O PAPA DA PAZ NO EGITO DA PAZ

Papa Francisco e o Papa Copto Tawados II

O grande Imam de Al Azhar, xeque Muhammad Ahmed al-Tayyeb, convocou a Conferência Internacional pela Paz, no Cairo. Como participantes, convidou os líderes das principais religiões do Oriente Médio: os Islamitas sunitas, cristãos católicos romanos, coptas ortodoxos, coptas católicos e luteranos. Há poucos anos, seria inimaginável que uma autoridade muçulmana promovesse uma conferência com cristãos e também que religiosos fossem convidados para um encontro internacional pela paz.

Mas, os acontecimentos históricos inspiram novos caminhos e, nesse caso, o único caminho possível: a paz. O terrorismo de matriz religiosa hoje se revela em toda a sua crueza e escândalo: como matar em nome de Deus e como querer a paz destruindo pessoas? Matar em nome de Deus é blasfêmia, e nada mais incoerente. Deste modo, está nas mãos dos religiosos, dos crentes, a chave da promoção da paz.

Papa Francisco foi convidado e aceitou estar presente e, mesmo nos recentes atentados contra igrejas no Egito, permaneceu firme e sentiu mais ainda necessária sua presença, sem medo, e rejeitando carros blindados.

Nos dias 28 e 29 de abril, Francisco esteve no Egito, e se encontrou com o Presidente Al Sisi, com  Al Tayyeb, maior autoridade do Islã sunita e reitor da Universidade Al Azhar, com Tawadros II, Papa dos cristãos coptas, Bartolomeu I,  Patriarca de Constantinopla, Ibrahim Isaac, Patriarca dos coptas católicos, Pastor luterano Olaf Tveit, secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas. Uma viagem apostólica sob o signo da unidade, amizade e respeito.

Sua 18ª. viagem internacional foi marcada por alto conteúdo pastoral (para a pequena comunidade católica egípcia), ecumênico (para os ortodoxos coptas e evangélicos), inter-religioso (para os muçulmanos) e também geopolítico (no coração de focos do terrorismo do Isis).

Viagem de unidade e fraternidade

Na mensagem que enviou ao país, Francisco descreve o Egito como “berço de civilização, dom do Nilo, terra de sol e hospitalidade, onde viveram Patriarcas e Profetas, e onde Deus, Clemente e Misericordioso, Todo poderoso e Único, fez ressoar sua voz”.

Destacou sua alegria em ir “como amigo, como mensageiro de paz e como peregrino ao país que, há dois mil anos, deu refúgio e hospitalidade à Sagrada Família, que fugia das ameaças do rei Herodes”. “Sinto-me honrado de visitar a terra em que habitou a Sagrada Família”, falou.

Terminou sua mensagem com seu costumeiro pedido: “Rezai por mim”.

A viagem estava no programa de Francisco mas, um acontecimento deu um tom mais forte: no Domingo de Ramos (9-04), dois ataques terroristas atingiram a comunidade cristã copta em plena Liturgia, em Alexandria e Tanta, matando 47 cristãos. A dor não se transformou em revolta, porque a Igreja Copta tem 2.000 anos de história de fé, de fidelidade, de martírio. Fundado pelo evangelista Marcos, o Patriarcado de Alexandria sofreu a perseguição do Império Romano e Bizantino. Em 639, o Egito foi conquistado pelos árabes Islamitas, que impuseram aos cristãos uma situação de inferioridade, mas não os dominaram. Em 969, os fatímidas conquistaram o Egito e fundaram o Cairo. Mais 500 anos, e veio o domínio turco, que durou até o século XIX.

Foram séculos difíceis, mas séculos de fidelidade da Igreja Copta, que conservou sua teologia, os mosteiros no deserto, sua força milenar de resistir firmes na fé, sua língua que remonta aos faraós.

Os coptas rejeitam ser tratados como necessitados de proteção, pois estão fortes pela fé no Senhor. Apesar de todas as provações, eles constituem 10% da população de 94 milhões de habitantes, o que significa quase 10 milhões de cristãos coptas. Os cristãos coptas católicos no Egito são uma minoria e seu número mal alcança 300.000 fiéis.

Francisco abraça o grande Imam de Al Azhar, Al Tayyeb

Em sua visita de cortesia ao Grande Imam di Al-Azhar, Papa Francisco proferiu palavras simples e densas:

“A violência é, verdadeiramente, a negação de qualquer autêntica religiosidade. Por isso, somente a paz é santa e nenhuma violência pode ser perpetrada em nome de Deus porque profanaria seu Nome.

Somos convidados a denunciar as violações contra a dignidade humana e contra os direitos humanos, a revelar as contradições em justificar toda forma de ódio em nome da religião e condená-las como falsificação idolátrica de Deus”. 

Francisco e Tawadros II – 28-04-2017

Francisco dirigiu-se com carinho a Tawadros II, papa copto, manifestando gratidão pela amizade e pela perseverança heroica de sua igreja nas vicissitudes históricas, na santidade que floresce em seus mosteiros, na sua grande liturgia:

Santidade, querido Irmão:

“O amadurecimento de nosso caminho ecumênico está sustentado, em modo misterioso e sempre atual, também por um verdadeiro e próprio ecumenismo de sangue. Caríssimo Irmão, assim como é única a Jerusalém celeste, único é o nosso martirológio, e vossos sofrimentos são também os nossos sofrimentos, e seu sangue inocente nos une”.

Trinta mil pessoas participaram da celebração da Eucaristia no Estádio: coptas, católicos, muçulmanos que ouviram do Papa essas palavras fortes: “O único extremismo permitido é o da caridade”.

Durou menos de trinta horas essa visita essencial do Papa da paz no Egito da paz, mas deixou uma indicação em três campos: o político, para denunciar as guerras e o terrorismo que há muito tempo devastam essa área do mundo; a busca obstinada do diálogo com o Islã, contra a instrumentalização da religião, repetindo o não à violência; o caminho ecumênico que avança mesmo na trágica e dolorosa perseguição, e do martírio de tantos cristãos sem distinções confessionais da parte do fanatismo dos fundamentalistas. 

Francisco e Tawadros II assinam declaração conjunta – 28-04-2017

El Tayyeb, a maior autoridade do Islã sunita definiu Francisco de modo respeitoso e amigo: “é um homem de paz, um homem que segue o ensinamento do cristianismo, que é uma religião de amor e de paz. Acompanhando Sua Santidade, vimos que é um homem que respeita as outras religiões e demonstra consideração por seus seguidores; é um homem que consagra também sua vida para servir os pobres e os miseráveis e que assume responsabilidade pelas pessoas em geral; é um homem ascético, que renunciou aos prazeres passageiros da vida mundana. Todas essas qualidades nos deixaram desejosos de encontrar esse homem para juntos trabalharmos pela humanidade desse vasto campo comum”.

Ao menos nesse dia, no Egito os cristãos e muçulmanos mostraram-se capazes de falar em mais vozes, mas com um só coração e uma só alma.


 Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Laerte Tavares. em 30 de abril de 2017 - 13:18

    Padre Besen, essa viagem
    Além de histórica, é
    Uma apologia à fé
    Sem senão e sem imagem

    Distorcida. Na linguagem
    De Jesus de Nazaré
    Seria amor, e paz é
    À luz da aprendizagem.

    A que veio e ao que faz,
    Francisco é um contumaz
    Pregador da tolerância.

    Esse Papa é capaz.
    Contribuiu para a paz
    Já ao encurtar distância.

    Parabéns pelo belíssimo e inteligente texto. Meu abraço fraterno. E deixo meus versinhos. Laerte.

    • #2 por José Artulino Besen em 3 de maio de 2017 - 08:30

      Caro Laerte, muito grato por seu incentivo, sempre generoso e agora formando um poema. Um abraço

  2. #3 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 30 de abril de 2017 - 14:10

    Padre José, parabéns por mais este esclarecedor artigo. Tomei a liberdade de o compartilhar com os amigos do facebook.

  3. #4 por Joao Flavio em 30 de abril de 2017 - 15:01

    Muito boas as informações sobre esse grande Evento em favor da humanidade! Acho mesmo que só a promoção da paz é que vai unir a todos! Aplauso a esses corajosos líderes! Diác. João Flávio

  4. #5 por Luiz Carlos Konescki em 1 de maio de 2017 - 10:27

    Papa Francisco o mensageiro da PAZ: “Deixo-vos a paz; a minha paz vos dou. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não permitais que vosso coração se preocupe, nem vos deixeis amedrontar.” (Jo 14,17)

  5. #6 por Rodrigo José Hoffmann em 1 de maio de 2017 - 19:03

    Boa Noite Padre José.
    Obrigado por nos trazer essas informações importantíssima dá atuação do nosso amado Papa perante as outras religiões, e saber que, como ele está sendo respeitado pelas religiões irmãs. É um verdadeiro Líder.
    Vielen Dank Priester.

    • #7 por José Artulino Besen em 3 de maio de 2017 - 08:42

      Rodrigo, Francisco é fascinado pelo diálogo verdadeiro, respeitoso e fraterno, fruto do amor. A arrogância afasta, a humildade congrega.

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