MONSENHOR OTÁVIO DE LORENZI

Monsenhor Otávio de Lorenzi

Otávio nasceu em Orleans, Santa Catarina, em 14 de maio de 1931, filho de Antônio de Lorenzi Dinon e Catarina Pilon, numa família de 12 irmãos.

Na década de 1950, os pais se mudaram para a comunidade de Taquaruçu de Cima, Município de Fraiburgo, SC. Com essa migração dos pais, Otávio ingressava na Diocese de Lages, no Planalto catarinense, no novo mundo cultural e religioso do serrano.

Um professor primário despertou nele a vocação sacerdotal e aconselhou-o a ir para o Seminário. E assim, dirigiu-se para o Pré-Seminário de São Ludgero, onde permaneceu em 1946 e 1947. Educado numa família humilde e pobre onde a língua diária era um dialeto italiano, teve dificuldade nos estudos. Em suas primeiras férias trouxe para os pais a grande notícia de que estava estudando a língua portuguesa.

Terminando o curso preliminar, foi encaminhado para o Seminário Menor Metropolitano de Azambuja, em Brusque, onde cursou o Ginásio e o Clássico, dos anos 1948 a 1952. Ao final desse último ano, recebeu a batina. Indo para casa, foi recebido com muita festa e tiros, motivo que foi de orgulho para a pequena comunidade de Taquaruçu de Cima, no município de Fraiburgo.

Em 1953-1954, iniciou os estudos filosóficos no Seminário Central São Leopoldo, Rio Grande do Sul, junto aos padres jesuítas, que primavam pela disciplina e pela exigência nos estudos. Em 1955, os seminaristas catarinenses foram transferidos para o recém-inaugurado Seminário Maior Nossa Senhora da Conceição de Viamão, perto de Porto Alegre. Ali concluiu o curso de filosofia e de 1959 a 1961 completou os estudos teológicos. Estava pronto para os passos decisivos em sua vocação ao sacerdócio.

Costume na época, no final do 3º ano do curso de Teologia foi ordenado Diácono pelo Bispo de Lages, Dom Daniel Hostin, em 11 de dezembro de 1960. Na semana seguinte, em 17 de dezembro de 1960, em Curitibanos foi ordenado padre pela imposição das mãos de Dom Afonso Niehues, bispo coadjutor de Lages.

Pe. Otávio retornou ao Seminário de Viamão para concluir a Teologia e treinar na prática pastoral.

A vida generosamente doada aos outros

A imensa Diocese de Lages, criada em 1927, com suas distâncias, comunicações difíceis, numerosas comunidades de caboclos, pequenas, pobres e extremamente piedosas, sofria com a carência de padres. Onde formar o clero diocesano? Em 1944, em Bom Retiro começou o Pré–Seminário São Norberto, e os seminaristas eram enviados para Azambuja, em Brusque para os estudos ginasiais e clássicos. Em 1946, foi transferido para Lages e, em 4 de março de 1950, foi inaugurado o prédio atual, o Instituto São João Batista Vianney. Mas, construir um edifício não seria o mais difícil, pois o real desafio era ter uma preparada equipe de padres formadores e professores. Frente a essa carência, Dom Daniel aceitou padres estrangeiros ou de outras dioceses, mas que apresentavam dificuldade na inserção cultural e religiosa. Quando Dom Afonso Niehues assumiu em 1959 como Bispo coadjutor, foi-lhe entregue a missão de conduzir o Seminário. Ele possuía experiência, pois tinha sido reitor do Seminário de Azambuja por mais de uma década.

E foi para o Seminário a indicação pastoral para o Pe. Otávio de Lorenzi, jovem sacerdote cheio de ânimo e entusiasmo sacerdotal. Entre os anos de 1961 e 1969 ali consagrou suas forças, sendo professor e prefeito de disciplina a partir de 8 de fevereiro de 1963. Era verdadeiro desafio disciplinar dezenas de crianças e adolescentes num estilo de vida quase germânico.

Pe. Otávio não se restringiu ao Seminário. Pleno de vivacidade e energia, foi-lhe permitido acumular a missão de professor e formador com a de vigário, especialmente nos finais de semana. Em 9 de fevereiro de 1962, foi nomeado vigário paroquial de São Pedro Apóstolo em São José do Cerrito. E, de 7 de julho de 1968 a 2 de fevereiro de 1969, vigário paroquial de Nossa Senhora Mãe dos Homens, Urubici, grande e importante paróquia, celeiro de vocações sacerdotais e religiosas.

Igreja Matriz de São Joaquim

Após oito anos no Seminário de Lages, em 1969 Dom Daniel o encarregou do trabalho de recrutamento vocacional em São Joaquim.  Padre cheio de bom humor, de relacionamento imediato com famílias, crianças e jovens, recebia o trabalho certo e, de 26 de maio de 1969 a 1983 foi vigário paroquial de São Joaquim, em São Joaquim da Costa da Serra, auxiliando o Padre Blévio Oselame, que lá se encontrava desde 1957, e ali ainda se encontra 60 anos depois. Foram sempre grandes amigos.

A década de 1970, período após o Concílio do Vaticano II, foi tempo de desafios, novas experiências, crises vocacionais e sacerdotais. Os padres recém-ordenados receberam a formação intelectual e pastoral no Seminário de Viamão, onde ferviam desejos de mudança, crises na imagem do padre, expectativas de celibato opcional.

O Seminário de Lages abriu as portas para receber também alunos externos, de modo a estarem nas mesmas salas de aula moças e rapazes,  num período de desabrochar da sexualidade. Tudo isso teve forte repercussão na vida da instituição, para onde tinham sido encaminhados sacerdotes competentes e que viviam a nova realidade eclesial. O Seminário viveu também o sofrimento da desistência desses padres que respondiam pela formação dos seminaristas. Além disso, o episcopado catarinense optou pela fundação de um Teologado próprio em Santa Catarina. Deixando os seminaristas maiores estudarem as ciências humanas e filosóficas em faculdades públicas, no território da própria Diocese, a situação fez-se ainda mais desafiante.

Onde buscar padres que reequilibrassem a nova situação? Um nome despontou como consenso: o Pe. Otávio de Lorenzi, que acumulava em si o entusiasmo sacerdotal, a experiência pastoral, o equilíbrio humano e a energia para disciplinar os seminaristas. Deste modo, de 24 de dezembro de 1977 a 1981, assumiu a missão delicada de reitor do Instituto São João Batista Vianney em Lages, continuando a residir em São Joaquim. A formação filosófica foi transferida para Brusque (SEFISC) e a teológica para Florianópolis (ITESC).

Em 30 de janeiro de 1983, Pe. Otávio assumiu como pároco de São Cristóvão, em Curitibanos. A partir de 1984, esteve provisionado como pároco de São Joaquim.

Em 1994 foi transferido para a paróquia São Sebastião, em Painel, Lages. Em 1997, passou à Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Bom Jardim da Serra, onde trabalhou durante 15 anos, até dezembro de 2013. Depois retornou a São Joaquim, residente e vigário paroquial. Seria sua última casa de pastor e amigo do povo.

Coração humano e sacerdotal

Como era o Pe. Otávio de Lorenzi? Como vivia o ministério presbiteral?

Não é fácil definir uma pessoa, menos ainda um sacerdote.

Mas, algumas imagens são claras e indicativas num homem que exerceu o ministério por 57 anos. Em primeiro lugar, era um homem que expressava felicidade, sempre sorrindo, brincando, acolhendo a cada pessoa. Era conversador nato e deixava todos à vontade. Mesmo um assunto sério nele era ocasião para esportividade. Em segundo lugar, era um padre realizado, vivia a consagração ao povo e à Igreja com dedicação e fidelidade. Os dramas e as crises não o abatiam. Também foi marcante em Pe. Otávio a inculturação radical: filho de uma colônia de migrantes italianos do Sul, tornou-se um homem da serra catarinense, um caboclo entre os caboclos, feliz e humilde como o homem serrano, sentindo-se bem entre ricos e pobres. Padre piedoso, foi pobre e amigo dos pobres. Não se apegava a bens materiais, colocando tudo à disposição de quem o procurava.

Padre sempre acolhedor, a casa paroquial era casa do povo, onde escutava, auxiliava e aconselhava a gente humilde que não receava procurá-lo. Nunca quis ser um burocrata clerical. Era o irmão mais velho de todos.

Muito belo o testemunho dado em 23 de dezembro de 2012 por Eráclio Pereira, professor universitário e amigo:

E assim é o Monsenhor Otávio: um ser humano que nunca mediu esforços para fazer o que estava ao seu alcance pelo povo de Bom Jardim (nada dos seus bens era seu, tudo era colocado em comum, e por inúmeras vezes ele incluía o próprio salário em favor das causas sociais), e de muitos outros locais que para cá acorriam em busca de uma benção, de uma oração de cura interior, ou simplesmente pelo prazer que sentiam em tomar um cafezinho e ouvir as sábias palavras deste jovial e aguerrido conselheiro espiritual”.

Ao festejar o Jubileu de Ouro sacerdotal, em 17 de dezembro de 2010, recebeu o honroso e não procurado título de Monsenhor. Era o Monsenhor Otávio de Lorenzi.

Na luz da ressurreição.

Pe. Otávio gozou de saúde para cumprir suas obrigações. Mas, num dia a doença o visitou. E assim foram comunicadas suas últimas horas, sua última Semana Santa:

Monsenhor Otávio de Lorenzi estava internado desde esta última segunda-feira no hospital Sagrado Coração de Jesus, onde curava um câncer de próstata. Porém, com a idade avançada de 85 anos, sofreu ainda uma infecção urinária que logo evoluiu para uma septicemia (infecção generalizada) e na manhã deste Domingo de Páscoa sofreu uma embolia pulmonar, sendo necessária a transferência imediata para o Hospital Nossa Senhora dos Prazeres, em Lages. E ali Deus o buscou para a ressurreição final, por volta das 15h35 da Páscoa da Ressurreição, 16 de abril de 2017”.

O corpo foi transferido para São Joaquim e o velório teve início às 19hs na Igreja Matriz.

A Missa de encomendação e despedida foi às 14hs da segunda-feira, presidida por Dom Nelson Westrupp, administrador apostólico, com grande presença de povo e de padres. Por motivo sério de saúde, esteve impossibilitado de estar presente Dom Oneres Marchiori, amigo de décadas e Bispo emérito de Lages; Dom Oneres celebraria no dia seguinte os 40 anos de episcopado e necessitava se poupar para a cerimônia.

Logo após a Missa, o féretro seguiu para o cemitério do Morro da Cruz, onde foi sepultado ao lado do túmulo do Padre João Batista Viécelli, antigo pároco de São Joaquim.

Pe. Carlos Pamplona, do clero lageano, passou-me essa comovente informação:

Sentado ao lado do caixão, aos 92 anos, estava Monsenhor Blévio Oselame, com quem Monsenhor Otávio conviveu por 42 anos. Mons. Blévio testemunhou que nesses anos todos, eles jamais discutiram ou brigaram, pois “haviam feito um ‘pacto’ de se confessarem um ao outro quinzenalmente, e assim o fizeram até o seu último suspiro“.

Monsenhor Otávio de Lorenzi viveu 85 anos e foi padre durante 57.


Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Joao Flavio em 19 de abril de 2017 - 12:49

    Que bom! Mais um catarinense retornando ao Estado!

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