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CRIAÇÃO, ECOLOGIA E EUCARISTIA

Criação ofertada na Eucaristia

Criação ofertada na Eucaristia

“Creio em um só Deus, Pai todo poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”: com este ato de fé na origem divina de tudo glorifiquemos nosso Deus, proclamando: Creio!

Decidiu o Senhor Deus que suas criaturas participassem de seu ser, sabedoria e bondade e assim usufruíssem da felicidade plena. Deste modo, toda a obra criadora incluiu a finalidade maior de edificar a casa de Adão e de seus descendentes: com eles estaria sempre em diálogo e lhes apresentaria a doação feita, a cada criatura, para a harmonia universal.

Toda a criação, todo o universo são frutos do excesso/desperdício do amor divino: bastaria uma fonte, uma flor, uma ave, e Deus escolheu o caminho do excesso de criatividade e beleza, pois queria alegrar o ser humano e enriquecê-lo com o dom da admiração, do encantamento dia por dia, toda a vida. E a criatividade divina nos inspira em nossa criatividade. Santo Irineu de Lyon afirma isso: Deus criou todas as maravilhas do universo e somente depois o homem, a quem presenteou com seus dons maravilhosos. Também escreveu que a criação do ser humano foi obra das duas mãos do Pai, a Palavra e o Espírito, é obra da Trindade Santa.

A visão cristã da criação glorifica-a em sua dignidade, em seu fundamento e em seu destino: tudo foi feito pelo Pai por meio de seu Filho e para seu Filho (cf. Cl 1,16) que é o herdeiro de todas as coisas e, por meio dele, todas serão regeneradas para que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28).

Quando tudo estava pronto, Deus enriqueceu sua obra com o homem e a mulher, e criou-os à sua imagem e semelhança para que sua beleza ultrapassasse a de todas as criaturas. Tudo é obra divina, mas o ser humano é mais do que obra, inclui também a imagem divina. Somente ele pode contemplar plenamente toda a criação e, através dela, cantar seu autor, somente ele pode dizer “sou raça divina”.

Dotado de imagem e semelhança divinas, através de sua presença e trabalho o homem e a mulher fazem o divino penetrar na obra de Deus.

Deus foi infinitamente além: no primeiro ato, incluiu na humanidade sua imagem e semelhança divinas e, no segundo ato de seu plano eterno, fez seu Filho assumir a natureza humana de modo a podermos cantar, extasiados, que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

Pão e Vinho - Julian Merrow-Smith

Pão e Vinho – Julian Merrow-Smith

Ecologia e Eucaristia

Tudo Deus nos deu: o mundo e seu Filho. Mas, ao recebermos um dom não o destruímos, dele não nos servimos como de coisa qualquer: nós o protegemos, guardamos e dele nos servimos com reverência a quem nos ofereceu e, mais ainda, a quem o criou. Isso, infelizmente, não aconteceu: durante séculos os animais e vegetais, o meio ambiente foram considerados como mero contexto para a vida do homem, nada mais do que instrumentos a seu livre serviço. Agora colhemos os frutos deteriorados de nossa ação predadora, e seu maior monumento são os lixões que “enfeitam” cidades, vilas e campos.

Seguindo o caminho que Francisco nos traçou com a Laudato si, o Criador nos oferece a oportunidade de um grande ato penitencial, porque a tradição cristã não pode separar justiça e paz, misturar condivisão e expropriação da terra, unir cuidado pela natureza e pela qualidade da vida humana com desperdício. Justiça, paz geram a harmonia pela rejeição da desordem e da prepotência do poder. O desperdício é fruto do pecado, pois leva o outro a sofrer privações e hipoteca o futuro.

Devemos ao teólogo ortodoxo Ioannes  Zizioulas, metropolita de Pérgamo, o caminho tanto desse ato penitencial como da rejeição ao pecado da ingratidão diante da oferta divina: ele propõe a Eucaristia como verdadeiro caminho para a ecologia. Os dons apresentados ao Pai para a consagração eucarística são dons criaturais e, mais ainda, não se restringem àquele pão e àquele vinho, mas levam consigo toda a criação e todo o trabalho humano. Pão e vinho são a totalidade da criação.

Deus aceita a oferenda, sobre ela envia o Espírito Santo e tudo se transfigura, torna-se Corpo e Sangue de Cristo. A cada Eucaristia a criação é santificada para que possa ser oferta agradável a Deus, oferta de ação de graças, pois não podemos oferecer a Deus o fruto de nosso consumismo, desperdício, uma criação devastada, desertificada, fruto da morte que nos habita e gera morte. O pão se torna o Senhor e o Senhor se faz Pão para a vida do mundo. Uma Eucaristia vivida no Deus Criador nos leva ao uso respeitoso e moderado da criação, faz-nos sacerdotes e guardiões da obra divina.

A criação é um dom de comunhão divina: um dom eucarístico. No pão e no vinho depositados no altar também incluímos os pecadores, os leprosos, os doentes, os famintos, os solitários, os estrangeiros, nosso evangelho vivência do Evangelho. Tudo oferecemos para que tudo seja transfigurado pelo Espírito. E não oferecemos solitariamente: toda Igreja oferece conosco, a do céu e a da terra. Cada um de nós representa misticamente a totalidade da obra divina, pois Deus está em tudo e, pela comunhão, estamos em Deus.

O pecado original criou a ruptura do homem com o Pai e também a ruptura com a humanidade e a natureza. Mandando-nos celebrar a Eucaristia, o Senhor da redenção nos liberta da ruptura com Deus e transfigura e regenera a própria matéria pois “a criação espera com impaciência a revelação dos filhos de Deus” (cf. Rm 8, 19-20).

Pe. José Artulino Besen

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X – A FÉ – CREIO NA RESSURREIÇÃO DA CARNE E NA VIDA ETERNA

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Nosso Credo revela o caminho da fé: crer em Deus Uno e Trino, crer na criação do mundo e do homem e mulher, reconhecer o pecado e crer no mistério da encarnação e da redenção, crer na Igreja, crer na remissão dos pecados. Este é o caminho que faz com que nossos passos sejam acompanhados pelos passos divinos, trazem ao nosso coração um desejo infinito que supera nossa finitude: não queremos nos separar de nossos irmãos e irmãs, não queremos nos separar de Deus, queremos viver sempre na alegria do mistério divino e humano, a alegria de vida eterna.

Fruto deste desejo infinito, nosso coração, que não terá paz enquanto não repousar em Deus, faz-nos professar com força: “Creio na ressurreição da carne! Creio na vida eterna!”. É o que afirmamos com alegria no 11º. artigo do Credo, nossa Profissão de Fé. “A confiança dos cristãos é a ressurreição dos mortos; crendo nela, somos cristãos”, se afirma desde o início do Cristianismo. Ser cristão é crer na ressurreição!

Nossa vida é caminho de ressurreição

Sim! Nós, cristãos, cremos na ressurreição da carne, esperamos ardentemente o encontro final com o Pai, o Filho, o Espírito Santo. Essa esperança faz-nos viver bem, porque cada dia é precioso, não perdemos o tempo nem o caminho, investimos a vida naquilo que é bom e justo. A fé na ressurreição faz de nossa vida uma escola de amor para o encontro com o Amor, uma escola de fraternidade para o encontro com o Pai.

Com tão firme esperança, desaparece o medo da morte que levou Adão e Eva a negarem Deus, medo que destrói nossos ideais e sonhos. A morte não nos amedronta, pois sabemos que ela foi derrotada na Cruz. Existe a morte natural, afinal, nosso corpo segue os limites da natureza, mas não existe a morte de nossa “pessoa”.

Mas, o que é a ressurreição da carne? Primeiro, temos de responder a uma outra pergunta: o que entendemos por carne? Consideremos a Eucaristia: quando Jesus diz “quem come minha carne e bebe meu sangue” (Jo 6,56), está afirmando: “Quem me recebe como alimento”. Carne e sangue significam a mesma realidade: a pessoa, corpo e alma. Comungando, no Espírito não mais comemos pão e vinho, mas o Corpo e Sangue do Senhor.

“Creio na ressurreição da carne” é afirmar “creio na ressurreição da pessoa”. Nós não somos anjos, somos homens e mulheres, somos alma na carne, de modo inseparável. O Espírito que ressuscitou Jesus dentre os mortos dará vida a nossos corpos mortais mediante o espírito que habita em nós (cf. Rm 8,11): “corpo”, aqui, é a pessoa humana (alma num corpo) cuja morte foi vencida por Cristo no Espírito.

Ressuscitamos pelo poder do Espírito

Nós não sepultamos uma pessoa, sepultamos um cadáver. Não há ninguém enterrado nos cemitérios e sim, cadáveres que retornam ao pó e que merecem nosso respeito, pois foram lavados e ungidos no Batismo. A morte foi vencida: nós morremos, sim, mas logo somos ressuscitados pelo poder do Espírito.

De que maneira? Cristo ressuscitou com seu próprio corpo: “Vede as minhas mãos e os meus pés: sou eu!” (Lc 24,39). Mas ele não voltou a uma vida terrestre. Da mesma forma, nele ressuscitarão com seu próprio corpo, porém, corpo “transfigurado em corpo de glória”, em “corpo espiritual” (1Cor 15, 44). Assim explicou o Papa Francisco: “Esta transformação, esta transfiguração do nosso corpo é preparada nesta vida pelo encontro com Cristo Ressuscitado nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia. Nós, que nesta vida nos alimentarmos do Seu Corpo e do Seu Sangue, ressuscitaremos como Ele, com Ele e por meio d’Ele. Como Jesus ressuscitou com o Seu corpo, mas não regressou a uma vida terrena, assim nós ressuscitaremos com os nossos corpos que serão transfigurados em corpos gloriosos, corpos espirituais” (Catequese em 04-12-2013)

A pessoa humana – corpo encarnado – é transfigurada pelo poder do Espírito. Veja o que aconteceu com Jesus: ressuscitado, continuou sendo Verbo feito Carne, mas entrava por portas fechadas, estava transfigurado. Assim seremos nós. E o que acontecerá com nossas cinzas no cemitério? Tanto João Paulo II como Bento XVI ensinaram que a nossa ressurreição não supõe nossa natureza física atual: Deus nos dará um corpo novo, glorioso.

Graças  a Cristo, a morte cristã tem um sentido positivo. “Para mim, a vida é Cristo, e morrer é lucro” (Fl 1,21). “Fiel é esta palavra: se com Ele morremos, com Ele viveremos” (2Tm 1,11).  A novidade essencial da morte cristã está  nisto: pelo Batismo, o velho homem já está sacramentalmente “morto com Cristo”, e revestido de Cristo para viver de uma vida nova; conservando a veste batismal, com ele viveremos para sempre.

Em sua História de uma Alma, Santa Teresinha escreveu, a respeito da morte: “Eu não morro, eu entro na vida”.

Graças damos a Deus que nos oferece tão feliz herança: habitar entre os santos e anjos na Luz, pela eternidade.

Pe. José Artulino Besen

 

 

 

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IX – CREIO NO ESPÍRITO SANTO, FONTE DA VIDA

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Nós professamos: “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos Profetas”.

Tudo o que falamos de Deus, da verdade sobre o homem, da salvação, nós somente podemos fazê-lo pela ação e inspiração do Espírito Santo. Nossa capacidade é reduzida por causa da condição de pecadores, sujeita ao orgulho e à vaidade, e o Espírito vem em nosso socorro.

O mistério de Jesus Cristo, Deus e homem, morto e ressuscitado é conhecido pelas Escrituras, mas somente experimentado como Senhor e verdade transformadora por ação do Espírito, “que nos ensina toda a verdade” (cf. João 14, 26). Ele, Senhor que dá a vida, é a alma da Igreja: sem alma, um corpo é cadáver, sem alma, a Igreja é apenas ONG ou estrutura devocional. Talvez seja pela pouca aceitação da força e luz do Espírito que nós confundamos liturgia com cerimônia, ministério com poder, tradição com tradicionalismo, Bíblia com livro de auto-ajuda. Porque, com o Espírito Santo, a liturgia é a celebração do mistério pascal, a Igreja é povo de Deus e Corpo de Cristo, o ministério é serviço, a Bíblia é palavra de Deus, tradição é a permanência fiel na fé que nos foi transmitida desde o início.

O Espírito da vida e da coragem

Ainda no tempo apostólico, o apóstolo Filipe encontrou o eunuco da Rainha de Candace lendo a Bíblia sem nada entender. Movido pelo Espírito, Filipe lhe explicou o texto e ele creu no Senhor (cf. Atos, 8, 26-27). Encontrando alguns que se diziam cristãos, Paulo perguntou-lhes se tinham recebido o Espírito Santo, e responderam que nem sabiam de que se tratava (cf. Atos 19, 1-7). Paulo impôs-lhes as mãos e se transformaram.

Falando aos bispos da Coréia do Sul (14-08-2014) Papa Francisco pediu que não caiamos na tentação da lógica do mercado, dos números, do sucesso: “Em muitas circunstâncias os agentes de pastoral são tentados a adotar não só modelos eficazes de ação, programação e organização tirados do mundo dos negócios,  mas também um estilo de vida e uma mentalidade guiados mais pelos critérios mundanos de sucesso e até de poder do que pelos critérios enunciados por Jesus no Evangelho”.

Jesus é o nosso Intercessor junto ao Pai, o Espírito Santo é o nosso Advogado junto ao Pai (Paráclito): se Satanás é o acusador, o Espírito e o Senhor nos defendem, cobrem nossas fraquezas, e nos enchem de coragem. Não ter medo de viver a fé, de proclamar a vida nova em Cristo é o fruto maduro da ação do Espírito em nós. Não seremos grupos barulhentos, dados a esquisitices, mas seremos membros de comunidades vivas onde frutifica o amor cristão.

O Espírito luz, fogo, vento

É verdade que no dia de Pentecostes o Espírito se manifestou sob a forma de línguas de fogo, de vento impetuoso, mas também é verdade que se manifestou como mansa pombinha, brisa da tarde, fogo que aquece o coração e nos impele a conhecer e amar a Jesus. O fogo do Espírito queimou a ignorância dos Apóstolos, e como vento impetuoso desmonta nossas seguranças humanas e as substitui pela segurança humilde da fé, da esperança e da caridade.

Em nosso orgulho, nos achamos os crentes verdadeiros, exemplares, mas o Espírito geme dentro de nós revelando nossa condição frágil, iluminando nossa consciência, não para nos humilhar, mas para que busquemos a graça que salva e torna fértil o chão de nossa existência.

Mergulhado na água do batismo, o Espírito lava nossas impurezas e nos reveste de Cristo, arranca nossas máscaras e nos dá um novo rosto, humano; transmitido pelo óleo consagrado, unge um povo de sacerdotes, alivia os sofrimentos dos enfermos; comunicado pela imposição das mãos oferece à Igreja bispos, sacerdotes e diáconos; unindo o casal de noivos, faz deles marido e mulher com a graça da fidelidade, do amor fecundo. Santificando, pela ação do Pai, o pão e o vinho, coloca em nossa mesa fraterna o Pão da Vida eterna e rejunta nossos ossos com carne rediviva. Ele falou pelos Profetas, ele quer nos falar e falar por nós. E, obra prima da criação, deu-nos Maria, a Virgem Mãe, causa de nossa alegria, anúncio de um Reino que é justiça, paz e alegria no Espírito Santo  (cf. Rm 14, 17).

Pe. José Artulino Besen

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VIII – A FÉ – CREIO EM JESUS CRISTO, SALVADOR

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Por que o Filho de Deus veio ao mundo? Para a nossa salvação, logo respondemos, e precisamos ter clareza sobre o que é a salvação, o que significa ser salvo. Em primeiro lugar, Jesus não veio apenas para nos dar uma boa morte, como se nossa vida terrena nada contasse, nem veio apenas para que não fôssemos condenados ao inferno. Isso é consequência da salvação, de uma vida salva.

O evangelho de João revela com clareza a salvação que Jesus oferece: “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância” (João 10, 10). Vida em abundância a partir do momento da concepção, passando pelo nascimento, crescimento, vida adulta e morte. Tudo na plenitude do amor de Deus, não vivendo de qualquer jeito, fechado em si mesmo, não colaborando para que o outro também viva em abundância.

O Filho de Deus veio ao mundo para nos ensinar o caminho da vida, onde a morte não tem mais poder, onde a liberdade nos faz humanos.

Criando o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, Deus tinha-lhes dado uma participação especial na própria vida divina. Segundo o projeto de Deus, o homem não deveria nem sofrer nem morrer. Além disso, reinava uma harmonia perfeita: no próprio ser humano, entre a criatura e o criador, entre o homem e a mulher, bem como entre o primeiro casal humano e toda a criação (CIC 374-379). A obra divina é obra de harmonia, de paz, de santidade.

Mas, Deus nos fez livres e nos quer livres. Uma característica do ser humano é a liberdade, que o distingue de todas as outras criaturas. É o poder, dado por Deus ao homem, de agir e não agir, de fazer isto ou aquilo, e implica também a possibilidade de escolher entre o bem e o mal. A liberdade é a característica dos atos propriamente humanos e seu melhor fruto é fazer o bem, o que nos torna verdadeiramente livres. A escolha do mal é um abuso da liberdade, e nos conduz à escravidão do pecado.

Filiação divina e conhecimento de Deus

O primeiro pecado enfraqueceu a liberdade humana e, na sucessão de pecados se acentuou o enfraquecimento da liberdade. Mas “é para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gal 5,1). Com a sua graça, o Espírito Santo reconduz-nos para a liberdade espiritual, para fazer de nós colaboradores livres da sua obra na Igreja e no mundo.

Crer em Jesus Cristo significa crer que ele é Senhor e Salvador. No nome “Jesus” está incluída a sua missão, pois significa “Deus salva”, é aquele que salva o povo de seus pecados, que nos reconduz à liberdade. “Cristo”, “Messias” significa ungido, Jesus é o Cristo porque é consagrado por Deus, ungido pelo Espírito Santo para a missão redentora.

“Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo” (Gálatas 3, 26). No mundo religioso que anunciava castigos divinos, onde Deus era temido, rei e juiz terrível, por Jesus chegou a boa notícia: somos filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. Deu-nos a capacidade e o direito de nos dirigirmos a Deus como a um Pai, como ele o fazia. Nossa oração principal tem início com “Pai nosso”. O Pai nos faz participantes da vida de seu Filho.

E como conhecer o Pai? Jesus é o narrador do Pai, com toda autoridade, pois o conhece desde toda a eternidade. Essa revelação é feita pela Palavra e pelos gestos que o Senhor realizou na terra e nos são transmitidos pelos Evangelhos. Quando Filipe pede para conhecer o Pai, Jesus responde: “Filipe, quem me viu, viu o Pai” (João 14, 9). A vida de Jesus é a narração do coração do Pai.

Certamente isso causou mal-estar nas pessoas que se achavam conhecedoras de Deus e agora escutavam e viam alguém dizendo: “como eu vivo, assim é o Pai”. João Batista anunciava um tempo de justiça, colheita, e Jesus anuncia o tempo da graça, da misericórdia, da paciência, porque Deus é amor.

O tempo da salvação

Paulo afirma que, desde toda a eternidade, Deus tinha decidido nos enviar o Filho, isso antes do pecado: Jesus viria ao mundo mesmo sem o pecado dos primeiros pais, porque o plano divino é de nos salvar. Em outras palavras: Deus nos fez à sua imagem e semelhança, e Jesus veio para levar essa semelhança à plenitude.

Então, o que é a salvação? É a transformação realizada em nós pela graça e que nos torna a cada dia mais semelhantes a Deus. O homem plenamente salvo é o homem plenamente divinizado. A salvação tem início com o batismo que nos oferece um caminho de perfeição que se concluirá na eternidade. É um caminho dinâmico de transformação alimentado pelo amor divino em Cristo e pela nossa busca contínua da felicidade: queremos ser como Deus, queremos ver o Pai.

Cristo é nosso Salvador: vivendo no meio de nós, com sua vida narrou o Pai e narra para nós o caminho da salvação. Somente ele, Deus e homem, pode dizer: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14, 6). Assim cremos, assim somos salvos

José Artulino Besen

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VII – A FÉ – E A PALAVRA SE FEZ CARNE – A EUCARISTIA

«O Senhor da Humildade» (ícone russo)

«O Senhor da Humildade» (ícone russo)

A fé cristã afirma Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, e afirma o Filho como verdadeiro Deus e verdadeiro Homem: Trindade e Encarnação. São esses os mistérios que fundam e fundamentam a fé cristã. O Filho recebe o nome de Jesus (Deus salva) e Cristo (o Ungido de Deus) e é nosso único Senhor.

Em sua Carta aos Filipenses (2, 5-11) São Paulo transcreve um Hino que era memorizado pelos cristãos e que narra dois mistérios do Filho:o mistério da descida (sendo Deus, Jesus renunciou à condição divina, fez-se homem assumindo a condição humana, descendo até o abismo da morte) e o mistério da subida (Deus o ressuscitou e o exaltou, dando-lhe um Nome acima de todo nome, para que todos proclamemos que ele é o Senhor). Tudo isso, para a glória de Deus Pai, no Espírito Santo.

O mistério da descida – a Palavra se fez Carne

Nós proclamamos no Credo: “Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria”.

O Filho eterno, Deus eterno com o Pai, se fez carne, isto é, se fez humano e habitou entre nós (João 1, 1-14). Desde toda a eternidade, antes da criação do mundo e do homem e da mulher, foi esse o projeto de Deus: o Filho vir habitar na natureza humana e no meio de nós. Muito importante: Deus entrou na história, no tempo. Numa época, o ano I de nossa era, e num lugar, a Palestina. A história humana é agora história divina, a vida humana é também vida divina.

O Pai decidiu seguir os meios que estabeleceu para nós: o Filho se encarna em Maria de Nazaré da Galiléia, seu sangue é nosso sangue, sua carne é nossa carne. Podemos afirmar com todo o direito: somos da linhagem divina, e Deus é da linhagem humana (Atos, 17, 29). Concebendo por obra do Espírito Santo, Maria é chamada Mãe de Deus, pois não podemos separar em Jesus o que é divino e o que é humano: Jesus é Deus e homem verdadeiro, em unidade perfeita e sem confusão.

A palavra “carne” significa a pessoa humana em todas as dimensões: física, psicológica, emocional, espiritual. Tudo isso o Filho assumiu ao se encarnar em Maria: Deus decidiu passar pelas experiências humanas em toda a sua riqueza e fraqueza, menos no pecado. Paulo afirma que Jesus assumiu a condição de escravo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.

O mistério da subida – ressurreição e Eucaristia

A descida de Jesus está incluída na sua obediência radical e livre ao Pai, que não o deixa abandonado ao poder da morte. Pelo contrário: Deus o exaltou e deu-lhe um Nome pelo qual podemos ser salvos. E a exaltação se conclui: em Nome de Jesus todo joelho se dobre e toda língua proclame “Jesus Cristo é o Senhor”, para a glória de Deus Pai. Na obediência, o Senhor desceu o máximo e, na subida, o Pai lhe dá o título máximo de Senhor. Devemos recordar, contudo, que o Senhor que subiu na glória se encontra presente em nossa humildade, pois Deus decidiu estar conosco para sempre.

Em cada Eucaristia celebramos a vida do Filho, sua encarnação, nascimento, morte, ressurreição e ascensão ao Pai. A Eucaristia é a presença plena do Senhor em nós e de nós nele. Assim como pela digestão o pão e o vinho são transformados, do mesmo modo, na Eucaristia são transformados porque digeridos e, desse modo, nós somos transformados em Corpo de Cristo. São João Crisóstomo assim fala: uma vez que como o pão e o vinho, Corpo e Sangue de Cristo, sou transformado no Corpo e no Sangue de Cristo a tal ponto que “não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). E Santo Agostinho: se quisermos ver a Eucaristia e compreendê-la, olhemos o que está no altar: nós estamos no altar onde está Cristo e na união com ele nós nos tornamos Corpo e Sangue de Cristo.

A Liturgia russa nos comove com um belo título para Jesus: o Senhor da Humildade. Tão cheio de poder e glória, e tão cheio de simplicidade e bondade. Na língua grega do Novo Testamento, o Filho é denominado “Kyrios”, o “Senhor”, nome que indica não somente respeito, mas, em Jesus, significa que não há nenhum poder fora dele, tudo está submetido à sua autoridade. Nele, Deus Pai quer ser glorificado. O nome “Senhor” era de tal modo profundo que a Liturgia romana manteve no grego a prece “Kyrie eleison”, Senhor, tende piedade de nós, no ato penitencial, que era repetida três vezes. Somente mais tarde incluiu outro nome, o “Christe eleison”. Isso porque somente ele tem direito ao nome Senhor, somente ele merece a nossa humilde submissão, sempre confortadora. E somente ele, o Senhor, tem a autoridade de nos reconciliar com o Pai, o mundo, a humanidade. E, na sua humildade, pela Eucaristia nos torna seu Corpo e Sangue.

Pe. José Artulino Besen

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VI – A FÉ – DEUS É AMOR, O AMOR É DIVINO

O amor que vem de Deus penetra a vida humana

O amor que vem de Deus penetra a vida humana

A fé cristã tem como fundamento a revelação de que nosso Deus é Trindade, Uno e Trino, e que o Filho se encarnou, morreu e ressuscitou por nós e por nossa salvação.

Não nos é dado  entender o mistério trinitário, mas podemos nos achegar de modo muito mais belo e profundo: contemplar e adorar o Deus Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo. Quando entendemos, a realidade diminui, empobrece e, quando contemplamos e adoramos, Deus vem ao nosso encontro e nos fala como a filhos.

Sirvo-me da palavra de Bento XVI na festa da Santíssima Trindade de 2009: “Três Pessoas que são um só Deus porque o Pai é amor, o Filho é amor, o Espírito Santo é amor. Deus é totalmente e somente amor, amor puríssimo, infinito e eterno. Não vive numa esplêndida solidão, mas é antes de tudo fonte inesgotável de vida que se doa e se comunica incessantemente” (Bento XVI, Angelus de 7 de junho de 2009).

Bento XVI iniciou o pontificado com a Encíclica Deus caritas est, Deus é amor, publicada no Natal de 2005, marcando a força de seu ministério no anúncio do amor divino. Poucos nos apercebemos, mas seu último documento doutrinal e disciplinar foi sobre o amor, a Carta apostólica Sobre o serviço da Caridade, de 11 de novembro de 2012.

Cristo veio ao mundo para que tivéssemos acesso ao amor de Deus e para que esse amor seja aceso como fogo em nossos corações: “Eu vim lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!” (Lucas 12, 49). Do mesmo modo que a essência de Deus é o amor, a natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros. Com uma palavra densa, Bento XVI sintetiza o programa da evangelização e da vida cristã: anúncio, liturgia, caridade.

Somos o centro da Trindade

Três Pessoas que são um só Deus, porque Deus é amor, isto é, a essência da divindade é o amor, a caridade. À medida que formos mais capazes de amar verdadeiramente, mais seremos capazes de penetrar o mistério de nosso Deus. Quando Lucas afirma que “a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma” (Atos 4, 32) estava retratando o fruto do amor divino nos primeiros cristãos: eram muitos, mas uma só alma, pois mergulhados no amor trinitário. Enquanto nós, humanidade, estivermos divididos em tribos, nações inimigas, em pobres e ricos, comprovamos como ainda é distante a vivência do amor cristão.

É da natureza do amor expandir-se, ir ao encontro: assim, Deus Pai cria o mundo, cria a vida, cria o homem e a mulher para poder amar. Deus Filho vem ao mundo para renovar a criação e a humanidade decaída, fazendo novas todas as coisas (Apocalipse 21, 5). Deus Espírito Santo é fogo de amor, paz, santidade e renova tudo e todos.

Quanta dignidade há em cada um de nós, sem nenhum merecimento: somos o centro aonde converge o amor divino e recebemos o dom inestimável de poder amar, de sermos divinos pelo ato de amar.

Deus é amor, o amor é divino: nós somos feitos à imagem e semelhança de Deus e recuperamos nossa semelhança pela conversão ao amor. E isso não é pesado, não é um mandamento duro: somos amados primeiro. Nosso amor é somente resposta.

Não necessitamos de ficar abismados pelos santos que deram a vida pelo próximo, pelos jovens que se consagram à missão, por aqueles que empenham toda a vida no serviço ao próximo: sentem-se amados e não conseguem se fechar em si, também se dilatam no amor. Tudo se faz amor quando meditamos no amor pessoal de Deus por cada uma de nós: “Tu és Trindade criadora e eu sou tua criatura. Tu estás enamorado de tua criatura”, afirmava Santa Catarina de Siena.

José Artulino Besen

 

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V – A FÉ CRISTÃ, REVELAÇÃO DIVINA

Palavra e Encarnação - Capela do Centro Aletti em Olomouc - Tchékia

Palavra e Encarnação – Capela do Centro Aletti em Olomouc – Tchékia

Tudo o que cremos a respeito de Deus nós o recebemos por dom e graça, e dentro da comunidade. Não há fé cristã verdadeira senão vivendo numa comunidade eclesial e tendo a capacidade de escutar e amar.

Tantas vezes se diz que “Deus é um só, não se deve brigar por religião porque são todas iguais”. Além de são ser verdade, é uma afirmação que simplifica tudo, e é perigosa, pois torna inútil a revelação bíblica e a vinda de Jesus ao mundo.

Deus é um só, é evidente. Mas o conhecimento de Deus se dá dentro da história através do que o Espírito de Deus revela e isso, pouco a pouco, respeitando a capacidade de aprendizado dos seres humanos. São Paulo afirma que todos os povos têm a fé em Deus inscrita em seus corações e também conhecem a Deus através da criação (Romanos 1, 19-21). Deus nunca deixou de agir entre os povos, por isso, quando um missionário chega à terra de missão deve primeiro buscar conhecer o que Deus já realizou nela, pois não adentra no campo missionário como se Deus nunca tivesse acompanhado sua história.

A última revelação, definitiva, Deus ofereceu através de seu Filho que por nós se encarnou. Jesus, eternamente junto do Pai, conhece-o e pode revelá-lo. Desse modo, nós cristãos temos o conhecimento da fé, e da vida de fé, através do próprio Deus. Isso não diminui os outros povos, não cristãos, mas aumenta nossa alegria por termos sido dignos de conhecer a Deus e de nos empenharmos dia e noite para realizar o mandamento do Senhor: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura”. Recebemos o dom da fé cristã e queremos que todos os povos dele partilhem.

O fundamento da fé cristã

Por divina revelação atestada na Sagrada Escritura, são dois os fundamentos inseparáveis da fé cristã e que, renegando-os, estaremos excluídos da comunidade cristã: Deus Pai, nosso Senhor Jesus o Salvador, o Espírito Santo enviado Filho,  o mistério da Trindade Una e Santa e o mistério da Encarnação do Filho. É aceitando firmemente esses mistérios que somos recebidos na Igreja pelo batismo: somos batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e, pelo batismo, participamos da salvação que nos é oferecida por Jesus Cristo.

Quando falamos em “mistério” não estamos nos referindo a coisas absurdas, incompreensíveis: nos referimos, isto sim, à grandeza de Deus que é tudo, mas que vem ao nosso encontro, se envolve em nossa vida. Mistério é algo tão profundo que, quanto mais conhecemos, mais falta conhecer, e esse conhecimento não vem de nossos estudos, mas da graça de Deus. Se cada pessoa é um mistério, nunca a conhecemos totalmente, quanto mais o nosso Deus!

Sabemos que Deus é Uno e Trino, é Santíssima Trindade porque assim o Espírito nos revela pela Palavra: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (2 Coríntios 13, 13). É muito belo quando iniciamos os sacramentos com essa saudação de Paulo. Mas, antes, fazemos o Sinal da Cruz professando nossa fé nos dois mistérios: o mistério de Deus com as palavras “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, e o mistério da encarnação e redenção traçando a cruz [+].

Cada dia que é iniciado e concluído com o Sinal da Cruz, cada ação, trabalho, viagem  com o mesmo sinal é a afirmação de que cremos no Deus Trindade e na Salvação em Jesus. Um gesto devocional tão simples e tão profundo que nos leva à intimidade de Deus nosso Pai e de Jesus nosso Salvador na força do Espírito Santo.

Quando os pais e padrinhos abençoam com esse sinal na fronte da criança estão invocando para ela proteção, salvação e fé cristã. É uma bênção generosa e poderosa, tão fácil, tão significativa e, deste modo, rezamos o que cremos e cremos o que rezamos.

Toda a revelação cristã nasce e se desenvolve numa palavra: Amor. Por amor Deus se revela, por amor nós cremos. Deus é amor, o amor é divino.

José Artulino Besen

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IV – A FÉ – ATO PESSOAL E ATO ECLESIAL

pentecostes

Se todos os cristãos, por questão de lógica, creem em Deus e em Jesus Cristo seu Filho, por que falta a unidade entre os crentes, por que a competição entre os que vivem a mesma fé? Damos ao mundo o espetáculo da divisão, da competição, e até do ódio, o que se constitui num grande obstáculo para que o mundo creia. Jesus, em sua oração sacerdotal, pede ao Pai que os discípulos creiam e se amem, para que sejam um como ele o é com o Pai (Jo 17,21). Todo o problema do ecumenismo tem origem nessa dor: a divisão dos cristãos em grupos que se combatem, ou não se aceitam, ou querem o monopólio de Cristo.

A Carta apostólica PORTA FIDEI, que convocou o Ano da Fé, afirma: “O cristão não pode jamais pensar que o ato de crer seja um fato privado. A fé é decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. E este ‘estar com Ele’ introduz na compreensão das razões pelas quais se acredita” (nr. 10). Cristo que nos fala é o conteúdo de nossa fé e não podemos fazer seleções de aspectos da fé, para não dividirmos Cristo em porções a la carte.

A fé é pessoal, não somos um rebanho levado pela onda: necessito dizer “eu creio” ao outro, que também me diz “eu creio”. Mas, o “eu creio” encontra sua realização plena ao confirmarmos “nós cremos”. Na Liturgia, proclamamos isso com bastante força após ouvirmos a Palavra de Deus e professarmos nossa fé dizendo “Creio em Deus Pai” como comunidade de fé.

A fé, dom divino a nós concedido, impele-nos necessariamente a uma comunidade/comunhão de fé: cremos na Igreja e com a Igreja. A própria profissão da fé é um ato simultaneamente pessoal e comunitário. É na fé da comunidade cristã que cada um recebe o Batismo, sinal eficaz da entrada no povo de Deus que busca a salvação. É da Igreja e na Igreja que recebemos o anúncio de Cristo e, deste modo, podemos afirmar o que de modo tão belo e claro afirma o nosso Catecismo: “Eu creio”: é a fé da Igreja, professada pessoalmente por cada crente, “Nós cremos”: é a fé da Igreja, confessada pela assembléia litúrgica dos fiéis. “Eu creio”: é também a Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus pela sua fé e nos ensina a dizer: “Eu creio”, “Nós cremos”.” (Catecismo, nr. 167). Estando reunidos para ouvir a Palavra e partilhar o Pão, nosso ato de fé é pessoal (eu creio) e comunitário, todos a uma só voz proclamando “eu creio”. 

Crer com a Igreja – Povo de Deus

É pelo Espírito Santo que somos capazes de crer, e é pelo Espírito Santo que a Igreja nos transmite o conteúdo da fé. Temos, hoje, bastante dificuldade de admitir que haja um “conteúdo da fé”, porque gostamos de fazer a experiência individual da aceitação do Senhor morto e ressuscitado. É a dificuldade de sermos discípulos à escuta. Há o primeiro passo, a que se segue o “no que eu creio”, que não depende mais de mim, mas da Igreja que recebeu do Senhor a missão de nos transmitir a Sagrada Escritura de modo verdadeiro e fiel, e numa comunidade, como em Pentecostes. Pelo fato de no decorrer da história tantos acharem ter descoberto uma novidade na Bíblia é que surgiram e surgem novas comunidades e seitas religiosas.

A fé adquire todo seu sentido quando somos capazes de colocar nossa inteligência e nossas convicções pessoais a serviço dela, na certeza de que é mais verdadeiro o que a comunidade me oferece para a vivência cristã do que a pobreza do “eu acho que”.

Continuando com a Carta de Bento XVI: “O conhecimento da fé introduz na totalidade do mistério salvífico revelado por Deus. Por isso, o assentimento prestado implica que, quando se acredita, se aceita livremente todo o mistério da fé, porque o garantidor da sua verdade é o próprio Deus, que Se revela e permite conhecer o seu mistério de amor” (nr. 10). Nada mais belo para nosso serviço missionário e de caridade do que a unidade de fé que se expressa no amor de irmãos.

José Artulino Besen

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III – A FÉ – O ENCONTRO COM DEUS E INÍCIO DA MISSÃO

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Nós conhecemos a Deus não porque somos mais ou menos inteligentes, porque estudamos pouco ou muito. Conhecemos a Deus porque ele se nos revela, toma a iniciativa de vir ao nosso encontro. E só podemos conhecê-lo na medida em que se deixa conhecer. Toda a Bíblia é história de encontros de Deus com pessoas, com comunidades, com um povo. Noé, Abraão, Jacó, Moisés, os profetas, João Batista, os judeus, os apóstolos iniciaram a missão junto ao povo após terem sentido a presença viva e real de Deus em suas vidas. Tudo foi conseqüência de um encontro, do amor primeiro de Deus. É desse encontro que nasce a fé que gera o amor e se prolonga na missão.

A primeira reação da pessoa que sente Deus em sua vida é a consciência de ser pecador. Ai de mim, estou perdido! Sou um homem de lábios impuros! (Is 6,4). Afasta-te de mim, Senhor, pois sou um homem pecador! (Lc 5,8). O ser humano percebe a distância entre ele e Deus mas, ao mesmo tempo, percebe que é Deus quem lhe vem ao encontro. Sem estardalhaço, o Senhor se manifesta pela Palavra, sacramentos, pela comunidade, pelos rostos sofredores, pelos pequenos acontecimentos diários. Muita gente diz que tem visões, conversas com Deus, Nossa Senhora e os Santos e por isso se sente santa, digna, privilegiada. É um sinal de que apenas se encontrou com sua vaidade pessoal ou com seus desequilíbrios.

Ninguém se aproxima de Deus sem ter a dolorosa consciência de sua condição pecadora. O pecado, porém, não afasta Deus de nós. Certa catequese nos criou uma imagem de Deus semelhante a um quarto de hospital, esterilizado, onde só entra quem está desinfetado. Então, há pessoas que se acham indignas de rezar, de entrar numa igreja, porque Deus as rejeitará, são pecadoras, perderam a fé. Não é assim: Deus vem ao encontro do pecador para tirar-lhe o pecado. Deus ama os que erram, para que sejam libertos do erro. Deus busca os fracos, para torná-los fortes. Muitos judeus se escandalizaram que Jesus vivesse com pecadores como Zaqueu, a adúltera. Achavam que a verdadeira fé criava distância com relação aos mau-comportados. Tinham-se esquecido de que Deus sempre viera ao seu encontro nos momentos de derrota, de pecado, de idolatria, para que retornasse à Aliança. O amor de Deus por nós é o início e o alimento da fé bíblica e cristã, e não nossa suposta dignidade.

A fé conduz à missão

Após o encontro com Deus, na consciência de ser pecador amado por Deus, a pessoa se torna anunciadora do Evangelho. Quem foi amado, luta para que mais pessoas tenham a mesma alegria. Quem foi salvo, quer que todos se salvem. Torna-se propagandista, anunciador, missionário da Salvação. São Paulo, Santo Agostinho, São Francisco consagraram-se à missão após terem sentido em sua vida as maravilhas operadas pelo amor divino.

Cristão envergonhado, acomodado é cristão que não experimentou concretamente a graça em sua existência. Quem, nos caminhos de sua vida, teve a experiência do amor de Cristo, assume para si o chamado feito a Simão Pedro: Não tenhas medo! Doravante serás pescador de homens! (Lc 5,11). Antes, o mesmo Pedro declarara ao Senhor que perguntava aos discípulos se não queriam abandoná-lo: A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! (Jo 6,68).

Como evangelizar? Em primeiro lugar pelo nosso testemunho de vida alegre, fraterna e santa. Não se pode evangelizar vivendo no pessimismo, na amargura, na falta de união. Em segundo lugar, pela palavra propriamente dita: não perder oportunidades de levar Jesus e o Evangelho àqueles com os quais nos encontramos. Viver e anunciar o Evangelho, essa é a grande missão. Ser missionário é necessidade de todos aqueles que amam a Jesus, pois foram tocados pela graça. Fé, conversão, testemunho, anúncio, obras de justiça e caridade, são esses os mais belos frutos do amor de Deus em nós.

Pe. José Artulino Besen

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II – A FÉ – DOM OFERECIDO AO DISCÍPULO

A FÉ - 2 - DOM OFERECIDO AO DISCÍPULO (imagem)

O pecado dos primeiros pais foi a negação da presença e da autoridade de Deus. Quiseram ser “como Deus” e caíram na solidão e na vergonha. Decidido a não perdê-los, Deus foi-lhes ao encontro: “Adão, onde estás?” (Gênesis 3,9). Essa mesma pergunta é feita a cada um de nós a cada dia. Deus nos procura para nos falar e oferecer-nos a salvação, a vida plena. Ao escutarmos a voz de Deus e ao acolhê-la permitimos que nasça e crie espaço em nós o dom da fé. Sim, a fé é sempre dom, graça, nunca merecimento. E a fé se alimenta da fé, da voz de Deus por todo o arco da existência. Ninguém pode dizer “já tenho fé que chega”, pois isso significaria que não tem mais fé, não escuta mais Deus.

Para reforçar a maior importância do escutar do que do falar, o povo diz que Deus nos deu duas orelhas e uma boca. Isso é verdade humanamente, pois amamos quando nos dispomos a escutar nosso próximo. No nascimento e crescimento da fé, porém, podemos dizer que os dois ouvidos são fundamentais, cada um com uma finalidade: um ouvido escuta a voz de Deus em nossa consciência, em sua Palavra revelada, a Sagrada Escritura e o outro, escuta a voz da vida, do mundo, da realidade. As duas vozes crescem juntas e juntas produzem frutos: Deus me fala para que eu ouça a voz do mundo e a vida me fala para que eu a transforme escutando a voz divina.

A fé nasce da audição, diz São Paulo aos Romanos (10,17). Quem não sabe ouvir é incapaz de captar a voz de Deus. A grande crise de fé é, em parte, produto de um mundo e vida egoístas onde temos ouvidos apenas para nós. O mundo do egoísmo é também mundo de descrença. Muitas pessoas até parecem estar buscando a Deus mas, na verdade, estão apenas buscando a si próprias. A fé nos leva à abertura a Deus e à vida e mata em nós todo o egoísmo que herdamos de Adão e Eva.

O Antigo e o Novo Testamentos são um contínuo falar divino: Deus chama Noé, chama Abraão, chama Moisés, chama os reis, chama os profetas. Deus chama o povo continuamente e o chama com infinito amor: Deus fala ao povo como o marido fala à esposa, como o amado chama a amada (veja e beleza amorosa do Cântico dos Cânticos, onde um Deus apaixonado procura o motivo de sua paixão, cada um de nós), Deus chama mesmo que estejamos na prostituição, trocando-o por outros amores, como na história de Oséias. Deus nos chama para falar-nos.

Jesus, Palavra que releva o Pai

E, por fim e para sempre, Deus nos fala por seu próprio Filho, Jesus Cristo. Lemos no Catecismo Católico: “Podemos crer em Jesus Cristo, porque Ele próprio é Deus, o Verbo feito carne: «A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer» (João1, 18). Porque «viu o Pai» (João6, 46), Ele é o único que O conhece e O pode revelar” (CIC 151). Jesus é a Palavra de Deus, o narrador de Deus. Quem o escuta e contempla nos Evangelhos escuta e contempla o próprio Deus, o Pai.

Quando o povo está admirado com a sabedoria de Jesus, alguém grita: “feliz aquela que te gerou” e Jesus corrige: “Antes feliz quem escuta a Palavra de Deus e a põe em prática” (Lucas 8,21), porque esse recebeu e acolheu o dom da fé. Podemos, aqui, lembrar Isabel falando com Maria: “Bem-aventurada és tu, Maria, porque acreditaste” (Lucas 1,45). Quem tem a capacidade de ouvir e crer herdará uma bem-aventurança.

Tendo cumprido sua missão de nos revelar o Pai e de nos oferecer o dom da salvação, Jesus volta ao Pai, confiando-nos a missão de continuar o anúncio e a vivência do Evangelho. Mas, não nos deixa sós, como órfãos, e nos envia o seu Espírito: “O Espírito penetra todas as coisas, até o que há de mais profundo em Deus […]. Ninguém conhece o que há em Deus senão o Espírito de Deus” (1 Coríntios 2, 10-11; CIC 152). E o Espírito nos revela todas as coisas.

Crer é fruto de um encontro, crer é fruto da escuta, do discipulado. Somos discípulos ouvindo nosso Mestre, necessitamos continuamente de invocar a graça de termos o ouvido de um discípulo.

Pe. José Artulino Besen

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I – A FÉ – ATITUDE HUMANA E DIVINA

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Às vezes, nós complicamos a palavra , achamos que ter fé é difícil, ter fé é para quem não estuda, estamos sempre em crise de fé. Colocamos em contraposição as duas palavras: fé e razão, ter fé e compreender, como se elas fossem inimigas. Isso se explica porque preferimos complicar as coisas, pois, ter fé é uma atitude extremamente freqüente em nossa vida. Sem fé nem podemos viver em comunidade. É porque tenho fé que consigo estabelecer relações de amizade, de trabalho e de lazer com as pessoas.

O que é a fé? É crer na palavra de quem me falou porque creio nessa pessoa, digna de minha confiança. Ter fé é ter confiança em alguém e em sua mensagem. Creio no que meus pais me falam porque creio neles, são dignos de meu crédito. Creio numa notícia que meu amigo me transmite porque tenho certeza de que ele me fala a verdade.

A fé tem a ver com confiança, pois a história de quem me falou é uma história verdadeira. Não creio no mentiroso porque sua história tem-se revelado inimiga da verdade.

Também creio na natureza, em seus efeitos, creio num medicamento porque confio no médico, creio no vendedor porque é honesto. Com isso percebemos que toda a nossa existência, para ser pacífica e feliz, necessita de um contínuo crer. Se desconfiar de tudo e de todos, acabo me isolando e ninguém terá fé em mim. Isso é importante: os outros têm fé em mim porque mereço sua confiança, sou leal, tenho sido verdadeiro nas palavras e atitudes. Mão e contramão: creio no outro, o outro crê em mim. Entre nós há uma ligação anterior chamada confiança. É uma atitude humana que brota de nossa vida interior. O ser humano ou é verdadeiro e quer ser verdadeiro, ou não é humano. O diabo é o pai da mentira.

Ter fé, atitude divino-humana

Você poderá dizer: mas, crer em alguém é evidente, pois eu o conheço e o vejo. Fé religiosa é outra coisa, pois entramos no mundo do invisível, daquilo que não se pode comprovar, é um mistério! Mistério é claro que sim, pois tudo o que se refere a Deus é mistério, sai do mundo das coisas e pessoas e entra no mundo da eternidade, mais verdadeiro ainda.

Eu creio em Deus porque Deus é digno de fé. Deus é não só verdadeiro, ele é a Verdade. O Catecismo da Igreja Católica (n. 142) nos oferece uma palavra iluminadora: “Pela sua revelação, ‘Deus invisível, na riqueza do seu amor, fala aos homens como amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele’. A resposta adequada a este convite é a fé”. Deus nos falou primeiro, foi dele a iniciativa de vir ao nosso encontro como amigo a amigos. Ele veio nos dizer quem ele é, quem nós somos e o que quer nos oferecer para termos vida verdadeira. Isso é a revelação, tirar o véu, tornar clara uma notícia que somente Deus poderia nos dar.

Mas, por que termos fé em Deus se não podemos comprovar nem sua existência nem a veracidade de suas palavras? Aqui entramos na confortadora linguagem da fé: eu creio em Deus porque quem me falou dele é digno de fé. De pessoa a pessoa, a Palavra de Deus chegou até mim. E indo de pessoa a pessoa, chego até Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ele falou de Deus, ele me fala de Deus porque o conhece face a face, desde toda a eternidade. De Jesus nos falaram os Apóstolos, de Jesus nos falam as Escrituras.

É Jesus é verdadeiro por uma razão clara: ele morreu e ressuscitou. Foi pela fé na sua vitória sobre a morte que os discípulos passaram a anunciá-lo. Foi porque o tocaram, viram suas chagas gloriosas, com ele comeram e falaram após a ressurreição que acreditaram nele e em suas palavras sobre Deus. Após a ressurreição os discípulos de Emaús caminharam com ele, ouviram-no explicando as Escrituras e creram nele.

E assim, Jesus é digno de confiança e quem nos fala dele também o é. Cremos nele em sua palavra.

Pe. José Artulino Besen

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