Arquivo para categoria Deus e Criação

E DEUS CRIOU O SER HUMANO

Adão e Eva revestidos de luz - Igreja de Santa Maria - Maribor - Eslovênia

Adão e Eva revestidos de luz – Igreja de Santa Maria – Maribor – Eslovênia

«E Deus disse: ‘Não é bom que o homem esteja só.
Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda’. …
Depois, da costela do homem,
Deus modelou uma mulher e a trouxe ao homem».

(Gn 2,18-25).

O texto do livro do Gênesis 2, 18-25 é precedido de uma cena rica em simbolismo: Depois de ter criado a terra, os astros, as plantas e os animais, o Senhor fê-los passarem diante do homem, que a tudo deu nome, com isso tomando posse de tudo. Mas, com tanta coisa que lhe fora entregue, não estava feliz, pois não encontrara em nenhum deles uma companhia que vencesse sua solidão.

Seria mesmo estranho que o ser humano vencesse a solidão com terra, plantas, animais, riquezas naturais. Para o ser humano, somente um ser humano, pois o Senhor prometera: Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda.

A tudo o Senhor criou com fartura, em grande número, mas, somente o ser humano foi criado único, à imagem e semelhança dele e com uma missão própria e única em toda a criação. Ele, de certa forma, é a síntese de todas as obras divinas e pode entrar em comunhão com todas.

À imagem e semelhança de Deus, o ser humano encerra em si toda a beleza.

Um sábio judeu assim se refere à criação do humano:

Para criar o primeiro homem/mulher Deus tomou terra dos quatro ângulos do mundo, misturou-a com a água dos quatro oceanos e, depois, infundiu-lhe o sopro dos quatro ventos. Assim fez para que todos os povos fossem representados no primeiro homem, pois cada ser humano é filho do pó da terra dos quatro pontos cardeais, da água de todos os oceanos e do sopro dos quatro ventos.

Assim fez o Senhor para nos ensinar que todos os povos são iguais, nenhum sendo superior ao outro em natureza e cultura. E criou a humanidade de um único ser para sabermos que quem mata um ser humano está matando a humanidade inteira e quem salva um ser humano, também salva toda a humanidade.

Solidão e nudez

Voltemos ao homem que ficou na solidão, mesmo tendo tomado posse de tudo. No decorrer dos tempos ele procurou vencer a solidão com coisas, plantas e animais, mas não foi possível. Nossa sociedade solitária inventou os bichos de estimação – gato, cachorro, passarinhos – para não estar só. Uma pena, pois cada um está rodeado de tanta gente que é abandonada e poderia fazer-nos companhia. Devemos agradecer aos bichinhos que confortam e fazem companhia a tanta gente, mas não foi essa a solução oferecida pelo Criador.

O Senhor, ao contemplar Adão sentiu a solidão humana e fez um outro ser, a mulher, para companhia do homem que pulou de alegria, pois era carne de sua carne, osso de seus ossos. Uma companhia à altura. A Palavra não diz que somente a mulher faz companhia ao homem, pois muitos nem se casam. Ela ensina que o Senhor criou outro ser humano para companhia humana, criou o humano de outro humano: um filho que se consagra totalmente ao cuidado dos pais velhos, venceu a solidão; uma religiosa, um padre, que se consagram a uma comunidade ou obra de caridade encontraram companhia conveniente, um eremita vive sua solidão em comunhão com Deus e junto a ele intercede por todos. O que não se pode é fugir das pessoas e refugiar-se nas criaturas. Deus fez as aves do céu, mas somente o ser humano ele criou à sua imagem e semelhança.

Somente nós podemos fazer companhia a Deus.

O homem e a mulher estavam nus e não se envergonhavam (Gn 2, 24-25). O texto sagrado contrapõe essa afirmação positiva à outra, negativa: após o pecado, o homem e a mulher estavam nus e sentiam vergonha um do outro (Gn 3, 7). Seria empobrecer o texto bíblico ver nessas afirmações apenas a conotação sexual. Existem povos que passam parte da existência nus, e não se envergonham e, esses mesmos povos, cobrem-se nas estações frias.

Estar nu, a nudez, evoca a intimidade e a fragilidade. Ficar nu é arrancar as máscaras, os disfarces. Expor a própria fraqueza permite o desenvolvimento de uma história em comum. Se o ser humano oculta a verdade de si mesmo ao outro/outra, vive de engano e obriga o outro a viver também de engano.

É um esforço grande, positivo e necessário, revelar-se nas fraquezas e forças e aceitar a revelação da outra pessoa. Feito de outro ser humano, o humano somente pode se aperfeiçoar revelando-se ao humano. Revelar-se não é dominar, possuir, destruir, diminuir. Revelar-se é estar diante do outro como se é e olhá-lo como ele é. E não sentir vergonha da nudez, mas ver nela a possibilidade da construção de um caminho.

O Senhor nos fez do melhor modo possível, com o que de melhor possuía para que deixemos sempre mais belo o trabalho de suas mãos.

Pe. José Artulino Besen

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A CRIAÇÃO DO MUNDO E A DIMINUIÇÃO DE DEUS

Dança azul - Tom Wesselmann

Dança azul – Tom Wesselmann

No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1-25).

A ciência tem a missão de procurar penetrar, cada vez com mais profundidade, os segredos da vida, da matéria, do universo. Quis Deus que o homem “dominasse a terra” (Gn 1,28). Mas, a ciência parece sentir-se atraída pela hipótese de negar o Criador, atribuindo tudo ao simples acaso, a uma explosão inicial que teria dado origem aos universos e depois a todas as formas de vida. Tudo bem: aceitemos a hipótese de uma explosão inicial, pois o Big Bang (grande explosão) não complica nossa fé. Ficam duas perguntas: – o que explodiu para que tudo tivesse início? – quem fez o que explodiu, se do nada nada se produz?

Permanece nos cientistas o desafio de explicar criação sem Criador. A cada grande descoberta sobre a origem do mundo surge uma nova descoberta completando a anterior. A ciência vai caminhando de hipótese em hipótese, para acabar sempre com a mesma pergunta: – E como tudo começou?

Conta uma história que o homem construiu o computador do tempo. Poderosíssimo, teria a capacidade de caminhar para trás, vencendo as etapas da história, penetrando sempre mais no passado. A cada comando, milhões de anos eram vencidos. Chegou o início da vida humana, da vida animal, vegetal, à origem dos minerais, dos corpos materiais, dos tecidos celulares, das células, estava atingindo as origens das moléculas.

Os cientistas estavam cada vez mais satisfeitos: mais alguns passos, e se chegaria ao início. Tudo estaria explicado. O computador vence as moléculas, chega aos átomos. Faz-se um novo programa e o átomo é um novo mundo a ser penetrado. Diminuto, mas tão complicado como o mais complicado dos mundos: nele há um novo universo –  prótons, elétrons, nêutrons, mésons, fótons, etc. Está chegando à última partícula do universo. Felicidade geral. Vencendo essa etapa, tudo estará explicado e todos os teólogos e religiosos estariam relegados ao museu da história, inúteis para o mundo governado pela ciência. O computador foi penetrando cada partícula do átomo, tudo parecia indicar que, finalmente, se chegaria à origem do universo. Mas, para a decepção dos cientistas, a máquina teve um superaquecimento e, no visor, lê-se um pedido de socorro, sem o qual o computador não poderia ir adiante: “Faça-se a luz!“. E a máquina se desintegrou. “Faça-se a luz” (Gn 1, 3a) é a primeira palavra de Deus na história do tempo e do espaço. Essa luz somente pode ser alcançada com o auxílio de quem a criou.

Crer que tudo é obra do acaso seria o mesmo que afirmar que um dicionário é o resultado de uma explosão numa tipografia (B. Franklin).

Assim como é próprio da ciência não ter respostas definitivas, também é da fé se completar e enriquecer com os dados científicos. “Ciência e religião não estão em conflito, mas precisam uma da outra para completar-se na mente de um homem que pensa seriamente”, afirmou ninguém menos do que Max Planck, o pai da teoria quântica. Ciência e fé não são incompatíveis: o que mais se percebe é o abuso de poder de uma sobre a outra. A ciência se dedica aos “fenômenos”, enquanto que a teologia e a filosofia se dirigem ao “fundamento” dos fenômenos, escreve o Cardeal Ravasi, do Pontifício Conselho para a Cultura e promotor do diálogo entre ciência e fé, e entre crentes e não-crentes. 

A criação, participação de Deus

No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1-25). É a primeira afirmação da Bíblia e princípio essencial da fé: admitimos que Deus existe, além dele nada existia e por ele o mundo passou a existir. Sendo isso claro, nossa fé é clara. É o início da fé bíblica: Deus é o Criador.

A terra era informe e vazia e no “faça-se a luz” a ordem se impôs e teve início a evolução do universo, os sete dias da criação. A ciência trabalha com a hipótese de que o primeiro dia foi há 13 bilhões de anos. Definitivo ou provisório, esse cálculo possui grande importância: houve um primeiro dia, o mundo não é eterno.

Aqui surge a primeira objeção: se Deus é onipresente, ocupa todos os espaços, como haveria lugar para a criação? A criação seria emanação de Deus, isto é, identifica-se com o divino, como afirmam os panteístas? Para eles, tudo é Deus e Deus é tudo, enquanto que nós dizemos que tudo é de Deus e Deus é senhor de tudo.

Como fomos acostumados a refletir sobre Deus a partir da filosofia, da metafísica, temos dificuldade de pensar Deus e a criação com os critérios da revelação bíblica, da história da Salvação. Nela, Deus se revela como “aquele que se diminui”, aquele que se contrai, se autolimita.

Antes da criação, Deus ocupava todo o Universo, de modo que não haveria lugar para as criaturas. No seu amor, Deus se diminuiu, se contraiu para dar lugar à criação. Ele, perfeito, despiu-se de parte de seu poder e criou o espaço para sua obra. Simone Weil (1909-1943), encantadora filósofa e teóloga francesa, que percorreu os caminhos do judaísmo, ateísmo e chegou ao catolicismo (religião dos pobres e ignorantes, por isso verdadeira!, em seu dizer) afirma em sua obra A sombra e a Graça: “Deus, junto com todas as suas criaturas, é menos que que Deus sozinho”. Então, por que criou o mundo? Por amor e com amor. Loucura de amor.

É nesse espaço de autolimitação, diminuição que nós podemos fazer uso da liberdade, entrar em diálogo com Deus. E é nessa liberdade que podemos entender as grandes tragédias da humanidade, as guerras, os genocídios que Deus permite porque, por sua decisão, não é mais perfeitamente onipotente. É incrível, mas o Deus dos judeus e dos cristãos é um Deus enfraquecido de amor.

Dois pensadores e teólogos contemporâneos, André Neher e Hans Jonas, conduzem a essa verdade a partir da reflexão bíblica e da cabala judaica. Aceitam o Tzimtzum – contração – termo hebraico que a cabala usa para designar essa autolimitação divina para possibilitar a criação.

Bento XVI, seguindo a tradição bíblica, expõe o amor erótico de Deus pelo ser humano, o que é possível somente com a diminuição de Deus: “O amor apaixonado de Deus pelo seu povo — pelo homem — é ao mesmo tempo um amor que perdoa. E é tão grande, que chega a virar Deus contra Si próprio, o seu amor contra a sua justiça. Nisto, o cristão vê já esboçar-se veladamente o mistério da Cruz: Deus ama tanto o homem que, tendo-se feito Ele próprio homem, segue-o até à morte e, deste modo, reconcilia justiça e amor” (Deus caritas est, 10). Criação e redenção só existem como fruto do rebaixamento de Deus, cuja última “contração” é encarnar-se em Jesus de Nazaré. Deus é totalmente transcendente, está acima de tudo, e é totalmente imanente, está em tudo. Somente o amor é capaz desse milagre, aceitável apenas por quem sabe o que é amar.

Por amor e com amor “no princípio Deus criou o céu e a terra”, sem medo de competição das criaturas, mas para entrar em diálogo com elas.

Pe. José Artulino Besen

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LOUVADO SEJAS, MEU SENHOR, POR NOSSA IRMÃ A MÃE TERRA

«Mãe Terra» – Giustina Toni

Lembramos de São Francisco de Assis quase sempre num ambiente externo, de braços abertos, olhando para o céu, cercado de passarinhos, animais. É difícil imaginá-lo dentro de uma igreja, em ambiente fechado: Francisco é o cantor da criação, tudo nele é louvor ao Criador. Até o fim da vida desejou ver o mundo inteiro em estado de exaltação e louvor de Deus, por tudo e por todos, o mundo como imensa catedral sem paredes nem teto.

Sua sensibilidade pelas criaturas era tamanha que era incapaz de jogar uma brasa pela janela: depositava-a no chão delicadamente, para que não se ferisse. Tudo despertava seus mais íntimos e sensíveis afetos, da irmã Dor à irmã Morte, pois tudo tinha origem no insondável amor divino. Consumia o mínimo, quase constrangido em servir-se de bens da Terra.

E assim, no mês de abril/novembro de 1225, no pequeníssimo jardim do Convento de São Damião, à noite, quase cego e fora de si de dor e desconforto, em estado febril, sozinho em sua cabana de palha, atormentado pelos ratos que não o deixavam dormir, explode de alegria e louvor ao Criador, o Cântico das Criaturas, também conhecido como Cântico do Irmão Sol. Na profundidade do coração descobre a Terra como irmã e mãe:

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a mãe Terra,
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.

O penitente de Assis, reconciliado com a irmã Dor, não se continha em louvores.

Inspirada, a artista italiana Giustina Toni coloca Francisco dentro da mãe Terra donde ele saiu, e dentro da Terra aonde retorna. Sua veste é da cor do barro. Francisco é terra, mas não se identifica com ela: somente ele pode permanecer prostrado no ventre acolhedor em posição de adoração. Cabeça, mãos espalmadas e pés tocam a terra mansamente, tranqüilo como a criança embalada num colo materno.

E o amor de Francisco se expande, germina e do solo brotam ervas, frutos, flores coloridas no encontro com o irmão Sol.

Enamorado, Francisco confia na Terra Mãe que protege e na Terra Irmã que lhe é amiga e, com seus produtos, alimenta os seres vivos, oferece o fruto da terra e da videira para o pão e o vinho da eucaristia. Sustenta as criaturas necessitadas de alimento, revigora os ressequidos com a irmã Água. Benquista, a Terra governa-nos pela harmonia e, malquista, transformada em lixões, deixa-nos ao desamparo, sem vida.

O pobrezinho de Assis descansa dentro da terra que foi digna de ser palmilhada por Jesus, terra na qual o Verbo se fez carne e dela recolheu o alimento. Terra do Bom Pastor, terra do Redentor, cujo sangue derramado na Cruz penetrou-a no monte Calvário e continua a circular por suas veias até a regeneração final com novos céus e nova terra. Francisco contempla as imagens de criaturas escolhidas pelo Senhor para ser recordado ou que tocou: as ovelhas, a videira, a figueira, o cordeiro, a semente, o solo, rede, peixes, árvore, passarinhos, crianças, estrelas, vinho, água, pão, pedra, sal, lamparina, azeite, casamento, mulheres, sepulcro, doentes, lepra, cegueira, surdes, oliveira, espinhos, pescadores, pobres, paralisias, estrelas, tantas criaturas dignas, todas as criaturas que celebram Deus e a ele conduzem. Lembra o presépio que lhe montaram em Gubbio a fim de poder contemplar o nascimento do Menino pobrezinho e se encanta com Maria e José, os pastores, o boi e o jumento … quase explode de alegria por essa terra tão digna nos seus frutos e nos seus filhos. Tudo obra de seu Pai.

Francisco descansa profundamente na mãe Terra que num dia será seu berço, jazigo. E mansamente retornará ao pó, à terra donde veio, e ao Criador amado e amante. Então se elevará acima dela e, num hino cósmico, será puro louvor ao seu Senhor que lhe deu a mãe Terra por irmã.

Novamente será criança e aos pequeninos estará unido no canto: Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso teu nome em toda a terra! (Sl 8,2), convidando todas as criaturas a cantarem que Os céus proclamam a glória de Deus, o firmamento anuncia as obras de suas mãos (Sl 19,2).

Pe. José Artulino Besen 

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ECOLOGIA – LIBERTAR A CRIAÇÃO DO PECADO

Criação de Adão – Catedral de Monreale, Palermo – século XII

Creio em um só Deus, Pai todo poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”, assim iniciamos a proclamação de nossa de Fé cristã desde o século IV, e assim a renovamos nos dias festivos. Não afirmamos Deus sem a criação, nem afirmamos a criação sem Deus, nem unimos Deus e a criação numa única realidade. Cremos em Deus que é Pai, e cremos nele como Criador.

Nosso Pai quis que criaturas participassem de seu ser, de sua sabedoria e de sua bondade e beleza (CIC 319). No abismo intransponível da eternidade Ele criou o tempo e, no tempo, iniciou o plantio do Universo e do resplendor das criaturas há incríveis 13 bilhões de anos. E a obra divina não terminou: meu Pai sempre trabalha até agora, e eu também trabalho, disse Jesus (Jo 5,17).

Deus criou a terra para que fosse a casa de Adão e de seus descendentes (Gn 1,28), a nossa casa. Toda a criação, todo o universo são frutos de excesso/desperdício de seu amor, e o ser humano foi criado para com ele dialogar. Escreveu Santo Irineu de Lyon (séc. II) que Deus criou todas as maravilhas do universo e, depois, o homem, a quem presenteou com seus dons maravilhosos. Os teólogos gostavam de afirmar que a criação do homem e da mulher foi obra das duas mãos do Pai, a Palavra e o Espírito. Adão e Eva, homem e mulher são o fruto mais perfeito da amorosa criatividade divina.

Mas, Deus não criou céu e terra por distração, para demonstrar poder solitário. A visão cristã glorifica a criação em sua dignidade, em seu fundamento e em seu destino: a criação foi feita pelo Pai por meio de seu Filho e para seu Filho e “é por ele que subsiste o universo” (cf. Cl 1,16-17); tudo o que nele existe tornou-se vida (Jo 1,3-4), o Filho é o herdeiro de todas as coisas criadas (Hb 1,2), e todas as coisas nele serão regeneradas (cf. Ef 1,10) para que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28).

Na Liturgia concluímos a Oração eucarística com o grande hino de louvor ao Pai “por Cristo, com Cristo, e em Cristo, na unidade do Espírito Santo”. E o Espírito nos oferece o Pão e o Vinho transfigurados em Cristo e, com Cristo, damos ao Pai toda a honra e toda a glória. A cada eucaristia toda a criação é transfigurada em Cristo e nele é salva e, a cada eucaristia, professamos a fé no Deus Pai Criador.

O cristão é necessariamente ecológico

O universo não é somente obra de Deus, mas é também habitado pela presença de Deus: através do Filho feito homem fez habitar na carne humana a plenitude da vida divina (Jo 1,14)

A ecologia, a proteção da criação é compromisso ecumênico no sentido de que nada, nem ninguém, pode se omitir na defesa da obra da criação e, de modo todo especial, os cristãos, que professam a encarnação do Verbo. Deus nos fez senhores, guardiões de sua obra. Se protejo com ciúme o que é meu, embelezo, cultivo, o mesmo devo fazer com a obra divina a mim confiada.

Durante milênios e séculos os rios, os animais e vegetais foram considerados como mero contexto para a vida do homem, nada mais do que instrumentos a seu serviço, do qual se serviu sem cuidado e, com isso, permitindo sua ruína. Achava-se que o desperdício podia ser insaciável no tempo e no espaço.

A tradição cristã não pode separar justiça e paz, condivisão da terra, cuidado pela natureza e pela qualidade da vida humana menosprezando o fato de que Deus acompanhou seu povo nessa terra, o Filho nela viveu e trabalhou, tudo santificando com sua presença.

A criação é um dom de comunhão divina: um dom eucarístico. No pão e no vinho depositados no altar incluímos os pecadores, os leprosos, os doentes, os famintos, os solitários, os estrangeiros, as vítimas da violência, a criação profanada, e tudo oferecemos para que tudo seja transfigurado pelo Espírito: Deus aceita nossa oferta de misérias. E não oferecemos solitariamente: toda Igreja oferece conosco, a do céu e a da terra, pois cada um de nós representa misticamente a totalidade da obra divina. Deus está em tudo e, pela comunhão, estamos em Deus.

Justiça e paz geram a harmonia pela rejeição da desordem e da prepotência do poder, rostos visíveis do pecado. A qualidade da vida humana depende da vida do cosmo, do qual o homem faz parte e no qual tem sua residência por dom de Deus. O pecado original criou a ruptura do homem com o Pai e, através do pecado pessoal, também a ruptura com a humanidade e a natureza. Desse modo passamos a nos guiar por impulsos egoísticos e consumistas, explorando e comprometendo o ambiente em que vivemos, o que faz o Patriarca Bartolomeu I, de Constantinopla, afirmar que “a crise verdadeira não está no ambiente, mas no coração do homem”.

O caminho cristão é sacramental: as obras de Deus nos fazem prorromper em louvor e o fruto do trabalho de nossas mãos igualmente inspiram hinos de louvor e gratidão, numa troca de dons celestes e terrestres.

A redenção do Senhor nos liberta da ruptura com Deus e com a natureza, transfigura e regenera a própria matéria pois “a criação espera com impaciência a revelação dos filhos de Deus” (cf. Rm 8, 19-20). As leis e a ética podem apenas retardar a destruição da obra divina, pois não eliminam o egoísmo: somente a oferta da criação a cada Sacramento pode regenerá-la e salvá-la, por gratidão ao Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

Pe. José Artulino Besen

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LOUVADO SEJAS, MEU SENHOR, PELO IRMÃO SOL

E Francisco, em meio à noite, continua seu canto:

Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o senhor irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia. 

E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti, Altíssimo, é a imagem.

O senhor Irmão Sol – de Giuliana de Toni

A primeira palavra de Deus Pai na criação foi “faça-se a luz”, e “a luz foi feita”. Tornou-se possível ordenar a criação ainda mergulhada no caos, tornou possível o desenvolvimento da vida. O irmão Sol foi posto para presidir o dia, para presidir a formação dos seres viventes.

Francisco dá-lhe o honroso título de senhor, o senhor irmão Sol. Ele é o senhor da ordem: sua ausência confunde as coisas, sua presença, torna-as distintas. É o senhor da beleza: possibilita existirem as cores, contemplar a variedade que torna belas as criaturas e obras de arte. Belo e radiante, todos esperam-no, após dias de chuva e então ele torna a natureza acolhedora. O dia já é belo e o irmão Sol, com seu esplendor, dá-lhe mais beleza ainda. Quando as nuvens se espalham pelo firmamento o sol brinca de artista tingindo-as de fogo, desenhando seres que nos divertimos para decifrar.

“A mãe deu à luz”, é a grande notícia do nascimento de mais um filho. “Apagou-se”, é a constatação de que alguém deixou esta vida, abandonando a luz do sol para contemplar o Sol eterno.

Não há vida sem a luz do irmão Sol com seu trabalho incansável de fotossíntese: as plantas perdem o viço, a natureza definha. Quanto mais intensa sua presença mais crescem as semeaduras que germinaram, mais sabor adquirem as frutas. Sem ele, se multiplicam os sinais de morte. Além de iluminar, o irmão Sol aquece a terra, como que aquecendo o berço onde a vida possa se desenvolver

A luz do sol purifica o ambiente, torna a casa acolhedora, dá cor às faces angelicais das crianças que correm às ruas para brincarem.

O irmão Sol é imagem do Altíssimo, a Luz divina, fonte da vida: Cristo é a Luz do alto que nos vem visitar; luz do mundo, é vencedor das trevas (cf. Lc 1,78-79). Nós somos desafiados a viver como filhos da luz, com transparência; quem vive nas trevas procura ocultar baixezas, a luz lhe faz mal (cf. Ef 5, 8-9).

Quantos de nós, ao raiar o sol matutino, damos graças a Deus que nos dá mais um dia: somos inundados pela beleza da criação que se revela aos nossos olhos. A entardecer, contemplamos sua majestade a se recolher para nos dar descanso; saem as cores e mergulhamos no silêncio da noite. E então unimos o Oriente ao Ocidente contemplando a luz vespertina. E rezamos:

Ó luz serena, da glória do Pai celeste e imortal,
santo e bem-aventurado, ó Jesus Cristo.

Chegados ao fim do dia, contemplando a luz vespertina,
cantamos ao Pai, cantamos ao Filho e ao Espírito Santo de Deus”.

Nessa hora o sol cede lugar à luz divina que ilumina nosso coração e nos permite silenciosamente meditar sobre o dia que passou, nos reconciliando com a vida e pedindo ao Senhor mais um dia a graça, mais uma vez contemplar todas as maravilhas que nos revela o senhor Irmão Sol. Admirar o irmão Sol é louvar quem o criou.

Pe. José Artulino Besen

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ALTÍSSIMO, ONIPOTENTE, BOM SENHOR

Altíssimo – pintura de Giustina de Toni

Francisco de Assis é o Santo universal. Sua figura humana é das mais perfeitas e encantadoras que o gênero humano produziu. Ninguém, como ele, foi tão feliz, tão despojado, tão livre. Sua santidade confunde-se com a liberdade total: podia amar ilimitadamente a todas as criaturas, sem nada querer para si, de nada se apropriando. Foi o homem mais livre que conhecemos. Ele realizou em grau máximo o sonho da liberdade, que é o sonho de todos, crentes e descrentes, bons e maus, cristãos e não cristãos, pois ser humano é querer ser livre. Francisco de Assis foi livre.

No mês de abril/novembro de 1225, no pequeníssimo jardim do Convento de São Damião, onde residiam Clara e suas discípulas, numa revelação, teve a promessa da vida eterna. À noite, quase cego e fora de si de tanta dor e desconforto, em estado febril, sozinho em sua cabana de palha, atormentado pelos ratos que não o deixavam dormir, explode de alegria e louvor ao Criador, e compõe o Cântico das Criaturas (também conhecido como Cântico do Irmão Sol), canto de amor ao Pai de toda a criação. Depois arranjou uma melodia que ensinou aos frades para que o cantassem.

O Cântico do Irmão Sol mostra o desejo alimentado por Francisco, até o fim da vida, de ver o mundo inteiro num estado de exaltação e louvor a Deus. É a mais bela oração depois dos Salmos, e o início da poesia italiana. O Cântico tem início com o louvor ao Deus altíssimo.

Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
Teus são o louvor, a glória, a honra
E toda a bênção.
Só a ti, Altíssimo, são devidos:
E homem algum é digno
De te mencionar.

Francisco proclama Deus como altíssimo, onipotente e bom. Deus é tão alto que penetra os céus dos céus, e faz-se tão baixo que toca o chão da terra. Sua beleza e grandeza por tudo se expandem, não permitindo que nossas mãos se ergam para um ponto único, pois tudo canta os louvores do Senhor e nós mesmos nos transformamos em puro louvor.

A ciência sempre mais nos encanta com miríades de galáxias, estrelas e planetas espalhados pelo universo e pelas minúsculas partículas que compõem a matéria. O homem penetra as vastidões do universo em busca do Criador e, quanto mais ascende, mais seus pés buscam apoio  na matéria em cujo interior busca os segredos da criação.

Nele, em Deus, a altura se confunde com a profundidade e, “do abismo profundo clamo a ti, Senhor!” (Sl 129,1). Há uma correspondência entre a profundidade do coração e a altura de Deus. Quanto mais subirmos, mais longe o Deus altíssimo se encontra, quanto mais penetrarmos nosso abismo profundo, mais perto dele estaremos. O altíssimo é profundíssimo, e quer ser encontrado nas vastidões imensas de nosso ser.

Como fazemos confusão entre altura e distância, ficamos na superfície de nossa interioridade e não conseguimos contemplar aquele que habita nossa profundidade. São Paulo escreveu que ninguém conheceu ou mediu a altura, a profundidade e a largura de nosso Deus. Quanto mais quisermos conhecer essas medidas mais longe estaremos de qualquer encontro de amor, de alegria e coragem, pois a Deus não se mede pelas medidas das coisas, mas pela profundidade do amor e da humildade.

Homem algum é digno de mencionar o nome de Deus, que a tudo ultrapassa, mas Jesus ensinou-nos que “somente Deus é bom” e, por isso mesmo, devemos chamá-lo de Pai, Abbá. Com o nome de Pai subimos às alturas do amor divino e Deus desce às profundidades de nosso ser filial que continuamente clama por ele “que tem o seu trono nas alturas e se inclina lá do alto a olhar os céus e a terra” (Sl 112, 5-6).

O Altíssimo manifesta sua humildade ao nos criar, não de qualquer jeito, mas tecendo-nos no ventre de nossa mãe. O santo homem Jó, mesmo abandonado na miséria e coberto de feridas, embevecido canta a quem o criou: “Tuas mãos me plasmaram e me fizeram íntegro em cada parte” (Jó 10,8). O Deus altíssimo, porém, criou o homem “imperfeito”, mas nele incluiu um grande desejo, um impulso de perfeição. Há no homem um profundo desejo de perfeição que o leva sempre mais a procurar o Altíssimo, cada vez mais participando de sua perfeição. Aspira a superar-se, pois nunca está satisfeito. O pobre em nós busca tornar-se rico. O homem aspira ao que é maior do que ele e orienta-se ao totalmente outro, o Deus nosso vizinho, que faz sua casa na vastidão de nosso coração.

Se nós renunciarmos à subida até Deus permaneceremos na escuridão da morte, pois não é possível viver sem vida e não há vida sem a participação de Deus. Ver Deus e gozar de sua plenitude é ter a vida. “A glória de Deus é o homem vivente e a vida do homem é a visão de Deus”, proclamou Santo Irineu no século II, iluminado pela Luz do Alto que nos veio visitar.

Teus são o louvor, a glória, a honra e toda a bênção, canta Francisco. Somente o Altíssimo é digno de nosso louvor, glória, honra e bênção e, ao mesmo tempo, oferece-nos a alegria e a honra de louvá-lo, ele que tudo contém e tudo coloca em nossas mãos. Oferece-nos uma ponte que possibilita a ligação com ele: seu Filho se encarna na natureza humana, trazendo as alturas às profundidades e levando as profundezas ao altíssimo e bom Senhor. O Filho, o Senhor, libertou-nos da solidão e gera a comunhão entre o céu e a terra, entre o Deus Altíssimo e o homem. O Altíssimo torna-se infinitamente Pequeno e o pequeno, infinitamente grande. Então podemos cantar com todas as criaturas celestes “glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados”.

Pe. José Artulino Besen

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A IRMÃ ÁGUA, HUMILDE, PRECIOSA E CASTA

Irmã Água – pintura de Giustina de Toni

O Cântico do Irmão Sol mostra o desejo alimentado por Francisco, até o fim da vida, de ver o mundo inteiro num estado de exaltação e louvor a Deus. É a mais bela oração depois dos Salmos, e o início da poesia italiana. O que me chama a atenção de modo especial é a estrofe onde se encontra o louvor a Deus pela Irmã Água. Quanto lirismo, respeito e afeto pela Água! 

Louvado sejas, meu Senhor
Pela irmã Água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.

A irmã Água é útil, humilde, preciosa, casta. Derramada pela face da terra na forma de lagos, rios, cachoeiras, mares, oceanos é sempre encantadora. As crianças, atletas, turistas, transportadoras, esquiadores, dela se aproveitam para trabalho ou distração. Faz a festa das crianças quando se transforma em picolé, sorvete. Sua força faz girar turbinas que giram dínamos e produzem a energia elétrica. Ela aceita participar das inumeráveis bebidas, dos medicamentos, perfumes. A irmã Água é mesmo muito fraterna e útil.

A irmã Água é humilde: ela recebe tudo e todos, tanto os sedentos que a sorvem sofregamente, como os lixos que lhe alteram o cheiro e a cor. Irmã humilde e caridosa, percorre feridas de corpos machucados, lava o pus das feridas, refresca os doentes, revitaliza os cansados. Derramada por tudo, lava todas as coisas, mas não é lavada, reza um hino mozárabe do século VI. Na Celebração eucarística, algumas gotas simbolizam a humanidade e mergulham no vinho, símbolo da divindade.

Percorre nosso organismo e aceita ser urina, expelindo todas as impurezas do corpo. Carrega as imundícies nela depositadas para dentro da terra, transformando-as em adubo e ela retorna purificada, humilde. É agradecida quando irmão Fogo a aquece para os banhos, ou as panelas onde contribui para cozer alimentos.

Como é preciosa, a irmã Água! A vida tem início dentro da placenta materna que se converte num precioso vaso de água que permite ao feto crescer bela criança. Participa do leite que os bebês sugam no seio materno. É a maior parte de nossa constituição física. Joga-se a semente na terra, e a água primeiramente a abre, depois a faz germinar, torna possível o crescimento, o fruto final. Silenciosamente ela mantém as florestas, jardins, chafarizes. Sem ela não há vida. Tanto alimenta animais como pessoas, protege o solo contra a desertificação.

Deus a quis presente no Dilúvio, protegeu o Povo eleito da perseguição do Faraó, dessedentou na caminhada do Povo eleito, e no rio Jordão, confirmando a conversão dos pecadores, foi sinal para João Batista. Ela foi santificada quando Jesus nela desceu para o Batismo e, através dela, o Espírito nos fez filhos de Deus.

A irmã Água é casta. É um belíssimo e delicado título, somente podendo ser captado pela pureza angelical de Francisco de Assis. Percorre o corpo nu de jovens e mulheres e vai embora silenciosamente. Discretamente banha faces, seios e permanece a mesma. Trata com igual carinho o corpo vigoroso da donzela e o corpo esmaecido do ancião. Todo o encanto do corpo humano, ocultado pelas vestes, mistério para as mãos que acariciam, a água conhece, purifica, refresca no calor, revitaliza no cansaço. Com respeito, em silêncio. A Água é preciosa e casta. É tão preciosa e casta que faz a festa de inocentes bebês e crianças. Os adultos podem chorar uma enchente, as crianças, porém, nela enxergam motivo de festa, ocasião para brincar.

Por tudo isso, louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Água, que é mui útil e humilde, e preciosa e casta. 

Pe. José Artulino Besen

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