O POBRE NÃO É NOSSO LIXEIRO

De graça recebestes, de graça dai (Mt 10,8)

Setembro é chamado de “mês da Bíblia”, da Sagrada Escritura, da Palavra de Deus. Para não complicarmos o que Deus nos fala, talvez baste dizer que a Bíblia é o livro da Caridade, manual da misericórdia.

É triste o que se constata em muitas campanhas em benefício de pessoas carentes: alguns oferecem aquilo que não tem mais nenhuma utilidade: roupas sujas e descosidas, sapato sem o par, chinelos gastos, brinquedos quebrados, comida vencida, dinheiro que não compra nem uma bala e assim por diante. Há quem se serve de campanhas de solidariedade para fazer faxina em guarda-roupa, dispensa e casa. Numa palavra, o pobre torna-se nosso lixeiro!

Na mão estendida do pobre ou na coleta de nossa igreja, depositamos a nota de menor valor ou, pior ainda, até moeda já sem validade. O momento da generosidade é transformado na declaração da sovinice, no desprezo pelo necessitado. Não é colaboração, solidariedade, mas atestado de desumanidade. Há um princípio da sabedoria bíblica que nos pede não fazermos aos outros o que não queremos que nos façam (Mt 7,12). Se algo não me serve, também não serve para meu próximo.

O pobre com quem nos encontramos nas ruas de nossas cidades nos oferece uma oportunidade única: vermos nosso Deus, contemplar a beleza divina, pois tudo o que lhe fazemos “é a mim que o fazeis” (Mt 25, 35). Ele me engrandece, faz com que partilhe o que tenho com aquele que representa o Doador de todas as coisas.

A Sagrada Escritura, tão vasta em história, sabedoria, ensinamento oferece-nos de modo simples e perfeito a estrada a ser percorrida no serviço a Deus: nela estão o órfão, a viúva e o estrangeiro, em outras palavras, não nos permite fazer seleção a quem dar as mãos. A Palavra de Deus coloca diante de nós três categorias de pessoas e um mandamento: amar a Deus e ao próximo.

A esmola adquire sentido quando vemos no necessitado a dignidade de uma pessoa a quem damos até o que nos faz falta. E tem sentido pleno quando vemos no rosto do necessitado o rosto de Jesus Cristo. A esmola supõe renúncia, sacrifício aceito com alegria e é um ato de grandeza humana, um hino de louvor a Deus por aquilo que nos deu.

Além disso, o gesto de caridade não pode ser visto apenas como um favor. Para o cristão, é obrigação incluída nas obras de misericórdia, e condição para a salvação. A esmola engrandece o ofertante e dá dignidade a quem a recebe mas, quando dada com sovinice ou de mau humor, humilha quem a pediu, perdendo qualquer sentido.

O pobre que bate à nossa porta (seja ele um carente realmente necessitado ou alguém arrastado pelos vícios) é uma interrogação viva colocada aos nossos olhos: por que há gente com fome, transformada em lixo humano? Se todos devem ser iguais, por que há fartura para alguns e miséria para tantos? Neste momento a esmola adquire sua função pedagógica: pede para irmos além dela e nos empenhemos a fim de que não haja mais necessitados de esmolas.

Papa Francisco é incansável na defesa do pobre desterrado, da criança abandonada, da mulher ultrajada, do jovem inutilizado nos campos da violência, dos migrantes. Poucas vezes a história retrata com tanta clareza nossa capacidade de multiplicarmos os miseráveis, destruirmos cidades e hipotecarmos o que pertence ao pobre para a compra de armas, bombas, multiplicadores do sofrimento. O dinheiro da guerra é feito com pele dos inocentes e impresso com tinta produzida com sangue das vítimas. Esse dinheiro é usado no comércio onde se rouba a infância da criança, os ideais da juventude, o encanto materno da mulher, e a força paterna do homem.

Para finalizar: não há alegria maior do que aquela que brota em nós ao vermos alguém feliz porque recebeu de nós um pão, um copo de água, uma veste, uma palavra de carinho. Há maior alegria em dar do que em receber (At 20,35). O mesmo Deus que tudo colocou a nosso serviço se reveste dos pobres do mundo e neles quer ser reconhecido.


Pe. José Artulino Besen

 

  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 3 de setembro de 2017 - 12:52

    Obrigado por mais estes ensinamentos, Padre José! Aprendemos muito com o senhor. Vamos compartilhar o artigo com nossos amigos de facebook!

  2. #2 por Carlos Martendal em 4 de setembro de 2017 - 14:43

    Prezado Pe. José,

    Belíssima e muito oportuna sua reflexão: parabéns!

    Peço-lhe a bênção e envio fraterno abraço.

    Carlos Martendal

  3. #3 por Joao e Leda Vendruscolo em 4 de setembro de 2017 - 15:44

    Muito boa reflexão e com base na Sagrada Escritura! Boa tarde! Diác. JFV

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