Arquivo para categoria Igreja no Brasil

MONSENHOR OTÁVIO DE LORENZI

Monsenhor Otávio de Lorenzi

Otávio nasceu em Orleans, Santa Catarina, em 14 de maio de 1931, filho de Antônio de Lorenzi Dinon e Catarina Pilon, numa família de 12 irmãos.

Na década de 1950, os pais se mudaram para a comunidade de Taquaruçu de Cima, Município de Fraiburgo, SC. Com essa migração dos pais, Otávio ingressava na Diocese de Lages, no Planalto catarinense, no novo mundo cultural e religioso do serrano.

Um professor primário despertou nele a vocação sacerdotal e aconselhou-o a ir para o Seminário. E assim, dirigiu-se para o Pré-Seminário de São Ludgero, onde permaneceu em 1946 e 1947. Educado numa família humilde e pobre onde a língua diária era um dialeto italiano, teve dificuldade nos estudos. Em suas primeiras férias trouxe para os pais a grande notícia de que estava estudando a língua portuguesa.

Terminando o curso preliminar, foi encaminhado para o Seminário Menor Metropolitano de Azambuja, em Brusque, onde cursou o Ginásio e o Clássico, dos anos 1948 a 1952. Ao final desse último ano, recebeu a batina. Indo para casa, foi recebido com muita festa e tiros, motivo que foi de orgulho para a pequena comunidade de Taquaruçu de Cima, no município de Fraiburgo.

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MONSENHOR GREGÓRIO LOCKS

Filho de Germano Locks e de Elizabeth Hobold, nasceu em São Ludgero em 17 de novembro de 1914. Seus avós maternos, Henrique Hobold e Maria Ana Schmoller, e paternos, Bernardo Locks e Elizabeth Frankmüller, eram imigrantes da Westfália que se estabeleceram em Teresópolis e, em busca de melhores terras, migraram para São Ludgero.

Gregório teve 11 irmãos, ele sendo o caçula. Cresceu e foi educado na fé, sob a imagem sacerdotal de Mons. Frederico Tombrock. Seu primeiro banco escolar foi na escola paroquial de São Ludgero, tendo como professoras as Irmãs da Divina Providência que ajudaram a nele despertar a vocação sacerdotal.

Onde estudar, se não havia seminários em Santa Catarina? Os primeiros quatro vocacionados se dirigiram a Pareci Novo, no seminário dos jesuítas: Nicolau Gesing, Bernardo Füchter, Huberto Rohden e José Locks. A cavalo, com os pais, enfrentaram 16 dias entre a ida e a volta. Todos foram ordenados padres. Leia o resto deste post »

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OS PROTOMÁRTIRES DO BRASIL – SERÃO CANONIZADOS

Prot – Forte dos Reis Magos, onde se refugiaram os Mártires de Uruaçu

São estes os sentimentos que invadem o nosso coração, ao evocarmos a significativa lembrança da celebração dos 500 Anos da Evangelização do Brasil, que acontece neste ano. Naquele imenso País, não foram poucas as dificuldades de implantação do Evangelho. A presença da Igreja foi-se afirmando lentamente, mediante a obra missionária de várias Ordens e Congregações religiosas e de Sacerdotes do clero diocesano. Os mártires que hoje são beatificados saíram, no fim do século XVII, das comunidades de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte. André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro, Presbíteros, e 28 Companheiros leigos pertencem a essa geração de mártires que regou o solo pátrio, tornando-o fértil para a geração dos novos cristãos. Eles são as primícias do trabalho missionário, os Protomártires do Brasil. A um deles, Mateus Moreira, estando ainda vivo, foi-lhe arrancado o coração pelas costas, mas ele ainda teve forças para proclamar a sua fé na Eucaristia, dizendo: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”.

Hoje, uma vez mais, ressoam aquelas palavras de Cristo, evocadas no Evangelho: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10, 28). O sangue de católicos indefesos, muitos deles anônimos crianças, velhos e famílias inteiras servirá de estímulo para fortalecer a fé das novas gerações de brasileiros, lembrando sobretudo o valor da família como autêntica e insubstituível formadora da fé e geradora de valores morais. (HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II – NA MISSA DE BEATIFICAÇÃO DOS PROTOMÁRTIRES DO BRASIL – Domingo, 5 de Março de 2000).

OS MÁRTIRES DE CUNHAÚ E URUAÇU

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MONSENHOR ANDREAS WIGGERS

andreas-wiggers

Andreas Wiggers nasceu em Cambará, Bom Retiro, SC em 20 de maio de 1933, numa família de agricultores. Descende dos Wiggers de Münster, Vestfália, que chegaram ao Brasil em 1863 e, posteriormente, foram alocados na Colônia catarinense de Teresópolis, depois dirigindo-se às terras férteis de Bom Retiro, na região serrana catarinense. Era o filho caçula de Guilherme Wiggers com Elizabeth Kauling, numa casa de sete irmãos, incluindo Rodolfo que foi frade franciscano com o nome de Frei Nicolau.

Cresceu numa família radicada no trabalho agrícola e na vivência da fé católica.

Com o desejo, alimentado na família e na paróquia, de ser padre, foi encaminhado ao Seminário Menor de Azambuja, da arquidiocese de Florianópolis e, para os estudos filosóficos e teológicos, a São Leopoldo, com os padres jesuítas. À época, a diocese de Lages não possuía Seminário.

A pedido do bispo diocesano de Lages, Dom Frei Dom Daniel Hostin, OFM, interrompeu os estudos eclesiásticos e por dois anos, em 1954 e 1955, exerceu a função de professor de português e de geografia no recém-fundado Seminário Diocesano, onde foi prefeito da divisão dos maiores. Nos seminários, os alunos eram divididos entre maiores e menores, a depender da idade, com pouquíssima comunicação entre si.

Retomando e concluindo o estudo da teologia, foi ordenado sacerdote por Dom Daniel Hostin na catedral de Nossa Senhora dos Prazeres de Lages em 10 de dezembro de 1961. Andreas se caracterizava pela piedade, espírito de oração e fez de sua opção pelo ministério sacerdotal uma entrega total e definitiva a Deus e ao serviço na Igreja. Prova disso foi o lema escolhido: “Que minhas mãos sejam uma manjedoura para que Jesus nasça todos os dias”, com profundo sentido eucarístico, pois na Eucaristia a mão do padre é a manjedoura onde brota o Pão da Vida. A celebração da Missa foi um compromisso alegre assumido em todos os dias de sua existência.

Pe. Andreas exerceu o ministério em dois campos: formação de novos padres e trabalho em âmbito diocesano na pastoral, na Cúria e na administração, além de presença constante nos organismos pastorais do Regional Sul-IV da CNBB. Sua seriedade e dedicação tornaram-no merecedor da confiança dos bispos, dos padres e ex-alunos. Sua simplicidade e ausência de ambição pessoal chamavam a atenção de quem com ele conviveu.

Ministério do serviço eclesial

Sua primeira missão foi ser professor e auxiliar na administração do Instituto São João Batista Vianney, nome do Seminário diocesano de Lages, de 1962 a 1964.

Muito estimado, era reconhecido como ótimo professor de matemática. O Professor Ary Martendal, seu ex-aluno, recorda a didática dele em outras disciplinas: “Participar de suas aulas era um alívio, tal a leveza e falta de ameaças, exceção de regra num rígido sistema de estudos demarcado por rigoroso regulamento. Sempre achava formas didáticas mais agradáveis e nos trazia curiosidades. Eu, como piazote criado na roça, escutava embevecido suas explanações ou leituras complementares”. Todos os ex-alunos dele guardam dele a bondade, compreensão e piedade.

Nos anos de 1963 a 1969, exerceu a função de prefeito de disciplina no mesmo Seminário e, em 1970, foi nomeado Reitor. Esse período foi bastante difícil para a Igreja diocesana de Lages, que vivia o forte e inesperado processo de renovação conciliar e, ao mesmo tempo, ressentia-se da diminuição no número de seminaristas, além do sofrimento pela desistência do ministério de bons sacerdotes, jovens, inclusive formadores do Seminário.

Bom na matemática e bom na administração, já em 1964 foi nomeado Ecônomo, função exercida em diversos campos diocesanos e sempre com competência. Não foi marcado pela tentação financeira.

Além do Seminário Menor de Lages, a diocese mantinha um Pré-Seminário em Peritiba, uma espécie de preparatório para o Curso ginasial, e Pe. Andreas foi nomeado seu reitor em 1971, acumulando com a missão de pároco de Santo Isidoro e vigário paroquial de Santa Catarina de Piratuba. Em 1979, o prédio do seminário foi doado ao hospital local.

Novo trabalho, em 1972, como cura da Catedral e coordenador dos Meios de Comunicação da Diocese de Lages e, de agosto de 1973 a janeiro de 1974 vigário substituto de Bom Retiro, sua terra natal.

Não lhe faltaram trabalhos nem disposição para desafios novos, sempre disposto, silencioso e sorridente.

A partir de 1977 seu ministério foi exercido ano serviço diocesano. De 26 de setembro de 1977 a 1981 foi Coordenador de Pastoral da Diocese de Lages. Conservando a função, de setembro a dezembro de 1977 foi também reitor e diretor do Seminário de Lages que, então, vivia forte crise pelos contratempos do novo sistema pedagógico e espiritual na formação dos seminaristas. Ali pode contar com a fraterna colaboração do Pe. Otávio de Lorenzi.

Em 1980, assumiu o delicado encargo de administrador da Mitra Diocesana de Lages e presidente da Ação Social e Beneficente, substituindo Mons. Luís Orth, venerado e inesquecível sacerdote. Ao mesmo tempo, foi encarregado do Arquivo diocesano, salvando e organizando os documentos históricos da diocese, portarias, provisões e o que mais restava. Lages lhe deve esse trabalho competente: não é um grande arquivo, mas possui o que foi possível catalogar.

Vida de oração e serviço

Em todos esses ofícios, afirma Ary Martendal, Pe. Andreas “foi figura humilde, serviçal, postada à sombra de qualquer honra e fama, deixando em todos aqueles que com ele conviveram um conceito unânime de homem pacífico e virtuoso”.

Dom Honorato Piazzera, SCJ, segundo bispo diocesano, quis que a diocese abrigasse um mosteiro de Irmãs contemplativas que tivessem como missão orar pela Diocese. Quando recebeu sinal positivo das Irmãs Clarissas, logo dispôs a doação do terreno na Avenida Papa João XXIII, vizinho ao Seminário e ao Centro de Pastoral. Mons. Luís Orth assumiu a construção do Mosteiro Nazaré, inaugurado em 1977. Nomeado capelão, Pe. Andreas igualmente nutriu um carinho especial pelas Clarissas e muito sofreu quando, em 2011, as Irmãs foram transferidas. Felizmente, três meses depois chegaram sete religiosas de Marília, SP, dando continuidade à vida contemplativa serrana.

Em 25 de março de 2008 faleceu seu irmão, Frei Nicolau Wiggers, OFM que, a pedido pessoal, foi sepultado em Bom Retiro, no distrito de Cambará, sua terra natal. Ele e Mons. Andreas ali tinham celebrado a Missa no dia de Finados de 2007. Frei Nicolau era um frade santo e popular, totalmente dado aos pobres, pedindo para si a pensão para reparti-la entre os necessitados. Um frade feliz, como narra o confrade Frei Pedro Galdino de Oliveira: “Numa passagem rápida por Porto União, conheci o Frei Nicolau, no ano de 1999. Notei que estava muito alegre. Perguntei-lhe: “Frei, o senhor está contente?” “Sim”, respondeu-me. E completou: “Estou cansado de ser feliz!”. Convivendo pouco (quase um ano) com ele em Paty do Alferes, pude constatar que a frase era verdadeira”.

Pe. Andreas também caminhava para o dia final: no dia 26 de abril de 2012, às 12:10h, faleceu no Hospital Nossa Senhora dos Prazeres, de Lages, aos 78 anos.

Seu corpo foi velado na capela do Mosteiro Nazaré, onde no mesmo dia foi celebrada a Eucaristia. No dia 28, às 8:30h, após as Exéquias, foi trasladado para o distrito de Cambará, em Bom Retiro.

Com a presença de multidão de amigos, de muitos sacerdotes e religiosas, às 15h, Dom Oneres Marchiori, terceiro bispo diocesano, grande amigo, com quem por anos trabalhou e agora bispo emérito de Lages, presidiu a Santa Missa com encomendação. Em seguida, foi sepultado junto as seus pais e Frei Nicolau.

Dom Irineu Andreassa, bispo de Lages, estava em Aparecida participando da Assembléia geral da CNBB, razão de não estar presente, mas enviou mensagem de gratidão por sua vida e trabalho, oferecendo esse belo testemunho: “A partida de quem amamos é sempre uma catequese para nós que ficamos. Contemplando a vida do Monsenhor Andreas, conseguimos colher muitos exemplos e virtudes. Cito, entre as tantas:

1) Monsenhor Andreas contribuiu notoriamente com a história de nossa Diocese. Seria difícil descrever a Diocese de Lages sem citar este nosso irmão. Contribuiu com seu ministério, com seu exemplo, sua presença, sua palavra. Como grande benfeitor, possibilitou que a Diocese tivesse muitos meios e espaços que facilitam a evangelização. Formou muitos dos sacerdotes como professor e formador. Acompanhou as atividades e deu a devida assistência à diocese como Vigário Geral.

2) Monsenhor é para nós um modelo de amor. Porque amava a Deus, sabia que seu sofrimento era passageiro. Porque amava ofereceu suas dores aos mais necessitados. Porque nos amava, jamais reclamou de qualquer enfermidade – porque pensava que iria incomodar. Nós, muitas vezes, rezamos juntos na oração das Laudes: “fazei-nos carregar o peso do dia, sem jamais murmurar contra a vossa vontade” e acredito, piamente, que essa oração lhe era muito presente.

3) Monsenhor morreu pobre. Morreu pobre, mas porque teve uma vida pobre. Entregou-se nos braços do Pai sem ter sequer um bem material. Homem de um desprendimento imenso, fez da sua vida um total doar-se. Carregava no coração um desejo: ajudar. Se para ajudar fosse preciso dar o que tinha, ele o fazia com alegria”.

Quem teve a graça de estar com Pe. Andréas percebia que era sempre o mesmo: humilde, afável, sorridente, pronto para servir. A simplicidade extrema lhe ocultava a inteligência, a atitude modesta, as responsabilidades que assumia. Engrandeceu o clero serrano, marcou a vida católica por tantos anos de dedicação integral nos seus 51 anos de ministério, sempre fiel a seu lema: “Que minhas mãos sejam uma manjedoura para que Jesus nasça todos os dias”.

Pe. José Artulino Besen

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MONSENHOR HUBERTO BRUENING – VIDA DOADA A MOSSORÓ

Padre Huberto Bruening na juventude

Padre Huberto Bruening na juventude

Huberto Bruening (pode ser grafado Brüning), natural de São Ludgero, SC, filho de Reinaldo Bruening e de Isabel Rohden, nasceu em 30 de março de 1914. Era irmão de Pe. Clemente Bruening, sobrinho do filósofo e teólogo Huberto Rohden e primo irmão de Dom Afonso Niehues.

Com vocação despertada pelas Irmãs da Divina Providência do Colégio Sant’Ana de São Ludgero, seguiu o Pe. Jaime de Barros Câmara, que tinha ido a São Ludgero buscar seminaristas para o novo Seminário a ser iniciado em Florianópolis e, logo depois, foi transferido para Azambuja, Brusque, ocupando dois andares do Hospital local. Assim, integrou a primeira turma do Seminário Menor Metropolitano Nossa Senhora de Lourdes, onde estudou de 1927 a 1936, e cursou o ciclo básico da época, denominado Curso Ginasial e, em seguida, o Curso de Filosofia. Impressionam as disciplinas cursadas nesse estudo filosófico e, mais ainda, pelas disciplinas serem ministradas em latim: lógica, criteriologia, ontologia, cosmologia, psicologia, teodicéia, ética, liturgia, ciências naturais, história da filosofia e canto gregoriano.

Em 1935 seguiu para São Leopoldo, RS, a fim de completar a formação com os estudos teológicos. No meio tempo, aconteceu a eleição de Mons. Jaime de Barros Câmara para 1º. bispo diocesano de Mossoró, RN. Mons. Jaime era extremamente ligado aos seminaristas e não pretendia ir para o Nordeste sozinho, numa diocese carente de vocações e padres. Dom Joaquim Domingues de Oliveira, arcebispo de Florianópolis, permitiu que convidasse alguns seminaristas a acompanha-lo: Huberto Bruening, Ivo Calliari, Arlindo Thiesen, Walmor de Castro foram os que perseveraram. Excetuando Huberto, os três se integraram à vida episcopal de Dom Jaime em Mossoró, Belém do Pará e Rio de Janeiro.

Huberto chegou em Mossoró em 25 de abril de 1936, e foi excardinado da Arquidiocese de Florianópolis em 24 de setembro de 1936. Tendo completado os estudos teológicos em Fortaleza, foi ordenado sacerdote na catedral Santa Luzia, em Mossoró, em 30 de janeiro de 1938. Lema escolhido para o sacerdócio: “Pela graça de Deus sou o que sou” (1Cor 15,10).

Como homem de saber, lecionou nos seminários de Fortaleza, Belém do Pará e Santa Teresinha de Mossoró. Entre outras matérias, lecionou latim, português, alemão, filosofia e música. Durante os quase 60 vividos em Mossoró, Mons. Huberto fez quase tudo: foi Reitor de Seminário, Vigário Geral, Capelão do Hospital, Censor, Cura da Sé catedral e Presidente do Instituto Amantino Câmara, que amparava e abrigava idosos. O Instituto Amantino Câmara foi fundado por Dom Jaime de Barros Câmara em 1941, com o dinheiro que recebeu de herança do irmão, patrono da instituição. Evidente que Mossoró não era apenas a Catedral, mas incluía dezenas de capelas espalhadas pelo território do município, à época com com 3.000 km2.

Além disso, evangelizou e formou aquele povo através do rádio, onde apresentava, sempre às 18 horas, o programa “Mensagens de Fé”. Era homem de fé e de Igreja, rigoroso consigo e com os outros […] Continuar lendo…

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SÃO JOSÉ DE ANCHIETA – O APÓSTOLO DO BRASIL

São José de Anchieta - Alfredo Cherubino - 2014

São José de Anchieta – Alfredo Cherubino – 2014

José de Anchieta nasceu na ilha de Tenerife, no arquipélago das Canárias, em 19 de março de 1534. Era filho de Juán López de Anchieta, um revolucionário que tomou parte na revolta dos Comuneros contra o Imperador Carlos V da Espanha, e grande devoto da Virgem Maria. Descendia da nobre família basca Anchieta (Antxeta). Sua mãe chamava-se Mência Dias de Clavijo e Larena, natural das Ilhas Canárias,filha de cristãos-novos (judeus convertidos). Um seu tataravô, que devia ser um fervoroso judaizante, foi queimado pela Inquisição [1]. O avô materno, Sebastião de Larena, foi um judeu convertido do Reino de Castela, também perseguido pela Inquisição.

Com 14 anos de idade mudou-se para Coimbra, em Portugal, onde foi estudar filosofia no Colégio das Artes, anexo à Universidade de Coimbra. Se era espanhol, por que em Portugal? A ascendência judaica foi determinante, uma vez que na Espanha, à época, a Inquisição era mais rigorosa.

Em 1551 ingressou na Companhia de Jesus como Irmão. O Pe. Manuel da Nóbrega, Provincial dos Jesuítas no Brasil solicitou mais braços para a evangelização e José de Anchieta foi um dos indicados. Chegou ao Brasil em 1553, com apenas 19 anos. Entusiasmado, Anchieta logo pôs-se a estudar o tupi, que aprendeu em seis meses, e consagrou sua vida ao trabalho de evangelização. Sua ação missionária se estendendo de São Paulo à Bahia.

Participou da fundação, no planalto de Piratininga, do Colégio de São Paulo, do qual foi regente, em 25 de janeiro de 1554. Ali nascia a cidade de São Paulo, que ele descreve no mesmo ano em uma carta ao fundador Santo Inácio de Loyola: De janeiro até o presente se fez ali uma pobre casinha feita de barro e palha com catorze passos de comprido e doze de largo, moravam bem apertados os irmãos. Ali tinham escola, enfermaria, dormitório, refeitó­rio, cozinha e despensa (…). As camas eram redes, os cobertores o fogo.

Para mesa usavam folhas de bananas em lugar de guardanapos (…). A comida vem dos índios, que nos dão alguma esmola de farinha e algumas vezes, mas raramente, alguns peixinhos do rio e, mais raramente ainda, alguma caça do mato (…). Todavia não invejamos as espaçosas habita­ções, pois Nosso Senhor Jesus Cristo dignou-se morrer na cruz por nós.

Outra carta indica a data da fundação: 25 de janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo, e, por isso, a ele dedicamos nossa casa.

Cuidava não só de educar e catequizar os aborígenes, mas foi igualmente incansável defensor deles, protegendo-os dos abusos dos colonizadores portugueses que os queriam como escravos e, não raro, se amancebando com mulheres índias. Descendo a serra, evangelizou o litoral sul de São Paulo, passando por Itanhaém e Peruíbe.

Mediador da paz em Iperoig

Padre Manuel da Nóbrega percebeu a facilidade de Anchieta para aprender línguas, de se comunicar com os índios e sua resistência física. Não hesitou, no ano de 1563, em levá-lo junto para as negociações de paz entre os índios tamoios e os colonos portugueses da região de Ubatuba e da Guanabara onde, oito anos antes, os franceses tinham se estabelecido, e se aliaram aos tamoios contra os tupis e os portugueses.

Várias tentativas de expulsar os invasores tinham resultado num impasse, com os dois lados combatendo o tempo todo. Os indígenas de Iperoig – hoje Ubatuba – foram convencidos a se aliar aos da Guanabara, formando a Confederação dos Tamoios.

O governador Mem de Sá encarregara Nóbrega de tentar fazer os tamoios de Ubatuba desistirem dessa aliança. Pe. Anchieta entrou nas aldeias falando em voz alta, como era costume dos índios, em perfeito tupi, demonstrando autoridade. Em pouco tempo ele e Nóbrega puderam construir um pequeno altar na cabana que os abrigava. Anchieta começou a fazer pregações em tupi, abrindo o caminho para evangelizar a tribo.

Tendo Anchieta como intérprete, Nóbrega tratava da paz e ficou sabendo que os tamoios também queriam a paz. Estavam cansados de perseguir e matar portugueses, mas nada tinham a reclamar dos franceses da Guanabara, que lhes davam armas, ferramentas e roupas. O único obstáculo à paz eram os tupis, inimigos dos tamoios e aliados dos portugueses. Vivendo em clima de perigo iminente, Nóbrega e Anchieta ficaram isolados do mundo: os navios em que tinham vindo estavam na Guanabara, onde também se tentava um acordo. E permaneciam sob constante ameaça dos índios mais exaltados, irritados com o simples fato de a tribo ter recebido os dois jesuítas amigos dos portugueses.

Logo Anchieta ficou inteiramente só, como refém, enquanto Nóbrega voltou a São Vicente para finalizar o tratado de paz. Anchieta iniciou a escrever nas areias de Iperoig e a decorar os versos de um longo poema em latim dedicado à Virgem Maria, com 3.000 hexâmetros,  4.172 versos. Foi a primeira epopéia escrita na América e Anchieta o escreveu em cumprimento de um voto: que a Virgem Maria o protegesse para não cair na tentação da carne, tendo diante de si índias nuas oferecidas por chefes. Venceu a tentação. O poema é um completo Tratado mariológico onde, ao lado da oração à Virgem, têm lugar a apologética, a história da Salvação, e profundas revelações de sua vida interior. Significativo foi incluir todo o texto do Cântico dos Cânticos, que sabia de memória. É a teologia mística de serviço de Deus por amor, percorrendo os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, nas palavras do Pe. Murillo Moutinho, SJ [2]. Assim podemos ler quando fala à Chaga de Jesus:

Deixa-me entrar no peito aberto pela lança ir morar no coração de meu Senhor, / por esta estrada chegarei até às entranhas de seu amor piedoso; / aí farei meu descanso, minha eterna morada. / Aí afundarei os meus delitos / no rio de seu sangue, /  e lavarei as torpezas de minh’alma, /  nesta água cristalina. Nesta morada, neste remanso, / o resto de meus dias, quão suave será viver, / aí por fim, morrer!”.

E a beleza de sua espera do último dia:

Minha alma agitada, em meio, tem sede de ti, / torrente abundante / de prazer eterno! / Feliz o dia em que me saciará, /  como em rio transbordante, / a Mãe e o Filho com o seu amor!”.

Terminado o cativeiro, transcreveu de memória o poema inteiro.

Por fim a paz foi acertada. Depois de cinco meses como refém, Anchieta partiu com uma ponta de tristeza: sentia deixar desamparadas as almas que estava conquistando para Cristo. Os índios também não esconderam sua melancolia pela partida do pajé branco que falava com Deus, lhes ensinava a doutrina cristã e tratava de suas doenças.

No mesmo ano de 1563, o perigo da morte, com a qual Anchieta convivera diariamente em Ubatuba, voltou a ameaçar o jesuíta e os índios do Planalto de Piratininga: em sua volta, esperava-o a epidemia de varíola, espalhada pelos europeus, e que mataria trinta mil índios em toda a costa brasileira.

Os férteis campos de Piratininga logo se transformaram num vasto hospital a céu aberto. Nessa ocasião, Anchieta valeu-se de conhecimentos medicinais que possuía e do uso de ervas nativas que tinha descoberto [3]. Nos casos mais graves, recorria aos sangramentos – em média de dez por dia -, que apavoravam os índios, já bastante assustados pela doença que nunca tinham visto.

Em 1566 foi enviado à Bahia com o encargo de informar o governador Mem de Sá do andamento da guerra contra os franceses, possibilitando o envio de reforços portugueses ao Rio de Janeiro. Por essa época foi ordenado sacerdote, aos 32 anos de idade.

No ano de 1569, Anchieta fundou a povoação de Iritiba ou Reritiba, atual Anchieta, no Espírito Santo e ainda dirigiu o Colégio do Rio de Janeiro por três anos, de 1570 a 1573, e onde tinha fundado a Santa Casa de Misericórdia. Em 1577 foi nomeado Provincial da Companhia de Jesus no Brasil, função que exerceu por dez anos. Nessa honrosa e delicada função percorreu o imenso território brasileiro de São Paulo ao Recife, constituindo-se sua grande preocupação o cuidado dos enfermos e moribundos. Como Provincial enviou ao Paraguai os primeiros missionários que formariam o núcleo inicial das famosas Reduções Jesuíticas.

Em 1587 retirou-se para Reritiba (Anchieta, ES), mas teve ainda de dirigir o Colégio dos Jesuítas em Vitória do Espírito Santo, até 1595.

Evangelizador, catequista, literato e santo

Para a catequese, os padres compuseram cantigas em tupi e colocaram letras cristãs em músicas indígenas. Além disso, serviram-se de danças e teatros que comunicavam de modo compreensível a mensagem cristã. As crianças aprendiam os cantos e danças e depois os retransmitiam aos adultos. “Com a música e a harmonia eu me atrevo a trazer a mim todos os indígenas da América”, escreveu o Pe. Manoel da Nóbrega. Um método de inculturação criticado pelo primeiro bispo do Brasil, Dom Pedro Fernandes Sardinha e que lhe valeu uma admoestação da Inquisição; respondia às ameaças com “Acabarei com as Inquisições a flechadas”.

Todo o trabalho missionário possibilitou que até 1600 tivessem sido batizados 100 mil índios brasileiros. Os jesuítas apenas batizavam aqueles que superavam as rigorosas etapas de um prolongado catecumenato. E mais não foi feito porque o destino dos índios era o cativeiro e a morte nas fazendas aonde eram levados para o trabalho forçado.

Pe. José de Anchieta, o “Apóstolo do Brasil”, fundador de colégios e cidades, missionário incomparável, foi gramático, poeta, teatrólogo, historiador e fino redator de cartas. O intenso apostolado não o impediu de cultivar as letras, compondo seus textos em quatro línguas – português, castelhano, latim e tupi, tanto em prosa como em verso. O movimento de catequese influenciou seu teatro e sua poesia, resultando na melhor produção literária do Quinhentismo brasileiro. Sua vasta obra só foi totalmente publicada no Brasil na segunda metade do século XX. No início do 3º. milênio tem início uma avaliação positiva de sua obra, com o reconhecimento de seu valor literário por parte da crítica.

Sua primeira peça, “Pregação universal”, escrita por sugestão de Pe. Manoel da Nóbrega, foi encenada pela primeira vez em 1567. O título “universal” se referia às três línguas usadas, tupi, português e espanhol. Escreveu 11 peças teatrais onde, ao lado inseparável da finalidade catequética e evangelizadora, percebe-se qualidade literária, tendo como modelo a forma de Auto religioso da Idade Média, escrito em versos [4]. Dessas encenações, Pe. Fernão Cardin cita um “artista”, o índio Ambrósio Pires, em 1585, no papel de Anhangá, um diabo, na peça “A Aldeia de Guaraparim”: “A esta figura fazem os índios muita festa, por causa de seus gatimanhos e trejeitos”.

O Brasil lhe deve a primeira gramática da língua tupi, com a qual, praticamente, criou uma nova língua, a “língua geral”: a “Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil”, impressa em Coimbra em 1595, já havendo a versão manuscrita desde 1556, no Colégio da Bahia. É a primeira gramática contendo os fundamentos da língua tupi com suas variantes [5].

O trabalho de Anchieta foi decisivo para a implantação do catolicismo no Brasil. Com seu conhecimento e sua fé, percorreu a pé, a cavalo, em embarcações, boa parte do território brasileiro de São Paulo ao Recife. Além de abrir caminhos que se transformariam em estradas, contribuiu para manter unificado o país nos séculos seguintes. Lançou os fundamentos da catequese e educação dos jesuítas no Brasil e começou a reverter o quadro iniciado desde o descobrimento, em que os nativos eram vistos apenas como propriedade da Coroa e, como tal, passíveis de serem escravizados. Defendeu sua dignidade de filhos de Deus. Com seus dotes inatos de comunicador, conseguiu com o indígena um amplo entendimento.

Por todos admirado como santo e milagroso, cansado das viagens, enfraquecido, em 9 de junho de 1597 Deus o chamou em Reritiba, onde residia desde 1587. A campanha para a sua beatificação foi iniciada na Capitania da Bahia em 1617, mas passou pelas vicissitudes de sua Ordem e não teve continuidade devido à perseguição de Pombal que expulsou os jesuítas do Brasil em 1759 e à supressão da Companhia de Jesus em 1773, sendo restaurada em 1814. O Apóstolo do Brasil foi declarado bem-aventurado pelo Papa João Paulo II em 22 de junho de 1980 e canonizado por Francisco em 3 abril de 2014.

Hoje, muitas pessoas procuram percorrer o caminho “Os Passos de Anchieta”, que resgata o trecho de 105 quilômetros compreendidos entre Anchieta e Vitória, e que José de Anchieta percorria regularmente duas vezes por mês, o denominado “caminho das 14 léguas”. Anchieta vencia a distância – frequentemente na dianteira – na companhia dos guerreiros temiminós que o acompanhavam na missão de cuidar do Colégio de São Tiago, erguido num platô da Vila da Nossa Senhora de Vitória, hoje transformado no Palácio do Governo, na cidade de Vitória do Espírito Santo, e onde jazem parte de seus restos mortais.

Essa “energia” de Anchieta incluía um físico frágil, menos de 1,60 metro e sofrendo fortíssimas dores nas costas, que poderiam ser provocadas pela tuberculose óssea. A doença já tinha se manifestado em Coimbra e, na tentativa de aplacar a dor, usava cintas apertadas, o que só contribuía para piorar o sofrimento. Nunca se queixou e se apresentava sempre disposto. Sua interioridade espiritual era vivida na Cruz, nas noites que passava em íntimo colóquio com Deus e no amor incondicional aos índios brasileiros.

Pe. José Artulino Besen

DOIS POEMAS DE ANCHIETA

Jesus na Manjedoura

– Que fazeis, menino Deus,
Nestas palhas encostado?
– Jazo aqui por teu pecado.

– Ó menino mui formoso,
Pois que sois suma riqueza,
Como estais em tal pobreza?

– Por fazer-te glorioso
E de graça mui colmado,
Jazo aqui por teu pecado.

– Pois que não cabeis no céu,
Dizei-me, santo Menino,
Que vos fez tão pequenino?

– O amor me deu este véu,
Em que jazo embrulhado,
Por despir-te do pecado.

– Ó menino de Belém,
Pois sois Deus de eternidade,
Quem vos fez de tal idade?

– Por querer-te todo o bem
E te dar eterno estado,
Tal me fez o teu pecado.

Ao Santíssimo Sacramento

Oh que pão, oh que comida,
Oh que divino manjar
Se nos dá no santo altar
Cada dia.

Filho da Virgem Maria
Que Deus Padre cá mandou
E por nós na cruz passou
Crua morte.

E para que nos conforte
Se deixou no Sacramento
Para dar-nos com aumento
Sua graça.


[1] Cf. ANITA NOVINSKI: Padre Anchieta: cristão ou judeu?. Folha de São Paulo, 24 de janeiro de 2014, opinião, A3. Historiadora e professora da USP, tem dedicado suas pesquisas à presença de cristãos velhos e cristãos novos no Brasil.

[2] Bibliografia para o Centenário da Morte de José de Anchieta. 1597-1997. São Paulo: Edições Loyola, vol. I. p. 204ss.

[3] Anchieta tinha especial inclinação para a medicina, profissão tradicional entre judeus e realizou inúmeras curas, afirma A. NIVINSKI, op. cit.

[4] NELSON DE SÁ: A restauração de Anchieta. Folha de São Paulo, 25 de janeiro de 2014, Caderno Ilustrada, E1. O autor discorre com simpatia sobre a obra de Anchieta, citando a opinião atual de diversos críticos literários. Ariano Suassuna percebe até ecos de Aristófanes no texto todo em tupi da peça “Na Aldeia de Guaraparim”, especialmente a fala de um demônio chamado Tatapitera: “Transtorno o coração das velhas, irritando-as, fazendo-as brigar. Por isso as malditas correm como faíscas de fogo, para ficar atacando as pessoas, insultando-se muito umas às outras”.

[5] Há um exemplar desta primeira edição na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na USP. Na folha de rosto está escrito “nomen Domini tvrris fortíssima”, castelo forte é nosso Deus (Prov 18,10).

 

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ZUMBI E A REPÚBLICA DOS PALMARES

A Lei federal 10.639 de 9 de janeiro de 2003 estabeleceu a comemoração do Dia da Consciência Negra para 20 de novembro, recordando que em 1695, nesse dia, foi morto o líder negro Zumbi dos Palmares, comandante do quilombo dos Palmares de 1678 a 1695, morrendo heroicamente na defesa da liberdade de seu povo. Podemos aproveitar a data para algum conhecimento dessa grande epopéia de negros que por quase um século (1602-1695) viveram e construíram a República dos Palmares no território atual de Alagoas e que tem a ver com as fugas enfrentadas pelos negros para se livrarem do regime escravo.

A forma mais comum da busca da liberdade foi a fuga em grupo, formando mocambos (esconderijos) ou quilombos (povoações). Não há dados confiáveis sobre o número de quilombos, mas sabe-se que existiram da Amazônia ao Rio Grande do Sul. O mais conhecido de todos esses sinais da resistência negra foi o quilombo de Palmares, que ocupava uma área de 200 km2 na serra da Barriga, Alagoas. Na verdade, Palmares era constituído de 12 quilombos, chegando a ter 20 mil moradores e 6 mil casas. Formou uma república com vida própria e relações comerciais com o Brasil.

Evidente que essa organização ameaçava continuamente o modo de produção escravista, tanto português quanto holandês (1630-1654), pois privava da valiosa e cara mão-de-obra escrava as fazendas das quais continuamente fugiam negros. Houve reação militar, mas, após inúmeros ataques com a destruição e incêndios de quilombos, eles eram reconstruídos, e passou a ser economicamente desinteressante atacá-los, pois sua produção era significativa e necessária para uma grande região que ia das margens do rio São Francisco até o Cabo de Santo Agostinho. Os habitantes dos quilombos faziam esteiras, vassouras, chapéus, cestos e leques com a palha das palmeiras. E extraíam óleo da noz de palma, as vestimentas eram feitas das cascas de algumas árvores, produziam manteiga de coco, plantavam milho, mandioca, legumes, feijão, banana, laranja e cana-de-açúcar e comercializavam seus produtos com as povoações vizinhas de brancos e mestiços. É após essa conclusão que surge a proposta de paz de 1678, aceita por Ganga Zumba e rejeitada por Zumbi.

De acordo com José Murilo de Carvalho (“Cidadania no Brasil”, p. 48), “os quilombos mantinham relações com a sociedade que os cercavam, e esta sociedade era escravista. No próprio quilombo dos Palmares havia escravos, além de brancos e mestiços. Não existiam linhas geográficas separando a escravidão da liberdade”. Para alguns estudiosos, no entanto, a escravidão nos quilombos não se assemelhava à cruel e desumana escravidão dos brancos sobre os negros, sendo os escravos lá considerados como membros das casas dos senhores, aos quais deviam obediência e respeito.

A história da República de Palmares

O quilombo de Palmares teve início em 1602, com a fuga de 40 escravos de Porto Calvo, Pernambuco, liderados pela princesa e guerreira africana Aqualtune, filha de um rei do Congo capturada pelos portugueses e vendida como escrava no Brasil*. Seu caminho: a fuga e a organização da liberdade. Aqualtune é, dependendo da tradição, a mãe ou avó de Ganga Zumba.

Reconstituição da Casa de Governo dos Palmares na Serra da Barriga

Décadas depois, a existência de Palmares era tão visível que em 1691 um religioso italiano pediu ao rei que enviasse um capelão para assistir aos negros do quilombo, o que não foi efetivado pela oposição do Pe. Antônio Vieira: para ele todos os fugitivos estavam em pecado mortal e excomungados, pois tinham fugido de seus legítimos senhores. Os quilombolas, porém, há muito tempo tinham encontrado uma solução: quando precisavam de um sacerdote, iam à cidade, convidavam ou seqüestravam um que administrasse os sacramentos e depois o libertavam.

O rei Ganga Zumba foi o grande estadista do quilombo. Era um negro alto e forte que chegou a Palmares por volta de 1630. Nesta época, Palmares era formado por povoados e mocambos. Ganga Zumba sabia que um quilombo unido dificilmente seria vencido, e procurou os líderes locais.

Sob seu comando, gradualmente diversos quilombos se juntaram ao quilombo de Palmares, ou Janga Angolana/Pequena Angola, sob seu comando. Reuniu os onze maiores mocambos em uma confederação e foi eleito comandante geral. E assim, iniciou-se o período mais próspero e feliz da existência de Palmares. Ganga Zumba, que governava a maior das vilas, a Cerca do Macaco (hoje União dos Palmares), presidia o conselho de chefes dos quilombos e era considerado o Rei de Palmares. Os outros assentamentos eram comandados por irmãos, filhos ou sobrinhos de Ganga Zumba. Zumbi era chefe de uma das comunidades e seu irmão Andalaquituche comandava outra. Pelo estudo de sítios arqueológicos, são essas as comunidades: Cerca do Macaco (sede), Loango, Ambundu, Andalaquituche, Quisama, Osenga, Zande, Dambrabanga, Acotirene, Subupira, Tabocas.

Com referência às populações, Palmares reunia africanos, índios, mouros muçulmanos, europeus e marginalizados em geral. Transformou-se no mais importante centro de resistência africana, indígena e de outros grupos marginais da ordem escravagista. A cultura que surgiu dessas bases combinava elementos africanos, europeus, ameríndios e provenientes da senzala, de maneira complexa, inovadora e variada.

Ali se dançava a capoeira, congada, maracatu e samba, tocavam-se tambores, berimbaus, adufes e agogôs. Nascimentos, mortes, plantios, colheitas, vitórias e manifestações da natureza eram comemorados comunitariamente com danças, músicas e baticuns.

Por volta dos anos de 1670, Ganga Zumba tinha palácio, guardas, ministros e súditos devotos. O complexo era formado por 1.500 casas que abrigavam sua família, guardas e oficiais que faziam parte de nobreza.

Protegidos pela densa mata atlântica, os quilombolas usavam táticas de guerrilha avançada para surpreender e derrotar expedições portuguesas e holandesas ao longo de décadas. As tropas portuguesas somente conseguiram adentrar o reduto palmarino armadas de canhões e escopetas.

Para tentar acabar com as tentativas de invasão que não cessavam e que obrigavam os habitantes de Palmares a viverem sempre na expectativa de uma guerra, Ganga Zumba, em 1678, decidiu aceitar negociar uma paz duradoura oferecida pelo governo brasileiro.  Nesse ano, Ganga Zumba recebeu um oficial enviado pelo governador pernambucano Pedro de Almeida com uma proposta de paz em que oferecia união, um bom tratamento, terras e uma promessa de devolver as mulheres e filhos que estavam em seu poder. Seria o reconhecimento oficial da nação palmarina.

O rei Ganga Zumba aceitou por acreditar no tratado de paz oferecido pelo Governador, o qual requeria que os habitantes de Palmares se mudassem para o Vale do Cucau. Continuariam usufruindo de liberdade, mas, com o compromisso de entregarem todos os escravos fugitivos que aí chegassem após o acordo. O tratado foi desafiado por Zumbi, que se revoltou contra o rei. Zumbi não admitia que uns negros fossem libertos e outros continuassem escravos. Além do mais, eles tinham suas próprias leis e crenças e teriam que abrir mão de sua cultura.

Na confusão que se seguiu, Ganga Zumba foi envenenado, muito provavelmente por um dos seus, por ter aceito o tratado com os portugueses. De fato, houve quebra do tratado e os que se mudaram para o Vale do Cucau foram reescravizados pelos portugueses. A resistência palmarina continuou com Zumbi.

Zumbi dos Palmares – Monumento no Terreiro de Jesus em Salvador

Zumbi dos Palmares – herói de seu povo

Em 1678, Zumbi (o nome significa A força do espírito) assumiu o lugar de Ganga-Zumba em Palmares e passa a comandar a resistência contra as tropas portuguesas. Ele e a maioria do povo do quilombo não acreditaram na paz dos brancos. A resistência negra durou até 1694, tendo sido necessárias 25 expedições militares para derrotá-la.

Zumbi nasceu em Palmares, Alagoas, livre, no ano de 1655. Teve a mãe assassinada quando fugia para o quilombo, mas foi capturado e entregue ao vigário de Porto Calvo, Pe. Antônio de Melo, que o instruiu nas disciplinas de latim, geometria, matemática e português. Recebeu o nome de José Francisco da Silva. Apesar destas tentativas de aculturá-lo, Zumbi escapou em 1670 e, com quinze anos, retornou ao seu local de origem, o Quilombo de Palmares.

Zumbi se tornou conhecido pela sua destreza e astúcia na luta e já era um estrategista militar respeitável quando chegou aos vinte anos. Casou-se com Dandara, guerreira negra, mãe de seus três filhos.

Como vimos, Zumbi tinha assumido a liderança do quilombo em 1678 quando destituiu Ganga Zumba por ter assinado um tratado de paz com o governador de Pernambuco, o que poderia preservar a República dos Palmares.

Quinze anos após Zumbi ter assumido a liderança, o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho foi chamado para organizar a invasão do quilombo. Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira de Melo, à frente de um exército de 9 mil homens com escopetas e canhões, comandaram o ataque final contra a Cerca do Macaco, na Serra da Barriga, principal quilombo de Palmares. Era cercada com três paliçadas, cada uma defendida por mais de 200 homens armados. Em 6 de fevereiro de 1694, após 92 anos de resistência, Palmares sucumbiu ao exército português e foi destruída e, embora ferido, Zumbi conseguiu fugir. Dandara, sua esposa, suicidou-se depois de presa, em 6 de fevereiro de 1694, para não voltar à condição de escrava. A mesma sorte escolheram muitos negros, atirando-se num precipício. Foi registrado um dos grandes massacres da história brasileira, onde foram degolados homens, mulheres e crianças.

Apesar de ter sobrevivido, Zumbi foi traído pelo companheiro Antônio Soares e surpreendido pelo capitão Furtado de Mendonça no reduto onde se escondera. Apunhalado, resistiu, mas foi morto com 20 guerreiros quase dois anos após a batalha, em 20 de novembro de 1695. Teve a cabeça cortada, salgada e levada, com o pênis dentro da boca, ao governador Melo e Castro. Em Recife, a cabeça foi exposta em praça pública, visando desmentir a crença da população sobre a lenda da imortalidade de Zumbi.  Ainda no mesmo ano, D. Pedro II de Portugal recompensou com 50 mil réis o capitão Furtado de Mendonça por “haver morto e cortado a cabeça do negro dos Palmares do Zumbi”.

Zumbi e grande parte dos palmarinos morreram, não seu povo e sua cultura entranhados no povo brasileiro. O Brasil foi construído pelos negros durante 400 anos: é inegável sua contribuição social, econômica, cultural, política e religiosa. São apenas 100 anos de trabalho branco. Conhecer a África e seus descendentes brasileiros é parte do conhecimento do povo brasileiro.

* Não procede a tradição de que tenha comandado soldados na batalha de Batalha de Mbwila/Ambuíla, no Congo, pois essa aconteceu em 1665. O mesmo se diga a respeito de Zumbi: não era neto da princesa Aqualtune. É normal que os heróis façam nascer mitos. A arqueologia na região dos Palmares ainda é incipiente, mas, pode-se dizer, a bibliografia anglo-saxônica é mais objetiva a respeito dos quilombos.

Pe. José Artulino Besen

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DOM ALOÍSIO LORSCHEIDER – PADRE DA IGREJA

Dom Aloísio Lorscheider, OFM

Ao morrer, em 2007, Dom Aloísio estava entre os Padres que participaram de todas as Sessões do Concílio Vaticano II (1962-1965). No Brasil, em 2012 vivem cinco e, no mundo, 76, todos eméritos e participaram de alguma sessão. E, sem dúvida, Dom Aloísio foi o homem colocado pela Providência para liderar a Igreja no Brasil na semeadura do espírito conciliar, especialmente através da unidade com o colégio episcopal brasileiro e latino-americano. Um homem fiel e um homem que viveu sempre a liberdade na profecia.

Dom Aloísio Lorscheider nasceu em 8 de outubro de 1924 no município gaúcho de Estrela. Seu nome de batismo foi Leo Arlindo, depois substituído pelo nome religioso de Frei Aloísio, em 1944. Foi ordenado presbítero em 1948, aos 24 anos. Numa conferência por ele proferida por ocasião do cardinalato tranqüilamente referiu que nunca duvidou de sua vocação, razão de sua alegria e empenho na vida.

Foi atuante na Ordem franciscana, tendo sido visitador da Ordem em Portugal e professor no Pontifício Ateneu Antonianum, em Roma. Sua simplicidade natural escondia um intelectual rigoroso, teólogo competente e um poliglota que dominava o latim, inglês, francês, alemão, italiano, espanhol e flamengo.

Aos 38 anos, em 3 de fevereiro de 1962, foi nomeado pelo Papa João XXIII primeiro bispo da Diocese de Santo Ângelo, RS, sendo sagrado bispo em 20 de maio de 1962. Seu lema episcopal traduziu sua vida: IN CRUCE SALUS ET VITA (Na Cruz, a Salvação e a Vida). No dia 12 de junho, tomou posse da Diocese e, por 11 anos, foi seu bispo diocesano. Sua dedicação à Igreja, aos pobres e doentes deu testemunho de um verdadeiro bom Pastor. Chegou a percorrer a pé 18 quilômetros para atender um enfermo em estado grave.

Dom Aloísio teve a graça de participar ativamente de todas as sessões do Concílio Vaticano II (1962-1965) sendo eleito, em novembro de 1963, membro da Comissão Conciliar para a Secretaria de União dos Cristãos.

Participou de todos os Sínodos dos Bispos em Roma, ordinários e extraordinários, e das Conferências Gerais de Medellín (1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992). As decisões nelas tomadas pelo episcopado eram também suas decisões na pastoral diocesana.

Renovação na pastoral da Igreja no Brasil

Seu longo episcopado foi contínua vivência e aplicação do Concílio: Igreja povo de Deus, Igreja comunhão e, no seu empenho pessoal, a Colegialidade episcopal que o fez dar nova vida à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil– CNBB, da qual foi Secretário Geral de 1968 a 1971, e Presidente eleito duas vezes: de 1971 a 1975 e de 1975 a 1978. Também se destacou como secretário nacional de Teologia e Ecumenismo da CNBB. Juntamente com seu primo Dom Ivo Lorscheiter e Dom Luciano Mendes de Almeida marcou um período de grande vitalidade e transformação na Conferência Nacional dos Bispos.

Sua humildade e desprendimento silenciosamente plantaram no conjunto dos bispos brasileiro um espírito renovado, onde a fé nunca deve estar desligada da vida, e da vida do povo brasileiro. Foi a época do grande impulso da ação dos bispos brasileiros na busca de pastoral de conjunto e a ação corajosa em defesa dos direitos humanos no auge da ditadura militar, de 1968 a 1978. Homem que não levantava a voz mas, com mansidão e coragem decidida denunciava as injustiças praticadas pelo regime, não receando falar diretamente com os generais governantes em Brasília. Sabia ser respeitoso mediador em situações de conflito, não sentindo a necessidade de agradar.

No mesmo período incentivou os Regionais da CNBB a se unirem para encaminhar soluções aos problemas próprios, com a formulação de documentos que marcaram época: a miséria e a seca nordestina (Ouvi os clamores de meu povo), os índios na Amazônia (O índio, aquele que deve morrer), os direitos humanos (Não oprimas teu irmão) e a ética na política (Exigências cristãs de uma ordem política) . A CNBB foi porta-voz da Igreja e da sociedade brasileira na luta pela democratização. Estimulou a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base-CEBs e a organização de movimentos populares. Sua liderança era tão marcante e fraterna que tudo parecida ter brotado dos outros e nada dele. Importante é o Povo de Deus.

Empenhou-se, igualmente, no fortalecimento da colegialidade episcopal latino-americana: em 1972, foi eleito primeiro Vice-Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano-CELAM e reeleito em 1975, assumindo a presidência em 1976.

Além disso, foi eleito vice-presidente da Cáritas Internacional, reeleito em 1972 e assumindo a presidência em fevereiro de 1974.

Arcebispo de Fortaleza e Cardeal

Dom Aloísio Lorscheider, OFM

No dia 4 de abril de 1973, o papa Paulo VI nomeou-o Arcebispo de Fortaleza, assumindo em 5 de agosto. Dom Aloísio tinha a missão desuceder ao santo salesiano Dom Antônio de Almeida Lustosa, que morreu em 14 de agosto de 1974 e cujo processo de beatificação foi encaminhado. Até se perguntava o que um alemão gaúcho faria em Fortaleza. Os verdadeiros pastores são pastores onde se encontra o povo que Deus lhe confia.

Dom Aloísio estimulou a formação do clero, favoreceu que tirassem um ano sabático para estudos, zelou pela formação dos seminaristas. Além disso, reformou e readequou as estruturas da arquidiocese pois, nele, teólogo e franciscano, residia também um hábil administrador. Seus grandes feitos de construtor: a conclusão da imponente Catedral de Fortaleza, as novas instalações da Cúria arquidiocesana, a construção e a ampliação de seminários, as escolas comunitárias na periferia da capital, as 382 casas populares.

No Ceará, fez campanha em favor da reforma agrária e pelo fim dos conflitos de terra no Estado, dando o exemplo com a partilha e entrega de propriedades rurais da Igreja aos seus moradores.

Dom Aloísio Lorscheider, refém na rebelião do Presídio Paulo Sarasate de Fortaleza – CE

Na grande seca de 1978-1983 colocou-se do lado dos sertanejos famintos que se apossavam de alimentos nos armazéns do Governo e que não estavam sendo distribuídos. Defendeu o direito primordial à vida, para escândalos dos bem pensantes e bem viventes. Não foram poucas as ameaças de morte recebidas e que nunca o intimidaram. Visitava os presídios, levando guloseimas e cigarros aos presidiários. Em 15 de março de 1994, ao visitar os presos no Presídio Paulo Sarasate em Fortaleza do qual se denunciavam as precárias condições, aconteceu um motim e foi tomado como refém pelos detentos. Só foi libertado após 18 horas. Quinze dias depois, retornou ao presídio para realizar a cerimônia do Lava-pés com os presos.

Suas grandes iniciativas: a fundação do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos (CDPDH); a criação do Mensageiro da Fraternidade, ambos dotados da infra-estrutura necessária e em pleno funcionamento; a descentralização da Arquidiocese com a criação das Regiões Episcopais metropolitanas e interioranas de Pastoral. Sua atuação constante junto aos Meios de Comunicação Social: visitas às Emissoras de TV e Jornais, encontros com jornalistas e telecomunicadores; entrevistas, coletivas de imprensa, conferências etc.

Podia-se vê-lo no sertão do Ceará, sob raios de sol esbraseante, a confessar uma pobre penitente, ambos sentados numa tora de madeira ao abrigo de um simples guarda-sol. Sentiu a importância dos centros de peregrinação: todos os anos, invariavelmente, era o primeiro a sentar-se no confessionário ainda pela madrugada para ouvir em confissão os romeiros em Canindé durante a festa de São Francisco. Isto, sempre, até quando com a saúde já abalada, até no dia seguinte à sua volta de São Paulo após a primeira cirurgia do coração. Deu nova vida a esse grande centro de espiritualidade no norte cearense.

No dia 24 de abril de 1976, Paulo VI nomeou-o Cardeal da Santa Igreja romana. Sinal de reconhecimento e apreço pessoal, pois Fortaleza não era sede cardinalícia. Nessa condição, em 1978 participou dos dois conclaves que elegeram os papas João Paulo I e João Paulo II. Seu nome correu como um dos possíveis a serem eleitos e João Paulo I confidenciou que votara nele para Papa.

Como Cardeal, foi escolhido membro do Secretariado para a União dos Cristãos, do Conselho Pontifício “Cor Unum”, da Congregação para os Bispos e Congregação para o Clero, na Cúria Romana. Mede-se a importância de um Cardeal pelos encargos que o Papa lhe confia e a palavra de Dom Aloísio tinha peso especial, pois não era um teórico ou carreirista, mas homem visceralmente de Igreja.

No Santuário Nacional de Aparecida

A saúde do coração de Dom Aloísio não era boa, tendo passado por sérias cirurgias, sempre se pensando que chegara ao fim. Mas, nada demovia o incansável arcebispo que de 1995 a 2004 foi ainda arcebispo de Aparecida, o coração mariano brasileiro.

Revelou-se também hábil administrador empreendendo campanhas nacionais para a conclusão do Santuário-Basílica, a construção de centro comercial afastado para que os camelôs não perturbassem os romeiros e devotos.

Consciente da importância do Santuário, conseguiu da CNBB a indicação do Santuário de Aparecida como Santuário Nacional, onde cada bispo possa sentir-se como em sua Igreja. Para isso, transferiu a sede a Catedral de Aparecida para a igreja matriz Santo Antônio de Guaratinguetá.

Percebendo que muitos fiéis reduziam a devoção a Santo Antônio Galvão às famosas “pílulas milagrosas” engolidas para obter curas, não teve dúvidas de proibi-las em nome da fé e contra usos supersticiosos.

No meio das muitas atividades encontrava tempo para responder às cartas de pessoas do interior cearense, revelando sua simplicidade para agradecer pequenos gestos, como nessa carta à comunidade de Aratuba em 29 de dezembro de 1985, escrita como arcebispo de Aparecida: “… Quero agradecer muito a amizade que sempre tiveram para comigo. Lembro o Caboclo caçando os nhambus e preparando-os para mim com toda a delicadeza. Ele ficava numa satisfação única podendo oferecer-me os nhambus fritos. Muito o brigado a ele! Mas nos nhambus ia toda a cortesia e amizade de vocês. E quando eu vinha a Aratuba, mesmo nos tempos de seca, vocês enchiam o altar de tanta verdura, legume, ovo, galinha, que eu nem conseguia levar tudo no carro. Quanto sacrifício da parte de vocês…”.

Com a saúde sempre mais precária, em 2004 o Papa aceitou sua renúncia e, como humilde frade, o Cardeal Arcebispo passou a residir no Convento Franciscano de Porto Alegre. Ao ser-lhe perguntado que título escrever na porta de sua cela, respondeu prontamente: “Frei Aloísio!” Ali veio a falecer em 23 de dezembro de 2007. A seu pedido, seu corpo foi sepultado no Convento São Boaventura, no município de Imigrante, onde iniciara sua vida franciscana.

Em Dom Frei Aloísio Lorscheider a Igreja no Brasil reconhece um Padre da Igreja à imagem de Francisco de Assis.

Pe. José Artulino Besen

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DOM LUCIANO – SERVO DOS POBRES E PEQUENOS

Dom Luciano Mendes de Almeida

Ernesto Olivero, fundador do Sermig (Serviço Missionário Jovens) em Turim e com presença em São Paulo, autoridade internacional quando se fala em aplicar concretamente as Bem-aventuranças, parece até se exceder quando perguntado sobre o amigo Dom Luciano Mendes de Almeida:

É o maior homem dos últimos séculos. Era um sacerdote até a medula, um modelo para todo padre. Um jesuíta, mas também um Francisco de Assis, com a cabeça de Platão e a mão de Leonardo da Vinci. Um verdadeiro gênio, Nós o vimos morrer entre dores atrozes. Também nisso deu-nos uma lição de vida.

É esse o seu depoimento após longa convivência com Dom Luciano, com quem se encontrou centenas de vezes.

Quando entra em pauta no Congresso brasileiro a redução da maioridade penal, está se ferindo profundamente a memória de Dom Luciano, batalhador incansável pelo encaminhamento e aprovação do “Estatuto da Criança e do Adolescente”, em 1989. O Brasil foi pioneiro nessa legislação, pois a UNESCO votou seu Estatuto no ano seguinte. Infelizmente o próprio episcopado brasileiro não tem feito mais do que declarações de princípios e não oposição sábia e serena de princípios que ele mesmo lutou para serem aprovados. Como se pode alterar o princípio constitucional da maioridade penal após os 18 anos, se nem foram aplicadas as premissas do acolhimento, educação, ambiente familiar, correção previstos no ECA? Incluo esses parágrafos nessa data de 10 de junho de 2015 como memória de gratidão a um batalhador pela formação da criança e adolescente de nossa país.

Bisneto de Cândido Mendes de Almeida, jurista e senador do Império, neto do primeiro Conde Mendes de Almeida, filho do Conde Cândido Mendes de Almeida Júnior e Emília de Melo Vieira Mendes de Almeida, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, nascido no Rio de Janeiro em 1930, teve no sangue e no berço o instinto do intelectual engajado, brilhante e respeitoso de todas as opiniões. É de sua família a universidade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro. Aos 16 anos ingressou na Companhia de Jesus e foi ordenado presbítero em Roma, em 5 de julho de 1958. Filósofo e teólogo, brilhava pela cultura cosmopolita, dominando o português, inglês, alemão, francês, italiano, espanhol e latim.

Homem de intensa atividade, que conciliava com intensa oração. Seus colegas jesuítas, ao verem-no carregando pequena mala, não sabiam se estava saindo ou chegando. Cioso do tempo, não passava a impressão disso, pois sabia escutar e dirigir a conversa ao essencial.

Seu engajamento social e espiritualidade comprometida despertaram a atenção do arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns,ofm, que conseguiu tê-lo como Bispo auxiliar para a região episcopal paulista de Belém, sendo ordenado bispo em 2 de maio de 1976, escolhendo como lema episcopal In nomine Iesu – Em nome de Jesus. Ali Dom Luciano era imagem do bom pastor e do bom samaritano. Ao final de um dia de trabalho, noite avançada, recolhia os mendigos que dormiam na soleira de sua casa, lavava-lhes os pés, fazia-lhes as unhas e preparava pessoalmente uma substancial sopa, servida carinhosamente a cada um. Colocava mendigos a dormir em sua cama, ele contentando-se com o chão. Os pobres eram os únicos que sabiam onde encontrá-lo. Isso lembra os bispos da Alta Idade Média: ao chegar na cidade, as pessoas sabiam onde residia o bispo: bastava olhar onde havia uma fila de pedintes. Ali morava o bispo, o “Pai dos Pobres”.

Tudo isso era feito com alegria, e aumentava sua felicidade de viver. À pergunta “quais os momentos mais felizes de sua vida?”, pouco antes de sua morte, respondeu:

Minha vida toda é muito feliz. Uma das coisas que Deus me faz compreender é o valor da história e da consciência. O processo do Plano Divino de Salvação se faz em todos os momentos, tudo tem uma carga axiológica, um valor especial. Claro que há momentos de mais intensidade, tanto nas alegrias quanto nas tristezas, eu diria na vivência profunda da história. Poderia sublinhar alguns momentos felizes. 

O primeiro é o contato com o sofrimento humano, perceber que a história é muito marcada por aspectos positivos e também negativos. Penetrar nesse sofrimento, comungar com esse sofrimento, partilhar esse sofrimento, creio que isso proporciona uma carga existencial muito grande. 

Trabalhei cinco anos na prisão, na Itália, depois com as populações mais pobres na periferia de são Paulo, hoje com os ambientes rurais pobres de Mariana. Eu creio que isso dinamiza muito a própria vida numa fase de experiência e comunhão existencial.

Bispo com os bispos, cristão com todos

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB vivia a época dos grandes compromissos com os direitos humanos e a justiça social: os bispos o elegeram Secretário geral entre 1979-1987, e Presidente entre 1987-1991. Ao ser eleito Presidente, com singeleza respondeu a um jornalista que queria conhecer sua “plataforma”:

«Peço a Deus atuar na conversão dos homens do egoísmo ao verdadeiro amor, sem conformismo e sem a impaciência dos violentos, para que as estruturas da convivência humana correspondam cada vez mais à dignidade dos filhos de Deus».

E assim fez sempre, sem outra bandeira que a da dignidade dos filhos de Deus.

Augustinho Wernet, historiador e professor da USP, ex-jesuíta, assim o definiu:

«Dom Luciano era um padre que rezava de verdade, praticava a caridade de modo radical; neste mundo secularizado viveu uma religiosidade de cunho bíblico e evangélico».

Sua capacidade para o diálogo e incapacidade para alimentar conflitos sem abandonar valores cristãos e eclesiais fez com que fosse indicado para visitar regiões de conflito em nome do episcopado latino-americano. Desse modo, passou por todos os países da América Central, que por anos sofreram a morte e a destruição de guerras civis. Nos anos 1980-90 entrou em contato com a Guatemala, El Salvador, a Nicarágua, Honduras, o Panamá, mais tarde também com Cuba, e tudo isso despertando fortemente nele a consciência da América Latina. Foi vice-presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano-CELAM (1995-1999).

Viveu os momentos dramáticos dos funerais de Dom Oscar Romero (assassinado durante a missa em 24 de março de 1980), em El Salvador. Foi um dos três bispos presentes e viu a explosão da bomba, o tiroteio contra a população, as mortes na praça, vivendo um momento de grande dramaticidade, ajudando no enterro de Oscar Romero dentro da igreja, horas, e horas, e horas, junto com aquele povo que tão sofrido.  Dom Luciano, ao dizer “fui um dos três bispos”, poderia ter acrescentado que os outros bispos salvadorenhos não comungavam com Dom Romero e não participaram de seu sepultamento. Mas não o fez, pois o importante é que ele estava ali, com o povo.

Experimentou, também, a guerrilha e a situação de conflito no Líbano, onde esteve em contato com doze grupos religiosos diferentes em 1987. Era um momento de grande aflição para o Líbano, e ali, falando com os sunitas, com os xiitas, com maronitas, os armênios, com os caldeus, ficando muito impressionado com o sofrimento daquele povo, que buscava de novo a sua harmonia, o seu diálogo depois de tantos momentos de aflição.

Como bispo, cristão e brasileiro, ficou marcado pelas injustiças com problemas de terra no Brasil, especialmente o assassinato de padre Josimo, de padre João Bosco Burnier, de padre Ezequiel Ramin e a prisão dos padres Aristides e Francisco Goriou. Tudo isso acompanhou de perto ficou marcado pelos sofrimentos desses irmãos na fé, com conseqüências para seu compromisso com os pobres no Brasil e na América latina.

Em 1988 foi eleito arcebispo de Mariana,MG unindo intensa vida pastoral com o dia-a-dia visitando e socorrendo doentes em hospitais e asilos. Para Dom Luciano, o rosto do pobre era tão claramente o rosto de Cristo como a luz do sol meridiano.

A batalha de sua vida, porém, foi a Pastoral do Menor. Ninguém como ele amou os menores das ruas brasileiras. Ninguém como ele chorava ao ver os olhares dos “cristãos” pedindo a elevação da maioridade penal, da punição aos jovens.

Era um prazer escutar Dom Luciano: a beleza da frase, o humor fino, a profundidade do conteúdo, proferido com tanta simplicidade que parecia evidente o que se ouvia. Inteligência de sínteses, era capaz de ouvir dezenas de opiniões e, ao final, sintetizá-las no que tinham de melhor e fazê-las aceitas. Mesmo cochilando durante graves discussões, ao acordar fazia a gentileza de resumi-las.

Teve participação ativa no movimento pela democratização do Brasil, mas nunca se entusiasmou por bandeiras partidárias, pois via com clareza que o partido que melhor expressava essa luta, o Partido dos Trabalhadores, sabia o que deveria ser feito, mas não preparou pessoas competentes para fazê-lo. Em entrevista meses antes de sua morte, assim se referiu à atuação do governo Lula e da atração que exercia em movimentos católicos:

Posso, sim, recordar que houve um empenho muito grande da Igreja, mas não houve uma receptividade daqueles que estão no governo. Várias vezes houve tentativas de aproximação, de diálogo, mas houve um distanciamento muito sério da parte daqueles que estavam e estão dirigindo o governo. O motivo eu não sei, mas era um momento de grande expectativa para uma convergência de propostas, e isso não aconteceu.

Portanto, creio que não devemos incriminar a Igreja por não ter colaborado, mas também questionarmos o governo por que não colaborou com a Igreja e com várias entidades populares. Pelo contrário, fica a impressão de que houve o seguimento de certas normas da economia internacional sem haver a criatividade e a urgência de um planejamento de políticas públicas para o beneficio do povo.

Em relação ao PT, nunca houve na história do Brasil tanto apoio. Tanto que, às vezes, até confundiam Igreja Católica e PT, o que eu acho que não foi correto. Atualmente, posso dizer que nunca houve tanta participação, tanta vontade, tanta expectativa frustrada

(Entrevista foi concedida à IHU On-Line,
em 8 de outubro de 2005).

Pela cruz à Luz

Em 1990, um acidente comprometeu a saúde de Dom Luciano. Seguidas transfusões de sangue deixaram como herança a hepatite C, causadora do câncer no fígado que o derrubou no Hospital das Clínicas. Pacientemente, a cada dia ele mesmo aplicava uma injeção em seu fígado).

Em 2 de março de 2006, sofreu intensamente a perda da irmã querida, Elisa Maria, tocada pelo Mal de Alzheimer, e que residia com ele. Na coluna semanal na Folha de São Paulo (4 de março de 2006), escreveu com dor e fé, revelando a profundidade de seu coração humano e cristão:

Elisa Maria , minha irmã, partiu para o céu há dois dias. Estava para completar 74 anos. Vida bela de quem só fez o bem. Todos passamos por situações difíceis quando pessoas queridas são chamadas por Deus.

Agradeço a Deus ter podido permanecer com minha irmã Elisa ao longo desses últimos dias e tê-la acompanhado no momento em que Deus a chamou para o prêmio eterno. Passou por sofrimentos de uma doença, parece congênita, que limitou aos poucos os seus movimentos e até a posse de sua memória e consciência. Sua comunicação reduziu-se cada vez mais. Durante os últimos meses, não conseguia mais falar. Limitava-se a abrir os olhos. Todos aguardávamos um sinal, pequeno que fosse, de sua compreensão. Mas não conseguia responder aos estímulos. Foi assim que Deus a convidou para deixar esta vida. Agora ela não sofre mais. Está em paz. …

Elisa querida, na paz de Deus, ajude-nos agora a viver fazendo o bem como você.

Um pequeno grupo de familiares rezava a seu lado as Ave-marias aguardando o chamado para o céu. Na hora do Ângelus, Elisa Maria deixou esta terra. Segredei-lhe com amor: “Vai para Deus. O céu é belo, e ficará mais belo ainda quando você chegar”. Dom Luciano não podia imaginar que cinco meses depois se encontraria com ela!

Nas tantas vezes que ia a Roma, nos últimos anos como membro Pontifícia Comissão Justiça e Paz, tinha o prazer de se reunir com o santo ex-bispo de Saigon, o Servo de Deus Cardeal Francisco Xavier Van Thuan, que ficou nove anos na prisão incomunicável, no Vietnã: “foi a pessoa que mais bem me fez na vida e considero uma grande graça tê-lo conhecido”.

Nessas ocasiões, uma visita lhe era indispensável: a Norberto Bobbio (1909-2004), filósofo político, historiador do pensamento político e autoridade máxima na filosofia do direito, senador vitalício desde 1984. Um encontro de amigos: o bispo que alimentava a fé na Cruz de Cristo e o filósofo, ateu por causa da Cruz dos inocentes. Os dois tinham em comum o amor pelo ser humano e Dom Luciano podia afirmar o mesmo que Bobbio:

«Fomos educados a considerar todos os homens iguais e a pensar que não há nenhuma diferença entre quem é culto e quem não é culto, entre quem é rico e quem não é rico»”.

A Irmã Morte o alcançou no dia 27 de agosto de 2006, sábado, festa de Santa Mônica. Apertando as mãos do irmão Luiz Fernando Mendes de Almeida, ingressou na eternidade dizendo: “Deus é Bom!”

Daqui de meu canto, imagino Norberto Bobbio correndo ao seu encontro para lhe dizer: “Luciano, a Cruz dos inocentes é pura Luz, foi a minha salvação”. E Dom Luciano: “Deus é sempre bom”.

Dom Luciano foi para o céu, que ele assim definiu na conferência proferida no 15º  Congresso Eucarístico Nacional, em Florianópolis, no dia 20 de maio de 2006:

Há um tempo queria muito ver o céu, saber como é lá. Um dia subi no céu. Não pensei que era tão bonito, fiquei contente com tanta música, pessoas dançando na presença de Deus. Mas, de repente, percebi que eu estava escondido atrás de uma árvore. Descobri que o céu é ver os outros felizes.

Nossa vida nesse mundo é fazer o bem. Nossa alegria e paz são diferentes. Reconciliemo-nos com o projeto divino de salvação. A vontade de Deus é o nosso paraíso.

Como esquecemos a expressão do Pai Nosso “seja feita a vossa vontade”… Não existem exceções para este pedido. Deus nos dá força para enfrentarmos as dificuldades, inseridos no cotidiano da vida humana.

Três meses depois Dom Luciano vivia a realidade do céu, a comunhão com Deus e com todos.

Está sepultado na cripta da catedral de Mariana abaixo do túmulo de outro santo, o bispo Dom Antônio Ferreira Viçoso (+1875). Dois Servos de Deus, com os processos de canonização encaminhados. Na verdade, em 4 de maio de 2011, Dom Geraldo Lírio Rocha, sucessor de Dom Luciano em Mariana, solicitou que os bispos brasileiros reunidos em Assembléia Geral que assinassem a petição da beatificação a ser encaminhada à Santa Sé. Os mais de 300 bispos responderam com uma sonora salva de palmas, pondo-se prontos para atender ao pedido. Em agosto do mesmo ano o pedido foi encaminhado à Santa Sé.

Numa palestra no Pio Brasileiro, em Roma, no ano 2000, Dom Luciano disse, com bom humor, que um dos problemas da Igreja é a pouca presença de teólogos santos. Com ele, a Igreja tem um teólogo e um bispo santo e sábio. Um bispo verdadeiro, pai dos pobres, que viveu como paraíso o serviço aos pobres.

Na pedra funerária que cobre seu túmulo está gravado:

«Na Paz do Senhor descansa aqui o Exmo. Senhor Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. Adepto da Companhia de Jesus, Doutor em Filosofia e na Sagrada Teologia, mas conhecido, sobretudo como Mestre na observância do Amor. Quarto Arcebispo de Mariana. Em verdade foi um lúcido Pregoeiro da doutrina evangélica, um Prelado manso e carinhoso. Afável Patrono das crianças e dos necessitados, também presidiu a Conferência dos Bispos do Brasil. Sacerdote fidelíssimo de Deus amou verdadeiramente a Igreja de Jesus Cristo. Nascido em 05/10/1930 e falecido em 27/08/2006, regeu brilhantemente esta Igreja por dezoito anos e três meses. Chorosas, as ovelhas marianenses recomendam encarecidamente a Deus um tão grande Pastor. Dom Luciano, luze na Luz».

Pe. José Artulino Besen

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BEM-AVENTURADA IRMÃ DULCE DOS POBRES

Bem-Aventura Irmã Dulce dos pobres – a Missionária da Misericórdia

Maria Rita Pontes – Irmã Dulce – nasceu em Salvador da Bahia em 26 de maio de 1914 e foi ao encontro de Deus em 13 de março de 1992 após 16 meses de sofrimento pacientemente suportado e ofertado. O Anjo Bom da Bahia que andava pelas ruas de Salvador recolhendo pobres e donativos é a Bem-aventurada Irmã Dulce. Ouvindo o povo que a amou e com ela aprendeu a misericórdia, a Igreja a proclamou Bem-aventurada em 22 de maio de 2011, em liturgia celebrada em Salvador. Seunome de Santa é Bem-aventurada Dulce dos Pobres, Bem-aventurada Irmã Dulce dos Pobres.

Em 1932, com 18 anos, Irmã Dulce entrou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, em Sergipe. Dois anos depois, retornou à Bahia, onde dedicou toda a sua vida às obras de caridade.

Sentindo o chamado a trabalhar com os pobres e doentes, serviu como enfermeira no Sanatório Espanhol. Quis preparar-se melhor e fez curso de Prática de Farmácia, aprendendo a manipular receitas. Um ano depois prestou exame na Secretaria de Educação e Saúde do Estado e foi aprovada na dissertação sobre o tema “Cápsulas e Comprimidos”.

Nomeada para lecionar Geografia no Colégio Santa Bernardete, foi mestra querida mas, as Irmãs notavam que alguma coisa não ia bem com Irmã Dulce: seus olhos contemplavam a paisagem da cidade e se comentava “Irmã Dulce só pensa nos pobres”.

Recebeu licença para abrir um curso noturno para os operários. A Madre Provincial liberou-a das obrigações no Colégio e deixou-a abrir as portas do convento para ganhar as ruas e dar-se aos pobres. Agora dedicava-se a ensinar letras e religião aos operários e seus filhos perto das fábricas e, na tarde dos domingos, visitar os moradores de uma invasão nos mangues do Caminho de Areia. Seus olhos transfigurados pelo Amor contemplavam a miséria geral, a imundície, as crianças famintas e desnutridas atrás de cada janela. Levava remédios que conseguia nas farmácias, providenciava consultas, procurava postos de emprego. A invasão crescia, era agora a favela dos Alagados, depósito do lixo urbano onde os famintos competiam com os urubus por algum alimento. Irmã Dulce teve clara sua vocação: estar com os pobres.

Bem-Aventura Irmã Dulce dos pobres – a Missionária da Misericórdia

A missionária da misericórdia

Em 1935, além da assistência aos pobres dos Alagados, visitava fábricas, oferecendo aos operários o Posto Médico instalado numa velha oficina. Em junho, com seu grande animador Frei Hildebrando, formou a União Operária de São Francisco, com posto médico, farmácia e cooperativa de consumo. Em 1937 nascia o Círculo Operário da Bahia. Dali em diante as obras foram surgindo, sempre a partir do olhar misericordioso dirigido aos pobres, aos operários, oferecendo atendimento médico, odontológico, cursos de primeiras letras, profissionais, corte e costura, culinária, oficinas, salas de recreação.

Mas, no decorrer de 1939 um fato reorientou sua vida: um pequeno jornaleiro veio a seu encontro pedindo um pouco de amparo, de amor. Irmã Dulce não podia ficar indiferente. Recolheu o menino e o abrigou num galinheiro vizinho ao Convento. Pronto: de um galinheiro nasce um hospital. Limpou o ambiente, procurou lençóis, camas, colchões. Irmã Dulce não esperava os doentes e aflitos: ia procurá-los nas ruas e tocas de Salvador. Em buraco feito quarto encontrou um homem esperando a morte. Recolheu-o.

O pequeno hospital crescia, também as necessidades. Pela manhã Irmã Dulce saía pelo comércio pedindo pão, leite, remédio, roupa e dinheiro. Alguns reclamavam: “Dar dinheiro para essa freira é como colocar água em balaio! Eta freira pidona!”.

Irmã Dulce necessitava também de um amigo no céu. Encontrou-o na pessoa de Santo Antônio. Que amizade surgiu entre os dois! Santo Antônio gostava também de brincar: numa noite fria e chuvosa, pobres pediam cobertores. Irmã Dulce pede socorro ao amigo. Pouco depois chega um Jeep carregado de cobertores. Mal acabam de descarregá-lo, desaparecem carro e motorista. Só podia ser Santo Antônio.

O Hospital dele recebeu o nome. As obras cresciam. Irmã Dulce batia em todas as portas. Movimentava empresários, banqueiros, políticos, o povo, mercados, feiras, em busca de auxílio. Suas Obras Sociais englobavam hospital, ambulatório, abrigo de idosos, centro de recuperação de dependentes químicos, casa para abrigar e profissionalizar jovens em Simões Filho. Médicos, enfermeiros, voluntários apareciam para ajudá-la. Seu Banco era a Divina Providência, o gerente Santo Antônio.

Em 1983, na alegria de seus 50 anos de vida religiosa realizou o grande sonho: inaugurar o novo Hospital Santo Antônio, com 800 leitos, conforto, o maior Hospital da Bahia, onde o doente nada paga: basta ser pobre. Um Hospital com conforto: Irmã Dulce dizia que o pobre deve receber o melhor, pois é o preferido de Deus e é bom não ofender a Nosso Senhor! E quem pagou construção e equipamentos? A Divina Providência.

Irmã Dulce, agora famosa e reconhecida, continuava pelas ruas, buscando pobres e socorro. Seu ser era inseparável do Pobre/Cristo e do Cristo/Pobre. A força dessa Irmã era sua fragilidade: somente 40% de um pulmão oxigenava seu corpo frágil e forte, sua magreza quase transparente. À noite, sentava-se uma ou duas horas, e esse era seu descanso. Tudo era urgente, pois o pobre é Jesus e deve receber a melhor atenção.

Aquela mulher de hábito branco e azul, cabeça coberta com véu azul andando pelas ruas, era a grande missionária vivendo e anunciando as Bem-aventuranças. Nela, Deus tornou-se visível ao povo baiano e brasileiro. Missionária da palavra transfigurada em vida.

Como é bom poder invocá-la, agora: Bem-aventurada Dulce dos Pobres, rogai por nós!

Pe. José Artulino Besen

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ZILDA ARNS E OUTRAS MULHERES EM DEFESA DA VIDA

Zilda Arns

Quando em 1755 um terremoto, seguido de maremoto e incêndio destruiu Lisboa, Voltaire perdeu a fé e num poema atacou Deus, que não zela pelo mundo porque não existe. No ano 70 de nossa era, o exercito romano comandado por Tito destruiu a santa cidade de Jerusalém, incendiou o Templo, e um velho rabino respondeu a quem o acompanhava desolado: “O Templo foi destruído. Não haverá outro. O Senhor quer que nós o adoremos no coração de seus filhos”.

Duas atitudes diante do mesmo drama das catástrofes causadas ou pela natureza ou pelo agir humano. Assim, o terremoto que assolou a capital haitiana, Porto Príncipe, em 12 de janeiro pp., também nos coloca diante de um desafio à seriedade de nossa fé. Causou grande impressão em muita gente o Crucificado contemplando a montanha de destroços. Um crucifixo enorme é a única lembrança intocada nos destroços da igreja Sacré Coeur de Tugeau. Dra. Zilda Arns e os ouvintes de sua palestra estavam lá dentro e não sobreviveram. Cremos que esse Crucifixo testemunhou a última prece de Zilda antes de falar na Pastoral da Criança, conservando o mesmo sorriso em qualquer circunstância, pois não vivia dramas e sim a alegria de poder promover novas iniciativas pela Vida. Sorriso diante de uma criança salva, sorriso diante de uma criança a ser salva.

Zilda Arns Neumann compõe a trindade das grandes mulheres que viveram décadas entre o lixo humano produzido pela injustiça humana, não divina, e sempre conservaram o sorriso: Irmã Dulce da Bahia (1914-1992), Madre Teresa de Calcutá (1910-1999), Dra. Zilda Arns do Brasil (1934-2010). Três mulheres que engrandecem o gênero humano: completamente esquecidas de si, promoveram e defenderam a vida sem nunca ceder a tentações de revolta, defesa do aborto, crítica às famílias numerosas dos pobres. O que lhes interessava era a pessoa real, concreta que tinham diante dos olhos e imediatamente brotava-lhes um imenso sorriso: podemos salvá-la, conservar-lhe a vida. Deus quer essa vida, nós também a queremos.

Sua profunda fé cristã e católica dilatou os espaços da maternidade e seus ventres recebiam e alimentavam todos os sofredores que depois davam à luz e permitiam-lhes contemplar a Luz. Multiplicaram os espaços do amor sem reservas. Irmã Dulce no Hospital Santo Antônio de Salvador, Madre Teresa nas inúmeras obras que semeou pelo mundo, Dra. Zilda nas milhares de voluntárias que congregou na pastoral da Criança e do Idoso.

As três nasceram e foram criadas num lar católico (Zilda tem dois irmãos franciscanos e três irmãs religiosas), tiveram a graça de viver em paróquias de profunda vivência evangélica. Feliz a Igreja que as gerou, felizes essas mulheres que puderam receber o compromisso do amor na Igreja.

Zilda Arns

Suas obras foram fruto da grandeza da fé, não da propaganda. Sabiam que o Cristianismo é obra de grandeza e não de espetáculo. Irmã Dulce adaptou um velho galinheiro, recolheu pobres e saía pelas ruas com um cesto vazio que retornava cheio de pão. Madre Teresa foi para as ruas de Calcutá com um sari, um chinelo, uma pequena maleta. Zilda Arns olhou para o mundo desenvolvido, cheio de técnicas e planejamentos, cheio de assessores e recursos mal usados e apresentou sua receita para as crianças: uma balança, uma régua de medir, multimixtura de farelo de arroz, de trigo, de sementes, de cascas de ovo. Tem-se o número de 1.700.000 crianças salvas por essa estranha medicina. Estranha, não, pois era medicina pobre, mas temperada com rico amor. Grandes sábios quiseram processar voluntárias que aconselhavam o acréscimo de um prego no cozimento de feijão. Para essas mentes científicas, a obra da Pastoral da Criança cheirava a charlatanismo. Dra. Zilda continuou sorrindo, seu sorriso abraçou os Estados brasileiros, países da América latina, da África.

Seu sorriso moldado pelo bisturi do amor e da esperança chegava ao Haiti. No meio da imundície da capital haitiana, dos homens vivendo na lama, em esgotos, de pobres vendendo o sangue para laboratórios norte-americanos, sua palavra de amor foi cortada por violento tremor de terra. Nessa hora ela não teve privilégios: sua vida foi ceifada com a de bispos, padres, seminaristas, pobres, ricos.

No meio dos destroços um homem quis, mais uma vez, participar desse destino: o Cristo que habita o Crucifixo da igreja Sacré Coeur de Tugeau. Jesus teve pressa: queria morrer com Zilda, com todos, para infundir-lhes a semente da ressurreição. E de nós, fazer uma cruz imensa, cósmica, que inclua todos os sofredores  da terra e na qual aceitemos ser crucificados por amor, com o sorriso de Dulce, Teresa, Zilda, para dar-lhes vida.

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