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PAPA FRANCISCO NOS 500 ANOS DA REFORMA

Francisco visita os luteranos na Suécia

Francisco visita os luteranos na Suécia

No dia 31 de outubro de 1517 Frei Martinho Lutero afixou suas 95 teses sobre as Indulgências na porta da igreja de Todos os Santos em Wittenberg. Foi o início não planejado da Reforma que levou à divisão da Igreja entre Católica e Luterana, levou às guerras religiosas, à fragmentação da Alemanha, à divisão da unidade européia que tinha como fundamento histórico a fé católica. Somente a Itália, Espanha e Portugal permaneceram católicos.

No dia 31 de outubro de 2016, o Papa Francisco e Igrejas luteranas celebrarão um Culto ecumênico pela passagem dos 500 anos do início da Reforma, com o tema da ação de graças, da penitência e do compromisso no testemunho comum. O objetivo é expressar os dons da Reforma e pedir perdão pela divisão perpetuada pelos cristãos das duas tradições. E, pela primeira vez, a celebração não será marcada pelos ataques teológicos, pela culpabilização, pela busca de quem estava/está certo ou errado. Afinal, quando se processa uma divisão entre irmãos na fé, com o ódio pelo outro, há culpa e acerto nos dois lados. Ecclesia semper reformanda é um mandamento que vale para o século XVI e o século XXI. Do mesmo modo que Francisco busca renovar a Igreja católica a partir da fidelidade ao Evangelho, os evangélicos também necessitam de uma renovação interior no confronto com as Sagradas Escrituras.

O encontro celebrativo dos 500 anos da Reforma será em Lund, cidade sueca onde em 1947 foi fundada a Federação Luterana Mundial, que hoje congrega 147 Igrejas protestantes.

Alguns dados biográficos do reformador alemão

Martinho Lutero (Martin Luther) nasceu em 1483 em Eisleben, de pais camponeses. Vencendo as limitações econômicas da família, entre 1501-1505 estudou na Universidade de Erfurt. Em 18 de julho de 1505, após muitas dúvidas e reflexões, entrou no Convento dos Eremitas Agostinianos de Erfurt, onde foi ordenado padre em 1507.

Em 1512, Lutero é superior do Convento Agostiniano de Wittenberg, doutor em teologia e em exegese bíblica, lecionando as Cartas paulinas aos Gálatas e ao Romanos.

Por uma formação religiosa deficiente, onde contava muito o peso e o medo da condenação eterna, Lutero sofria o pavor do inferno, e era escrupuloso. Alcançou a paz interior entre 1512-1513, na famosa Experiência da Torre (Turmerlebnis): após muita oração, Deus lhe permitiu descobrir que a salvação é dada ao homem somente pela fé em Cristo, como puro dom, e não como recompensa pelas obras: “O justo vive pela fé”  (Rm 1,17). Sentiu paz interior e nunca mais a perdeu, mesmo no ardor dos embates em que esteve envolvido.

Frei Martinho Lutero, um homem religioso

Martinho Lutero não era um monge corrupto, degenerado, psicopata, mentiroso, como durante séculos quis ensinar a apologética católica. Foi monge, viveu como monge e morreu casado; não foi anjo, nem demônio, mas testemunha de Cristo. O século XVI, século da Reforma, mostrou com clareza as deficiências da organização eclesiástica e, o que era mais grave, as deficiências na condução da espiritualidade e piedade cristãs.

Hoje, todos reconhecem em Lutero uma autêntica religiosidade. Teve uma experiência pessoal de Deus, um autêntico sentido do pecado e da própria nulidade, que vencia por uma entrega total a Cristo e uma confiança cega nele e em sua redenção. Possuía um sentido trágico da miséria humana, da qual deriva a escassa ou quase nula utilidade das muitas práticas religiosas. Grande apego à oração e uma imensa confiança na graça. A tudo isso, unia um grande amor pelos pobres.

Pela sua índole, pelos seus dotes de pregador, de chefe, de guia, pela vivíssima fantasia, rica em imagens, demonstrava estar convencido de ser enviado por Deus para anunciar uma experiência íntima e transformadora, único caminho de paz e salvação. Lutero tinha sido feito para inflamar as massas populares e convencer e agitar os ouvintes. O dom de comando, nele, se unia a uma irradiação interior e grande sensibilidade pelos outros.

Era dotado de caráter forte, unilateral, impulsivo, forte subjetivismo, com pouca disposição para aceitar mediadores entre Deus e os homens. Autêntica e profunda religiosidade, mas tendência ao autoritarismo e violência. Mesmo reconhecendo nele toda a seriedade religiosa, pode-se afirmar que faltou-lhe uma autêntica humildade, a capacidade de ouvir os outros, a Igreja.

O jesuíta alemão Ludwig Hertling, historiador da Igreja católica, reconhecendo a aventura espiritual de Lutero, afirma que por sua personalidade, força de comando, acentuou no caráter alemão algumas características que se impuseram nos séculos seguintes, até de modo trágico: a autossuficiência, arrogância, orgulho nacional, o sentido dos deveres cívicos.

É fácil e confortável apontar as deficiências de um homem, mas não se pode ignorar que Lutero foi um homem religioso, homem de oração. Sua vida não pode ser confundida com as turbulências da Reforma, onde o desejo de uma fé pura misturou-se com a ambição de príncipes ansiosos para tirar proveito das divisões e apossar-se dos bens da Igreja.

O papa João Paulo II [1], escreveu em 31 de outubro de 1983 : “Os esforços dos evangélicos e católicos que, em grande medida, coincidem nos resultados, permitiram delinear um quadro mais complexo e articulado da personalidade de Lutero e do complexo entrelaçamento das circunstâncias históricas, da sociedade, da vida política e da Igreja na primeira metade do século XVI. Resplandeceu evidente a profunda religiosidade de Lutero, com a sua problemática da salvação eterna vivida com ardente paixão”.

Os estudos do século XX revelaram com clareza a profunda religiosidade de Lutero, homem cujo impulso e paixão era a pergunta sobre a salvação eterna.

Tudo requer uma pesquisa sem preconceitos para se revelar uma imagem justa do reformador, e não somente dele, mas do período da Reforma e das pessoas nela envolvidas, reconhecendo a culpa de uma e de outra parte. Uma atitude de purificação através da verdade permite-nos encontrar uma comum interpretação do passado e, ao mesmo tempo, construir um novo ponto de partida para o diálogo hoje obtido pela clareza histórica.

O estudo dos escritos confessionais evangélico-luteranos encontram sua base sólida naquilo que nos une também depois da separação: a Palavra da Escritura, as Profissões de Fé e os Concílios da Igreja antiga.

João Paulo II, conclui: “Na humilde contemplação do Mistério da divina Providência e na devota escuta daquilo que o Espírito de Deus hoje nos ensina na recordação dos acontecimentos da época da Reforma, a Igreja tende a dilatar os limites de seu amor, para ir ao encontro da unidade de todos aqueles que, através do Batismo, carregam no nome de Jesus Cristo”.

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O drama de Martinho Lutero: como posso me salvar?

Lutero saiu da Igreja após séria luta e sem ter intenção de fazê-lo. Tornou-se reformador na luta contra uma interpretação do catolicismo que de fato era cheia de deficiências. Deixou a Igreja para descobrir aquilo que é o centro da própria Igreja: o primado da graça.

Por que houve a Reforma? Hoje podemos afirmar que ela foi provocada pelos católicos, pois Lutero era católico, monge sério e sincero, que nunca quis deixar de ser católico. Séculos de aversão a Roma, envolvida na política internacional, mergulhada no Humanismo renascentista, a decadência da própria vida católica alemã, com uma hierarquia não livre de máculas morais e corrupções (houve bispos que não celebraram três missas em longo episcopado!), mosteiros decadentes, fizeram com que boa parte da população alemã visse na pregação de Martinho Lutero o renascer do verdadeiro Cristianismo. Isso ajuda a entender porque tantos alemães, desde Carlos Magno fiéis e dóceis ao Papa, tenham aceitado romper a unidade católica.

Bento XVI analisou com empatia a questão central de Frei Lutero[2]: O que não lhe dava paz era a questão sobre Deus, que foi a paixão profunda e a mola mestra de sua vida e de seu caminho. “Como posso ter um Deus misericordioso?”: esta pergunta lhe penetrava no coração e estava por trás de toda sua pesquisa teológica e de toda a luta interior. Para Lutero, a teologia não era uma questão acadêmica, mas a luta interior consigo mesmo, na luta a respeito de Deus e com Deus. “Como posso ter um Deus misericordioso?”. Escreve Bento XVI: “que esta pergunta tenha sido a força motora de todo o seu caminho me toca sempre novamente o coração. De fato, quem hoje ainda se preocupa com isso, mesmo entre os cristãos? O que significa a questão sobre Deus em nossa vida?”.

 A pergunta “qual é a posição de Deus em relação a mim? Como eu me encontro diante de Deus?”, esta palpitante pergunta de Lutero deve novamente, e em forma nova, ser a nossa pergunta, não acadêmica, mas concreta.

O pensamento de Lutero, toda a sua espiritualidade era de todo cristocêntrica: “O que promove a causa de Cristo” era, para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura. Isto pressupõe que Cristo seja o centro de nossa espiritualidade e que o amor por ele, o viver junto com ele oriente a nossa vida.

A coisa mais necessária para o ecumenismo é, antes de tudo que, sob a pressão da secularização, inadvertidamente não percamos as
grandes coisas que temos em comum, que nos tornam cristãos. O erro da época confessional foi ter visto mais o que separa, e não ter percebido em modo existencial aquilo que temos em comum nas grandes diretrizes da Sagrada Escritura e nas Profissões de fé do cristianismo antigo.

Em sua passagem por Lund, casa mundial do Luteranismo, Francisco nos ensinará a levar adiante, com decisão, o caminho do ecumenismo, da busca da unidade na diversidade.

Pe. José Artulino Besen


[1] Mensagem de João Paulo II ao Cardeal J. Willebrands, Presidente do Secretariado para a unidade dos Cristãos, em 31 de outubro de 1983, por ocasião do 5o centenário de nascimento de Lutero.

[2] Discurso de Bento XVI no encontro com representantes da Igreja Evangélica na Alemanha, em 23 de setembro d 2011, na Sala do Capítulo do ex-Convento dos Agostinianos de Erfurt.

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SÃO JOÃO XXIII – O DULCÍSSIMO PAPA CAMPONÊS

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No dia 28 de outubro de 1958, o Cardeal Patriarca de Veneza Ângelo Giuseppe Roncalli foi eleito papa. Após as homenagens dos cardeais, da Cúria romana, da apresentação ao povo reunido na Praça de São Pedro, dos cumprimentos de familiares e amigos, a noite já ia avançada. Então o fidelíssimo secretário Loris Capovilla lhe pergunta: “Ocorre-lhe mais alguma coisa, enviar algum telegrama?”, e João XXIII responde singelamente: “Agora, façamos a coisa mais simples, meus filho. Tomemos o Breviário e recitemos Vésperas e Completas . Assim foi a vida do Papa canonizado em 27 de abril de 2014. Ocupou os mais altos e significativos postos nos serviços da Igreja, mas nunca perdeu a unidade interior. Em nenhum momento achou que merecesse alguma honraria, pois elas eram sempre fruto da bondade da Igreja. O importante, para ele, era cultivar a alma, a santidade, cumprir seus propósitos de vida formulados durante os Exercíos Espirituais em 1895, no Seminário de Bérgamo e escritos nos cadernos do DIÁRIO DA ALMA . A última anotação no DIÁRIO foi em 20 de maio de 1963. Morreu no 3 de junho seguinte.

Filho de camponeses pobres e de sólida formação cristã, duas pessoas ficaram em sua memória espiritual e humana: o vigário Francisco Rebuzzini e o tio Savério que lhe ensinou as primeiras orações e princípios de vida cristã. Dava-lhe muita alegria observar os dois homens conversando e rezando enquanto caminhavam perto da casa paroquial de Sotto il Monte, o humilde povoado onde nasceu em 25 de novembro de 1881.

João XXIII conservou sempre a fé simples e profunda dos camponeses bergamascos. Suas missões diplomáticas na Bulgária, Grécia, Turquia e Paris, o cardinalato e o supremo Pontificado não complicaram em nada essa fé que o comprometia diariamente e era a causa de sua felicidade e, nela, a humildade e o silêncio tinham lugar privilegiado.

Foi Píer Paolo Pasolini, o famoso poeta e cineasta italiano, que o apelidou de “Dulcíssimo Papa Camponês”. Pasolini estava em Assis em 4 de outubro de 1962, quando lá esteve João XXIII, que tinha empreendido a peregrinação ao Santuário de Loreto e a Assis a fim de colocar sob a proteção de Nossa Senhora e de São Francisco o Concílio Ecumênico que seria inaugurado no dia 6 seguinte. Na verdade, Pasolini estava em Assis para confirmar seu anticlericalismo, sua rejeição ao Papado, queria olhar nos olhos aquele Papa que olhou nos olhos os presidiários romanos, armado apenas de imensa e arguta piedade. Estava no hotel quando, ao som dos sinos, o Papa ia passar. Teve o desejo de levantar-se e o olha-lo, mas venceu e, inexplicavelmente, tomou o livro dos Evangelhos que estava no quarto e leu do início ao fim o Evangelho de Mateus. Quando João XXIII ia se retirando, Pasolini tinha pronto seu filme, o “O Evangelho segundo Mateus”, dedicado ao Papa . O filme é a reprodução literal do Evangelho de Mateus, o Evangelho das Bem-aventuranças.

Na história do mundo a vida de papa Roncalli confirmou o valor atraente da bondade evangélica, que conserva sempre um lugar de honra no Sermão da Montanha: bem-aventurados os pobres, os mansos, os pacíficos, os misericordiosos, os sedentos de justiça, o puros de coração, os atribulados, os perseguidos.

João XXIII não apreciava muitos os livros e artigos a seu respeito, que julgava exagerados, equivocados: “Somente o olhar do Senhor nos vê como somos, e é somente isso o que conta”, respondeu a Indro Montanelli, jornalista que teve o privilégio de entrevista-lo em 1959 .

O que é ser santo?

João XXIII morreu após a primeira Sessão do Concílio, em 3 de junho de 1963. Seria fidelidade à tradição canonizar o Papa que morresse durante um Concílio. E, ao final do Vaticano II, um bispo polonês se levantou para pedir que fosse canonizado ao final da Assembléia conciliar. Em seguida, mais dois arcebispos fizeram o mesmo: o cardeal Stefan Wyszynski e Karol Wojtyla, que foi canonizado no mesmo dia como São João Paulo II. Um, o Santo que veio do mundo camponês e, o outro, o Santo que veio da opressão do Leste europeu. Evidente que poderosos Cardeais da Cúria se opuseram a esse anseio, pois, canonizar João XXIII seria canonizar um modo demasiado humano de ser papa, e isso não seria conveniente.

Com apenas 26 anos, Ângelo Roncalli definiu o que é ser santo: saber anular-se constantemente, destruindo dentro e ao redor de si aquilo que o mundo elogia como causa de louvor; conservar viva no coração a chama de um amor puríssimo para com Deus, acima dos lânguidos amores da terra; dar tudo, sacrificar-se pelo bem dos próprios irmãos, e, na humilhação, na caridade de Deus e do próximo seguir fielmente os caminhos indicados pela Providência que conduz as almas eleitas no cumprimento da própria missão: está aqui toda a santidade. Roncalli foi fiel a esses princípios por toda a longa e movimentada existência. Vida pública e privada. Antes e depois de ser eleito papa. Eleito bispo e papa, escolheu como seu o lema do Cardeal César Barônio: “Obediência e Paz”, duas virtudes que lhe permitiram viver na alegria e na simplicidade e que tanto atraem os estudiosos de sua vida: “a nossa paz é a vontade de Deus”.

O padre Ângelo Giuseppe Roncalli

Em 10 de agosto de 1904 foi ordenado sacerdote, um padre à moda antiga, mas ancorado no terreno sólido da revelação cristã. Quis sempre ser um padre marcado com fogo pela familiaridade com Cristo, preocupado com nada além do nome, do reino e da vontade de Deus, sua alegria.

No dia 24 de maio de 1915 partiu para o serviço militar em Saúde. Estava vivendo o horror da primeira grande guerra. Na véspera escreveu em seu DIÁRIO: “O Senhor dispôs a minha última hora para o campo de batalha? Nada sei; a única coisa que quero é a vontade de Deus em tudo e sempre e a sua glória no sacrifício completo do meu ser”.

Todo o ministério era causa de alegria: recitava a Liturgia das Horas com grande alegria interior, celebrava cada Missa como que mergulhado dentro dela, em êxtase. Era no altar o que era fora do altar: “a pessoa do sacerdote é sagrada”, falou ao clero romano já como papa em 26 de janeiro de 1960. De sua vida de oração brotavam as palavras que dirigia ao povo. Para ele era claríssimo que a autenticidade e a fecundidade de seu sacerdócio dependiam essencialmente de sua santificação pessoal, de sua vida de comunhão íntima com Deus.

Alimentava profunda espiritualidade missionária, o ardente desejo de que todos os povos cohecessem a Jesus. Teve a alegria de trabalhar em Roma na Obra pela Propagação da Fé, entre 1921 e 1925. Mais tarde, escreveu que a “Obra da Propagação da Fé é a respiração de minha alma e de minha vida” . Em 3 de março de 1958, recordando a entrega do Crucifixo para um grupo de missionários no distante 1910, escreveu: “nas conversas e confidências com alguns dos anciãos que retornavam dos campos da evangelização, me sentia como que preso por uma edificação e ternura inefável, que ainda não despertava em mim uma vocação missionária, mas educava meu espírito à admiração por quem se sentia chamado e respondia correndo àquele caminho corajoso e misterioso”.

Após anos de serviço diplomático, entre 1925-1953, comentou que tinha sido um trabalho importante, mas sem comparação com a saborosa e serena alegria da ação missionária, do contato com almas e ambientes diversificados e interessantes que me introduziram num conhecimento mais profundo com o que se refere às orientações e esperanças do Reino de Cristo no mundo.

João XXIII em seu escritório

João XXIII em seu escritório

Os caminhos de Deus

Ordenado padre para o serviço direto com o povo, em 1925 foi chamado pelo Papa Pio XI ao trabalho diplomático, primeiro na Bulgária, depois na Grécia e Turquia e, enfim, na sofisticada Paris marcada pela humilhação da Guerra. Em 19 de março de 1925 foi ordenado bispo. Em comum, essas nações passavam pelas provações da política que humilha os pobres e busca dominá-los.

Até aqui, Roncalli tinha sido um culto e estimado sacerdote, secretário pessoal de Radini Tedeschi, bispo de Bérgamo, com doutorado em Roma, professor de história eclesiástica e de apologética. Descobriu, comentou, traduziu e iniciou a publicação dos 5 volumes das Atas da visita apostólica de São Carlos Borromeu a Bérgamo, em 1575.. Brilhante “carreira eclesiástica”, pode-se dizer.

Agora, sua missão primordial era atender às comunidades católicas búlgaras, gregas e turcas. Procurou ser bispo com coração de padre para seus sacerdotes, participando de seus Exercícios Espirituais, de sua pobreza.

Como bispo e delegado apostólico continuou sua vida sacerdotal e inicia um caminho que o levou à Nunciatura de Paris e ao Patriarcado de Veneza. Seu DIÁRIO DA ALMA não descreve recepções, encargos recebidos, publicações e honrarias: está preocupado com sua alma, com sua santificação, em participar com o proveito do Retiro Espiritual. O cuidado com os pobres, todos os pobres, toma boa parte de seu tempo. Os católicos eram exígua minoria em países ortodoxos e na muçulmana Turquia. O campo de apostolado germinou nele a consciência ecumênica e de diálogo religioso. Concretamente, quase nada conhecia do mundo ortodoxo, menosprezado e esquecido pelo Ocidente católico. A formação sacerdotal não tinha em conta essas comunidades. Isso foi nele contrabançado pela capacidade de encontrar cada pessoa, de conviver com todos. A unidade humana e cristã prevalecia: “Sentia-me irmão deles. Possuem a sucessão apostólica, recebi-os como bispos irmãos. É uma dor não poder ainda celebrar a eucaristia juntos, mas existe a amizade. Abençoamo-nos uns aos outros, um irmão abençoa o outro”, confessou anos depois. Atenágoras, Patriarca ecumênico de Constantinopla, aplicou a João XXIII a passagem evangélica “houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João”.

Alargou os braços da Igreja, reunindo-os num sentimento comum, primeiro de estima, depois de veneração. Fortalecidos por esse afeto, durante o pontificado de João XXIII, os bispos ortodoxos visitavam-no nos tempos de opressão dos regimes comunistas, vinham com a confiança de filhos, filhos de uma Igreja irmã, a pedir socorro. Suas viagens a Roma era verdadeiras visitas ad limina Petri . Também como a irmãos foi seu relacionamento com o povo turco, muçulmano. Eram irmãos. Sua espiritualidade fez com que entendesse sempre mais o diálogo ecumênico e religioso como via pacis, via charitatis, via veritatis: paz-caridade-verdade.

A experiência deplomática e sacerdotal abriu-lhe os horizontes que levaram ao Concílio Ecumênico do Vaticano II. Acrescente-se a isso seu estar próximo das pessoas e o encontro com os mais pobres: ele nasceu de uma família pobre. Nos anos que vão de 1939 a 1945 fez o possível para socorrer as vítimas da guerra, de modo todo especial se empenhando na salvação de milhares de judeus ameaçados de extermínio. Era Núncio em Paris quando, em 1953, Pio XII o escolheu para Cardeal e Patriarca de Veneza. Estivera 28 anos fora de sua Itália e agora, para sua felicidade, era padre e bispo, podendo dedicar-se exclusivamente ao bem das almas. Por cinco anos foi o vigário de Veneza, abraçando a todos, católicos, não católicos, não-crentes. Estava feliz nessa missão, a cada dia se preparando espiritualmente para uma boa morte quando, em 28 de outubro de 1958, foi eleito Papa, escolhendo João como nome, e a missão de preparar os caminhos do Senhor.

Dia 27 de abril de 2014 - Com a presença de Bento XVI, Francisco canoniza João XXIII e João Paulo II

Dia 27 de abril de 2014 – Com a presença de Bento XVI, Francisco canoniza João XXIII e João Paulo II

Um Anjo com o nome de João

João XXIII continuou sendo o mesmo seminarista que seguia os propósitos escritos em 1895 nos Caderninhos que lia com freqüência para seus exames de consciência. As grandes recepções, o afeto que o mundo lhe consagrava, a fama, o Concílio, nada podia distraí-lo do cuidado com sua alma. Continuava a viver a devoção a Nossa Senhora, São José, São Francisco Xavier, recitando as orações diárias de sua juventude. Pode ser incluído entre as almas eleitas nas quais o pecado não conseguiu ter nenhuma influência.

Nunca, em nenhum dia, mesmo como Papa, esqueceu suas origens humildes, seu tio Savério, o povo de Sotto il Monte. Loris Capovilla, quase centenário e agora Cardeal, afirma : “Ângelo Giuseppe Roncalli, da infância ao final de sua vida terrena, foi sempre a mesma pessoa: um cristão que levou a sério as promessas batismais; um cristão que sacerdote primeiro, depois bispo, cardeal e Pontífice, viveu sempre no altar entre um livro, o da divina revelação, e o cálice que é compêndio celeste que nos faz filhos de Deus”.

O Cardeal Capovilla, agora residindo em Sotto il Monte, não aprecia que se identifique João XXIII com o apelativo “Papa BOM”, porque muitos o entendem em sentido até pejorativo como Papa Bonachão, que não enxergava a realidade, o mal presente no mundo, o mestre do bom humor. Não se pode folclorizar esse homem, o Papa do diálogo, do Concílio, do Ecumenismo, da Mater et Magistra e da Pacem in terris.

Papa Roncalli foi homem de princípios, de clara visão da realidade, rigoroso no seguir as normas, príncipe da paz nos conflitos da Guerra fria. Um Papa que introduziu na visão eclesial os “sinais dos tempos”, isto é, ser fiel à Igreja mas enxergando sempre os novos horizontes históricos, um homem alimentado pela esperança e não agindo com pessimismo, que conhecia as dificuldades e os obstáculos.

Para o cristão, a fé é anúncio de salvação, de conversão do homem às coisas de Deus e a missão do sacerdote é encorajar as pessoas a medir-se com as situações, a empenhar-se, a trabalhar. Era uma pessoa firmíssima que sabia que sem clareza não se realiza o diálogo e que falar com todos não significa ceder.

No final de setembro de 1962, menos de 15 dias antes da abertura do Concílio, os médicos diagnosticaram a doença que o levaria à morte alguns meses depois: um câncer que lhe provocava muitas dores. Em 11 de outubro, após a abertura do Vaticano II, confidencia ao secretário: “Durante a leitura do discurso olhava os que me estavam vizinhos e pedia ao Senhor que ele falasse a cada um dos presentes”. E à pergunta “Como se sente?”, respondeu “Com aquilo que hoje o Senhor me concedeu devo sentir-me bem”.

Alma de criança e de gigante, de camponês provado pelas glórias humanas, repreendeu Loris Capovilla que chorava seu fim de vida: “Por que chorar? Esse é um momento de alegria, um momento de glória”. Tinha vivido 82 anos a espera do encontro com o Senhor.

E o mundo inteiro chorou no dia 3 de junho de 1963, quando morreu João XXIII, a quem a Igreja venera e invoca com o nome de São João XXIII.

Pe. José Artulino Besen

NOTAS

  1. Saverio Gaeta. Giovanni XXIII – uma vita di santità. Milano: Mondadori, 2000, p. 200ss.
  2. Foi publicada nova edição em português pela Editora Paulus, em 2000. O DIÁRIO é o relato de seu caminho de santidade, da busca incessante de fazer a vontade de Deus. Ele mesmo escreveu: “A minha alma está mais nestas folhas do que em qualquer outro escrito meu”.
  3. Zizola, G. Giovanni XXIII. Sotto il Monte: Servitium Editrice 1998, , p.142-144.
  4. Montanelli descreveu suas impressões no Corriere della Sera de 29 de março de 1959.
  5. Nutria grande ternura pelo Pontifício Instituto das Missões-PIME e pela memória de seu fundador Dom Ângelo Ramazzotti, que gostaria de ver canonizado. Hoje, os padres do PIME conservam e alimentam a memória de João XXIII em Sotto il Monte.
  6. Kiril Plamen Kartaloff. La sollecitudine ecclesiale di monsignor Roncalli in Bulgária. 2014: Città del Vaticano. Entrevista com o autor por Antonella Pilia , em 28 de março de 2014.
  7. LUOGHI DELL’INFINITO, 7 di aprile 2014 – numero speciale.

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SÃO JOÃO PAULO II – CONTEMPLAÇÃO E AÇÃO

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As aclamações e faixas com o “Santo súbito”, na Liturgia exequial de 2005, significaram o reconhecimento cristão e popular da santidade pessoal de Karol Wojtyla. Suprimindo os tempos de espera para a causa de beatificação, foi rápida a conclusão dela.

No desenrolar do processo de beatificação e canonização de João Paulo II foram ouvidos, sob juramento, 114 testemunhas: 35 cardeais, 20 arcebispos e bispos, 11 sacerdotes, 5 religiosos, 3 religiosas, 36 leigos católicos, 3 não católicos e um judeu.

Dado realçado na figura do Papa pelos leigos foi a libertação dos medos, dos condicionamentos, do sentimento de decadência da Igreja. Um guia excepcional, muito pessoal e carismático, com sua personalidade substituindo faltas das instituições e das pessoas. Um Papa corajoso, uma personalidade que arrastava multidões.

Também foram salientados seus gestos originais da Jornada Mundial de Assis, da visita à Sinagoga de Roma, à mesquita dos Omíadas em Damasco e a renúncia aos privilégios da Concordata de 1929 entre o Vaticano e a Itália, as grandes Celebrações do Ano 2000. Um depoimento severo, e quase solitário, foi dado pelo Cardeal Martini (1927-2012), de Milão, que julgava ser prudente deixar mais tempo passar. Entre os pontos que salientou e que depunham negativamente a respeito do Papa Wojtyla, podemos citar: escolhas não sempre felizes de bispos e arcebispos, escolha não as melhores de colaboradores sobretudo nos últimos tempos, o excessivo apoio aos Movimentos ao invés do apoio às Igrejas locais, seu “imprudente” colocar-se no centro das atenções, especialmente nas viagens, disso resultando obscurecida a missão da Igreja local e do bispo, ao mundo dando a impressão de ser o “bispo do mundo”. Martini afirmou ver no Papa um corajoso homem de Deus, capaz de grande recolhimento mesmo no tumulto das atividades, sua dedicação total à Igreja, mas, talvez tivesse sido prudente retirar-se do ministério petrino quando a doença se agravou e forças retrógradas assumiam o governo central da Santa Sé. Aqui devemos incluir também o sofrimento que infligiu a Dom Hélder Câmara (1909-2009) e à Igreja de Olinda-Recife, impondo como sucessor um bispo cuja missão parecia ser negar a herança cristã desse homem de Deus.

O teólogo e ex-abade de São Paulo fora dos Muros, Giovanni Franzoni, citou, em seu depoimento, aquelas atitudes de João Paulo II a seu ver negativas: a frieza com que recebeu o arcebispo mártir de Salvador Dom Oscar Romero (“Nunca me senti tão sozinho como em Roma”), em 1979, recebendo o conselho de trabalhar mais de acordo com o Governo. No ano seguinte, o santo pai dos pobres e defensor dos injustiçados foi martirizado enquanto celebrava a Missa. Franzoni também não julgou profética a atitude papal de ignorar os escândalos financeiros no Vaticano, os casos de pedofilia no clero, a dureza na dispensa do ministério dos padres egressos. Certamente o Papa sempre agiu no desejo firme de proteger o bom nome da Igreja, para não dar aos fiéis motivo de escândalo. Além disso, tinha vivido na Polônia as calúnias levantadas pelo regime comunista contra padres e bispos: não seria esse o caso? Infelizmente, não era.

Nem Martini, nem Franzoni, duvidam da santidade pessoal de Wojtyla, mas se perguntam se é possível, ou recomendável, separar a pessoa do Papa da missão exercida.

João Paulo II – a vida a serviço de Deus

Desde jovem, foi homem de profundíssima vida de oração e isso era tão visível que algum colega escreveu na porta de seu quarto de seminarista “Futuro santo”. Todas as suas decisões na vida concreta eram assumidas à luz de sua relação com Deus, e essa relação lhe proporcionava uma confiança enorme e uma enorme coragem.

Em seu testemunho, Joseph Ratzinger (Bento XVI) declarou “- “Que João Paulo II era um santo, durante os anos de colaboração com ele, se tornava cada vez mais e mais claro para mim. (…) Se doou com uma radicalidade que não pode ser explicado de outro modo. (…) Seu empenho era incansável, e não apenas nas grandes viagens, cujos programas eram cheios de eventos do início ao fim, mas também no dia a dia, desde a Missa matutina até tarde da noite”. “A espiritualidade do Papa foi caracterizada principalmente pela intensidade das suas orações, profundamente enraizada na celebração da Santa Eucaristia e realizada juntamente com toda a Igreja, com a recitação do breviário. (…) todos nós sabemos do seu grande amor pela Mãe de Deus. Doar-se totalmente a Maria significava ser, com ela, totalmente do Senhor”.

De acordo com o Papa emérito, neste contexto deve ser compreendida a santidade de João Paulo II: “Somente a partir da sua relação com Deus é possível compreender o seu incansável empenho pastoral”.

Mons. Slawomir Oder, postulador do processo de canonização, descreve a santidade de João Paulo II a partir da sua relação íntima com Deus e Nossa Senhora: uma relação que nem todos conseguiam entender e achavam até estranha. “Às vezes, durante a oração mariana, o Papa parecia em êxtase, desligado do contexto circundante, como num encontro. Ele vivia uma relação pessoalíssima com Nossa Senhora”. Para algumas testemunhas, quando João Paulo se dirigia à Virgem Maria não falava com alguém distante, mas, com alguém próximo, a seu lado.

Seu segredo de santidade era sua vida interior, de oração. O próprio João Paulo II sugeriu a chave para o conhecerem: “Muitos tentam me conhecer olhando de fora, mas eu só posso ser conhecido de dentro, do coração”. Alimentava relação íntima com Deus, que se realizava na oração incessante, fazendo, muitas vezes, com que deixasse intacta a cama e preferisse passar a noite no chão, imerso em oração, e isso apesar do cansaço das viagens, da progressão da doença e da fragilidade física.

Mons. Oder refere um fato concreto: “no final de uma das últimas viagens apostólicas, foi quase arrastado para o quarto pelos seus colaboradores. Os mesmos colaboradores, na manhã seguinte, encontraram a cama intacta, porque João Paulo II tinha passado toda a noite em oração, de joelhos no chão. Para ele, recolher-se em oração era essencial, tanto que, nos últimos meses de vida, ele pediu no quarto um espaço para o Santíssimo Sacramento. Sua relação com nosso Senhor era verdadeiramente extraordinária”.

Wojtyla nutria um relacionamento íntimo com o Cristo vivo, especialmente na Eucaristia, de onde vinha tudo aquilo que vimos nele como fruto de extraordinária caridade, zelo apostólico, paixão pela Igreja, amor pelo Corpo místico. Numa palestra em que estive presente, Dom Luciano Mendes de Almeida comentou que aconteceu presenciarem o Papa, na ação de graças após a Missa, na sacristia, estar prostrado no chão, em sua preferida posição de cruz (braços estendidos) e falando em voz alta, num profundo diálogo espiritual com o Senhor.

O jornalista e historiador Vitório Messori, que teve o privilégio de contata-lo pessoalmente, assim se expressou: “Diria que no caso de Wojtyla nem se pode falar de ‘homem de fé’, pois está possuído pela certeza. Não tem necessidade de crer: ele vê. Falando com ele, tem-se a impressão de que esteja imerso numa espécie de visão. Aquilo que vê não o espanta, parece-lhe natural e não fonte de dúvida. Não se pode explicar seu pontificado se não se leva em conta esse aspecto do homem: cada pensamento e cada ato fincam raízes na contemplação e na oração”.

Seu identificar-se com Cristo significou também estar com Ele crucificado, ver o aniquilamento das energias, forças, carisma de comunicação que marcaram o início do Pontificado em 1978. O dia 13 de maio de 1981 marcou a transição de um Pontificado do Papa vigoroso para o Pontificado do Papa humanamente fragilizado: os tiros que recebeu na Praça de São Pedro significaram a progressão no caminho da Cruz. Na Carta apostólica Salvifici Doloris, de 1984, convidava a Igreja a penetrar no sentido salvífico do sofrimento de Jesus Cristo, sofrimento vencido pelo amor. João Paulo II aprofundava a vivência do sofrimento que aniquila as forças físicas, mas, liberta as forças espirituais. Em sua Carta Novo Millennio Ineunte, de 2001, convida a Igreja a contemplar a face de Cristo em sua dor sem medida e em sua glória sem fim.

Impressiona o número de Mártires beatificados e canonizados por ele: os que derramaram o sangue por Cristo receberam estatuto de glória, neles incluídos os martirizados pelos regimes comunista, nazista, ditatoriais e inimigos da fé cristã. Carregando sua cruz, o Papa nos fez olhar para tantos homens e mulheres que não fugiram da morte no testemunho da fé no Senhor. O século XX foi o século dos mártires tanto católicos como ortodoxos, anglicanos e evangélicos, escreveu na Tertio Millennio. E o século XXI continua a sê-lo.

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João Paulo II – o retorno à Casa do Senhor

O dia da morte dos santos é seu dies natalis, nascimento para a eternidade. E esse dia chegou para João Paulo II quando tinha vivido 84 anos, dos quais 57 de sacerdócio, 47 de episcopado e 27 de pontificado.

Servimo-nos de algumas palavras do doutor Renato Buzzonetti, médico que o acompanhou até os últimos instantes e narrou as últimas horas do Papa no livro-entrevista “Accanto a Giovanni Paolo II” (publicado na Itália pela Editora ARES):

“Na quinta-feira, 31 de março de 2005, por volta das 11 horas da manhã, enquanto celebrava a Missa na capela privada, o Santo Padre sentiu um tremor intenso, seguido por uma séria elevação da temperatura e por um gravíssimo choque séptico. Graças à habilidade dos reanimadores, a situação crítica foi controlada e dominada mais uma vez.

Perto das 17 horas, foi rezada a santa Missa ao pé da cama do Papa, que aos poucos emergia do choque. Na Consagração, o Papa levantou fracamente o braço direito, duas vezes, em direção ao pão e ao vinho. Tentou bater no peito com a mão direita no momento do Agnus Dei. Depois da Missa, a convite de Mons. Stanislaw, os presentes beijaram a mão do Santo Padre. Ele chamou as freiras pelo nome e acrescentou: “Pela última vez”. Depois, sendo quinta-feira, o Santo Padre quis comemorar a hora de adoração eucarística: leitura, recitação dos salmos, cantos entoados pela irmã Tobiana.

Na sexta-feira, 1º de abril de 2005, após a Missa concelebrada por ele, o Santo Padre pediu, às 8 horas, para fazer a Via sacra, fazendo o sinal da cruz em cada uma das 14 estações. Participou da recitação da terceira hora do Ofício divino e, às 8:30h, pediu para ouvir a leitura de passagens da Sagrada Escritura.

No sábado, 2 de abril de 2005, foi celebrada a santa Missa ao pé da cama do Santo Padre. Ele participou com atenção. No final, com palavras arrastadas e quase ininteligíveis, João Paulo II pediu a leitura do evangelho de São João, que o Pe. Styczen fez devotadamente, lendo nove capítulos. Homem contemplativo, com a ajuda dos presentes, o Papa recitou as orações do dia até o Ofício das leituras do domingo que se aproximava.

Por volta das 15h30, o Santo Padre sussurrou para a Irmã Tobiana: ‘Deixem-me ir para o Senhor…’, em polonês. Foram suas últimas palavras, o seu ‘consummatum est’ (Jo 19, 30). Ele não queria atrasar esse encontro com o Senhor, esperado desde os anos da juventude. Foi para isso que ele tinha vivido. Aquelas palavras eram de expectativa e de esperança, de renovada e definitiva entrega nas mãos do Pai, seu TOTUS TUUS definitivo.

Depois das 16 horas, o Santo Padre foi adormecendo e perdendo gradualmente a consciência. Por volta das 19 horas, ele entrou em coma profundo e em agonia. O monitor registrava o esgotamento progressivo dos parâmetros vitais. Às 20 horas, começou a Missa celebrada aos pés da cama do Pontífice que falecia. Cantos poloneses se entrelaçavam com os cantares que subiam da Praça de São Pedro, lotada. Uma pequena vela brilhava sobre o criado-mudo, ao lado da cama.

Às 21:37h, o Santo Padre morreu. Depois de poucos minutos de atônita dor, foi entoado o Te Deum em língua polonesa e, da Praça, de repente, viu-se iluminada a janela do quarto do Papa. A morte de João Paulo II às 21,37 horas deste sábado coincidiu com as vésperas da festa litúrgica da Divina Misericórdia”.

A grandeza dos santos está em buscar sempre a Misericórdia que regenera a vida. Eles não acertaram em tudo o que fizeram, porque eram humanos, mas souberam ser conduzidos pela graça.

O Bem-aventurado João Paulo II cometeu erros, ou equívocos, no exercício do ministério papal, boa parte deles fruto de escolhas que fizera na Cúria romana e de bispos cujos conselhos ouvia. Nada disso tira o esplendor de sua vida, e sim, manifesta como Deus é admirável nos seus santos. Seu testemunho de vida fiel e corajosa na opressão comunista de sua Polônia natal, a perda da mãe, pai, irmão, sua confiança inabalável no Senhor e na intercessão de sua Mãe Maria, seu amor intransigente pela Igreja e pela humanidade tornaram justo que o invoquemos como São João Paulo II a partir de 27 de abril de 2014.

Pe. José Artulino Besen

 

 

 

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SÃO JOSÉ DE ANCHIETA – O APÓSTOLO DO BRASIL

São José de Anchieta - Alfredo Cherubino - 2014

São José de Anchieta – Alfredo Cherubino – 2014

José de Anchieta nasceu na ilha de Tenerife, no arquipélago das Canárias, em 19 de março de 1534. Era filho de Juán López de Anchieta, um revolucionário que tomou parte na revolta dos Comuneros contra o Imperador Carlos V da Espanha, e grande devoto da Virgem Maria. Descendia da nobre família basca Anchieta (Antxeta). Sua mãe chamava-se Mência Dias de Clavijo e Larena, natural das Ilhas Canárias,filha de cristãos-novos (judeus convertidos). Um seu tataravô, que devia ser um fervoroso judaizante, foi queimado pela Inquisição [1]. O avô materno, Sebastião de Larena, foi um judeu convertido do Reino de Castela, também perseguido pela Inquisição.

Com 14 anos de idade mudou-se para Coimbra, em Portugal, onde foi estudar filosofia no Colégio das Artes, anexo à Universidade de Coimbra. Se era espanhol, por que em Portugal? A ascendência judaica foi determinante, uma vez que na Espanha, à época, a Inquisição era mais rigorosa.

Em 1551 ingressou na Companhia de Jesus como Irmão. O Pe. Manuel da Nóbrega, Provincial dos Jesuítas no Brasil solicitou mais braços para a evangelização e José de Anchieta foi um dos indicados. Chegou ao Brasil em 1553, com apenas 19 anos. Entusiasmado, Anchieta logo pôs-se a estudar o tupi, que aprendeu em seis meses, e consagrou sua vida ao trabalho de evangelização. Sua ação missionária se estendendo de São Paulo à Bahia.

Participou da fundação, no planalto de Piratininga, do Colégio de São Paulo, do qual foi regente, em 25 de janeiro de 1554. Ali nascia a cidade de São Paulo, que ele descreve no mesmo ano em uma carta ao fundador Santo Inácio de Loyola: De janeiro até o presente se fez ali uma pobre casinha feita de barro e palha com catorze passos de comprido e doze de largo, moravam bem apertados os irmãos. Ali tinham escola, enfermaria, dormitório, refeitó­rio, cozinha e despensa (…). As camas eram redes, os cobertores o fogo.

Para mesa usavam folhas de bananas em lugar de guardanapos (…). A comida vem dos índios, que nos dão alguma esmola de farinha e algumas vezes, mas raramente, alguns peixinhos do rio e, mais raramente ainda, alguma caça do mato (…). Todavia não invejamos as espaçosas habita­ções, pois Nosso Senhor Jesus Cristo dignou-se morrer na cruz por nós.

Outra carta indica a data da fundação: 25 de janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo, e, por isso, a ele dedicamos nossa casa.

Cuidava não só de educar e catequizar os aborígenes, mas foi igualmente incansável defensor deles, protegendo-os dos abusos dos colonizadores portugueses que os queriam como escravos e, não raro, se amancebando com mulheres índias. Descendo a serra, evangelizou o litoral sul de São Paulo, passando por Itanhaém e Peruíbe.

Mediador da paz em Iperoig

Padre Manuel da Nóbrega percebeu a facilidade de Anchieta para aprender línguas, de se comunicar com os índios e sua resistência física. Não hesitou, no ano de 1563, em levá-lo junto para as negociações de paz entre os índios tamoios e os colonos portugueses da região de Ubatuba e da Guanabara onde, oito anos antes, os franceses tinham se estabelecido, e se aliaram aos tamoios contra os tupis e os portugueses.

Várias tentativas de expulsar os invasores tinham resultado num impasse, com os dois lados combatendo o tempo todo. Os indígenas de Iperoig – hoje Ubatuba – foram convencidos a se aliar aos da Guanabara, formando a Confederação dos Tamoios.

O governador Mem de Sá encarregara Nóbrega de tentar fazer os tamoios de Ubatuba desistirem dessa aliança. Pe. Anchieta entrou nas aldeias falando em voz alta, como era costume dos índios, em perfeito tupi, demonstrando autoridade. Em pouco tempo ele e Nóbrega puderam construir um pequeno altar na cabana que os abrigava. Anchieta começou a fazer pregações em tupi, abrindo o caminho para evangelizar a tribo.

Tendo Anchieta como intérprete, Nóbrega tratava da paz e ficou sabendo que os tamoios também queriam a paz. Estavam cansados de perseguir e matar portugueses, mas nada tinham a reclamar dos franceses da Guanabara, que lhes davam armas, ferramentas e roupas. O único obstáculo à paz eram os tupis, inimigos dos tamoios e aliados dos portugueses. Vivendo em clima de perigo iminente, Nóbrega e Anchieta ficaram isolados do mundo: os navios em que tinham vindo estavam na Guanabara, onde também se tentava um acordo. E permaneciam sob constante ameaça dos índios mais exaltados, irritados com o simples fato de a tribo ter recebido os dois jesuítas amigos dos portugueses.

Logo Anchieta ficou inteiramente só, como refém, enquanto Nóbrega voltou a São Vicente para finalizar o tratado de paz. Anchieta iniciou a escrever nas areias de Iperoig e a decorar os versos de um longo poema em latim dedicado à Virgem Maria, com 3.000 hexâmetros,  4.172 versos. Foi a primeira epopéia escrita na América e Anchieta o escreveu em cumprimento de um voto: que a Virgem Maria o protegesse para não cair na tentação da carne, tendo diante de si índias nuas oferecidas por chefes. Venceu a tentação. O poema é um completo Tratado mariológico onde, ao lado da oração à Virgem, têm lugar a apologética, a história da Salvação, e profundas revelações de sua vida interior. Significativo foi incluir todo o texto do Cântico dos Cânticos, que sabia de memória. É a teologia mística de serviço de Deus por amor, percorrendo os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, nas palavras do Pe. Murillo Moutinho, SJ [2]. Assim podemos ler quando fala à Chaga de Jesus:

Deixa-me entrar no peito aberto pela lança ir morar no coração de meu Senhor, / por esta estrada chegarei até às entranhas de seu amor piedoso; / aí farei meu descanso, minha eterna morada. / Aí afundarei os meus delitos / no rio de seu sangue, /  e lavarei as torpezas de minh’alma, /  nesta água cristalina. Nesta morada, neste remanso, / o resto de meus dias, quão suave será viver, / aí por fim, morrer!”.

E a beleza de sua espera do último dia:

Minha alma agitada, em meio, tem sede de ti, / torrente abundante / de prazer eterno! / Feliz o dia em que me saciará, /  como em rio transbordante, / a Mãe e o Filho com o seu amor!”.

Terminado o cativeiro, transcreveu de memória o poema inteiro.

Por fim a paz foi acertada. Depois de cinco meses como refém, Anchieta partiu com uma ponta de tristeza: sentia deixar desamparadas as almas que estava conquistando para Cristo. Os índios também não esconderam sua melancolia pela partida do pajé branco que falava com Deus, lhes ensinava a doutrina cristã e tratava de suas doenças.

No mesmo ano de 1563, o perigo da morte, com a qual Anchieta convivera diariamente em Ubatuba, voltou a ameaçar o jesuíta e os índios do Planalto de Piratininga: em sua volta, esperava-o a epidemia de varíola, espalhada pelos europeus, e que mataria trinta mil índios em toda a costa brasileira.

Os férteis campos de Piratininga logo se transformaram num vasto hospital a céu aberto. Nessa ocasião, Anchieta valeu-se de conhecimentos medicinais que possuía e do uso de ervas nativas que tinha descoberto [3]. Nos casos mais graves, recorria aos sangramentos – em média de dez por dia -, que apavoravam os índios, já bastante assustados pela doença que nunca tinham visto.

Em 1566 foi enviado à Bahia com o encargo de informar o governador Mem de Sá do andamento da guerra contra os franceses, possibilitando o envio de reforços portugueses ao Rio de Janeiro. Por essa época foi ordenado sacerdote, aos 32 anos de idade.

No ano de 1569, Anchieta fundou a povoação de Iritiba ou Reritiba, atual Anchieta, no Espírito Santo e ainda dirigiu o Colégio do Rio de Janeiro por três anos, de 1570 a 1573, e onde tinha fundado a Santa Casa de Misericórdia. Em 1577 foi nomeado Provincial da Companhia de Jesus no Brasil, função que exerceu por dez anos. Nessa honrosa e delicada função percorreu o imenso território brasileiro de São Paulo ao Recife, constituindo-se sua grande preocupação o cuidado dos enfermos e moribundos. Como Provincial enviou ao Paraguai os primeiros missionários que formariam o núcleo inicial das famosas Reduções Jesuíticas.

Em 1587 retirou-se para Reritiba (Anchieta, ES), mas teve ainda de dirigir o Colégio dos Jesuítas em Vitória do Espírito Santo, até 1595.

Evangelizador, catequista, literato e santo

Para a catequese, os padres compuseram cantigas em tupi e colocaram letras cristãs em músicas indígenas. Além disso, serviram-se de danças e teatros que comunicavam de modo compreensível a mensagem cristã. As crianças aprendiam os cantos e danças e depois os retransmitiam aos adultos. “Com a música e a harmonia eu me atrevo a trazer a mim todos os indígenas da América”, escreveu o Pe. Manoel da Nóbrega. Um método de inculturação criticado pelo primeiro bispo do Brasil, Dom Pedro Fernandes Sardinha e que lhe valeu uma admoestação da Inquisição; respondia às ameaças com “Acabarei com as Inquisições a flechadas”.

Todo o trabalho missionário possibilitou que até 1600 tivessem sido batizados 100 mil índios brasileiros. Os jesuítas apenas batizavam aqueles que superavam as rigorosas etapas de um prolongado catecumenato. E mais não foi feito porque o destino dos índios era o cativeiro e a morte nas fazendas aonde eram levados para o trabalho forçado.

Pe. José de Anchieta, o “Apóstolo do Brasil”, fundador de colégios e cidades, missionário incomparável, foi gramático, poeta, teatrólogo, historiador e fino redator de cartas. O intenso apostolado não o impediu de cultivar as letras, compondo seus textos em quatro línguas – português, castelhano, latim e tupi, tanto em prosa como em verso. O movimento de catequese influenciou seu teatro e sua poesia, resultando na melhor produção literária do Quinhentismo brasileiro. Sua vasta obra só foi totalmente publicada no Brasil na segunda metade do século XX. No início do 3º. milênio tem início uma avaliação positiva de sua obra, com o reconhecimento de seu valor literário por parte da crítica.

Sua primeira peça, “Pregação universal”, escrita por sugestão de Pe. Manoel da Nóbrega, foi encenada pela primeira vez em 1567. O título “universal” se referia às três línguas usadas, tupi, português e espanhol. Escreveu 11 peças teatrais onde, ao lado inseparável da finalidade catequética e evangelizadora, percebe-se qualidade literária, tendo como modelo a forma de Auto religioso da Idade Média, escrito em versos [4]. Dessas encenações, Pe. Fernão Cardin cita um “artista”, o índio Ambrósio Pires, em 1585, no papel de Anhangá, um diabo, na peça “A Aldeia de Guaraparim”: “A esta figura fazem os índios muita festa, por causa de seus gatimanhos e trejeitos”.

O Brasil lhe deve a primeira gramática da língua tupi, com a qual, praticamente, criou uma nova língua, a “língua geral”: a “Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil”, impressa em Coimbra em 1595, já havendo a versão manuscrita desde 1556, no Colégio da Bahia. É a primeira gramática contendo os fundamentos da língua tupi com suas variantes [5].

O trabalho de Anchieta foi decisivo para a implantação do catolicismo no Brasil. Com seu conhecimento e sua fé, percorreu a pé, a cavalo, em embarcações, boa parte do território brasileiro de São Paulo ao Recife. Além de abrir caminhos que se transformariam em estradas, contribuiu para manter unificado o país nos séculos seguintes. Lançou os fundamentos da catequese e educação dos jesuítas no Brasil e começou a reverter o quadro iniciado desde o descobrimento, em que os nativos eram vistos apenas como propriedade da Coroa e, como tal, passíveis de serem escravizados. Defendeu sua dignidade de filhos de Deus. Com seus dotes inatos de comunicador, conseguiu com o indígena um amplo entendimento.

Por todos admirado como santo e milagroso, cansado das viagens, enfraquecido, em 9 de junho de 1597 Deus o chamou em Reritiba, onde residia desde 1587. A campanha para a sua beatificação foi iniciada na Capitania da Bahia em 1617, mas passou pelas vicissitudes de sua Ordem e não teve continuidade devido à perseguição de Pombal que expulsou os jesuítas do Brasil em 1759 e à supressão da Companhia de Jesus em 1773, sendo restaurada em 1814. O Apóstolo do Brasil foi declarado bem-aventurado pelo Papa João Paulo II em 22 de junho de 1980 e canonizado por Francisco em 3 abril de 2014.

Hoje, muitas pessoas procuram percorrer o caminho “Os Passos de Anchieta”, que resgata o trecho de 105 quilômetros compreendidos entre Anchieta e Vitória, e que José de Anchieta percorria regularmente duas vezes por mês, o denominado “caminho das 14 léguas”. Anchieta vencia a distância – frequentemente na dianteira – na companhia dos guerreiros temiminós que o acompanhavam na missão de cuidar do Colégio de São Tiago, erguido num platô da Vila da Nossa Senhora de Vitória, hoje transformado no Palácio do Governo, na cidade de Vitória do Espírito Santo, e onde jazem parte de seus restos mortais.

Essa “energia” de Anchieta incluía um físico frágil, menos de 1,60 metro e sofrendo fortíssimas dores nas costas, que poderiam ser provocadas pela tuberculose óssea. A doença já tinha se manifestado em Coimbra e, na tentativa de aplacar a dor, usava cintas apertadas, o que só contribuía para piorar o sofrimento. Nunca se queixou e se apresentava sempre disposto. Sua interioridade espiritual era vivida na Cruz, nas noites que passava em íntimo colóquio com Deus e no amor incondicional aos índios brasileiros.

Pe. José Artulino Besen

DOIS POEMAS DE ANCHIETA

Jesus na Manjedoura

– Que fazeis, menino Deus,
Nestas palhas encostado?
– Jazo aqui por teu pecado.

– Ó menino mui formoso,
Pois que sois suma riqueza,
Como estais em tal pobreza?

– Por fazer-te glorioso
E de graça mui colmado,
Jazo aqui por teu pecado.

– Pois que não cabeis no céu,
Dizei-me, santo Menino,
Que vos fez tão pequenino?

– O amor me deu este véu,
Em que jazo embrulhado,
Por despir-te do pecado.

– Ó menino de Belém,
Pois sois Deus de eternidade,
Quem vos fez de tal idade?

– Por querer-te todo o bem
E te dar eterno estado,
Tal me fez o teu pecado.

Ao Santíssimo Sacramento

Oh que pão, oh que comida,
Oh que divino manjar
Se nos dá no santo altar
Cada dia.

Filho da Virgem Maria
Que Deus Padre cá mandou
E por nós na cruz passou
Crua morte.

E para que nos conforte
Se deixou no Sacramento
Para dar-nos com aumento
Sua graça.


[1] Cf. ANITA NOVINSKI: Padre Anchieta: cristão ou judeu?. Folha de São Paulo, 24 de janeiro de 2014, opinião, A3. Historiadora e professora da USP, tem dedicado suas pesquisas à presença de cristãos velhos e cristãos novos no Brasil.

[2] Bibliografia para o Centenário da Morte de José de Anchieta. 1597-1997. São Paulo: Edições Loyola, vol. I. p. 204ss.

[3] Anchieta tinha especial inclinação para a medicina, profissão tradicional entre judeus e realizou inúmeras curas, afirma A. NIVINSKI, op. cit.

[4] NELSON DE SÁ: A restauração de Anchieta. Folha de São Paulo, 25 de janeiro de 2014, Caderno Ilustrada, E1. O autor discorre com simpatia sobre a obra de Anchieta, citando a opinião atual de diversos críticos literários. Ariano Suassuna percebe até ecos de Aristófanes no texto todo em tupi da peça “Na Aldeia de Guaraparim”, especialmente a fala de um demônio chamado Tatapitera: “Transtorno o coração das velhas, irritando-as, fazendo-as brigar. Por isso as malditas correm como faíscas de fogo, para ficar atacando as pessoas, insultando-se muito umas às outras”.

[5] Há um exemplar desta primeira edição na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na USP. Na folha de rosto está escrito “nomen Domini tvrris fortíssima”, castelo forte é nosso Deus (Prov 18,10).

 

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NOVOS CARDEAIS JUNTO À CÁTEDRA DE PEDRO

Chibly Langlois, arcebispo de Les Cayes, primeiro cardeal do Haiti

Chibly Langlois, arcebispo de Les Cayes, primeiro cardeal do Haiti

No dia 22 de fevereiro a liturgia celebra a Cátedra de São Pedro Apóstolo. A festa teve origem no século IV, quando os cristãos de Roma passaram a honrar Pedro junto a seu túmulo no Vaticano. A Antífona da Entrada motiva a celebração: “O Senhor disse a Simão Pedro: roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, por tua vez, confirma os teus irmãos” (Lc 22,32). E o Evangelho proclama a profissão de fé de Pedro, seguida da imposição do mandato (cf. Mt16, 13-19). No primeiro momento, o Pescador de Tiberíades se adianta aos discípulos: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. E Jesus: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela”.

A missão de Pedro e de seus sucessores, os papas, é confirmar os cristãos na proclamação de Jesus como Messias e Filho de Deus. Hoje é o papa Francisco que nos recorda continuamente a salvação dada por Deus Pai àqueles que aceitam o dom da fé no Senhor Crucificado e ressuscitado. Pedro confirma a fé vivida na Igreja, pois não é possível isolar Cristo de sua Igreja.

O Papa tem a autoridade única recebida por Pedro e transmitida aos sucessores, os bispos de Roma. Mas, ele não é uma solidão: é fortalecido pela oração dos fiéis e busca o conselho de teólogos, bispos e povo de Deus. Seus conselheiros principais são os Cardeais, que formam o Colégio apostólico e governam a Igreja na vacância papal e se reúnem em Conclave para eleger o Bispo de Roma, o Papa. Oficializado em 30 de setembro de 2013, Francisco nomeou o Conselho de Cardeais, com 8 Cardeais escolhidos dos cinco Continentes como conselheiros nos estudos e encaminhamentos para a reforma da Cúria romana.

Jean-Pierre Kutwa, arcebispo de Abidjan, Costa do Marfim

Jean-Pierre Kutwa, arcebispo de Abidjan, Costa do Marfim

Durante a liturgia de 22 de fevereiro é tradicional a nomeação de novos cardeais, anunciados com antecedência. Reunido em Consistório, Francisco também imporá o chapéu cardinalício a 19 cardeais, cujos nomes são conhecidos desde 12 de janeiro. Desses 19, três não são eleitores, pois ultrapassaram os 80 anos e foram nomeados como uma homenagem fraterna de Francisco. Um deles é Dom Loris Francesco Capovilla, por 10 anos secretário particular de João XXIII, que será canonizado em 27 de abril, juntamente com João Paulo II. Através de Loris Capovilla, o Papa quer recordar o extraordinário papa João XXIII, o Papa Bom. Capovilla não estará presente, pois seus 98 anos impedem-no de realizar uma viagem tão longa e participar de uma solenidade na qual ocupará um lugar visível.

Os 16 Cardeais completarão o quadro de 120 eleitores num eventual Conclave.

Papa Francisco, tão rico de sinais indicativos para a vida da Igreja, como a supressão dos títulos de Monsenhor, surpreendeu também nesse Consistório: os novos cardeais “representam a profunda relação eclesial entre a Igreja de Roma e as outras Igrejas espalhadas pelo mundo”.

Escolheu bispos de todos os Continentes, de 12 países: 5 das Américas, 2 da África e 2 da Ásia, com atenção a dois das mais pobres países do mundo como o Haiti e Burkina Faso. Esses homens levarão ao Papa e a Roma a voz de suas nações.

O Cardinalato é um serviço e não uma honra ou homenagem

Em outros Consistórios prevalecia a tradição de serem nomeados bispos de sedes “importantes”, mesmo que legalmente não existam mais sedes cardinalícias. Francisco indicou a superação da existência de Igrejas mais ou menos importantes, pois todas as Igrejas são apostólicas, todos os bispos sucedem os Apóstolos no mesmo grau e missão.

Como acontece com freqüência nas instituições, aquilo que era um serviço humilde se transforma em honraria e privilégio, e isso aconteceu também com os cardeais que passaram a ter vida própria quando, na verdade, seu sentido de existir é auxiliar o Papa. Assim, o Presidente da França, Portugal, Itália e o Rei da Espanha detinham o privilégio de impor o chapéu cardinalício ao núncio apostólico nomeado cardeal, numa cerimônia muito estranha de um arcebispo ajoelhar-se diante de uma autoridade civil [1]. Paulo VI suprimiu essa tradição.

No Brasil, as sedes episcopais de Salvador, São Paulo e Rio eram também consideradas sedes cardinalícias. Francisco não levou isso em consideração: escolheu Dom Orani Tempesta, do Rio de Janeiro, mas não o arcebispo de Salvador. Focalizou o interesse da Igreja, não eventuais homenagens.

A Igreja italiana sentiu isso com maior clareza: não foram escolhidos para o Colégio cardinalício nem o Patriarca de Veneza, nem o arcebispo de Turim. Francisco pôs os olhos em Gualtiero Bassetti, humilde bispo da pequena Peruggia, que vive na simplicidade e pobreza o ministério episcopal, quase ao estilo de Jorge Bergoglio quando arcebispo de Buenos Aires.

João XXIII nomeou o primeiro Cardeal negro, Laurean Rugambwa, em 1960

João XXIII nomeou o primeiro Cardeal negro, Laurean Rugambwa, em 1960

Maior significado ainda trouxe a escolha do primeiro cardeal da história do Haiti: buscou não o arcebispo da Capital, mas, na periferia haitiana, Dom Chibly Langlois, bispo da pequena cidade de Las Cayes. E nas Filipinas, escolheu Dom Orlando Quevedo, da diocese de Cotabato, Mindanau, que nunca teve cardeal. O Papa que veio “do fim do mundo” quer escutar os cristãos dessas periferias eclesiais.

Sempre mais seremos chamados a ver a missão cristã como serviço cristão, que a glória cristã é ocupar o último lugar. O trono cristão é participação do trono do Calvário, onde Nosso Senhor dá a vida.

Pe. José Artulino Besen


[1] Assis aconteceu em 1953, quando no Palácio de Versailles em Paris, o francês Vincent Auriol impôs o barrete no Núncio Ângelo Roncalli, cinco anos depois eleito Papa João XXIII.

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PAULO VI, PEREGRINO DA HISTÓRIA – Há 50 anos de sua viagem à Terra Santa

Paulo VI em Tabgha, beija a rocha onde Pedro recebeu o Primado

Paulo VI em Tabgha, beija a rocha onde Pedro recebeu o Primado

Com a morte do Cardeal Schuster, em agosto de 1954, o papa Pio XII nomeou sucessor seu Pro-secretário de Estado, Giovanni Batista Montini. Em período normal, ser arcebispo de Milão era ser honrado por assumir a sede que foi de Santo Ambrósio e de São Carlos Borromeu. Montini, porém, teve sua escolha motivada pelo fato de que Pio XII não o queria em Roma para que não fosse seu sucessor, como se falava, pois via-o como simpático ao melhoramento de relações com os soviéticos e com a modernidade. Montini era “o nome”: mantivera contatos com episcopados nacionais, incentivara a fundação da CNBB e sua longa experiência romana, além de seu refinamento intelectual, diplomático e teológico, o credenciavam ao Pontificado.

O fato de ter vindo do mundo diplomático, sem experiência pastoral, favoreceu-o em Milão, pois foi capaz de olhar a cidade sem preconceito, como desafio à fé e à vida cristã. Era um homem moderno.

Pio XII recursou-se a nomeá-lo cardeal para evitar a eleição, mas a ação pastoral milanesa, sua abertura aos problemas sociais, seu enlaçamento com a cultura acabaram por prepará-lo ainda melhor para ser papa. Marcante foi a “Grande Missão milanesa”, de 4 a 24 de novembro de 1957 e que envolveu as 110 paróquias, 1288 pregadores e milhares de agentes de cada classe social e profissional. Escreveu, como motivação: “A preguiça religiosa domina nossa época. O mundo parece tornar-se menos sensível ao religioso. São muitos os que estão afastados e podem ser estes os preferidos da evangelização”.

No encerramento, o arcebispo propôs gestos concretos, humildes, mas eficazes: a bênção das casas, fichário paroquial, Missa festiva da Primeira Comunhão para todos, no mesmo dia, e a construção de novas igrejas na cidade que se expandia de maneira impressionante. Montini quis manifestar sua ação de graças a Deus com a Peregrinação a Lourdes de 27 a 29 de junho de 1958.

PAULO VI – PAPA MONTINI

Papa Paulo VI

Papa Paulo VI

Morto Pio XII, o Conclave aberto em 26 de outubro de 1958 discutiu a hipótese de eleger papa um não cardeal, Montini. A opção foi descartada e decidiu-se eleger pelo critério da idade e, no dia 28 de outubro, o Patriarca de Veneza, Ângelo Roncalli foi eleito, escolhendo o nome de João XXIII. Sua maior credendial: a idade. O mais já conhecemos, pois o insuspeitado santo era velho de 76 anos, mas enxergava bem. O Papa Bom, já em 4 de novembro escreveu a Montini que o criaria cardeal, o que aconteceu em 15 de dezembro. Sanava-se uma injustiça, era voz corrente. Em janeiro seguinte é anunciado o Concílio Ecumênico, para espanto de muitos: tinha-se a idéia de que com o dogma da infalibilidade papal (1870) Concílios não eram mais necessários.

João XXIII conquistou o mundo com seu coração onde todos encontravam lugar, sem exceção, superando o espírito inquisitorial. Sua grande obra, além do Concílio, foi sua pessoa, na qual o mundo sentiu ter um pai.

Cinco anos depois, o mundo chorava a perda de João XXIII e, no Conclave, em 21 de junho de 1963, foi eleito o Cardeal Montini, Papa Paulo VI. Tinha 65 anos, era frágil fisicamente (dizia-se que, desde jovem, tinha uma péssima saúde de ferro) mas era o homem escolhido por Deus para reger o caminho da Igreja num período difícil da história humana: a Guerra Fria, o surgimento de novas nações com a descolonização da África, os conflitos Norte-Sul, a secularização e secularismo, a contestação que se alastrava e atingia todas as instituições, também a Igreja.

No dia seguinte à eleição, anunciou os principais objetivos de seu pontificado: retomar as sessões do Concílio Vaticano II (“A parte mais importante de nosso pontificado será ocupada pela continuação do 2º Concílio Ecumênico do Vaticano, para o qual se voltam os olhares de todos os homens de boa vontade”), empenhar-se pela paz entre os povos, e pela unidade dos cristãos.

Montini foi fiel ao pedido que lhe fizera João XXIII: continuar o Concílio. Seria um tempo de confronto, incertezas, mas também um novo Pentecostes na Igreja. No dia 30 de junho de 1963, aconteceu a Coroação de Paulo VI. O Cardeal Ottaviani, proto-diácono, colocou-lhe a Tiara (tríplice coroa), que o Papa pedira fosse simples e cônica. Usou-a poucas vezes até que, num gesto carregado de simbolismo, em 4 de dezembro de 1963, no encerramento da segunda Sessão do Concílio, tirou-a da cabeça e a depositou no altar de São Pedro, simbolizando a renúncia do papa a qualquer pretensão de poder temporal. O Papa suprimiu o uso pessoal da Tiara e não para os futuros papas, tanto que na Constituição de 1975 sobre a Eleição Papal fala de coroação. João Paulo II, na nova legislação de 1996, não fala mais dela, e o início do ministério papal passa a ser “Inauguração”, em vez de “Coroação”.

O ministério petrino exercido por Paulo VI sofre a injustiça de julgamentos parciais, especialmente por sua Carta encíclica “Humanae Vitae” (25 de julho de 1968) sobre o controle da natalidade e o uso de anticoncepcionais, na qual assume posição de minoria de teólogos moralistas contra a opinião da maioria. Alguns reduzem Paulo VI ao “Papa da Pílula” ou, com maior amargura, ao “Papa da Missa modernista”, do traidor da Missa de São Pio V.

Os detratores o julgam herético, maçom, judaizante, mancomunado com Moscou, anticristo, devasso e outros adjetivos de que alguns católicos tradicionalistas se apossam em sua sistemática e desumana campanha contra um Pontífice romano. Quando teve início o processo de beatificação de Paulo VI, ficaram escandalizados e mais ainda com a aprovação do primeiro milagre! Paulo VI sofreu a incompreensão em vida e na memória. A história lhe faz justiça e o Espírito lhe testemunha a santidade.

O processo de beatificação foi aberto em 1993, e João Paulo II oficialmente o reconheceu como “Servo de Deus”. Em 20 de dezembro de 2012, Bento XVI reconheceu a heroicidade das virtudes e o proclamou “Venerável”.

Alguns historiadores apelidam Paulo VI de “Hamletiano” (“ser ou não ser”), angustiado pelas dúvidas no caminho da vida eclesial e do qual são se conhecia o resultado. Sofreu as milhares de desistências de padres e religiosos, a contestação ao magistério papal, o decréscimo nas vocações, na participação religiosa, mas seguiu o caminho traçado pelos Padres conciliares. Como homem de visão histórica, sabia que não há renovação sem perdas, abertura de novos caminhos sem crítica. E, mais ainda, tinha claro que um acontecimento determinante como o Vaticano II, vivenciado numa época histórica dominada por conflitos políticos, culturais e econômicos, não poderia ser aplicado muito devagar, para não perder os idealistas que pediam pressa, nem muito ligeiro, para não perder os mais conservadores que pediam uma freada em tudo.

PAULO VI, CONTEMPLAÇÃO E AÇÃO

A obra do Papa Montini é imensa e, apenas como exemplo, podemos citar:

A criação do Sínodo dos Bispos, assembléia episcopal a ser convocada periodicamente para assessorar no governo da Igreja. A reforma da Cúria romana e a criação de Comissões pontifícias para conduzirem os novos serviços da Igreja. Revolucionou a eleição papal, reservando-a aos Cardeais abaixo dos 80 anos e elevando a 120 o número de eleitores. Convocou cinco Consistórios, com a criação de 143 novos cardeais.

Seguiu a recomendação conciliar de levar a efeito a reforma litúrgica, já iniciada por Pio XII, estabelecendo o Ritual romano da Missa em 1969. Se na Missa tridentina era acentuado o aspecto sacrifical da Missa, sem negá-lo agora se acentua o aspecto pascal, celebração do Povo de Deus. Mais de 40 anos depois pode-se dizer que a implementação do novo Rito foi marcada mais pelo sentido de novidade do que pelo sentido de ativa participação do povo que celebra a Páscoa. Em outras palavras, renovou-se a Liturgia, mas esqueceu-se bastante da renovação da Assembléia.

Paulo VI assumiu a face da Igreja que se apresenta como dialogante, sendo “diálogo” a grande palavra: diálogo dentro da Igreja, diálogo entre as Igrejas cristãs, diálogo com o mundo, diálogo com os regimes comunistas de então. A Igreja montiniana faz-se diálogo, serviço ao mundo. O Ecumenismo, que era apanágio das Igrejas cristãs, também é assumido pela Igreja Católica. Em 1964, foi iniciada a “Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos”. Em 10 de junho de 1969, Paulo VI dirigiu-se a Genebra, à sede do Conselho Mundial das Igrejas, onde pronunciou a antológica apresentação: “Me chamo Paulo, e meu nome é Pedro”.

O diálogo com o mundo teve sua expressão na visita à sede das Nações Unidas, em Nova York. Era 4 de outubro de 1965, e foi recebido pelos representantes de todas as nações do mundo, menos a Albânia, que tinha assumido o “glorioso” título de “primeira nação atéia do mundo”. Vestia apenas a batina branca com a Cruz peitoral e foi saudado entusiasticamente. Apresentou-se como chefe de um minúsculo país e como representante da Igreja Católica em nome da qual discursou, afirmando que suas palavras eram também as dos Padres do Concílio, que ainda estava reunido, apresentou-se como servidor da paz, sem nenhum poder além da decisão de servir. Todos se ergueram quando clamou: “Jamais a guerra! Sim, nunca mais a guerra! A paz, a paz deve guiar o destino dos povos e da humanidade toda!”.

Significativo que, dois meses depois, em 7 de dezembro, era aprovada a Constituição pastoral “Gaudium et Spes” sobre a Igreja no mundo. Paulo VI duplicou o número de Nunciaturas e delegações apostólicas para poder dizer uma palavra em favor da vida humana e da paz.

A Igreja na América latina deve-lhe a convocação e a presença estimulante na abertura da Conferência do episcopado em Medellín, em 24 de agosto de 1968, com o tema “A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio”. No ano anterior tinha publicado a Carta encíclica “Populorum Progressio”, que teve influência decisiva em Medellín no sentido de a Igreja se empenhar pela causa da justiça e da superação das desigualdades. Paulo VI apoiou com o peso de sua autoridade os bispos brasileiros que se levantavam contra a Ditadura militar e nomeou novos, comprometidos com a causa da justiça.

PEDRO RETORNA A JERUSALÉM

Paulo VI na Via Dolorosa - olhar em êxtase

Paulo VI na Via Dolorosa – olhar em êxtase

Papa Montini realizou sete viagens internacionais, as primeiras de um papa desde 1812. A que mais lhe tocou o coração foi a peregrinação à Terra Santa: iniciativa pessoal, sem convite oficial, estritamente espiritual, e que teve um significado imenso na história católica. Na conclusão da segunda Sessão do Concílio, em 4 de dezembro de 1963, comunicou aos Padres que estava convencido de que, para o bom êxito do Concílio eram necessárias muitas orações e, para isso “decidimos ir como peregrinos àquela terra que é pátria de Jesus nosso Senhor … com a intenção de pessoalmente evocar os principais mistérios da nossa salvação, a encarnação e a redenção. … Veremos aquela terra veneranda de onde partiu Simão Pedro e à qual nenhum sucessor dele retornou. Nós, humildemente, e por curto tempo, a ela retornaremos em espírito de devota oração, de renovação espiritual, para oferecer a Cristo sua Igreja; para chamar a ela, una e santa, os Irmãos separados; para implorar a divina misericórdia em favor da paz”.

João Paulo II tinha planejado para o Jubileu do segundo Milênio uma peregrinação à terra de Abraão, Pai das religiões monoteístas, iniciando por Ur na Caldéia. Por questões de segurança, essa região não foi visitada. Paulo VI planejava seguir as pegadas de São Paulo, partindo de Damasco, e razões políticas também não o permitiram.

E assim, em 4 de janeiro de 1964, Paulo VI desembarcava na Jordânia, depois seguindo de automóvel, e era tarde quando chegou a Jerusalém e desembarcou para celebrar a Via-sacra. Dessa hora em diante aconteceu de tudo: a multidão cercou o Papa, cardeais, patriarcas e bispos eram jogados contra a parede e meia dúzia de heróicos soldados árabes cuidaram de garantir a integridade papal. Em meio ao turbilhão Montini sofreu algumas quedas, a multidão o fazia desaparecer de vista. Pálido e feliz, o Papa foi recolhido por alguns minutos na capela da 6ª. Estação e ali entrou em êxtase, como se pode observar em foto tomada ali. Refeito, segue o caminho e chega à basílica do Santo Sepulcro, onde se prostra em oração e deposita um ramo de oliveira no Sepulcro. Mais tarde, comentou que desejaria ser dispensado dos protocolos romanos e poder trabalhar como Pedro reunido com seus diáconos.

Na manhã do dia 5, domingo, recebeu o Presidente de Israel Salman Shazar e o Rabino chefe Nissim. Agradecendo a saudação, Paulo VI fala: “Com satisfação recordamos os filhos do “Povo da Aliança” cujo destino na história religiosa da humanidade não podemos esquecer”. Em nenhum momento citou a palavra Israel e cabe uma explicação: estamos em 1964 e a região que hoje é a Palestina pertencia a Jordânia, incluindo Jerusalém oriental, e foi ocupada por Israel na Guerra de 1967. Como o Vaticano não reconhecia, ainda, Israel, o Papa não o citou.

Nessa peregrinação, o Papa pode sentir as conseqüências das divisões entre árabes e judeus, entre ortodoxos e católicos. A Missa no Santo Sepulcro foi celebrada em frente à basílica, pois os ortodoxos impedem os católicos de celebrarem diante do Sepulcro. O mesmo aconteceu na Basílica da Natividade, em Belém, onde o Papa, paramentado para a Celebração, teve de dar uma volta, pois não lhe seria permitido passar pela nave central, também ortodoxa. Nada disso, é evidente, tirou a alegria e a emoção de Paulo VI que, vindo da diplomacia, conhecia bem os meandros da história.

Nesse mesmo dia 5, o Papa dirigiu-se à Galiléia, prostra-se na rocha onde Pedro foi chamado, contempla o lago de Genezaré e celebra na Basílica de Nazaré, e falou de Nazaré como “Escola do Evangelho”. Sobe o Monte Tabor e, no final do dia, está novamente em Jerusalém.

Paulo VI abraça o Patriarca Atenágoras I

Paulo VI abraça o Patriarca Atenágoras I

Foi na tarde desse dia que aconteceu o grande encontro, esperado desde 1439: como que após longa procura, se abraçaram o Patriarca de Roma Paulo VI e o Patriarca de Constantinopla Atenágoras I, se abraçaram os dois irmãos Pedro e André. Cada um recitou o Pai Nosso em latim e grego. Atenágoras deseja que esse encontro “seja o alvorecer de um dia luminoso e bendito, em que as gerações futuras comungarão do mesmo cálice do Santo Corpo e do Precioso Sangue do Senhor”.

No dia seguinte, seguindo o protocolo, Paulo VI retribuiu a visita de Atenágoras e fala: “De ambos os lados os caminhos que conduzem à união são longos e cheios de dificuldade. Mas, as duas estradas convergem e se encontram nas nascentes do Evangelho. Não é sinal de bênção que o encontro de hoje aconteça nessa Terra onde Cristo fundou sua Igreja e derramou seu Sangue por ela?”.

O histórico encontro é concluído com a leitura do Capítulo 17 de João, em grego e em latim, alternadamente, a partir da mesma cópia do Evangelho. Agora juntos, rezam o Pai Nosso em grego e em latim e ambos abençoam os presentes. Nascia ali uma amizade profunda, que continua até nossos dias, entre Roma e Constantinopla.

Antes de deixar Jerusalém, o Papa visitou um paralítico, Mathia Khalil Nathan, e nesse abraço quis incluir todos os doentes da Cidade Santa.

No mesmo dia 6, às 18:30h, Paulo VI desembarcou em Roma. Revigorado, trabalhou sem descanso ou dúvida para a renovação da Igreja.

Em 8 de dezembro de 1975 publicou a Exortação apostólica “Evangelii Nuntiandi”. Com a “Populorum Progressio” são até hoje fontes inesgotáveis da vida pastoral.

Recitando continuamente o Pai Nosso, aos 80 anos, descansou em paz em 6 de agosto de 1978, festa da Transfiguração do Senhor. A seu pedido, foi sepultado rente ao solo. Aguardando sua beatificação, a Igreja louva o Senhor pela graça do ministério papal de Paulo VI.

Pe. José Artulino Besen

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O CONCÍLIO DE TRENTO NO CAMINHO DA IGREJA – 450 ANOS

Concílio de Trento - Congregação Geral (E. Naurizio)

Concílio de Trento – Congregação Geral (E. Naurizio)

Em 1517, um frade agostiniano alemão publicava suas Teses em Wittenberg, chamando os doutores a discutirem com ele os problemas que enxergava na Igreja católica, centralizando-os no tema da Justificação: como o homem alcança a salvação? Para nós, a resposta é clara e, com todos os protestantes dizemos: somos salvos pela graça que nos é dada pela fé em Jesus Cristo crucificado.

À época, com o Papado mergulhado na preocupação com as artes, a Renascença, com a Cúria romana mais interessada no jogo do poder, a reposta era confusa, mesmo que a teologia fosse clara. Era o tempo das Indulgências e o papa Leão X estava mais preocupado em arranjar dinheiro para a construção da nova basílica de São Pedro do que com as impertinências de um frade alemão, Martinho Lutero. Os pregadores de Indulgências anunciavam que se poderia salvar uma alma mediante pagamento e Lutero, que passara pela busca de querer ser salvo, descobrira o caminho bíblico: O Justo viverá pela fé! (Rm 1,17), pela fé em Cristo Deus nos salva.

Lutero (1483-1546) aliava em si profundo conhecimento bíblico, imenso amor pela oração, capacidade de liderança e irresistível atração nos ouvintes. A Alemanha entrou em convulsão religiosa, monges e monjas abandonaram os mosteiros, padres e bispos passaram para o lado do Reformador e, claro, os príncipes alemães viram na adesão a Lutero um modo de se apossarem dos bens da Igreja. A Alemanha católica se tornara em grande parte protestante.

E Roma, como reagiu? Com muita lentidão e receio. Afinal, quando se trata de perder privilégios poucos têm coragem de dar o passo. E, assim, grande parte do tecido imperial adere às novas doutrinas, a Igreja católica, que fora fiadora da Europa – pois a Europa é uma sábia construção católica – perde espaço, permanecendo católicos Portugal, parte da França, Espanha e Itália. Um grande trabalho missionário, especialmente dos jesuítas, reconquistou depois parte do espaço perdido.

Bispos e cardeais, leigos e intelectuais, Lutero, Calvino, os Príncipes, pediam um Concílio ecumênico para uma reforma na cabeça e nos membros. Suas vozes não eram ouvidas, pois as preocupações romanas eram outras. Infelizmente assim foi e, quando o Concílio Ecumênico foi aberto em Trento, os dois lados estavam irremediavelmente divididos após 27 anos de conflitos, fazendo com que o Concílio fosse um concílio católico e de reforma católica.

Por que em Trento, aos pés dos Alpes? Era uma cidade neutra, governada por um Bispo-príncipe e garantia a segurança dos bispos participantes e sua independência frente às interferências do imperador Carlos V, dos príncipes e da ambiciosa monarquia francesa.

Paulo III convocou o Concílio para 1544, mas, o reduzido número de bispos obrigou-o a transferi-lo para março de 1545. No início compareceram 25 bispos e 7 Gerais de ordens religiosas. É útil olharmos os números em confronto com outros Concílios: na 1a. sessão havia 31 bispos para a abertura e nas duas primeiras fases o número oscilava entre 65 e 70, na última chegando a 225; nos grandes Concílios da Antigüidade era outra a vivacidade: em Nicéia (325) eram 318 bispos; em Calcedônia (451) foram 630; nos tempos modernos, 700 no Vaticano I (1869-1870) e 2500 no Vaticano II (1962-1965).

Por que o reduzido número? As dificuldades de viagem, a falta de segurança, as ameaças dos príncipes e, sem dúvida, bispos que deixaram a Igreja católica.

O Concílio de Trento teve três fases: 1545-1547, 1551-1552, 1561-1563, vividas sob 5 Papas. Realizou uma obra admirável, respondendo de modo positivo às instâncias luteranas. Foi um Concílio dogmático, sim, mas os bispos que lá se reuniram estavam preocupados com algo muito imediato: como ser bispo frente a uma Cúria romana que interferia na sua autoridade? Como reformar a vida católica? A preocupação episcopal era mais pastoral. E muito foi conseguido, podendo ser dito que os bispos saíram de Trento com sua autoridade reforçada, apesar do título ambíguo de “delegados da Sé apostólica” (os bispos são sucessores dos Apóstolos, não delegados papais).

A grande palavra tridentina foi “pastoral”: reformar a vida católica, o clero, os religiosos. Missão da Igreja não é a promoção das artes, mas a salvação das almas: Salus animarum suprema lex esto. Foi a ação pastoral o grande fruto dessa assembléia que durou 18 anos e na qual houve liberdade de expressão para bispos e teólogos. Ali o santo arcebispo português, Frei Bartolomeu dos Mártires, pode dizer aos seus colegas: “Os eminentíssimos e reverendíssimos senhores Cardeais necessitam de uma eminentíssima e reverendíssima senhora reforma”. E assim foi.

 Trento e suas decisões

Quais foram as decisões que mais diretamente tocaram a vida da Igreja? Foram tantas e tão importantes que fica difícil salientar alguma, pois o corpo doutrinal e pastoral da Igreja é de tal modo compacto que as fissuras quebram-lhe a unidade.

Primeiro fruto foi a resposta positiva e bíblica à doutrina da Justificação, que até Lutero teria assinado. A afirmação do Cânon bíblico, com 72 livros, a doutrina dos Sete Sacramentos, a fé que opera na caridade, a purificação na doutrina do culto aos Santos, às relíquias, a riqueza das devoções, a vida religiosa consagrada, etc.

Trento não teve condições de unir os aspectos visíveis da Igreja à sua natureza místico-sacramental. Não conseguiu definir um conceito de Igreja; apenas definiu-lhe os aspectos doutrinais. No longo prazo isso fez com que se acentuassem os aspectos visíveis, institucionais. Basta ver o que o santo teólogo Roberto Belarmino declarou a respeito: “a Igreja é tão visível como a república de Veneza”, e isso levou a se confundir a Igreja Corpo de Cristo com suas estruturas que são passageiras, mas defendidas como dogmas de fé. O papa Francisco está decidido a uma reforma nesse sentido, e a fará como fruto de outro Concílio, o Vaticano II.

Mas, algumas instituições marcaram a vida da Igreja para melhor: a criação dos seminários, obrigatórios para cada diocese, a fim de haver seleção dos candidatos ao sacerdócio e, ao mesmo tempo, a possibilidade de pobres e ricos serem padres. A Cúria romana foi reformada com a divisão em Dicastérios e deu-se forte impulso à ação missionária.

A obrigação de cada bispo realizar a Visita ad limina Apostolorum: a cada cinco anos ir a Roma e, junto ao túmulo dos Apóstolos, prestar contas de sua ação pastoral. A mesma obrigação cabia aos bispos em suas dioceses que devem ser visitadas em visita pastoral, a obrigação de o bispo residir em sua diocese. Grande exemplo nesse campo foi o arcebispo de Milão São Carlos Borromeu (1538-1584): visitou toda a diocese, os conventos e mosteiros e, com energia até excessiva, puniu os desvios doutrinais e de comportamento, dando à diocese de Milão a fisionomia que possui até hoje, fruto de grandes bispos e cardeais, alguns recentemente Papas: Pio XI e Paulo VI.

Não foi positivo o fruto de outra decisão: obrigar as religiosas à clausura, impedindo-as de ação pastoral, o que incorporou um caráter machista à organização da Igreja, o mesmo que aconteceu na Igreja protestante. A acentuação na Hierarquia enfraqueceu a formação do laicato adulto, levando à clericalização da organização elecial.

Os bispos conciliares delegaram ao Papa Pio V a elaboração de uma Profissão de Fé (1564), a publicação do Catecismo Romano (1566), do Breviário (1568) e do novo Missal (1570), a Missa de São Pio V. Se um dos grandes méritos de causa de sucesso de Martinho Lutero foi o uso da língua alemã na pregação e no culto, o mesmo não se pode dizer de Trento, apegado firmemente à língua latina, quase canonizando-a. O conflito já existia na Idade Média, mas lá se dizia que a Liturgia poderia ser expressa nas línguas citadas na cruz: grego, latim e aramaico. O latim foi responsável pelo espírito autoritário romano e franco-germânico frente aos povos eslavos que se convertiam à fé cristã.

A preocupação com a reta doutrina fortaleceu na Igreja o espírito inquisitorial.

A unidade dos bispos em torno do Papa deu-lhe autoridade para enfrentar os novos Estados absolutistas que tentaram por todos os caminhos assaltar a liberdade da Igreja e sua missão.

Concílio Vaticano II - 1962-1965 - Congregação Geral

Concílio Vaticano II – 1962-1965 – Congregação Geral

Mudanças sempre são lentas

As decisões conciliares se depararam com a adversidade da Cúria romana que continuou a conceder privilégios e isenções, bispos se deixando empolgar pela riqueza e pelo apoio da autoridade dos reis e, somente no século XX, a obrigação dos seminários se universalizou com a criação de seminários regionais. Parte do clero continuará a mergulhar numa prostração espiritual fruto do sustento recebido do Estado.

O espírito controversístico levou a pastoral a acentuar os aspectos antiprotestantes: Tradição mais forte que a Bíblia, obras mais poderosas que a fé, vontade em detrimento da graça, culto aos Santos e a Maria, os exercícios de piedade mais valorizados do que uma espiritualidade verdadeiramente centrada no Cristo e no mistério trinitário. A autoridade do Papa e da Cúria marcou na Igreja o caráter acentuadamente romano e centralizador.

Finalizando, o Concílio de Trento deu à Igreja energias insuspeitadas, principalmente conteúdo e convicção doutrinária para enfrentar as grandes batalhas que logo ganharam força: garantir a liberdade da Igreja, salvar a revelação diante do Iluminismo racionalista, afirmar a Palavra de Deus frente às escolas modernas que a reduziam ao mito, salvar a encarnação do Verbo e própria existência de Deus frente a uma sociedade econômico-cultural cada vez mais narcisista, arrogante e que tenta repetir o desafio de Prometeu: roubar o fogo dos deuses e deste modo negar a Deus e deixar o homem ao arbítrio do tempo.

No dia 3 de dezembro de 1563 era encerrado o Concílio de Trento e, 400 anos depois, em 4 de dezembro de 1963, os padres conciliares do Vaticano II publicavam a Sacrosanctum Concilium, a liturgia do povo de Deus que celebra comunitariamente o mistério pascal.

A duras custas aprendemos a ser servidores do povo, humildes e desarmados oferecendo ao mundo uma palavra de vida, uma pessoa: Jesus, o Salvador.

Pe. José Artulino Besen

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PAULO VI – CANTOR DA FÉ E DA BELEZA

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Bento XVI recordou Paulo VI como homem de vida “profundamente sacerdotal e rica de profunda humanidade”. Para nós, brasileiros, é o homem da CNBB, de Medellín, de Dom Helder Câmara, o homem que nos deu os Cardeais Dom Aloísio Lorscheider e Dom Paulo Evaristo Arns. Para a Igreja, é o papa do Concílio Vaticano II, do ecumenismo, da reconciliação com o mundo moderno. O que João XXIII anunciou preparando os caminhos do Senhor, um outro João, que assumiu o nome de Paulo, edificou com a história de vida, sabedoria, diálogo, escritos e – acima de tudo – a Cruz, que ele teve bem pesada.

Por mais que se fale em evangelização e doutrina social de Igreja, sempre será necessário citar com abundância sua encíclica Populorum Progressio (1967) sobre a justiça social cristã, e a Exortação apostólica Evangelii Nuntiandi (1975) sobre a evangelização no mundo contemporâneo. Sua obra foi prosseguir o Concílio que tinha realizado apenas uma sessão, concluí-lo e, o mais delicado, aplicá-lo na vida de uma instituição bi-milenar, presente nas mais díspares culturas de quase duas centenas de nações, e numa sociedade que trilhava os caminhos da secularização. Alguns achavam que ia muito depressa, outros que muito devagar. Como fazer para abraçar a todos a não ser aceitando a cruz, a paciência no diálogo frente às incompreensões e na santidade da vida já marcada por tantas dores físicas que o deixavam fragilizado? Aceitou ser o Pai dos cristãos.

Um presente para a Igreja

Santa Teresinha de Lixieux tinha anunciado que no dia de sua morte a Igreja receberia um presente: pois naquele dia de sua morte, 30 de setembro de 1897, em Concesio, era batizado Giovanni Battista Montini. Na vida eterna ingressava a Santa das Missões, na vida divina ingressava o futuro papa da missão no mundo contemporâneo, o hoje Servo de Deus Paulo VI.

Era filho de um deputado socialista de Brescia, teve a vida marcada pela sensibilidade aos dramas humanos em todos os seus aspectos de pobreza e riqueza. Em seu tempo de seminarista duvidaram se poderia ser padre, pois estava sempre ou doente ou fraco. Depois, percebeu-se que tinha “uma péssima saúde de ferro”, que lhe deu forças para viver 81 anos.

Era arcebispo de Milão quando foi eleito Papa em 21 de junho de 1963, cinqüenta anos atrás, uma eleição esperada pelos Cardeais desde o Conclave de 1958 mas, naquela ocasião, não era cardeal. As surpresas de Deus ofereceram o Papa Bom para colocar a bondade no coração do mundo, e agora, um santo intelectual para oferecer ao mundo o coração da Igreja.

Paulo VI “inventou” as grandes viagens papais: Filipinas, Uganda, Índia, Palestina, Nova Iorque, Portugal, Colômbia (onde inaugurou a Conferência de Medellín em 1968). Apresentou-se humildemente no Parlamento mundial, a ONU, em 4 de outubro de 1965: “Meu nome é Pedro. … Nós não temos nada para pedir; nenhuma questão a levantar; unicamente um desejo a formular, apenas solicitar a permissão de servir-vos naquilo que é de nossa competência, com desinteresse, humildade e amor”.

Tinha uma sensibilidade humana tão marcante que prestava atenção a cada gesto, a cada pessoa, e isso desde padre. Numa viagem pastoral no sul da Itália viu uma criança que desejava entregar-lhe um bilhete: apanhou-o e prometeu lê-lo. No Vaticano viu o que a criança pedia e enviou-lhe regularmente um auxílio. E com freqüência enviava algum dinheiro para os pobres que lhe pediam. Noutra ocasião, já paramentado para a celebração num dia de muitas tarefas, aparece um homem na sacristia e pede a confissão. Como se já o estivesse esperando, senta-se e o atende.

Na Índia, um país de religião hindu, pobre, cheio de problemas, poucos perceberam um homem que dele se aproximou e apunhalou-o. Paulo VI pediu que ninguém ficasse sabendo, para não se pensar mal da Índia, agüentou as dores e somente depois aceitou curativos. Também em Portugal um padre fanático tentou feri-lo.

Essa sensibilidade foi moldada pelo coração mariano: “ninguém é tão mariano como o Papa”, afirmou seu secretário. Publicou a exortação apostólica Marialis Cultus, em 2 de fevereiro de 1974, um documento de doutrina, piedade e clareza excepcionais, onde dedica 13 números ao Rosário, que recitava diariamente e sobre o qual se abre em poesia: “É uma oração ordenada; não irregular, intermitente, desordenada; não, pois segue um fio, uma linha. É uma oração coletiva. Não é uma voz solitária, mas é um coro, é uma harmonia, é um concerto, é um rosário não só de Ave Maria, mas de almas frescas e inocentes” (10 de maio de 1964).

Gestos de pura beleza da fé

Tendo bebido na cultura francesa, Paulo VI era universal e ecumênico: foi a Jerusalém da Paixão e da Páscoa, em Nazaré inaugurou a imensa basílica mariana, levantou a excomunhão de 1054 contra a Igreja ortodoxa, abraçou e beijou o patriarca de Constantinopla, Atenágoras (1964), abraçou e beijou os pés de Arthur M.. Ramsey, primaz da Igreja anglicana, dando-lhe seu anel episcopal.(1966). Quando de sua viagem à Uganda, para a canonização dos mártires africanos, foi profético e pioneiro acolhendo o martírio de outras Igrejas: “…E não querendo também esquecer os outros que, professando a religião anglicana, sofreram a morte pelo nome de Cristo”. Buscou derrubar os muros que isolavam a Igreja dos dramas da sociedade, defendeu a liberdade de consciência e a dignidade humana.

Era um Papa de grandes amigos e que prezava a amizade de intelectuais como Jean Guitton, de políticos como Aldo Moro, vítima de seqüestro pelas Brigadas Vermelhas que infernizaram a sociedade italiana. De público pediu sua libertação, mas não foi atendido. E, 55 dias depois, em 9 de maio de 1978 os terroristas deixaram seu cadáver numa rua romana. Transido pela dor, foi rezar nas exéquias na Basílica lateranense, num derradeiro esforço para mostrar seu afeto ao amigo em quem depositava a esperança de da purificação na política italiana.

Amava Santo Agostinho, a literatura, as artes em geral, criou os Concertos musicais no Vaticano, trazendo maestros do porte de Von Karajan, Zubin Mehta, Carlo M. Giulini. Acreditava que as estradas do belo conduzem o homem à fé. Inaugurou nos Museus do Vaticano a seção de Arte Moderna e Contemporânea, em 1964. Foi o projeto para relançar o diálogo interrompido entre a Igreja e a arte, desejando encorajar a histórica amizade entre a fé e o artista. Era amante e grande conhecedor da arte e, na ocasião, pediu todos os artistas para “mergulharem novamente no sagrado e darem a justa visibilidade à Palavra de Deus e à ação da Igreja de Roma”. A coleção é formada somente por doação e já inclui os grandes nomes como Van Gogh, Gauguin, Degas, Renoir, Manet, Delacroix, Utrillo, Rouault, Matisse, Bonnard, Dufy, Derain, Vlaminck, Braque, Chagall.

Encomendou ao escultor e amigo Giacomo Manzù um monumento a João XXIII na Basílica de São Pedro, e recebemos o magnífico bronze “Porta da Morte”, para escândalo da Cúria, pois Manzù era ateu e comunista, mas, para o Papa, um homem divinamente inspirado. Foi chamado de “Cantor dos Santos”, pela beleza plástica nas homilias de canonização, o “Cantor da Vida”, pela defesa que dela fez.

A década de 70 coincidiu com minha permanência em Roma, para estudos. Eu tinha devoção pelo Papa frágil, apoiado para não cair, que se ajoelhava com as dores de artrites e artroses, rezando com voz fraca, intermitente, um fio de voz. Ingressava na basílica de São Pedro tão concentrado em Cristo que não percebia a multidão que o saudava. Uma imagem nunca me deixou: na hora da Consagração eucarística ele se transformava: seu rosto resplandecia, sua voz transformava-se num sussurro, ficava a sós com o Senhor. Transfigurado pela potência do Ressuscitado!

E morreu em 6 de agosto de 1978, dia da Transfiguração do Senhor. Nas últimas horas de vida pediu a Unção e repetia continuamente Pater noster, Pai nosso!

Pe. José Artulino Besen

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VATICANO II – O OLHAR DE JESUS, O OLHAR DA IGREJA

Todos são convidados ao Banquete da Vida - Ana Graça Bessan

Todos são convidados ao Banquete da Vida – Ana Graça Bessan

No dia 11 de outubro de 2012 a Igreja fez memória dos 50 anos de inauguração do Concílio Ecumênico do Vaticano II (1962-1965), convocado pelo Papa João XXIII em 1959.

Para os saudosistas, o Concílio foi um horror: tirou as certezas da Igreja, secularizou as vestes históricas, acabou com os símbolos de instituição triunfante no meio de um mundo decadente. Para os revolucionários, o Concílio foi traído: reentramos na velha disciplina eclesiástica, o clericalismo torna a dar suas piscadinhas sedutoras, após anos de primavera ingressamos num longo e tenebroso inverno onde o Espírito Santo parece ter perdido a criatividade.

Cada um desses grupos extremos tem suas razões, mas, o que não se pode esquecer é que a aplicação concreta de um acontecimento de tal envergadura ultrapassa gerações. É bom até lembrar que decorridos 40 anos do encerramento do Concílio de Trento, ocorrido em 1563, o Cardeal São Roberto Belarmino escrevia ao Papa pedindo-lhe que aplicasse o Concílio!

Um novo olhar

A Sagrada Escritura é rica na citação dos olhares de Deus. Na criação do mundo, Deus viu que tudo era muito bom. Olhando os sofrimentos do povo no Egito, Deus desce e chama Moisés para libertá-lo. Olhando a desolação de Jerusalém, Jeremias chora suas ruínas. O olhar de Jesus fascina Pedro, André, Tiago, João. O olhar de Jesus cativa Zaqueu. O olhar compassivo de Jesus redime a mulher pecadora. Vendo as lágrimas de Marta e Maria, Jesus chora Lázaro morto. Contemplando a Luz do Senhor, o perseguidor Saulo transforma-se no apóstolo Paulo. Vendo o mundo com o olhar de Maria, a Igreja contempla as mulheres da terra e sente sua disponibilidade ao anúncio do Evangelho. Abrindo os olhos para o mundo,  ela sai de si e faz-se missionária.

A Igreja, Corpo de Cristo, Esposa do Espírito, Povo de Deus necessita da capacidade de olhar para entender o mundo e os homens, e dizer-lhes uma palavra convincente.

Nos tempos da Cristandade (Igreja poderosa unida a reis poderosos e Estados) a Igreja queria ser olhada e temida. Nos primeiros séculos o caminho tinha sido diferente: os cristãos sentiam-se “estrangeiros e peregrinos” no mundo (cf. 1Pd 2,11). Apresentavam-se humildemente e seu testemunho de vida formou as primeiras comunidades. Com a reviravolta constantiniana (século IV), livre e unida ao Império, a Igreja passou a ver os outros como estrangeiros e peregrinos e seguiu o caminho de obrigar todos a nela entrarem. Mudara seu olhar: de mãe misericordiosa passou ao patriarcalismo triunfante.

O Concílio, um novo olhar

O Concílio do Vaticano II foi a imagem plástica do Papa Bom, João XXIII (1958-1963), homem que em tudo via a bondade de Deus, que criticava aqueles que no mundo moderno viam apenas males, como se o passado fosse um jardim. Em seu Testamento, João XXIII declarou: “A bondade fez serena a minha vida!”.

Ele quis um Concílio realmente ecumênico: convidou protestantes, anglicanos e ortodoxos como observadores ativos, chamou representantes dos leigos, mulheres, convocou observadores de outras religiões. Observando desse ângulo, foi o único Concílio que mereceria o título de “ecumênico”, pois nos seus convidados toda a humanidade estava representada.

Foi o primeiro Concílio convocado sem nenhum inimigo ou heresia a serem condenados. O papa Bom queria uma Igreja mãe, mestra e filha.

E assim, o Concílio legou-nos muito mais o milagre do olhar do que textos revolucionários (que não faltaram, é claro). O olhar da Igreja tornou-se jovem, sem preconceito.

A Igreja passou a olhar os judeus e chama-os de irmãos prediletos, irmãos mais velhos.

Olha o Oriente cristão-ortodoxo como o grande pulmão ortodoxo espiritual e teológico, que muita falta faz à espiritualidade cristã ocidental.

Olha os evangélicos-protestantes como irmãos separados, mas irmãos, com os quais partilhamos o tesouro das Escrituras, o mistério do Deus Uno e Trino e da Redenção.

Olha as outras religiões como sinais da presença do Espírito em todos os povos. Isso tornou possível as Jornadas Mundiais de Oração pela Paz em Assis, em 1986. Ao invés de julgar que anunciar o Evangelho é oferecer o primeiro contato com Deus, fazemos a pergunta verdadeira: o que Deus revelou e fez nesses povos antes de chegar o Evangelho?

Olha os ateus como um desafio, talvez sinal de um falso deus que lhes apresentamos.

Olha a humanidade e aprende com ela a ser especialista em humanidade. Aprendemos com força que a raça humana forma a família humana.

Olha o mundo e vê nele uma tarefa, um desafio. Ela não compete com os poderes da terra: oferece as mãos para o trabalho comum. Não pensa somente na salvação da alma, mas na salvação do homem todo e de toda a criação.

Olha seu passado e pede perdão, como o fez num gesto grandioso e humilde João Paulo II, no ano 2000.

O Concílio marcou o fim de uma posição defensiva frente ao mundo considerado inimigo perigoso: a Igreja retomou o diálogo com ele, e os cristãos se vêm na sociedade em companhia de todos os homens: Igreja solidária que olha a todos com o olhar compassivo do bom Pastor. Uma Igreja que não tem medo de ser pobre, mas que crê na força do Evangelho e permanece na escuta das alegrias, angústias e sofrimentos da humanidade inteira.

Somente uma Igreja misericordiosa é capaz de narrar o rosto verdadeiro do Senhor Jesus e assim ser escutada pela humanidade.

Um olhar que liberta

Duas expressões marcaram a estação pós-conciliar e são retomadas com força pelo papa Francisco: Igreja pobre e Igreja de pobres, e Igreja Povo de Deus, não uma ONG, uma superestrutura. Na catequese pós-conciliar definia-se, com muita beleza, a Igreja como “povo de Deus peregrino em marcha para a casa do Pai”. Igreja a caminho, peregrina, leve como Davi frente ao complicado Filisteu, livre de muitas amarras que faziam identificar tradições historicamente situadas e ultrapassadas com a grande Tradição da Palavra de Deus vivida na história. A Bíblia passou a resplandecer em cada lar, cada igreja, comunidade, cada liturgia.

Quanto mais a Igreja se faz pobre, tendo como única riqueza o Pão da Palavra e da Eucaristia, mais sua palavra gera vida santa e fraterna, dá testemunho de seu Senhor.

Com papa Francisco não temos medo da Cruz, mas contemplamos aquele que crucificamos, purificamos nosso olhar e aprendemos a vê-lo em todos os peregrinos da história. O mundo é até pequeno para receber a força do amor cristão.

Pe. José Artulino Besen

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PAPA FRANCISCO – O RETORNO AO ESSENCIAL

A imagem mostra o Papa Francisco sorridente e ao seu lado o cardeal brasileiro Dom Raymundo Damasceno (Foto: Monsenhor Antônio Luiz Catelan)

A imagem mostra o Papa Francisco sorridente e ao seu lado o cardeal brasileiro Dom Raymundo Damasceno (Foto: Monsenhor Antônio Luiz Catelan)

Se o grão de trigo que cai na terra morre, produzirá muito fruto (João 12, 24). A eleição do papa Francisco me faz lembrar a renúncia de Bento XVI, e a renúncia de um papa significa a morte para o poder, o prestígio de seu Sucessor de Pedro e o coloca no silêncio da vida cristã, no serviço da oração e do aconselhamento. Foi essa morte que trouxe à Igreja e ao mundo a alegria de receber o fruto de um papa do Sul do mundo e, não por isso, mas por ser identificado com os pobres da terra, tão numerosos. O grande dado que emerge da vida do então arcebispo de Buenos Aires é a simplicidade e o amor aos pobres, residir num apartamento, fazer as refeições em bares ou ele próprio cozinhar, servir-se do transporte coletivo, acompanhar seus padres nas paróquias necessitadas.

Deve ter tido muitas responsabilidades, entre elas a presidência da Conferência episcopal argentina, merecendo a confiança de seus irmãos no episcopado. O principal, porém, é a lembrança da bondade e da misericórdia. “A bondade tornou feliz minha vida”, afirmava o Papa Bom, João XXIII.

Imagem mostra o Papa Francisco no ônibus conversando com um religioso. A marcação, feita pelo missionário brasileiro Frederico Oliveira, mostra o pontífice (de branco) sentado e do seu lado esquerdo está o cardeal brasileiro Dom Raymundo Damasceno (Foto: Frederico Henrique de Oliveira/Canção Nova)

Imagem mostra o Papa Francisco no ônibus conversando com um religioso. A marcação, feita pelo missionário brasileiro Frederico Oliveira, mostra o pontífice (de branco) sentado e do seu lado esquerdo está o cardeal brasileiro Dom Raymundo Damasceno (Foto: Frederico Henrique de Oliveira/Canção Nova)

Foi muito bom, para nós católicos, escutar a palavra “misericórdia”, a principal bem-aventurança cristã e a essência de Cristo e de seu Pai. A revelação cristã encontra seu apogeu no Pai do Filho pródigo e no Senhor cercado de pobres, doentes, pecadores.

Papa Francisco pedia – e pede-nos – que sejamos misericordiosos e isso faz-nos recordar a Carta de Bento XVI “Deus é amor”.

Ao aceitar o ministério de Bispo de Roma e de presidir as Igrejas na caridade o Cardeal Bergoglio logo anunciou seu nome: quero ser chamado de Francisco. Um nome luminoso, transparente, que recorda a figura amada do Santo de Assis, o Pobre. Francisco não criticou a Igreja de seu tempo, rica e poderosa, ele quis viver a pobreza e a penitência, anunciando o amor de Jesus e cantando o esplendor da criação.

Nova foto mostra o Papa Francisco (de branco) sentado no ônibus em meio a cardeais e religiosos (Foto: Monsenhor Antônio Luiz Catelan)

Nova foto mostra o Papa Francisco (de branco) sentado no ônibus em meio a cardeais e religiosos (Foto: Monsenhor Antônio Luiz Catelan)

Sendo da Ordem dos Jesuítas, papa Francisco nos recorda um outro nome luminoso e intrépido, São Francisco Xavier, o apóstolo da Índia, do Japão, do Extremo Oriente, padroeiro das Missões. A Nova Evangelização é o impulso renovado da missão, do Ide pelo mundo anunciar o nome daquele que salva, Jesus Cristo. Dois Santos protegem o nome do Papa e Santos que viveram tão pouco para a grande obra que realizaram: o de Assis viveu 44 anos, o Xavier, 46 anos.

Quando o Papa se apresentou no balcão de São Pedro passou duas imagens: firmeza e doçura. Não estava feliz ou embaraçado pela missão que tinha aceito: estava seguro e em casa. Ao dar o “boa tarde” mostrou-se um conhecido entre conhecidos, pois essa saudação nós reservamos para encontros informais, amigos, fraternos. Sentiu-se em casa por ser o novo Bispo de Roma, da Igreja que preside as outras na caridade. Tão em casa que já anunciou o primeiro compromisso: na manhã seguinte foi à basílica de Santa Maria Maior rezar diante do ícone Salus Populi romani – Maria, salvação dos romanos, tão amado pela Cidade eterna e reproduzido em centenas de esquinas.

Francisco é o 266º bispo de Roma e, assim se apresentando, mostrou que o bispo tem de ter sua diocese, que a história do bispo de Roma ser chamado de Papa-papai tem origem em sua paternidade espiritual e material para com aquele povo no decorrer da história. Paternidade não é prestígio, arrogância: é amor e responsabilidade. Não se referiu aos títulos de Vigário de Cristo na Terra, Sumo Pontífice. Bispo.

Na sua saudação ao povo, escolheu para estar a seu lado dois nomes: um dileto amigo, o Cardeal brasileiro e franciscano Dom Cláudio Hummes, e o Cardeal Vallini, seu vigário para a diocese de Roma.

Papa Francisco, inclinou-se perante a multidão que o celebrou na Praça de São Pedro. Gesto que não passou despercebido

Papa Francisco, inclinou-se perante a multidão que o celebrou na Praça de São Pedro. Gesto que não passou despercebido.

Irmãos e irmãs, vamos nos abençoar

A beleza cristã se manifestou quando Francisco pediu que o povo invocasse a bênção sobre ele, porque depois abençoaria o povo. Gesto inusitado, o Papa abaixou a cabeça para que invocassem a bênção sobre ele, e a multidão calou-se imediatamente, e a TV mostrou-a séria, invocando a bênção, sentindo-se responsável pelo Papa..

A bênção não é um gesto ritual neutro: traz, de fato, a graça de Deus a quem a pede. Um cristão pode abençoar um pagão, um muçulmano pode abençoar um cristão, um pecador pode abençoar o virtuoso, pois a bênção não é propriedade humana, mas força divina invocada. Podemos imaginar o poder que os pais têm de abençoar os filhos, o povo de abençoar o padre, e os padrinhos, abençoarem os afilhados. Ao respondermos “Deus te abençoe” estamos mediando a força de Deus a quem pediu para ser abençoado.

Iniciando o ministério petrino rezando com a multidão os tradicionais Pai nosso-Ave Maria-Glória ao Pai, papa Francisco faz-nos retornar ao essencial da fé cristã: o Deus Trindade e nossa Mãe Maria invocados em todo o tempo e lugar pela oração. E a oração opera na caridade, a presença de Deus nos conduz à misericórdia. Não se faz necessário um grande projeto, complicações teológicas quando se retorna ao essencial: a Jesus que se retirava para a oração ao Pai depois de um dia cercado de pobres, aleijados, pecadores, os miseráveis da história. E a eles retornava depois de rezar ao Pai.

Tudo indica que chega ao fim a era do papa rei, da corte pontifícia. E de bispos príncipes e cortes episcopais.

O Espírito que fala às Igrejas nos surpreende e, através do Papa argentino que veio do fim do mundo – segundo suas palavras – nos faz retornar à simplicidade, a beber no poço do Evangelho e dos humildes. O “fim do mundo” é o tesouro da Igreja, onde estão escondidas as riquezas cristãs: os pobres que não se deixam abater pelo pessimismo e na simplicidade vivem a fé cristã e abastecem a Igreja pela força de sua confiança em Deus. Não é por acaso que o Catolicismo cresce na América latina e na África. Terras de pobres e excluídos.

Pe. José Artulino Besen 

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OS CARDEAIS EM BUSCA DA VERDADE E DA LIBERDADE CRISTÃS

O Papa é Pedro e Paulo a serviço do Evangelho - Rembrandt

O Papa é Pedro e Paulo a serviço do Evangelho – Rembrandt

Há exatamente 1.700 anos, no ano 313, o imperador romano Constantino publicava o Edito de Milão, pelo qual a todos os habitantes do Império era facultado seguir a religião que seguissem ou escolhessem. Com isso, o Cristianismo recebeu o dom de existir em paz e livre no território imperial. Terminava o tempo das perseguições. O Imperador, animado por sua mãe Helena, doou para moradia do bispo de Roma, o Papa, o Palácio lateranense, e multiplicou a construção de grandes basílicas em Roma e na Palestina.

Nessa hora, a Igreja recebeu o enorme dom da liberdade e recebeu, também, o enorme perigo do poder e da riqueza. A história nos mostra que todas as instituições, ao receberem o poder, dão valor menor à liberdade. O mesmo Cristianismo que lutou pela liberdade religiosa no Império, oitenta anos depois conseguiu de Teodósio que o paganismo fosse banido e todos fossem obrigados a professar a fé cristã. Não nos compete, aqui, analisar o significado da assim chamada “igreja constantiniana”, pois a história é mestra e não suporta cirurgias plásticas. Uma coisa, no entanto, podemos afirmar: muitos católicos sonham ainda com o espírito de Constantino, sonham com um mundo que não os questione, que aceite tudo o que vem da Igreja, um mundo que declare: “A Igreja está certa, procuremos nela os caminhos para os desafios da sociedade e do governo global”. Se colocassem em lugar de Igreja a palavra Evangelho, não afirmariam esses desejos, porque o Evangelho é da vida e da liberdade e a Igreja é servidora do mundo e dos homens.

O poder que traz riqueza se sustenta com dois alimentos: a mentira e a desconfiança e suas armas são a chantagem e o medo. É possível alimentar a Igreja desse modo? Alguns acham que sim e, recebendo poder na Igreja, alimentam escândalos de toda ordem e querem ter o direito de serem preservados de uma luz que manifeste ao mundo suas torpezas, se esquecendo que o Senhor é Luz do mundo. A nossa história de católicos, hoje, está revelando ao mundo os frutos do fascínio pelo poder, de nossa auto-suficiência, nossas despesas imensas com aquilo que se refere às aparências, à organização, aos palácios e pompas litúrgicas. Não generalizemos, pois o Corpo da Igreja é o Corpo de Cristo: há feridas, tumores, mas nele resplende a face gloriosa de seu Senhor.

Na Idade moderna os Estados chamados católicos (Itália, França, Espanha, Portugal, Áustria, etc) apoiaram a Igreja, mas o preço foi excessivo: a perda da liberdade, os bispos sendo nomeados pelos governos. Quando o Padre Rosmini (1797-1855) afirmou que “uma instituição que cede a outra o direito de nomear seus ministros cede-lhe a própria existência”, foi condenado por Pio IX e Leão XIII. Achava-se que era sinal de prestígio o rei nomear o bispo.

Como a história é mestra, em 2007 Bento XVI o declarou Bem-aventurado. Acusavam também o Cardeal Newman (1801-1890), um grande convertido inglês, de não ser bem católico e comprometer a verdade da revelação com sua doutrina da consciência. Pois bem: Bento XVI o beatificou em 2010, e na Inglaterra. Creio que num dia Bento XVI será o Santo da liberdade da Igreja.

A busca dolorosa e sem fim da liberdade

Voltemos ao nosso tema. Pelo século VIII, foram-se formando os Estados Pontifícios, que consumiram enormes energias da Igreja, levaram papas a chefiarem exércitos, foram fonte de desmandos, corrupção do poder e terminaram em setembro de 1870 com a conquista de Roma. Pio IX, o último Papa Rei, excomungou os vitoriosos. Um século depois, o papa Paulo VI quis que uma Missa de Ação de Graças fosse celebrada para agradecer a Deus a perda desse poder e o dom da liberdade. Eleito Papa, doou sua tiara-coroa para promoverem uma rifa pelos pobres.

Em 1929 foi constituída a Cidade-Estado do Vaticano. Um pequeno território de 490 hectares, dentro de Roma. Era uma necessidade para que a Igreja fosse livre. Leão XIII declarou que lhe bastaria um metro quadrado, onde pudesse falar livremente. Não se pode negar o benefício desse Estado para a ação do Papa. Mas, não se deve deixar de ter presente que um pequeno país, com burocracia e com um banco, corre sempre o risco inerente ao poder: o carreirismo, a corrupção, a mentira e a ostentação que podem impedir ao Papa de enxergar, com verdade, a verdade do catolicismo.

Os Cardeais que participarão do próximo Conclave (12 de março) terão isso muito presente: olhar a Igreja com os olhos do Senhor Crucificado e Ressuscitado, na sua glória sem fim e na sua dor lancinante, que são a dor e a glória do povo católico e das Igrejas semeadas pelo mundo ao preço da fé, da generosidade, do sangue, da doação da vida.

O Colégio dos Cardeais estará diante da memória de um ancião que permitiu que as feridas fossem abertas, que o pecado fosse publicado de cima dos telhados, que reputações formadas à sombra dos segredos e poderes hierárquicos fossem demolidas, que as finanças do Banco vaticano fossem expostas para serem saneadas: Bento XVI. O Espírito que fala às Igrejas fala agora ao Colégio apostólico.

O mundo fala da Igreja e do Conclave como de um país a escolher seu soberano. Ele foi induzido a pensar e julgar desse modo. Mas podemos ter certeza de que eles estão tendo os olhos transfigurados diante desses homens estranhos, vestidos com púrpuras, mas que não estão se candidatando, não se digladiam, não se derrubam. São 3.600 jornalistas credenciados para acompanhar o Conclave. Difundem por todo o mundo a mais estranha e impotente eleição: de um homem que se vestirá de branco e cuja eleição será confirmada por uma fumaça branca numa chaminé da Capela Sistina. Esse homem vestido de branco, o 265º bispo de Roma, pescador como Pedro, servo dos servos de e Papa da Igreja católica, receberá como missão buscar a pobreza e a liberdade cristãs. Os jornalistas verão um homem que vem da grande tribulação, que procurará alvejar as vestes no sangue do Cordeiro. Tudo isso é tão estranho que é notícia para toda a humanidade.

O mundo espera, e tem direito de esperar, uma Igreja serva da pobreza, da verdade e da liberdade.

Pe. José Artulino Besen

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