Arquivo para categoria Advento e Natal

FRANCISCO – «QUINZE DOENÇAS NA IGREJA»

cardeais-e-bispos

Aquele encontro de 23 de dezembro de 2014 seria um encontro formal, dentro dos costumes seculares da Cúria romana, onde o Papa saudaria e agradeceria a todos os cardeais, bispos e monsenhores, desejaria um Feliz Natal e encerraria com a bênção apostólica. Francisco, porém, quis fazer dele um ato penitencial pré-natalino e, para facilitar, ofereceu a lista de pecados para o exame de consciência: elencou 15 doenças eclesiásticas que devem ser extirpados na Cabeça e no Corpo da Igreja que se deve reformar. A raiz das doenças dos homens religiosos está em cair na tentação-chave: a do poder, tentação que o demônio apresentou a Cristo, mas foi rejeitado. A sede de poder torna os homens de Igreja capazes da velhacaria, da calúnia. Francisco conhece os homens que o cercam nos corredores apostólicos, muitos deles santos e devotados, e muitos deles carreiristas em oposição surda à reforma que ele está empreendendo, e que levará a cabo. Na história da Igreja, sempre que se fala em reforma surge a oposição dos mais poderosos, pois não é possível reforma sem a perda de privilégios ou abandono de vícios próprios de uma burocracia.

Se olharmos as 15 doenças da alma, teremos a oportunidade de contemplar a imagem que Francisco tem da Igreja “corpo místico de Cristo” e das manchas que se grudaram em seu corpo e o impedem de contemplar sua beleza e simplicidade. São doenças que fazem da Cúria um poder em si, auto-centrado, sem conexão vital autêntica com Cristo. Em outras palavras: o Papa quer conduzir a burocracia eclesiástica à sua verdadeira natureza de corpo comunitário a serviço da Igreja universal. Segundo Enzo Bianchi, prior de Bose, “tudo em Francisco ecoa o Evangelho e sua paixão pelo Evangelho leva-o a medir a vida da Igreja e de cada membro seu a respeito da fidelidade ao Evangelho.

Quanto mais Francisco percorrer essa estrada de recondução ao Evangelho mais sentirá o despertar de forças demoníacas que agem na história, e o resultado para os verdadeiros crentes será o aparecer da cruz de Cristo. A reforma não facilitará a vida cristã, mas ensinará que somente se pode seguir Jesus na rejeição e na perseguição, e ninguém colherá sucessos mundanos se encarnar a mensagem do Senhor”.

O ataque do Papa às “doenças” curiais é sinal das dificuldades que encontra em seu projeto reformador. Nós, que estamos longe, percebemos apenas sua figura simples, misericordiosa e não podemos avaliar o forte oposição dentro da Cúria, onde é minoria, e nos episcopados dos cinco continentes, na maioria fascinados pelas estruturas de poder e acomodação. Sente a oposição de tantos que se contentam com abstrações doutrinais com a convicção de poder engaiolar o Espírito Santo. São os fariseus eclesiásticos, isto é, os que se contentam em cumprir o dever não necessitando olhar o próximo, e que se esquecem que o Espírito Santo é novidade, imprevisto, fantasia, juventude.

A oposição ao Papa se situa naqueles que preferem o Papa-monarca que garante a imutabilidade da Corte e deixa a máquina do poder funcionar de acordo com normas seculares. Alguns, entre cardeais, bispos, monsenhores acusam Francisco de trair sua “missão eterna”, até duvidando de sua legitimidade como papa. São João XXIII experimentou pessoalmente essa sabotagem à sua obra reformadora e as contínuas maledicências com relação à sua pessoa. Francisco experimenta também diariamente nos sites da web que, mês após mês, instilam veneno para desacreditar seus projetos. Numa requisição venenosa, o intelectual cristão Vittorio Messori se refere ao Papa como “aquele homem que saiu do Conclave vestido de branco”, pois sente saudade do tempo em que era “importante” na Igreja, quando entrevistou São João Paulo II e o Cardeal Ratzinger. Muito estranha também a declaração do Cardeal Scola, de Milão, afirmando que nada mudará com relação à comunhão aos divorciados, até porque os que pensam diferente são minoria no Sínodo. Em outras palavras: o Papa perde tempo e está em minoria. Um grupo de cardeais da Cúria colocou em dúvida a consistência teológica de Francisco, pois não entendem – ou não querem entender – o sentido da renovação em marcha. Também não admitem um Papa “que veio do fim do mundo”, esquecendo que a Igreja hoje é majoritária na Ásia, África e América Latina. É o mesmo argumento insidioso que jogaram contra São João XXIII: “o papa tem boa intenção, mas capenga na doutrina”. Esquecem que Jesus ordenou a Pedro apascentar as ovelhas e não ser catedrático em teologia. Bento XVI atuou mais como catedrático de teologia do que como pastor, e não triunfou. A hierarquia se empenhou mais em impor a pureza doutrinal do que em animar a vivência da fé. A bem da verdade, deve-se dizer que João XXIII e Francisco são teólogos, dotados de consistência teológica irrefutável. Foi eminentemente pastoral o exame de consciência que apresentou a uma assustada platéia na Sala Clementina.

Francisco fala na tradicional reunião natalina com a Cúria romana

Francisco fala na tradicional reunião natalina com a Cúria romana

FRANCISCO E AS DOENÇAS DA CÚRIA ROMANA

Francisco declarou: “seria belo pensar na Cúria romana como um pequeno modelo da Igreja, como um corpo que diariamente se esforça para ser mais vivo, mais harmonioso e mais unido entre si e com Cristo”. A Cúria, como a Igreja, não pode viver “sem uma relação vital, pessoal, autêntico e firme com Cristo”. “Um membro da Cúria que não se alimenta diariamente com esse alimento se transforma num burocrata”.

Cairíamos nas mesmas doenças se não aplicarmos o exame de consciência às nossas estruturas diocesanas e paroquiais. Todos somos chamados à contínua reforma e à confissão dos pecados que Francisco nos propõe:

  1. Sentir-se imortal, indispensável – uma Cúria que não faz autocrítica, que não procura renovar-se é um corpo doente. Doença dos que se sentem imunes, indispensáveis, que se transformam em patrões e se sentem superiores. Tem origem na patologia do poder, no “complexo dos eleitos”, no narcisismo.
  2. Excessiva operosidade – mergulham no trabalho, ativismo e esquecem “a parte melhor”, sentar-se aos pés de Jesus.
  3. Petrificação mental e espiritual –  quando se perde a serenidade interior, a vivacidade e a audácia, e se esconde sob papéis, transformando-se em “máquina de práticas” e não em homens de Deus, incapazes de “chorar com aqueles que choram e se alegrar com os que se alegram!”.
  4. O excessivo planejamento – quando o apóstolo planeja tudo minuciosamente achando que desse modo as coisas progridem, assim tornando-se um contador ou comerciante. É bom que se prepare tudo, mas não cair na tentação de querer encaixotar e pilotar a liberdade do Espírito Santo.
  5. A má coordenação – doença própria dos que perdem a comunhão recíproca e então o corpo enfraquece a harmoniosa funcionalidade, transformando-se numa orquestra que produz apenas barulho, porque seus membros não colaboram nem vivem no espírito de comunhão e de time.
  6. O Alzheimer espiritual – é o declínio progressivo das faculdades espirituais e que produz graves deficiências na pessoa, fazendo-a viver num estado de absoluta dependência de suas visões muitas vezes imaginárias. É a doença de quem “perdeu a memória” de seu encontro com o Senhor, de quem depende doas próprias “paixões, caprichos e manias”, de quem constrói muros e hábitos em torno de si.
  7. A rivalidade e a vanglória – doença de quando as aparências das vestes e as insígnias se tornam o objetivo primário da vida. É a doença que nos leva a ser homens e mulheres falsos e leva a viver um falso “misticismo” e um falso “quietismo”.
  8. Esquizofrenia existencial – doença daqueles que vivem “uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica do medíocre e do progressivo vazio espiritual que láureas ou títulos acadêmicos não podem preencher”. Atinge mais aqueles que “abandonando o serviço pastoral, se limitam a ações burocráticas, perdendo assim o contato com a realidade, com as pessoas concretas. Deste modo criam seu mundo paralelo onde põem de lado tudo o que ensinam severamente aos outros” e levam uma vida “oculta” e muitas vezes “dissoluta”.
  9. Fofocas e intrigas – doença que toma conta da pessoa fazendo-a tornar-se “semeadora de cizânia” (como satanás), e em tantos casos “homicida a sangue frio” da fama dos próprios colegas e confrades. É a doença das pessoas velhacas que não têm coragem de falar diretamente e preferem falar pelas costas.
  10. Divinizar os chefes – doença daqueles que “cortejam os superiores”, vítimas do “carreirismo e do oportunismo” e “vivem o serviço pensando unicamente naquilo que devem obter e não naquilo que devem fazer”. Pessoas mesquinhas, inspiradas apenas em seu fatal egoísmo. Também atinge os superiores “quando cortejam alguns colaboradores seus para obter sua submissão, lealdade e dependência psicológica, mas o resultado final é uma verdadeira cumplicidade”.
  11. Indiferença diante dos outros – “quando alguém pensa somente em si mesmo perde a sinceridade e o calor das relações humanas”. Não coloca seu conhecimento ao serviço dos menos preparados. Por ciúme ou safadeza, sente alegria em ver o outro cair ao invés de levantá-lo e encorajá-lo.
  12. A cara fúnebre – doença das pessoas que julgam ser necessário, para ser sérios, ter o rosto triste, melancólico, severo, e tratar os outros com rigidez, dureza e arrogância. “A severidade teatral e o pessimismo estéril geralmente são sintomas de medo e de insegurança. O apóstolo deve ser uma pessoa cortês, serena, entusiasta e feliz e que transmite alegria”.  Humor e auto-ironia são sinais saudáveis.
  13. Acumular – é quando o apóstolo busca preencher o vazio existencial no seu coração acumulando bens materiais, não por necessidade, mas somente para sentir-se seguro.
  14. Grupos fechados – quando pertencer ao grupinho se torna mais importante do que pertencer ao Corpo e, em algumas situações, ao próprio Cristo. Também essa doença tem início com boas intenções, mas com o passar do tempo escraviza os membros tornando-se um câncer.
  15. Proveito mundano, exibicionismos – “quando o apóstolo transforma seu serviço em poder, e seu poder para obter proveitos mundanos ou mais poder. Doença das pessoas que buscam insaciavelmente multiplicar poderes e para isso são capazes de caluniar, difamar e desacreditar os outros, até em jornais e revistas. Naturalmente, fazem-no para exibir-se e demonstrar-se mais competentes do que os outros”. Doença que faz muito mal ao corpo, porque leva as pessoas a justificar o uso de qualquer meio para atingir tal finalidade, às vezes em nome da justiça e da transparência.

Como seria bom se cada cristão se examinasse diante das 15 doenças diagnosticadas por Francisco. Se optarmos por “achar graça” da Cúria romana, nossa vida diocesana, paroquial e comunitária será contaminada pelos mesmos males.

Pe. José Artulino Besen

7 Comentários

NATAL – SACRIFÍCIO DE COMUNHÃO

 

Deus vem ao nosso encontro - políptico de Lorenzo Veneziano - detalhe

Deus vem ao nosso encontro – políptico de Lorenzo Veneziano – detalhe

Ghislain Lafont, beneditino e teólogo, sentiu a necessidade de estudar e comentar o tema da obediência em Gênesis 2, 16-17: “O Senhor Deus deu-lhe uma ordem, dizendo: ‘Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas, da árvore do conhecimento do bem e do mal não deves comer, porque, no dia em que dele comeres, com certeza morrerás’”. Lafont se pergunta: por que Deus dá com uma mão e retira com outra? Será que uma árvore entre tantas teria tamanha importância? O que Adão teria pensado ao receber ordem tão ameaçadora? Seria apenas um capricho divino?

Ainda na posse da graça original, Adão entendeu que não estava em jogo o que comer ou não comer, mas a identidade de quem lhe dava o mandamento com autoridade, e o demonstra no momento da tentação, quando o tentador lhe revela o benefício do comer da árvore: ‘Sereis como Deus’, de modo algum morrereis (cf. Gn 3, 4-5). Morrer significa perder a identidade, a existência. Decidir comer do fruto é querer ser como Deus, é perder o medo de morrer, é existir sem nada dever a outro. G. Lafont expõe o tema da obediência, palavra latina que tem origem em obaudire, escutar. Escutar/obedecer sempre incluem uma renúncia, um limite, não para limitar e sim para criar comunhão, relação. A comunhão não existe sem o sacrifício, sem a perda para se receber o dom. Não há relação entre duas pessoas se permanecerem exatamente o que sempre foram.

Perder para receber é inseparável do sacrifício: ofereço algo para receber em troca, não por atitude interesseira, mas movido a uma doação que me fará comungar com o outro. Sempre é sacrifício de comunhão. G. Lafont resume[1]: Deus me fala, eu escuto e aceito o sacrifício da obediência para receber a comunhão.

O sacrifício de comunhão inaugura a história da salvação, a história de Deus que continua a apresentar palavras/limite ao homem a fim de que possa oferecer-lhe o dom da comunhão. O pecado dos primeiros pais foi a rejeição da obediência, da escuta e, deste modo, perderam o dom da relação, dom necessário para a existência humana que é também divina, incompatível com o viver solitário. Nossos primeiros pais agiram para nunca morrerem, e colheram a morte. Julgaram ser apetitoso viver sem escutar, escutar sem obedecer.

O Deus criador fez-nos à sua imagem e semelhança: a imagem sempre está presente, mesmo no pecado, e a semelhança oferecida como projeto[2]. Deu-nos sua imagem, mas no próprio ato da criação colocou a necessidade de querermos ser semelhantes a ele numa resposta progressivamente empenhativa e positiva, onde um sacrifício é necessário para estabelecer o diálogo, porque não há comunhão sem a dor da obediência, fruto da escuta, e não há semelhança possível sem a doação.

Antes da primeira prova, porém, Deus criou a mulher, porque não é bom que o homem esteja só (cf. Gn 3, 18). Além da palavra/limite dada por Deus, o homem e a mulher também se trocam palavras/limite para que exista a comunhão e assim, nossa vida é humana à medida que somos capazes de dar e receber obediência, e se torna desumana à proporção que negamos ao outro uma escuta com renúncia.

Quando se fala da relação entre as pessoas, entre Deus e nós, há sempre a dor, e o fundo, a substância da dor é a luta do amor. Ao amar, estou afirmando que o outro existe e o outro reconhece minha existência ao me amar, o que não acontece sem o sacrifício de escutar uma palavra e aceitá-la. O amor é sempre gerado pelo diálogo entre a doação e o dom.

Evidentemente que nos esforçamos para obedecer aos limites colocados por Deus e crescemos em sua amizade, porém, num sacrifício e obediência sem fim, recebendo continuamente novas palavras de Deus, numa história cujo fruto maduro é o amor e o fim a santidade.

natal

O Natal, dom do Pai – a Páscoa, dom do Filho

O Natal simboliza a doação sem limite que nos traz dom sem limite. Conduzindo seu povo no deserto e Oriente próximo sob a guia de Moisés, Juízes, reis e profetas, Deus pediu sempre mais porque sempre mais oferecia, num amor/doação cujo limite é o ilimitado. E assim, a humilde palavra no Paraíso se estendeu ao mundo, a toda a história.

Através do Anjo, Deus apresenta uma palavra/sacrifício a Maria de Nazaré, dela escuta o sim integral de uma serva.  Nova palavra é apresentada, e agora é a Palavra, o Filho que diz sim ao Pai e vem habitar entre nós, assumindo a condição humana pelo sim de Maria. O sim doloroso de José lhe traz o dom da paternidade. O sim dos Magos lhes oferece a adoração.

A história prossegue com Jesus, o Deus encarnado apresentando palavras de vida ao povo da Galiléia, com seus gestos descrevendo as palavras de sacrifício que o Pai pede a fim de poder entrar em comunhão com os pobres, os pecadores e os doentes. Aqueles que não o aceitaram se privaram do dom da comunhão, e os que o receberam foram agraciados com a vida eterna (cf. João 3, 16-21).

Jesus, doação do Pai ao mundo, quer ser um sim sem limite para oferecer-lhe toda a criação. Do mesmo modo que o Pai nos deu seu Filho, o Filho se dá ao Pai por nós em doação total, na entrega de sua humanidade ferida pela dor, a humilhação e a morte. O sacrifício da cruz não foi para expiar nossos pecados, como se o Pai tivesse usado uma balança de dor para medir a dívida da humanidade. Foi, isso sim, o encontro efetivo do Filho encarnado com Deus, a quem se doa totalmente e recebe o dom da salvação para todos que o procuram com sinceridade.

Voltemos às origens, onde é decidida nossa vida: se quisermos ser humanos, e não uma criatura como as outras, escutaremos do Pai um pedido de sacrifício/obediência que, sendo aceito, nos colocará em comunhão com ele e seremos pessoas. O Natal nos lembra esse pedido, para que ingressemos na relação amorosa com Deus, a cada dia mais intensa. O fruto generoso a nós doado é o Salvador.

Pe. José Artulino Besen

[1] Cr. Texto publicado em Lumière et Vie, 62 (2013) 4, n. 300, 6-21.
[2] O tema foi tratado por Irineu de Lyon no Adversus Haereses, de modo belo afirmando que entre esses dois termos – imagem e semelhança – se desenvolverá toda a vida espiritual do homem, que recebeu a perfeição em germe, devendo amadurecê-la. A imagem, o homem possui para sempre (o pecado não a suprime). O essencial é fazer a passagem para a “semelhança”.

2 Comentários

O COLÍRIO DA FÉ E A LUZ DO MUNDO

Vitral-Elia-Kurzum-Jordania

«Vem, Senhor Jesus» (vitral de Elia Kurzum – Jordânia)

«Realmente o Senhor faz os cegos verem. Os nossos olhos, irmãos, são agora iluminados pelo colírio da fé. Para restituir a vista ao cego de nascença, o Senhor começou por ungir-lhe os olhos com sua saliva misturada com terra. Ele misturou sua saliva com a terra: E a Palavra se fez carne e habitou entre nós».

(Jo 1,14 – Santo Agostinho, Tract. 8-9).

Essa palavra de Santo Agostinho é muito apropriada para iniciarmos o tempo do Advento, no qual esperamos a vinda do Senhor em Belém e sua vinda gloriosa no final dos tempos. É tempo para purificarmos nossa visão, limpar nossos olhos com o colírio da fé a fim de sermos capazes de discernir entre o olhar do mundo e o olhar de Deus.

O olhar segundo o mundo nos priva da liberdade e da subjetividade, pois nos quer como multidão arrastada pela moda, pelo consumismo, pelo prazer. Quanto menos vivermos a liberdade dos filhos de Deus mais seremos vítimas dos arrastões de comportamento que nos levam ao individualismo, proposto como verdadeira inteligência: “eu gosto, então é verdade”.

A vida em comunidade, que é comunhão de pessoas, permite-nos olhar a história pessoal e do mundo de forma solidária: “é bom para meus irmãos e para mim, então é caminho de verdade”. Dessa forma, eu não sou ameaça a ninguém, nem sou ameaçado por alguém, não sou “vaquinha de presépio”, mas pessoa em diálogo com pessoas.

O colírio da fé, necessário no Advento, abre nossos olhos para contemplarmos o olhar divino sobre a história: Deus, ele sim, o Criador e Pai, oferece-nos a palavra que gera comunidades: o amor que se multiplica no amor fraterno, materno, filial, esponsal, nunca um pervertido amor interesseiro cuja origem e destino são o meu egoísmo.

O mundo faz o ego agigantar-se, e se gloria disso, enquanto que o amor faz-me pequeno para que possa crescer com todos, partindo dos mais frágeis, numa felicidade que é gerada no sentir minha capacidade de ver o outro a partir de Deus, da comunhão de vida.

Os meios de comunicação são pródigos em apresentar e propagar os egos de artistas, de pretensos intelectuais, como modelos de vida e de comportamento, a oferecerem respostas para tudo em meio a um balé executado ao som de cretinices e pseudo-soluções. Quanto mais escandalosa a resposta, mais animado o bailado. Apresentam resultados de pesquisas como se fossem revelações divinas, numa moda traiçoeira que leva os ingênuos a julgarem que, se a maioria aprova, então está certo. Os dogmas da fé são apresentados como frutos do passado ingênuo e são substituídos por outros dogmas, bem mais exigentes, porque nos colocam na moda: os dogmas das estatísticas, das pesquisas.

O dado matemático suplantou o dado revelado. Deus é excluído da vida e, como não se vive sem algum deus, seu lugar foi ocupado pelo deus do palpite, do vazio interior. Não o Deus que se revela na História humana e cósmica, mas o deus dos prazeres que duram pouco mais que um dia e logo dão lugar a outros. Hoje como ontem: no lugar de Deus que o libertara da escravidão do Egito, o povo de Israel adorou um bezerro feito de ouro. E cantou e se divertiu e blasfemou, esquecendo de olhar as serpentes venenosas que se aproximavam para picá-lo (cf. Êxodo 32, 1-35; Números 21, 4-9). A beleza da serpente escondia seu veneno.

A Palavra de se fez carne

Para curar o cego de nascença, Senhor começou por ungir-lhe os olhos com sua saliva misturada com terra, explicou Agostinho. Ele misturou sua saliva com a terra: para que a cegueira fosse vencida, o Senhor uniu a divindade com a humanidade e, desse modo, o homem recupera a luz de seus olhos unindo a terra ao céu, o divino ao humano e, foi para isso que a Palavra se fez carne e habitou entre nós, para recuperar nossa imagem e semelhança, criando a comunhão Deus-Terra-Homem.

O tempo do Advento é o tempo da memória, tempo da invocação, tempo da espera do Senhor. Memória do que o Senhor realiza pela nossa salvação, invocação para que venha em nós e em toda a criação, espera feliz de sua chegada hoje e na consumação dos tempos, quando virá cheio de glória para julgar os vivos e os mortos.

Não devemos achar que o mundo está bom, que nossa vida já é boa o suficiente. Queremos muito mais, porque o Senhor oferece bens muito superiores e, acima de tudo, queremos que ele venha manifestar sua glória entre nós, conforme sua promessa.

Marana thá! Vem, Senhor! é a mais antiga oração cristã e está inserida na Liturgia eucarística logo após a consagração das espécies: o Senhor vem, e pedimos ainda mais, que venha sempre.

À pergunta “quem é o cristão?” São Basílio Magno responde para nós: “O cristão é aquele que permanece em vigília a cada dia e a cada hora, pois sabe que o Senhor vem”.

Pe. José Artulino Besen

2 Comentários

NATAL – VEIO PARA O QUE ERA SEU

O Menino na Mangedoura - Ruber OSB

O Natal é a festa do nascimento, na carne, do Filho de Deus. Jesus Cristo é eterno, estava junto do Pai e do Espírito Santo antes da criação do mundo. Mas, no momento oportuno, veio para dar-nos a graça de nos descobrirmos como filhos de Deus e restaurar nossa dignidade humana.

Desde o princípio, Cristo estava no mundo: sendo divino, não foi reconhecido, apesar de sinais claros dados por Deus através dos Profetas e das Escrituras. O ser humano habitava a escuridão e era incapaz de perceber a luz (cf. Jo 1, 11). Para ser reconhecido por aqueles que eram seus desde todo o sempre, assumiu a natureza humana no seio de Maria e veio habitar entre nós, visivelmente, para dar-nos a oportunidade de conhecermos quem é Deus e como Deus é: “Com efeito, Deus enviou seu Filho, o Verbo eterno que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e dar-lhes a conhecer os segredos de Deus” (DV 3-3).

Muitas vezes podemos nos perguntar, até com estranheza: por que Deus fez e faz tudo isso por nós se, na verdade, nem estamos tão interessados nele? Por que Deus nos envia seu Filho se nós não o pedimos? Por que Deus quer nos salvar, mesmo que nós prefiramos viver na condenação das trevas?

A resposta é uma só: Deus ama o que é seu. Deus quer salvar o que é seu. Tudo faz por aqueles que são seus.

Diante de tamanho amor manifestado na noite de Natal, diante de Deus que se faz criança, nossa resposta é o louvor: Ó Senhor nosso Deus, como é grandioso vosso nome em todo o universo! (Sl 8,1). Mas, Deus não se satisfaz apenas com nosso louvor: ele quer nos salvar, dando-nos a graça de recuperarmos a filiação divina perdida no pecado. Isso sempre, a cada dia, até o final da história: a decisão divina de nos salvar vale para todo o tempo da história.

A salvação não é obra humana, “nem do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus” (Jo 1, 13). A salvação é graça.

Quem passou pela experiência da fraqueza humana, do vício, da imoralidade e teve a graça do encontro com Deus, afirma tranqüilamente: Tudo foi obra de Deus! Eu nem acreditava mais que tinha jeito!

A graça de Deus é um dom imprevisto, misterioso, suave ou forte, mas sempre um dom, oferecido no amor de Pai. Nosso agradecimento pela graça recebida é a vivência como filhos de Deus, no seguimento de Cristo, Caminho, Verdade e Vida.

E se o pecado de novo em nós vencer e nos distanciar da graça divina? Deus não se cansa de nos procurar? Evidentemente que não. Deus não seria Deus se nos abandonasse à sorte dos desesperados. A salvação é sempre oferecida, sempre renovada.

A graça do Natal toca a vida dos que a aceitam

Infelizmente, custa-nos crer num amor desinteressado, contínuo. Para nós é difícil o perdão milhares de vezes repetido e confirmado. Porque nós não fazemos assim. Nós colocamos condições: uma, duas, três vezes. E achamos que Deus é como nós. Engano. Tanto o amor como o perdão são infinitos.

O Pai nos conhece e sabe das ciladas que Satanás nos arma e nas quais somos enredados. Um cristão passa por muitas tentações, muitas quedas, passa inclusive pelo cansaço de lutar para ser cristão. Nós sofremos ao contemplarmos os erros passados, os fracassos. Lamentamos oportunidades perdidas. O passado, porém, não deve nos condicionar, pois o Senhor nos olha hoje, aqui, agora. É para esse instante que ele pede nossa fidelidade. Com o tempo seremos curados dessas recordações tristes que nos impedem amar e sermos amados.

Uma verdade necessita estar sempre diante de nossos olhos: Deus sempre vem para os que são seus. Pecadores ou santos, nós somos dele e ele quer ser nosso.

A oficina da graça recupera toda a estrutura pessoal, por maior que tenha sido o estrago do pecado. A maior tristeza seria duvidar disso, conservar a imagem de um Deus ameaçador. Nosso Deus é o Pai de Jesus, é o nosso Pai.

Na festa do Deus Menino, num feliz Natal, conservemos a felicidade de sermos obra de Deus! Anunciemos a todos essa grande alegria: foi derrubado o muro que nos separava do céu. As portas estão abertas. Somos convidados a entrar nessa nova vida, divina, onde o Pai nos espera. Mas, lembremos: somente quem tem coração simples como o Menino de Belém penetra nos segredos do amor divino.

Pe. José Artulino Besen 

, , , , , ,

Deixe um comentário

NATAL – O ESPÍRITO, O SILÊNCIO E A PALAVRA

Entre tantos meios de comunicação, é útil contemplarmos o modo divino de se comunicar: o silêncio-Espírito-Palavra.

No ciclo do Natal, quando contemplamos a ruptura do isolamento entre o céu e a terra através de Cristo que se encarna, dos anjos que cantam, vale uma breve reflexão sobre a comunicação divina: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (Lc 1,35), anunciou Gabriel, “e a Palavra de Deus se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14) com o sim de Maria. Primeiro o silêncio, depois a ação do Espírito e, em seguida, a Palavra.

Temos a faculdade de entender os silêncios bíblicos quando recebemos a Palavra pelo Espírito: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, isto é, precisamos de ouvidos dados pelo Espírito para ouvir a Palavra, e não qualquer ouvido. Afirma Basílio de Cesaréia (329-379) que “é um forma de silêncio também a obscuridade que envolve a Escritura e que torna difícil a compreensão das doutrinas, e isso é de utilidade para os que dela se aproximam” (O Espírito Santo, 27,66): nem tudo compreendemos agora, e a contemplação é uma forma superior de compreensão, por ser espiritual.

Deus pouco se nos comunica por palavras, mas, pelo silêncio faz brotar em nós palavras que de outro modo não teriam nenhum sentido, afirma o teólogo russo Vladimir Lossky (1903-1958). Não é silêncio pela ausência da palavra, mas palavra que brota do silêncio. Maria primeiramente recebeu o Espírito, e depois recebeu a Palavra. O Espírito precede à Palavra também no encontro de Maria com Isabel: “…e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Com voz forte, ela exclamou: ‘Bendita és tu entre as mulheres…’ (cf. Lc 1,41-42). O menino João saltou de alegria no seio de Isabel porque o mesmo Espírito silenciosamente lhe revelou Jesus no seio de Maria.

Ao se retirarem os pastores da gruta de Belém, “Maria, porém, guardava todas estas coisas, meditando-as em seu coração” (cf. Lc 2, 15-19). A meditação é conduzida pelo Espírito e progressivamente revela o sentido dos acontecimentos. A noite do Natal é a grande noite da Luz poderosa: qualquer palavra empobreceria a explosão luminosa da natividade.

Silêncio e Palavra (Igor Mitoraj)

Sem voz e sem rosto, assim é o Espírito

O Espírito Santo não fala, porque sua missão é revelar a Palavra e, sem ele, a Palavra é apenas ruído religioso, profecia sem profetismo, sentimento sem fé, cerimônia sem liturgia. No grande silêncio também não nos foi revelado o rosto do Espírito, ao contrário do rosto de Jesus e do Pai (“Filipe, quem me vê, vê o Pai” – Jo 14,9). Mas, é possível contemplar o rosto do Espírito Santo: olhando o rosto dos santos, das pessoas cheias do amor, que revelam o Espírito. Os santos têm o privilégio de revelar a imagem e a semelhança de Deus, donde a luz que irradia de seus rostos. O silêncio do Espírito, de sua voz e face nos é manifestado na sinfonia da comunhão dos santos: afirmou um monge que ”se não existissem os santos, se nós não acreditássemos na comunhão dos santos do céu e da terra, estaríamos encerrados numa solidão desesperada e desesperante”, pois viveríamos num silêncio não comunicativo, revelador de gélida vida solitária.

O Espírito nos abre os ouvidos e o coração para ouvirmos a Palavra e essa não pode ser ouvida sem a renovação de nosso ser através dele. Tira de nós a presunção do conhecimento teórico, abstrato sobre Deus, pois não há relação intelectual com Deus em Cristo, mas sim, renovação do coração e da mente que nos fazem compreender a Palavra que, acolhida, nos mergulha na verdade e na vida.

É pobre o comunicador – a palavra de ordem hoje é comunicar! – que busca explicar tudo. Nossas TVs, rádios, internet estão cheios de explicações religiosas, algumas até contraditórias. Na busca legítima de evangelizar, levar a doutrina a todos os ambientes, corre-se o risco de profanar o Sagrado, espetacularizar o mistério. A comunicação religiosa é contemplação, adoração, revelação. Aqui entra o “pudor”, o recato: as coisas de Deus são misteriosas, profundas, não podem ser lançadas na vala comum do barulho mundano. São mais contempladas do que demonstradas.

Em seus primeiros séculos, a Igreja adotava o catecumenato para os adultos, que participavam da Eucaristia apenas até o final da Liturgia da Palavra. Ainda hoje a Liturgia ortodoxa, nesse momento, ordena: “Catecúmenos, ide embora!”. Após o Batismo (que incluía a Comunhão e a Crisma) era-lhes explicado o que tinha acontecido num sermão “mistagógico”, de introdução ao mistério. Havia segredos que somente nesse momento eram revelados. Hoje nos preocupamos em mostrar tudo, explicar tudo, e destruímos a possibilidade do espanto diante do Mistério, perdemos o pudor do silêncio. E perdemos tudo, pois não ouviremos os anjos cantando e não iremos a Belém.

Pe. José Artulino Besen

, , , ,

2 Comentários

É FESTA NO CÉU E NA TERRA TAMBÉM!

A Natividade (Fra Angelico – afresco 1439-1443)

Nada melhor do que este verso para expressar o que aconteceu entre a anunciação do anjo a Maria e o batismo de Jesus no Jordão, passando por Belém e pela adoração dos Magos (cf. Lc 1-3,22). Levanta-se o véu que separava o céu da terra, o homem de Deus, a vida da morte. Tudo é canto de alegria, tudo é celebração de vida. Uma Virgem dá à luz, o anjo fala com José, os anjos cantam no céu, uma estrela guia os Magos e o próprio Deus declara que “este é meu Filho muito amado: escutai-o”.

O céu desce à terra

Quando Adão e Eva pecaram, deram início à história da morte, pois foi rompida a comunhão com Deus. O homem e a mulher foram condenados à solidão, pois vida sem Deus é solidão pura que não permite a comunicação verdadeira entre as pessoas. A morte tinha a última palavra e o tempo tornara-se duro para a vida humana: suor e dor tanto na geração da vida pelo parto quanto na geração da vida produzindo-se alimentos.

Deus não se conformou com essa decisão humana de viver sem ele, pois quer viver conosco. Eternamente tinha um plano de salvação para nós. E esse plano era fazer-nos participantes da vida divina, comungarmos da eternidade e vivermos em seu Reino. E para fazer-nos participar de sua vida, Deus decidira desde sempre que seu Filho viria ao mundo, se encarnaria, para que Deus tivesse experiência humana e a humanidade tivesse experiência divina.

Este plano amadureceu durante milhares de anos. O Espírito de Deus preparou toda a criação para a hora da encarnação.  Foi o artista que formou um povo, abriu os corações, inspirou os profetas, gerou a Palavra. Quando chegou a plenitude dos tempos, rompem-se as fronteiras entre o céu e a terra, e do céu surgem mensageiros trazendo notícias da terra para a terra, coisa nunca antes acontecida…

O anjo anuncia a Maria e a José

Deus escolheu um lugar – Nazaré, um povo – o judeu, e uma virgem – Maria. Somente os simples de coração poderiam entender a grandeza do plano divino: o Filho morar na carne. Os corações pobres e humildes crêem no mistério do amor sem limite, como é o mistério da encarnação. O anjo diz a Maria que, aceitando a vontade de Deus, ela gerará um filho, o Filho de Deus. Será grande, rei, altíssimo, por isso mesmo será pequeno, pobre e humilde. Maria acreditou no anjo, abriu sua vida à vontade de Deus e a Palavra de Deus se fez carne.

O jovem José amava Maria, era seu noivo, com ela planejava ter filhos. Acontece o imprevisível: a virgem concebe por obra do Espírito. José não entende o mistério, mas não que repudiar Maria. Recebe também a visita do anjo, crê na boa notícia por ele trazida e leva Maria para sua casa. José é último patriarca que recebe mensagens divinas em sonhos.

Anjos, Magos e Deus anunciam a presença do Filho de Deus

Era noite em Belém. Maria deu à luz seu Filho primogênito. Frio de inverno, silêncio da noite, silêncio da pobreza. De repente, brilha no céu uma luz. Anjos descem cantando e dando notícias: “Nasceu o Messias! Glória a Deus nas alturas!” Os pastores se entusiasmam com o coro celeste, cantam junto e vão à gruta. Lá encontram Maria, José e o Menino. Prostram-se por terra em adoração. Contentes, pois receberam as notícias dos anjos do céu.

Lá no Oriente, sábios acostumados a olhar as estrelas, percebem uma diferente e dispõem-se a segui-la. Crêem que os astros trazem notícias dos céus. A estrela para em Jerusalém, mas os conduz até Belém. Entram numa casa modesta: lá estão José, Maria e o Menino. Adoram a criança e lhe oferecem presentes de ouro, incenso e mirra.  O menino Jesus é rei, Deus e homem.

Vem o escondimento em Nazaré. Trinta anos de experiência humana e divina. Jesus dirige-se agora ao Jordão. Quer o batismo de João. Humildemente inclina a cabeça e é batizado. Neste momento, os céus se abrem definitivamente: em forma de pomba o Espírito Santo pousa sobre Jesus e o Pai proclama por sobre as nuvens: “Este é o meu Filho amado! Escutai-o!” Não há mais segredos entre Deus e os seres humanos!

O tempo de Natal é festa no céu e na terra. Rompem-se os muros. As notícias correm do céu para a terra e da terra para o céu. Deus faz-se íntimo do ser humano. O ser humano faz-se íntimo de Deus. Essa é a alegria eterna.

Pe. José Artulino Besen

1 comentário

NO NATAL O DIVINO PENETRA TODA A CRIAÇÃO

Natividade (Correggio)

«Glória a Deus no mais alto dos céus
e na terra paz aos homens!»
(Lc 2,14).

Pela primeira vez na história, o céu vem à terra para trazer uma notícia humana e divina. São os anjos que vêm anunciar aos pastores que, na manjedoura, jazia um menino, o Cristo Senhor. Os repórteres celestes fazem reportagem na terra! Tem início uma comunhão misteriosa, cuja finalidade é reiniciar o diálogo entre o céu e a terra, entre Deus e o homem, interrompido pelo pecado. Não apenas o diálogo de Deus com os Patriarcas e Profetas, mas com a humanidade, toda a criação. Antes, Deus falava em partes, na pedagogia da salvação: “agora nos revelou no todo, dando-nos o Tudo, que é seu Filho” (São João da Cruz: A subida do Monte Carmelo). A revelação é total.

O ser humano tem agora a possibilidade real de superar o limite do tempo e do espaço e entrar na vida divina, onde nada tem fim, onde tudo é participação-comunhão no eterno. Agora o céu é o templo dos homens e a terra, o templo de Deus.

Quando os primeiros pais quiseram ser como Deus, subtraindo Deus de sua vida, caíram na ilusão: já participavam da vida divina e com a negação de Deus ingressaram numa vida cujo desfecho é a morte. Quiseram suprimir a imagem e semelhança, e desembocaram numa estrada onde nem humanos conseguiam ser. Estava rompida a comunhão que faz o homem e a mulher serem humanos. Deus estabelece comunhão, o diabo fabrica interesses.

Nosso Deus aceita ser desafiado, o que faz parte da comunhão, mas não aceita ser derrotado no que lhe é a essência: o amor. Desde toda a eternidade se propôs reconciliar-nos consigo através de seu Filho, mas reconciliação fruto da liberdade. Podemos querer o isolamento, sermos desumanos.

Então “a Palavra se fez carne e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória” (Jo 1,1-14).

O mistério do Natal envolve toda a criação num novo processo: a instauração do reino de Deus, toda a riqueza da criação sendo penetrada pelo divino. A encarnação do Filho concretiza uma nova Aliança, a Igreja, da qual ele é a Cabeça: é a história da salvação cristã, salvação cósmica, pois dela nada nem ninguém é excluído.

Em momentos de dúvida podemos ser vítimas do pessimismo: Cristo veio há dois mil anos, estamos no terceiro milênio, tanto já se trabalhou, tantos mártires e santos, e o reino não caminha! O mundo antigo parece vencer a batalha. É a tentação do sucesso medido e triunfal. E de Deus, porém, a palavra verdadeira e final. Cristo é e será o vencedor. Cada vez que uma pessoa o aceita como Senhor de sua vida, ele inicia o reinado, como o iniciou na Cruz ao pedido do Bom Ladrão.

O Natal se prolonga na História

Um dos nossos problemas é achar que o arco da história está se completando, que os tempos estão terminando. Um clima de milenarismo de gente espantada com as crises e se torna profeta da derrota, protegida com a couraça do derrotismo. É bom citar aqui João XXIII, o Papa Bom (1958-1963): “Quem conhece a história sabe que lentamente, lentamente a nossa Igreja se purificou. Daremos outros passos. Temos ainda muitos séculos diante de nós”. E em outras palavras, a Igreja ainda é uma criança. Sabe bastante e acaba achando que já sabe o suficiente. Mas precisa aprender a viver, a testemunhar a presença do Espírito.

Dois mil anos é apenas o começo. Criamos estruturas para exaltar o triunfo de Cristo, e agora estamos justamente preocupados em alterá-las/suprimi-las, para que resplandeça a glória do Senhor no ser vivo. Construímos majestosas catedrais para abrigar multidões e agora estamos procurando Deus para que não se esqueça de nelas habitar. A resposta divina se revela nos pequenos grupos que vivem a Palavra de Deus e maravilhados descobrem que cada ser humano é uma catedral majestosa, com ornamentos suficientes para abrigar Deus.

Os cristãos sabem que o amor é o centro da mensagem do Menino: mas jogam bombas para destruir o Afeganistão. Sabemos que a criação é divina: caprichamos em destruí-la. Países católicos, como o Brasil, sentem a dor da perda de 30-40 milhões de católicos, mas não sentem dor equivalente com 30 milhões que diariamente passam fome. Todos somos irmãos: na prática, muito pouco. Estamos aprendendo.

Num mundo de morte, somente a Igreja tem uma palavra de vida definitiva: precisa centrar-se nessa missão. É tempo de esperança, de alegria. Temos muito a fazer com o Menino que cresceu, morreu, ressuscitou e teve a bondade de enviar-nos o Espírito Santo que é a alma do mundo, da Igreja.

Devemos ser modestos em nossa arte pastoral. Afinal, o Espírito paira sobre o universo e inspira a criatividade trinitária. É cheio de novidades. Deus é Mãe: as mães são fecundas por definição e vivem preparando surpresas para seus filhos. Estejamos atentos a essas surpresas divinas. A evangelização apenas começou. A criatividade divina nos prepara surpresas inimagináveis. Tão grandes e belas com o Menino Deus nascendo numa manjedoura.

Pe. José Artulino Besen

 

, , , , , ,

Deixe um comentário

NATAL – ENCARNAÇÃO E GEOGRAFIA

Natal (Antonio Poteiro)

A Revelação bíblica é transmitida num território que, mesmo invadido por diversos povos e culturas, se renovava pela tradição religiosa e cultural. Para o povo de Israel, a fé, a terra e tradições formavam um conjunto indivisível. Quando exilados na Babilônia, os judeus cantavam, escondidos, os cantos de Sião. Alguns que puderam ouvi-los pediam-lhes que cantassem esses cantos. A resposta: “Como cantar os cânticos do Senhor em terra estrangeira? Se eu te esquecer, Jerusalém, fique paralisada a minha mão direita… (cf. Sl 136, 3-6). A Babilônia não era a terra dos cantares divinos.

A Palavra de Deus se fez carne – natureza humana – num lugar determinado, Nazaré, em uma jovem judia, Maria. O Filho de Deus assumiu a condição humana em tudo, menos o pecado: o chão, a história, a cultura. Toda a vida de Jesus se desenvolveu na normalidade cultural dos pequenos povoados da Palestina: viveu a língua aramaica, as peregrinações festivas, o pastoreio, o cultivo da terra, a pescaria. O lago de Genesaré/Tiberíades e as localidades circunvizinhas revelam como Jesus viveu, o sentido do que falou, os problemas enfrentados. Jesus não foi um ser estranho a seu meio.

Após a ressurreição do Senhor, a missão cristã difundiu-se por toda a terra, em cada território assumindo características próprias. O Cristianismo, especialmente com a missão universalizante de Paulo, assumiu o árduo trabalho da inculturação do Evangelho, trabalho que prossegue em nossos dias. Paulo não se dirige às Igrejas em geral, mas à Igreja que está em Colossos, Filipos, Galácia, Roma… Cada uma vive uma realidade específica e cuja manifestação mística é a Eucaristia..

A fé cristã inculturou-se no mundo romano, grego, sírio, armeno, árabe, indu, depois eslavo, anglo-saxão, germânico aonde iam os missionários. A teologia foi o fruto desse trabalho, com sua função de expressar a Palavra encarnada em Israel e agora vivenciada em outras terras.

A Liturgia, que é a expressão orante da fé, conheceu riquíssima variedade: cada povo tinha seu rito, orações eucarísticas e santos. A Europa antiga e medieval elaborou as Liturgias romana, galicana, galofranca, anglicana, ambrosiana, mosarábica, visigótica etc.. Com a idéia de Império (século VIII-IX), que incluiu a uniformização dos ritos cristãos, perdeu-se essa variedade em favor do rito e santoral romano, tornados praticamente únicos. Em Toledo pode-se ainda usar o rito visigótico, em Milão o ambrosiano, na Índia o siro-malabar e quase se fica nisso, predominando o rito romano.

Como contrapeso, nas Igrejas orientais foi conservada a diversidade brotada do solo e da cultura. Elas testemunham o antiqüíssimo esforço cristão de falar em chãos históricos. Ligando a fé ao chão, sobrevivem a séculos de dominação persa, árabe, turca.

Eucaristia e território

A Encarnação de Jesus supõe, sempre, a encarnação num território: ela se faz visível no povo, na comunidade, na Igreja diocesana. Esta, a diocese, era representada pela comunidade com bispo, presbíteros e diáconos. Com a penetração da fé católica no mundo rural e com o aumento territorial das dioceses, criou-se uma outra unidade pastoral, a paróquia. Essa instituição foi a tal ponto funcional que, hoje, o católico se define pela paróquia onde vive.

Paróquia, de etimologia grega, significa casa no estrangeiro, viver entre estrangeiros e por isso mesmo, grupo de pessoas com interesses comuns, e evoca intimidade de um ninho, lar, proteção. Somos estrangeiros buscando a morada definitiva. Enquanto isso, nossa casa é plantada no mundo, num território determinado onde a Palavra se faz carne e habita entre nós. Constituindo unidade menor, a paróquia com suas comunidades representam um chão de cultura, vizinhança, costumes e solidariedades.

A encarnação supõe a geografia, pois Cristo assumiu uma geografia. A Eucaristia, centro da paróquia, santifica o chão onde é celebrada e o oferece ao Pai que o devolve transfigurado. Na Apresentação das Oferendas, o Presidente bendiz a Deus pelo “fruto da terra”: a expressão provém da Mishná judaica e significa “desta nossa terra”, e do “trabalho do homem” (inclui-se o produzir frutos do Evangelho nessa terra).

Peregrinar de paróquia em paróquia pode significar optar por ser estrangeiro desencarnado, sem a intimidade de um ninho, um lar. Em nossos tempos, grupos e pessoas tendem a se desenraizar da paróquia, separando o chão onde vivem do lugar onde celebram. É mais fácil, pois livra da casa comum, a paróquia. Desaparece o compromisso com o chão sagrado, trocado por reuniões e encontros onde se cultiva a espiritualidade pessoal, mas sem encarnação, freqüentemente transformada em clubismo religioso.

É Natal. É tempo de Cristo encarnar-se em nós e em nossa história, é tempo de nos encarnarmos em nosso chão para nele edificarmos a casa cristã.

Pe. José Artulino Besen

 

, , , , , ,

Deixe um comentário

O NATAL DO MENINO, PRIMEIRA PÁSCOA

Natividade do Senhor – Andrej Rublev – 1405

Lucas é o evangelista que acrescenta dados históricos a seu relato da anunciação e nascimento de João Batista e Jesus (cf. Lc 1-2). E afirma que muito pesquisou para narrar tudo com fidelidade. Mesmo tendo escrito seu Evangelho após a ressurreição do Senhor, portanto sob a Luz da glória, sua história é profundamente humana: suas páginas são povoadas de mulheres arrependidas, pecadores penitentes, doentes e famintos que se aproximam de Jesus, Deus Pai esculpido nas parábolas do Filho pródigo, da Ovelha perdida, da Moeda extraviada (Lc 15). E é pelo fato de ter pesquisado que não poderia chegar a outra conclusão que o Evangelho é uma história de compaixão! Para Lucas, tudo o que é divino é tão humano, que só nos resta, a exemplo de Maria, guardar e meditar tudo no silêncio do coração, lá onde não se encontram explicações, mas conduzem à adoração.

Como a noite do Natal. Uma noite em Belém.

Maria e José vão a uma gruta, as hospedarias estavam lotadas na pequenina Belém. O Menino tem necessidade de nascer numa gruta escura, de ser depositado numa manjedoura, pois a gruta é a imagem do mundo/noite porque separado de Deus e a manjedoura é a imagem da urna mortuária onde anos depois o Homem de Nazaré vai ser sepultado para vencer a morte ressuscitando. A noite de Natal já é uma Páscoa, a pequena Páscoa que à grande Páscoa antecede.

Recordada do anúncio do Anjo, Maria contempla o infinito e mergulha no mistério desse Menino gerado eternamente de um Pai sem mãe e agora gerado humanamente de uma Mãe sem pai. Seus olhos vão do Menino a José e se refugiam na noite silenciosa, a noite que preanuncia a explosão luminosa da Grande Páscoa.

José contempla Maria, tomado pela dúvida: como pode ter nascido essa Criança sem ter parte comigo? É a tentação que penetra toda a história: somente achamos verdade o que não foge aos nossos olhos ou aos limites de nossa razão, negando local à novidade continuamente recriada por Deus. Maria o contempla com profunda e infinita compaixão. José, porém, é vencido pelo encanto do amor e prorrompe num Aleluia sem fim, pois aceita participar do mistério que desliza ante seus olhos.

Nessa mesma noite pobres pastores de Belém apascentam ovelhas, livrando-as de lobos ferozes. Escutam vozes de anjos anunciando alegria, notícia nunca escutada. Incontroláveis, os anjos explodem num grande hino, pois é possível a paz na terra com a glória divina penetrando a criação. Os pastores dirigem-se à gruta que lhes é indicada e contemplam a pobreza total: Maria aquecendo o recém-nascido, José os protegendo, animais dormindo. Narram o que escutaram e nada perguntam, pois estão abertos ao Mistério. A Luz penetra a gruta, rompe-se o domínio das trevas, o céu e a terra se reúnem, a eternidade e o tempo se abraçam. O Menino enfaixado é o Homem que desata as faixas e transforma o túmulo da Morte em templo da Vida.

A Luz torna o mistério fascinante, mas o Mistério iluminado queima os olhos de quem se atrever a profaná-lo querendo dominá-lo com olhos carnais. Somente a Transfiguração dará ao ser humano olhos capazes de contemplar o Mistério, num longo caminho de transfiguração a ser percorrido. No meio das miríades de estrelas que brilham nessa noite luminosa, Maria é a Estrela que anuncia o Sol que nos vem visitar.

Todo nascimento é oportunidade para uma troca de presentes. Em primeiro lugar, o Pai eterno nos dá o Filho eterno como criança frágil de quem ninguém precisa ter medo. Seguindo a Liturgia de São João Crisóstomo, e nós, que presentes oferecer ao Menino como sinal de gratidão?

Os anjos oferecem sua gratidão, os céus a estrela, os Magos seus dons, os pastores sua admiração, a terra oferece a gruta, o deserto a manjedoura. Nós, porém, oferecemos a Deus uma Mãe Virgem. No Filho que gerou nossa natureza humana também é pacificada e virginizada.

É Natal. Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra!

, , , , , , , ,

Deixe um comentário

ADVENTO – VEM, SENHOR JESUS!

O Menino que vem – Igreja da Transfiguração – Romênia

“Vem, Senhor Jesus!” Marana Thá! provavelmente é a mais antiga prece dos cristãos que ardentemente suspiravam pelo retorno do Senhor. Podemos imaginar a saudade de Jesus que tinham os Apóstolos, os discípulos, os pobres e doentes que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Na Liturgia, o pedido “Vem, Senhor Jesus” é feito logo após as palavras da Consagração, na apresentação do Mistério da Fé, memória do gesto que Jesus ardentemente desejava fazer: comer com os Apóstolos a Ceia pascal, prenúncio de sua paixão e ressurreição.

“Vem, Senhor Jesus!” é a prece do tempo que antecede as alegrias natalinas. O tempo do Advento abre o Ano Cristão da Igreja latina e, conforme está na palavra Advento, traz o sentido de expectativa, pedido de socorro, esperança de mundo novo, grito por salvação. São quatro domingos: os dois primeiros nos remetem à vinda gloriosa do Senhor no final dos tempos e os dois últimos, à vida de Jesus no Natal. Natal da História, Natal de Belém.

Na escuridão do pecado que teima em infelicitar a humanidade, precisamos invocar a vinda do Senhor. Nossa civilização parece caminhar para a barbárie. Somos vítimas da violência verbal, institucional, onde nada tem limite. Nosso século inaugura um período onde nada é valor, onde qualquer coisa tem o valor que lhe damos. Um século onde os valores são desprezados de modo soberbo: cada um se acha fonte de verdade e de ética. Quando assistimos ao espetáculo de deputados e senadores ladrões e corruptos se apresentando como vestais, quando escutamos que policiais se aliam a assaltantes e roubam de ladrões, quando somos informados que o vírus da venalidade atinge as mais altas esferas da Justiça e da política, quando nos deparamos com os casos de pedofilia envolvendo aqueles cuja missão é defender os menores, como os religiosos, quando percebemos a juventude encontrando prazer na morte trazida pelas drogas, precisamos suspirar: “Vem, Senhor Jesus!”

Todos sentem-se pontífices da verdade, dando opiniões irresponsáveis sobre a vida e os valores, a voz sábia de Bento XVI é silenciada porque defende os pobres e denuncia o desperdício das nações ricas, o Cristianismo passa a ser vítima de uma nova perseguição, mais cruel e deletéria, porque se fundamenta na ridicularizarão dos valores bíblicos. A Igreja Católica, em todas as nações ricas e de velha tradição cristã é colocada sob suspeita. Defende-se por tudo o Estado laico, livre das imposições religiosas, desde que sejam católicas. Os judeus, as Testemunhas de Jeová, os Adventistas têm direito de não prestar concurso no sábado, dia por eles santificado. Ai da Igreja católica se pedisse para não haver trabalho no domingo: estaria se intrometendo no sagrado Estado laico… Os judeus colocaram a Estrela de Davi, os muçulmanos a Lua Crescente, substituindo a Cruz na Cruz Vermelha. Mas há juízes querendo tirar os crucifixos de todos os ambientes públicos. Incoerência.

Por que esse mau humor com a Igreja católica? Porque ela é necessária, porque sua palavra incomoda os que defendem o império do egoísmo, porque diz um “não” incondicional a tudo o que violenta a vida humana e a integridade da criação.

Como sempre, com mais força pedimos “Vem, Senhor Jesus!”

Mas, poderíamos perguntar, Jesus não está entre nós, ele que está em tudo e em todos? João nos responde: “Ele está no mundo, mas o mundo não o reconhece” (Jo 1,10). Ele está presente por seu amor e ausente pela nossa indiferença. Então, nosso pedido tem o sentido de que nossos olhos sejam purificados para vê-lo e aceitar sua companhia.

Querendo ou não, todo ser humano tem saudade do Senhor, saudade do Bom Pastor. Todos queremos que ele logo retorne. Quando rezamos “Senhor, sê nosso pastor”, ele responde: “Eu sou o pastor, carrego nos ombros todo o rebanho, cada um de vocês, assumi toda a natureza humana”.

Nossa cegueira espiritual nos faz procurar Jesus dele nos afastando, nos faz procurar Jesus, não percebendo que moramos nele e ele em nós. A Liturgia do Advento nos diz: a Redenção está próxima. Próxima não no sentido cronológico, mas físico, pois o Senhor está no meio de nós. Continuamos a perguntar “e quem é o meu próximo?”, para evitar compromissos.

Os corações mansos e humildes reconhecem o Senhor, pois ele uniu-se à pobreza de nossa natureza, fez-se carne por amor de nós, unindo-se a nós assumiu toda a condição humana. Para que? Para realizar seu plano de amor: unindo sua natureza divina à nossa natureza humana ele quer fazer-nos divinos, para que sejamos um com ele. (Cf. Gregório de Nissa, Carta a Teófilo).

O Senhor desceu para nos elevar. “Vem, Senhor Jesus!”

Pe. José Artulino Besen

, , , , ,

1 comentário

O NATAL, OU A HUMILDADE DE DEUS

«O povo que andava na escuridão,
viu uma grande luz;
para os que habitavam nas sombras da morte,
uma luz resplandeceu».

(Isaías 9, 1)

O tema de luz perpassa o tempo de Natal e o da Páscoa e é celebrado a cada Batismo. Também nos é lembrado a cada vez que escutamos o próprio Jesus afirmando: «Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8,12). O tema da luz explica a importância das curas de cegos no Evangelho.

Em uma cena do drama «O pai humilhado», de Paul Claudel, uma moça judia, linda, cega, aludindo ao duplo significado da luz, pergunta a seu amigo cristão: «Vós que vedes, que uso fizestes da luz?» É uma pergunta dirigida a todos nós que nos confessamos cristãos. Temos a Luz: o que dela fazemos? O que queremos enxergar com ela?

A nossa dificuldade em dar resposta coerente à judia cega é que usamos mal ou desconhecemos a atitude necessária para fazer bom uso da luz, da Luz. Tentamos o critério do poder, da majestade, do milagre, e a fé se deforma. Optamos pelo critério do julgamento, do medo da justiça divina, e a fé torna-se risível.

O Natal nos aponta uma palavra iluminadora: a HUMILDADE. A humildade de Deus. Nosso Deus é humilde. Se tivermos dificuldade em admitir essa verdade contida em todas as Escrituras, o Cristianismo perde o sentido e até a razão de ser. Os maiores críticos da revelação cristã apontam exatamente a incoerência de um Deus todo-poderoso mas que é frágil, impotente. Nessa fragilidade, porém, é que reside a força e a potência do Deus Trindade. A manjedoura de Belém e a Cruz do Calvário são os sinais mais poderosos da humildade divina.

Deus pede hospedagem a Abraão, suplica a Moisés que liberte seu povo – um povo de escravos no Egito, pede a profetas frágeis que desarmados falem a reis, sofre por ser traído em seu amor esponsal, quer ter uma mãe, escolhida entre jovens da insignificante Nazaré. Os anjos cantam Glórias, mas o Filho tem de fugir para o Egito e, no retorno, a vida silenciosa de 30 anos.

A humildade de nosso Deus se revela na figura do Pai sofrido que espera o filho pródigo, do Filho que aceita ser manifestado como manso Cordeiro, pequeno Pão consagrado, do Espírito Santo simbolizado na carinhosa pombinha.

O Deus humilde chega até nós, mas não nos substitui, pois não quer que nos sintamos incapazes. Refuta o milagre triunfal que nos deixaria amorfos, submetidos ao fatalismo da história.

Deus pede licença para nos perdoar: é o Espírito que geme em nós para que reconheçamos nossa condição e o faz tão delicadamente que na distração da vida não o percebemos.

A humildade de Deus é tão clara que somente podemos vê-lo (sim, ele pode ser contemplado) no faminto, no doente, preso, desabrigado, sedento, doente, nu. O Deus humilde não nos julga pelo que lhe tenhamos feito, mas pelo que fizemos ou não a seus filhos e, dentre esses, os mais insignificantes.

O verdadeiro povo do Deus verdadeiro é o povo humilde, que invoca o Bom Jesus, o Bom Deus. É o povo nunca culpando o pobre Deus por nada. Eles, que são pobres, reconhecem a pobreza de Deus e, por isso, ao pedirem uma graça, até lhe oferecem algum voto ou retribuição. Para eles a Bíblia é Palavra de Deus que lhes é dirigida, não um problema intelectual. Os sábios dizem: isso é fundamentalismo!

Na cena memorável do romance Os Irmãos Karamazov, Dostoievski coloca Jesus sendo julgado e condenado pelo Inquisidor de Sevilha porque rejeitou o poder, a fama, o milagre. Por que rejeitar o milagre tendo poder para fazê-lo?  E o humilde Jesus nada responde, porque Deus Pai não quer ser temido e ter o mundo facilitado pelo poder dos milagres. Ele quer agir e deixar agir pela única força que os humildes possuem e que é a única força divina: o amor. O amor é o ato perfeito dos humildes, que nada pedem em troca, que agem silenciosamente, que não pensam em si.

Nosso Deus é humilde porque é Amor. Sempre será desprezado pelos soberbos e pelos cristãos ciosos de um lugar de prestígio no mundo religioso.

Os pastores acreditaram no anúncio de anjos e adoraram o Menino. Os Reis vieram do Oriente e adoraram o Deus Menino no menino Deus. Aceitemos a fragilidade de Deus para sermos fortes no amor.

Pe. José Artulino Besen

, , ,

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: