QUARESMA – PRIMAVERA DO ESPÍRITO

O fim do inverno oferece um retrato amortecido da natureza, poucas cores, pouca vida. Já a primavera nos surpreende com a natureza viva, alegre, os troncos quase secos brotando. Pouco a pouco as flores se abrem revelando segredos escondidos no inverno. Insetos, aves, carregam o pólen que fecunda as flores. Tudo revela a força e a beleza da vida.

Assim podemos comparar a Quaresma: as rotinas, o amortecimento espiritual, os resíduos do pecado cedem lugar à primavera. O jejum, a esmola e a oração despertam o espírito, fazem a vida brotar e sentimos o crescimento da felicidade, a vida de fé fortalecida pela vitória sobre as tentações. Vamos crescendo até a explosão do Aleluia da Páscoa.

Gostaria de oferecer a você, leitor, três pequenas reflexões, cujo conteúdo é oferecido pelo papa Francisco em suas homilias matinais na Casa Santa Marta. Propõe gestos muito simples, mas importantes. Nossa vida é construída sobre o fundamento da humildade, do silêncio, da oração silenciosa, de encontros simples com pessoas simples. Tudo na mansidão e na humildade.

Com todos, ser o bom pastor             

Dentro e fora da Igreja há comentaristas julgando que Francisco esteja facilitando a vida dos casados e dos recasados mas, na verdade, ele quer matrimônios mais bem preparados, leigos mais conscientes de que o sacramento é símbolo da união de Cristo com sua Igreja. Uma visão intransigente da vida matrimonial terminará por reduzir a Igreja a uma ilha, separada do restante da sociedade. Todos devem ser objeto da ação misericordiosa da Igreja.

Num encontro com sacerdotes, pediu: “Fazei-vos próximos, com o estilo próprio do Evangelho, no encontro e na acolhida dos jovens que preferem conviver sem se casar. No plano espiritual e moral, eles estão entre os pobres e os pequenos aos quais a Igreja, nas pegadas de seu mestre e Senhor, quer ser mãe que não abandona, mas que se avizinha e cuida. Também essas pessoas são amadas pelo coração de Cristo. Dirijam-lhes um olhar de ternura e de compaixão. O cuidado por estes últimos, porque emana do Evangelho, é parte essencial da obra de promoção e defesa do sacramento do matrimônio. De fato, a paróquia é o lugar por antonomásia da ‘salus animarum’, da salvação das almas”.

O verdadeiro jejum

Em 3 de março, celebrando em Santa Marta, para motivar a conversão quaresmal, Francisco repreende a falsa religiosidade dos hipócritas que jejuam enquanto cuidam de seus negócios, oprimem os operários, de um lado fazem penitência e de outro, realizam negócios “sujos” praticando injustiças: “o Senhor pede um jejum verdadeiro, que leva em conta o próximo. O jejum hipócrita é para ser visto pelos outros, sentir-se um justo ao mesmo tempo que comete injustiças, explora o povo”.

“Não adianta dizer ‘mas eu sou generoso, darei à Igreja uma bela oferta’, prossegue o Papa: ‘responde-me, pagas o justo à tua doméstica?, pagas o que manda a lei sem sonegar direitos?’”

O verdadeiro jejum é “quebrar as cadeias iníquas, libertar os oprimidos e romper todo jugo. É dividir o pão com o faminto, introduzir em casa os miseráveis, sem teto, vestir aquele que encontras nu, ao mesmo tempo que cuidas de teus familiares”. Isso Deus quer, esse é o jejum que ele quer.

Dê sem preocupação

Nós moradores das cidades recebemos de Francisco uma lição  muito útil para lidar com os mendigos que diariamente estão diante de nós pedindo alguma esmola. E a resposta foi dada numa entrevista que concedeu a um jornalzinho de moradores de rua de Milão. O conselho: “dêem dinheiro, e não se preocupem com isso”. É isso: “dê-lhes a esmola, e não se preocupe com isso”.

Nossa primeira atitude é olhar o mendigo de alto a baixo, traçar um diagnóstico, avaliar sua saúde mental, antecedentes criminais. Num segundo ou dois, dominamos o pedinte com nosso olhar.

Talvez nos interroguemos: e se esse dinheiro for para comprar cachaça? Responde o Papa: “se um gole de cachaça é a única felicidade que ele tem na vida, por que não lhe dar essa felicidade?”

Dar algo a alguém em necessidade é sempre certo. Um bom modo de olhar para o mendigo, disse ele, é reconhecer como somos mais afortunados, com lar, esposa e filhos. Para não pensarmos que Francisco facilita tudo, apresenta-nos um desafio maior: o modo de dar é tão importante quanto o que se dá. Você não deve simplesmente deixar cair uma moeda em um copo e ir embora. Você deve parar, olhar a pessoa nos olhos e tocar suas mãos.

A razão é preservar a dignidade, ver a outra pessoa não como uma patologia ou condição social, mas como um ser humano, com uma vida cujo valor é igual ao seu.

Gestos e atitudes simples, mas que indicam o surgimento da primavera espiritual.

Pe. José Artulino Besen

 

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  1. #1 por Ariel Philippi Machado em 7 de março de 2017 - 13:16

    Pe José, quanta alegria!
    Sempre bom ler as suas palavras, recordando as motivações evangélicas do cuidado com o ser humano.
    Fico apreensivo para ler novas linhas com as inspirações que as últimas do seu texto despertam: “o modo de dar é tão importante quanto o que se dá”.
    Obrigado por mediar um caminho quaresmal com estas reflexões.
    Abraços.
    Ariél.

  2. #2 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 7 de março de 2017 - 14:22

    Pe. José, obrigado pelo texto sobre a Quaresma. Estou compartilhando com os amigos de facebook.

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