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DOM PIERRE CLAVERIE E OS 18 MÁRTIRES DA ARGÉLIA

Dom Pierre Claverie e os 18 Mártires da Argélia

No dia 8 de dezembro de 2018 a Igreja celebrará o martírio de 19 cristãos e os declarará bem-aventurados. A grande liturgia acontecerá na basílica de Santa Cruz em Oran, donde era bispo Dom Pierre Claverie. Pela primeira vez uma beatificação acontecerá num país 99% muçulmano, um grupo de mártires que incluirá Dom Claverie, os 7 monges trapistas de Tibhirine, 6 religiosas e 5 religiosos.

Na década da 1990, a Argélia foi mergulhada numa guerra com motivação religiosa: um movimento armado de islamitas se levantou contra o regime vigente para instaurar uma república islâmica, uma teocracia.  São contados 150.000 assassinatos entre os islâmicos e numerosos cristãos entre bispo, padres, religiosos e religiosas, que eram estrangeiros e tinham recebido ordens de deixar o país. Eram estrangeiros, sim, mas estavam bem integrados no mundo argelino.

Eram religiosas consagradas ao atendimento dos mais pobres, crianças, doentes inválidos, um trabalho de amor e dedicação sem nada pedir do que poder amá-los.

Durante os anos da guerra civil na Argélia, “o sangue cristão e o sangue muçulmano se misturaram, fazendo crescer a fraternidade”. Tornou-se um só sangue o dos adoradores de Deus/Alá.

Os grupos terroristas islâmicos lançaram campanha contra os estrangeiros residentes no país, especialmente contra os de nacionalidade francesa, e os lugares cristãos foram um dos seus principais alvos.

A comunidade monástica trapista da Ordem cisterciense de estrita observância

Apesar disso, os monges trapistas do mosteiro de Tibhirine decidiram permanecer devido ao forte vínculo de afeto que tinham com a população local. Na madrugada do dia 27 março de 1996, terroristas do Grupo Islâmico Armado (GIA) assaltaram o mosteiro e sequestraram 7 dos 9 monges que havia naquele momento, todos de nacionalidade francesa.

As negociações para trocar os monges pelos prisioneiros do GIA não funcionaram e, em 21 de maio de 1996, os terroristas anunciaram que tinham-nos decapitado. Suas cabeças foram localizadas em 30 de maio, mas seus corpos nunca foram encontrados.

Como surgiram esses monges? No ano de 1938 um grupo de monges trapistas franceses fundou a comunidade monástica de Nossa Senhora do Monte Atlas, em Tibhirine, Argélia. Situados num país muçulmano ocupado pela França, sem permissão de realizar conversões, esses homens de Deus tinham como sentido de sua presença estar junto dos muçulmanos, acolhê-los, conversar, colocar em comum os dons. E praticar a oração comunitária, tanto na intimidade monástica como com os irmãos que invocavam Alá.

Tudo isso não encontra explicações aos olhos do mundo, e nem de muitos cristãos. O martírio dos missionários, porém, é um dom, é uma experiência concreta do projeto de amor que Deus tem pela humanidade. O sangue que penetrou a terra argelina dela fará brotarem flores de paz. O sangue dos missionários é esperança de paz para o mundo.

Dois anos antes, em abril de 1994, o Irmão Lucas, monge médico, escrevera a um amigo, também médico, em Lyon: “É através da pobreza, do fracasso e da morte que caminhamos ao encontro de Deus”. O sete mártires do Monte Atlas, tão antigos e tão modernos, estavam disponíveis para condividir até a morte todas as alegrias e dores, angústias e esperanças, e a doar inteiramente a vida a Deus e aos irmãos da Argélia.

Dom Pierre Claverie, bispo de Oran

Dom Pierre Claverie, bispo de Oran

Em 1º de agosto de 1996, coube a Dom Pierre Claverie, bispo de Oran, também na Argélia, sofrer o martírio. Após celebrar missa pelos monges martirizados retornava à sua residência, no carro conduzido pelo motorista muçulmano Mohammed, quando uma bomba colocada na garagem explodiu, estraçalhando a tal ponto os dois corpos que tornou impossível distinguir-lhes o sangue. Entusiasta do diálogo cristão-muçulmano, Dom Pierre fecundou o amado solo argelino com sangue cristão e muçulmano, na demonstração de que o amor é forte, mais forte que a morte, que discussões religiosas.

As missões da Igreja obedecem à palavra do Senhor: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). O Evangelho, como tão evidente era para Paulo, não é uma doutrina, uma estrutura, concentrações, organizações: o Evangelho é uma pessoa, Jesus. Jesus que nos trouxe a Boa Notícia de que seu Pai é nosso Pai, e é Pai dos humildes, dos doentes, dos pecadores, dos perseguidos e perseguidores. Jesus é o narrador do Pai, o missionário é outro Jesus narrando o Pai. Aqueles missionários frágeis e fragilizados pelo ambiente eram a narração viva do Evangelho para os muçulmanos: “Querem conhecer aquele em quem nós cremos? Olhem nossa vida!”. A um repórter que perguntou aos cristãos argelinos a razão de sua missão, foi respondido: somos simplesmente cristãos.

Jesus, o pobre da Galileia, não pode ser anunciado coerentemente com meios ricos. Sua vida que narra o Pai somente é compreendida através dos meios pobres que são marcados pela cruz: a dor, o joelho dobrado em adoração, o silêncio, a oração, a contemplação, o jejum, a obediência, o sofrimento. Não permitem medições estatísticas, não dão manchetes, são marcados pelo silêncio humilde; são os meios preferidos de Deus, são os meios que tocam o coração de Deus (cf. J. Maritain, Filosofia da História, 1957).

Há sete séculos, afirmava Santo Tomás de Aquino: “O fruto da vida ativa é proporcional à plenitude da vida contemplativa”. Em outras palavras: sem a retaguarda da oração, a mais pobre dos meios pobres, a ação pastoral e evangelizadora nos deixará felizes, com a sensação do dever cumprido, mas não implantará no mundo o Reino de Deus.

Se a missão da Igreja se apoiar nos meios ricos da persuasão, da palavra bem falada, da autoridade impositiva, como já foi em outros tempos, causará impressão, será motivo de congratulações aos olhos do mundo, mas estará ocultando o Pobre de Nazaré, estará ocultando o Pobre Deus. Será inútil.

Talvez o Senhor não nos tenha concedido a graça da missão, do testemunho em terras distantes, mas nos dá sempre uma graça imensa: viver o Evangelho, ser Jesus em meio aos estrangeiros, revelar a face do Pai aos que nos cercam, aceitar a violência do desprezo, do ódio, da concorrência do sucesso.

Testamento do Irmão Christian de Chergé

Irmão Christian de Chergé

Como cristãos e cidadãos, viver a missão da paz e da reconciliação. Retornando ao Mosteiro do Monte Atlas, uma palavra escrita pelo Irmão Lucas às vésperas do sequestro: “Não penso que a violência possa extirpar a violência. Não podemos existir como homens a não ser aceitando fazer-nos imagem do amor como foi manifestado no Cristo que, justo, quis sofrer a sorte do injusto. A morte injusta de Cristo rompe a espiral infernal do ódio e dá vida a uma nova humanidade, animada pelo sopro do Espírito”.

São páginas de intensa vida mística o Testamento espiritual do Irmão Christian de Chergé, prior do mosteiro de Tibhirine, escrito em dois momentos:  em Argel, no dia 1º de dezembro de 1993, e em Tibhirine, no dia 1º de janeiro de 1994. Transcrevemos dois momentos: a aceitação do martírio e a oração por aquele que lhe provocasse a morte, a quem chama “amigo do último instante”.

Se algum dia me acontecesse – e isso poderia acontecer hoje – ser vítima do terrorismo que parece querer abarcar agora todos os estrangeiros que vivem na Argélia, eu gostaria que a minha comunidade, a minha Igreja, a minha família, se lembrassem de que a minha vida estava ENTREGUE a Deus e a este país. Que eles soubessem que o Único Mestre de toda a vida não me abandonaria nesta brutal partida. (…)

“Como posso ser digno dessa oferenda? Eu desejaria, ao chegar esse momento da morte, ter um instante de lucidez tal, que me permitisse pedir o perdão de Deus e o dos meus irmãos os homens, e perdoar eu, ao mesmo tempo, de todo o coração, aos que me tiverem ferido.”…

Por essa minha vida perdida, totalmente minha e totalmente dele, dou graças a Deus que parece tê-la querido inteiramente para a alegria, apesar de tudo. Neste ‘obrigado’, em que tudo está dito, agora, da minha vida, eu certamente incluo os amigos de ontem e de hoje, e vocês, meus amigos daqui, do lado da minha mãe e do lado do meu pai, de minhas irmãs e meus irmãos e dos seus, o cêntuplo dado como foi prometido! E a ti também, meu amigo do último instante, que não sabias o que estavas fazendo. Sim, também para ti eu quero esse ‘obrigado’, e este ‘A-Deus’ cara a cara. E que possamos nos encontrar, ladrões felizes, no Paraíso, se for do agrado de Deus, o Pai de nós dois. Amém! Im Jallah!”.

Pe. José Artulino Besen

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O PAPA DA PAZ NO EGITO DA PAZ

Papa Francisco e o Papa Copto Tawados II

O grande Imam de Al Azhar, xeque Muhammad Ahmed al-Tayyeb, convocou a Conferência Internacional pela Paz, no Cairo. Como participantes, convidou os líderes das principais religiões do Oriente Médio: os Islamitas sunitas, cristãos católicos romanos, coptas ortodoxos, coptas católicos e luteranos. Há poucos anos, seria inimaginável que uma autoridade muçulmana promovesse uma conferência com cristãos e também que religiosos fossem convidados para um encontro internacional pela paz.

Mas, os acontecimentos históricos inspiram novos caminhos e, nesse caso, o único caminho possível: a paz. O terrorismo de matriz religiosa hoje se revela em toda a sua crueza e escândalo: como matar em nome de Deus e como querer a paz destruindo pessoas? Matar em nome de Deus é blasfêmia, e nada mais incoerente. Deste modo, está nas mãos dos religiosos, dos crentes, a chave da promoção da paz.

Papa Francisco foi convidado e aceitou estar presente e, mesmo nos recentes atentados contra igrejas no Egito, permaneceu firme e sentiu mais ainda necessária sua presença, sem medo, e rejeitando carros blindados.

Nos dias 28 e 29 de abril, Francisco esteve no Egito, e se encontrou com o Presidente Al Sisi, com  Al Tayyeb, maior autoridade do Islã sunita e reitor da Universidade Al Azhar, com Tawadros II, Papa dos cristãos coptas, Bartolomeu I,  Patriarca de Constantinopla, Ibrahim Isaac, Patriarca dos coptas católicos, Pastor luterano Olaf Tveit, secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas. Uma viagem apostólica sob o signo da unidade, amizade e respeito.

Sua 18ª. viagem internacional foi marcada por alto conteúdo pastoral (para a pequena comunidade católica egípcia), ecumênico (para os ortodoxos coptas e evangélicos), inter-religioso (para os muçulmanos) e também geopolítico (no coração de focos do terrorismo do Isis). Leia o resto deste post »

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PAPA FRANCISCO NOS 500 ANOS DA REFORMA

Francisco visita os luteranos na Suécia

Francisco visita os luteranos na Suécia

No dia 31 de outubro de 1517 Frei Martinho Lutero afixou suas 95 teses sobre as Indulgências na porta da igreja de Todos os Santos em Wittenberg. Foi o início não planejado da Reforma que levou à divisão da Igreja entre Católica e Luterana, levou às guerras religiosas, à fragmentação da Alemanha, à divisão da unidade européia que tinha como fundamento histórico a fé católica. Somente a Itália, Espanha e Portugal permaneceram católicos.

No dia 31 de outubro de 2016, o Papa Francisco e Igrejas luteranas celebrarão um Culto ecumênico pela passagem dos 500 anos do início da Reforma, com o tema da ação de graças, da penitência e do compromisso no testemunho comum. O objetivo é expressar os dons da Reforma e pedir perdão pela divisão perpetuada pelos cristãos das duas tradições. E, pela primeira vez, a celebração não será marcada pelos ataques teológicos, pela culpabilização, pela busca de quem estava/está certo ou errado. Afinal, quando se processa uma divisão entre irmãos na fé, com o ódio pelo outro, há culpa e acerto nos dois lados. Ecclesia semper reformanda é um mandamento que vale para o século XVI e o século XXI. Do mesmo modo que Francisco busca renovar a Igreja católica a partir da fidelidade ao Evangelho, os evangélicos também necessitam de uma renovação interior no confronto com as Sagradas Escrituras.

O encontro celebrativo dos 500 anos da Reforma será em Lund, cidade sueca onde em 1947 foi fundada a Federação Luterana Mundial, que hoje congrega 147 Igrejas protestantes.

Alguns dados biográficos do reformador alemão

Martinho Lutero (Martin Luther) nasceu em 1483 em Eisleben, de pais camponeses. Vencendo as limitações econômicas da família, entre 1501-1505 estudou na Universidade de Erfurt. Em 18 de julho de 1505, após muitas dúvidas e reflexões, entrou no Convento dos Eremitas Agostinianos de Erfurt, onde foi ordenado padre em 1507.

Em 1512, Lutero é superior do Convento Agostiniano de Wittenberg, doutor em teologia e em exegese bíblica, lecionando as Cartas paulinas aos Gálatas e ao Romanos.

Por uma formação religiosa deficiente, onde contava muito o peso e o medo da condenação eterna, Lutero sofria o pavor do inferno, e era escrupuloso. Alcançou a paz interior entre 1512-1513, na famosa Experiência da Torre (Turmerlebnis): após muita oração, Deus lhe permitiu descobrir que a salvação é dada ao homem somente pela fé em Cristo, como puro dom, e não como recompensa pelas obras: “O justo vive pela fé”  (Rm 1,17). Sentiu paz interior e nunca mais a perdeu, mesmo no ardor dos embates em que esteve envolvido.

Frei Martinho Lutero, um homem religioso

Martinho Lutero não era um monge corrupto, degenerado, psicopata, mentiroso, como durante séculos quis ensinar a apologética católica. Foi monge, viveu como monge e morreu casado; não foi anjo, nem demônio, mas testemunha de Cristo. O século XVI, século da Reforma, mostrou com clareza as deficiências da organização eclesiástica e, o que era mais grave, as deficiências na condução da espiritualidade e piedade cristãs.

Hoje, todos reconhecem em Lutero uma autêntica religiosidade. Teve uma experiência pessoal de Deus, um autêntico sentido do pecado e da própria nulidade, que vencia por uma entrega total a Cristo e uma confiança cega nele e em sua redenção. Possuía um sentido trágico da miséria humana, da qual deriva a escassa ou quase nula utilidade das muitas práticas religiosas. Grande apego à oração e uma imensa confiança na graça. A tudo isso, unia um grande amor pelos pobres.

Pela sua índole, pelos seus dotes de pregador, de chefe, de guia, pela vivíssima fantasia, rica em imagens, demonstrava estar convencido de ser enviado por Deus para anunciar uma experiência íntima e transformadora, único caminho de paz e salvação. Lutero tinha sido feito para inflamar as massas populares e convencer e agitar os ouvintes. O dom de comando, nele, se unia a uma irradiação interior e grande sensibilidade pelos outros.

Era dotado de caráter forte, unilateral, impulsivo, forte subjetivismo, com pouca disposição para aceitar mediadores entre Deus e os homens. Autêntica e profunda religiosidade, mas tendência ao autoritarismo e violência. Mesmo reconhecendo nele toda a seriedade religiosa, pode-se afirmar que faltou-lhe uma autêntica humildade, a capacidade de ouvir os outros, a Igreja.

O jesuíta alemão Ludwig Hertling, historiador da Igreja católica, reconhecendo a aventura espiritual de Lutero, afirma que por sua personalidade, força de comando, acentuou no caráter alemão algumas características que se impuseram nos séculos seguintes, até de modo trágico: a autossuficiência, arrogância, orgulho nacional, o sentido dos deveres cívicos.

É fácil e confortável apontar as deficiências de um homem, mas não se pode ignorar que Lutero foi um homem religioso, homem de oração. Sua vida não pode ser confundida com as turbulências da Reforma, onde o desejo de uma fé pura misturou-se com a ambição de príncipes ansiosos para tirar proveito das divisões e apossar-se dos bens da Igreja.

O papa João Paulo II [1], escreveu em 31 de outubro de 1983 : “Os esforços dos evangélicos e católicos que, em grande medida, coincidem nos resultados, permitiram delinear um quadro mais complexo e articulado da personalidade de Lutero e do complexo entrelaçamento das circunstâncias históricas, da sociedade, da vida política e da Igreja na primeira metade do século XVI. Resplandeceu evidente a profunda religiosidade de Lutero, com a sua problemática da salvação eterna vivida com ardente paixão”.

Os estudos do século XX revelaram com clareza a profunda religiosidade de Lutero, homem cujo impulso e paixão era a pergunta sobre a salvação eterna.

Tudo requer uma pesquisa sem preconceitos para se revelar uma imagem justa do reformador, e não somente dele, mas do período da Reforma e das pessoas nela envolvidas, reconhecendo a culpa de uma e de outra parte. Uma atitude de purificação através da verdade permite-nos encontrar uma comum interpretação do passado e, ao mesmo tempo, construir um novo ponto de partida para o diálogo hoje obtido pela clareza histórica.

O estudo dos escritos confessionais evangélico-luteranos encontram sua base sólida naquilo que nos une também depois da separação: a Palavra da Escritura, as Profissões de Fé e os Concílios da Igreja antiga.

João Paulo II, conclui: “Na humilde contemplação do Mistério da divina Providência e na devota escuta daquilo que o Espírito de Deus hoje nos ensina na recordação dos acontecimentos da época da Reforma, a Igreja tende a dilatar os limites de seu amor, para ir ao encontro da unidade de todos aqueles que, através do Batismo, carregam no nome de Jesus Cristo”.

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O drama de Martinho Lutero: como posso me salvar?

Lutero saiu da Igreja após séria luta e sem ter intenção de fazê-lo. Tornou-se reformador na luta contra uma interpretação do catolicismo que de fato era cheia de deficiências. Deixou a Igreja para descobrir aquilo que é o centro da própria Igreja: o primado da graça.

Por que houve a Reforma? Hoje podemos afirmar que ela foi provocada pelos católicos, pois Lutero era católico, monge sério e sincero, que nunca quis deixar de ser católico. Séculos de aversão a Roma, envolvida na política internacional, mergulhada no Humanismo renascentista, a decadência da própria vida católica alemã, com uma hierarquia não livre de máculas morais e corrupções (houve bispos que não celebraram três missas em longo episcopado!), mosteiros decadentes, fizeram com que boa parte da população alemã visse na pregação de Martinho Lutero o renascer do verdadeiro Cristianismo. Isso ajuda a entender porque tantos alemães, desde Carlos Magno fiéis e dóceis ao Papa, tenham aceitado romper a unidade católica.

Bento XVI analisou com empatia a questão central de Frei Lutero[2]: O que não lhe dava paz era a questão sobre Deus, que foi a paixão profunda e a mola mestra de sua vida e de seu caminho. “Como posso ter um Deus misericordioso?”: esta pergunta lhe penetrava no coração e estava por trás de toda sua pesquisa teológica e de toda a luta interior. Para Lutero, a teologia não era uma questão acadêmica, mas a luta interior consigo mesmo, na luta a respeito de Deus e com Deus. “Como posso ter um Deus misericordioso?”. Escreve Bento XVI: “que esta pergunta tenha sido a força motora de todo o seu caminho me toca sempre novamente o coração. De fato, quem hoje ainda se preocupa com isso, mesmo entre os cristãos? O que significa a questão sobre Deus em nossa vida?”.

 A pergunta “qual é a posição de Deus em relação a mim? Como eu me encontro diante de Deus?”, esta palpitante pergunta de Lutero deve novamente, e em forma nova, ser a nossa pergunta, não acadêmica, mas concreta.

O pensamento de Lutero, toda a sua espiritualidade era de todo cristocêntrica: “O que promove a causa de Cristo” era, para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura. Isto pressupõe que Cristo seja o centro de nossa espiritualidade e que o amor por ele, o viver junto com ele oriente a nossa vida.

A coisa mais necessária para o ecumenismo é, antes de tudo que, sob a pressão da secularização, inadvertidamente não percamos as
grandes coisas que temos em comum, que nos tornam cristãos. O erro da época confessional foi ter visto mais o que separa, e não ter percebido em modo existencial aquilo que temos em comum nas grandes diretrizes da Sagrada Escritura e nas Profissões de fé do cristianismo antigo.

Em sua passagem por Lund, casa mundial do Luteranismo, Francisco nos ensinará a levar adiante, com decisão, o caminho do ecumenismo, da busca da unidade na diversidade.

Pe. José Artulino Besen


[1] Mensagem de João Paulo II ao Cardeal J. Willebrands, Presidente do Secretariado para a unidade dos Cristãos, em 31 de outubro de 1983, por ocasião do 5o centenário de nascimento de Lutero.

[2] Discurso de Bento XVI no encontro com representantes da Igreja Evangélica na Alemanha, em 23 de setembro d 2011, na Sala do Capítulo do ex-Convento dos Agostinianos de Erfurt.

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SANTA TERESA DE CALCUTÁ

madre-teresa

Madre Teresa foi recebida pelos Papas diversas vezes e sua pessoa e vida tocaram-nos profundamente. Paulo VI recebeu-a três meses antes de morrer, em 6 de maio de 1978, e falou, olhando para ela: “É uma coincidência que Jesus ousa fazer, direi com surpreendente grandeza e bondade, de colocar-se no lugar do irmão menor e mais necessitado, mais sofrido e degradado, e dizer: “A mim o fizeste”. Essa “encarnação” mística de Jesus no pobre, no miserável, está verdadeiramente entre as coisas mais luminosas e mais instrutivas do Evangelho”.

E João Paulo II, na homilia de beatificação, em 19 de outubro de 2003: “Sou pessoalmente grato a esta mulher corajosa, que senti sempre ao meu lado. Ícone do Bom Samaritano, ela ia a toda a parte para servir Cristo nos mais pobres entre os pobres”.

Madre Teresa foi uma santa contracorrente, que em grande parte de sua vida experimentou a escuridão, as noites da fé. Por muitos anos não pode mais escutar a voz de Deus. É contracorrente sua defesa da família e da vida: “Hoje, o aborto é o maior destruidor da paz porque, se um mãe pode matar o próprio filho, não há mais nada que impede a mim de matar a ti, e a ti de matar a mim”, falou em 1979, ao receber o Nobel da Paz.

Na mesma ocasião revelou o amor pelos pobres que inclui o êxtase: “Os pobres são grandes pessoas. Podem ensinar-nos muitas coisas belas”. E assim explicou: “Todo ser humano é uma grande pessoa, mas, nos pobres há uma intensidade única, uma aura própria e específica. Neles, a necessidade de amor é visível e se pode tocar com as mãos. Eles nos ensinam que a realidade verdadeira, em cada coisa, é o amor. Eles nos recordam essa verdade. A presença deles é um pró-memória que faz bem à nossa humanidade”. “Quando conhecermos verdadeiramente os pequenos e os fracos, poderemos experimentar a esperança que sabem dar. Os pobres são nossa alegria” (Aos jovens, em Milão, 1973).

Madre Teresa pedia que não se julgassem as pessoas: “Se julgas as pessoas, não terás tempo para amá-las”.  Isso fazia com que encontrasse a bondade em cada pessoa e ao mesmo tempo a suscitava nela, quer fosse pecador, quer santo. O efeito era impressionante: a pessoa sentia-se amada.

Há 50 anos da aprovação pontifícia por Paulo VI em 1964, as Missionárias da Caridade de Madre Teresa passaram de algumas centenas a 5.300 religiosas em 758 fundações que ela gostava de denominar “tabernáculos de Jesus”, espalhadas em 123 países.  Seria um erro ler a história dessa mulher à luz da estatística dos “sucessos” numéricos. Ela pôs no centro de sua vida e de seu testemunho o amor incondicionado pelos pobres, pelos últimos.

Para poder enfrentar as necessidades de um apostolado sempre em aumento, fundou as Missionárias da Caridade, os Irmãos Missionários da Caridade, os dois ramos contemplativos (das Irmãs e dos Irmãos), e o ramo dos sacerdotes.

madre-teresa (2)Cristo foi o primeiro missionário da caridade: “o serviço que oferecemos é um trabalho humilde entre os pobres mais pobres. Não julgamos que seja uma perda de tempo gastar toda a nossa vida matando a fome dos famintos, dando uma casa aos pobres sem teto, vestindo os nus, assistindo os doentes, ensinando os ignorantes, amando quem não é amado, aceitando quem é rejeitado, porque Jesus disse: ‘A mim vós o fizestes’”.

Navin Chawla – intelectual hindu, biógrafo de Madre Teresa, afirmou que ela aprendeu a mendigar. Essa mais profunda humilhação a fortaleceu. Quando encontrava alguém pensava: “o que pode fazer por mim?”, ou seja, como pode ajudar os pobres através de minha obra? Não necessitava converter alguém porque a criança pobre abandonada pela estrada era Jesus. O leproso era Jesus. O moribundo era Jesus.  Não precisava converter alguém que já era Deus. (cfr. N. 22 da GS: “Com a encarnação, o Filho de Deus de certo modo se uniu a cada homem”).

Na Europa e na América, escreveu Madre Teresa, dedicamos o nosso trabalho aqueles que consideramos os mais pobres entre os pobres espiritualmente, e esses são aqueles que não são amados, não são queridos, não são assistidos, pessoas que ninguém ama: “A doença mais grave, hoje, não é a lepra ou a tuberculose, mas a solidão, o sentir-se ignorados, não amados, não desejados”. A solidão é a lepra do Ocidente.

Teresa de Calcutá – a santa da escuridão

Na história da espiritualidade cristã, Madre Teresa mergulha na tradição dos grandes santos e místicos, entre os quais citamos João da Cruz, Teresa d’Ávila, Elisabeth da Trindade, Edith Stein. Passou pela noite escura da fé, essa experiência de amor perfeito na qual o Amado se esconde, aumenta no amante o desejo de possuí-lo e sempre mais se esconde. Noite escura, sim, mas noite plena de claridade, porque vivida entre o Senhor e sua amada. A noite escura é o não sentir-se amado.

Através de alguns de seus escritos, hoje temos algum conhecimento dessa imensa e fascinante aventura de Madre Teresa. Deus dela se escondeu, para que fosse visto apenas numa pessoa: a do pobre. Seus olhos estão sempre abertos, procuram, mas não encontram o Senhor e sim, os pobres deste mundo. E ela está sempre sorrindo, pois no rosto do pobre contempla seu Amado, o Senhor.

Para que o leitor tenha uma pálida idéia do combate da fé vivido Madre Teresa de Calcutá, citamos alguns textos.

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

“Meu sorriso é um grande manto que cobre uma multidão de dores”, escreveu ao diretor espiritual.  O início de sua missão foi na “escuridão”, mediante as locuções interiores que teve no trem noturno que a conduzia a Darjeeling, em 10 de setembro de 1946. Todo o resto de sua existência – após seis meses de extraordinário confronto com Jesus – foi vivido por Teresa na completa escuridão espiritual, sem mais confortos espirituais, pelo contrário, com a constante sensação de viver na distância e na ausência de Deus. É como se, desde o início, ela tivesse tido que experimentar não só a pobreza material e a impotência dos marginalizados, mas também sua trágica desolação.

Escrevia a Dom Périer, em março de 1953, ao assumir a direção da Congregação das Missionárias: “Por favor, reze especialmente por mim, para que eu não arruíne o trabalho de Jesus, e Nosso Senhor se revele, porque há em mim uma terrível escuridão, como se tudo fosse morto desde que eu iniciei a obra. Peça a Nossa Senhora que me dê coragem”. Suas forças vinham de uma certeza: o trabalho pela Congregação das Missionárias da Caridade “não é feito por mim, mas por Jesus: estou mais certa disso do que de minha real existência”.

Em janeiro de 1955, escrevia ao arcebispo Périer de Cacutá: “Há em meu coração uma solidão tão profunda que não sei expressá-la”. Em dezembro do mesmo ano: “Tudo está gelado dentro de mim. É somente a fé cega que me transporta, porque, na verdade, para mim tudo é escuridão”. “Às vezes a agonia da desolação é tão grande e, ao mesmo tempo, é tão profundo o desejo do Ausente, que a única oração que ainda consigo fazer é: “Sagrado Coração de Jesus, eu confio em ti. Saciarei a tua sede de almas” (março de 1956).

Em abril de 1957: “Quero sorrir até para Jesus, de forma a esconder também a ele, se possível, a dor e a escuridão de minha alma”. Em janeiro de 1958: “O desejo vivo de Deus é terrivelmente doloroso e, contudo, a escuridão se torna sempre maior. Que contradição há em minha alma! É tão grande a dor interior, que nada sinto com toda a publicidade e o falar do povo”.

Por apenas um mês seu sofrimento teve alívio: foi em outubro de 1958, quando era celebrada na Catedral de Calcutá a missa em sufrágio de Pio XII: naquela ocasião, Madre Teresa, sufocada pelo sofrimento espiritual, pediu a Jesus um sinal de sua presença. Na carta de 17 de outubro narrou a Dom Périer que “então desapareceu aquela longa escuridão, aquele sentimento de perda, de solidão, daquela estranha e prolongada dor. Hoje a minha alma está cheia de amor, de alegria indizível, de uma ininterrupta união de amor”.

Mas, Jesus foi breve. Já em novembro escrevia que “Nosso Senhor pensou que era melhor para mim permanecer no túnel, e assim ele novamente se foi. Sou-lhe grata por aquele mês de amor que me concedeu”.

O tormento continuou até sua morte, por 39 anos, de modo a purificá-la sempre mais no seu amor por Deus e pelos irmãos. Passou a perceber melhor o significado dessa dolorosa experiência e a colocá-la em relação com sua vocação. Em novembro de 1958, disse a Dom Picachy que nunca soubera “que o amor pudesse fazer sofrer tanto, tanto pela ausência como pelo desejo”. No início de 1960 confidenciou ao Pe. Neuner: “Pela primeira vez, nestes onze anos, comecei a amar a escuridão. Porque agora creio que ela é uma parte, uma pequeníssima parte, da escuridão e da dor vivida por Jesus na terra”.

Sua pergunta era sempre a mesma: “Que proveito Deus tem comigo, enquanto vivo neste estado, sem fé, sem amor, sem nem mesmo um sentimento? Num outro dia houve um momento no qual quase rejeitei aceitar essa situação, e então tomei do Rosário e comecei a recitá-lo lentamente e com calma, sem nada meditar ou pensar. Assim passou aquele momento duro, mas a escuridão é verdadeiramente densa e a dor muito tormentosa. Em todo caso, aceito tudo o que ele me dá e dou-lhe tudo o que ele pega”.

Ficava perturbada diante da reação das pessoas que lhe estavam próximas. Em setembro de 1962, escreveu a Dom Picachy: “As pessoas dizem que se sentem jogadas rumo a Deus vendo minha sólida fé. Isso não significa enganar o povo? Mas, a cada vez que eu queria dizer a verdade – que eu não tinha fé – as palavras não saíam, minha boca permanecia fechada e continuava a sorrir a Deus e a todos”.

Apesar dos sofrimentos e da escuridão espiritual, Madre Teresa sempre tinha clara consciência de que a fé era o verdadeiro farol de sua vida. Era freqüente interromper uma frase para dizer: “Olha o que Deus está fazendo”, e “Admira a grandeza de Deus”.

Uma carta às Missionárias, de 31 de julho de 1962, num dos períodos mais dolorosos de sua experiência espiritual, manifesta a convicção que ela colocara em prática por toda a vida: “Cristo se servirá de ti para fazer grandes coisas com a condição de que tu creias mais no seu amor do que na tua fraqueza. Crê nele, tem fé nele com absoluta e cega confiança porque ele é Jesus, e somente ele é a vida; e que a santidade não é outra coisa que o próprio Jesus que vive intimamente em ti”.

O olhar e o sorriso de Madre Teresa: viveu buscando a Deus e sempre encontrando os pobres. Mas, em 5 de setembro de 1997, encontrou-se com seu Amado, para sempre.

madre-teresa-enrugadaSua vida e santidade foram aprovadas pela Igreja quando, em 19 de outubro de 2003, apenas seis anos após a morte, foi beatificada por São João Paulo II na Praça de São Pedro.  Era o Dia Mundial das Missões, e assim falou o Papa: “Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10, 45). Madre Teresa partilhou a paixão do Crucificado, de modo especial durante longos anos de “obscuridade interior”. Aquela foi a prova, por vezes lancinante, acolhida como um singular “dom e privilégio”.

Nos momentos mais difíceis ela recorria com mais tenacidade à oração diante do Santíssimo Sacramento. Esta difícil angústia espiritual levou-a a identificar-se cada vez mais com aqueles que servia todos os dias, experimentando o sofrimento e por vezes até a recusa. Gostava de repetir que a maior pobreza é não sermos desejados, não ter ninguém que se ocupe de nós.

“Dai-nos, Senhor, a Vossa graça, em Vós esperamos!”. Quantas vezes, como o Salmista, também Madre Teresa, nos momentos de desolação interior, repetiu ao seu Senhor: “Em Vós, meu Deus, em Vós espero!”.

E, no dia 4 de setembro de 2016, no Ano da Misericórdia, na Praça de São Pedro o papa Francisco a proclamou Santa Teresa de Calcutá, glorificando a aventura humana e espiritual de uma das mais fascinantes personalidades da Igreja do século XX, uma mulher pequeninha, frágil como uma borboleta, forte como um leão.

Pe. José Artulino Besen

 Pode ler, nesse blog:

 

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DE LAMPEDUSA A LESBOS, MERGULHO NO SOFRIMENTO

Jovem refugiada em Lesbos - 2016

Jovem refugiada em Lesbos – 2016

Em julho de 2013, Papa Francisco visitou Lampedusa, pequena ilha mediterrânea localizada abaixo da Sicília, sendo o ponto geográfico italiano mais próximo da África. Ali são despejados os migrantes norte-africanos, ali perto chegam os corpos de tantos refugiados cujo transporte naufragou. Lampedusa é um lugar-testemunho da violência e da miséria humanas provocadas pela história econômica de nossa época, colocando em confronto a África explorada e a opulenta Europa.

Francisco fez dessa sua primeira viagem fora de Roma o símbolo indicativo de sua preocupação pastoral. Tanto escolhia o pobre como centro da ação cristã como mostrava ao mundo a incoerência de esconder no silêncio o grito de centenas de milhares de homens, mulheres, jovens e crianças fugitivos da miséria e da guerra que sufocam a vida nos países da África e do Oriente médio.

No dia 16 de abril de 2016, mais uma viagem simbólica de Francisco: a Lesbos, ilha grega que, como Lampedusa, funciona como depósito de migrantes e cemitério de esperanças. Viagem breve, com estadia de cinco horas, mas carregada de simbolismo: fez-se acompanhar dos ortodoxos Bartolomeus, Patriarca de Constantinopla e Hieronymos, arcebispo de Atenas. Além do ecumenismo de sangue, fundou o ecumenismo da caridade cristã indo ao encontro dos sofredores do mundo, dentre eles um significativo número de muçulmanos. O sangue da violência do martírio se une ao sangue da pobreza gerada pelas guerras sem fim (a guerra mundial em pedaços, definiu) filhas dos poderosos interesses do comércio internacional de armas, cujos interesses não levam em conta o inenarrável sofrimento dos povos.

O Papa Francisco visitou o campo de refugiados de Mória, na ilha de Lesbos, que acolhe cerca de 2.500 pessoas, refugiados excluídos da rica Europa e ali depositados enquanto esperam a devolução aos países de onde fugiram, segundo determinação legal dos países da comunidade européia. O Papa foi recebido ao som dos gritos de ‘freedom, freedom’ (liberdade, liberdade).

“Quero dizer-vos que não estais sozinhos”, declarou, depois de ter passado vários minutos a cumprimentar refugiados, muitos deles menores, de países como a Síria, Iraque, Iro, Paquistão ou Afeganistão, entre eles muçulmanos, yazidis e cristãos.

Acompanhado por um intérprete, conversou com várias das famílias presentes e recebeu desenhos de crianças como presente, prometendo guardá-los em sua mesa de trabalho. Era de cortar o coração homens e mulheres narrando suas histórias trágicas e caindo aos prantos. Testemunhavam plasticamente a maior tragédia humana desde a segunda grande Guerra.

Francisco tinha consciência do que o aguardava: “Esta é uma viagem um pouco diferente das outras, é marcada pela tristeza”, confessou aos jornalistas que o acompanharam desde Roma, no voo que aterrou em Mitilene, capital de Lesbos. Falou de um “cemitério no mar”, onde muitas pessoas se afogaram: “Vamos ver tanta gente que sofre, que é obrigada a fugir e não sabe para onde ir”.

O Papa foi acolhido em Lesbos pelo arcebispo ortodoxo de Atenas, Hieronymos II, pelo patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeus I, e pelo primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras. Após a cerimônia oficial de boas-vindas, Francisco e Tsipras encontraram-se em privado, tendo o chefe do governo grego sublinhado o “peso” que a crise dos refugiados tem representado para o país. O Papa, por sua vez, explicou que a viagem visava “agradecer ao povo grego pela sua generosidade”, que tem sido oferecida “corajosamente”, mesmo em meio à crise econômica que vive, lembrando que a Grécia, estava oferecendo “exemplo de humanidade”.

Memória, oração e caridade

A visita humanitária e ecumênica a Lesbos, como foi definida pelo Vaticano, incluiu uma visita ao campo de refugiados de Mória e uma homenagem aos migrantes que morreram no mar, quando os três bispos lançaram ao mar coroas de louro, precedidas de oração de cada um, de que transcrevemos parte.

homenagem-aos-mortos-mar-egeu

Homenagem aos mortos no Mar Egeu.

FRANCISCO

Deus de misericórdia,
pedimo-vos por todos os homens, mulheres e crianças,
que morreram depois de ter deixado as suas terras
à procura duma vida melhor.

Embora muitos dos seus túmulos não tenham nome,
cada um é conhecido, amado e querido por Vós.
Que nunca sejam esquecidos por nós, mas possamos honrar
o seu sacrifício mais com as obras do que com as palavras.

Confiamo-vos todos aqueles que realizaram esta viagem,
suportando medos, incertezas e humilhações,
para chegar a um lugar seguro e esperançoso.

Como Vós não abandonastes o vosso Filho
quando foi levado para um lugar seguro por Maria e José,
assim agora mantende-vos perto destes vossos filhos e filhas
através da nossa ternura e proteção. (…).

Ajudai-nos a partilhar com eles as bênçãos
que recebemos das vossas mãos
e a reconhecer que juntos, como uma única família humana,
somos todos migrantes, viajantes de esperança rumo a Vós,
que sois a nossa verdadeira casa,
onde todas as lágrimas serão enxugadas,
onde estaremos na paz, seguros no vosso abraço
.

BARTOLOMEU I

Senhor de misericórdia, de compaixão e de toda consolação, te pedimos pelos nossos irmãos que vivem em situações difíceis e nos voltamos para a tua Bondade: nutre os recém-nascidos; instrui os jovens; aumenta as forças dos anciãos; infunde coragem nos fracos; reúne os que estão divididos; navega junto com os navegantes; viaja com os viajantes; defende as viúvas; protege os órfãos; liberta os prisioneiros; cura os enfermos.

Recorda-te, Senhor, dos que trabalham nas minas, estão exilados, exercem um trabalho pesado, todos aqueles que vivem todo tipo de aflição, de necessidade, de perigo; e de todos aqueles que imploram a tua amorosa bondade; de todos aqueles que nos amam e daqueles que nos odeiam; infunde em todos a tua infinita misericórdia, atendendo às suas invocações para obter salvação.

HIERONYMOS II

HOMENAGEM AOS MIGRANTES MORTOS NO MAR

HOMENAGEM AOS MIGRANTES MORTOS NO MAR

Ó Deus de todo espírito e de toda carne, que venceste a morte destruindo o poder do demônio, dando vida ao cosmo, às almas dos teus servos que partiram desta vida. Tu, Senhor, dá-lhes repouso num lugar de luz, num lugar de verdes pastagens, num lugar de descanso, do qual desapareceram a dor, a tristeza e o luto. Tu, nosso Deus bom e amoroso, perdoa todo pecado cometido por eles em pensamento, palavras e obras, pois não existe homem algum que possa viver sem pecar, porque somente Tu és sem pecado: a tua justiça e a tua lei é verdade.

Ao final da viagem, os líderes religiosos assinaram empenhativa DECLARAÇÃO CONJUNTA, reportando o drama da migração e o desafio que oferece às Igrejas e aos governos envolvidos, e que assim inicia:

Nós, Papa Francisco, Patriarca Ecumênico Bartolomeu e Arcebispo Hieronymos de Atenas e de toda a Grécia, reunimo-nos na Ilha grega de Lesbos para manifestar a nossa profunda preocupação pela situação trágica de numerosos refugiados, migrantes e requerentes asilo que têm chegado à Europa fugindo de situações de conflito e, em muitos casos, de ameaças diárias à sua sobrevivência. A opinião mundial não pode ignorar a crise humanitária colossal, criada pelo incremento de violência e conflitos armados, a perseguição e deslocamento de minorias religiosas e étnicas e o desenraizamento de famílias dos seus lares, violando a sua dignidade humana, os seus direitos humanos fundamentais e liberdades.

A tragédia da migração e deslocamento forçados afeta milhões de pessoas e é, fundamentalmente, uma crise da humanidade, clamando por uma resposta feita de solidariedade, compaixão, generosidade e um compromisso econômico imediato e prático. (…)

No momento da despedida, um emocionado Francisco expressou sua gratidão com essas palavras: A vós, eu digo obrigado, porque sois guardiões da humanidade, porque cuidais ternamente da carne de Cristo, que sofre no menor dos irmãos, faminto e forasteiro, que acolhestes (cf. Mt 25, 35).

No mesmo avião de retorno, o Papa levou consigo 12 pessoas de três famílias muçulmanas, que foram assumidas pelo Vaticano e acolhidas na Comunidade Santo Egídio. A velha Europa, pátria dos direitos humanos, é desafiada a acolher os pobres do mundo e a repartir do muito que recebeu desses mesmos povos deserdados da vida que chegam a suas fronteiras.

Pe. José Artulino Besen

 

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DOM OSCAR ROMERO, MARTÍRIO E MEMÓRIA

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Pe. Oscar Romero

Era segunda-feira, 24 de março de 1980. Às 18 horas, Dom Oscar Arnulfo Romero iniciou a celebração da Missa na capela do hospital da Divina Providência na colônia Miramonte de San Salvador, para onde se tinha mudado. Ele percebeu que alguém se postou à porta de entrada da igreja, ergueu o fuzil e disparou um tiro certeiro que lhe perfurou o coração. Caiu fulminado, e morreu pouco depois no hospital, aos 62 anos de idade. Somente 31 anos depois, por imposição de organismos internacionais, soube-se quem foi o assassino e quem foram os mandantes: foi Marino Samayor Acosta, sub-sargento da seção II da Guarda Nacional, membro da equipe de segurança do presidente da república, por ordem do major Roberto d’Aubuisson, criador dos esquadrões da morte e do coronel Arturo Armando Molina. Preço do serviço para assassinar Dom Romero: 114 dólares.

Na véspera, domingo, dia 23 de março, preocupado com a violência dos esquadrões da morte e das guerrilhas, lançara um pedido dramático:

“Eu gostaria de fazer um apelo muito especial aos homens do Exército e, concretamente, às bases da Guarda Nacional, da polícia, dos quartéis. Irmãos, vocês são do nosso próprio povo, vocês matam os seus próprios irmãos camponeses, e, diante de uma ordem de matar dada por um homem, deve prevalecer a Lei de Deus, que disse: ‘Não matar’. Nenhum soldado é obrigado a obedecer a uma ordem contra a Lei de Deus. Uma lei imoral, ninguém precisa cumprir. Já é hora de recuperarem a consciência e obedecerem antes à sua consciência que à ordem do pecado. A Igreja, defensora dos direitos de Deus, da Lei de Deus, da dignidade humana, da pessoa, não pode ficar calada diante de tanta abominação. Queremos que o Governo leve a sério que para nada servem as reformas se forem manchadas com tanto sangue. Em nome de Deus, pois, e em nome deste sofrido povo, cujos lamentos sobem ao céu cada dia mais tumultuosos, lhes suplico, lhes rogo, lhes ordeno, em nome de Deus: cesse a repressão!”

A repressão era sempre mais intensa naquele pequeno país de 22.000 km2. Entre 1979 e 1992, ano do acordo de paz, foram assassinados 85.000 salvadorenhos, 80% deles civis. Eram jovens, camponeses, 13 sacerdotes, 3 religiosas. De um lado estavam as forças da repressão, financiadas pelos Estados Unidos e pelos proprietários das melhores terras, de outro, os camponeses vítimas da miséria, da exploração de sua mão de obra, seduzidos pelo movimento de guerrilha de inspiração marxista.

Foto de arquivo do arcebispo Oscar Arnulfo Romero (Foto: A)

Foto de arquivo do arcebispo Oscar Arnulfo Romero (Foto: A)

Sacerdote e bispo à imagem de Cristo

Oscar Arnulfo Romero nasceu em 15 de agosto de 1917 em El Salvador, segundo de sete irmãos. Desde a infância manifestou profunda piedade, cujo centro era a oração noturna diária e a veneração ao Imaculado Coração de Maria. Aos 13 anos, em 1930, ingressou no seminário de San Miguel. Em 1937 dirigiu-se ao Seminário São José de San Salvador e, no mesmo ano, foi enviado a Roma, onde residiu no Pontifício Colégio Pio Latino e estudou na Universidade Gregoriana.

Foi ordenado padre em Roma aos 24 anos, em 4 de abril de 1942. Retornou à pátria em 1943, recebido com entusiasmo pelo seu povo, que muito o estimava. Foi pároco de Anamorós e, depois, de Nossa Senhora da Paz e, ao mesmo tempo, secretário do Bispo diocesano.

Em 1968 foi nomeado secretário da Conferência episcopal, acompanhando todo o processo da Conferência de Medellín e sua opção pelos pobres. Em 21 de abril de 1970, foi nomeado bispo auxiliar de San Salvador, sendo ordenado em 21 de junho. O próximo passo foi a nomeação de bispo diocesano de Santiago de Maria em 15 de outubro de 1974, vivendo ali seus mais felizes anos. Finalmente, em 3 de fevereiro de 1977, o papa Paulo VI o elegeu arcebispo de San Salvador, assumindo em 22 de fevereiro. O clero não recebeu essa nomeação com entusiasmo, pois o tinha como bispo conservador e preferia o auxiliar Dom Artur Rivera y Damas (que depois foi o sucessor).

Pe. Rutílio Grande, mártir

Pe. Rutílio Grande, mártir

Pouco depois, em 12 de março de 1977, um acontecimento mexeu com todos os sentimentos humanos, espirituais e pastorais de Dom Romero: o assassinato de seu íntimo amigo, o jesuíta Pe. Rutílio Grande, pároco de Aguilares, com dois camponeses que o acompanhavam. Pe. Rutílio encarnara em seu ministério a opção pelos pobres de Medellín e se dedicava à formação de Comunidades Eclesiais de Base. Não concordava com seus colegas da Universidade Católica, pois via sua teologia muito comprometida ideologicamente. A teologia da libertação de Pe. Rutílio era essencialmente fruto da reflexão do Evangelho junto aos camponeses, que se alegravam por descobrirem sua dignidade e capacidade de organização para fazerem frente aos latifundiários que tomavam as melhores terras e exploravam sua força de trabalho.

O martírio do amigo, cujo processo de canonização foi aberto em 2015, iluminou sua vida cristã e episcopal: após a noite inteira em vigília junto ao corpo de Rutílio Grande, entendeu que os camponeses tinham ficado órfãos de pai. Era necessário assumir o lado dos pobres, dos camponeses, o trabalho de reconciliação nacional e lhe tocava essa missão. Tinha consciência dos perigos que lhe estavam reservados, mas não tinha mais nenhum medo. Arriscando a vida, procurou as partes no conflito, governo e guerrilha. Conhecendo pessoalmente o presidente Arturo Molina, foi-lhe ao encontro, exigindo que investigasse o assassinato de Pe. Rutílio. Com riso de deboche, Molina apresentou-lhe os pêsames e disse que investigaria. Nada acontecendo, Dom Romero decidiu e comunicou que não participaria mais de nenhuma cerimônia oficial do Estado. E decidiu que, aos domingos, haveria somente uma Missa na catedral, para que ricos e pobres se encontrassem e escutassem sua mensagem em defesa dos camponeses.

Ao se reunir com o presidente Arturo Molina este lhe apresentou uma lista com os nomes de 30 sacerdotes que deveriam deixar o país, ao que o arcebispo respondeu: “Os sacerdotes são intocáveis”.

Vida oferecida pelo povo

A partir dessa hora, as homilias do arcebispo são sempre mais claras e proféticas. Num dia, seu irmão Gaspar pediu que ele amaciasse o tom, pois corria perigo e recebeu a reposta: “Alguém deve falar que essa tragédia não pode continuar. De uma parte, o exército mata e incendeia povoados inteiros, de outra, a guerrilha… Devo intervir e dizer a minha verdade”.

De Roma, através do núncio de Costa Rica, lhe chega a comunicação que queriam assassiná-lo. Paulo VI, paternalmente, lhe propõe um caminho: se a situação se tornasse muito perigosa, alegando doença poderia pedir transferência. Dom Romero respondeu: “Escolho viver aqui, porque é aqui que devo concluir meu apostolado. Se me matarem, já os perdoei a todos. Em todo caso, é aqui que devo morrer porque devo ressuscitar no meio de meu povo”.

O Arcebispo redobrou seu empenho pessoal pelo povo que o procurava: gente influente pedia sua mediação pela libertação de um filho seqüestrado pela guerrilha, camponeses que pediam que encontrasse os filhos seqüestrados pelo exército, pobres que pediam pão e esmola e ele procurava um modo de atender a todos.

A perseguição desencadeada pelo governo contra ele se intensifica: ameaças a seus familiares, desmoralização através de campanhas que diziam que ele escrevia as homilias sob o efeito do álcool, que tinha sido diagnosticado doente mental. Uma delegação de católicos de direita foi a Roma para denunciá-lo e pedir sua remoção. Roma envia um representante que, lendo suas homilias, aprovou sua ação. Com toda essa campanha de difamação e ameaça, aumentava sempre mais a coragem e o amor pelo seu povo. Se transfigurava a cada dia, o que podia ser constatado na simplicidade amorosa com que reunia as famílias, comia de sua feijoada, explicava o Evangelho. Ao mesmo tempo, no mesmo dia participava de reunião no Ministério do Exterior, recebia delegação da ONU e se transformava: falava com firmeza e com capacidade de líder experimentado.

As ameaças fazem sofrer seus familiares que quase se sentiam na necessidade de negar que fossem seus parentes. Recebe cartas sempre mais ameaçadoras.

Dom Romero sofre a noite escura dentro de sua Igreja: os irmãos no episcopado o abandonam, acusando-o de ser responsável pelo recrudescimento da violência; Dom Lopes Trujillo, arcebispo de Medellín é porta-vos das acusações que chegam a Roma. Dentro do Vaticano se encontram seus maiores opositores e difamadores, num primeiro momento levando João Paulo II a crer nas acusações. Chegavam a Roma quilos de cartas contra ele, acusando-o de envolver-se na política, de seguir a teologia da libertação, de desequilíbrios de caráter. Numa viagem a Roma, o Papa o recebeu friamente, deixando-o muito sofrido, mas, Dom Romero não podia voltar atrás: seguia o caminho do Evangelho, o Vaticano II, Medellín e Puebla, era um arcebispo fiel às orientações católicas no tocante à defesa dos pobres. Como poderia abandonar a palavra da Igreja e seu povo?

Sua perseverança em meio a tantos conflitos preparou o tapete que lhe foi estendido naquela tarde de segunda-feira, 24 de março de 1980, pelas 18 horas, quando a tirania cobrou o preço: uma bala de fuzil furou-lhe o coração. Não mataram Dom Oscar Romero na rua, num atentado: quiseram assassiná-lo dentro da Igreja, quiseram calar a Igreja.

Religiosa beija a fronte de Dom Romero

O povo sofreu dolorosamente a morte de seu pastor. Seu corpo ficou exposto na catedral durante quatro dias, visitado por mais de 250 mil pessoas. O mundo chorou o ato violento contra um homem frágil, suja única força era o amor a Cristo e aos pobres. O Vaticano fez-se representar pelo Cardeal arcebispo do México, Ernesto Corrípio y Arrumada. O povo que chorava seu bispo tentou organizar uma grande procissão e, nessa hora, o exército mostrou sua face cruel: fez explodir uma bomba em meio à multidão e 42 pessoas morreram.

A verdade liberta e triunfa

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Papa João Paulo II, rezando diante do túmulo do arcebispo Romero

A maioria dos bispos de El Salvador negou-lhe qualquer sinal de gratidão pelo trabalho heróico. Quando, em março de 1983, João Paulo II visitou o país, não estava prevista nenhum visita a seu túmulo, mas o Papa fez questão de ir lá para rezar. Teve que esperar bons minutos até que se encontrasse a chave da Catedral. Na preparação da celebração das Testemunhas da Fé, em Pentecostes do ano 2000, os bispos fizeram chegar o pedido de evitar citar o nome de Dom Romero. João Paulo II, num de seus grandes gestos, acrescentou de próprio punho do nome de Romero no Oremus final.

Nesses anos operava em Roma um influente grupo de prelados que faziam o possível para resistir à canonização do arcebispo. No mesmo ano 2000, o Cardeal vietnamita Van Thuan orientou os exercícios espirituais ao Papa e à Cúria romana e foi severamente criticado por ter incluído Dom Romero entre as grandes testemunhas da fé de nosso tempo e citado esse nome diante do Papa. Meses depois, quando as meditações foram publicadas em livro de grande repercussão, o nome de Dom Romero não apareceu em nenhuma citação.

Quando Bento XVI viajava para o Brasil, em maio de 2007, durante o vôo alguém lhe perguntou sobre Romero e o papa respondeu com uma pequena apologia do arcebispo assassinado, descrevendo-o como “uma grande testemunha da fé”, recordando sua morte incrível diante do altar e que era digno de ser beatificado. Novamente aconteceu o inusitado: mesmo tendo falado diante de tele câmeras, dezenas de gravadores, essas palavras foram apagadas nas versões oficiais da entrevista publicada nas mídia do Vaticano.

Menos mal, em 2012 Bento XVI desbloqueou o processo, trancado em Roma havia 17 anos. Dom Romero não foi assassinado por questões políticas, como quiseram impor seus acusadores dentro e fora da Igreja. Foi martirizado in odium fidei, por ódio à fé cristã, e disso dá testemunho o tiro disparado dentro de uma igreja, com mensagem clara: atingir um cristão. A acusação de comunismo era uma “acusação fácil” que se fazia contra quem estava perto dos pobres e foi morto durante a Missa e não em casa ou na rua. “Queriam matá-lo no altar”.

Dom Oscar Arnulfo Romero repousa em sua Catedral, vizinho à cátedra onde anunciou a justiça e denunciou a injustiça e ali ressuscitou no meio de seu povo. Seu túmulo é meta de peregrinação de ricos e pobres, dos fortes e dos fracos do mundo. Quatro anjos ladeiam seu túmulo, simbolizando os quatro Evangelhos que anunciou ao povo. A catedral anglicana de Westminster, em Londres, ergueu uma estátua sua como homenagem aos que deram a vida em defesa dos direitos humanos. A Assembléia Geral das Nações Unidas – ONU, proclamou o dia 24 de março – data da sua morte – como o “Dia Internacional pelo Direito à Verdade, em relação a graves violações e a dignidade das vítimas”, em honra ao mártir salvadorenho.

E chegou a vez da Igreja: reconhecendo-lhe o martírio em 3 de fevereiro de 2015, Francisco, o primeiro Papa latino-americano, marcou sua beatificação para o dia 23 de maio de 2015, véspera de Pentecostes. O povo cristão poderá invocá-lo como São Romero da América. O arcebispo salvadorenho vai ser declarado bem-aventurado pelo primeiro papa sul-americano da história, que pede “uma Igreja pobre para os pobres”, centro da ação de Dom Oscar Romero e causa de seu martírio.

Pe. José Artulino Besen

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FRANCISCO E OS CARDEAIS DAS PERIFERIAS

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Sábado, 14 de fevereiro, na basílica de São Pedro, Francisco presidirá seu segundo Consistório Ordinário Público, no qual criará 20 novos Cardeais, anunciados por ele em 4 de janeiro, aos quais imporá o barrete cardinalício, entregará o anel e designará o Título ou Diaconia romana. Serão 15 Cardeais eleitores e 5 eméritos, ou seja, que já atingiram os 80 anos e não participarão de futuro Conclave. Dessa forma, o Colégio cardinalício passa a contar com 125 Cardeais eleitores, ultrapassando em 5 o limite de 120. O número logo sofre alteração, pois outros Cardeais atingirão os 80 e, além disso, o Papa é livre para as escolhas.

Francisco se refere com carinho aos 5 Cardeais eméritos: “são conhecidos por sua caridade pastoral no serviço à Santa Sé e à Igreja, e representam tantos bispos que, com a mesma solicitude de pastores, deram testemunho de amor a Cristo e ao povo de Deus nas Igrejas particulares, na Cúria romana, no serviço diplomático da Santa Sé”.

Esse Consistório revela claramente que Francisco redimensiona o Colégio e dá mais atenção às periferias, sem automatismo com relação às sedes mais ambicionadas, as assim chamadas “sedes cardinalícias” cujo titular tinha certeza de receber o barrete num Consistório. A universalidade da Igreja não pode estar condicionada a tradições históricas, é a mensagem clara. Não existem dioceses ou bispos mais importantes e o Cardeal é um amigo fraterno de Francisco, conselheiro e não um príncipe distante ou cortesão.

Na sua decisão de ouvir as Igrejas espalhadas pelo mundo, especialmente as Igrejas de fronteira, de missão, do “fim do mundo”, o Papa surpreendeu: como no Consistório anterior, abandonou o costume de considerar Sedes diocesanas como cardinalícias por tradição histórica – como exemplo Veneza, Turim, Salvador, o que dava margem ao carreirismo, lepra da Igreja em suas palavras, com bispos procurando criar zonas de influência para serem nomeados para essas sedes, e depois serem feitos cardeais. Desse modo, a eleição do papa ficava condicionada a esses eleitores, geralmente de sedes maiores e européias.

Francisco usa sua autoridade para fortalecer a Igreja missionária e pobre, cujo espírito e programa explicitou na Evangelii Gaudium.  O futuro papa será um bom pastor voltado para o mundo pobre e missionário, e não condicionado a repetir o modelo de Igreja marcado pelo mundo europeu.

No Consistório anterior, escolheu para primeiro Cardeal do Haiti não o arcebispo da capital, mas um humilde bispo da distante e pobre Les Cayes. No Consistório dessa semana, os 15 Cardeais eleitores são originários de 14 países: um do Uruguai, há bastante tempo sem cardeal e, pela primeira vez, 3 das Igrejas sofridas e missionárias do Cabo Verde, Tonga e Myanmar (Birmânia) e, também pela primeira vez, do Panamá . O Papa não levou em conta a importância ou o número de católicos destas nações, porque seu interesse é ouvir o que acontece nessas Igrejas distantes. No clima anterior, os bispos “importantes” falavam para a Igreja universal; agora, os bispos distantes falam e possuem uma palavra nova para as Igrejas historicamente estabelecidas.

Francisco, latino-americano, sentiu o que era estar condicionado à teologia e pastoral eurocêntrica e sabia da vivacidade das Igrejas do mundo periférico. Também não se sente obrigado a criar Cardeais pelo fato de trabalharem na Cúria romana, com exceção das Sagradas Congregações, pois sabia como cardeais curiais tinham a ousadia de ditarem regras para os bispos diocesanos, de esconderem do papa informações das Igrejas que não brilhavam pela teologia, pelo número de doutores, mas espelhavam a alegria, a criatividade e o heroísmo do Evangelho vivido no seguimento de Jesus de Nazaré.

Como jesuíta cujo sonho da juventude foi ser missionário no Japão, Francisco tem o coração na Ásia, no imenso Continente das grandes religiões, Continente misterioso cuja sabedoria ancestral desfia a missão cristã. Suas Viagens apostólicas, que são um claro modelo pastoral, o fizeram estar na Coréia do Sul, no Sri Lanka, nas Filipinas. É claro seu amor pela China, pela Igreja sonhada por São Francisco Xavier. Na Europa visitou a pobre Albânia e visitará Seravejo na Bósnia. Neste ano visitará a África e a América latina. Será o primeiro papa a falar no Congresso norte-americano, dirigindo-se aos deputados e senadores em 24 de setembro, fazendo sua a voz das vítimas do sistema econômico cujo deus é o mercado.

Escolhendo como seu lugar estar do lado dos pobres, o Papa quer escutar o que o Espírito diz às Igrejas. Decidiu ser solidário na causa da justiça e da paz, despertar as imensas energias que pulsam no coração das comunidades cristãs, dos doentes, pobres, idosos, jovens e crianças. O rico Norte do mundo já falou o suficiente: deve aprender a ouvir e ver o Sul. O desafio posto aos cristãos não é somente doutrina e teologia, como talvez pensam os romanos, mas é despertar a vida no seguimento evangélico de Jesus.

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Os Cardeais de Francisco, pastores das periferias do mundo

No Consistório de 14 de fevereiro o Papa criará apenas um Cardeal curial, pois sua opção é pelos pastores das periferias do mundo. Segundo John Allen, vaticanista do Boston Globe, “a maneira como Francisco está modificando a sociologia do Colégio cardinalício é, talvez, seu ato mais revolucionário e que cimentará sua herança”: é corte seco à velha Europa, porta fechada às ambições romanas e de bispos carreiristas cujo sonho pastoral era a púrpura, reconhecimento do trabalho das Igrejas periféricas cujo exemplo mais claro é Tonga, Arquipélago de ilhas na Polinésia, cujo bispo criado Cardeal pastoreia 14 mil almas no total. É o jovem cardeal Dom Soane Patita Paini Mafi, nascido em 1961, e que respondeu a quem lhe perguntou o que achava da escolha: “Apenas posso imaginar que o Papa está querendo mostrar sua posição e, para fazê-lo, necessita fazer entender que a Igreja é formada por todos os quatro ângulos do planeta. O Papa busca fazer entender uma coisa que ainda é pouco familiar a muitas pessoas: a existência dos “pequenos”, e o fato de que esse “pequenos” podem dar uma contribuição e serem reconhecidos”.

Deve ser lembrado que na Igreja não existem postos de grandeza, de honra, que o ser cardeal é o máximo a que se possa aspirar, como se a fama mundana devesse contar. O máximo na Igreja é claro: é ser santo e servidor; o máximo mesmo é dar a vida.

Evidente que Francisco não inventou o Colégio cardinalício, como também é evidente que os papas anteriores criaram grandes e zelosos cardeais; também é conhecido que foi Pio XII que, no Consistório de 1946, pela primeira vez tornou os europeus minoritários no Colégio. O que parece claro, agora, é o acento missionário e pastoral, com o desafio de “manter-se humilde no serviço, que não é fácil quando se considera o cardinalato como um prêmio, o apogeu da carreira, uma dignidade de poder”.

Na carta que dirigiu aos novos purpurados em 4 de janeiro, pediu ao Senhor que os “acompanhasse em sua nova vocação que é um serviço de ajuda, sustentáculo e proximidade especial à pessoa do Papa e para o bem da Igreja”. Francisco recorda que ser cardeal significa incardinar-se na diocese de Roma para dar-lhe testemunho da ressurreição do Senhor e dar a vida totalmente, até o sangue, se necessário, e que deve estar consciente da palavra “somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer”, porque a vaidade separa da cruz do Senhor.

Missão importante dos cardeais é a eleição de novo papa, conduzir a Igreja na Sede vacante, poderíamos até dizer que é o momento mais visível, “jornalístico”, mas não esgota o serviço, que é de auxiliar o papa em sua missão.

Os vaticanistas falam que o fevereiro será “quente”: o Consistório será precedido da reunião do Colégio dos 9 Cardeais de 9 a 11 de fevereiro, quando apresentarão e discutirão propostas para a reforma da Cúria. Os novos Cardeais já vão participar das discussões posteriores nos dias 12 e 13, exercendo sua missão de ajudar o Papa porque aqueles que procedem do mundo da missão têm muito a dizer sobre a organização da Igreja, a missão e a pastoral cristãs.

Numa Igreja servidora, a palavra que Francisco sugeriu aos cardeais é a mesma que vale para todos os cristãos: “abaixamento e humildade”.

 Pe, José Artulino Besen

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