SANTA MARIA MADALENA, TESTEMUNHA E APÓSTOLA DA RESSURREIÇÃO

Giotto di Bondone (Noli me tangere) , 1304-06, afresco, Cappella Scrovegni, Pádua

Por vontade do papa Francisco, um decreto da Sagrada Congregação do Culto divino de 3 de junho de 2016 elevou a memória litúrgica de Santa Maria Madalena à Festa igual à dos Apóstolos, com data de 22 de julho. Por que essa memória litúrgica de 22 de julho é equiparada à Festa dos Apóstolos? Uma mulher por muitos identificada com a prostituta da Galiléia ou com a mulher que no banquete na casa de Simão lava e unge os pés do Senhor com perfume caríssimo, receber a honra apostólica? Na verdade, desde uma homilia do grande papa São Gregório Magno, as três mulheres são reduzidas a uma “Maria”. E assim ficamos 1.500 anos celebrando Maria Madalena como a Maria de Betânia e a Maria prostituta. Essa redução de Maria Madalena provocou toda uma linha de arte, literatura e, ultimamente, filmes que a retratam como mulher lânguida, erótica, apaixonada. No linguajar popular, Maria Madalena se tornou sinônimo de mulher vulgar.

Se formos fiéis aos textos evangélicos, perceberemos uma história diferente para as três mulheres com o nome de Maria, todas tocadas pelo amor do Senhor, com a vida transformada após o contato regenerador. São três Marias, três histórias de salvação.

Foram necessários dois Papas, João Paulo II e Francisco, para retomarmos a imagem verdadeira e única de Maria Madalena. Foi São João Paulo II que dedicou uma grande atenção não só à importância das mulheres na própria missão de Cristo e da Igreja, mas também, e com forte acento, à função de Maria Madalena qual primeira testemunha que viu o Ressuscitado e, mais, a primeira mensageira que anunciou aos apóstolos a ressurreição do Senhor. Santo Tomás de Aquino (1225-1274) definiu-a como “apóstola dos apóstolos”, porque foi ela que anunciou aos discípulos amedrontados e fechados no cenáculo aquilo que eles, por sua vez, deveriam anunciar a todo o mundo.

Maria Madalena vê o Senhor

Era bem de madrugada, ainda escuro, e Maria Madalena foi ao túmulo e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Assustada, saiu correndo e foi se encontrar com Pedro e o Discípulo amado para queixar-se: “Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram”.  Os dois discípulos entram no túmulo e percebem que tudo estava em ordem como tinham deixado por ocasião do sepultamento, mas Jesus não estava lá. Viram e creram, e voltaram para casa.

Maria Madalena ficou perto do túmulo, do lado de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para olhar dentro do túmulo. Enxergou dois anjos, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Eles perguntaram-lhe: “Mulher, por que choras?”. Ela respondeu: “Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram”. Dizendo isto, Maria vivou-se para trás e enxergou Jesus em pé, mas não o reconheceu. Jesus perguntou-lhe: “Mulher, por que choras? Quem procuras?”. Pensando que fosse o jardineiro, ela disse: “Senhor, se foste tu que o levaste, dize-me onde o colocaste, e eu irei buscá-lo”. Então, Jesus falou: “Maria!”. Ela voltou-se e exclamou: “Mestre!” Alegre, ela buscou tocar Jesus, que lhe disse: “Não me segures, pois ainda não subi para junto do Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”.

Então, Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: “Eu vi o Senhor”, e contou o que ele lhe tinha dito (cf. Jo 20, 1-18). Ela penetrava no íntimo da fé: o Senhor ressuscitou.

Revelou ao mundo um novo mundo: Cristo ressuscitou! Esse anúncio não proveio de descoberta intelectual, ideológica, e crer nele exige entrar no mistério. Assim expressou Francisco: “Entrar no mistério significa capacidade de espanto, contemplação; capacidade de escutar o silêncio e escutar o murmúrio de um fio de silêncio sonoro no qual Deus nos fala. Para entrar no mistério é preciso humildade, humildade, a humildade de abaixar-se, de descer do pedestal de nosso orgulhoso eu. É preciso o rebaixamento que é impotência, esvaziamento das próprias idolatrias.

Tudo isso nos ensinaram outras mulheres discípulas de Jesus (cf. Lc 24, 1-8). Com Maria Madalena elas passaram a noite em vigília, bem cedinho, saíram levando perfumes e com o coração ungido pelo amor. Saíram e encontraram o sepulcro aberto. E entraram. Vigiaram, saíram e entraram no mistério. Não podemos nos confrontar com o evento da ressurreição racionalmente. Ele somente pode ser contemplado e experimentado participando de sua potência de atração que toca o íntimo. Isto ensinam as mulheres, que não buscam entender, mas se deixam agarrar, entram no mistério”.

São João Paulo II ressaltou a importância das mulheres na própria missão de Cristo e da Igreja e, de modo especial, à função peculiar, à função de Maria Madalena, a primeira testemunha que viu o Ressuscitado e a primeira mensageira que anunciou aos apóstolos a ressurreição do Senhor. Santa Maria Madalena é apresentada como um exemplo de “verdadeira e autêntica envangelizadora”, que anuncia a “alegre mensagem central da Páscoa”. Francisco quer significar a relevância desta mulher que mostrou um grande amor por Cristo e foi tão amada por Cristo. Fazia parte dos discípulos de Jesus, havia-o seguido até aos pés da cruz e, no jardim onde se encontrava o sepulcro, tinha sido a primeira testemunha da ressurreição, testemunha da divina misericórdia.

O decreto que insere a memória de Maria Madalena na liturgia como dos apóstolos encontra a explicação no atual contexto eclesial, que convida a refletir mais profundamente a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina.

Esperamos redescobrir na Igreja latina a Maria de Mágdala evangélica, discípula de Jesus, testemunha da ressurreição e, por isso definida por Francisco “apóstola da nova e grande esperança”.

Pe. José Artulino Besen

 

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  1. #1 por Maria Besen em 21 de julho de 2018 - 18:05

    Que bom que voltaste a produzir textos. Gostei da profundidade com que refletes a vida desta mulher. Abraço ________________________________

  2. #2 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 22 de julho de 2018 - 09:10

    Obrigado, Pe. José, pelo esclarecedor texto. Aprendemos com o Cônego Amilcar Gabriel, um humilde pároco do interior (Nova Veneza-SC), a admirar Santa Maria Madalena.

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