OS PROTOMÁRTIRES DO BRASIL – SERÃO CANONIZADOS

Prot – Forte dos Reis Magos, onde se refugiaram os Mártires de Uruaçu

São estes os sentimentos que invadem o nosso coração, ao evocarmos a significativa lembrança da celebração dos 500 Anos da Evangelização do Brasil, que acontece neste ano. Naquele imenso País, não foram poucas as dificuldades de implantação do Evangelho. A presença da Igreja foi-se afirmando lentamente, mediante a obra missionária de várias Ordens e Congregações religiosas e de Sacerdotes do clero diocesano. Os mártires que hoje são beatificados saíram, no fim do século XVII, das comunidades de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte. André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro, Presbíteros, e 28 Companheiros leigos pertencem a essa geração de mártires que regou o solo pátrio, tornando-o fértil para a geração dos novos cristãos. Eles são as primícias do trabalho missionário, os Protomártires do Brasil. A um deles, Mateus Moreira, estando ainda vivo, foi-lhe arrancado o coração pelas costas, mas ele ainda teve forças para proclamar a sua fé na Eucaristia, dizendo: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”.

Hoje, uma vez mais, ressoam aquelas palavras de Cristo, evocadas no Evangelho: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10, 28). O sangue de católicos indefesos, muitos deles anônimos crianças, velhos e famílias inteiras servirá de estímulo para fortalecer a fé das novas gerações de brasileiros, lembrando sobretudo o valor da família como autêntica e insubstituível formadora da fé e geradora de valores morais. (HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II – NA MISSA DE BEATIFICAÇÃO DOS PROTOMÁRTIRES DO BRASIL – Domingo, 5 de Março de 2000).

OS MÁRTIRES DE CUNHAÚ E URUAÇU

Prot – Mateus Moreira, mártir de Cunhaú

No dia 5 de março de 2000, João Paulo II beatificou os Protomártires do Brasil, ou seja, os primeiros católicos de nossa Pátria a serem reconhecidos pela Igreja como mártires, por terem derramado seu sangue em defesa da Fé. Trata-se de um grupo 30 pessoas (as que foram identificadas, num total de cerca de 150), entre homens, mulheres e crianças, vítimas da sanha de holandeses calvinistas que ocupavam o Nordeste, auxiliados por índios canibais. O massacre ocorreu nas localidades de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte. Entre os mártires, há dois sacerdotes: Ambrósio Francisco Ferro e André Soveral. Vinte e sete são brasileiros natos, um português, um espanhol e um francês.

Foram dois acontecimentos[1] que marcaram profundamente a vida religiosa dos habitantes do Rio Grande do Norte, na primeira metade do século XVII, há apenas 48 anos do início da evangelização da então Capitania do Rio Grande.

Durante a ocupação holandesa, a partir do ano de 1633, a Igreja no Rio Grande, implantada pelo trabalho missionário dos jesuítas e estruturada em duas paróquias, a de Natal e a de Cunhaú, passou por um período de crise causada pela presença de autoridades hostis à Igreja e pelo proselitismo dos pastores calvinistas. Com o tempo, esta situação redundou numa verdadeira perseguição religiosa, que culminou com os morticínios nas localidades de Cunhaú e Uruaçu, onde morreram, presumivelmente como mártires da fé, cerca de 150 pessoas.

O primeiro massacre ocorreu no dia 16 de julho de 1645, em Cunhaú, a 80 quilômetros de Natal, onde havia um engenho de cana de açúcar e uma capela.

Era um domingo, e os fiéis, para cumprir o preceito dominical, se reuniram na Capela de Nossa Senhora das Candeias sob a presidência do pároco, Pe. André de Soveral. Eram aproximadamente 69 pessoas. Na véspera, tinha chegado a Cunhaú um emissário do governo holandês de Recife, trazendo mensagens assustadoras para os moradores do lugar.

Durante a celebração da missa, após a elevação, foram trancadas todas as portas e saídas da igreja e imediatamente começou uma chacina generalizada dos fiéis, comandada pelo emissário e realizada por soldados holandeses e índios canibais. Foram cenas de grande atrocidade com os soldados e índios bem armados atacando de surpresa os indefesos fiéis. O Pe. André foi alvejado com mais crueldade por se tratar de um sacerdote, apesar de ter alertado os algozes a não tocar no ministro de Deus e nos objetos sagrados do altar.

Não houve reação por parte dos fiéis mas, exortados pelo Pe. André que com eles rezava a oração da agonia, “se confessaram ao sumo sacerdote Jesus Cristo”, pedindo perdão de suas culpas.

As disposições dos fiéis à hora da morte eram assim as de verdadeiros mártires, aceitando voluntariamente o sacrifício supremo por amor a Cristo.  Por outro lado, parece não haver dúvidas de que os algozes, como instrumentos de um governo que hostilizava abertamente a Igreja Católica, como aparece de todo o contexto histórico, agiram movidos por ódio à fé católica, o que é atestado por um documento encontrado  em Amsterdã.

Prot – Igreja do martírio em Cunhaú

O impacto causado pelos acontecimentos de Cunhaú sobre os habitantes do Rio Grande foi muito forte. Os moradores de Natal, ­atemorizados pela dupla ameaça dos índios e das forças de ocupação, procuraram lugares seguros para sua defesa. Os moradores mais influentes, um grupo de 12 pessoas, entre os quais o Pe. Ambrósio Francisco Ferro, se refugiaram na Fortaleza dos Reis Magos, em Natal. Outro grupo mais numeroso, 70 pessoas sem contar as crianças e os escravos, construíram um abrigo improvisado mas bem fortificado na localidade de Potengi, a poucos quilômetros de Natal.

No dia 3 de outubro daquele mesmo ano, as autoridades levaram o grupo da Fortaleza e, em seguida, os moradores de Potengi, para um lugar que haviam determinado às margens do Rio Uruaçu.

Foram cenas de grande dramaticidade, quando 200 índios bem armados, comandados por um fanático chefe indígena convertido ao calvinismo e mais uma tropa de soldados flamengos caíram sobre os assustados moradores do Rio Grande, matando a todos com requintes de perversidade e selvageria que os cronistas registraram em seu relatos: a uns cortaram os braços e as pernas; a outros degolaram; a outros arrancaram os olhos, as línguas, narizes e orelhas; aos já mortos despedaçaram-nos em pequenas partes. Ao jovem Mateus Moreira foi arrancado o coração pelas costas e este morreu exclamando: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”.

A atitude resignada dos fiéis ao suportar tantos suplícios, confissões explícitas de fé como a de Mateus Moreira, orações e penitências feitas pelos moradores momentos antes do martírio, são sinais mais do que evidentes de que, do ponto de vista das vítimas, foram preenchidos todos os requisitos teológicos para o martírio.

Da parte dos algozes, constatam-se também todos os elementos que caracterizam um verdadeiro martírio: o ódio explícito à fé católica do chefe indígena convertido ao calvinismo, a presença na cena do martírio de um “predicante” reformado tentando demover os Servos de Deus de sua firme adesão à fé católica, e todo o clima de hostilidade em relação à Igreja por parte das autoridades. Tudo isto caracteriza, sem sombra de dúvida, o ‘odium fidei’ – ódio à fé católica – dos autores da chacina.

Estes acontecimentos permaneceram vivos na memória do povo cristão que venera, com respeito e grande devoção, os seus mártires, confirmando o que já dizia Tertuliano: “O sangue dos mártires é semente de novos cristãos”.

O processo de Beatificação, promovido pela Arquidiocese de Natal desde 1988 só se tornou possível graças a esta fama de santidade que perdura através dos séculos. Todos sentiam que era necessário propor à Igreja o reconhecimento oficial do martírio e da santidade destes Servos de Deus, o que aconteceu solenemente no Jubileu do ano 2000 na Celebração dos Mártires presidida pelo papa São João Paulo II.

Alguém perguntaria: se foram tantos os mortos nas duas chacinas, por que somente 27 foram beatificados? O motivo é da prática eclesial: a beatificação tem de se referir a pessoas concretas, ou a um coletivo: João e sua esposa, Maria e seus dois filhos, Mateus e seus sete amigos. Com esse critério, são bem-aventurados os dois sacerdotes e 27 leigos.

Prot – Os Mártires de Cunhaú e Uruaçu

Foi motivo de grande alegria para a Igreja no Brasil o anúncio, feito pelo papa Francisco, em 23 de março de 2017, aprovando um milagre obtido pela intercessão desses beatos mártires. Deste modo, apenas falta marcar a data da celebração de canonização dos Protomártires do Brasil, e poderemos invocar os Santos André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro, Mateus Moreira e 27 companheiros mártires: 27  brasileiros natos, um português, um espanhol. Padres, homens e mulheres e jovens e crianças ofereceram suas vidas, com seu sangue fecundando o solo brasileiro em 1645, unindo o amor a Cristo ao amor da pátria.

Pe. José Artulino Besen


Notas:

[1] Pereira, Monsenhor Francisco de Assis. Protomártires do Brasil – Cunhaú e Uruaçu RN. Natal RN,1999. O autor foi o promotor da Causa de Beatificação e descobriu nos Arquivos holandeses a prova que faltava do martírio “in odium fidei”, isso é, martírio por causa da fé católica.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: