SANTA PAULINA OU O RETORNO À CANCEROSA

Santa Paulina, em 1940, nos 50 anos em que deixou a casa paterna. Devido à diabete, estava cega e tinha um braço amputado.

Às 5:50h de nove de julho de 1942, aos 77 anos, Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus ingressava na Pátria eterna. Suas últimas palavras: “Misericórdia! Misericórdia!”. Terminava uma aventura espiritual iniciada em Vígolo, Nova Trento no distante ano de 1890: naquele ano, Amábile Visintainer e Virgínia Nicolodi recolheram a cancerosa Ângela Lúcia Viviani e dela cuidaram até a morte.

Com o passar dos dias, meses e anos, mais jovens se juntaram ao ideal de Amábile para cuidar dos doentes, das crianças, dos pobres, dos índios, das missões. Surgia um novo instituto religioso no qual Amábile assumiu como nome e projeto de santificação Paulina do Coração Agonizante de Jesus. Unia, em seu nome, o ardor missionário do apóstolo Paulo e a sede de almas do Coração agonizante de Jesus. Como suas contemporâneas Teresinha de Lisieux, Gema Galgani e Elizabeth da Trindade ela escutava no mais profundo do seu ser o grito de Jesus crucificado: “Tenho sede!”. Estas mulheres santas entenderam que o Senhor não pedia água, pois a sede que sofria era a de almas, de salvar pessoas. No longo caminho de sua existência, de seu calvário físico e moral, Paulina não permitia que escorresse em vão o sangue do lado direito de Jesus: recolhia-o para reanimar as almas enfraquecidas pelo pecado, pela miséria social e religiosa, pelo abandono familiar.

Ao lado de Maria, aos pés da Cruz, decidiu assumir em sua vida uma mais sublime maternidade: a espiritual. Na simplicidade da imigrante que mal falava o português e do italiano conhecia o dialeto trentino, tornou-se mãe de muitos filhos e filhas que trouxe para a acolhedora casa dos cristãos. As jovens que a seguiam não eram cativadas por algum discurso envolvente ou para encaminhar obras vistosas: com ela aprendiam a ouvir o grito de Jesus “Tenho sede!”, e com ela também desposavam a maternidade espiritual após se revestirem da veste e do anel de esposa do Senhor.

Casebre onde Paulina cuidou da cancerosa

As palavras últimas de sua existência, seu testamento, “misericórdia! misericórdia!” coroaram seu programa de vida cristã: ter compaixão, compartilhar com Maria o sofrimento de tantos filhos em cujo rosto viu estampado o rosto do Senhor. Como todos os santos e santas, Paulina sabia que por melhores que sejamos, por mais obras meritórias que realizemos, seremos sempre mendicantes da misericórdia divina. Não há merecimento: tudo é graça! Ela, cuja vida foi misericórdia, ingressa na eternidade balbuciando suavemente o grande e único necessário cântico da criação: “Misericórdia!” Ao escutá-lo, a majestade divina se reveste de glória e convida: “Vinde!”, não para ver, mas para compartilhar a eterna felicidade.

A verdadeira devoção à Madre Paulina pode ser expressa no “retorno à cancerosa”: uma mulher pobre, abandonada na dor do câncer, foi o desafio à santidade daquelas jovens de Vígolo, que uniram a caridade à missão e à misericórdia.

Em 19 de maio de 2002, a Igreja deu à Madre Paulina o título de Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus. Não para que façamos dela uma fazedora de milagres, um pronto socorro de preguiça espiritual, nem para viver da herança da santidade dela, esquecendo-se de que cada um de nós deve ser santo e aplacar a sede do Senhor. Fazer o mesmo caminho: partir da cancerosa de Vígolo e trilhar a via única da misericórdia.


Pe. José Artulino Besen

 

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  1. #1 por Joao e Leda Vendruscolo em 10 de julho de 2017 - 12:04

    Obrigado por trazer lembrança de nossa Santa Paulina!

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