LUZ NAS TREVAS DE DACHAU

Bem-aventurado Karl Leisner (1915-1945)

Em 27 de janeiro foi celebrado mais um Dia da Memória, recordando o 27 de janeiro de 1945, quando o exército alemão foi derrotado e os russos entraram na Alemanha destruída. É um dia dedicado às vítimas do anti-semitismo, do ódio ao povo judeu morto nos campos de concentração. É a Jornada do Holocausto, a SHOAH.

Vale a pena ter presente que nos momentos e lugares dramáticos da história humana, por mais densas que sejam as trevas, sempre há alguma luz a indicar que a última palavra é da vida e do amor, e não da morte.

Nossa memória se fixa no campo de concentração alemão de Dachau, onde, a partir de 1940, os nazistas instalaram a “barraca dos padres”, local de prisão dos padres que tinham sido surpreendidos em atividades anti-nazistas. Ali estiveram presos 2.720 religiosos, dos quais 1.024 não saíram vivos. Em sua maioria eram padres católicos, mas não faltaram pastores protestantes, popes ortodoxos. Nesse mundo de dor, cercado de ódio, viveram o que Francisco denomina “ecumenismo de sangue”, uma unidade brotada da vida doada pelos irmãos cristãos, sem controvérsias dogmáticas, unidos pela fé em Jesus Cristo.

Ali estava prisioneiro Karl Leisner (*1915), diácono da diocese de Münster, onde tinha ingressado no seminário. A prisão foi castigo de algumas palavras que dissera em apoio ao atentado contra Adolf Hitler. Karl estava tomado pela tuberculose, num estado de saúde agravado pelas consequências da má alimentação, dos maus tratos, da má acomodação. A cada dia seu quadro se agravava, e era levado para a enfermaria   onde procurava exercer o ministério diaconal confortando os outros doentes.

Mas, seu estado piorava e os colegas da “barracão dos padres” se enchiam de compaixão: como poderiam oferecer a Karl a graça do sacerdócio, tão desejada por ele? Mas, como ordená-lo sem a presença de um bispo?

Karl Leisner num acampamento de crianças

Em setembro de 1940 chegou da França um trem carregado de prisioneiros. Entre eles estava Dom Gabriel Piguet, bispo de Clermont. Era e foi o único bispo francês a ser deportado para um campo de concentração. Um homem corajoso e justo, que colocou igrejas e colégios à disposição dos judeus que neles ocultaram suas crianças.

Tomando conhecimento do drama vivido pelo jovem diácono, com pouco tempo de vida, aceitou ordená-lo padre. Através de canais secretos, chegou a carta do bispo de Münter Clement von Galen, com a autorização para sua ordenação.

No campo de concentração de Dachau, Dom Gabriel Piguet era apenas o prisioneiro número 103.001, com nada a distingui-lo como bispo. Todos os outros presos estavam torcendo para que Karl Leisner tivesse a alegria de ser padre e pudesse celebrar a Missa. Com um pedaço de latão foi feito o anel episcopal, um pedaço de madeira serviu para entalharem a cruz peitoral e até um mitra foi feita em grande segredo.

Era preciso garantir a segurança da celebração e, assim, um deportado judeu ofereceu um concerto de violino para distrair os guardas nazistas, e os pastores evangélicos se ocuparam em preparar um café para comemorar o final do rito. Revestido de suas humildes insígnias episcopais Dom Gabriel Piguet impôs as mãos sobre o jovem companheiro de prisão. Para alegria de todos, era agora o Pe. Karl Leisner. Era o dia 17 de dezembro de 1944. Eram de tal modo agravadas as condições de saúde do jovem neo-sacerdote que somente no dia 26 de dezembro pode celebrar sua primeira Missa.

A ordenação sacerdotal de Karl Leisner foi das mais belas e completas: o bispo oficiante era um prisioneiro francês que dava a vida pelas crianças judias, os padres concelebrantes ofereciam vida naquela Missa no ambiente de morte de um campo de concentração, evangélicos, judeus e ortodoxos participavam da alegria dos irmãos católicos. Como insígnias episcopais, um anel de latão, uma cruz de madeira e uma mitra de papelão e, como vestes, o macacão de um prisioneiro com o número 103.001. Nessa grande e bela Liturgia, se fazia presente a beleza do sacerdócio: dar a vida como Cristo a deu, proclamando o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Quando os americanos libertaram o Campo de Dachau, em abril de 1945, Pe. Karl ainda estava vivo. Mas não se reergueu, morrendo em 12 de agosto de 1945.

Em 23 de junho de 1993, o papa João Paulo II o declarou Bem-aventurado: o sacerdote por oito meses foi um mártir da fé cristã, colocado diante de todos como luz que brilhou nas trevas.


Pe. José Artulino Besen

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