Arquivo para categoria Advento e Natal

O NATAL, OU A HUMILDADE DE DEUS

«O povo que andava na escuridão,
viu uma grande luz;
para os que habitavam nas sombras da morte,
uma luz resplandeceu».

(Isaías 9, 1)

O tema de luz perpassa o tempo de Natal e o da Páscoa e é celebrado a cada Batismo. Também nos é lembrado a cada vez que escutamos o próprio Jesus afirmando: «Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8,12). O tema da luz explica a importância das curas de cegos no Evangelho.

Em uma cena do drama «O pai humilhado», de Paul Claudel, uma moça judia, linda, cega, aludindo ao duplo significado da luz, pergunta a seu amigo cristão: «Vós que vedes, que uso fizestes da luz?» É uma pergunta dirigida a todos nós que nos confessamos cristãos. Temos a Luz: o que dela fazemos? O que queremos enxergar com ela?

A nossa dificuldade em dar resposta coerente à judia cega é que usamos mal ou desconhecemos a atitude necessária para fazer bom uso da luz, da Luz. Tentamos o critério do poder, da majestade, do milagre, e a fé se deforma. Optamos pelo critério do julgamento, do medo da justiça divina, e a fé torna-se risível.

O Natal nos aponta uma palavra iluminadora: a HUMILDADE. A humildade de Deus. Nosso Deus é humilde. Se tivermos dificuldade em admitir essa verdade contida em todas as Escrituras, o Cristianismo perde o sentido e até a razão de ser. Os maiores críticos da revelação cristã apontam exatamente a incoerência de um Deus todo-poderoso mas que é frágil, impotente. Nessa fragilidade, porém, é que reside a força e a potência do Deus Trindade. A manjedoura de Belém e a Cruz do Calvário são os sinais mais poderosos da humildade divina.

Deus pede hospedagem a Abraão, suplica a Moisés que liberte seu povo – um povo de escravos no Egito, pede a profetas frágeis que desarmados falem a reis, sofre por ser traído em seu amor esponsal, quer ter uma mãe, escolhida entre jovens da insignificante Nazaré. Os anjos cantam Glórias, mas o Filho tem de fugir para o Egito e, no retorno, a vida silenciosa de 30 anos.

A humildade de nosso Deus se revela na figura do Pai sofrido que espera o filho pródigo, do Filho que aceita ser manifestado como manso Cordeiro, pequeno Pão consagrado, do Espírito Santo simbolizado na carinhosa pombinha.

O Deus humilde chega até nós, mas não nos substitui, pois não quer que nos sintamos incapazes. Refuta o milagre triunfal que nos deixaria amorfos, submetidos ao fatalismo da história.

Deus pede licença para nos perdoar: é o Espírito que geme em nós para que reconheçamos nossa condição e o faz tão delicadamente que na distração da vida não o percebemos.

A humildade de Deus é tão clara que somente podemos vê-lo (sim, ele pode ser contemplado) no faminto, no doente, preso, desabrigado, sedento, doente, nu. O Deus humilde não nos julga pelo que lhe tenhamos feito, mas pelo que fizemos ou não a seus filhos e, dentre esses, os mais insignificantes.

O verdadeiro povo do Deus verdadeiro é o povo humilde, que invoca o Bom Jesus, o Bom Deus. É o povo nunca culpando o pobre Deus por nada. Eles, que são pobres, reconhecem a pobreza de Deus e, por isso, ao pedirem uma graça, até lhe oferecem algum voto ou retribuição. Para eles a Bíblia é Palavra de Deus que lhes é dirigida, não um problema intelectual. Os sábios dizem: isso é fundamentalismo!

Na cena memorável do romance Os Irmãos Karamazov, Dostoievski coloca Jesus sendo julgado e condenado pelo Inquisidor de Sevilha porque rejeitou o poder, a fama, o milagre. Por que rejeitar o milagre tendo poder para fazê-lo?  E o humilde Jesus nada responde, porque Deus Pai não quer ser temido e ter o mundo facilitado pelo poder dos milagres. Ele quer agir e deixar agir pela única força que os humildes possuem e que é a única força divina: o amor. O amor é o ato perfeito dos humildes, que nada pedem em troca, que agem silenciosamente, que não pensam em si.

Nosso Deus é humilde porque é Amor. Sempre será desprezado pelos soberbos e pelos cristãos ciosos de um lugar de prestígio no mundo religioso.

Os pastores acreditaram no anúncio de anjos e adoraram o Menino. Os Reis vieram do Oriente e adoraram o Deus Menino no menino Deus. Aceitemos a fragilidade de Deus para sermos fortes no amor.

Pe. José Artulino Besen

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SANTA MARIA DE NAZARÉ

Detalhe de um ícone russo do século XVI do Nascimento da Virgem

Detalhe de um ícone russo do século XVI do “Nascimento da Virgem”

O Ocidente inicia o Ano cristão com o Advento/Natal e o conclui com a festa de Cristo Rei: seu centro e plenitude é o Senhor. Já o Oriente prefere situá-lo partindo de uma criatura exemplar, a Virgem Maria: inicia o Ano cristão com a Natividade de Maria (8 de setembro) e o conclui com sua Assunção ao Céu (15 de agosto). Um caminho diverso para viver o mesmo mistério da salvação.

Quando afirmamos que «Deus é amor» estamos também afirmando que «Deus é liberdade», pois no amor nada pode ser coação. Só seres livres amam de verdade. Ao criar o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, Deus os criou livres. Esse gesto amoroso levou os primeiros pais a confundirem liberdade com negação do amor: e perderam os dois, mergulhando na experiência do pecado, que é viver amando sem liberdade (egoísmo) e sendo livres sem amor (opressão). Caim mata Abel, inaugurando o fratricídio: o outro é concorrente, não irmão. A Torre de Babel simboliza o orgulho humano de sem Deus construir a civilização, desafiando-o frontalmente: o progresso passa a ser fonte de soberba e a arte deixa de ser cultual para ser apenas cultural.

O amor de Deus não é derrotado frente a uma história de rejeições: sempre sobra um «resto» capaz de amor, capaz de eleição. A linguagem dos Profetas consola a humanidade decaída com os «restos» fiéis que fazem renascê-la. Na Primeira Aliança, esse resto gerou Abraão, o Pai dos Crentes, capaz de ouvir, como discípulo, a voz de Deus. No dia em que Abraão aceitou oferecer em sacrifício de amor seu filho Isaac, Deus viu que o tempo estava maduro para a humanidade aceitar a Salvação: se um homem livremente lhe oferece o filho, o Deus Trindade pode oferecer o Filho aos homens. Na liberdade do amor, o Filho aceita a vontade do Pai e vem habitar entre nós. A encarnação do Filho estava no plano eterno de Deus: unir a natureza divina com a humana, tornando-se Deus-homem.

Era preciso, porém, mais um gesto livre de amor: aceitar ser Mãe do Filho, que dela necessita para assumir a humanidade. É o mistério da humildade divina: pedir a uma criatura sua a doação da natureza humana para sua Palavra eterna.

Deus Amor não provoca com gestos brutais, de força: ele é amor-silêncio, amor-esperança. No «resto» do Povo da eleição, silenciosamente escolheu Maria de Nazaré, a filha de Joaquim e Ana. Somente Maria, sem pecado, seria capaz de uma resposta total e livre. Tudo o que Deus esperava do ser humano – o sim no amor – Maria realizou ao responder «Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra». Ao ouvir esse sim, o Espírito Santo ocupou todos os espaços de Maria e a tornou toda Santa. A Virgem de Nazaré abria sua carne para acolher o Filho divino e oferecer-lhe a natureza humana, tornando-se Mãe de Deus em sentido pleno. Seus antepassados tinham recebido espiritualmente a Palavra de Deus através dos patriarcas e profetas: Maria recebe corporalmente a própria Palavra, o Verbo que se faz Carne.

Naquele dia, em Nazaré da Galiléia, uma Virgem tornou-se habitação de todo o plano divino. Nela encontrou moradia o mistério da salvação. O Deus bíblico encontrou um corpo, o corpo de Jesus de Nazaré. Agora o corpo é patrimônio comum de Deus e do homem e templo vivo do encontro entre os dois. A Igreja afirma, com São João Damasceno, que «o nome de Mãe de Deus – Theotókos – contém toda a história do plano divino no mundo». Ela é filha da santidade gerada na Primeira Aliança, Mãe do Verbo e esposa do novo Israel.

No mesmo tempo, o seio estéril de Isabel gerava João Batista, o eleito para preparar os caminhos do Senhor. Nazaré oferecia a esposa de Israel/Igreja e Ain Karim oferecia o amigo do Esposo. Maria é o silêncio que encarna a Salvação; João Batista é a voz que grita apresentando Aquele que tira o pecado do mundo.

Desde toda a eternidade o Deus Trindade preparou e esperou esse momento misteriosamente guardado em Maria, a Arca da Aliança, a Porta do Céu, a Estrela da Manhã, a Torre de Marfim. Em seu silêncio, Maria guarda todas essas coisas, todas as maravilhas que vão se revelando ao longo da história da Última Aliança. Até a consumação dos tempos, quando seu Filho será tudo em todos.

Pe. José Artulino Besen

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«O Natal – a Treva Luminosa de Deus»

«Procurai o Senhor com simplicidade de coração,
porque ele se deixa encontrar por aqueles que não o tentam,
ele se revela a quem não recusa ter fé nele» (Sab 1,1-2).

Tentar o Senhor é exigir prova de sua existência, é duvidar da sinceridade de sua Palavra. Assim como nós abrimos nosso coração a quem em nós confia, Deus abre os tesouros de seu amor a quem se lhe entrega pela fé.

Os homens exigem provas, mas as provas ferem a verdade e o Senhor as recusa. Deus se encerra no seu amor sofredor (P. Evdokimov). Amor sofredor: bela expressão a indicar o quanto Deus Pai sofre por causa de nossas dúvidas de filhos torturando-se por provas científicas, como se Ele fosse um dado a ser destrinchado por fórmulas racionais!

Toda a Escritura nos fala de Deus e Deus abre inteiramente seu amor por nós através da Palavra: é a criação, é o Povo eleito, são os profetas, é seu Filho! Sim, seu Filho, Palavra do Pai, foi-nos entregue para restabelecer a comunhão divino-humana. Apesar de tanta prova de presença, continuamos a procurá-lo longe dele, sempre onde ele não se encontra: na vaidade-vacuidade das aparências.

Após o Pentecostes Deus Pai fala apenas através do sopro do Espírito, sofrendo um «louco amor» por respeito à liberdade da consciência humana. Ele gostaria de nos falar diretamente, mas estaria ultrapassando o limite de nossa liberdade.

O ateu diz: «Se Deus existe, o homem não é livre». Já pela Bíblia concluímos: «Se o homem existe, Deus não é mais livre». Deus pode tudo, menos obrigar o homem a amá-lo. O homem pode dizer «não» a Deus, mas Deus, não: Ele pode apenas dizer «sim» (2Cor 1,19), o sim da Aliança, ecoado eternamente por Cristo na Cruz. Sua palavra de amor não tem retorno, mas nossa palavra de negação é sem limites. E o Pai sofre, e com ele o Filho e o Espírito, o Deus Comunhão.

Mas não se cansa em seus jogos de amor. Permite que mergulhemos nas trevas, e se apressa em converter as trevas em luz. Pedimos provas de seu amor, e ele se recolhe, pois a ofensa é demais a quem tanto ama. Às vezes até se diverte com os sisudos doutores procurando ingressar nos espaços quase infinitos do cosmos, estabelecendo leis e calculando datas em bilhões de anos; ele se diverte desafiando-os a outro espaço quase infinito: mergulhar na vastidão incomensurável de um átomo. Podem cometer todas as experiências, para depois ouvirem no silêncio da eternidade o «Faça-se a Luz». E verão as trevas desmanchadas pela profunda luminosidade da fé-amor.

O homem é um homem miserável, mas há alguém mais miserável ainda: Deus, esse mendicante de amor, à porta de seu coração. Ele bate à porta e espera. Se o homem abrir ele entra e apaga toda dívida (cf. Apoc 3,10). Foi contemplando seu Filho que o Pai nos criou, e quanto arde em poder narrar-nos toda essa história de amor. Decidiu que não pode obrigar-nos a ouvi-lo e, como um miserável, bate à porta delicadamente, sofrendo fome para dar amor aos filhos.

Ingressamos no tempo do Natal: a Palavra de Deus se faz Menino, frágil criança a espera que o procuremos e o sustentemos ao colo. Então esse menino restabelecerá nossa comunhão com o Pai. Por serem simples, viverem encantados com suas ovelhas e as estrelas nas noites de Belém, os pastores ouviram anjos, foram revestidos de luminosidade, viram e adoraram o Menino.

As crianças gostam de brincar de se esconder para serem procuradas. Escondem-se deixando-se à mostra para que alguém as procure e grite de alegria por encontrá-las. E elas gritarão de prazer porque foram procuradas e encontradas.

Deus aprendeu com elas: faz-se criança, brincando para ver quem sente falta dele. Ele se esconde, para que nós o procuremos. No mistério do Natal é quase impossível não encontrá-lo: basta procurá-lo. Após o encontro, o Deus Menino migra para dentro de nossa alma e faz-nos emigrar para junto dele (cf. São João Damasceno, Sermão 90).

Pe. José Artulino Besen

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NO NATAL O DIVINO PENETRA TODA A CRIAÇÃO

«Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens!» (Lc 2,14).

Natividade do Senhor

Natividade do Senhor

Pela primeira vez na história, o céu vem à terra para trazer uma notícia humana e divina. São os anjos que vêm anunciar aos pastores que na manjedoura jazia um menino, o Cristo Senhor. Os repórteres celestes fazem reportagem na terra! Tem início uma comunhão misteriosa, cuja finalidade é reiniciar o diálogo entre o céu e a terra, entre Deus e o homem, interrompido pelo pecado. O ser humano tem agora a possibilidade real de superar o limite do tempo e do espaço e entrar na vida divina, onde nada tem fim, onde tudo é participação-comunhão no eterno. Agora o céu é o templo dos homens e a terra, o templo de Deus.

“O Verbo se fez carne e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória” (Jo 1,1-14).

O mistério do Natal envolve toda a criação num novo processo: a instauração do reino de Deus, toda a riqueza da criação ser penetrada pelo divino. A encarnação do Filho concretiza uma nova Aliança, a Igreja, da qual ele é a Cabeça: é a história da salvação cristã.

Em momentos de dúvida podemos ser vítimas do pessimismo: Cristo veio, tanto já se trabalhou, tantos mártires e santos, e o reino não caminha! O mundo antigo parece vencer a batalha. Mas, é de Deus a palavra verdadeira e final. Cristo é e será o vencedor. Um dos nossos problemas é achar que o arco da história está se completando, que os tempos estão terminando.

É bom citar aqui João XXIII, o Papa Bom: “Quem conhece a história sabe que lentamente, lentamente a nossa Igreja se purificou. Daremos outros passos. Temos ainda muitos séculos diante de nós”. E em outras palavras, a Igreja ainda é uma criança. Sabe bastante e acaba achando que já sabe o suficiente. Mas precisa aprender a viver, a testemunhar a presença do Espírito. Dois mil anos são apenas o começo. Criamos estruturas para exaltar o triunfo de Cristo, e ficamos preocupados em alterá-las, suprimi-las, para que resplandeça a glória do Senhor no ser vivo.

Os cristãos sabem que o amor é o centro da mensagem do Menino: mas jogam bombas para destruir o Afeganistão. Sabemos que a criação é divina: caprichamos em destruí-la. Todos somos irmãos: na prática, muito pouco. Estamos aprendendo. Num mundo de morte, somente a Igreja tem uma palavra de vida definitiva: precisa centrar-se nessa missão.

Devemos ser modestos em nossa arte pastoral. Afinal, o Espírito paira sobre o universo e inspira a criatividade trinitária, é cheio de novidades. Deus é Mãe: as mães são fecundas por definição e vivem preparando surpresas para seus filhos. Estejamos atentos a essa surpresas divinas. A evangelização apenas começou.

A Palavra do Papa:

Maria Santíssima Mãe de Deus e Recitação do «Te Deum»

No final de um ano, que para a Igreja e para o mundo foi riquíssimo de acontecimentos, ao lembrar do mandamento do Apóstolo: “Caminhai… firmes na fé… transbordando em ações de graças” (Cl 2, 6-7), esta noite encontramo-nos juntos para elevar um hino de agradecimento a Deus, Senhor do tempo e da história. Sim, é nosso dever, mais do que uma necessidade do coração, louvar e agradecer Àquele que, eterno, nos acompanha no tempo sem jamais nos abandonar e vigia sempre sobre a humanidade com a fidelidade do seu amor misericordioso.

Portanto, podemos dizer que a Igreja vive para louvar e agradecer a Deus. Esta mesma “ação de graças”, ao longo dos séculos, é testemunha fiel de um amor que não morre, de um amor que envolve os homens de qualquer raça e cultura, disseminando de modo fecundo princípios de verdadeira vida. Como recorda o Concílio Vaticano II, “a Igreja simultaneamente ora e trabalha para que toda a humanidade se transforme em povo de Deus, Corpo do Senhor e templo do Espírito Santo e, em Cristo, cabeça de todos, se dê ao Pai e Criador de todas as coisas toda a honra e toda a glória” (LG, 17). Sustentada pelo Espírito Santo, ela “prossegue a sua peregrinação entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus (Santo Agostinho, De Civitate Dei, XVIII, 51, 2), haurindo força da ajuda do Senhor. Deste modo, com paciência e com amor, supera “as aflições e dificuldades internas e externas”, e revela “fielmente ao mundo, mesmo que sob a sombra dos sinais, o mistério do seu Senhor, até ao dia em que finalmente resplandecerá na plenitude da luz” (LG, 8). A Igreja vive de Cristo e com Cristo. Ele oferece-lhe o seu amor esponsal, guiando-a ao longo dos séculos; e ela, com a plenitude dos seus dons, acompanha o caminho do homem, para que aqueles que acolhem Cristo tenham vida e a tenham em abundância. […]

No início desta celebração, iluminados pela Palavra de Deus, cantamos juntos com fé o “Te Deum”. São muitos os motivos que tornam intensa a nossa ação de graças, fazendo dela uma oração coral. Enquanto consideramos os múltiplos acontecimentos que assinalaram o decurso dos meses neste ano que se está a concluir, quero lembrar de modo especial quem se encontra em dificuldade: as pessoas mais pobres e abandonadas, quantos perderam a esperança num fundado sentido da própria existência, ou são vítimas involuntárias de interesses egoístas, sem que se lhes peça a adesão ou opinião. Fazendo nossos os seus sofrimentos, confiemos-las a Deus, que sabe dirigir todas as coisas para o bem; a Ele entreguemos a nossa aspiração para que cada pessoa seja acolhida na própria dignidade de filho de Deus. Ao Senhor da vida peçamos para aliviar com a sua graça as penas provocadas pelo mal e para continuar a dar vigor à nossa existência terrena, doando-nos o Pão e o Vinho da salvação, para sustentar o nosso caminho rumo à pátria do Céu.

Ao despedirmo-nos do ano que se encerra e encaminharmo-nos para o novo, a liturgia destas primeiras Vésperas introduz-nos na festa de Maria, Mãe de Deus, Theotókos. A oito dias do nascimento de Jesus, celebramos Aquela que “quando chegou a plenitude do tempo” (Gl 4, 4) foi escolhida por Deus para ser a Mãe do Salvador. Mãe é quem dá a vida, mas também quem ajuda e ensina a viver. Maria é Mãe, Mãe de Jesus, a quem deu o seu sangue, o seu corpo. E é ela que nos apresenta o Verbo eterno do Pai, que veio habitar no meio de nós. Peçamos a Maria que interceda por nós. A sua materna proteção nos acompanhe hoje e sempre, para que Cristo nos acolha um dia na sua glória, na assembléia dos Santos: Aeterna fac cum sanctis tuis in gloria numerari. Amém!

(Homilia do PAPA BENTO XVI, Sábado, 31 de Dezembro de 2005)

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APÓS TANTOS NATAIS…

Diante do mistério do Filho eterno de Deus que se encarna no seio de Maria e vem habitar no meio de nós, diante de Deus que decide fazer a experiência da vida humana na Palestina, por causa do ser humano e do mundo, só nos resta a atitude da adoração e do louvor. Na gruta de Belém, a humanidade se defronta com uma realidade inimaginável e impenetrável a qualquer reflexão humana: o Menino ladeado por Maria, José, os pastores e animais, na sua simplicidade e pobreza oculta uma pessoa divina. Dois mil anos são muito pouco para meditar este mistério do amor de Deus e são muito pouco para colocar em ação a graça irradiada a partir de Belém. O acontecimento em Belém de Judá dividiu a história e se insere no âmbito do eterno: não é mais possível uma compreensão real da história e do cosmos sem o evento Cristo. Em Belém nasce e desemboca o sentido da história.

Podemos e devemos ir adiante: Jesus é o sentido último e único da história cósmica e humana. Sem ele não há história, apenas ruínas de uma sucessão de fatos que surgem, parecem definitivos, e se convertem em lixo. Com ele, “o povo que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9, 1). Sem Jesus não há fonte donde jorre o sentido da existência e se cai perigosamente naquilo que é o orgulho de uma cultura sem luz: mergulhar numa noite em que tudo é igualmente bom e tudo é igualmente indiferente. Ele é uma resposta/proposta para o sentido de nossa existência, e permite discernir entre guerra e paz, invasão e libertação, carrasco e vítima, homem e mulher, lei e violência, vitória e derrota, razão e loucura, mestre e discípulo, fé e superstição, arte e charlatanismo, ciência e ignorância. Cristo Luz é Cristo Vida, é Cristo Verdade e é Cristo Caminho (cf. Jo 14,6). Tudo isso porque sua vida nos revela e descreve a vida de Deus Pai.

Sem ele acabaremos seduzidos pela proposta do poeta francês Baudelaire, ícone da cultura moderna: teremos a escolha de sermos ou amantes das prostitutas ou amante das nuvens. Em outras palavras: escolheremos a satisfação imediata em tudo (e tudo se torna descartável) ou nos perderemos na imaginação ociosa (e nos tornamos descartáveis). É a tragédia em que tudo é igual, dependendo do uso que dele fizermos, e tudo perde o valor, inclusive a existência. O prazer a qualquer custo e as drogas alienantes são divindades no altar desta escolha de vida.

O Menino que nasce em Belém de Judá nos enche de alegria e ensina a cantar: “Ó Senhor, vós sois meu Pai, sois meu Deus, sois meu Rochedo onde encontro a salvação!” (Sl 88,27). E a fé no Menino Deus nos conduz a pôr as graças em ação. Além do desafio da salvação humana, intrínseco à fé cristã, hoje nos defrontamos com um outro: o da salvação da criação. Após séculos de devastações, agressões ao meio-ambiente, de consumismo e desperdício acelerados nas últimas décadas, o mundo já era. É preciso correr atrás do prejuízo para que o ser humano salvo tenha onde morar e viver. Para um cristão isso é essencial, pois ele professa a fé no Deus criador. Por um engano, com raízes filosóficas e religiosas, o ser humano confundiu seu serviço à criação com o domínio da criação. Deu no que deu, pois os recursos naturais não são inesgotáveis. É impressionante como agora estamos vendo os frutos de nossa blasfêmia contra o Criador: rios e lagos poluídos, matas devastadas, buraco na camada de ozônio, espécies em extinção e os lixões – essas cloacas da vida moderna – desafiando a administração pública. A natureza é generosa e oferece uma oportunidade a cada um de nós, e para os cristãos isso é compromisso. A teologia não pode estar separada da ecologia. A natureza é a primeira tenda de Deus entre nós.

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«VEM, SENHOR JESUS!»

O Juízo Final

O Juízo Final

E Deus disse: “Que seja a luz”! E a luz veio a ser (Gn 1,3). Foi esta a primeira palavra e a primeira ação de Deus ao criar o tempo e o espaço. O caos e a escuridão são o nada, e a luz inaugurou a história na qual o homem e a mulher foram situados pelo Criador. O pecado enfraqueceu, mas não destruiu nossa capacidade de visão e de criação. Por isso mesmo, para ser sentido, Deus se revela precedido pelo fogo, pela luz. É a sarsa ardente do Horeb, a coluna de fogo no deserto, é o fogo que ilumina os profetas, é a luz que faz brilhar a noite de Natal, é a Luz tabórica que preanuncia a ressurreição, é a Luz da Vigília pascal, são as línguas de fogo em Pentecostes, é a Eucaristia que nos transforma em seres luminosos pela presença em nosso ser daquele que é a Luz.

Os povos do Norte celebram, no Advento, a chegada da luz que inicia a caminhada que tornará sempre mais longos os dias. Os povos do Sul, nós, colocamos o Advento na preparação do dia mais esplendoroso do sol, o Natal, quando tem início o encurtamento dos dias. Para eles é a partida, para nós é a chegada. Não importa: o que conta é que a Luz brilha e dá claridade à nossa existência.

E a luz veio a ser

Assim também é cada dia: A vida luminosa triunfa… [a lua] não se esconde sem antes ter misturados seus raios com os raios do sol, de modo que uma única luz se prolongue sem solução de continuidade, através do ciclo completo do dia e da noite, jamais vencendo a escuridão (Cirilo de Jerusalém, Catequese 14,10).

Deus permite que a lua seja símbolo de nossa existência, sendo ele o Sol. Deus não quer que o sol nasça sem receber um pouco da claridade da lua, nem que a lua surja sem embebedar-se da claridade solar. Se nos desligamos do Senhor, a trevas primitivas retomarão nossa história. Pensaremos estar num mundo de luz quando, na verdade, estamos cegos e por isso achamos que construímos novas luzes. A soberba humana, que não aceita receber sua luz do Sol, constrói reinos de trevas, de dor, de miséria e opressão, a tudo isso dando o nome de liberdade, obra da inteligência autônoma.

O tempo do Advento é um pedido de luz dolorido/esperançoso quanto o do sedento em busca de água. É a súplica da humanidade afundando-se no caos, mas recebendo o imenso dom de escutar, novamente, a Palavra primordial: “Que seja a luz!”

Vem, Senhor Jesus!

Vem, Senhor Jesus! Maraná Thá! (Apoc 22,20). Na Trindade coube ao Filho declarar: “Eu sou a Luz do mundo. Quem me segue não anda nas trevas” (Jo 8, 12). Desde a explosão inicial que deu origem ao cosmos, a história caminha em busca de luz. Todas as coisas gemem para serem reintegradas naquele que lhes deu existência. Reintegradas na comunhão e não no aniquilamento. A palavra criadora chama para a plenificação e não para o nada.

A Liturgia da Igreja é pedido e recebimento de Luz, é memória do Monte Tabor, realização da transfiguração de todos na Luz de Cristo. E então cada um de nós verá o outro como realmente é, filho de Deus, sendo-nos possível ir além das aparências. Nossa luminosidade possibilitará que os outros nos vejam em nossa verdade. E a Luz do Senhor permitirá, a cada um de nós, reconhecermos quem somos, o amor infinito do Deus Trindade por cada um de nós, Amor que quer explodir porque eternamente contido e ainda rejeitado. A explosão da Luz em Belém e em Jerusalém são nossa imersão na luz batismal e nossa emersão para a Luz eterna, o eterno convívio.

Em cada Liturgia a comunidade exclama no momento de maior mistério, após a narração das palavras da Ceia: “Vem, Senhor Jesus!”

Tudo é muito bom, damos o máximo de nós para que tudo seja melhor. O Senhor vê nosso esforço, se alegra com nossas vitórias, tem paciência com nosso aprendizado. Mas, falta a presença do Senhor. A cada dia, milhões de pessoas imploram: Maraná Thá! Vem, Senhor Jesus!

O Advento é a espera do Senhor que vem no Natal. É, da mesma forma, o pedido para que o Senhor retorne, como prometeu e como expressamos em nosso Creio: E de novo há de vir em sua glória!

Jesus mesmo nos ensinou a pedir: Venha a nós o vosso Reino! Ele virá cheio de glória e nela nos mergulhará. O Verbo de Deus, Cristo, unindo-se à nossa natureza faz com que ela seja deificada da mesma forma que aconteceu com sua natureza humana, na morada trinitária (cf. Gregório de Nissa, Carta a Teófilo).

As crianças são as mais felizes no Natal: elas são capazes de esperar o melhor, as surpresas do amor. Venha o Senhor também a nós, para arrancar-nos as cascas que impedem nosso renascimento para a Luz, nossa manifestação como seus filhos no Filho.

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EPIFANIA DO SENHOR – A UNIDADE DA FAMÍLIA HUMANA

Visita dos Magos

Visita dos Magos

A festa da Epifania do Senhor, de sua manifestação ao mundo, é expressa pela visita dos Magos que vêm do Oriente (Mt 2, 1-12). As narrativas dos primeiros séculos do cristianismo procuram ensinar, através de legendas, a universalidade da salvação e a realeza do Menino de Belém. Para São João Crisóstomo, “as faixas e a manjedoura proclamam com força a humanidade de Cristo, enquanto que as homenagens que lhe são prestadas provam sua divindade”. Belém é a terra dos escondimento e da revelação, é a terra dos pastores e a terra visitada pelos sábios.

A salvação oferecida a todos

Uma narração armena, de origem síria (pelo ano de 590), cria o encontro dos três reis de nações que simbolizavam o poder e o saber, em Jerusalém: Melquior rei da Pérsia, Baltasar rei da Índia e Gaspar rei da Arábia. Eram sábios que procuravam nos astros o sinal do Messias esperado. O povo judeu esperava-o lendo as Escrituras, os pagãos, a natureza. Os Pais da Igreja gostavam de falar das “visitas do Verbo” antes de sua vinda plena: “O Verbo de Deus jamais deixou de estar presente na raça humana”, afirma Irineu de Lião.

Deus não privou nenhum povo da promessa da salvação e da expectativa de um Salvador: “O Senhor me disse: Não basta seres meu servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os remanescentes de Israel: eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6). Contrariando o exclusivismo judeu, Paulo fala do mistério revelado: “Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” ( Ef 3, 6).

É esta epifania de Jesus como o Salvador de todos os povos que a Igreja celebra em 6 de janeiro: os pagãos glorificam a Deus, em razão da sua misericórdia (Rm 15,8.9).

Os Magos vão a Jerusalém, sede da Palavra, das Escrituras, do Templo. Os Doutores ali instalados sabem responder de modo exato onde nasceria o Messias: eram especialistas em Bíblia. Mas uma nuvem escura impedia-lhes enxergar além do texto profético lido de acordo com seus interesses de domínio. Já entre os Magos e os astros se interpunha a nuvem luminosa que conduziu o povo pelo deserto. O Templo tornara-se opaco, o deserto percorrrido pelos Magos, translúcido. Quando se busca a salvação – mas sem querer encontrá-la – tudo é treva e ficamos felizes em poder dizer: Nada encontramos!

A Verdade se manifesta aos que a procuram

Iluminados pelas Escrituras e pela natureza, os Reis Magos seguem para Belém.. “Os sábios observadores dos astros eram conduzidos a Ti como primícias das nações” (Lit. oriental, 4a Ode). Ao encontrarem o Menino e sua Mãe não fazem perguntas, não tremem de desilusão: prostram-se por terra e o adoram. São os primeiros pagãos a receberem a graça de adorarem o Messias. O menino inerme no colo da Maria dava início à sua obra salvífica universal. “A tua natividade, ó Cristo nosso Deus, fez resplandecer no mundo a luz do conhecimento; é por ele que os adoradores dos astros aprendem de uma estrela a adorar-te” (Stiquirá de Cassia).

O menino-Deus inicia sua obra missionária: convocando os magos do Oriente, começa a reunir os povos, a dar unidade à grande família humana. A fé em Jesus derrubará as barreiras entre os homens e fará com que todos se sintam filhos de Deus e irmãos redimidos. Toda guerra religiosa pela posse do menino-Messias é atéia, porque nega a universalidade da salvação. Se o menino-Deus vem também para os pagãos, por que não viria para as diferentes Igrejas cristãs? Acaso alguém pode tomá-lo do colo de Maria e, apertando-o contra o peito, dizer: “Eu te conheço; tu és meu!”? Somente o Pai de Jesus pode declarar: “Eu, o Senhor,… te formei e te constituí como o centro da aliança do povo, luz das nações” (Is 42, 6). Somos todos adoradores, mendicantes da verdade insondável que brotou em Belém.

A unidade fundamental da família humana

Os magos simbolizam os sacerdotes, os filósofos, os sábios, todos os servidores da cultura. O Espírito lhes ensina a cantar os louvores da Deus (P. Evdokimov).

Entre as orientações mais importantes e significativas do Vaticano II está o apelo à unidade fundamental da família humana (cf. GS 24; 26; 27). Retomando o tema paulino, o Concílio nos ensina que não há judeu nem pagão, nem escravo nem livre, nem branco nem negro, mas todos somos membros de uma mesma família, humano/divina. Deus é Pai dos cristãos e o é também dos budistas, dos hindus, dos muçulmanos, dos crentes e ateus. Ninguém pode sofrer violência em sua dignidade pessoal: somos todos parentes entre nós e parentes de Deus, em Cristo: “…nele vivemos, nos movemos e somos. … Somos de sua raça” (At 17,28).

É este o sentido mais profundo da festa da Epifania: Deus quer salvar a todos.

Não aconteça conosco, cristãos, o acontecido em Jerusalém: os doutores da Lei sabiam tudo sobre o Messias, mas não queriam um Messias. Queriam manipular o poder religioso em função de interesses humanos.

Encerremos essa meditação com o hino de São Germano de Constantinopla (+ 733):

“Ao nascer de Jesus em Belém de Judá,
os Magos, chegados do Oriente, adoraram o Deus encarnado
e, abertos diligentemente seus tesouros,
lhe ofereceram dons preciosos:
ouro puro como ao Rei dos séculos,
incenso como ao Deus do universo,
e mirra a ele, o Imortal, como a um morto no terceiro dia”.

Maria, Estrela que nos anuncia o Sol, contempla o Evangelho da Salvação. Mãe, ela deixa de olhar o Menino e nos acolhe a todos e reconhece em cada um de nós o nascimento de um filho seu.

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O NATAL – PEDAGOGIA DO ABISMO

Natividade do Senhor

Natividade do Senhor

“Ah, se rasgasses os céus e descesses!”, suplicava, em nome do povo, o profeta Isaías (63, 19); e, em Maria, Deus concretizou essa oração: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (Lc 1,35). “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória” (Jo 1,14). Penetrando no mistério, proclamamos com a primeira comunidade cristã que “Jesus Cristo, de condição divina […] se rebaixou, tornando-se obediente até a morte e morte numa cruz” (cf. Fl 3,6-11).

O Natal é a festa da descida, da demolição do muro que isolava a terra do céu, é a suspensão da proibição de nos aproximarmos da árvore da vida, é a reconstrução da ponte entre Deus e o homem. Isso foi possível porque o Filho eterno de Deus assumiu tudo aquilo que o pecado produziu, para destruí-lo em sua divino-humanidade. Foi redimido o que foi assumido e tudo foi assumido no Verbo feito carne habitando entre nós.

Belém é páscoa: Deus se faz menino envolto em faixas e é depositado numa gruta escura; Jerusalém é páscoa: Deus envolto em faixas é depositado numa gruta escura. Entre a Luz de Belém e a Luz de Jerusalém situa-se a escuridão do não-sentido, do olhar transformado em órgão cegado pelas trevas. Belém e Jerusalém estão nas trevas: mas a luz explode para os anjos e pastores, explode para as mulheres e apóstolos. Através dessa luz que mata as trevas conseguimos de novo contemplar a glória divina, que estava entre nós: “Ele estava no mundo … e o mundo não o conheceu” (cf. Jo 1,10). Na gruta de Belém está o Deus menino, gerado no ventre da Virgem que permanece virgem para assim quebrar a cadeia da morte que vinha desde Eva. A humanidade pode agora nascer livre da escravidão das trevas da morte.

A perigosa pedagogia do abismo

A Igreja é o Menino de Belém envolto em faixas e é o Senhor de Jerusalém envolto em faixas. Ela é a carne tenra de um recém-nascido e é a carne machucada de um torturado: ela é o Corpo do Senhor.

O Natal quebra todas as formulações lógicas da sabedoria humana, pois é radical sabedoria divina: o Filho eterno gerado do Pai sem mãe, nasce de uma Mãe sem ter pai! A Virgem, criatura, gera o seu Criador! Aquele cuja natureza humana vem do pó da terra é o Senhor de toda a criação, a eternidade e o tempo se abraçam. Nesse intercâmbio entre a grandeza humana e a pequenez divina reconstrói-se o paraíso: Deus retoma o que é seu e nós retomamos o que é nosso: o divino e o humano entram em comunhão.

Cristo desceu ao mais profundo dos abismos, vindo habitar entre nós. Essa é a missão da Igreja que é convidada a assumir a “perigosa pedagogia do abismo”, na expressão do poeta francês León Bloy (+1917), convertido e místico que passava os dias mergulhado no êxtase e na miséria, alternando a prece angelical com horríveis blasfêmias, que se autodenominava “empresário de demolições” e que fez desabrochar a fé em tantos que nada sabiam de Jesus.

A pedagogia do abismo significa para a Igreja ir a Belém e lá tomar as ofertas dos magos: o ouro para distribuir aos pobres, o incenso para tirar do mundo o mau cheiro do egoísmo e a mirra para anunciar que Deus se fez homem-menino, frágil, para que o acolhamos sem medo. Ninguém contemple o menino-Deus e deixe passar a oportunidade de levá-lo para sua casa e criá-lo com muito carinho.

A Igreja Corpo de Cristo é compelida a descer às profundezas onde estão-se escondendo os homens e mulheres de hoje: no inferno das drogas, do erotismo, do terrorismo, da loucura, do consumismo, da injustiça. Tocar o corpo tenro de tantos que foram banhados pela água do batismo, mas que agora estão dilacerados pelo não-sentido da vida, em carne viva, esfolados pela ilusão de uma vida que não ultrapassa os poucos dias terrenos.

A Igreja se faz criança

O Filho de Deus feito criança é depositado numa gruta escura para transfigurá-la em luz. A Igreja também é depositada na gruta escura que é o mundo onde Deus foi suprimido. Como criança, ela não fala, mas atira-se no abismo da morte com o Espírito que dá a vida, de modo que o povo que anda nas trevas possa ver uma grande luz: ver, antes de ouvir. A Igreja é o recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura que é achado pelos sofredores da história (cf. Lc 2,12): este é um sinal (o outro é a cruz).

A Igreja é o Deus Menino que não amedronta – quem tem medo de um bebê envolvido em faixas? – e redesperta o encanto da vida. Através do Espírito que fecundou o ventre de Maria – ventre da Igreja – os abismos do mundo podem ser ocupados e tocados pela consolação, alento, comunhão, ternura e compaixão (cf. Fl 2,1) oferecidos em Belém.

Hoje nasceu do céu a verdadeira paz

A Liturgia é sempre fonte de esperança: ela celebra o mistério permanente da redenção, da divino-humanidade construindo a humano-divindade. Ela celebra o Deus que desde a criação do homem e da mulher continua a procurar: “Adão, onde estás?” (Gn 3,9). No sacramento natalino podemos dar ao Senhor a alegria de suspirar: “És o meu filho, eu hoje te gerei!” (cf. Sl 2,7).

E tudo se transforma em ação de graças, toda a criação penetrada pela Igreja-Deus-Menino faz-se oferta ao Senhor e pergunta, agradecida, no belo hino: “O que te ofereceremos, ó Cristo, por te haveres mostrado sobre a terra como homem?”.

Cada uma das criaturas por ti criada oferece-te a sua gratidão: – os anjos, o cântico; – os céus, a estrela; – os Magos, os dons; – os pastores, a sua admiração; – a terra, uma gruta; – o deserto, um presépio; – mas nós, uma Mãe Virgem!

Ó Deus, existente antes dos séculos, tem piedade de nós!” (Vésperas da Liturgia oriental).

Pe. José Artulino Besen

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O Batismo do Senhor: anúncio de nossa justificação

Epifania (Mosaico)

Epifania (Mosaico)

O Ciclo do Natal é encerrado com a celebração litúrgica do Batismo do Senhor (11 de janeiro em 2004), narrada em Mt 3,13-17; Mc 1,7-11; Lc 3,21-22. Isso é motivo suficiente para que não nos contentemos em dizer que “Jesus não precisava ser batizado, quis apenas dar um exemplo, pois Ele é sem pecado”. Em outras palavras, parece que Jesus entrou na fila dos que queriam ser batizados por João apenas para dar provas de humildade. Evidente que a festa tem um significado muito maior, tão profundo que pode ser chamada – como o é na Igreja do Oriente – de Epifania do Senhor e Teofania da Trindade: Jesus é manifestado ao mundo como Filho de Deus, juntamente com a manifestação do Pai e do Espírito Santo.

Jesus, o justo que assume nossa injustiça

O batismo realizado por João Batista era um batismo de penitência e de purificação dos pecados, ministrado somente para os judeus que se decidissem pela mudança de vida. Ao pedir o batismo de João, Jesus inicia sua missão de salvador que assume os pecados do mundo. Quando o Batista quer negar-se a batizá-lo, Jesus declara: “Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça” (Mt 3,15). A palavra “justiça” encerra o conteúdo da missão do Messias: tornar justos os pecadores, fazendo-se pecador por eles. Naquele momento, Jesus assumiu sobre si todos os pecados da humanidade: era realmente um pecador que pedia a João o batismo de conversão. Ele o pedia em nosso lugar e por nós, por nós fazendo-se pecador. João não podia ver, mas aquele que estava diante dele carregava, como se fossem seus, todos os pecados da humanidade: esse é o significado de “cumprir toda a justiça”.

As águas da morte se tornam águas geradoras de vida

Para os antigos, o fundo das águas dos rios e mares era a habitação dos seres malignos e de seu chefe. Mergulhar nas águas era enfrentar os monstros que nela habitavam. Esse é o significado do gesto de Jesus: entrando nas águas do rio Jordão, Jesus penetrou no reino do pecado e da morte e destruiu o chefe do mal. Jesus entrou nas águas como o velho Adão e dela, redimido, saiu o novo Adão. As águas, habitação das trevas, passam a ser habitação da Luz. Por isso, o batismo também era chamado de “Iluminação” (São Justino afirmava que, enquanto Jesus descia ao Jordão, as águas se iluminaram).

Com seu gesto, Jesus iniciou a prática batismal e abençoou todas as águas que são usadas para o batismo dos filhos de Deus. Ainda hoje, na Igreja da Etiópia a cada batismo se colocam algumas gotas de águas do Jordão na água batismal, com isso fazendo o batizando participar do batismo de Jesus.

Deus se dá a conhecer à humanidade

Ao sair da água, tendo justificado todos os pecadores, o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma de pomba e uma voz do céu dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (Mt 3,17). Desde toda a eternidade, Jesus era o Filho amado, mas não era reconhecido na sua vida oculta em Nazaré. Agora o Pai e o Espírito Santo o revelam como Filho, como o Messias. Não foi ungido com óleo, porque sua unção é o Espírito Santo. Manifestava-se, assim, o mistério trinitário e o mistério da salvação.

Jesus sai das águas da morte, transformadas em fonte perene de água da vida, faz com que se tornem justos todos aqueles que aceitam participar de sua justiça.

O batismo é o primeiro gesto público do Senhor e será a ordem do batismo sua última palavra: “Ide, pois, e batizai todos os povos” (cf. Mt 28, 18ss).

O batismo, expressão da ternura do Pai

O céu se abre e o Espírito aparece em forma de pomba, símbolo da ternura divina, de Deus que se torna fragilidade por nós. O Pai manifesta toda sua ternura pelo Filho: “Ele é meu bem-querer”. O novo batismo é na água e no Espírito Santo. Cada celebração batismal realiza esse mistério de ternura divina, tão bem expressa por Efrém o Sírio em um de seus Hinos: “Eis, à porta das águas a Ternura cada dia convida aqueles que estão perdidos. … Alegria para os corpos: eles foram libertados do mal, e nas águas reencontram toda a sua glória”.

Nosso batismo é também o momento divino da ternura, do bem-querer da Trindade por cada um de nós.

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NO NATAL O DIVINO PENETRA TODA A CRIAÇÃO

Natividade do Senhor

Natividade do Senhor

“Glória a Deus no mais alto dos céus
e na terra paz aos homens!”
(Lc 2,14).

Pela primeira vez na história, o céu vem à terra para trazer uma notícia humana e divina. São os anjos que vêm anunciar aos pastores que na manjedoura jazia um menino, o Cristo Senhor. Os repórteres celestes fazem reportagem na terra! Tem início uma comunhão misteriosa, cuja finalidade é reiniciar o diálogo entre o céu e a terra, entre Deus e o homem, interrompido pelo pecado. O ser humano tem agora a possibilidade real de superar o limite do tempo e do espaço e entrar na vida divina, onde nada tem fim, onde tudo é participação-comunhão no eterno. Agora o céu é o templo dos homens e a terra, o templo de Deus.

“O Verbo se fez carne e habitou entre nós,
e nós vimos a sua glória”
(Jo 1,1-14).

O mistério do Natal envolve toda a criação num novo processo: a instauração do reino de Deus, toda a riqueza da criação ser penetrada pelo divino. A encarnação do Filho concretiza uma nova Aliança, a Igreja, da qual ele é a Cabeça: é a história da salvação cristã.

Em momentos de dúvida podemos ser vítimas do pessimismo: Cristo veio, tanto já se trabalhou, tantos mártires e santos, e o reino não caminha! O mundo antigo parece vencer a batalha. Mas, é de Deus a palavra verdadeira e final. Cristo é e será o vencedor. Um dos nossos problemas é achar que o arco da história está se completando, que os tempos estão terminando.

É bom citar aqui João XXIII, o Papa Bom: “Quem conhece a história sabe que lentamente, lentamente a nossa Igreja se purificou. Daremos outros passos. Temos ainda muitos séculos diante de nós”. E em outras palavras, a Igreja ainda é uma criança. Sabe bastante e acaba achando que já sabe o suficiente. Mas precisa aprender a viver, a testemunhar a presença do Espírito. Dois mil anos são apenas o começo. Criamos estruturas para exaltar o triunfo de Cristo, e ficamos preocupados em alterá-las, suprimi-las, para que resplandeça a glória do Senhor no ser vivo.

Os cristãos sabem que o amor é o centro da mensagem do Menino: mas jogam bombas para destruir o Afeganistão. Sabemos que a criação é divina: caprichamos em destrui-la. Todos somos irmãos: na prática, muito pouco. Estamos aprendendo. Num mundo de morte, somente a Igreja tem uma palavra de vida definitiva: precisa centrar-se nessa missão.

Devemos ser modestos em nossa arte pastoral. Afinal, o Espírito paira sobre o universo e inspira a criatividade trinitária, é cheio de novidades. Deus é Mãe: as mães são fecundas por definição e vivem preparando surpresas para seus filhos. Estejamos atentos a essa surpresas divinas. A evangelização apenas começou.

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NASCEU HOJE O SALVADOR

Eu vim para que todos tenham vida, e para que a tenham em abundância” (Jo 10, 10)

Natividade do Senhor

Natividade do Senhor

O humilde e silencioso nascimento em Belém de Judá, dois mil anos agora completados, parecia destinado a ser lembrado apenas na obscura biografia de um casal de Nazaré, José e Maria, relegado à marginalidade da história.

E assim foi por 33 anos, quando a notícia da ressurreição de Jesus de Nazaré passou a ser anunciada por discípulos transformados e foi atraindo, de modo irrefreável, o Império romano, os bárbaros, toda a face da terra, conquistando a cada um de nós como discípulos ou como adversários, nunca como indiferentes. O sepulcro vazio de Jerusalém explicita a manjedoura de Belém: o Menino saudado pelos anjos e pastores, adorado pelos Magos, é a realização do destino humano e do cosmos. Ele é o Salvador, não apenas aquele apagador de pecados a que muitos o reduzem, mas o Salvador da criação: tudo nele será completado e por ele a pessoa humana pode realizar sua vocação à divinização, recuperar a imagem e semelhança de Deus, como foi criado.

Nisso reside o mistério do Natal: o ser humano não é a mediocridade a que se conforma reduzir, mas é chamado a existir em Deus, do mesmo modo que em Jesus Deus aceitou existir no humano. Segundo um pensamento muito caro à antiga sabedoria cristã, Deus se fez humano para que o humano se fizesse divino.

Quando Jesus, já exercendo o ministério profético pelas vilas e caminhos da Palestina, definiu o sentido de sua missão, deixou bem claro que ela tem a ver com a vida em seu sentido mais amplo e pleno: “Eu vim para que todos tenham vida, e para que a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Após isso, o ato de fé em Deus está inseparavelmente unido ao ato de fé na transformação do ser humano e do cosmos como compromisso pessoal de cada discípulo, de cada cristão. Numa palavra, crer em Deus é comprometer-se com a vida que dele jorra. Seus discípulos seguem seus passos em defesa da vida em qualquer lugar em que se encontra o ser humano. O cristão não se deixa levar pelo preconceito (esse é bom, é dos nossos, aquele não presta), mas pela irresistível força do amor. Porque assim Jesus procedeu diante dos doentes, dos pecadores, dos marginalizados socialmente, dos famintos: ele não julgou as pessoas, mas olhou-as na face sofrida com o compromisso de dar-lhes vida. Nenhum pobre da terra teve receio de se aproximar dele, porque sua missão era acolher, reunir o que estava disperso para dar a vida.

É tempo de Natal, é tempo de renascer. O Menino não nasceu: ele nasce ainda em todo aquele que nele crê como Salvador e se dispõe a fazer a vida renascer. A Igreja crê em seu Senhor e Salvador e por causa dele assume a missão transfiguradora da história.

Há dois mil anos é tempo de Natal. Feliz Natal!

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