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DOM PIERRE CLAVERIE E OS 18 MÁRTIRES DA ARGÉLIA

Dom Pierre Claverie e os 18 Mártires da Argélia

No dia 8 de dezembro de 2018 a Igreja celebrará o martírio de 19 cristãos e os declarará bem-aventurados. A grande liturgia acontecerá na basílica de Santa Cruz em Oran, donde era bispo Dom Pierre Claverie. Pela primeira vez uma beatificação acontecerá num país 99% muçulmano, um grupo de mártires que incluirá Dom Claverie, os 7 monges trapistas de Tibhirine, 6 religiosas e 5 religiosos.

Na década da 1990, a Argélia foi mergulhada numa guerra com motivação religiosa: um movimento armado de islamitas se levantou contra o regime vigente para instaurar uma república islâmica, uma teocracia.  São contados 150.000 assassinatos entre os islâmicos e numerosos cristãos entre bispo, padres, religiosos e religiosas, que eram estrangeiros e tinham recebido ordens de deixar o país. Eram estrangeiros, sim, mas estavam bem integrados no mundo argelino.

Eram religiosas consagradas ao atendimento dos mais pobres, crianças, doentes inválidos, um trabalho de amor e dedicação sem nada pedir do que poder amá-los.

Durante os anos da guerra civil na Argélia, “o sangue cristão e o sangue muçulmano se misturaram, fazendo crescer a fraternidade”. Tornou-se um só sangue o dos adoradores de Deus/Alá.

Os grupos terroristas islâmicos lançaram campanha contra os estrangeiros residentes no país, especialmente contra os de nacionalidade francesa, e os lugares cristãos foram um dos seus principais alvos.

A comunidade monástica trapista da Ordem cisterciense de estrita observância

Apesar disso, os monges trapistas do mosteiro de Tibhirine decidiram permanecer devido ao forte vínculo de afeto que tinham com a população local. Na madrugada do dia 27 março de 1996, terroristas do Grupo Islâmico Armado (GIA) assaltaram o mosteiro e sequestraram 7 dos 9 monges que havia naquele momento, todos de nacionalidade francesa.

As negociações para trocar os monges pelos prisioneiros do GIA não funcionaram e, em 21 de maio de 1996, os terroristas anunciaram que tinham-nos decapitado. Suas cabeças foram localizadas em 30 de maio, mas seus corpos nunca foram encontrados.

Como surgiram esses monges? No ano de 1938 um grupo de monges trapistas franceses fundou a comunidade monástica de Nossa Senhora do Monte Atlas, em Tibhirine, Argélia. Situados num país muçulmano ocupado pela França, sem permissão de realizar conversões, esses homens de Deus tinham como sentido de sua presença estar junto dos muçulmanos, acolhê-los, conversar, colocar em comum os dons. E praticar a oração comunitária, tanto na intimidade monástica como com os irmãos que invocavam Alá.

Tudo isso não encontra explicações aos olhos do mundo, e nem de muitos cristãos. O martírio dos missionários, porém, é um dom, é uma experiência concreta do projeto de amor que Deus tem pela humanidade. O sangue que penetrou a terra argelina dela fará brotarem flores de paz. O sangue dos missionários é esperança de paz para o mundo.

Dois anos antes, em abril de 1994, o Irmão Lucas, monge médico, escrevera a um amigo, também médico, em Lyon: “É através da pobreza, do fracasso e da morte que caminhamos ao encontro de Deus”. O sete mártires do Monte Atlas, tão antigos e tão modernos, estavam disponíveis para condividir até a morte todas as alegrias e dores, angústias e esperanças, e a doar inteiramente a vida a Deus e aos irmãos da Argélia.

Dom Pierre Claverie, bispo de Oran

Dom Pierre Claverie, bispo de Oran

Em 1º de agosto de 1996, coube a Dom Pierre Claverie, bispo de Oran, também na Argélia, sofrer o martírio. Após celebrar missa pelos monges martirizados retornava à sua residência, no carro conduzido pelo motorista muçulmano Mohammed, quando uma bomba colocada na garagem explodiu, estraçalhando a tal ponto os dois corpos que tornou impossível distinguir-lhes o sangue. Entusiasta do diálogo cristão-muçulmano, Dom Pierre fecundou o amado solo argelino com sangue cristão e muçulmano, na demonstração de que o amor é forte, mais forte que a morte, que discussões religiosas.

As missões da Igreja obedecem à palavra do Senhor: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). O Evangelho, como tão evidente era para Paulo, não é uma doutrina, uma estrutura, concentrações, organizações: o Evangelho é uma pessoa, Jesus. Jesus que nos trouxe a Boa Notícia de que seu Pai é nosso Pai, e é Pai dos humildes, dos doentes, dos pecadores, dos perseguidos e perseguidores. Jesus é o narrador do Pai, o missionário é outro Jesus narrando o Pai. Aqueles missionários frágeis e fragilizados pelo ambiente eram a narração viva do Evangelho para os muçulmanos: “Querem conhecer aquele em quem nós cremos? Olhem nossa vida!”. A um repórter que perguntou aos cristãos argelinos a razão de sua missão, foi respondido: somos simplesmente cristãos.

Jesus, o pobre da Galileia, não pode ser anunciado coerentemente com meios ricos. Sua vida que narra o Pai somente é compreendida através dos meios pobres que são marcados pela cruz: a dor, o joelho dobrado em adoração, o silêncio, a oração, a contemplação, o jejum, a obediência, o sofrimento. Não permitem medições estatísticas, não dão manchetes, são marcados pelo silêncio humilde; são os meios preferidos de Deus, são os meios que tocam o coração de Deus (cf. J. Maritain, Filosofia da História, 1957).

Há sete séculos, afirmava Santo Tomás de Aquino: “O fruto da vida ativa é proporcional à plenitude da vida contemplativa”. Em outras palavras: sem a retaguarda da oração, a mais pobre dos meios pobres, a ação pastoral e evangelizadora nos deixará felizes, com a sensação do dever cumprido, mas não implantará no mundo o Reino de Deus.

Se a missão da Igreja se apoiar nos meios ricos da persuasão, da palavra bem falada, da autoridade impositiva, como já foi em outros tempos, causará impressão, será motivo de congratulações aos olhos do mundo, mas estará ocultando o Pobre de Nazaré, estará ocultando o Pobre Deus. Será inútil.

Talvez o Senhor não nos tenha concedido a graça da missão, do testemunho em terras distantes, mas nos dá sempre uma graça imensa: viver o Evangelho, ser Jesus em meio aos estrangeiros, revelar a face do Pai aos que nos cercam, aceitar a violência do desprezo, do ódio, da concorrência do sucesso.

Testamento do Irmão Christian de Chergé

Irmão Christian de Chergé

Como cristãos e cidadãos, viver a missão da paz e da reconciliação. Retornando ao Mosteiro do Monte Atlas, uma palavra escrita pelo Irmão Lucas às vésperas do sequestro: “Não penso que a violência possa extirpar a violência. Não podemos existir como homens a não ser aceitando fazer-nos imagem do amor como foi manifestado no Cristo que, justo, quis sofrer a sorte do injusto. A morte injusta de Cristo rompe a espiral infernal do ódio e dá vida a uma nova humanidade, animada pelo sopro do Espírito”.

São páginas de intensa vida mística o Testamento espiritual do Irmão Christian de Chergé, prior do mosteiro de Tibhirine, escrito em dois momentos:  em Argel, no dia 1º de dezembro de 1993, e em Tibhirine, no dia 1º de janeiro de 1994. Transcrevemos dois momentos: a aceitação do martírio e a oração por aquele que lhe provocasse a morte, a quem chama “amigo do último instante”.

Se algum dia me acontecesse – e isso poderia acontecer hoje – ser vítima do terrorismo que parece querer abarcar agora todos os estrangeiros que vivem na Argélia, eu gostaria que a minha comunidade, a minha Igreja, a minha família, se lembrassem de que a minha vida estava ENTREGUE a Deus e a este país. Que eles soubessem que o Único Mestre de toda a vida não me abandonaria nesta brutal partida. (…)

“Como posso ser digno dessa oferenda? Eu desejaria, ao chegar esse momento da morte, ter um instante de lucidez tal, que me permitisse pedir o perdão de Deus e o dos meus irmãos os homens, e perdoar eu, ao mesmo tempo, de todo o coração, aos que me tiverem ferido.”…

Por essa minha vida perdida, totalmente minha e totalmente dele, dou graças a Deus que parece tê-la querido inteiramente para a alegria, apesar de tudo. Neste ‘obrigado’, em que tudo está dito, agora, da minha vida, eu certamente incluo os amigos de ontem e de hoje, e vocês, meus amigos daqui, do lado da minha mãe e do lado do meu pai, de minhas irmãs e meus irmãos e dos seus, o cêntuplo dado como foi prometido! E a ti também, meu amigo do último instante, que não sabias o que estavas fazendo. Sim, também para ti eu quero esse ‘obrigado’, e este ‘A-Deus’ cara a cara. E que possamos nos encontrar, ladrões felizes, no Paraíso, se for do agrado de Deus, o Pai de nós dois. Amém! Im Jallah!”.

Pe. José Artulino Besen

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O PAPA DA PAZ NO EGITO DA PAZ

Papa Francisco e o Papa Copto Tawados II

O grande Imam de Al Azhar, xeque Muhammad Ahmed al-Tayyeb, convocou a Conferência Internacional pela Paz, no Cairo. Como participantes, convidou os líderes das principais religiões do Oriente Médio: os Islamitas sunitas, cristãos católicos romanos, coptas ortodoxos, coptas católicos e luteranos. Há poucos anos, seria inimaginável que uma autoridade muçulmana promovesse uma conferência com cristãos e também que religiosos fossem convidados para um encontro internacional pela paz.

Mas, os acontecimentos históricos inspiram novos caminhos e, nesse caso, o único caminho possível: a paz. O terrorismo de matriz religiosa hoje se revela em toda a sua crueza e escândalo: como matar em nome de Deus e como querer a paz destruindo pessoas? Matar em nome de Deus é blasfêmia, e nada mais incoerente. Deste modo, está nas mãos dos religiosos, dos crentes, a chave da promoção da paz.

Papa Francisco foi convidado e aceitou estar presente e, mesmo nos recentes atentados contra igrejas no Egito, permaneceu firme e sentiu mais ainda necessária sua presença, sem medo, e rejeitando carros blindados.

Nos dias 28 e 29 de abril, Francisco esteve no Egito, e se encontrou com o Presidente Al Sisi, com  Al Tayyeb, maior autoridade do Islã sunita e reitor da Universidade Al Azhar, com Tawadros II, Papa dos cristãos coptas, Bartolomeu I,  Patriarca de Constantinopla, Ibrahim Isaac, Patriarca dos coptas católicos, Pastor luterano Olaf Tveit, secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas. Uma viagem apostólica sob o signo da unidade, amizade e respeito.

Sua 18ª. viagem internacional foi marcada por alto conteúdo pastoral (para a pequena comunidade católica egípcia), ecumênico (para os ortodoxos coptas e evangélicos), inter-religioso (para os muçulmanos) e também geopolítico (no coração de focos do terrorismo do Isis). Leia o resto deste post »

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PAPA FRANCISCO NOS 500 ANOS DA REFORMA

Francisco visita os luteranos na Suécia

Francisco visita os luteranos na Suécia

No dia 31 de outubro de 1517 Frei Martinho Lutero afixou suas 95 teses sobre as Indulgências na porta da igreja de Todos os Santos em Wittenberg. Foi o início não planejado da Reforma que levou à divisão da Igreja entre Católica e Luterana, levou às guerras religiosas, à fragmentação da Alemanha, à divisão da unidade européia que tinha como fundamento histórico a fé católica. Somente a Itália, Espanha e Portugal permaneceram católicos.

No dia 31 de outubro de 2016, o Papa Francisco e Igrejas luteranas celebrarão um Culto ecumênico pela passagem dos 500 anos do início da Reforma, com o tema da ação de graças, da penitência e do compromisso no testemunho comum. O objetivo é expressar os dons da Reforma e pedir perdão pela divisão perpetuada pelos cristãos das duas tradições. E, pela primeira vez, a celebração não será marcada pelos ataques teológicos, pela culpabilização, pela busca de quem estava/está certo ou errado. Afinal, quando se processa uma divisão entre irmãos na fé, com o ódio pelo outro, há culpa e acerto nos dois lados. Ecclesia semper reformanda é um mandamento que vale para o século XVI e o século XXI. Do mesmo modo que Francisco busca renovar a Igreja católica a partir da fidelidade ao Evangelho, os evangélicos também necessitam de uma renovação interior no confronto com as Sagradas Escrituras.

O encontro celebrativo dos 500 anos da Reforma será em Lund, cidade sueca onde em 1947 foi fundada a Federação Luterana Mundial, que hoje congrega 147 Igrejas protestantes.

Alguns dados biográficos do reformador alemão

Martinho Lutero (Martin Luther) nasceu em 1483 em Eisleben, de pais camponeses. Vencendo as limitações econômicas da família, entre 1501-1505 estudou na Universidade de Erfurt. Em 18 de julho de 1505, após muitas dúvidas e reflexões, entrou no Convento dos Eremitas Agostinianos de Erfurt, onde foi ordenado padre em 1507.

Em 1512, Lutero é superior do Convento Agostiniano de Wittenberg, doutor em teologia e em exegese bíblica, lecionando as Cartas paulinas aos Gálatas e ao Romanos.

Por uma formação religiosa deficiente, onde contava muito o peso e o medo da condenação eterna, Lutero sofria o pavor do inferno, e era escrupuloso. Alcançou a paz interior entre 1512-1513, na famosa Experiência da Torre (Turmerlebnis): após muita oração, Deus lhe permitiu descobrir que a salvação é dada ao homem somente pela fé em Cristo, como puro dom, e não como recompensa pelas obras: “O justo vive pela fé”  (Rm 1,17). Sentiu paz interior e nunca mais a perdeu, mesmo no ardor dos embates em que esteve envolvido.

Frei Martinho Lutero, um homem religioso

Martinho Lutero não era um monge corrupto, degenerado, psicopata, mentiroso, como durante séculos quis ensinar a apologética católica. Foi monge, viveu como monge e morreu casado; não foi anjo, nem demônio, mas testemunha de Cristo. O século XVI, século da Reforma, mostrou com clareza as deficiências da organização eclesiástica e, o que era mais grave, as deficiências na condução da espiritualidade e piedade cristãs.

Hoje, todos reconhecem em Lutero uma autêntica religiosidade. Teve uma experiência pessoal de Deus, um autêntico sentido do pecado e da própria nulidade, que vencia por uma entrega total a Cristo e uma confiança cega nele e em sua redenção. Possuía um sentido trágico da miséria humana, da qual deriva a escassa ou quase nula utilidade das muitas práticas religiosas. Grande apego à oração e uma imensa confiança na graça. A tudo isso, unia um grande amor pelos pobres.

Pela sua índole, pelos seus dotes de pregador, de chefe, de guia, pela vivíssima fantasia, rica em imagens, demonstrava estar convencido de ser enviado por Deus para anunciar uma experiência íntima e transformadora, único caminho de paz e salvação. Lutero tinha sido feito para inflamar as massas populares e convencer e agitar os ouvintes. O dom de comando, nele, se unia a uma irradiação interior e grande sensibilidade pelos outros.

Era dotado de caráter forte, unilateral, impulsivo, forte subjetivismo, com pouca disposição para aceitar mediadores entre Deus e os homens. Autêntica e profunda religiosidade, mas tendência ao autoritarismo e violência. Mesmo reconhecendo nele toda a seriedade religiosa, pode-se afirmar que faltou-lhe uma autêntica humildade, a capacidade de ouvir os outros, a Igreja.

O jesuíta alemão Ludwig Hertling, historiador da Igreja católica, reconhecendo a aventura espiritual de Lutero, afirma que por sua personalidade, força de comando, acentuou no caráter alemão algumas características que se impuseram nos séculos seguintes, até de modo trágico: a autossuficiência, arrogância, orgulho nacional, o sentido dos deveres cívicos.

É fácil e confortável apontar as deficiências de um homem, mas não se pode ignorar que Lutero foi um homem religioso, homem de oração. Sua vida não pode ser confundida com as turbulências da Reforma, onde o desejo de uma fé pura misturou-se com a ambição de príncipes ansiosos para tirar proveito das divisões e apossar-se dos bens da Igreja.

O papa João Paulo II [1], escreveu em 31 de outubro de 1983 : “Os esforços dos evangélicos e católicos que, em grande medida, coincidem nos resultados, permitiram delinear um quadro mais complexo e articulado da personalidade de Lutero e do complexo entrelaçamento das circunstâncias históricas, da sociedade, da vida política e da Igreja na primeira metade do século XVI. Resplandeceu evidente a profunda religiosidade de Lutero, com a sua problemática da salvação eterna vivida com ardente paixão”.

Os estudos do século XX revelaram com clareza a profunda religiosidade de Lutero, homem cujo impulso e paixão era a pergunta sobre a salvação eterna.

Tudo requer uma pesquisa sem preconceitos para se revelar uma imagem justa do reformador, e não somente dele, mas do período da Reforma e das pessoas nela envolvidas, reconhecendo a culpa de uma e de outra parte. Uma atitude de purificação através da verdade permite-nos encontrar uma comum interpretação do passado e, ao mesmo tempo, construir um novo ponto de partida para o diálogo hoje obtido pela clareza histórica.

O estudo dos escritos confessionais evangélico-luteranos encontram sua base sólida naquilo que nos une também depois da separação: a Palavra da Escritura, as Profissões de Fé e os Concílios da Igreja antiga.

João Paulo II, conclui: “Na humilde contemplação do Mistério da divina Providência e na devota escuta daquilo que o Espírito de Deus hoje nos ensina na recordação dos acontecimentos da época da Reforma, a Igreja tende a dilatar os limites de seu amor, para ir ao encontro da unidade de todos aqueles que, através do Batismo, carregam no nome de Jesus Cristo”.

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O drama de Martinho Lutero: como posso me salvar?

Lutero saiu da Igreja após séria luta e sem ter intenção de fazê-lo. Tornou-se reformador na luta contra uma interpretação do catolicismo que de fato era cheia de deficiências. Deixou a Igreja para descobrir aquilo que é o centro da própria Igreja: o primado da graça.

Por que houve a Reforma? Hoje podemos afirmar que ela foi provocada pelos católicos, pois Lutero era católico, monge sério e sincero, que nunca quis deixar de ser católico. Séculos de aversão a Roma, envolvida na política internacional, mergulhada no Humanismo renascentista, a decadência da própria vida católica alemã, com uma hierarquia não livre de máculas morais e corrupções (houve bispos que não celebraram três missas em longo episcopado!), mosteiros decadentes, fizeram com que boa parte da população alemã visse na pregação de Martinho Lutero o renascer do verdadeiro Cristianismo. Isso ajuda a entender porque tantos alemães, desde Carlos Magno fiéis e dóceis ao Papa, tenham aceitado romper a unidade católica.

Bento XVI analisou com empatia a questão central de Frei Lutero[2]: O que não lhe dava paz era a questão sobre Deus, que foi a paixão profunda e a mola mestra de sua vida e de seu caminho. “Como posso ter um Deus misericordioso?”: esta pergunta lhe penetrava no coração e estava por trás de toda sua pesquisa teológica e de toda a luta interior. Para Lutero, a teologia não era uma questão acadêmica, mas a luta interior consigo mesmo, na luta a respeito de Deus e com Deus. “Como posso ter um Deus misericordioso?”. Escreve Bento XVI: “que esta pergunta tenha sido a força motora de todo o seu caminho me toca sempre novamente o coração. De fato, quem hoje ainda se preocupa com isso, mesmo entre os cristãos? O que significa a questão sobre Deus em nossa vida?”.

 A pergunta “qual é a posição de Deus em relação a mim? Como eu me encontro diante de Deus?”, esta palpitante pergunta de Lutero deve novamente, e em forma nova, ser a nossa pergunta, não acadêmica, mas concreta.

O pensamento de Lutero, toda a sua espiritualidade era de todo cristocêntrica: “O que promove a causa de Cristo” era, para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura. Isto pressupõe que Cristo seja o centro de nossa espiritualidade e que o amor por ele, o viver junto com ele oriente a nossa vida.

A coisa mais necessária para o ecumenismo é, antes de tudo que, sob a pressão da secularização, inadvertidamente não percamos as
grandes coisas que temos em comum, que nos tornam cristãos. O erro da época confessional foi ter visto mais o que separa, e não ter percebido em modo existencial aquilo que temos em comum nas grandes diretrizes da Sagrada Escritura e nas Profissões de fé do cristianismo antigo.

Em sua passagem por Lund, casa mundial do Luteranismo, Francisco nos ensinará a levar adiante, com decisão, o caminho do ecumenismo, da busca da unidade na diversidade.

Pe. José Artulino Besen


[1] Mensagem de João Paulo II ao Cardeal J. Willebrands, Presidente do Secretariado para a unidade dos Cristãos, em 31 de outubro de 1983, por ocasião do 5o centenário de nascimento de Lutero.

[2] Discurso de Bento XVI no encontro com representantes da Igreja Evangélica na Alemanha, em 23 de setembro d 2011, na Sala do Capítulo do ex-Convento dos Agostinianos de Erfurt.

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SANTA TERESA DE CALCUTÁ

madre-teresa

Madre Teresa foi recebida pelos Papas diversas vezes e sua pessoa e vida tocaram-nos profundamente. Paulo VI recebeu-a três meses antes de morrer, em 6 de maio de 1978, e falou, olhando para ela: “É uma coincidência que Jesus ousa fazer, direi com surpreendente grandeza e bondade, de colocar-se no lugar do irmão menor e mais necessitado, mais sofrido e degradado, e dizer: “A mim o fizeste”. Essa “encarnação” mística de Jesus no pobre, no miserável, está verdadeiramente entre as coisas mais luminosas e mais instrutivas do Evangelho”.

E João Paulo II, na homilia de beatificação, em 19 de outubro de 2003: “Sou pessoalmente grato a esta mulher corajosa, que senti sempre ao meu lado. Ícone do Bom Samaritano, ela ia a toda a parte para servir Cristo nos mais pobres entre os pobres”.

Madre Teresa foi uma santa contracorrente, que em grande parte de sua vida experimentou a escuridão, as noites da fé. Por muitos anos não pode mais escutar a voz de Deus. É contracorrente sua defesa da família e da vida: “Hoje, o aborto é o maior destruidor da paz porque, se um mãe pode matar o próprio filho, não há mais nada que impede a mim de matar a ti, e a ti de matar a mim”, falou em 1979, ao receber o Nobel da Paz.

Na mesma ocasião revelou o amor pelos pobres que inclui o êxtase: “Os pobres são grandes pessoas. Podem ensinar-nos muitas coisas belas”. E assim explicou: “Todo ser humano é uma grande pessoa, mas, nos pobres há uma intensidade única, uma aura própria e específica. Neles, a necessidade de amor é visível e se pode tocar com as mãos. Eles nos ensinam que a realidade verdadeira, em cada coisa, é o amor. Eles nos recordam essa verdade. A presença deles é um pró-memória que faz bem à nossa humanidade”. “Quando conhecermos verdadeiramente os pequenos e os fracos, poderemos experimentar a esperança que sabem dar. Os pobres são nossa alegria” (Aos jovens, em Milão, 1973).

Madre Teresa pedia que não se julgassem as pessoas: “Se julgas as pessoas, não terás tempo para amá-las”.  Isso fazia com que encontrasse a bondade em cada pessoa e ao mesmo tempo a suscitava nela, quer fosse pecador, quer santo. O efeito era impressionante: a pessoa sentia-se amada.

Há 50 anos da aprovação pontifícia por Paulo VI em 1964, as Missionárias da Caridade de Madre Teresa passaram de algumas centenas a 5.300 religiosas em 758 fundações que ela gostava de denominar “tabernáculos de Jesus”, espalhadas em 123 países.  Seria um erro ler a história dessa mulher à luz da estatística dos “sucessos” numéricos. Ela pôs no centro de sua vida e de seu testemunho o amor incondicionado pelos pobres, pelos últimos.

Para poder enfrentar as necessidades de um apostolado sempre em aumento, fundou as Missionárias da Caridade, os Irmãos Missionários da Caridade, os dois ramos contemplativos (das Irmãs e dos Irmãos), e o ramo dos sacerdotes.

madre-teresa (2)Cristo foi o primeiro missionário da caridade: “o serviço que oferecemos é um trabalho humilde entre os pobres mais pobres. Não julgamos que seja uma perda de tempo gastar toda a nossa vida matando a fome dos famintos, dando uma casa aos pobres sem teto, vestindo os nus, assistindo os doentes, ensinando os ignorantes, amando quem não é amado, aceitando quem é rejeitado, porque Jesus disse: ‘A mim vós o fizestes’”.

Navin Chawla – intelectual hindu, biógrafo de Madre Teresa, afirmou que ela aprendeu a mendigar. Essa mais profunda humilhação a fortaleceu. Quando encontrava alguém pensava: “o que pode fazer por mim?”, ou seja, como pode ajudar os pobres através de minha obra? Não necessitava converter alguém porque a criança pobre abandonada pela estrada era Jesus. O leproso era Jesus. O moribundo era Jesus.  Não precisava converter alguém que já era Deus. (cfr. N. 22 da GS: “Com a encarnação, o Filho de Deus de certo modo se uniu a cada homem”).

Na Europa e na América, escreveu Madre Teresa, dedicamos o nosso trabalho aqueles que consideramos os mais pobres entre os pobres espiritualmente, e esses são aqueles que não são amados, não são queridos, não são assistidos, pessoas que ninguém ama: “A doença mais grave, hoje, não é a lepra ou a tuberculose, mas a solidão, o sentir-se ignorados, não amados, não desejados”. A solidão é a lepra do Ocidente.

Teresa de Calcutá – a santa da escuridão

Na história da espiritualidade cristã, Madre Teresa mergulha na tradição dos grandes santos e místicos, entre os quais citamos João da Cruz, Teresa d’Ávila, Elisabeth da Trindade, Edith Stein. Passou pela noite escura da fé, essa experiência de amor perfeito na qual o Amado se esconde, aumenta no amante o desejo de possuí-lo e sempre mais se esconde. Noite escura, sim, mas noite plena de claridade, porque vivida entre o Senhor e sua amada. A noite escura é o não sentir-se amado.

Através de alguns de seus escritos, hoje temos algum conhecimento dessa imensa e fascinante aventura de Madre Teresa. Deus dela se escondeu, para que fosse visto apenas numa pessoa: a do pobre. Seus olhos estão sempre abertos, procuram, mas não encontram o Senhor e sim, os pobres deste mundo. E ela está sempre sorrindo, pois no rosto do pobre contempla seu Amado, o Senhor.

Para que o leitor tenha uma pálida idéia do combate da fé vivido Madre Teresa de Calcutá, citamos alguns textos.

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

“Meu sorriso é um grande manto que cobre uma multidão de dores”, escreveu ao diretor espiritual.  O início de sua missão foi na “escuridão”, mediante as locuções interiores que teve no trem noturno que a conduzia a Darjeeling, em 10 de setembro de 1946. Todo o resto de sua existência – após seis meses de extraordinário confronto com Jesus – foi vivido por Teresa na completa escuridão espiritual, sem mais confortos espirituais, pelo contrário, com a constante sensação de viver na distância e na ausência de Deus. É como se, desde o início, ela tivesse tido que experimentar não só a pobreza material e a impotência dos marginalizados, mas também sua trágica desolação.

Escrevia a Dom Périer, em março de 1953, ao assumir a direção da Congregação das Missionárias: “Por favor, reze especialmente por mim, para que eu não arruíne o trabalho de Jesus, e Nosso Senhor se revele, porque há em mim uma terrível escuridão, como se tudo fosse morto desde que eu iniciei a obra. Peça a Nossa Senhora que me dê coragem”. Suas forças vinham de uma certeza: o trabalho pela Congregação das Missionárias da Caridade “não é feito por mim, mas por Jesus: estou mais certa disso do que de minha real existência”.

Em janeiro de 1955, escrevia ao arcebispo Périer de Cacutá: “Há em meu coração uma solidão tão profunda que não sei expressá-la”. Em dezembro do mesmo ano: “Tudo está gelado dentro de mim. É somente a fé cega que me transporta, porque, na verdade, para mim tudo é escuridão”. “Às vezes a agonia da desolação é tão grande e, ao mesmo tempo, é tão profundo o desejo do Ausente, que a única oração que ainda consigo fazer é: “Sagrado Coração de Jesus, eu confio em ti. Saciarei a tua sede de almas” (março de 1956).

Em abril de 1957: “Quero sorrir até para Jesus, de forma a esconder também a ele, se possível, a dor e a escuridão de minha alma”. Em janeiro de 1958: “O desejo vivo de Deus é terrivelmente doloroso e, contudo, a escuridão se torna sempre maior. Que contradição há em minha alma! É tão grande a dor interior, que nada sinto com toda a publicidade e o falar do povo”.

Por apenas um mês seu sofrimento teve alívio: foi em outubro de 1958, quando era celebrada na Catedral de Calcutá a missa em sufrágio de Pio XII: naquela ocasião, Madre Teresa, sufocada pelo sofrimento espiritual, pediu a Jesus um sinal de sua presença. Na carta de 17 de outubro narrou a Dom Périer que “então desapareceu aquela longa escuridão, aquele sentimento de perda, de solidão, daquela estranha e prolongada dor. Hoje a minha alma está cheia de amor, de alegria indizível, de uma ininterrupta união de amor”.

Mas, Jesus foi breve. Já em novembro escrevia que “Nosso Senhor pensou que era melhor para mim permanecer no túnel, e assim ele novamente se foi. Sou-lhe grata por aquele mês de amor que me concedeu”.

O tormento continuou até sua morte, por 39 anos, de modo a purificá-la sempre mais no seu amor por Deus e pelos irmãos. Passou a perceber melhor o significado dessa dolorosa experiência e a colocá-la em relação com sua vocação. Em novembro de 1958, disse a Dom Picachy que nunca soubera “que o amor pudesse fazer sofrer tanto, tanto pela ausência como pelo desejo”. No início de 1960 confidenciou ao Pe. Neuner: “Pela primeira vez, nestes onze anos, comecei a amar a escuridão. Porque agora creio que ela é uma parte, uma pequeníssima parte, da escuridão e da dor vivida por Jesus na terra”.

Sua pergunta era sempre a mesma: “Que proveito Deus tem comigo, enquanto vivo neste estado, sem fé, sem amor, sem nem mesmo um sentimento? Num outro dia houve um momento no qual quase rejeitei aceitar essa situação, e então tomei do Rosário e comecei a recitá-lo lentamente e com calma, sem nada meditar ou pensar. Assim passou aquele momento duro, mas a escuridão é verdadeiramente densa e a dor muito tormentosa. Em todo caso, aceito tudo o que ele me dá e dou-lhe tudo o que ele pega”.

Ficava perturbada diante da reação das pessoas que lhe estavam próximas. Em setembro de 1962, escreveu a Dom Picachy: “As pessoas dizem que se sentem jogadas rumo a Deus vendo minha sólida fé. Isso não significa enganar o povo? Mas, a cada vez que eu queria dizer a verdade – que eu não tinha fé – as palavras não saíam, minha boca permanecia fechada e continuava a sorrir a Deus e a todos”.

Apesar dos sofrimentos e da escuridão espiritual, Madre Teresa sempre tinha clara consciência de que a fé era o verdadeiro farol de sua vida. Era freqüente interromper uma frase para dizer: “Olha o que Deus está fazendo”, e “Admira a grandeza de Deus”.

Uma carta às Missionárias, de 31 de julho de 1962, num dos períodos mais dolorosos de sua experiência espiritual, manifesta a convicção que ela colocara em prática por toda a vida: “Cristo se servirá de ti para fazer grandes coisas com a condição de que tu creias mais no seu amor do que na tua fraqueza. Crê nele, tem fé nele com absoluta e cega confiança porque ele é Jesus, e somente ele é a vida; e que a santidade não é outra coisa que o próprio Jesus que vive intimamente em ti”.

O olhar e o sorriso de Madre Teresa: viveu buscando a Deus e sempre encontrando os pobres. Mas, em 5 de setembro de 1997, encontrou-se com seu Amado, para sempre.

madre-teresa-enrugadaSua vida e santidade foram aprovadas pela Igreja quando, em 19 de outubro de 2003, apenas seis anos após a morte, foi beatificada por São João Paulo II na Praça de São Pedro.  Era o Dia Mundial das Missões, e assim falou o Papa: “Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10, 45). Madre Teresa partilhou a paixão do Crucificado, de modo especial durante longos anos de “obscuridade interior”. Aquela foi a prova, por vezes lancinante, acolhida como um singular “dom e privilégio”.

Nos momentos mais difíceis ela recorria com mais tenacidade à oração diante do Santíssimo Sacramento. Esta difícil angústia espiritual levou-a a identificar-se cada vez mais com aqueles que servia todos os dias, experimentando o sofrimento e por vezes até a recusa. Gostava de repetir que a maior pobreza é não sermos desejados, não ter ninguém que se ocupe de nós.

“Dai-nos, Senhor, a Vossa graça, em Vós esperamos!”. Quantas vezes, como o Salmista, também Madre Teresa, nos momentos de desolação interior, repetiu ao seu Senhor: “Em Vós, meu Deus, em Vós espero!”.

E, no dia 4 de setembro de 2016, no Ano da Misericórdia, na Praça de São Pedro o papa Francisco a proclamou Santa Teresa de Calcutá, glorificando a aventura humana e espiritual de uma das mais fascinantes personalidades da Igreja do século XX, uma mulher pequeninha, frágil como uma borboleta, forte como um leão.

Pe. José Artulino Besen

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DE LAMPEDUSA A LESBOS, MERGULHO NO SOFRIMENTO

Jovem refugiada em Lesbos - 2016

Jovem refugiada em Lesbos – 2016

Em julho de 2013, Papa Francisco visitou Lampedusa, pequena ilha mediterrânea localizada abaixo da Sicília, sendo o ponto geográfico italiano mais próximo da África. Ali são despejados os migrantes norte-africanos, ali perto chegam os corpos de tantos refugiados cujo transporte naufragou. Lampedusa é um lugar-testemunho da violência e da miséria humanas provocadas pela história econômica de nossa época, colocando em confronto a África explorada e a opulenta Europa.

Francisco fez dessa sua primeira viagem fora de Roma o símbolo indicativo de sua preocupação pastoral. Tanto escolhia o pobre como centro da ação cristã como mostrava ao mundo a incoerência de esconder no silêncio o grito de centenas de milhares de homens, mulheres, jovens e crianças fugitivos da miséria e da guerra que sufocam a vida nos países da África e do Oriente médio.

No dia 16 de abril de 2016, mais uma viagem simbólica de Francisco: a Lesbos, ilha grega que, como Lampedusa, funciona como depósito de migrantes e cemitério de esperanças. Viagem breve, com estadia de cinco horas, mas carregada de simbolismo: fez-se acompanhar dos ortodoxos Bartolomeus, Patriarca de Constantinopla e Hieronymos, arcebispo de Atenas. Além do ecumenismo de sangue, fundou o ecumenismo da caridade cristã indo ao encontro dos sofredores do mundo, dentre eles um significativo número de muçulmanos. O sangue da violência do martírio se une ao sangue da pobreza gerada pelas guerras sem fim (a guerra mundial em pedaços, definiu) filhas dos poderosos interesses do comércio internacional de armas, cujos interesses não levam em conta o inenarrável sofrimento dos povos.

O Papa Francisco visitou o campo de refugiados de Mória, na ilha de Lesbos, que acolhe cerca de 2.500 pessoas, refugiados excluídos da rica Europa e ali depositados enquanto esperam a devolução aos países de onde fugiram, segundo determinação legal dos países da comunidade européia. O Papa foi recebido ao som dos gritos de ‘freedom, freedom’ (liberdade, liberdade).

“Quero dizer-vos que não estais sozinhos”, declarou, depois de ter passado vários minutos a cumprimentar refugiados, muitos deles menores, de países como a Síria, Iraque, Iro, Paquistão ou Afeganistão, entre eles muçulmanos, yazidis e cristãos.

Acompanhado por um intérprete, conversou com várias das famílias presentes e recebeu desenhos de crianças como presente, prometendo guardá-los em sua mesa de trabalho. Era de cortar o coração homens e mulheres narrando suas histórias trágicas e caindo aos prantos. Testemunhavam plasticamente a maior tragédia humana desde a segunda grande Guerra.

Francisco tinha consciência do que o aguardava: “Esta é uma viagem um pouco diferente das outras, é marcada pela tristeza”, confessou aos jornalistas que o acompanharam desde Roma, no voo que aterrou em Mitilene, capital de Lesbos. Falou de um “cemitério no mar”, onde muitas pessoas se afogaram: “Vamos ver tanta gente que sofre, que é obrigada a fugir e não sabe para onde ir”.

O Papa foi acolhido em Lesbos pelo arcebispo ortodoxo de Atenas, Hieronymos II, pelo patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeus I, e pelo primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras. Após a cerimônia oficial de boas-vindas, Francisco e Tsipras encontraram-se em privado, tendo o chefe do governo grego sublinhado o “peso” que a crise dos refugiados tem representado para o país. O Papa, por sua vez, explicou que a viagem visava “agradecer ao povo grego pela sua generosidade”, que tem sido oferecida “corajosamente”, mesmo em meio à crise econômica que vive, lembrando que a Grécia, estava oferecendo “exemplo de humanidade”.

Memória, oração e caridade

A visita humanitária e ecumênica a Lesbos, como foi definida pelo Vaticano, incluiu uma visita ao campo de refugiados de Mória e uma homenagem aos migrantes que morreram no mar, quando os três bispos lançaram ao mar coroas de louro, precedidas de oração de cada um, de que transcrevemos parte.

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Homenagem aos mortos no Mar Egeu.

FRANCISCO

Deus de misericórdia,
pedimo-vos por todos os homens, mulheres e crianças,
que morreram depois de ter deixado as suas terras
à procura duma vida melhor.

Embora muitos dos seus túmulos não tenham nome,
cada um é conhecido, amado e querido por Vós.
Que nunca sejam esquecidos por nós, mas possamos honrar
o seu sacrifício mais com as obras do que com as palavras.

Confiamo-vos todos aqueles que realizaram esta viagem,
suportando medos, incertezas e humilhações,
para chegar a um lugar seguro e esperançoso.

Como Vós não abandonastes o vosso Filho
quando foi levado para um lugar seguro por Maria e José,
assim agora mantende-vos perto destes vossos filhos e filhas
através da nossa ternura e proteção. (…).

Ajudai-nos a partilhar com eles as bênçãos
que recebemos das vossas mãos
e a reconhecer que juntos, como uma única família humana,
somos todos migrantes, viajantes de esperança rumo a Vós,
que sois a nossa verdadeira casa,
onde todas as lágrimas serão enxugadas,
onde estaremos na paz, seguros no vosso abraço
.

BARTOLOMEU I

Senhor de misericórdia, de compaixão e de toda consolação, te pedimos pelos nossos irmãos que vivem em situações difíceis e nos voltamos para a tua Bondade: nutre os recém-nascidos; instrui os jovens; aumenta as forças dos anciãos; infunde coragem nos fracos; reúne os que estão divididos; navega junto com os navegantes; viaja com os viajantes; defende as viúvas; protege os órfãos; liberta os prisioneiros; cura os enfermos.

Recorda-te, Senhor, dos que trabalham nas minas, estão exilados, exercem um trabalho pesado, todos aqueles que vivem todo tipo de aflição, de necessidade, de perigo; e de todos aqueles que imploram a tua amorosa bondade; de todos aqueles que nos amam e daqueles que nos odeiam; infunde em todos a tua infinita misericórdia, atendendo às suas invocações para obter salvação.

HIERONYMOS II

HOMENAGEM AOS MIGRANTES MORTOS NO MAR

HOMENAGEM AOS MIGRANTES MORTOS NO MAR

Ó Deus de todo espírito e de toda carne, que venceste a morte destruindo o poder do demônio, dando vida ao cosmo, às almas dos teus servos que partiram desta vida. Tu, Senhor, dá-lhes repouso num lugar de luz, num lugar de verdes pastagens, num lugar de descanso, do qual desapareceram a dor, a tristeza e o luto. Tu, nosso Deus bom e amoroso, perdoa todo pecado cometido por eles em pensamento, palavras e obras, pois não existe homem algum que possa viver sem pecar, porque somente Tu és sem pecado: a tua justiça e a tua lei é verdade.

Ao final da viagem, os líderes religiosos assinaram empenhativa DECLARAÇÃO CONJUNTA, reportando o drama da migração e o desafio que oferece às Igrejas e aos governos envolvidos, e que assim inicia:

Nós, Papa Francisco, Patriarca Ecumênico Bartolomeu e Arcebispo Hieronymos de Atenas e de toda a Grécia, reunimo-nos na Ilha grega de Lesbos para manifestar a nossa profunda preocupação pela situação trágica de numerosos refugiados, migrantes e requerentes asilo que têm chegado à Europa fugindo de situações de conflito e, em muitos casos, de ameaças diárias à sua sobrevivência. A opinião mundial não pode ignorar a crise humanitária colossal, criada pelo incremento de violência e conflitos armados, a perseguição e deslocamento de minorias religiosas e étnicas e o desenraizamento de famílias dos seus lares, violando a sua dignidade humana, os seus direitos humanos fundamentais e liberdades.

A tragédia da migração e deslocamento forçados afeta milhões de pessoas e é, fundamentalmente, uma crise da humanidade, clamando por uma resposta feita de solidariedade, compaixão, generosidade e um compromisso econômico imediato e prático. (…)

No momento da despedida, um emocionado Francisco expressou sua gratidão com essas palavras: A vós, eu digo obrigado, porque sois guardiões da humanidade, porque cuidais ternamente da carne de Cristo, que sofre no menor dos irmãos, faminto e forasteiro, que acolhestes (cf. Mt 25, 35).

No mesmo avião de retorno, o Papa levou consigo 12 pessoas de três famílias muçulmanas, que foram assumidas pelo Vaticano e acolhidas na Comunidade Santo Egídio. A velha Europa, pátria dos direitos humanos, é desafiada a acolher os pobres do mundo e a repartir do muito que recebeu desses mesmos povos deserdados da vida que chegam a suas fronteiras.

Pe. José Artulino Besen

 

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