Ecclesia

Sacerdote, membro do presbitério da Sacra Arquidiocese Ortodoxa Grega de Buenos Aires e América do Sul - Patriarcado Ecumênico, pároco-reitor da Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau, de Florianópolis-SC (Brasil), desde 1° de julho de 2018.

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A DORMIÇÃO E A ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU

 

A minh’alma glorifica o Senhor,
porque olhou para a humildade de sua serva (Lc 1,46-48).

Vinde de todos os confins do universo,
cantemos a bem-aventurada trasladação da Mãe de Deus!
Nas mãos do Filho ela depositou a sua alma sem pecado:
com a sua santa Dormição o mundo é vivificado;
e é com salmos, hinos e cânticos espirituais,
em companhia dos anjos e dos apóstolos,
que ele a celebra na alegria.

Oh, os teus mistérios, ó Pura!
Apareceste, ó Soberana, trono do Altíssimo
e nesse dia te transferiste da terra para o céu.
A tua glória brilha com o resplendor da graça.
Virgens, subi para o alto com a Mãe do Rei.
Ó cheia de graça, salve, o Senhor é contigo:
ele que doa ao mundo, por teu intermédio,
a grande misericórdia.

A comemoração da assunção de Maria ao céu deita raízes no século II e sua festa na Liturgia cristã é fixada no século VII, tanto na Igreja oriental como na ocidental. A festa foi fixada para o 15 de agosto e era precedida de um jejum de 15 dias, recebendo uma liturgia solene, devota e bela, como convinha à Mãe de Deus. Não se economizavam as palavras para o louvor daquela que deu carne ao Filho de Deus.

Tudo o que Deus, desde a eternidade, planejara para o ser humano, pôde realizá-lo em Maria.  Eva, a primeira mulher, optou pelo não à amizade divina e Maria, a nova mulher, disse sim. E nela foi plena a graça de Deus. Bendita entre as mulheres, não conheceu o pecado. Diante do Anjo, aceitou ser serva da vontade divina. E nela o Filho de Deus se fez carne para habitar entre nós.

Maria conservou íntegro o ser imagem e semelhança de Deus. Livre do pecado original foi também livre de suas consequências. Permaneceu virgem e, como virgem, concebeu e deu à luz um filho, o Messias. Nossa fé afirma que Maria, a Mãe do Messias-Cristo, é uma virgem, uma mulher na condição de quem “não conheceu homem”, não se uniu a homem algum: sua maternidade de Jesus procede da sua virgindade. Eis o paradoxo, o extraordinário, o miraculoso do nascimento de Jesus. Este paradoxo quer significar que somente Deus nos podia dar um homem como ele: Jesus não nasceu “do sangue e carne, nem da vontade do homem”, e isso é afirmado pelos evangelhos através da virgindade de Maria, tornada mãe pela potência do Espírito Santo.

São numerosos os lugares dedicados a Maria: santuários e igrejas dedicados a Maria no campo e na cidade, nos montes e nas ilhas menores e solitárias. Nesses locais, quantas orações, quantos cantos elevados a ela. A essa mulher, pintada ou esculpida, um número incalculável de pessoas olhou e olha como se olha a Mãe. Na sua desolação, em suas angústias e em seu pranto, pedem o impossível confiando que ela possa escutá-los, ter misericórdia, porque nela sentem a Mãe: “mostra-te Mãe”, invocam. Quantas vezes temos em nossas igrejas a imagem da “Pietà”, Maria que segura em seus braços o filho morto: diante dessa imagem, quantas mulheres choraram e choram o filho morto; quantos fiéis suplicam para serem acolhidos, ao final de sua vida, em seus braços maternos, braços de Maria mãe! Maria está inseparavelmente inserida no mistério do Verbo encarnado e, dirigindo-se à Mãe de Deus, sabemos estar nos dirigindo àquela que intercede junto a seu Filho.

O ano litúrgico do Oriente tem início com a festa de 8 de setembro, quando celebra o nascimento de Maria, e termina com a festa de 15 de agosto, festa da Dormição de Maria e sua Assunção ao céu.

A liturgia realça Maria como mãe do Verbo encarnado e poderosa intercessora. Há uma estreita relação entre Cristo e Maria, entre o dom feito por ela e a fonte de onde jorra o próprio Cristo: “Infunde paz em minha alma, ó Virgem, com a paz serena de teu Filho e Deus. Cura-me, ó Mãe de Deus, tu que és bondade e deste à luz o Bom”. “Tu que geraste o timoneiro, o Senhor, aplaca o tumulto das minhas paixões e as violentas ondas de minhas quedas”, rezamos no Ofício da Assunção.

Assunção de Maria ao céu

Virgem de Vladimir, século XII

Todo filho oferece o melhor possível à sua mãe. Jesus, o todo-poderoso, nada negaria à Mãe, Maria. Não permitiria que o corpo de Maria sofresse a corrupção, pois seu corpo santo e puro não poderia sofrer as consequências do pecado, de que foi livre por graça divina, pela sua imaculada conceição.

O amor a Maria, os hinos em seu louvor são entoados em toda a história da Igreja: os Santos Padres, os teólogos, os monges, papas e bispos, nenhum poupou o agradecimento a Deus por nos ter dado tão santa Mãe. Orações, cantos e ladainhas testemunham essa devoção e afeto.

A piedade popular narra que todos os Apóstolos, espalhados pelo mundo, foram chamados e transportados pelos anjos até Jerusalém para se despedirem da Mãe. Ela terminou sua jornada na terra contemplada pelos amigos dela e de seu Filho. Foi sepultada no Getsêmani, mas, seu santo corpo não permaneceu no túmulo. O Filho a transportou para a glória celeste, onde reina com o Pai, e é a intercessora dos homens e mulheres, mãe vigilante de toda a história humana.

A Igreja manteve a fé na divina assunção de Maria ao céu e, coroando o caminho de devoção à Mãe do Senhor, no dia 1º de novembro de 1950 o Papa Pio XII, após consultar o episcopado e os teólogos, proclamou o dogma da Assunção com a Constituição apostólica Munificentissimus Deus. Após percorrer pela história da teologia e a fé mariana do povo cristão, definiu:

Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus onipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.

A assunção de Maria ao céu é um sinal das coisas últimas. Em Maria nos é dada uma antecipação da glorificação de todo o universo que acontecerá no final dos tempos, quando Deus será “tudo em todos”, “tudo em toda coisa”. A dormição-assunção antecipa a parusia, e prepara nosso destino comum. A gloriosa Mãe de Deus é nossa mãe, em seu regaço guarda todos os filhos. Cheios de amor e gratidão sabemos que por mais que falemos de Maria, nunca falaremos o suficiente, nunca falaremos demais. Ao invocarmos sua proteção sabemos que nossas preces se dirigem àquela que está junto do Filho: ela é a intercessora celeste, junto do Deus Trindade.


Pe. José Artulino Besen

 

Obs.: a Festa é fixada para o dia 15 de agosto. No Brasil, onde não há o feriado, é no domingo seguinte e, neste ano de 2018, no dia 19 de agosto.

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PADRE JOÃO CARDOSO

Padre João Cardoso – em 2009, Jubileu Áureo sacerdotal

João nasceu no Barracão, Brusque em 16 de maio de 1925, filho de Armindo João Cardoso e de Rosa Cândido de Jesus. Numerosa família de 11 irmãos. Em família assim, os filhos recebiam apelidos, e a João coube o de “Janga”.

O pai sustentou a família com o trabalho agrícola e com um engenho de farinha, no Barracão. Aos domingos gostava de tocar bailes, e João era muito dado a festas, especialmente a danças, as domingueiras de domingo à tarde.

Com 15 anos recebeu o primeiro emprego, de tecelão na Fábrica Renaux.

O tempo passou e, sendo um homem maduro nos seus 21 anos, começou a se questionar o que faria da vida: trabalhar, dançar, divertir-se, namorar?

E pensou em ser padre. Procurou o pároco de Brusque, um padre dehoniano. Este respondeu-lhe que já estava muito maduro para entrar no Seminário. Era ideia corrente que alguém adulto já estaria com convicções formadas e seria difícil passar-lhe novos valores, amoldá-lo para o sacerdócio.

João foi ao Seminário de Azambuja e lá encontrou o bondoso reitor Pe. Bernardo Peters, que logo o acolheu.

E assim, em 1947, com 22 anos ingressou no Pré-seminário em São Ludgero, para estudar o Preliminar, curso de admissão ao ginásio, tendo em vista que tinha cursado apenas o primário.

Os estudos em Azambuja foram de 1948 a 1952, um peso a ser carregado. Ali aprendeu a amar confiantemente Nossa Senhora do Caravaggio.

Cursou a Filosofia no Seminário de São Leopoldo/Viamão, de 1953 a 1955. A Teologia em Viamão, de 1956 a 1958. Podemos imaginar o sacrifício que era para João Cardoso estudar em latim, mas, ele queria ser padre e a dificuldade estava incluída no caminho.

A ordenação diaconal foi em 21 de dezembro de 1958, na catedral de Florianópolis.

Finalmente, em 6 de dezembro de 1959, o arcebispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira ordenou-o padre, também na catedral de Florianópolis. Estava com 34 anos de idade, com toda a força para viver o ministério sacerdotal.

Ministério sacerdotal

Os muitos anos de presbítero, 58 anos, foram vividos numa área relativamente pequena sempre no município de Florianópolis, na baía sul na Ilha e no Estreito, continente. E, para sua alegria, sempre sob o patrocínio de Nossa Senhora a quem dedicava todo o seu afeto.

Padre João Cardoso – em 1959, neo-sacerdote

Em 6 de dezembro de 1959 foi nomeado vigário paroquial de Nossa Senhora de Fátima e Santa Teresinha, no Estreito, Florianópolis. Ali teve início seu “roteiro” pastoral: missa, confissões, visitar e benzer casas e difundir o Rosário.

Em 17 de janeiro de 1962, foi transferido como vigário paroquial de Nossa Senhora do Desterro, catedral de Florianópolis, onde era pároco Pe. Francisco Bianchini, atendendo mais a comunidade da Prainha, cuja Padroeira escolheu: sua querida Santa Teresinha do Menino Jesus. Num ano ergueu e inaugurou nova igreja. Foi incansável sua dedicação aos pobres, organizando a distribuição de cestas básicas doadas pelo serviço americano Aliança para o Progresso. Vivia-se o medo do comunismo, da influência soviética e ele pessoalmente estava atento a denunciar qualquer liderança que difundisse convicções políticas de esquerda. Para ele, o regime militar foi uma bênção de Nossa Senhora de Fátima, livrando o Brasil do comunismo ateu. Pe. Cardoso apreciava a Missa dos Homens, na Catedral, onde insistia na fidelidade conjugal e na confissão.

Empenhou-se na organização do Movimento Familiar Cristão – MFC, em 1965, buscando padres que aceitassem a direção espiritual das equipes.

Para sua alegria, em 13 de junho de 1966 recebeu a transferência para 1º Pároco de Nossa Senhora da Boa Viagem, Saco dos Limões, Florianópolis. Terminou a construção da igreja matriz, construiu o salão paroquial e a capela da Costeira do Pirajubaé. Foi exemplar sua dedicação ao povo, aos pobres, a cada ano benzendo as casas. A bênção era dada de modo prático e rápido: no domingo comunicava as ruas pelas quais passaria na semana e pedia que se deixasse uma janela aberta. E assim, ia caminhando, chegava à janela, fazia uma saudação, aspergia água benta e seguia em frente. Se a dona estivesse em casa, uma breve saudação e o presente de um santinho ou de um terço do rosário. Isso me faz recordar a “técnica” de outro velho vigário, Mons. Agenor Neves Marques, em Urussanga: pedia que esticassem um lençol no telhado e depois, num avião teco-teco, sobrevoava jogando água benta.

Esse trabalho, possibilitou-lhe conhecer todas as famílias da paróquia, o nome de cada fiel, criando vínculos de amizade que atravessaram os anos de sua vida. Transformou seu ministério em grande família.

De 1968 a 1972, por necessidade da arquidiocese, acumulou o trabalho com o de vigário encarregado de Nossa Senhora da Lapa, Ribeirão da Ilha.

Em 1972 foi internado no Beneficência Portuguesa, em São Paulo, para cirurgia de revascularização miocárdica. A cirurgia revascularização do miocárdio, popularmente conhecida como ponte de safena, hoje é uma das cirurgias mais realizadas em todo mundo. Ela é indicada em situações onde existem obstruções (entupimentos) importantes nas artérias do coração, conhecidas como artérias coronárias. Pe. João Cardoso foi operado por Dr. Adib Jatene. Era uma cirurgia de risco e o médico deu-lhe 8 anos de vida, felizmente ultrapassados em muitos anos. Em agosto de 1979, nova internação, pois sofrera infarto por insuficiência coronária aguda. Novo calvário em São Paulo, novas vitórias, num caso de pouca esperança.

Dizem que os que passam por cirurgia do coração se tornam carentes e, no caso de Pe. Cardoso, era verdadeiro pois a cada ano os paroquianos cantavam os parabéns por ocasião do aniversário. Era um evento.

Pe. João era a costumado a viver com simplicidade e a ser obedecido prontamente. As discussões por contrariedade tinham palavras até duras, inclusive com ameaças de vias de fato. Um homem criado na roça e na fábrica até os 22 anos conservava certos costumes de valentia.

Após 21 anos em Saco dos Limões, em 26 de junho de 1987 foi provisionado pároco de Nossa Senhora da Glória, Balneário, Florianópolis, substituindo a Monsenhor Valentim Loch. Uma paróquia de pequeno território, criação recente, povo de classe média que conhecia em boa parte, pois eram fregueses do Estreito, seu primeiro campo de apostolado.

Pe. João Cardoso, um padre devoto

Organizou e dirigiu 9 peregrinações a Israel, Fátima e Medjugorie, criando seus grupos de devotos e devotas. Especial atenção para os lugares de Milagres Eucarísticos, como Lanciano. Ao retornar, aproveitava as homilias para narrar o que viu, os milagres acontecidos, as palavras de Nossa Senhora. Isso contribuiu para que algumas pessoas, especialmente senhoras, passassem a ter visões durante a Missa e que ele ajudava a confirmar: se a senhora viu, é porque viu.

Pe. João Cardoso era um homem piedoso e devoto. Viveu e difundiu as três devoções Brancas: à Eucaristia, a Maria e ao Papa.

Era uma grande alma mariana. No seu período, quatro fenômenos encontraram forte difusão: o 3º Milagre de Fátima, as aparições em Medjugorie, as locuções de Vassula Ryden, publicadas sob o título A Verdadeira Vida em Deus, e o Movimento Sacerdotal Mariano do Pe. Stefano Gobbi.

Nesse novo campo sentiu-se livre para cultivar o espírito mariano e suas devoções pessoais, falando intensamente das aparições de Medjugorie e da difusão do 3º segredo de Fátima. Levava a sério toda notícia de manifestações marianas, pois, afirmava, é melhor acreditar, porque pode ser verdade e a gente sai ganhando.

Característica desse fenômenos é a transmissão imediata das revelações, via internet ou livros. Tinha-se o sentimento da comunicação instantânea com o mundo divino.

A igreja matriz de Nossa Senhora da Glória era centro forte dessas devoções que se concretizavam na oração do Terço. Quando Dom Eusébio Oscar Scheid soube que Pe. Cardoso promoveria mais uma conferência de Vassula Ryden, ordenou que a suspendesse. Mas, como fazê-lo, se tudo já estava preparado e bem anunciado? Desobedecer não queria. Encontrou a solução: deixou tudo organizado, saiu de casa naquele dia… e tudo aconteceu sem problema! Com relação ao Pe. Gobbi, ao qual Nossa Senhora falava em locuções interiores, Pe. João teve uma decepção: em duas noites o padre esvaziara sua adega.

Essa tendência ao maravilhoso, ao anúncio do fim dos tempos, do retorno do Senhor contribuiu para isolá-lo do conjunto do clero e a estimular a leitura devocional em detrimento da Sagrada Escritura. Com o tempo acrescentou a devoção ao Padre Pio, o Santo homem do confessionário. É claro que agia por reta intenção: levar as pessoas a evitar o pecado e buscar o confessionário, pois Nossa Senhora o pedia. Sua preocupação fundamental: a salvação das almas, o medo do inferno.

Em Balneário, Pe. João mantinha um programa religioso às 18hs, de segunda a sexta, retransmitido através de cornetas instaladas na torre. Pelo alto volume, começaram as reclamações. Quando lhe pediram que diminuísse o volume, respondeu que então menos gente poderia ouvir. As queixas aumentaram: “na hora que ele começa a falar, ninguém consegue fazer mais nada”, protestou uma moradora. Subindo o tom das reclamações, Pe. João foi claro: “os que não quiserem escutar, podem fechar a casa toda”. Alguns falavam que ele tinha complexo de radialista (cf. DC 20/11/1995).

Pe. João gostava de sair de carro para visitar paroquianos, colegas padres e, principalmente, o cemitério Jardim da Paz, em Azambuja, aonde se dirigia às segundas-feiras, para a celebração da Missa. E manifestava seu desejo de ali ser sepultado, num dia chegando a pedir que o povo reunido jurasse que cumpriria essa promessa. E assim foi.

Não era consumista, mas gostava de dinheiro e de pedi-lo, para as obras de caridade: doar cestas básicas a famílias pobres, levar alimento para o Carmelo e, com muita alegria, para os seminários. E também para imprimir seus cartões e santinhos.

Os últimos dias

E, num dia, sua saúde baqueou: uma infecção urinária e bactéria levou-o a longa internação hospitalar no SOS Cárdio, da qual saiu com dificuldade de fala e de andar, obrigando-o a servir-se de bengala. Recuperou-se bem da fala e suas faculdades mentais nada sofreram. Mas, não seria possível continuar no ofício de pároco. Deste modo, em 11 de fevereiro de 2007, foi nomeado vigário paroquial de Nossa Senhora de Fátima e Santa Teresinha, Estreito, Florianópolis, onde iniciara sua vida de padre.

Sentado vizinho a uma janela, manifestava sua disposição para confissões e para o atendimento a quem o procurasse a partir da 7h. Os mais assíduos eram os moradores de rua em busca de uma esmola e que recebiam sempre um conselho, 2 reais e uma paçoca de amendoim. Com o tempo conhecia-os todos e também conhecia as histórias de que se serviam para pedir um auxílio.

Era característica sua: dar presentes, santinhos, cartões de aniversário, telefonar e reclamar que não lhe tinham telefonado. Gostava de imprimir nas numerosas fotografias que distribuiu: “Se eu não fosse padre, gostaria de ser padre”.

Pe. Cardoso gostava de festejar aniversário, pois sentia-se amado, e comemorou os 25, 50 anos de ministério sacerdotal. O presente desejado era a presença do povo, que o deixava como criança feliz. Neste 16 de maio celebrou o último aniversário, agora os 93 anos. Estava feliz, até suspeitando de ser sua última festa.

Em setembro de 2016 a saúde enfraqueceu e era difícil que morasse na casa paroquial, que não dispunha de equipamentos apropriados. Por esse motivo, em 11 de outubro de 2016, foi residir na Orionópolis Catarinense, São José, acolhido generosa e fraternalmente pelo diretor, o orionita Pe. José Manoel dos Santos, a quem devemos a gratidão pelo gesto fraterno. Ficava muito feliz com visitas e telefonava quando escasseavam.

Pe. João Cardoso vivia preocupado com sua salvação eterna: “tenho preocupação com a morte, com minha apresentação diante de Deus”. Semanalmente recorria ao Tribunal da Misericórdia, à Confissão.,

Grande devoto de Nossa Senhora, da Mãe de Deus e dos sacerdotes, após breve internação no Hospital de Caridade, foi chamado por Deus num dia muito mariano: às 11,30h do dia 15 de agosto, dia da Assunção de Maria ao Céu.

Às 16h seu corpo foi introduzido no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, no Estreito, para que o povo pudesse velá-lo. Às 19,30, o bispo auxiliar emérito Dom Vito Schlickmann presidiu a Missa, concelebrada pelos padres que puderam se fazer presentes. E, no dia 16 de agosto de 2018, a viagem até Azambuja onde, no cemitério Parque da Saudade, foram celebradas as Exéquias, seguidas do sepultamento. Há muitos anos manifestara o desejo de ser sepultado em Azambuja, onde iniciara o caminho sacerdotal. Deus, que lhe concedeu longa existência e um longo sacerdócio, certamente o recebeu no Paraíso.


Pe. José Artulino Besen

 

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CRISE DE VOCAÇÕES, CRISE DE VIDA E DE FÉ

Comentamos muito a crise de vocações, a falta de padres e de religiosos. Uma crise dolorosa, porque priva da eucaristia tantas comunidades espalhadas pelo Brasil, pelos continentes. E pior: milhões de cristãos se acostumaram a tal ponto com essa crise que nem sentem fome da Comunidade, do Pão eucarístico. Nem percebem que essa crise revela a crise de nossa paternidade: a esterilidade de nossa vida não está despertando em nossos jovens o desejo de servir.

É também o fruto envenenado da cultura do provisório, do relativismo e da ditadura do dinheiro, que afastam os jovens da vida consagrada, de consagração definitiva ao anúncio do Evangelho e à partilha do Pão da vida. Em muitos lugares, a crise é gerada pela trágica diminuição dos nascimentos, a que denominamos “inverno demográfico”. Os jovens também podem estar sentindo os escândalos na vida interna da Igreja e o testemunho de uma vida morna, carregada como um peso e não como entrega libertadora. E não se deve esquecer o contratestemunho de padres e bispos que vivem preocupados com a administração de bens materiais, seguranças externas.

Nessa crise sentimos a hemorragia das vocações, o abandono do ministério assumido ou da aliança da vida religiosa, a rarefação numérica dos que iniciam a percorrer o caminho de seguir o Senhor. Isso de modo especial a partir dos anos 70: mostram uma esterilidade sem precedentes, que atingem toda a Igreja.

Francisco cita como causas a taxa de natalidade, a secularização, o relativismo, a cultura do provisório e da incerteza, novas compreensões em matéria de ética e sexualidade etc. Essas patologias inibem e impedem escolhas totalizantes, escolhas de serviços aos irmãos e às irmãs, à humanidade e à Igreja. Devemos nos questionar a respeito de possíveis contradições da parte da própria igreja, contradições da vocação como ação do Deus fiel para sua comunidade.

Há algumas perguntas claras, cuja resposta nem sempre sabemos oferecer. A chamada crise de vocações é isso mesmo ou é uma crise de fé, da fé-confiança que se tornou frágil também na comunidade cristã e que se manifesta como falta de fé na vida, no futuro, naquilo que podemos ser chamados a viver e a realizar? Há na comunidade cristã a consciência de ser geradora de caminhos dos quais a comunidade tem necessidade para ser memória do Evangelho, memória vivente de Jesus Cristo?

Pode-se definir o ventre da comunidade cristã como “abortivo”, isto é, incapaz de fazer desenvolver os brotos de vocação que nunca faltam a um jovem que se defronta com a vida. Se na comunidade cristã faltam aqueles que sabem indicar os caminhos da vocação; se domina o “todos fazem assim”, se falta voz a quem poderia fazer emergir uma vocação, passa a faltar uma cultura da vocação, o ambiente no qual o jovem pode fazer a pergunta “Senhor, que queres que eu faça?”, onde receba orientação, um pouco de iluminação para o caminho; mas, deixado a si mesmo, o ventre eclesial é, no mínimo, abortivo.

Vocação à plenitude da vida

É necessário por em evidência que a todo ser humano é proposta uma vocação: a vocação humana, a vocação à plenitude da vida. Todo homem, toda mulher percebem uma chamada, um impulso, um desejo que o chama a sair de si mesmo, a decifrar e escolher o que fazer de sua vida, que sente ser única. O que fazer para não jogar fora a vida, para dar-lhe um sentido?

Se o viver é sem vocação, torna-se intolerável, e a vida se torna “líquida”, fragmentada, inconclusa. Há uma vocação humana que deve ser afirmada antes de todas as específicas vocações cristãs que somente podem nascer e crescer em quem vive em plenitude tal vocação à vida humana. Isso não deve ser esquecido porque hoje essa falta de húmus da vocação humana impede o enxerto, nela, de uma vocação cristã ao matrimônio, ao ministério ordenado ou à vida religiosa.

A comunidade cristã deve saber ser o sujeito que, na potência do Espírito Santo, chama e no seu seio sabe gerar homens e mulheres dos quais a igreja tem necessidade. Somente se for capaz de fazer ouvir a vocação à vida humana será também capaz de discernir as chamadas particulares, nos diferentes caminhos do discipulado.

Quanto à pastoral vocacional, dela conhecemos os limites e com frequência a esterilidade, se falta a presença concreta e quotidiana de quem pode acender o fogo no coração dos jovens, se não há a audácia de ser sinal, se as indicações se referem somente a um compromisso de ação – que pode ser bom, caridoso, generoso – mas não se favorece a vida interior, torna-se uma pastoral que consome muitas forças, mas permanece infecunda.

Uma igreja sem religiosos, sem frades e sem monges, certamente será católica, mas empobrecida, porque privada de um testemunho decisivo da memória do Evangelho.


Pe. José Artulino Besen

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SANTA MARIA MADALENA, TESTEMUNHA E APÓSTOLA DA RESSURREIÇÃO

Giotto di Bondone (Noli me tangere) , 1304-06, afresco, Cappella Scrovegni, Pádua

Por vontade do papa Francisco, um decreto da Sagrada Congregação do Culto divino de 3 de junho de 2016 elevou a memória litúrgica de Santa Maria Madalena à Festa igual à dos Apóstolos, com data de 22 de julho. Por que essa memória litúrgica de 22 de julho é equiparada à Festa dos Apóstolos? Uma mulher por muitos identificada com a prostituta da Galiléia ou com a mulher que no banquete na casa de Simão lava e unge os pés do Senhor com perfume caríssimo, receber a honra apostólica? Na verdade, desde uma homilia do grande papa São Gregório Magno, as três mulheres são reduzidas a uma “Maria”. E assim ficamos 1.500 anos celebrando Maria Madalena como a Maria de Betânia e a Maria prostituta. Essa redução de Maria Madalena provocou toda uma linha de arte, literatura e, ultimamente, filmes que a retratam como mulher lânguida, erótica, apaixonada. No linguajar popular, Maria Madalena se tornou sinônimo de mulher vulgar. Leia o resto deste post »

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DOM PEDRO CASALDÁLIGA – OS 90 ANOS DE UM PROFETA VIVENTE

Dom Pedro Casaldáliga – força e fragilidade de um profeta

Pedro Casaldáliga, Dom Pedro, nasceu em 16 de fevereiro de 1928 em Bolsareny, Espanha. Ingressou na Congregação dos Claretianos e foi ordenado padre em 1952. Vocação missionária, chegou ao Brasil em julho de 1968, na época mais dura da ditadura militar. Foi ordenado primeiro bispo de São Felix do Araguaia, Mato Grosso, em 23 de outubro de 1971. Seu compromisso cristão com os mais pobres ficou claro em sua primeira carta pastoral: “Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social”.

Adotou como lema para sua atividade pastoral Nada Possuir, Nada Carregar, Nada Pedir, Nada Calar e, sobretudo, Nada Matar.

Em pouco tempo sua figura transcendeu os limites da diocese, pois contribuiu decisivamente na fundação de duas entidades-chave na história da Igreja brasileira: a Comissão de Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), organismos fundamentais na luta em favor da Reforma Agrária e do respeito aos povos indígenas brasileiros. Leia o resto deste post »

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LUZ NAS TREVAS DE DACHAU

Bem-aventurado Karl Leisner (1915-1945)

Em 27 de janeiro foi celebrado mais um Dia da Memória, recordando o 27 de janeiro de 1945, quando o exército alemão foi derrotado e os russos entraram na Alemanha destruída. É um dia dedicado às vítimas do anti-semitismo, do ódio ao povo judeu morto nos campos de concentração. É a Jornada do Holocausto, a SHOAH.

Vale a pena ter presente que nos momentos e lugares dramáticos da história humana, por mais densas que sejam as trevas, sempre há alguma luz a indicar que a última palavra é da vida e do amor, e não da morte.

Nossa memória se fixa no campo de concentração alemão de Dachau, onde, a partir de 1940, os nazistas instalaram a “barraca dos padres”, local de prisão dos padres que tinham sido surpreendidos em atividades anti-nazistas. Ali estiveram presos 2.720 religiosos, dos quais 1.024 não saíram vivos. Em sua maioria eram padres católicos, mas não faltaram pastores protestantes, popes ortodoxos. Nesse mundo de dor, cercado de ódio, viveram o que Francisco denomina “ecumenismo de sangue”, uma unidade brotada da vida doada pelos irmãos cristãos, sem controvérsias dogmáticas, unidos pela fé em Jesus Cristo.

Ali estava prisioneiro Karl Leisner (*1915), diácono da diocese de Münster, onde tinha ingressado no seminário. A prisão foi castigo de algumas palavras que dissera em apoio ao atentado contra Adolf Hitler. Karl estava tomado pela tuberculose, num estado de saúde agravado pelas consequências da má alimentação, dos maus tratos, da má acomodação. A cada dia seu quadro se agravava, e era levado para a enfermaria   onde procurava exercer o ministério diaconal confortando os outros doentes.

Mas, seu estado piorava e os colegas da “barracão dos padres” se enchiam de compaixão: como poderiam oferecer a Karl a graça do sacerdócio, tão desejada por ele? Mas, como ordená-lo sem a presença de um bispo?

Karl Leisner num acampamento de crianças

Em setembro de 1940 chegou da França um trem carregado de prisioneiros. Entre eles estava Dom Gabriel Piguet, bispo de Clermont. Era e foi o único bispo francês a ser deportado para um campo de concentração. Um homem corajoso e justo, que colocou igrejas e colégios à disposição dos judeus que neles ocultaram suas crianças.

Tomando conhecimento do drama vivido pelo jovem diácono, com pouco tempo de vida, aceitou ordená-lo padre. Através de canais secretos, chegou a carta do bispo de Münter Clement von Galen, com a autorização para sua ordenação.

No campo de concentração de Dachau, Dom Gabriel Piguet era apenas o prisioneiro número 103.001, com nada a distingui-lo como bispo. Todos os outros presos estavam torcendo para que Karl Leisner tivesse a alegria de ser padre e pudesse celebrar a Missa. Com um pedaço de latão foi feito o anel episcopal, um pedaço de madeira serviu para entalharem a cruz peitoral e até um mitra foi feita em grande segredo.

Era preciso garantir a segurança da celebração e, assim, um deportado judeu ofereceu um concerto de violino para distrair os guardas nazistas, e os pastores evangélicos se ocuparam em preparar um café para comemorar o final do rito. Revestido de suas humildes insígnias episcopais Dom Gabriel Piguet impôs as mãos sobre o jovem companheiro de prisão. Para alegria de todos, era agora o Pe. Karl Leisner. Era o dia 17 de dezembro de 1944. Eram de tal modo agravadas as condições de saúde do jovem neo-sacerdote que somente no dia 26 de dezembro pode celebrar sua primeira Missa.

A ordenação sacerdotal de Karl Leisner foi das mais belas e completas: o bispo oficiante era um prisioneiro francês que dava a vida pelas crianças judias, os padres concelebrantes ofereciam vida naquela Missa no ambiente de morte de um campo de concentração, evangélicos, judeus e ortodoxos participavam da alegria dos irmãos católicos. Como insígnias episcopais, um anel de latão, uma cruz de madeira e uma mitra de papelão e, como vestes, o macacão de um prisioneiro com o número 103.001. Nessa grande e bela Liturgia, se fazia presente a beleza do sacerdócio: dar a vida como Cristo a deu, proclamando o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Quando os americanos libertaram o Campo de Dachau, em abril de 1945, Pe. Karl ainda estava vivo. Mas não se reergueu, morrendo em 12 de agosto de 1945.

Em 23 de junho de 1993, o papa João Paulo II o declarou Bem-aventurado: o sacerdote por oito meses foi um mártir da fé cristã, colocado diante de todos como luz que brilhou nas trevas.


Pe. José Artulino Besen

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 I DIA MUNDIAL DOS POBRES

Crianças com fome

 “Não amemos com palavras, mas com obras”

“Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade” (1 Jo 3, 18). Esse mandamento de Jesus transmitido ao Discípulo Amado foi escolhido por Francisco como palavra orientadora para o I DIA MUNDIAL DOS POBRES, neste ano em 19 de novembro. Um convite a deixarmos as palavras vazias, fáceis de serem proferidas e substitui-las pelas obras concretas, únicas que podem medir o que valemos, únicas que indicam nossa capacidade de responder ao amor de Deus que nos deu seu Filho. A Mensagem papal foi entregue em 13 de junho, dia de Santo Antônio, o Santo dos Pobres. Através dela, de sua riqueza, oferecemos alguns pontos de vivência e reflexão.

Quando Pedro pediu que se escolhessem sete homens “cheios de Espírito e sabedoria” (At 6, 3) que assumissem o serviço aos pobres, temos um dos primeiros sinais com que a comunidade cristã se apresentou no palco do mundo: o serviço aos mais pobres. Os discípulos de Jesus expressavam o ensinamento principal do Mestre que tinha proclamado os pobres bem-aventurados e herdeiros do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3). «Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um» (At 2, 45). Isto mostra como os cristãos tinham claro que a misericórdia não era retórica, mas necessidade concreta de partilha na primeira comunidade. Leia o resto deste post »

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BEM-AVENTURADO PADRE JOÃO SCHIAVO

Pe. João Schiavo

Padre João Schiavo – bem-aventurado

É motivo de alegria para a Igreja a proclamação de santos e bem-aventurados. Eles são a elite da comunidade cristã, tendo sido sua vida fiel e radical seguimento de Jesus proposta a todos os cristãos.

No próximo dia 28 de outubro, em Caxias do Sul o Cardeal Angelo Amato representará o papa Francisco na proclamação do Padre João Schiavo como bem-aventurado.

João Schiavo nasceu na Itália, em Sant’Urbano de Montecchio Maggiore, em 8 de julho de 1903. Desde criança desejava ser padre. Quando lhe foi oferecida colocação no serviço público rejeitou-a com firmeza, pois seu caminho era ser padre e ser missionário. Entrou na Congregação dos Josefinos de Murialdo e, em 10 de julho de l927, apenas completados 24 anos, foi ordenado sacerdote.

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FRANCISCO DE ASSIS, O POBREZINHO DE DEUS

Francisco consola Jesus

Há 800 anos Francisco impele o Cristianismo a retornar às fontes: ao Jesus em Belém e a Jesus no Calvário. E deixou-nos, para lembrança contínua, o Presépio e a Via-sacra.

Sua herança não é uma doutrina, mas um espírito, um jeito de ser. A melhor palavra que expressa a mensagem vital de Francisco foi dada pelo primeiro biógrafo, Tomás de Celano: “Francisco foi enviado por Deus num momento em que a doutrina evangélica estava quase esquecida por toda a parte, para mostrar a loucura da sabedoria humana e, com a sua loucura, reconduzir os homens à sabedoria de Deus”.

Este jovem nascido em Assis em 1182, formou seu caráter até o íntimo, mediante a liberdade do cristão, que não é dominador e sim servidor e irmão de tudo, também dos animais, das plantas, das rochas, da água, do sol e da lua. Suas atitudes mostram uma face comovente de sua personalidade e vida, a ponto de parecer incompreensível que quisesse ser um palhaço neste e por este mundo, pois compreendeu que não pode existir um Cristianismo que ao mesmo tempo não seja um escândalo.

Ele é um milagre: não existiu na história cristã – nem em toda a história humana – uma personalidade cuja rica vida espiritual seja construída até o último sobre uma experiência pessoal interior. Nunca existiu tal gênio humano em que, por um instante, o “eu” tenha prevalecido sobre o puro serviço.

Era dotado de enorme bom senso, sabedoria e bom humor. Não era um infantil, era um homem livre desde a juventude, tão livre que podia se dar ao direito de ser criança, falar com os animais, com o fogo, tomar atitudes que pareciam tolice, mas eram fruto dessa liberdade interior que se irradiava pelo exterior. Leia o resto deste post »

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PRIMEIROS MÁRTIRES BRASILEIROS

Os Mártires de Cunhaú e Uruaçu

Dia 15 de outubro, na Praça de São Pedro, em Roma, Francisco canonizará o grupo de 30 mártires brasileiros, que foram declarados bem-aventurados por São João Paulo II no ano 2000.  São dois sacerdotes, jovens, pais e mãe de família, crianças e adultos. Foram trucidados e mortos pela fidelidade à fé católica e pela defesa da Eucaristia.

Em 16 de junho de 1645, o Pe. André de Soveral e outros 70 fiéis foram cruelmente mortos por 200 soldados holandeses e índios potiguares. Os fiéis estavam participando da missa dominical, na Capela de Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú – no município de Canguaretama (RN). O que motivou a chacina? A intolerância calvinista dos invasores que não admitiam a prática da religião católica: isso custou-lhes a própria vida.

A chacina de Cunhaú

O movimento de insurreição contra o domínio holandês já começara em Pernambuco, mas, na capitania do Rio Grande do Norte, tudo parecia normal. Bastou, porém, a presença de uma só pessoa para que o clima se tornasse tenso: Jacó Rabe, um alemão a serviço dos holandeses. Ele chegara a Cunhaú no dia 15 de julho de 1645.

Rabe era um personagem por demais conhecido dos moradores de Cunhaú. Suas passagens por aquelas paragens eram frequentes, sempre acompanhado dos ferozes tapuias, semeando por toda parte ódio e destruição. A simples presença de Rabe e dos tapuias era motivo para suspeitas e temores.

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O POBRE NÃO É NOSSO LIXEIRO

De graça recebestes, de graça dai (Mt 10,8)

Setembro é chamado de “mês da Bíblia”, da Sagrada Escritura, da Palavra de Deus. Para não complicarmos o que Deus nos fala, talvez baste dizer que a Bíblia é o livro da Caridade, manual da misericórdia.

É triste o que se constata em muitas campanhas em benefício de pessoas carentes: alguns oferecem aquilo que não tem mais nenhuma utilidade: roupas sujas e descosidas, sapato sem o par, chinelos gastos, brinquedos quebrados, comida vencida, dinheiro que não compra nem uma bala e assim por diante. Há quem se serve de campanhas de solidariedade para fazer faxina em guarda-roupa, dispensa e casa. Numa palavra, o pobre torna-se nosso lixeiro!

Na mão estendida do pobre ou na coleta de nossa igreja, depositamos a nota de menor valor ou, pior ainda, até moeda já sem validade. O momento da generosidade é transformado na declaração da sovinice, no desprezo pelo necessitado. Não é colaboração, solidariedade, mas atestado de desumanidade. Há um princípio da sabedoria bíblica que nos pede não fazermos aos outros o que não queremos que nos façam (Mt 7,12). Se algo não me serve, também não serve para meu próximo. Leia o resto deste post »

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