CRISE DE VOCAÇÕES, CRISE DE VIDA E DE FÉ

Comentamos muito a crise de vocações, a falta de padres e de religiosos. Uma crise dolorosa, porque priva da eucaristia tantas comunidades espalhadas pelo Brasil, pelos continentes. E pior: milhões de cristãos se acostumaram a tal ponto com essa crise que nem sentem fome da Comunidade, do Pão eucarístico. Nem percebem que essa crise revela a crise de nossa paternidade: a esterilidade de nossa vida não está despertando em nossos jovens o desejo de servir.

É também o fruto envenenado da cultura do provisório, do relativismo e da ditadura do dinheiro, que afastam os jovens da vida consagrada, de consagração definitiva ao anúncio do Evangelho e à partilha do Pão da vida. Em muitos lugares, a crise é gerada pela trágica diminuição dos nascimentos, a que denominamos “inverno demográfico”. Os jovens também podem estar sentindo os escândalos na vida interna da Igreja e o testemunho de uma vida morna, carregada como um peso e não como entrega libertadora. E não se deve esquecer o contratestemunho de padres e bispos que vivem preocupados com a administração de bens materiais, seguranças externas.

Nessa crise sentimos a hemorragia das vocações, o abandono do ministério assumido ou da aliança da vida religiosa, a rarefação numérica dos que iniciam a percorrer o caminho de seguir o Senhor. Isso de modo especial a partir dos anos 70: mostram uma esterilidade sem precedentes, que atingem toda a Igreja.

Francisco cita como causas a taxa de natalidade, a secularização, o relativismo, a cultura do provisório e da incerteza, novas compreensões em matéria de ética e sexualidade etc. Essas patologias inibem e impedem escolhas totalizantes, escolhas de serviços aos irmãos e às irmãs, à humanidade e à Igreja. Devemos nos questionar a respeito de possíveis contradições da parte da própria igreja, contradições da vocação como ação do Deus fiel para sua comunidade.

Há algumas perguntas claras, cuja resposta nem sempre sabemos oferecer. A chamada crise de vocações é isso mesmo ou é uma crise de fé, da fé-confiança que se tornou frágil também na comunidade cristã e que se manifesta como falta de fé na vida, no futuro, naquilo que podemos ser chamados a viver e a realizar? Há na comunidade cristã a consciência de ser geradora de caminhos dos quais a comunidade tem necessidade para ser memória do Evangelho, memória vivente de Jesus Cristo?

Pode-se definir o ventre da comunidade cristã como “abortivo”, isto é, incapaz de fazer desenvolver os brotos de vocação que nunca faltam a um jovem que se defronta com a vida. Se na comunidade cristã faltam aqueles que sabem indicar os caminhos da vocação; se domina o “todos fazem assim”, se falta voz a quem poderia fazer emergir uma vocação, passa a faltar uma cultura da vocação, o ambiente no qual o jovem pode fazer a pergunta “Senhor, que queres que eu faça?”, onde receba orientação, um pouco de iluminação para o caminho; mas, deixado a si mesmo, o ventre eclesial é, no mínimo, abortivo.

Vocação à plenitude da vida

É necessário por em evidência que a todo ser humano é proposta uma vocação: a vocação humana, a vocação à plenitude da vida. Todo homem, toda mulher percebem uma chamada, um impulso, um desejo que o chama a sair de si mesmo, a decifrar e escolher o que fazer de sua vida, que sente ser única. O que fazer para não jogar fora a vida, para dar-lhe um sentido?

Se o viver é sem vocação, torna-se intolerável, e a vida se torna “líquida”, fragmentada, inconclusa. Há uma vocação humana que deve ser afirmada antes de todas as específicas vocações cristãs que somente podem nascer e crescer em quem vive em plenitude tal vocação à vida humana. Isso não deve ser esquecido porque hoje essa falta de húmus da vocação humana impede o enxerto, nela, de uma vocação cristã ao matrimônio, ao ministério ordenado ou à vida religiosa.

A comunidade cristã deve saber ser o sujeito que, na potência do Espírito Santo, chama e no seu seio sabe gerar homens e mulheres dos quais a igreja tem necessidade. Somente se for capaz de fazer ouvir a vocação à vida humana será também capaz de discernir as chamadas particulares, nos diferentes caminhos do discipulado.

Quanto à pastoral vocacional, dela conhecemos os limites e com frequência a esterilidade, se falta a presença concreta e quotidiana de quem pode acender o fogo no coração dos jovens, se não há a audácia de ser sinal, se as indicações se referem somente a um compromisso de ação – que pode ser bom, caridoso, generoso – mas não se favorece a vida interior, torna-se uma pastoral que consome muitas forças, mas permanece infecunda.

Uma igreja sem religiosos, sem frades e sem monges, certamente será católica, mas empobrecida, porque privada de um testemunho decisivo da memória do Evangelho.


Pe. José Artulino Besen

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