençoa Papa Francisco e a Igreja de Roma

No dia 29, sábado, Francisco encontrou-se com Bartolomeu e ali pudemos contemplar a espontaneidade fraterna desses grandes homens: o Papa inclinou a cabeça pedindo que o Patriarca o abençoasse e à Igreja católica, o Patriarca beijou a mão pedindo a bênção do Papa. Pedro e André se encontraram e se abraçaram. No dia 30, domingo, Francisco assistiu à Divina Liturgia na Igreja de São Jorge, sede do Patriarcado de Constantinopla. Não pôde partilhar o Pão eucarístico, porque falta a unidade na fé. Sofrimento para os dois. Pouco antes, o Bispo de Roma disse palavras extremamente importantes: que Roma e Constantinopla, que a ortodoxia e o catolicismo, o Oriente e o Ocidente, devem buscar a unidade sem nenhuma imposição, sem nenhuma pretensão de domínio canônico, bastando que a unidade tenha como fundamento a prática cristã do primeiro milênio, cada Igreja respeitando as diferentes tradições canônicas e litúrgicas. Bento XVI disse as mesmas palavras, e é bom que se diga, porque alguns afirmarão que Francisco não leva a teologia a sério.

Na declaração conjunta, após a Divina Liturgia, reafirmaram a decisão da busca da unidade e, muito tocante, lembraram que hoje está acontecendo o ecumenismo de sangue, pois cristãos no Oriente estão sendo mortos pela fé em Cristo e não se lhes pergunta se são católicos, evangélicos, ortodoxos, antioquenos: “Estamos unidos no martírio”, comentou Francisco. O sangue derramado pela fé é o grande ecumenismo que se acrescenta ao ecumenismo teológico, ao espiritual, ao fraternal. Aos católicos de Constantinopla: “Nós, cristãos, nos tornamos autênticos discípulos missionários, capazes de interpelar as consciências, se abandonarmos um estilo defensivo para deixarmo-nos conduzir pelo Espírito, deixando de lado qualquer tentação de olhar-se a si mesmos”.

Dirigindo-se para o embarque, Francisco visitou a obra salesiana que acolhe uma centena de crianças vítimas da guerra, filhos de refugiados. Queria visitar muitos mais, porém não teve autorização. Ali clamou pela misericórdia para com tantas milhares de crianças, mães, jovens vítimas de uma guerra sem sentido, de bombas que são jogadas sem nenhuma consideração pela vida humana, como se as pessoas fossem descartáveis. Bombas que ampliam o raio de violência rumo ao Oriente e à África. As palavras e gestos de Francisco foram convite aos muçulmanos e cristãos, aos cristãos entre si, para que se quebre a lógica da violência. Visitando o Grão Rabino também incluiu o povo da Antiga Aliança no processo da paz.

Num convite à unidade, Francisco abriu a todos os braços e o coração: “Encontrar-nos, olhar a face um do outro, trocar o abraço da paz, rezar um pelo outro são dimensões essenciais do caminho para o restabelecimento da plena comunhão que buscamos”.

Pe. José Artulino Besen

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SÍNODO DOS BISPOS – IGREJA FAROL E IGREJA TOCHA

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E DEUS OS FEZ HOMEM E MULHER – Igor Mitoraj

Graças ao falar misericordioso de Francisco desde o início de seu ministério como bispo de Roma, também nas intervenções sinodais prevalece a afirmação da misericórdia, da compreensão, do acompanhamento frente às diversas situações vividas pelos casais. Para Francisco, “é tempo de propor caminhos de diálogo, de misericórdia”. Distante dos discursos que viam nos tempos presentes apenas heresia, imoralidade, blasfêmia, nos defrontamos com o caminho aberto pelo Concílio em cujo discurso de abertura São João XXIII afirmou que “a Igreja prefere servir-se da misericórdia em vez do rigor”, e o Bem-aventurado Paulo VI explicava que “a misericórdia é a chave hermenêutica dos Mandamentos”.

Quem tem oportunidade de acompanhar as intervenções dos Padres sinodais percebe o clima propositivo, distante das fáceis afirmações que denunciam a homossexualidade como “intrinsecamente desordenada”, a “mentalidade contraceptiva”, o “hedonismo egoísta”, as ideologias aberrantes que atacam a família, a influência invasiva dos meios de comunicação. As solenes condenações apenas facilitam a vida de quem pretende passar à história como defensor incansável da verdade. O estilo combativo em nada auxilia as pessoas a se aproximarem de Jesus Cristo, cuja mensagem e vida foi sempre misericordiosa, de vizinhança dos que viviam situações difíceis. É belo e verdadeiro anunciar que o amor divino da Trindade é o modelo do amor humano entre os esposos, mas, não se pode esquecer que na maioria das vezes o amor conjugal é ferido pelo pecado, marcado por uma história de lutas e limitações, sofrimentos e privações que devem ser levados em conta no relacionamento com os casais. Cristo veio para nos redimir do enfraquecimento da graça provocado pelo pecado original. Ele é o redentor dos caminhantes no caminho de superar o pecado e não aquele que vem selecionar os bons e condenar os pecadores. A fraqueza pessoal inerente à condição humana permanece na existência do homem e da mulher unidos pelo matrimônio.

O jesuíta Antônio Spadaro, especialista em comunicação, foi muito feliz ao se referir a dois modelos de Igreja: a Igreja-farol e a Igreja-tocha. O farol é sólido, construído sobre um morro, ou sobre uma rocha no mar, para indicar os perigos aos navegantes. Sua luz é forte para orientar. Igreja-farol é a Igreja luz da verdade. A tocha acompanha uma procissão, um caminhante, sua luz é mais fraca, mas orienta o suficiente para evitar quedas, esbarradas. A Igreja-tocha é a Igreja que acompanha, caminha na história, entre as pessoas. As duas são necessárias: a luz da tocha é frágil e o vento pode apagá-la, por isso a necessidade do farol. Infelizmente, acontece preferirmos ser farol, denúncia do erro, proclamação da verdade, deixando de acompanhar as pessoas concretas, de carne e osso, nas suas alegrias e tristezas. Normalmente conhecemos o farol, mas necessitamos muito de uma chama, que pode até ser frágil, mas aquele que a carrega está ao nosso lado.

O encontro da doutrina com a vida real

O Sínodo, pelo fato de contar com o resultado das consultas feitas em todo o mundo a respeito de 38 temas, se encaminha para a pastoral concreta com pessoas concretas. Quando foram apresentados ao Papa possíveis temas a serem nele tratados, em primeiro lugar foram apresentadas temáticas cristológicas e antropológicas, preocupações de cunho doutrinal. A novidade introduzida por Francisco está na passagem do doutrinal para o real.

Papa Francisco

Papa Francisco

O Cardeal de Aparecida, Dom Raimundo Damasceno, na 6ª. Congregação Geral (dia 8-10) apresentou situações familiares difíceis e reais que exigem urgente resposta pastoral: as convivências; as uniões de fato; a situação dos separados, dos divorciados e dos divorciados recasados; os filhos e aqueles que permanecem sozinhos; as jovens mães; as situações de irregularidade canônica; o acesso aos sacramentos, nestes casos; o cuidado pastoral das situações difíceis, entre as quais os casais gays. A respeito dessas situações, afirmou o Cardeal: “Longe de nos fecharmos numa atitude moralista, queremos penetrar no profundo destas situações difíceis para acolher quem nelas está envolvido, para fazer da Igreja a casa paterna onde há lugar para cada um com sua vida provada por dificuldades”.

Permanece tenso o clima entre os Padres que olham apenas o aspecto doutrinal da indissolubilidade e os que buscam um caminho para o acesso aos sacramentos da parte dos divorciados recasados, o que inclui a revisão dos processos de nulidade de matrimônios. Há quem defenda o caminho da “nulidade espiritual” para casamentos que se desfazem em dois anos. Nesses casos, 95% das decisões dos tribunais são favoráveis e, sendo assim, por que fazer o casal passar por um processo caro e demorado e não permitir que a decisão seja tomada pelo bispo diocesano ou vigário geral? Como caminho de estudo, são três as possíveis soluções, sintetizadas pelo Cardeal Coccopalmerio, da Comissão para os Textos Legislativos: a eliminação da dupla sentença, a eliminação do colegiado de juizes (basta a sentença de um juiz), e o procedimento administrativo, ou seja, a nulidade declarada diretamente pelo bispo local em casos de matrimônio “certamente nulo”.

Dom Rino Fisichella, do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização observou que o sacramento do matrimônio ficou engessado num excesso de acentuação canonística em que o legal foi substituído pelo legalismo, de certo modo enfraquecendo a dimensão sacramental.

Iniciando a apresentação de novo tema, os métodos não naturais de controle da natalidade, o casal brasileiro Artur e Hermelinda Zamperlini foi revolucionário ao afirmar que os métodos naturais “são bons, mas na cultura atual nos parecem privados de praticidade” e os casais católicos “na grande maioria não recusam a utilização de outros métodos contraceptivos”. Realçaram a importância da vida sexual porque “um casamento é fecundo não só porque gera filhos, mas porque ama e amando se abre à vida”.  O casal é o lugar onde se articulam as três funções da sexualidade: a função relação, a função prazer e a função fecundidade. O casal se constrói ao integrar de forma equilibrada essas três dimensões.

Concluindo: a Igreja não deve assumir a atitude de um juiz que condena, mas a de uma mãe que sempre acolhe seus filhos, trata suas feridas com vistas à cura. Misericórdia, acompanhamento, compreensão e paciência são atitudes cristãs no acolhimento de tantos casais em busca de reconciliação.

Pe. José Artulino Besen

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FRANCISCO VISITA OS FILHOS DE ABRAÃO

Em Jerusalém, o abraço dos filhos de Abraão - Francisco, o Rabino e o mestre muçulmano

Em Jerusalém, o abraço dos filhos de Abraão – Francisco, o Rabino e o mestre muçulmano

A peregrinação que Francisco realizou nos dias 24, 25 e 26 de maio de 2014 à Terra Santa deve ser incluída nos caminhos dos patriarcas que demandaram Jerusalém em busca da Terra da Promessa, nos caminhos dos peregrinos judeus, cristãos e muçulmanos que há dois milênios seguem as trilhas que levam ao Jordão, a Belém, a Jerusalém. Francisco foi mais que um patriarca, mais que um profeta, mais que um bispo, porque foi patriarca, profeta e bispo ao mesmo tempo. Paulo VI, em 1964 deixou Roma simbolicamente para convidar a Igreja a retornar a Jerusalém, sob o signo do ecumenismo. João Paulo II, em 2000, quis refazer o caminho de Abraão de Ur da Caldéia a Jerusalém sob o signo da mais profunda espiritualidade bíblica que convidava os cristãos a sair da terra da segurança e buscar a “terra que te mostrarei”.

Francisco, o pobre desarmado, foi abraçar afetuosamente os povos cuja fé deita raízes em Abraão, os povos do Livro do único Deus: a Torá, o Evangelho, o Alcorão, JAWEH, o PAI, ALLAH. Jordânia, Palestina e Israel sentiram-se amados pelo Homem de vestes brancas que não veio como um novo cruzado, mas como um irmão, e irmão de verdade, sem jogos de sedução, de diplomacia, de teologia.

Nunca poderíamos imaginar o Papa de Roma dirigindo-se ao rio Jordão de carona num Jeep dirigido por Abdallah, rei da Jordânia. A simplicidade e despojamento de honras fez o bispo de Roma viver como Filipe que pega carona com o ministro da Rainha de Candace, como Pedro e Paulo que embarcam para Roma a fim de anunciar o Ressuscitado, como Jesus, o pobre de Nazaré que sobe para Jerusalém.

Os encontros de Francisco com cristãos e muçulmanos em Amman, em Belém, com judeus, muçulmanos e cristãos em Jerusalém revelaram que é possível a paz que nasce do coração pobre aquecido pelo amor, que é possível convidar a se encontrarem com ele em sua casa romana o presidente palestino Abu Mazen e o israelense Shimon Peres, convite prontamente aceito. Alguns comentaram que o convite não leva a nada, que o Papa arrisca seu prestígio com o provável fracasso. Há equívocos nessa dúvida: Francisco convidou para visitarem-no e para rezarem juntos, não para discutir alta geopolítica, e confia no poder da oração, na paz única que brota da fé no mesmo Deus de Abraão. Fora desse horizonte, sobra a paz do medo, da guerra, do comércio das armas.

Papa Francisco revelou toda sua humanidade – e a fé é verdadeira quando nos revela – ao sofrer com os cristãos perseguidos por causa da fé cristã no Oriente médio, sofrer com as crianças e adultos no campo de refugiados palestinos, sofrer com o povo judeu que até o fim da história recordará o Holocausto nazista.

Não deve ser fácil acompanhar Francisco, não porque quebre o protocolo, mas porque é intuitivo e age por inspiração: assim, é verdade que foi ao Muro das Lamentações, mas também parou no vergonhoso Muro que em Belém separa palestinos e judeus. Mas, não falou de muros, tocou-os com as mãos, gesto mais forte.

É verdade que reconheceu o direito dos palestinos a uma pátria, mas também reconheceu o mesmo direito aos judeus visitando o túmulo de Theodoro Herlz, pai do sionismo moderno. Acima de tudo, fez com que os moradores dessa região conflagrada há milênios antevissem a beleza do abraço da paz, que é possível, necessário.

Os gestos de Francisco confirmam e intensificam a beleza e profundidade de suas palavras. Há 50 anos, Paulo VI e Atenágoras se abraçaram em Jerusalém: Francisco abraçou Bartolomeu, e enriqueceu o gesto caminhando de mãos dadas, um ajudando o outro a caminhar, pediu até ao venerável Patriarca de Constantinopla que cuidasse para não escorregar no piso do Santo Sepulcro. Os dois gostariam de ir muito além, mas necessitam de levar em conta a realidade histórica e teológica de suas veneráveis Igrejas.

Num tempo, beijavam-se os pés aos papas, depois, beijava-se o anel. Em Francisco, o gesto de afeto e respeito se aprofundou: ele beija as mãos das pessoas. Beijou a mão da rainha Rânia e, em Jerusalém, beijou as mãos dos judeus sobreviventes do holocausto, num pedido de perdão em nome de toda a humanidade pelo crime inaudito do assassinato de seis milhões de judeus nos campos de concentração. Mas, normalmente beija as mãos de padres idosos, de doentes, de presidiários. São gestos de carinho, principalmente gestos de humildade que refletem a imagem de um Deus que em Jesus se abaixou, se anulou, fez-se servo mesmo sendo Senhor.

As palavras simples e diretas, acompanhadas desses gestos, possuem um efeito desarmador único e permitiram a Bergoglio ser ele mesmo até o mais profundo de seu ser. Ele ama, e o demonstra com os gestos, como ir à basílica romana de Santa Maria orar e pedir pela viagem, levando um buquê de rosas que depositou no altar. Quando em Buenos Aires, observando o esquife de um velho padre percebeu como estava pobre e saiu a comprar flores para ornamenta-lo.

O objetivo traçado para a peregrinação à Terra Santa foi celebrar os 50 anos da peregrinação de Paulo VI, rememorar o abraço entre Papa Montini e o patriarca Atenágoras. Conduzido pelo amor e pela espontaneidade, o objetivo foi suplantado pela visita a Belém e encontro com os refugiados palestinos, a parada diante do muro de Belém e o convite a Abu Mazen e Shimon Peres a rezarem com ele em sua casa no Vaticano.

Subtraindo o impacto das imagens desses gestos, suas palavras tocam profundamente, são palavras de profeta bíblico, palavras de um Pai da Igreja, palavras simples, embelezadas pelas parábolas, desafiantes.

Amman, Belém, Jerusalém – muçulmanos, cristãos e judeus

Em Amman, 24 de maio, em Missa na qual mais de mil crianças fizeram a Primeira Comunhão, anunciou o Paráclito que é o próprio Jesus e o “outro”, que é o Espírito Santo. O Espírito Santo que prepara Jesus para a missão, unge-o no Jordão e o envia: “Jesus é o Enviado, cheio do Espírito do Pai. Ungidos pelo mesmo Espírito, também nós somos enviados como mensageiros e testemunhas de paz. … A paz não se pode comprar, não está à venda. A paz é um dom que se deve buscar pacientemente e construir ‘artesanalmente’ através dos pequenos e grandes gestos que formam a nossa vida diária. Consolida-se o caminho da paz, se reconhecermos que todos temos o mesmo sangue e fazemos parte do gênero humano; se não nos esquecermos que temos um único Pai no Céu e que todos nós somos seus filhos, feitos à sua imagem e semelhança”.

Na Praça da Manjedoura, em Belém, dia 25, partiu do texto “Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lc 2, 12). Pergunta sobre nossa sensibilidade diante das crianças e afirma: “Quando as crianças são acolhidas, amadas, protegidas, tuteladas, a família é sadia, a sociedade melhora, o mundo é mais humano”. Lembra que o menino é frágil, como todas as crianças, o Menino de Belém é frágil e, no entanto, é a Palavra que se fez carne e veio transformar a história humana.

Francisco interroga tocando nossos mais profundos sentimentos de dignidade: “Quem somos nós diante de Jesus Menino? Quem somos nós diante das crianças de hoje? Somos como Maria e José que acolhem Jesus e cuidam d’Ele com amor maternal e paternal? Ou somos como Herodes, que quer eliminá-Lo? Somos como os pastores, que se apressam a adorá-Lo prostrando-se diante d’Ele e oferecendo-Lhe os seus presentes humildes? Ou então ficamos indiferentes?

‘Isto nos servirá de sinal: encontrareis um menino…’. Talvez aquela criança chore! Chora porque tem fome, porque tem frio, porque quer colo… Também hoje as crianças choram (e choram muito!), e o seu choro interpela-nos. Num mundo que descarta diariamente toneladas de alimentos e remédios, há crianças que choram, sem ser preciso, por fome e doenças facilmente curáveis. Num tempo que proclama a tutela dos menores, comercializam-se armas que acabam nas mãos de crianças-soldado; comercializam-se produtos confeccionados por pequenos trabalhadores-escravos. O seu choro é sufocado: o choro destes meninos é sufocado! Têm que combater, têm que trabalhar, não podem chorar! Mas choram por elas as mães, as Raquéis de hoje: choram os seus filhos, e não querem ser consoladas” (cf. Mt 2, 18).

Conclui, invocando Maria:

Ó Maria, Mãe de Jesus,
Vós que acolhestes, ensinai-nos a acolher;
Vós que adorastes, ensinai-nos a adorar;
Vós que acompanhastes, ensinai-nos a acompanhar.
Amem
.

Em Jerusalém, dia 26, visitou xeque Muhamad Ahmad Hussein, Grão Mufti de Jerusalém e de toda a Palestina, na Esplanada das Mesquitas e recordou as origens comuns de judeus, cristãos e muçulmanos que, cada um a seu modo, reconhecem em Abraão um pai na fé. Abraão o peregrino que se faz pobre, põe-se a caminho em busca da suspirada meta: “Esta foi a condição de Abraão, esta deveria ser também a nossa disposição espiritual. Não podemos jamais considerar-nos auto-suficientes, senhores da nossa vida; não podemos limitar-nos a ficar fechados, seguros nas nossas convicções. Diante do mistério de Deus, somos todos pobres, sentimos que devemos estar sempre prontos para sair de nós mesmos, dóceis à chamada que Deus nos dirige, abertos ao futuro que Ele quer construir para nós”.

E o convite

Amados irmãos, queridos amigos,
a partir deste lugar santo,
lanço um premente apelo a todas as pessoas
e comunidades que se reconhecem em Abraão:
Respeitemo-nos e amemo-nos uns aos outros como irmãos e irmãs!
Aprendamos a compreender a dor do outro!
Ninguém instrumentalize, para a violência, o nome de Deus!
Trabalhemos juntos em prol da justiça e da paz!
Salam!

Francisco não é conduzido por ingênuo otimismo, porque sabe a que ponto chegou a soberba humana na tentação de se construir sem Deus, contra Deus, transformando a história da civilização na história de Babel. Tem diante de si o mistério da Cruz redentora que, rejeitada, leva à fabricação de cruzes dolorosas colocadas sobre ombros já chagados de crianças, homens e mulheres, de judeus, cristãos e muçulmanos.

No mesmo dia 26, visitou o YAD VASHEM, o monumento da Memória em Jerusalém onde estão gravados os nomes dos quase seis milhões de judeus mortos pela ideologia racista do nazismo. O decreto da morte do povo judeu significou o desafio blasfemo ao Deus da Aliança, o repto humano “quem tem a última palavra?”. Extinguindo o Povo da Aliança Hitler pensava ter extinto a Aliança, depositando Deus no lixo da história. João Paulo II, Bento XVI visitaram o Memorial, e ali a palavra mais forte é o silêncio envergonhado do homem em seu estágio mais baixo de soberba e crueldade.

Francisco ali proferiu palavras perturbadoras, remontando ao pecado de Adão que se escondeu de Deus, em nome da humanidade confessando os pecados e clamando por misericórdia. Nelas escutamos não um homem, um papa, um crente, mas um profeta que escapa das páginas bíblicas:

“’Adão, onde estás?’ (cf. Gen 3, 9).
Onde estás, ó homem? Onde foste parar?
Neste lugar, memorial do Shoah,
ouvimos ressoar esta pergunta de Deus: ‘Adão, onde estás?’.
Nesta pergunta, há toda a dor do Pai que perdeu o filho.
O Pai conhecia o risco da liberdade;
sabia que o filho teria podido perder-se…
mas talvez nem mesmo o Pai podia imaginar uma tal queda, um tal abismo!
Aquele grito ‘onde estás?’ ressoa aqui,
perante a tragédia incomensurável do Holocausto,
como uma voz que se perde num abismo sem fundo…

Homem, quem és? Já não te reconheço.
Quem és, ó homem? Quem te tornaste?
De que horrores foste capaz?
Que foi que te fez cair tão baixo?
Não foi o pó da terra, da qual foste tirado.
O pó da terra é coisa boa, obra das minhas mãos.
Não foi o sopro de vida que insuflei nas tuas narinas.
Aquele sopro vem de Mim, é algo muito bom (cf. Gen 2, 7).
Não, este abismo não pode ser somente obra tua, das tuas mãos, do teu coração…
Quem te corrompeu? Quem te desfigurou?
Quem te contagiou a presunção de te apoderares do bem e do mal?
Quem te convenceu que eras deus?
Não só torturaste e assassinaste os teus irmãos,
mas ofereceste-los em sacrifício a ti mesmo, porque te erigiste em deus.
Hoje voltamos a ouvir aqui a voz de Deus: ‘Adão, onde estás?’”.

E Francisco, em nome da humanidade, eleva a Deus o único grito que tem sentido, pedindo perdão por todos os holocaustos hoje fabricados e alimentados pelas guerras:

Tende piedade de nós, Senhor!
Para Vós, Senhor nosso Deus, a justiça;
para nós, estampada no rosto a desonra, a vergonha (cf. Bar 1, 15).
Pecamos contra Vós.
Vós reinais para sempre”
(cf. Bar 3, 1-2).

O Bispo de Roma termina sua peregrinação pedindo perdão pelos pecados e confiando na graça divina que pode regenerar a história. Há dois mil anos o Filho perguntava ao Pai por que o abandonara e, hoje, Francisco nos coloca diante do Pai que, pelo Espírito de Jesus prepara, unge e envia os filhos de Abraão. Confia em nós.

Pe. José Artulino Besen 

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PAULO VI, PEREGRINO DA HISTÓRIA – Há 50 anos de sua viagem à Terra Santa

Paulo VI em Tabgha, beija a rocha onde Pedro recebeu o Primado

Paulo VI em Tabgha, beija a rocha onde Pedro recebeu o Primado

Com a morte do Cardeal Schuster, em agosto de 1954, o papa Pio XII nomeou sucessor seu Pro-secretário de Estado, Giovanni Batista Montini. Em período normal, ser arcebispo de Milão era ser honrado por assumir a sede que foi de Santo Ambrósio e de São Carlos Borromeu. Montini, porém, teve sua escolha motivada pelo fato de que Pio XII não o queria em Roma para que não fosse seu sucessor, como se falava, pois via-o como simpático ao melhoramento de relações com os soviéticos e com a modernidade. Montini era “o nome”: mantivera contatos com episcopados nacionais, incentivara a fundação da CNBB e sua longa experiência romana, além de seu refinamento intelectual, diplomático e teológico, o credenciavam ao Pontificado.

O fato de ter vindo do mundo diplomático, sem experiência pastoral, favoreceu-o em Milão, pois foi capaz de olhar a cidade sem preconceito, como desafio à fé e à vida cristã. Era um homem moderno.

Pio XII recursou-se a nomeá-lo cardeal para evitar a eleição, mas a ação pastoral milanesa, sua abertura aos problemas sociais, seu enlaçamento com a cultura acabaram por prepará-lo ainda melhor para ser papa. Marcante foi a “Grande Missão milanesa”, de 4 a 24 de novembro de 1957 e que envolveu as 110 paróquias, 1288 pregadores e milhares de agentes de cada classe social e profissional. Escreveu, como motivação: “A preguiça religiosa domina nossa época. O mundo parece tornar-se menos sensível ao religioso. São muitos os que estão afastados e podem ser estes os preferidos da evangelização”.

No encerramento, o arcebispo propôs gestos concretos, humildes, mas eficazes: a bênção das casas, fichário paroquial, Missa festiva da Primeira Comunhão para todos, no mesmo dia, e a construção de novas igrejas na cidade que se expandia de maneira impressionante. Montini quis manifestar sua ação de graças a Deus com a Peregrinação a Lourdes de 27 a 29 de junho de 1958.

PAULO VI – PAPA MONTINI

Papa Paulo VI

Papa Paulo VI

Morto Pio XII, o Conclave aberto em 26 de outubro de 1958 discutiu a hipótese de eleger papa um não cardeal, Montini. A opção foi descartada e decidiu-se eleger pelo critério da idade e, no dia 28 de outubro, o Patriarca de Veneza, Ângelo Roncalli foi eleito, escolhendo o nome de João XXIII. Sua maior credendial: a idade. O mais já conhecemos, pois o insuspeitado santo era velho de 76 anos, mas enxergava bem. O Papa Bom, já em 4 de novembro escreveu a Montini que o criaria cardeal, o que aconteceu em 15 de dezembro. Sanava-se uma injustiça, era voz corrente. Em janeiro seguinte é anunciado o Concílio Ecumênico, para espanto de muitos: tinha-se a idéia de que com o dogma da infalibilidade papal (1870) Concílios não eram mais necessários.

João XXIII conquistou o mundo com seu coração onde todos encontravam lugar, sem exceção, superando o espírito inquisitorial. Sua grande obra, além do Concílio, foi sua pessoa, na qual o mundo sentiu ter um pai.

Cinco anos depois, o mundo chorava a perda de João XXIII e, no Conclave, em 21 de junho de 1963, foi eleito o Cardeal Montini, Papa Paulo VI. Tinha 65 anos, era frágil fisicamente (dizia-se que, desde jovem, tinha uma péssima saúde de ferro) mas era o homem escolhido por Deus para reger o caminho da Igreja num período difícil da história humana: a Guerra Fria, o surgimento de novas nações com a descolonização da África, os conflitos Norte-Sul, a secularização e secularismo, a contestação que se alastrava e atingia todas as instituições, também a Igreja.

No dia seguinte à eleição, anunciou os principais objetivos de seu pontificado: retomar as sessões do Concílio Vaticano II (“A parte mais importante de nosso pontificado será ocupada pela continuação do 2º Concílio Ecumênico do Vaticano, para o qual se voltam os olhares de todos os homens de boa vontade”), empenhar-se pela paz entre os povos, e pela unidade dos cristãos.

Montini foi fiel ao pedido que lhe fizera João XXIII: continuar o Concílio. Seria um tempo de confronto, incertezas, mas também um novo Pentecostes na Igreja. No dia 30 de junho de 1963, aconteceu a Coroação de Paulo VI. O Cardeal Ottaviani, proto-diácono, colocou-lhe a Tiara (tríplice coroa), que o Papa pedira fosse simples e cônica. Usou-a poucas vezes até que, num gesto carregado de simbolismo, em 4 de dezembro de 1963, no encerramento da segunda Sessão do Concílio, tirou-a da cabeça e a depositou no altar de São Pedro, simbolizando a renúncia do papa a qualquer pretensão de poder temporal. O Papa suprimiu o uso pessoal da Tiara e não para os futuros papas, tanto que na Constituição de 1975 sobre a Eleição Papal fala de coroação. João Paulo II, na nova legislação de 1996, não fala mais dela, e o início do ministério papal passa a ser “Inauguração”, em vez de “Coroação”.

O ministério petrino exercido por Paulo VI sofre a injustiça de julgamentos parciais, especialmente por sua Carta encíclica “Humanae Vitae” (25 de julho de 1968) sobre o controle da natalidade e o uso de anticoncepcionais, na qual assume posição de minoria de teólogos moralistas contra a opinião da maioria. Alguns reduzem Paulo VI ao “Papa da Pílula” ou, com maior amargura, ao “Papa da Missa modernista”, do traidor da Missa de São Pio V.

Os detratores o julgam herético, maçom, judaizante, mancomunado com Moscou, anticristo, devasso e outros adjetivos de que alguns católicos tradicionalistas se apossam em sua sistemática e desumana campanha contra um Pontífice romano. Quando teve início o processo de beatificação de Paulo VI, ficaram escandalizados e mais ainda com a aprovação do primeiro milagre! Paulo VI sofreu a incompreensão em vida e na memória. A história lhe faz justiça e o Espírito lhe testemunha a santidade.

O processo de beatificação foi aberto em 1993, e João Paulo II oficialmente o reconheceu como “Servo de Deus”. Em 20 de dezembro de 2012, Bento XVI reconheceu a heroicidade das virtudes e o proclamou “Venerável”.

Alguns historiadores apelidam Paulo VI de “Hamletiano” (“ser ou não ser”), angustiado pelas dúvidas no caminho da vida eclesial e do qual são se conhecia o resultado. Sofreu as milhares de desistências de padres e religiosos, a contestação ao magistério papal, o decréscimo nas vocações, na participação religiosa, mas seguiu o caminho traçado pelos Padres conciliares. Como homem de visão histórica, sabia que não há renovação sem perdas, abertura de novos caminhos sem crítica. E, mais ainda, tinha claro que um acontecimento determinante como o Vaticano II, vivenciado numa época histórica dominada por conflitos políticos, culturais e econômicos, não poderia ser aplicado muito devagar, para não perder os idealistas que pediam pressa, nem muito ligeiro, para não perder os mais conservadores que pediam uma freada em tudo.

PAULO VI, CONTEMPLAÇÃO E AÇÃO

A obra do Papa Montini é imensa e, apenas como exemplo, podemos citar:

A criação do Sínodo dos Bispos, assembléia episcopal a ser convocada periodicamente para assessorar no governo da Igreja. A reforma da Cúria romana e a criação de Comissões pontifícias para conduzirem os novos serviços da Igreja. Revolucionou a eleição papal, reservando-a aos Cardeais abaixo dos 80 anos e elevando a 120 o número de eleitores. Convocou cinco Consistórios, com a criação de 143 novos cardeais.

Seguiu a recomendação conciliar de levar a efeito a reforma litúrgica, já iniciada por Pio XII, estabelecendo o Ritual romano da Missa em 1969. Se na Missa tridentina era acentuado o aspecto sacrifical da Missa, sem negá-lo agora se acentua o aspecto pascal, celebração do Povo de Deus. Mais de 40 anos depois pode-se dizer que a implementação do novo Rito foi marcada mais pelo sentido de novidade do que pelo sentido de ativa participação do povo que celebra a Páscoa. Em outras palavras, renovou-se a Liturgia, mas esqueceu-se bastante da renovação da Assembléia.

Paulo VI assumiu a face da Igreja que se apresenta como dialogante, sendo “diálogo” a grande palavra: diálogo dentro da Igreja, diálogo entre as Igrejas cristãs, diálogo com o mundo, diálogo com os regimes comunistas de então. A Igreja montiniana faz-se diálogo, serviço ao mundo. O Ecumenismo, que era apanágio das Igrejas cristãs, também é assumido pela Igreja Católica. Em 1964, foi iniciada a “Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos”. Em 10 de junho de 1969, Paulo VI dirigiu-se a Genebra, à sede do Conselho Mundial das Igrejas, onde pronunciou a antológica apresentação: “Me chamo Paulo, e meu nome é Pedro”.

O diálogo com o mundo teve sua expressão na visita à sede das Nações Unidas, em Nova York. Era 4 de outubro de 1965, e foi recebido pelos representantes de todas as nações do mundo, menos a Albânia, que tinha assumido o “glorioso” título de “primeira nação atéia do mundo”. Vestia apenas a batina branca com a Cruz peitoral e foi saudado entusiasticamente. Apresentou-se como chefe de um minúsculo país e como representante da Igreja Católica em nome da qual discursou, afirmando que suas palavras eram também as dos Padres do Concílio, que ainda estava reunido, apresentou-se como servidor da paz, sem nenhum poder além da decisão de servir. Todos se ergueram quando clamou: “Jamais a guerra! Sim, nunca mais a guerra! A paz, a paz deve guiar o destino dos povos e da humanidade toda!”.

Significativo que, dois meses depois, em 7 de dezembro, era aprovada a Constituição pastoral “Gaudium et Spes” sobre a Igreja no mundo. Paulo VI duplicou o número de Nunciaturas e delegações apostólicas para poder dizer uma palavra em favor da vida humana e da paz.

A Igreja na América latina deve-lhe a convocação e a presença estimulante na abertura da Conferência do episcopado em Medellín, em 24 de agosto de 1968, com o tema “A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio”. No ano anterior tinha publicado a Carta encíclica “Populorum Progressio”, que teve influência decisiva em Medellín no sentido de a Igreja se empenhar pela causa da justiça e da superação das desigualdades. Paulo VI apoiou com o peso de sua autoridade os bispos brasileiros que se levantavam contra a Ditadura militar e nomeou novos, comprometidos com a causa da justiça.

PEDRO RETORNA A JERUSALÉM

Paulo VI na Via Dolorosa - olhar em êxtase

Paulo VI na Via Dolorosa – olhar em êxtase

Papa Montini realizou sete viagens internacionais, as primeiras de um papa desde 1812. A que mais lhe tocou o coração foi a peregrinação à Terra Santa: iniciativa pessoal, sem convite oficial, estritamente espiritual, e que teve um significado imenso na história católica. Na conclusão da segunda Sessão do Concílio, em 4 de dezembro de 1963, comunicou aos Padres que estava convencido de que, para o bom êxito do Concílio eram necessárias muitas orações e, para isso “decidimos ir como peregrinos àquela terra que é pátria de Jesus nosso Senhor … com a intenção de pessoalmente evocar os principais mistérios da nossa salvação, a encarnação e a redenção. … Veremos aquela terra veneranda de onde partiu Simão Pedro e à qual nenhum sucessor dele retornou. Nós, humildemente, e por curto tempo, a ela retornaremos em espírito de devota oração, de renovação espiritual, para oferecer a Cristo sua Igreja; para chamar a ela, una e santa, os Irmãos separados; para implorar a divina misericórdia em favor da paz”.

João Paulo II tinha planejado para o Jubileu do segundo Milênio uma peregrinação à terra de Abraão, Pai das religiões monoteístas, iniciando por Ur na Caldéia. Por questões de segurança, essa região não foi visitada. Paulo VI planejava seguir as pegadas de São Paulo, partindo de Damasco, e razões políticas também não o permitiram.

E assim, em 4 de janeiro de 1964, Paulo VI desembarcava na Jordânia, depois seguindo de automóvel, e era tarde quando chegou a Jerusalém e desembarcou para celebrar a Via-sacra. Dessa hora em diante aconteceu de tudo: a multidão cercou o Papa, cardeais, patriarcas e bispos eram jogados contra a parede e meia dúzia de heróicos soldados árabes cuidaram de garantir a integridade papal. Em meio ao turbilhão Montini sofreu algumas quedas, a multidão o fazia desaparecer de vista. Pálido e feliz, o Papa foi recolhido por alguns minutos na capela da 6ª. Estação e ali entrou em êxtase, como se pode observar em foto tomada ali. Refeito, segue o caminho e chega à basílica do Santo Sepulcro, onde se prostra em oração e deposita um ramo de oliveira no Sepulcro. Mais tarde, comentou que desejaria ser dispensado dos protocolos romanos e poder trabalhar como Pedro reunido com seus diáconos.

Na manhã do dia 5, domingo, recebeu o Presidente de Israel Salman Shazar e o Rabino chefe Nissim. Agradecendo a saudação, Paulo VI fala: “Com satisfação recordamos os filhos do “Povo da Aliança” cujo destino na história religiosa da humanidade não podemos esquecer”. Em nenhum momento citou a palavra Israel e cabe uma explicação: estamos em 1964 e a região que hoje é a Palestina pertencia a Jordânia, incluindo Jerusalém oriental, e foi ocupada por Israel na Guerra de 1967. Como o Vaticano não reconhecia, ainda, Israel, o Papa não o citou.

Nessa peregrinação, o Papa pode sentir as conseqüências das divisões entre árabes e judeus, entre ortodoxos e católicos. A Missa no Santo Sepulcro foi celebrada em frente à basílica, pois os ortodoxos impedem os católicos de celebrarem diante do Sepulcro. O mesmo aconteceu na Basílica da Natividade, em Belém, onde o Papa, paramentado para a Celebração, teve de dar uma volta, pois não lhe seria permitido passar pela nave central, também ortodoxa. Nada disso, é evidente, tirou a alegria e a emoção de Paulo VI que, vindo da diplomacia, conhecia bem os meandros da história.

Nesse mesmo dia 5, o Papa dirigiu-se à Galiléia, prostra-se na rocha onde Pedro foi chamado, contempla o lago de Genezaré e celebra na Basílica de Nazaré, e falou de Nazaré como “Escola do Evangelho”. Sobe o Monte Tabor e, no final do dia, está novamente em Jerusalém.

Paulo VI abraça o Patriarca Atenágoras I

Paulo VI abraça o Patriarca Atenágoras I

Foi na tarde desse dia que aconteceu o grande encontro, esperado desde 1439: como que após longa procura, se abraçaram o Patriarca de Roma Paulo VI e o Patriarca de Constantinopla Atenágoras I, se abraçaram os dois irmãos Pedro e André. Cada um recitou o Pai Nosso em latim e grego. Atenágoras deseja que esse encontro “seja o alvorecer de um dia luminoso e bendito, em que as gerações futuras comungarão do mesmo cálice do Santo Corpo e do Precioso Sangue do Senhor”.

No dia seguinte, seguindo o protocolo, Paulo VI retribuiu a visita de Atenágoras e fala: “De ambos os lados os caminhos que conduzem à união são longos e cheios de dificuldade. Mas, as duas estradas convergem e se encontram nas nascentes do Evangelho. Não é sinal de bênção que o encontro de hoje aconteça nessa Terra onde Cristo fundou sua Igreja e derramou seu Sangue por ela?”.

O histórico encontro é concluído com a leitura do Capítulo 17 de João, em grego e em latim, alternadamente, a partir da mesma cópia do Evangelho. Agora juntos, rezam o Pai Nosso em grego e em latim e ambos abençoam os presentes. Nascia ali uma amizade profunda, que continua até nossos dias, entre Roma e Constantinopla.

Antes de deixar Jerusalém, o Papa visitou um paralítico, Mathia Khalil Nathan, e nesse abraço quis incluir todos os doentes da Cidade Santa.

No mesmo dia 6, às 18:30h, Paulo VI desembarcou em Roma. Revigorado, trabalhou sem descanso ou dúvida para a renovação da Igreja.

Em 8 de dezembro de 1975 publicou a Exortação apostólica “Evangelii Nuntiandi”. Com a “Populorum Progressio” são até hoje fontes inesgotáveis da vida pastoral.

Recitando continuamente o Pai Nosso, aos 80 anos, descansou em paz em 6 de agosto de 1978, festa da Transfiguração do Senhor. A seu pedido, foi sepultado rente ao solo. Aguardando sua beatificação, a Igreja louva o Senhor pela graça do ministério papal de Paulo VI.

Pe. José Artulino Besen

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JOÃO XXIII E FRANCISCO, UMA PARÁBOLA JUBILAR

Papa João XXIII e Papa Francisco

Papa João XXIII e Papa Francisco

Contemplando a linha histórica entre 1963 e 2013, podemos observar um Jubileu de 50 anos iniciado com a morte de João XXIII, completado por Francisco e, no centro do período, os pontificados de Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI. É verdade que os papas se sucedem e não se substituem, o que revela a segurança da história da Igreja, mas, há uma linha de continuidade nesses homens: a santidade. João XXIII e João Paulo II serão canonizados e logo haverá a beatificação de Paulo VI, de João Paulo I e um ancião, Bento XVI, leva vida contemplativa no mosteiro Mater Ecclesiae, dentro do Vaticano. A velha e enrugada Igreja cada vez mais se torna esposa sem ruga e sem mancha, cheia da beleza própria dos santos. Nós, que estamos acostumados a contemplar os papas no Trono papal, necessitamos aprender a contempla-los de joelhos, rosário nas mãos, confiantes no Espírito que fala às Igrejas. Uma instituição cujos Cardeais eleitores escolhem homens de tal envergadura somente pode gozar de boa saúde.

Mas, que linha marca esse Jubileu e esses homens João e Francisco? Evidente que navegam na barca do Concílio e seu espírito lembra algo meio esquecido: uma Igreja pobre para os pobres, pobre nos meios. João indicou esse caminho e Francisco torna-o uma avenida.

JOÃO XXIII

Papa João XXIII visita um doente

Papa João XXIII visita um doente

Ângelo José Roncalli (1881-1963) era filho de pobres agricultores, devoto de Nossa Senhora, estudioso. Como bom seminarista, foi premiado com bolsa de estudos no Pontifício Seminário Romano em Roma, onde foi ordenado sacerdote em 1904. No primeiro dia de seminarista escreveu um Diário, iniciado com um pequeno programa de santidade que o acompanhou até os últimos dias: nele está a história de sua alma serena e humilde, nunca perturbada nem mesmo nos acontecimentos históricos que protagonizou. Após 20 anos como secretário do bispo de Bérgamo Radini-Tedeschi, tempo em que lecionou no seminário e foi capelão militar na grande guerra de 1914, em 1921 Bento XV nomeou-o presidente nacional da Obra da Propagação da Fé, quando contribuiu na redação do motu próprio de Pio XI “Romanorum pontificum”, carta magna da cooperação missionária.

Em 1925, Pio XI o nomeia Visitador apostólico na Bulgária e foi ordenado bispo escolhendo o lema “Obediência e Paz”. Era sua missão reorganizar a Igreja de rito oriental e latino naquele país e resolver conflitos de jurisdições episcopais. Um trabalho para alguns meses, se dizia, e esses alguns meses foram 10 anos. Julgou que o tinham esquecido, mas, obedientia et pax, mergulhou no trabalho: tornou-se amigo do Rei Boris III, do clero ortodoxo, do povo búlgaro, de maioria ortodoxa, do qual aprendeu a língua. Seu amor pelos pobres grangeou-lhe o afeto geral.

Dez anos depois, em 1934 foi nomeado Delegado apostólico na Turquia e na Grécia, mergulhando no mundo ortodoxo e muçulmano. Cinco anos depois explode a segunda grande Guerra, e Roncalli teve ocasião de trabalhar em favor das vítimas doentes e famintas e, ponto delicado, em favor dos Judeus que, aos milhares, fugiam dos países europeus dominados pelo nazismo alemão. Passo fundamental foi sua amizade com o embaixador alemão Franz von Papen que lhe fornecia dinheiro, roupas, alimento e remédio repassados aos pobres judeus. Segundo o embaixador, com sua dedicação, amizade, conseguiu salvar 24 mil judeus, cujo destino seriam os campos de concentração. Sua amizade com o povo turco mereceu-lhe o apelido de “Papa turco”.

Nomeado Núncio apostólico em Paris, em 1944, continuou seu trabalho pela salvação dos judeus, servindo-se dos bons préstimos do embaixador sueco. Conseguiu que o rei Boris fizesse retornar um trem carregado de judeus que eram conduzidos ao extermínio. Roncalli expediu falsos documentos de identidade, falsos certificados de batismo e de imigração para a Palestina. De Paris sua ação estendeu-se à Hungria, Bulgária e Eslováquia, dedicação tão reconhecida que lhe valeu, em 2000, ser incluído por Israel como “justo entre as nações”. Há cálculos que afirmam terem sido salvos perto de 80 mil judeus, com esses falsos certificados de batismo e de identidade expedidos por organizações católicas com o apoio do Núncio Roncalli.

Terminada a Guerra em 1945, o futuro Papa encontrou o mau humor de Paris, que se sentia humilhada por um Núncio tão simplório, baixinho e gordo, que apelidaram de “saco de macarrão”. Charles de Gaulle, libertador da França, exigiu-lhe a destituição da maioria dos bispos franceses que tinha colaborado com o regime de Vichy. Com seu talento, Ângelo Roncalli conseguiu reduzir o número de 25 para três bispos.

Em 1953, Pio XII criou-o Cardeal e o nomeou Patriarca de Veneza. Padre há quase 50 anos, finalmente estava à frente de um rebanho católico. Continuando o ministério da reconciliação, enviou mensagem aos socialistas reunidos em Congresso. Seu coração humano e cristão não perguntava a religião ou o partido: amava instintivamente e por todos era amado.

O velho Patriarca estava com 77 anos, merecendo um digno descanso e, supresa, é eleito Papa em 28 de outubro de 1958, sucedendo ao único, inimitável, inswubstituível  Pio XII. Para os analistas desse Conclave, Roncalli tinha uma única credencial para ser eleito: era velho! Não iria dar trabalho, não mexeria com o status da Igreja pacelliana. Mas, fatal engano para os romanos: ainda no conclave criou um cardeal, em 4 anos criou mais 52, em 1960 os primeiros cardeais africano, japonês e filipino, em 1962 canonizou o primeiro santo negro, Martinho de Lima.

No primeiro Natal romano visitou as crianças do Hospital Menino Jesus que o confundiram com Papai Noel, no dia 26 os prisioneiros do Regina Coeli (Já que vocês não podem me visitar, venho eu visita-los), aos quais falou do amor de Deus. Não faltaram os fioretti, como ao visitar um padre doente no hospital Espírito Santo e ao bater à porta da Superiora ela, emocionada, se apresentou como Madre Superiora do Espírito Santo e teve a resposta do Papa: “Abençoada!. Que bela carreira! Eu sou apenas o servo dos servos de Deus”.

Contam-se 152 saídas (escapadas) do Papa fora dos muros vaticanos, incluindo a viagem de trem até Loreto e Assis. Necessitava do contato com o povo, amava Roma com suas fontes e praças que gostava de apreciar com um binóculo.

Inesperadamente, João XXIII era um papa radical, isto é, amava como Cristo amou, sem mediações religiosas ou políticas. Tinha aprendido a amar os muçulmanos, os judeus, era amigo de protestantes, ortodoxos, recebeu visita do Arcebispo de Cantuária, de um ateu comunista, o sobrinho de Kruschev, para escândalo dos puros que sentiram a profanação do sagrado espaço vaticano. A pedido de judeus, na Sexta-feira santa de  1959, suprimiu da liturgia a invocação “pro perfidis judaeis”. Não havia, nele, projetos de ecumenismo, diálogo interreligioso e sim, a acolhida sem reservas.

Com apenas três meses de pontificado, a coroa de seu ministério manifestou-se em 25 de janeiro de 1959: convocou os 17 cardeais presentes ao Oitavário em São Paulo fora dos Muros para um Consistório na sacristia, em seguida. Foi uma surpresa para a Igreja e para o mundo, mas não um improviso. Trocara idéias com seu Secretário de Estado Domenico Tardini que achou um despropósito o projeto afirmando que o Direito Canônico previa que cada diocese deveria realizar um Sínodo a cada 10 anos e Roma nunca tinha feito o seu. “Faremos um Sínodo, então”, foi a resposta do Papa.

E assim, naquele dia 25 de janeiro de 1959, no Concistório realizado na Sala capitular da Abadia de São Paulo anunciou aos 17 Cardeais que os convocara para anunciar três medidas: convocar um Sínodo Romano, um Concílio Ecumênico e a atualização do Código do Direito Canônico.

Como João XXIII era um velhote, os Cardeais pensaram que tudo seria num prazo de 10 anos e tudo ficaria nisso. Engano: era para já. O Sínodo Romano aconteceu de 24 a 30 de janeiro de 1960. Viveu a “solidão institucional”, nas palavras do Cardeal Lercaro. A Cúria fez o possível para não colaborar. Sofreu o boicote do l’Osservatore Romano que do Concílio deu notícia num pequeno requadro e, não fossem os jornais do mundo a difundirem o projeto, parecia ficar por isso. João XXIII sofreu o mesmo boicote de seu famoso “Discurso da Lua”, belíssimo improviso na noite de abertura do Concílio, que foi publicado com censura. Somente nesse ano de 2013, Francisco ordenou que fosse publicado na íntegra!

O Papa criou e nomeou as Comissões, deu impulso aos trabalhos, consultou todos os bispos e, no dia 25 de dezembro de 1961, através da bula papal “Humanae salutis” convocou o Concílio Ecumênico do Vaticano II, inaugurado em 11 de outubro de 1962.

Papa Roncalli continuou no ministério da reconciliação humana e da paz, tendo atuação fundamental na crise dos mísseis de Cuba que, em outubro de 1962 quase precipitou o mundo num holocausto nuclear. Fruto dessa horrenda perspectiva, em abril de 1963 publica a Encíclica “Pacem in Terris”, primeiro documento papal dirigido a todos os homens de boa vontade.

Em setembro de 1962 surgiram os sinais de câncer, doença que o fez sofrer muito e o levou ao túmulo. Foi padecendo fisicamente que abriu o Concílio Ecumênico do Vaticano II em 11 de outubro de 1962. O mundo tinha a sensação real de um pai comum, conhecido e amado como o Papa Bom. E muito chorou a humanidade no dia 3 de junho de 1963, quando o perdeu. Suas últimas palavras foram ao fiel secretário Loris Capovilla: “Por que chorar? Esse é um momento de alegria, um momento de glória”.

A Igreja católica não era mais a mesma instituição bimilenar, monolítica, voltada para suas seguranças internas. Era Mater et Magistra em projeto irrefreável de ser serva do mundo.

FRANCISCO

Francisco em Assis

Francisco em Assis

Cinqüenta anos depois, no dia 13 de março de 2013, foi eleito papa o Cardeal argentino Jorge Bergoglio. O primeiro jesuíta e o primeiro latinoamericano. Da mesma idade que João XXIII, porém, eleito pelo consenso no Conclave a fim de que realizasse reformas estruturais na Cúria e na Igreja. Escolheu o nome Francisco referindo-se ao Pobre de Assis. Em sua apresentação no Balcão da Basílica de São Pedro conquistou Roma e o mundo. Apresentou-se como Bispo de Roma. Não viera da intelectualidade ou da diplomacia, e sim, das favelas de Buenos Aires, do mundo dos pobres.

Cercou-se de Oito Sábios, Cardeais representando os Continentes, para assessora-lo. Francisco é amoroso, abraça cada pessoa como se estivesse sozinho com ela, visitou a prisão de Roma, as crianças do Hospital Menino Jesus, visitou Assis, onde pediu a graça da humildade para ele e para a Igreja. Celebrou o Lava-pés com meninos de rua, o aniversário com mendigos, passou a residir na Casa Santa Marta.

Em 8 de julho viajou a Lampedusa, porta de entrada e cemitério, na Itália, dos milhares de migrantes fugidos da África e Oriente Médio o que, para muitos, foi a inauguração de seu Pontificado. Sua homilia foi um grito com duas perguntas: “Adão, onde estás? Caim, onde está teu irmão?”. Pediu a graça de chorar pela nossa indiferença, pela crueldade que há no mundo, pelas decisões socioeconômiccas que provocam deslocamentos de povos, sofrimento, morte, e pergunta: “Quem chorou? Quem chorou hoje no mundo?”. E conclui: “Senhor, nesta Liturgia, que é uma liturgia de penitência, pedimos perdão pela indiferença por tantos irmãos e irmãs; pedimo-vos perdão, Pai, por quem se acomodou,  e se fechou no seu próprio bem-estar que leva à anestesia do coração; pedimo-vos perdão por aqueles que, com as suas decisões a nível mundial, criaram situações que conduzem a estes dramas. Perdão, Senhor! Senhor, fazei que hoje ouçamos também as tuas perguntas: “Adão, onde estás? Onde está o sangue do teu irmão?”.

Proclamando um jejum universal pela paz, colocou-se do lado o povo sírio ameaçado de uma invasão norte-americana. Francisco é um papa que chora cada doente, cada criança ou doente sofrendo, chora a morte de cada pessoa como de um filho. Assim como o velhinho João XXIII inaugurou um caminho sem retorno para uma Igreja Mãe, povo de Deus em diálogo com todos, Francisco percorre esse caminho de forma radical. Ele é amoroso, amigo, doce, mas, não se alimentem ilusões saudosistas, ele sabe o que quer: uma Igreja que se descobre nascendo na gruta de Belém, despojada, que possa anunciar com coerência o Evangelho do amor e da reconciliação.

João e Francisco, símbolos de uma Igreja alegre, calorosa, anunciando a alegria do amor de Deus, o Pai.

Pe. José Artulino Besen

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